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O SR.
PRESIDENTE (Asdrubal Bentes.
PMDB – PA) – Declaro aberta a 9ª Reunião da Sub-Relatoria de Contratos da CPMI,
criada através do Requerimento nº 3, de 2005, para investigar as causas e
conseqüências de denúncias e atos delituosos praticados por agentes públicos
nos Correios – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
Sobre a mesa, ata da reunião anterior, a qual coloco em
votação, propondo a dispensa da leitura.
As Srªs e os Srs. Senadores que a aprovam permaneçam
sentados. (Pausa.)
Aprovada.
A pauta desta reunião destina-se à oitiva dos Srs. Egydio
Bianchi, ex-Presidente da ECT; Marcus Vinícius di Flora, ex-assessor da Secom;
e Paulo Roberto Kress Moreira, sócio da agência dos Correios franqueada:
Anchieta.
Solicito à assessoria que faça adentrar ao recinto o Sr.
Egydio Bianchi, que vai depor na condição de testemunha e, como tal, já firmou
termo de compromisso. (Pausa.)
Por obséquio, convido o Sr. Egydio Bianchi para prestar os
seus esclarecimentos. (Pausa.)
Sr. Egydio Bianchi, V. Sª foi convidado a prestar
esclarecimentos a esta Comissão como testemunha e, como tal já prestou, o seu
compromisso. Quero alertá-lo para as disposições legais a respeito, porque V.
Sª se comprometeu a dizer a verdade, de maneira que, quando falar, tudo o que
disser será considerado verdadeiro. Se não o for, V. Sª está sujeito às sanções
da lei. Se o desejar, poderá até deixar de responder, mas não poderá deixar de
falar a verdade.
Inicialmente, passo a
palavra a V. Sª, indagando se se faz acompanhar de advogado.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, senhor.
O SR.
PRESIDENTE (Asdrubal Bentes.
PMDB – PA) – Não. Então gostaria que V. Sª fizesse a sua qualificação e
prestasse os esclarecimentos iniciais que julgar convenientes.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srªs e Srs. Parlamentares,
meu nome é Egydio Bianchi, tenho 64 anos, sou formado em Engenharia Industrial
pela Pontifícia Universidade Católica do Estado de São Paulo, fiz extensão
em Economia do Desenvolvimento e em
Economia Política com o Professor Celso Furtado. A minha participação na vida
política brasileira, modestamente, se deu a partir do ano de 1962, ano que
ingressei na universidade e me aproximei do movimento político, denominado Ação
Popular, do qual faziam parte ilustres companheiros, movimento formado por
Betinho, Aldo Arantes, Padre Vaz e outros que seguiram posteriormente. Em São
Paulo: Sérgio Mota, José Serra e outros companheiros.
Tivemos uma ação
durante os anos do golpe de Estado de 1964, até aí uma ação legal, não
clandestina e a partir daí uma ação clandestina, na medida que não era possível
ter um espaço de participação.
Em 1965 abrimos a
galeria dos estudantes presos pela ditadura e tivemos uma experiência de
responder processo perante a Justiça Militar, no Estado de São Paulo, durante
dois anos, mas continuamos na vida universitária. Formei-me engenheiro no ano
de 1965, iniciando a vida profissional, como engenheiro, em 1966.
Sou casado, tenho
três filhos, minha vida profissional remonta a uma época que muitos dos
senhores não tiveram oportunidade de participar. Trabalho com carteira assinada
desde três de setembro de 1954, portanto já estou meio século aí na estrada.
Em especial, na vida
pública, depois de uma série de experiência de vida privada, que é
essencialmente a minha experiência profissional. Tive o primeiro contato com o setor público em São
Paulo, onde fui gerente da Companhia Metropolitana, Metrô de São Paulo, e
posteriormente me tornei membro do conselho de administração dessa empresa.
A partir daí retornei
à área privada e voltei à área pública no Governo Franco Montoro, quando fui Diretor
Administrativo Financeiro da Companhia de Processamentos de Dados do Estado de
Sã Paulo – Prodesp. Posteriormente fui presidente dessa mesma companhia. Retornei,
ao final desse Governo, novamente à minha atividade privada. Nos idos de 1994,
retornei a Brasília e, em 1995, por convite do Ministro Sérgio Motta, assumi a
Secretaria de Fiscalização e Outorgas do Ministério das Comunicações. Prestei
um serviço inicial nessa instituição da administração direta alguns meses,
tão-somente, ajudando a identificar os problemas e a preparar as reformas que
se seguiram.
Logo depois fui assumi a vice-presidência da
Empresa Brasileira Correios e Telégrafos, conhecida pela sigla ECT. A minha
missão era executiva, mais voltada à gestão da empresa internamente, enquanto o
Sr. Presidente se ocupava das obrigações externas e institucionais e das
relações externas não só com o público, mas também com o Governo.
Encontramos essa
empresa em 1995 numa situação bastante crítica, com o seu nível geral de
serviços absolutamente deteriorado, havendo um sintoma fundamental na área de
tecnologia, em que a empresa se apresentava totalmente desatualizada. As suas
tentativas de mecanização e automação estavam obsoletas, quase à nível de ferro
velho. Havia baixos investimentos realizados, que mal supriam a própria
depreciação dos ativos da empresa. Faltavam planos, planejamentos e rumos para
a empresa.
Ela tinha realmente
uma grande indefinição e, sobretudo, uma desmotivação enorme nos seus recursos
humanos, sabidamente o maior patrimônio que esta empresa brasileira tem – seus
recursos humanos altamente profissionalizados e, de quando em vez, agredidos
por esses acontecimentos recentes que todo o País conhece.
Assumimos essa gestão
com plano de ações emergenciais, partindo para uma revisão geral de contratos e
licitações em andamento, o cancelamento de uma licitação da chamada Rede Postal
Noturna, conhecida como RPN, e, logo em seguida, uma revisão imediata da sua
estrutura de funcionamento. Partimos para um programa das condições
operacionais básicas de uma empresa que se apóia drasticamente em meios de
transportes e que estava inteiramente sucateada nessa matéria, em se tratando
de veículos e de todos os meios de locomoção, a começar pelo coração central
desse sistema, que era a Rede Postal Noturna.
Partimos para o
restabelecimento dos processos de fiscalização e controle, uma vez que uma
companhia haveria de ter essas ferramentas nas mãos da direção central, que
acompanhasse as ocorrências no Brasil todo, pois se trata de uma empresa
presente em todos os municípios do Brasil – são 5.500 e alguma coisa, senão me
falha a memória.
O Departamento de
Inspeção, em particular, foi reeditado e recuperado, nos moldes ocorridos nos
correios franceses, com quem os correios brasileiros mantêm um grande
intercâmbio. Implementação de um programa de despesas operacionais e
implementação do programa de recuperação das receitas da empresa.
Os resultados desse
trabalho foram muito interessantes. A empresa aderiu rapidamente a essas
proposições. Mobilizamos um conjunto apreciável de gerentes e assessores, que
realmente se imbuiu desses novos propósitos, e realizamos uma gestão –
perdoem-me a modéstia -, considerada por muitos e por mim mesmo exemplar, do
ponto de vista da condução dos negócios de uma empresa pública dessa
envergadura.
Acho que é digno
notar, nessa fase inicial, uma reestruturação da RPN, um tema que preocupa a
todos do setor público e a todos que se interessam por essa matéria. Levamos à
efeito uma revisão de uma malha, de uma rede de vôos, de tramos, de pedaços que
compunham a rede postal noturna, até então em vigor, que tinha da ordem de 50
linhas operadas por inúmeras companhias regulares e auxiliares.
Essas 50 linhas foram
reduzidas a 28 linhas, num trabalho de racionalização e de otimização dos
recursos da empresa de um modo geral. Tivemos sucesso na racionalização e na
obtenção de resultados e logramos uma redução de custos da bagatela de US$50
milhões, evidentemente à cotação da época. Esse foi um legado que a rede postal
noturna carregou consigo, uma vez que deixou de carregar esse peso, esse fardo
de US$50 milhões, mercê do esforço profundo que se realizou de racionalização
desse trabalho.
Logo em seguida, a
Empresa fez parte de um programa majestoso, amplo, que ficou conhecido pela
sigla amistosa de Past (Programa de Recuperação e Ampliação do Sistema de
Telecomunicações e do Sistema Postal), formulado e conduzido pelo ex-Ministro
Sérgio Motta, que fez questão de incluir a área postal, dando-lhe um relevo e
um destaque, pois, até então, os Governos brasileiros não haviam se dado conta
da importância desse setor. Especialmente notamos que a média de investimento
no setor nos últimos cinco anos que nos precederam era da ordem de 40 ou 45
milhões, alguma coisa assim, não atingia 50 milhões. Então nos lançamos a um
programa que, em oito anos, acenou especificamente para a área postal com quase
R$4 bilhões, R$3,9 bilhões nos anos de 1996 até 2003. Esse programa estruturado
dizia respeito a uma reformulação do parque industrial, mecanização de todo o
sistema de triagem, rastreamento de objetos, mecanização dos terminais de
carga, instalações industriais.
Na rede de
atendimento, automação das agências, mecanismos de auto-atendimento, as caixas
postais comunitárias, um sistema de transporte, reformulação da RPN,
atualização da frota de veículos da empresa, inteiramente sucateada.
Na área de correio
avançado, houve a instalação de uma rede corporativa. Hoje, os Correios têm uma
ligação generalizada de mais de cinco mil agências com todos os seus pontos,
mais de 20 mil postos de trabalho, todos fazendo parte de uma rede integrada
corporativa, os correios híbridos, nas suas diferentes expressões, o programa
de modernização empresarial começando pela capacitação de recursos humanos.
Dentro disso, pode-se ressaltar o esforço para adquirir essa instalação,
outrora, a instalação de treinamento da antiga Telebrás, onde, hoje, funciona a
Universidade dos Correios. Era imperioso desenvolver um programa de capacitação
tecnológica e não haveríamos de mudar a empresa de nível tecnológico sem
proporcionar ao seu corpo de recursos humanos essa mesma atualização exatamente
para manipular e fazer a gestão desses novos recursos que, até então, foram
projetados.
Houve investimentos,
como já mencionei, de um total de 3,9 bilhões, dando, portanto, uma média anual
em torno de R$500 milhões, que eram simplesmente 10 vezes mais o esforço, se
chamarmos isso de esforço, ou a falta de esforço que existia nesse setor. A Empresa,
é evidente, teve de se aparelhar e realmente se instrumentar, para aprender a
fazer investimentos desse porte, 500 milhões, uma vez que vinha, como já disse,
realizando investimentos da ordem de 50 milhões anuais.
Principais projetos
implantados e investimentos realizados.
Posso depois
citá-los, se for de interesse dos Srs. Deputados e Senadores.
De fato, o nível de
cumprimento dessas metas, do ponto de vista dos orçamentos de então, foi da
ordem de 70%. Foram realizados nesse período investimentos de R$2,6 bilhões,
quantia muito expressiva não só pela tradição dos Correios, em matéria de
investimentos que era praticamente zero, mas também pela resposta que o corpo
gerencial deu, saindo atrás do seu adestramento, do seu aperfeiçoamento e
aprendendo realmente a empregar bem os recursos.
Eu queria me referir
aos resultados operacionais da Empresa nesse período em que estivemos à frente
dela. Não me referi totalmente a minha participação no setor postal brasileiro,
quando disse que fui convidado em 1995 para o cargo de vice-Presidente, função
que exerci até 1997, deixei essa diretoria da Empresa na condição de
vice-Presidente Executivo, assumi a Secretaria de Serviços Postais, criada
naquele mesmo ano – 1998 –, e estruturei essa Companhia nos moldes de uma
incipiente agência regulamentar para o setor, e, ali, tive oportunidade de
coordenar também o chamado projeto de reestruturação do Setor Postal
Brasileiro, já como membro, como Secretário de Serviços Postais, tarefa que dei
continuidade em 1999 e parte de 2000, período em que fui Presidente dessa mesma
Companhia, missão que muito me honra.
Houve no período uma
evolução. Tal era o acerto da percepção da equipe que realizou o diagnóstico,
que nós saímos de um tráfego de 4,7 bilhões de objetos processados e entregues
e atingimos, em 1999, a cifra de 7,4 bilhões, o que significa, nesse período,
um incremento do movimento dos Correios da ordem de 60%. Isso demonstra que o
diagnóstico era correto. Havia uma demanda não atendida, mercê do estado de
abandono em que a instituição nesse momento se encontrava.
A qualidade
operacional, que mede exatamente a pontualidade com que os Correios entregam os
objetos, cresceu de 91,9%, em cartas comuns, para 95% em 1999; e o Sedex, que
os senhores talvez prefiram e é um serviço diferenciado, pulou de 97,9% para
99,6% em 1999.
A produtividade, que
é uma medida internacional da ação dos Correios no mundo todo, é avaliada pelo
número de objetos processados dividido pelo corpo funcional, pelo número de
funcionários.
Os Correios, à época
em que eu deixei a companhia, tinham 84 mil funcionários, pelo regime
celetista, portanto empregados de carteira profissional, e 21 mil outros
agregados, contratados pelos mais variados regimes e convênios, envolvendo-se
aí os apenados, os deficientes físicos, os terceirizados, realmente uma massa,
um segmento de mais de 20 mil pessoas, o que fazia com que nós lidássemos – os
Correios – com mais de cem mil famílias no Brasil ou, pelos números
estatísticos, pelo menos com 500 mil pessoas que acabavam, considerando as
famílias, girando em torno desses cem mil agentes do processo postal
brasileiro.
Na parte de
resultados financeiros é bom que se ressalte que a empresa, desde 1984, já não
dependia do Tesouro Nacional, não tinha aporte do Tesouro Nacional e, digamos
assim, sobrevivia com os seus próprios recursos, com as suas próprias
possibilidades. Tinha uma performance econômica e financeira modesta, muito
discreta, ruim em alguns momentos, mas, de qualquer forma, ela não dependia do
Tesouro.
E de lá para cá,
também até o ano em que a deixei, com muita felicidade constato que ela
continua a não depender do Tesouro Nacional, com uma singularidade: ela passou
a dar lucros a partir do primeiro ano de 1995. Apesar de alguns esqueletos,
que, na linguagem de contabilidade, tivemos que baixar a lucros e perdas, ela
teve um lucro operacional. A partir de 1996, ela tem tido lucros sucessivos, a
ponto de, no período de 1994 a 2003, dado que eu obtive pela publicação de
balanços, ela gerou um lucro líquido acumulado de 2,1 bilhões de reais. Pagou
dividendos ao Tesouro Nacional, procedimento do qual também me orgulho, pois
insistimos para que destinássemos recursos do lucro auferido ao nosso
acionista, ao dono das ações, ao dono de capital. Isso não parou de ser feito de
lá para cá até os nossos dias.
Foram pagos ao
Tesouro Nacional dividendos, no período de 1997 a 2003, da ordem de 455
milhões. Os tributos pagos nas diferentes modalidades, nesse mesmo período,
alcançaram a cifra de 2,3 bilhões de reais. Portanto, uma performance
operacional muito satisfatória e seguramente uma performance econômica e
financeira igualmente satisfatória.
Tenho as
demonstrações financeiras, mas são documentos públicos, penso que estão
disponíveis a qualquer...
O SR.
PRESIDENTE (Asdrubal Bentes.
PMDB – PA) – Mas, se V. Sª quiser, poderá encaminhá-las ao Relator.
O SR. EGYDIO BIANCHI –
Pois não, pois não.
Queria me referir aos
balanços da empresa. No final de nossa gestão procuramos dar publicidade a
esses balanços, dar satisfação à sociedade, uma vez que é do conhecimento dos
que militam no setor postal brasileiro a minha posição favorável à
transformação de uma empresa pública em uma empresa pelo regime da sociedade
anônima, de economia mista, atuante, competitiva. Para que isso acontecesse,
cada vez mais, ela deveria dar satisfações à sociedade, dar satisfações ao
mercado, dar satisfações a fornecedores, a todos os agentes desse processo.
Essas demonstrações financeiras, portanto, foram, em sua maioria, publicadas em
veículos de grande circulação, além, é óbvio, das publicações oficiais em Diários
Oficiais.
Para nossa
felicidade, no período 1995 a 1999, todas nossas contas foram aprovadas pelo
Tribunal de Contas da União com ressalvas, com recomendações, como esses
acórdãos demonstram. Há uma exceção: o ano de 1997, quando ouve um
recrudescimento da análise em razão de um processo de recursos humanos e
concursos públicos. Nós, portanto, não tivemos a felicidade de ver a aprovação
também nesse ano. Ao que consta, pelo que me informou a secretaria...Nós temos
uma secretaria nos Correios que só existe para dar satisfação aos organismos de
controle, a todos os organismos de controle. Ela existe ali exatamente para
informar.
Desculpe-me, Sr.
Presidente, Sr. Relator. Meu aparelho telefônico estava extraviado e acabei de
recebê-lo. Ele nos deu esse pequeno trabalho.
Eu dizia que a
empresa, consciente das suas responsabilidades para com a União e para com a
sociedade, mantém, permanentemente, um órgão que dá ciência e mantém todo o
fluxo de comunicação, especialmente com a União, com o Tribunal de Contas e com
outros organismos de controle, Ciset, CGU.
Nós introduzimos
também nos Correios a figura do Conselho Fiscal, embora isso não fosse uma
obrigação legal. Era facultativo, como é facultativa de certa maneira a
existência dele nas próprias sociedades anônimas, que não é a condição dos
Correios. Portanto, mais um organismo a se manifestar especialmente pela
movimentação financeira da empresa.
Conscientes de que os
esforços até então desenvolvidos eram localizados, necessários, porém
localizados e mostraram seus resultados, como acabei de expor agora, nós nos
lançamos a uma tarefa realmente importante de reforma do sistema nacional dos
Correios como um todo. Não se tratava tão-somente de alterar a Lei Postal
atual, ainda hoje em vigor, que disciplina fundamentalmente a ação da Empresa
Brasileira de Correios, quando o setor, no Brasil e em todo o mundo, realmente
não é composto apenas pelo operador público de Correios. Queiramos ou não, com
ou sem lei, com ou sem disposições legais, as atividades dos Correios no mundo
são compostas realmente por vários agentes desse processo. Aquilo que
propúnhamos e aquilo que a lei proposta perseguiu foi uma disciplina geral do
sistema nacional de Correios.
O cenário mundial que
encontramos, uma vez que, a exemplo do que foi feito na área de
telecomunicações, fomos ao mundo saber o estado da arte... Embora os Correios
tenham uma cultura internacional muito intensa, até mesmo pelo tipo de
atividade, fomos a outros países ver o que se fazia em matéria de Correios mais
avançados, Correios que já tinham vencido aquele limite tecnológico no qual
ainda não tínhamos ingressado. Percebemos mutações muito importantes. A União
Postal Universal é a ONU, vamos dizer assim, dessas atividades postais,
proporcionava essa experiência em seminários, em encontros, em congressos
nacionais. Vimos, no mundo todo, clientes mais exigentes, clientes mais
conscientes do atendimento das suas demandas. Havia novas tecnologias em
comunicação acossando todos os dirigentes postais, no sentido de que
procurassem novas formas de atendimento, aumento da competitividade, grande
concorrência entre os agentes desse sistema, uma redução total ou progressiva
dos monopólios, das empresas estatais - a exemplo do que acontecia com os
Correios, tinham, na maioria dos países, as suas posições reduzidas, os
monopólios reduzidos -, e um outro movimento, que acompanha, digamos assim, o
fenômeno da globalização, que era um movimento de internacionalização dos
Correios. Então, havia de se fazer uma reforma que contemplasse, digamos assim,
toda essa efervescência no plano internacional. Não se tratava apenas de fazer
um ajuste racional na atuação da empresa, mas de reconhecer e tentar colocá-la up
to date com tudo que se fazia no mundo, colocar os Correios brasileiros, já
tradicionalmente muito bem vistos na comunidade internacional, realmente numa
posição de destaque, recuperando o tempo perdido, recuperando os patamares
perdidos. Essa reforma ficou, digamos assim, enxergada, olhada, sob cinco
prismas fundamentais: uma reforma regulamentar, ou seja, a regra do jogo
haveria de ser criada para todos os agentes; uma reforma mercadológica, uma vez
que era importante que se alterasse as práticas específicas da ECT no campo, no
mercado; uma reforma financeira, tecnológica e organizacional. Isso resultou na
Lei Geral do Sistema Nacional de Correios, um projeto de lei encaminhado pelo
Executivo no ano de 1999 ao Congresso Nacional, que, por diferentes injunções e
muitos motivos, permanece nos Anais do Congresso Nacional até os dias de hoje.
Essa lei, fundamentalmente, tem um destaque: ela concebia um sistema nacional
de Correios. Ela não tratava única e exclusivamente da ECT; ela conceituava o
serviço, definia claramente o que eram os serviços postais, definia
essencialmente o regime de exploração em que poderiam ser operados os serviços
postais, notadamente no que diz respeito à atividade privada. Aí eram
instituídos, eram trazidos também para o campo da atividade postal os regimes de
autorização, de permissão e, especialmente, o regime da concessão, dado que a
natureza dos serviços postais é pública. Portanto, a atribuição da operação
desse serviço à atividade privada há que ser feita especialmente pelo regime
das concessões ou, em algumas circunstâncias, pelas autorizações ou permissões.
Propunha a criação da Agência Nacional dos Correios, separando as funções que
hoje ainda são muito confusas. Elas estão interpenetradas. Os Correios acabam
tendo, em relação ao mercado, funções de agência reguladora. Ele terá de
exercer, ainda hoje, a sua missão, de certa forma trabalhando contra os seus
próprios concorrentes, o que cria, realmente, antagonismos muito críticos. Por
quê? Porque ele ainda tem missões de funções reguladoras. Então, a Agência
Nacional dos Correios viria para regulamentar a ação de todos os agentes do
setor postal, inclusive os próprios Correios, que estariam, no que diz respeito
à regulação, subordinados a essa Agência Nacional. A transformação da ECT, esse
é talvez o ponto mais importante, dando a ela uma característica realmente
empresarial, de empresa de economia mista, com condições de operar
competitivamente no mercado e, ao mesmo tempo, aceitando os compromissos, a
universalização dos serviços postais, vale dizer, fazer com que eles pudessem
chegar, ainda que fosse na sua porção de cesta básica, digamos assim, a todo
cidadão morador do nosso país. Esse projeto reconhecia essa obrigação e,
sobretudo, colocava essa obrigação no ente operador, que eram os Correios, e
liberava a competição. Criava prazos para que as áreas ainda monopolizadas –
leia-se que os Correios no Brasil têm uma ação proveniente de serviços
monopolizados, ou pelo menos isso ocorria na época em que eu era presidente –,
da ordem de 40%, 45%, restando a maior parte da sua receita para as atividades
ditas privadas e, portanto, competitivas. Então, essa curiosidade de trabalhar
numa faixa de serviços exclusivos, portanto, digamos estatizados,
monopolizados, mas ter o grosso das suas receitas em campos competitivos, em
áreas competitivas...
Esse regime, como
disse aos senhores, foi realmente encaminhado ao Congresso Nacional e, por
força de interesses divergentes na própria sociedade, dos agentes desse
processo, não teve sucesso no seu andamento, não foi aprovado, mas essas idéias
ainda estão permanentes e poderão, quando houver interesse realmente do País,
quando houver interesse e reconhecimento da importância do setor postal, poderá
ser bastante útil para a retomada dessas bandeiras.
A empresa nesse
período de 1999 cedeu, evidentemente, quadros muito importantes para a
elaboração desse projeto. Contamos com uma assessoria internacional de empresas
privadas de consultoria internacional. Mas contamos, sobretudo, com a
consultoria da União Postal Universal, que acompanhou todo esse esforço. Viemos
até, na época, em seminários e para cá vieram todos esses dirigentes, de certa
maneira, examinando o nosso esforço e participando com sugestões, para que
tivéssemos uma reforma postal adaptada, de fato, às necessidades do novo
século.
Mas queria dizer aos
senhores que a empresa, a par de sua performance, na qualidade dos seus
serviços, no volume dos seus serviços e na própria produtividade, fez com que a
sua atuação fosse, efetivamente, reconhecida pela sociedade. Ela foi
considerada pela revista Exame, dentre 40 empresas concorrentes, a
melhor empresa prestadora de serviços públicos do País em 1999.
Ela, no mesmo ano,
foi agraciada com o top de recursos humanos, com o projeto de gestão de
produtividade aplicada aos Correios, com o top de marketing no
ano 2000, com o projeto Correios Online e o top social, no ano 2000
também, com o projeto Carteiro Amigo ou Aleitamento Materno.
Há uma pesquisa
encomendada pela Confederação Nacional da Indústria no ano 2000 – quem
realizou, tecnicamente, foi o Ibope –, que colocou os Correios, num universo de
cinco empresas públicas importantes do País, como a melhor empresa pública do
País no reconhecimento do público.
E, no período da
minha gestão, tive a felicidade de ver a empresa sendo reconhecida como uma
instituição de maior credibilidade no País, exceto por um ano em que ela tirou
o segundo lugar e foi superada pela instituição dos Bombeiros, o que não chega
a ser uma derrota e nós, naturalmente, nos orgulhamos muito também desse resultado.
A empresa, portanto,
à mercê desse esforço realizado e seguido, pôde, realmente, reunir esses
resultados, apresentar esses resultados à sociedade num período em que eu tive
um grande comprometimento, um período de gestão em que tive uma grande responsabilidade
nesse setor.
Sr. Presidente, Sr.
Relator, pergunto se há tempo ainda, porque eu teria interesse de declinar
algumas informações a respeito de Rede Postal Noturna e a respeito de
franquias.
O SR. PRESIDENTE (Asdrubal Bentes. PMDB – PA) – Sinta-se à vontade.
O SR. EGYDIO BIANCHI – A respeito de Rede Postal Noturna que tem sido,
historicamente, um assunto tumultuado mesmo, eu diria que, do ponto de vista
dos Correios e a Rede Postal Noturna, a relação que existe é de certa forma a
mesma relação que existe entre o setor de aviação civil e as companhias, o tipo
de conflito. Porque a maioria dos problemas que se enfrentou, eles têm origem
no modelo que o País adotou para fazer a gestão do transporte público, da
aviação civil. As virtudes eventuais e os vícios, os entraves são muito
parecidos.
Foi feito, como disse
já aos senhores, uma primeira revisão, e até para o nosso espanto reduzimos de
50 para 29 linhas; uma redução, uma economia que se proporcionou,
permanentemente, de US$50 milhões, à cotação da época.
Continuamos com esse
trabalho, e o Tribunal de Contas da União, em 1996, passou a exigir que se
fizesse concorrência no setor; e, de certa maneira, mais ou menos em
contradição com o regime do órgão regulador daquele momento – o regime, as
posturas, os procedimentos, as normas, as portarias –, que era o Departamento
de Aviação Civil, o famoso DAC, que os senhores conhecem, que se subordinava ao
Ministério da Aeronáutica.
A empresa ficou
diante de uma situação bastante difícil, uma vez que ela é obrigada a fazer
licitação num segmento que não tinha players, não havia concorrentes, ou
melhor, os concorrentes que existiam quase nunca satisfaziam as condições das
linhas existentes, das cargas transportadas; necessidade de equipamentos de
vôo, de aviões, de aeronaves. Havia grandes dificuldades, mas, mesmo assim,
encontramos uma licitação em andamento, que foi sustada, e levamos, em 1995,
uma grande licitação para renovar os contratos da RPN. E ela não foi
bem-sucedida; naturalmente, ela não foi bem-sucedida. A maioria das linhas não
conseguiu resposta, não havia concorrentes interessados e tal. E, mediante um
trabalho do jurídico do Ministério das Comunicações de então, em conjunto com,
de certa maneira, o próprio DAC, foi gerado um procedimento especial de
negociação. E carregava com ele muitos dos mecanismos da Lei nº 8.666, mas, de
certa maneira, desprezava algumas questões, porque era sabidamente um setor
onde não havia player, não havia gente disputando. Então, dever-se-ia
fazer um trabalho, realmente, em que o interesse da empresa fosse preservado,
em matéria de custo, de eficiência, mas, de qualquer forma, sacrificar algumas
das exigências da 966.
Isso foi realizado.
Esse procedimento foi realizado, a rede postal noturna foi reeditada, foi
atualizada com novas linhas. E, nessa época, grande dificuldade existia porque
quem participava ou quem não participava, os preços que eram adotados eram
variáveis que nunca estiveram nas mãos do contratante. O contratante era a
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, mas quem podia voar no trecho
“ab”, no trecho “xy”, no trecho “mn” não éramos nós que definíamos, não
tínhamos condições técnicas de distinguir – isso é verdade –, não tínhamos
condições técnicas de distinguir quem eram os habilitados a realizar esse ou
aquele. E havia mais uma singularidade: só podiam trabalhar na nossa rede
mediante uma interpretação do DAC da época; só podiam trabalhar, digamos assim,
na rede postal noturna, as empresas, ditas, regulares. Isso, então, estreitava
o universo de proponentes para nós de uma maneira muito rigorosa.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Quem
estabelecia essas linhas ditas regulares?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Era o DAC. A função de linhas regulares ou não-regulares,
companhias regulares ou não-regulares é um regulamento do DAC, e havia um
suporte, numa interpretação, numa lei, alguma coisa desse gênero, do qual, no
momento, não me lembro. Mas, se for de interesse do Deputado, posso pesquisar e
ressuscitar.
Então, era curioso
como a companhia deveria se lançar em licitações, se ela não tinha credenciais
e não tinha condições; de um lado, não tinha condições técnicas mesmo, porque
ela não tinha condição de examinar o perfil técnico dessas companhias, mas, de
outro lado, ela teria condições perfeitamente de fazer crescer o número de
proponentes. Mas quem determinava quem podia e quem não podia operar realmente
era o DAC. Isso deixava a companhia... deixava e, penso eu, até 1999, continua
deixando a companhia... até que uma salvadora portaria do DAC veio a liberar
totalmente empresas regulares e não-regulares, para que entrassem nos regimes
realmente competitivos.
Houve um fenômeno crítico, que está sempre na agenda das
pessoas preocupadas com o setor. Antes de relatar isso, eu queria dizer que,
portanto, sempre houve da parte da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos
e, em particular, do Vice-Presidente, durante três anos, e Presidente nos anos
de 1999 e parte de 2000, que é a criatura que vos fala aqui agora, um empenho
muito grande para fazer crescer esse universo de proponentes. Então,
evidentemente que nós nos insurgimos administrativamente, pois não tínhamos
outros recursos, contra a autoridade que, de certa maneira, jurisdicionava o
setor, pleiteando que ela fosse realmente mais generosa na liberação das
empresas, coisa que acabou ocorrendo. E foi exatamente nessa época que
surgiram, no cenário postal brasileiro, um conjunto grande de empresas por
força desse esforço que nós fizemos. Que a nós interessava fundamentalmente
praticar, senão concorrência, certames que pudessem comparar a capacidade de
um, a capacidade de outro.
Vejam que nós fomos alarmados: entramos e, no primeiro
exercício que fizemos, ganhamos US$50 milhões. Uma redução de US$50 milhões.
Então, era sinal de que o setor apresentava realmente gorduras, como se costuma
dizer. Então, era um setor ao qual a gente tinha que se dedicar
permanentemente. Insistimos muito para que realmente viessem para o setor novas
companhias. Aí, surgiram inúmeras companhias. Tenho essa relação, mas não me
lembro de todas elas.
Entre as chamadas companhias regulares, inseria-se a Vasp. A
Vasp, a par de ser um fornecedor, era um forte concorrente nosso, uma vez que
ela tinha a Vaspex, que era exatamente uma empresa subsidiária concorrente num
setor do futuro, vamos dizer assim. Uma vez que os Correios antigos vão se
superando, vão surgindo novas modalidades importantes para a sobrevivência das
atividades dos Correios. Uma delas é o setor das encomendas. Então, de fato, a
Vaspex era um concorrente nosso, um concorrente final, e, curiosamente, ela
também era um fornecedor de serviços – digamos assim – que determinava a nossa
eficiência. Então, é uma coisa realmente muito ambígua, não é? Para que se
tenha uma idéia, ela detinha 44% da operação da RPN na época, com diversas
linhas. Mas também, a partir do momento em que se iniciou o controle das
chegadas dos vôos, dos atrasos e dos cancelamentos, ela respondia por 23% das
irregularidades de toda a rede. No período de 1996 a 1999, a Vasp foi
responsabilizada por 16% no atraso de toda a carga nacional. É uma carga
realmente brutal, e ela teve, então, no seu currículo, esse índice de ter
atrapalhado os Correios em 16% de toda a sua carga. Mas eu acho que o controle
operacional se fazia, e não foi aí que os interesses e as ocorrências se deram.
O problema foi que a Vasp foi caminhando para um estado de
precariedade na manutenção dos serviços, até o momento em que tínhamos
elementos claros de cancelamento do contrato ou não prorrogação - não estou
muito seguro se era não prorrogação ou cancelamento do contrato. E aí se deu um
pleito, considerado correto, que, independentemente de não estar em dia com
suas obrigações com o Fisco brasileiro e tal, ela havia trabalhado num
determinado período. Portanto, havia uma receita a ser paga a ela. Mas o INSS,
na época, por meio de uma representação, pleiteava que os recursos que nós
devêssemos pagar à Vasp deveriam ser pagos a ele, INSS, que era credor de uma
grande quantia. Foi aí que a Vasp resolveu essas dificuldades, chamadas
burocráticas, com a utilização de CNDs – Certidões Negativas de Débitos falsas.
Então, de um lado, nós tínhamos as certidões nas mãos, que
liberavam os pagamentos e os contratos. Consultávamos o INSS, ele não
reconhecia a legalidade dessas certidões, e, ao fim e ao cabo, acabamos
descobrindo que se tratava de CNDs emitidas por uma padaria no Rio de Janeiro,
que eram adequadas aos interesses da Vasp de então. Foi uma coisa realmente
escandalosa, e não era mais possível.
Tivemos um grande
desgaste com... Nós não tínhamos nenhum prazer de ficar desatualizando ou
desativando uma empresa nacional. Nós queríamos é que mais empresas entrassem
no circuito, mas realmente a atuação deteriorada da qualidade dos serviços dos
correios da Vasp era quase que insuportável. Foi nesse momento que houve a
exclusão da Vasp do nosso trabalho – e ela respondia pela bagatela de 44% em
todo o movimento da rede postal noturna. Nós tivemos de fazer contratações
emergenciais. Naquele momento, várias companhias detinham condições para arcar
com as cargas dos diferentes tramos que, até então, eram atendidos pela Vasp.
Nós contratamos essas companhias em caráter realmente emergencial. E, como era
nosso propósito, desde o início, seguiu-se um estudo de reformulação geral da
RPN. Contratamos a consultoria de uma empresa francesa – a Aeropostal –,
que é controlada pelos correios franceses e que, naturalmente, é controlada
pelo Tesouro com uma larga experiência em transporte aéreo de carga postal. Eu
tenho um relatório que, se houver interesse da Comissão, posso fazer chegar a
ela. Ela tem a recomendação de um tratamento importante para o futuro. Além de
todos os trabalhos da atuação cabocla, nós estivemos melhorando a organização,
melhorando a racionalização, acabando com os abusos existentes por parte de
fornecedores. E eles, realmente, propuseram uma reforma mais radical e
apontaram para nós três caminhos alternativos. Um deles seria uma tentativa de
conviver com o modelo atual que eles chamam de alugar as cargas disponíveis nas
diferentes companhias. Vejam os senhores que, se não me engano, em 1974 – e
está na história dos Correios – nós, brasileiros, dependíamos do transporte de
cargas no reservatório de malas, de bagagens, no transporte de passageiros.
Isso evoluiu como a RPM, que tinha vôos dedicados e só transportavam, portanto,
a mala postal. Em alguns exemplos em todo o mundo, a especialização foi a tal
ponto que as frotas só levavam a mala postal e, portanto, não ficavam
dependendo desses vazios isolados que as companhias têm. Nenhuma delas, sobretudo,
não costuma dar a sua carga postal aos concorrentes que, realmente, não é uma
medida inteligente no mundo capitalista e concorrencial.
Há um outro caminho
que essa empresa francesa apontava, que nós tivéssemos alguns parceiros
preferenciais, mas ela previa, aí, dificuldades, uma vez que nós tínhamos a Lei
nº 8.666. Qual seria o critério para você escolher, seria a companhia X ou a Y?
E, aí, vinha todo um modelo a partir disso. E uma terceira opção, mais radical,
dividia muito as autoridades do setor, inclusive no setor postal, no Ministério
das Comunicações, sobretudo no DAC, que era a constituição de uma empresa
especial só para transportar a carga postal brasileira. Tinha a nossa crítica,
tinha condições econômicas. Era um estudo belíssimo nesse setor. Evidentemente,
há prós e contra mas o que eu estou querendo registrar é que houve alguns incidentes de percurso,
algumas dificuldades de percurso, mas foi feito um estudo de fôlego, acenando
com a possibilidade de tirar essa questão da RPM de tantos atritos, de tantas
improvisações, de tantas ilegalidades e – por que não dizer? em alguma circunstâncias –, de tantos abusos?
Sr. Presidente e Sr.
Relator, outro tema: franquias – as franquias brasileiras, na época em que
foram atribuídas, não existia a Lei das Franquias no Brasil e tampouco existia
no Brasil a Lei das Concessões.
Ela, então, foi instituída em cima de um contrato comercial
que, de alguma maneira, obrigava as partes – um contrato extremamente frágil
não só do ponto de vista da autoridade concedente – que são os Correios ou o
Governo, o Poder público através dos Correios, como, também, até para os
próprios empresários porque ali não existem mecanismos claros que garantam seus
direitos e, sobretudo, não garantem também as suas obrigações. Então, era uma
formulação de uma tarefa, de uma empreitada vaga, complicada, sem precisão, mas tem o mérito de ter começado,
de ter aberto as portas para essa
colaboração da área privada. E, a meu ver, tem um vício crucial, que foram os
mecanismos de atribuições dessas instituições, dessas agências, dessas
franquias. Esse Contrato, evidentemente, tão precário, existe até hoje, mercê
de uma série de articulações que o setor e esses empresários fizeram junto ao
setor público, junto ao Congresso. Ao longo do tempo, têm-se conseguido dar uma
sobrevida a esses contratos, e são contratos, do ponto de vista dos Correios e
do ponto de vista do seu dirigente nesse período, inservíveis, contratos
realmente muito precários.
Eu, particularmente, tinha uma posição muito severa em
relação a essa questão. Como dirigente, como engenheiro, como administrador, eu
tinha uma posição muito severa, e alguém me perguntou outro dia como é que era
a minha relação com o setor. Eu falei: “Olha, eu não respondo isso com muita
satisfação, mas eu sou considerado inimigo público número um das franquias” -
embora entenda claramente que a terceirização do atendimento nos Correios é uma
necessidade, mas não com base num aparato jurídico tão precário quanto este,
mormente agora, quando não só temos lei de franquia no Brasil, como temos uma
lei que regula as concessões e que diz que o serviço público, para ser
atribuído à atividade privada, tem que ser feito mediante esse regime.
Esses contratos que foram firmados no começo da década de 90
provavelmente, todos eles completavam dez anos em 1999, 2000, 2001; portanto,
no meio da nossa gestão, estourava esse tipo, digamos assim, de ocaso, e nós
procuramos acelerar esse mecanismo. E tivemos até uma iniciativa, tendo em
vista que havia uma transição muito complexa, e era um número de 1.500 casas
funcionando dentro da nossa rede; mas não tínhamos interesse de ter uma ação
predatória. Nós procuramos nos aproximar do Governo, entrar com uma medida que
criava um período de transição para que os empresários se adaptassem e
passassem a entrar nas novas concorrências, que seriam concorrências complexas;
não seriam coisas muito simples, levando-se em conta que iam lidar com pessoas
que já exerciam as atividades, que já tinham ativos no setor. Não eram coisas
certamente ordinárias; era um mecanismo bastante complexo.
Então, precisávamos de um tempo, e esse tempo é o que era
pleiteado numa medida provisória – se não me engano, uma medida provisória do
setor elétrico; lamentavelmente, pegando carona, digamos assim, nessa medida do
setor elétrico. E, para nossa surpresa, nós pegamos carona nessa medida
provisória, mas pegaram carona também na nossa iniciativa. Assim, nossa
proposição saiu totalmente deformada, e o setor conquistou, nessa oportunidade,
uma prorrogação em torno de dois anos. Posteriormente, ele conseguiu uma nova
prorrogação de mais cinco anos, contestada por alguns Ministérios Públicos
regionais, a exemplo do que ocorreu com o Ministério Público de Minas Gerais,
que se insurgia contra a constitucionalidade desse tipo de prorrogação.
Enfim, as coisas não foram pacificadas, sequer resolvidas,
mas foram prorrogadas. Ao que me consta, esses contratos seguirão até o ano de
2007, momento em que o setor público, o Governo terá que se haver novamente com
essa questão, mormente porque, se não tratar dela e deixar para a antevéspera,
terá dificuldades também de pacificar esse setor.
A exemplo do que fizemos na RPN, trabalhamos também com uma
consultoria internacional muito importante, que nos foi proporcionada pelo Correio
do Canadá, um dos melhores correios do mundo e que administra a maior rede de
franquias do mundo, algo em torno de 15 mil franquias – franquias ou lojas
terceirizadas –, portanto, uma experiência única no mundo de organização do
mercado de varejo.
Essa consultoria esteve aqui no Brasil, especialmente em
Brasília, com um grande número de técnicos; realizou um trabalho demorado, de
um ou dois anos, e foram propostas linhas de atuação muito interessantes, muito
importantes. E, mais uma vez, como não poderia deixar de ser, voltava-se a
falar nas concessões como o suporte jurídico ideal. Eles analisaram todas as
nossas formulações jurídicas e chegaram à conclusão de que realmente teria que
ser por esse caminho.
Esse estudo está
disponível na Empresa, e ela não conseguiu avançar muito, mas a cultura nossa
hoje de correios, no Brasil, foi muito melhorada pela percepção de negócios de
varejo, de relação com o público, a partir dessa convivência com os técnicos do
Canadá, que estiveram conosco por mais de um ano aqui, por intermédio desse
convênio.
Finalmente, eu
falaria de um assunto importante, mais para citar que temos aqui um documento
que pode ser de interesse da Comissão. Falo da chamada instituição do Banco
Postal no Brasil. Eu fui um dos dirigentes que se interessou por essa matéria,
que retirou essa matéria do fundo do baú. Localizamos nos Correios as pessoas
que já haviam estudado esse assunto no mundo todo, especialmente no Japão,
fizemos um trabalho extremamente interessante e aplicamos realmente nos Correios.
Chegamos a montar a primeira fase preliminar, uma fase piloto, por assim dizer,
dos Correios Postais, em parceria com o Banco do Brasil.
Todas as
recomendações apontavam nesta direção: vocês não podem, depois de trinta,
quarenta anos de vida postal, tentar fazer uma coisa que não é a vocação de
vocês. Vocês têm um grande aparelho, uma grande rede e, para otimizar e se
valer deste patrimônio, precisam fazer parcerias com quem tem essa vocação da
operação financeira, que vocês não têm.
Fomos buscar essa
parceria no Banco do Brasil, porque era mais fácil, era mais razoável e não
dependia de mecanismos de escolha, de seleção no mercado. Lembro-me que a
primeira loja foi implantada em Soretama, que é um Município do Espírito Santo,
e sucederam-se algumas dezenas de lojas.
Finalmente, depois da
minha saída dos Correios, o modelo foi reelaborado e estudado na sua
profundidade e, mediante um mecanismo de consulta pública muito ampla, foi
realmente idealizado o modelo que está em vigor. Diga-se de passagem, um grande
sucesso para fins de atendimento e para fins comerciais, pelos números, pelos
relatórios que são divulgados. Tenho aqui um sumário executivo do projeto que
foi desenvolvido pela empresa de consultoria dos correios holandeses, a
PostBank International Consultancy, importante para que os senhores
Parlamentares possam ter oportunidade de buscar onde surgiram as raízes dessas
idéias, das formulações que nortearam, até certo momento, as ações dos Correios
brasileiros.
Peço desculpas pelo
gasto excessivo de tempo e agradeço a atenção dos senhores.
O SR. PRESIDENTE (Asdrubal Bentes. PMDB – PA) – Esta Presidência agradece a
V. Sª e, de pronto, passa a palavra ao Relator para as indagações.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sr. Presidente, cumprimento,
inicialmente, o depoente agradecendo pela exposição original.
Apenas para precisar,
eu gostaria que o depoente indicasse datas da sua vida funcional nos Correios.
O seu ingresso nos Correios se deu há quantos anos?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Em 1995, na primeira gestão do Presidente Fernando
Henrique, na condição de Vice-Presidente, como pude expor, com a missão,
digamos assim, de administrar a empresa olhando para dentro do sistema. O
Presidente de então era Henrique Hargreaves, que ficou com a missão, como
Presidente, de se relacionar externamente, de olhar a empresa para fora, com as
missões que normalmente são atribuídas ao Presidente. Mas o relacionamento com
o Governo, o relacionamento com a sociedade, eu tinha, então, essa
incumbência...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Era só uma
Vice-Presidência?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Era só uma. Foi criada exatamente nesta ocasião para que
esse modelo de um profissional, eventualmente com maior experiência de gestão
empresarial, olhasse a empresa para dentro e o outro, que não detinha,
necessariamente, essa experiência, ficasse com outras missões. Foi um modelo
criado exatamente para essa circunstância.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Certo. Então, o senhor
entrou em 1995, como Vice-Presidente, durante a Presidência do Sr. Henrique
Hargreaves. Quem era o Ministro à época?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Sérgio Motta.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Até quando o senhor ficou
na Vice-Presidência nesse período?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essa minha função se estendeu – o mês, eu confesso, não me
lembraria – até o final de 1997, quando, por dificuldades, creio eu, de
articulação política e de performance de alguns dos dirigentes, o
Ministro de então exonerou a diretoria como um todo.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem era o Ministro? Ainda
era o Ministro Sérgio Motta?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Ministro Sérgio Motta. Ele exonerou a diretoria como um
todo e colocou, no lugar da diretoria antiga, uma nova diretoria, especialmente
montada, em sua maioria, com funcionários de carreira. Os demais...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor saiu dos Correios
no final de 1997?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu saí. Em 1997 deixei de ser Vice-Presidente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E foi para qual atividade?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu assumi a Secretaria de Serviços Postais, no Ministério
das Comunicações, com a incumbência de montar essa Secretaria, de dar
estrutura, de dar substância para ela. Como eu lhe disse...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ela já existia antes ou
não?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, existia um departamento, uma unidade administrativa
bastante modesta, que não estava, digamos assim, à altura da importância que o
Governo, em especial o Ministro Executivo do setor, que era o Ministro Motta,
atribuía ao setor postal.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem o indicou para o
cargo da Vice-Presidência em 1995?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Foi o engenheiro Sérgio Roberto Vieira da Motta, o
Ministro de então.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
Então, no final de
1997 o senhor assumiu a Secretaria de Serviços Postais, no Ministério das
Comunicações, que, à época, era titularizado pelo Ministro Sérgio Motta.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Exatamente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ficou até quando na
Secretaria?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu fiquei até... Não posso lhe precisar a data, mas posso
lhe precisar as circunstâncias em que eu me afastei. Eu me afastei para fazer
parte da equipe que conduziu a campanha da reeleição do Presidente Fernando
Henrique.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor, então, trabalhou
na campanha à reeleição do Presidente Fernando Henrique Cardozo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Trabalhei.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Qual a função que V. Sª
exercia na campanha?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Minha função na campanha era... Eu era ordenador de
gastos de campanha nas áreas de TI, de tratamento da informação, informática, telemarketing,
tudo o que dissesse respeito ao tratamento da informação. Eu era um executivo
desse setor. Adicionalmente, eu era Vice-Presidente do Comitê de Finanças e me
ocupava exatamente de uma mesa controladora de recursos que existia em Brasília
e que, de certa maneira, regulava o trabalho entre os gastadores de dinheiro e
os captadores de recursos no mercado.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor era o
Vice-Presidente. Quem era o Presidente?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Presidente... Na verdade, esse era um modelo que o PSDB
e a campanha adotaram. O Presidente era o Presidente formal do Comitê Nacional
de Campanha, que era o Ministro Bresser. Havia um tesoureiro, que era o
engenheiro Adroaldo Wolf, de São Paulo. Minha missão de Vice-Presidente não era
prevista na legislação. Era uma acomodação interna que nossa campanha tinha,
até mesmo porque o Ministro Bresser não tinha disponibilidade de estar
permanentemente em Brasília, exercendo exatamente a missão que eu exercia,
subordinado a ele, de controle da mesa de recursos, digamos assim.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – À época, o senhor chegou a
trabalhar como arrecadador de recurso eleitorais para a campanha?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não era a minha missão. Minha missão não era
trabalho de captação. Eu acompanhava esse trabalho dos vários segmentos que
faziam. De certa maneira, eu era um cliente desses recursos porque, de outro
lado, eu haveria de abastecer os operadores, os gastadores de dinheiro. De forma
que eu acompanhava esse trabalho por obrigação e por necessidade de manter os
orçamentos atualizados, as nossas receitas e despesas equilibradas.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor tem filiação
partidária?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu tenho. Como eu lhe disse, comecei na vida política
militando na Ação Popular. Posteriormente, quando voltamos às forças que
lutavam contra o Estado autoritário, resolveram adotar a via legal, e eu
ingressei no MDB. Posteriormente, eu me transferi para o PMDB. Faço parte
daquela facção que deixou o PMDB e criou, em 1988, o PSDB, ao qual sou filiado,
embora minha militância não seja ativa hoje.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor é filiado ao PSDB
de que Estado?
O SR. EGYDIO BIANCHI – De São Paulo.
Quando terminou a
campanha eleitoral, o senhor, obviamente, deixou de atuar nas funções que
tinha. O senhor foi para que cargo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu assumi a Presidência da Empresa Brasileira de Correios
e Telégrafos.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Isso foi exatamente em que
data? O senhor se lembra?
O SR. EGYDIO BIANCHI – No início de 1999, no início da gestão.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Logo no início do Governo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – No início do Governo, na montagem da...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem o indicou para esse
cargo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Presidente da República.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Diretamente o Presidente
da República?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não creio. Tinha vários companheiros que devem ter feito
chegar a ele esta gestão, mas o convite partiu dele.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem era o Ministro à
época?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Ministro, à época, eu creio que era Luiz Carlos
Mendonça de Barros. Perdão, não era. Era o Ministro Pimenta da Veiga.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pimenta da Veiga.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Que entrou exatamente... Cuja gestão iniciou-se exatamente
em 1999.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor fica na
Presidência dos Correios até que ano?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu fico até o ano de 2000, até julho de 2000, uma data
muito simbólica, que é 14 de julho.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Saindo da Presidência dos
Correios, foi para que função?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu fui para a atividade privada, onde eu me encontro até
hoje. Deixei de...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor trabalha em
alguma empresa ou tem alguma empresa?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu sou titular de uma pequena empresa, Valbec, em São
Paulo...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Como chama?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Valbec.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Valbec.
O SR. EGYDIO BIANCHI – É. A Valbec, em sucessivas alterações do objeto social,
ela é uma empresa de consultoria, engenharia e sistemas, que é um pouco,
digamos assim, a área de atuação com a qual...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Essa empresa foi fundada
quando? Foi criada quando?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Ela foi criada em 1979.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E ela permaneceu em
atividade mesmo durante o período em que V. Sª estava exercendo as funções
públicas que declinou?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, uma atividade... Ela foi desativada, na verdade. Ela
não desapareceu do cenário. Mantinham-se as obrigações fiscais, mas a atividade
dela foi decrescente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ela chegou a ter algum
tipo de contrato com órgãos públicos?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, absolutamente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não? Não tem. Sempre com a
iniciativa privada?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, nenhum contrato.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então, feita essa
introdução preliminar, eu começo, então, algumas questões a V. Sª.
Durante o período em
que V. Sª presidiu os Correios, quais eram as empresas contratadas na parte de
publicidade?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu me lembro perfeitamente da DM9, que era uma empresa
com que se trabalhava, da Standard, e uma terceira, que eu, de fato, não
lembro. Eram três empresas que foram...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A empresa Giacometti já
trabalhava à época?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não trabalhava?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não trabalhava conosco. Eram essas três empresas,
que, ao que consta, teriam saído na posterior licitação que ocorreu nos
Correios.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja, a empresa
Giacometti não prestava serviços à época...?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não prestava serviços. Não tinha nenhuma relação
conosco.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor teve algum
contato com a empresa SMP&B ou DNA?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, em nenhum momento.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Em nenhum momento.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Chegou a ter algum contato
com o Sr. Marcos Valério?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não. Absolutamente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Com o Sr. Cristiano Paz?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Também não.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Também não.
Havia alguma
interferência do Ministério no gasto de verbas publicitárias do Correio?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essa... Se disser afirmativamente, talvez cometa alguma
injustiça, e negativamente, eu estou fugindo um pouco à verdade. Evidentemente,
há um mecanismo, aliás, ele é mantido pelos Governos todos – eu quero crer que
o próprio Governo atual se utiliza desse mecanismo –, que é uma certa
centralização, na Secom, do direcionamento das verbas publicitárias,
especialmente das empresas. E eu acho que faz sentido. São empresas de que o
setor público detém o seu capital. É natural que ele tente dar uma certa
unicidade no discurso, digamos assim, no discurso de comunicação. Os limites
desse tipo de coisa esbarram quando a empresa é uma empresa concorrencial, que
vai ao mercado, que precisa se expor ao mercado, que precisa gastar sua verba,
primordialmente na questão comercial, na questão do seu marketing. E aí
eu acho que é um pouco, então, o limite.
Então, o senhor me
pergunta se havia interferência. Interferências havia exatamente nessa medida
em que algumas questões eram de fato centralizadas pela Secom, como continuaram
a ser, de certa forma, centralizadas, homogeneizadas, do ponto de vista da
linha de conduta. E os Correios são uma instituição que, ao longo dos anos, se
irmanaram com a sociedade e freqüentemente patrocinaram, e continuam
patrocinando, manifestações culturais, esporte. Não é preciso dizer o grande
número de pressões de todos os setores da sociedade brasileira que despencam
sobre os Correios para obterem essa ajuda, essa participação dos Correios
nesses empreendimentos, nesses projetos, nessas idéias.
Nesse particular, o
Ministério das Comunicações acaba sendo uma antena que chama todas essas
demandas, essas solicitações. E é evidente que havia um fluxo muito grande de
demandas, de solicitações, de recomendações partidas dos órgãos de comunicação,
de assessorias, de publicidade do próprio Ministério.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O Ministro Pimenta da
Veiga de alguma maneira tentava interferir na destinação de verbas de
publicidade?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu acho que, na medida em que eu lhe disse de
recomendações, especialmente na área de patrocínio, de projetos patrocinados,
havia um interesse grande nessa direção. E do lado da empresa havia, falo isso
com bastante segurança, toda uma postura de guardiã, digamos assim, dos
recursos da empresa e a defesa para que o seu direcionamento prioritário se
desse em direção à iniciativa de comunicação mercadológica, iniciativa de comunicação
com a sociedade, mesmo porque esta tendência ficou exacerbada na figura dos
dirigentes, porque nós estávamos defendendo uma lei para a reforma do setor
postal, e ela haveria de ser muito bem conhecida da sociedade. Então nós
achávamos que a empresa tinha que se expor muito.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Essa é uma das questões
que vou-lhe perguntar.
Logo após a sua saída
da presidência dos Correios o senhor declarou para a imprensa – eu tenho aqui
em mãos a matéria – o seguinte: O ex-Presidente dos Correios, Egydio Bianchi,
acusou ontem o Ministro Pimenta da Veiga, das Comunicações, de ter “interesse
em controlar a verba de publicidade da empresa para favorecer o município X de
Minas Gerais”. Qual era a razão dessa declaração que V. Sª fez, referente ao
Ministro Pimenta da Veiga? Ele queria favorecer um município ou queria
favorecer a destinação da verba para uma agência, o que efetivamente era?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Cumpre-me fazer algumas considerações. Primeiro, que eu
não me apressei em fazer a correção. O jornalista que captou esta minha frase
não foi feliz ao expressar isso. Na verdade, eu dizia exatamente para não
enumerar: o município X ou Y, que é uma maneira de fazer política, uma maneira,
no meu entendimento, antiga, atrasada de fazer política, mas é que se confronta
com as maneiras, especialmente no que diz respeito à empresa pública,
profissionais, com a postura.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas o Ministro queria
interferir de que maneira nessa destinação de verbas para favorecer o Ministro
X ou o Y?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu queria fazer um comentário inicial que vai ajudar a
compreender essa questão.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Esse
município X então é genérico, não é um município qualquer que ficou colocado
como X?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, eu me referi ao jornalista e dizia que era uma
maneira de fazer política. Que você tem instrumentos do Estado, instrumentos do
poder público que às vezes são confundidos na vida pública como uma maneira de
fazer política.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Se o senhor pudesse ser um
pouquinho mais concreto. Como o Ministro fazia? Ele queria que direcionasse a
verba para quem? De que maneira? De que forma?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essa relação é uma relação complexa. Não é o Ministro que
chega para o Presidente dos Correios e diz isso. Ele tem equipes, assessores,
chefia de gabinete. O número excessivo de pleitos que chegavam...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem comandava nos
Correios a Secretaria de Comunicação que cuidava dessa área?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Era um profissional do quadro dos Correios, mas eu não me
lembro. Era um profissional que atendia a orientação da Presidência. Os setores
de marketing, não era essa a denominação na época, os setores de comunicação
respondem ao Presidente, então o titular dessa área respondia ao presidente
literalmente, sofria naturalmente as suas pressões, mas ele respondia ao
presidente, não era um outro tipo de profissional. Profissional de carreira dos
Correios, envolvidos com essa coisa, respondiam ao presidente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na mesma oportunidade, o
senhor declarou o seguinte: Bianchi afirmou ainda que Pimenta nomeou por contra
própria o representante dos Correios na comissão da secretaria de comunicação
que define as verbas de patrocínio. Então, era essa a interferência que ele
tinha?
O SR. EGYDIO BIANCHI – De alguma forma, sim. Havia na Secom, não sei se esse é o
método ainda de trabalho de hoje, mas as empresas escalavam, designavam um
representante seu para, num comitê existente na Secom, discutir e otimizar
eventuais linhas de crédito para apoio dos projetos, para que não existisse
redundância e, de certa maneira, houvesse algum entendimento quanto ao
acolhimento de projetos e de iniciativas de interesse do Governo.
Lembro-me
perfeitamente de que, ao tomarmos a iniciativa de indicar, já tinha sido
tomada. Já tinha sido indicado um elemento...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – É visível que o senhor
tinha uma divergência com esse tipo de interferência.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Sem dúvida!
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Exatamente, qual era o
direcionamento que o Ministro Pimenta da Veiga, por meio do seu homem, na parte
de Comunicações, dava e com o qual o senhor não concordava? O que exatamente
era?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essa reportagem, essa matéria surgiu num momento de certa
exaustão das minhas relações com o Ministro Pimenta da Veiga, num momento de
estresse, de cansaço completo e, sobretudo, de um posicionamento que considerei
inadequado do Ministro, ao atribuir a minha demissão, à época, a divergências
de estilo administrativo. Eu achei que era tão pobre essa explicação e fiquei,
de certa maneira, estressado e revoltado com esse diagnóstico que ele fazia.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E, nesse estresse, o
senhor acusou de haver um direcionamento do Ministro na parte de publicidade. O
que era isso exatamente?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Deixe-me completar. Talvez, o senhor compreenda melhor.
Eu dizia ao
jornalista: “Não é só essa questão. Há questões”. E enumerei uma série de
questões que montavam exatamente o estresse daquele momento. A publicação era
uma das intervenções.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O que era exatamente,
concretamente?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Concretamente, o que eu posso... o tal Município “X” ou
“Y”, não posso dizer que não existe; o “X” determinado ou o “Y” determinado não
são incógnitas de uma dilação do antigo Presidente. Foi uma maneira de eu
expressar como se faz política, que é algo com o qual eu não concordava.
Por exemplo, quanto
aos patrocínios, se formos avaliá-los, veremos que o Brasil tem uma geografia
cultural fantástica, que todos nós conhecemos e apreciamos. Nada impede que
Minas Gerais, São Paulo ou qualquer Estado pleiteie as suas iniciativas, os
seus projetos culturais ou patrocínio dos Correios, do Banco do Brasil, da
Caixa Econômica. Mas, naquele ano, em especial, a maioria dos nossos apoios
foram direcionados, realmente, para Minas Gerais, que tem uma cultura
riquíssima.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Apoios de patrocínio?
O SR. EGYDIO BIANCHI – De patrocínio de projetos, projetos culturais, quase
todos eles com substância e valor cultural. Isso não se discute. Mas recebemos
milhares de solicitações do Brasil todo. Não estou dizendo nem centenas, nem,
muito menos, dezenas.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja, o Ministro, por
meio das suas pessoas nos Correios, buscava direcionar as verbas publicitárias
para patrocínios em Minas Gerais?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Exatamente. No seu Estado, no Estado das suas relações,
da sua origem política. É isso o que eu posso lhe dizer com bastante segurança.
Não há nenhum indício concreto de direcionamento dos nossos recursos que não
sejam esses.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor, na
oportunidade, inclusive, usa uma expressão de certa forma forte. O senhor disse
que “Pimenta tem visão generosa e sem fronteira sobre o uso de verba
publicitária”. O que o senhor quer dizer com “visão generosa e sem fronteira”?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Exatamente. É confundir um pouco os instrumentos que o
Poder Público lhe proporciona e, em vez de direcioná-los para a atividade
precípua... Eu argumentei, de certa maneira,... Sobre essa questão,
manifestei-me, de certa maneira, em determinado momento, e o jornalista captou
a seguinte expressão: “esse dinheiro não é do Governo, é da empresa”. Não foi
exatamente isso que eu dizia, mas eu falava que os recursos que a empresa tinha
em seu orçamento estavam consignados para a sua atividade comercial, mormente
no momento em que ela se lançava a um projeto atrevido, a um projeto complexo,
em que ela sofreria enorme concorrência, maior do que a que vinha sofrendo até
aquele momento. Então, haveria de realmente dar uma prioridade para esse tipo
de aplicação.
Eu digo “visão
generosa” quando se ignora ou se minimiza essa interpretação e passa-se a dar
mais importância a um projeto do Município “X” ou do Município “Y”. Essa foi
uma maneira de...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja – o senhor me
corrija se eu estiver errado: do que depreendo da sua fala, o senhor discordava
de um uso político das verbas eleitorais em relação ao Estado de Minas, quando
o senhor queria que essas verbas fossem utilizadas em favor dos Correios, e não
com o uso focado, talvez, equivocado, da máquina administrativa. Seria isso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Exatamente. Acho que, em tese, posso concordar com a sua
interpretação.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
Por que o senhor saiu
dos Correios? Por que o senhor foi demitido dos Correios? Qual foi exatamente a
razão?
O SR. EGYDIO BIANCHI – A versão oficial?
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A real.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Veja, eu não posso discorrer sobre esta matéria, sem
voltar um pouquinho atrás na história.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por favor.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Todos nós acabamos, direta ou indiretamente, tomando
conhecimento do estilo vigoroso do tal Ministro falecido Sérgio Motta, que era
meu companheiro, meu amigo, meu irmão, por assim dizer, não é? Ele quase sempre
me agraciava com esse título de dizer que eu era o irmão que ele não tinha tido,
o irmão masculino que ele não tinha tido.
Na primeira campanha
do Presidente Fernando Henrique, o ex-Ministro Motta teve uma altercação, uma
divergência muito séria em nível partidário com o Pimenta da Veiga. E isso –
não conheço o teor dessa divergência, mas houve essa divergência, uma
divergência de que todo o Brasil político tomou conhecimento naquele momento.
E, em decorrência dessa altercação, dessa divergência, o Pimenta da Veiga
afastou-se da campanha de então, não é? Afastou-se com suas equipes, com seus
assessores e tal. E essa divergência ficou presente em toda a história do nosso
Partido, em todos os momentos em que ambos, por alguma razão, estavam presentes
nas atividades e tal.
Eu acho,
particularmente, que, embora oficialmente o Ministro Pimenta da Veiga
declinasse, afirmasse ser uma questão superada e que ele havia pacificado essa
questão e o relacionamento com o Ministro, eu, pessoalmente, acho que isso
nunca ocorreu, não é? Eu acho que é uma interpretação, para um engenheiro
industrial, um pouco ousada, mas eu acho que havia realmente ressentimentos e
esses ressentimentos acabavam influenciando as atividades, o julgamento, a
avaliação e o relacionamento do Ministro Pimenta da Veiga.
A imprensa também
acabou enveredando por um outro caminho. Quer dizer, não foi o Ministro... Só
formalmente foi que o Ministro Pimenta da Veiga me convidou para o cargo. Não
foi dele a iniciativa de me convidar. Talvez ele também tivesse uma certa
indisposição, um certo mal-estar em função desta designação, por assim dizer,
não é? Eu não era um quadro dele certamente. Eu era um quadro identificado
totalmente com o Ministro Motta, não é? Então, eu acho que isso pesou um pouco
na atitude dele, na maneira com que nós nos relacionávamos. Além do que – e
essa era a avaliação geral –, ele tem um perfil de pessoa educada, gentil,
realmente extremamente polida.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ele, Pimenta da Veiga?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Ele, Pimenta da Veiga. Mas ele é um político antigo. Eu
acho que ele é um político antigo, pelas práticas, pela visão que tem da gestão
pública, pela interpretação que faz dos instrumentos que a gestão pública
proporciona ao gestor, por um tipo de confusão. É um político realmente à
antiga, não é? Eu acho que isso sempre esteve permeando as nossas relações. Eu,
ao contrário, embora tivesse uma aproximação com a vida política, não sou
propriamente um político de vida parlamentar e tal. E mais ainda, a minha
contribuição da qual me orgulho bastante é uma contribuição do tipo empresarial.
Eu sou um gestor de empresas na área privada, fui diretor de inúmeras
companhias privadas e também públicas. Esse é o tipo de contribuição que
poderia dar.
E esse perfil se
choca muito com a pessoa que tem um outro tipo de formação, um outro tipo de
interpretação de como fazer as coisas e que não tem tanta clareza. Eu não creio
que as pessoas ajam deliberadamente contra um modelo importante, interessante.
É porque eles realmente acham que fazer política é isso, e nós achamos que não
é. (Risos.)
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então, teria sido uma
verdadeira incompatibilidade de gênios políticos?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Vamos dizer: também. (Risos.)
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Eu tenho aqui em mãos uma
nota publicada pelo Jornalista Cláudio Humberto... (Risos.)
O SR. EGYDIO BIANCHI – Hummm... O senhor, naturalmente, vai dar credibilidade... (Risos.)
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não, eu vou perguntar
sobre a nota ao senhor. (Risos.)
A nota diz o seguinte: “Bianchi, como Otero. Se
Egydio Bianchi, ex-Presidente dos Correios, continuar batendo no governo a que
serviu, corre o risco de tomar uma bordoada. Está pronto um alentado dossiê
revelando os negócios criados à sua volta na ECT, como os milionários contratos
com a FIA/FDTE, a Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia,
dirigida por sua mulher, Ana Maria Afonso Ferreira Bianchi, em um caso que o
Governo considera muito parecido com o do ex-Presidente do Serpro, Sérgio
Otero, cuja esposa se locupletou de contratos com o órgão dirigido pelo
marido.”
O senhor poderia
explicar exatamente se existe algum fundamento nessa nota, do que se trata,
quais eram as relações dos Correios no seu período com uma fundação dirigida
por sua esposa?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Claro, posso. Não
sem antes registrar um protesto de darmos credibilidade a esse articulista, a
esse jornalista, porque ele é sabidamente um elemento que acomoda e acolhe as
mais torpes notícias fabricadas e os mais torpes interesses. Todo mundo conhece
isso em Brasília e no País.
Não tem
qualquer tipo de modelo, de dossiê sobre um modelo inexistente. A FDTE é uma
fundação, renomada fundação, muito importante no Estado de São Paulo, que nos
apoiou de maneira extremamente importante quando passamos a enfrentar a gestão
de inúmeros projetos de alta tecnologia sem ter time para fazer isso. Então,
tínhamos que nos apoiar em um parceiro, e esse parceiro quase público, pelo
menos...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A FDTE manteve contratos com os Correios?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Manteve. Tivemos
vários convênios com a FDTE para que...
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor sabe precisar quantos convênios foram
firmados?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Não sei, não sei
lhe dizer.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Eles foram firmados na época em que o senhor era
Presidente dos Correios?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Exatamente. Quanto
à minha esposa, o nome dela é Ana Maria Afonso Ferreira Bianchi. Ela é titular
de uma cadeira de Sociologia na Economia, na Faculdade de Economia na USP, tem
o mais alto grau na sua carreira acadêmica. Ela só fez isso na vida, é uma
pessoa que tem um grande apego a sua carreira, ao seu currículo, aos títulos
que ela tem, e jamais se envolveu, por falta de vocação, por falta de
interesse, a qualquer tipo de atividade..., mormente em FDTE.
Esse cidadão, além de não honrar muito a profissão de
jornalista, também é mal informado, porque o que existe em São Paulo, no âmbito
da Faculdade de Economia, é uma fundação chamada Fipe, em que minha esposa já
trabalhou. Ela é tempo integral na Universidade de São Paulo e freqüentemente
trabalha na...
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas a contratação foi da Fipe ou da...
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Não foi da Fipe.
Estou dizendo: a maledicência vai a um ponto tão grande que ele confunde FDTE
com Fipe.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – A sua esposa não trabalhava na FDTE?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Não, não tenho nem
idéia do que venha a ser isso. Nunca tive nenhuma idéia.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – A sua esposa nunca dirigiu a FDTE?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Nada.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então, essa informação seria equivocada?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – E tão pouco dirigiu
a Fipe, que seria o mais aproximado para dar credibilidade a essa notícia. Na
Fipe, ela participou como profissional, como economista.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas ela chegou a trabalhar na FDTE?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Não, absolutamente.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nesses contratos também não?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Não, de jeito
nenhum, de jeito nenhum.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então, essa notícia é rigorosamente inverdadeira?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Rigorosamente
inverídica.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas voltemos à sua demissão. Aqui, a nota do Luiz
Carlos Humberto parece que é aquela troca de disparos, de mal-estar político, e
é característica não só dos governos anteriores, mas de alguns atuais.
Deputado Goldman, por favor.
O SR. ALBERTO
GOLDMAN (PSDB – SP) – Eu só
tirá-lo da relação de todos que resolve.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Como?
O SR. ALBERTO
GOLDMAN (PSDB – SP) – É só
tirar da relação de todos.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Bem, uma das versões talvez oficiais ou – não sei –
extra-oficiais da sua demissão decorria do fato de que o senhor discordaria do
relatório da Lei Postal, que, à época, segundo a imprensa noticiava, favorecia
as empresas de franquia. Isso é verdade?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Deputado, por
favor, a interpretação colocada dessa maneira é incompleta e incorreta.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor poderia fazer uma abordagem sobre essa
lei? Do que tratava inicialmente a Lei Postal?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – A Lei Postal,
enfim, é um projeto de lei que ainda tramita ou está no âmbito, nos arquivos do
Congresso Nacional, de forma que os Srs. Parlamentares poderão recorrer a
minúcias e tal.
Mas, em resumo, fiz
alguns destaques: ela se propunha a disciplinar, a regulamentar o Sistema
Nacional de Correios, e, portanto, não mais exclusivamente a ECT, que é tratada
pela lei atual. A lei postal atual, a chamada Lei Postal, só cuida dos
Correios. Essencialmente, fala nos Correios, com uma ou outra medida. Portanto,
essa lei começa pela abrangência. Ela olhou para o teatro de operações e
procurou enxergar todos os agentes desse processo, aí agentes públicos, agentes
privados e tudo o mais.
Em segundo lugar, ela
se propôs a criar uma agência reguladora do setor. Ela fixou os regimes de
atribuição da atividade postal à área privada. Como já expus agora há pouco,
ela consagrou, e nem poderia deixar de ser, o regime da concessão, o regime da
autorização e da permissão em determinadas circunstâncias. Isso, naturalmente,
diz respeito à questão das franquias, as franquias que produzem os seus
serviços, que desenvolvem os seus serviços no País, em cima de um contrato
limitado, um contrato deficiente juridicamente, porque é um suporte muito
precário, contrato esse que foi, sucessivamente, ampliado por força das
reivindicações, das demandas que o setor apresentou, em especial o próprio
setor legislativo.
Então, é evidente que
essa lei propunha que, doravante, a atividade das chamada franquias, digamos
assim, a terceirização dos serviços de correio passasse a ser feita sob a
proteção jurídica do regime das concessões, o que não era o caso,
evidentemente. E nós, então, aproveitando, tentando aproveitar o final desse
contrato, uma vez que já se haviam passado dez anos, tentávamos criar uma
transição entre uma coisa e outra. Mas quando fossem esses contratos renovados,
nós entendíamos que teriam que ser de uma forma onerosa, em regime concorrencial,
e pelo regime das...
Então, se, de fato,
não que prejudicasse apenas... O segmento das franquias não foi o único a se
insurgir contra a lei.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – É que, na verdade, nós
tivemos o projeto original, que foi encaminhado, e tivemos depois um
substitutivo apresentado pelo Relator do projeto à época, Deputado Marcelo
Barbieri.
O senhor era
favorável ao projeto original na forma que ele foi mandado?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Era absolutamente favorável, claro.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E depois o senhor se
manifesta contrariamente ao substitutivo do Relator Marcelo Barbieri?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Exatamente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O Ministro Pimenta da
Veiga concordava com o substitutivo do Deputado Marcelo Barbieri?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu, particularmente, não estou muito seguro, não, mas eu
acho que mais concordava do que discordava. Na verdade, em relação... Veja bem,
quem acompanhou a batalha parlamentar da Lei Geral das Telecomunicações no País
haverá de ter percebido o empenho das autoridades, da autoridade maior do País,
o Presidente da República, e, em especial, do Ministro condutor, do Ministro
executivo condutor desse assunto no Congresso. O Sérgio Motta era um verdadeiro
leão na discussão com todas as bancadas, na argumentação, com o estilo dele
assim muito, digamos, muito agressivo e tudo o mais.
Ao contrário, esse
projeto da Lei Geral do Sistema Postal foi para o Congresso, de certa maneira,
desprotegido um pouco. O Ministro não tinha tanto empenho, não tinha tanto
interesse, talvez porque desconhecesse o próprio histórico de formulação, o
diagnóstico que se fazia e tal. Então ele foi, de certa maneira, fragilizado. O
Ministro deveria ter responsabilidade, pelo Governo, sem contar com o fato de
que foi ele mesmo que subscreveu a entrega ao próprio Governo.
Mas ele tomou
conhecimento, ao longo do processo, de ponderações de vários setores. Nós
também tomamos, mas é evidente que uma lei tão rigorosa como essa, tão
complexa, poderia causar problemas, enfim, na regulamentação de certos
interesses, confrontar com certas situações já estabelecidas e tudo o mais.
Mas, ao longo do
processo de discussão do projeto, ele provavelmente tenha acolhido algumas
idéias. Imagino que ele tenha mudado de opinião, porque, se não tivesse mudado
de opinião, ele teria apoiado o outro projeto.
Agora,
especificamente, a condição técnica do projeto do Deputado Barbieri é muito
ruim. É muito ruim, realmente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na época, o senhor foi
mais duro. O senhor disse o seguinte: “Barbieri elaborou o relatório
inconseqüente – o senhor o qualificava de inconseqüente – sobre o projeto de
lei em comum acordo com o Ministro”.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Uma dedução minha, Deputado.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor achava que era
inconseqüente o projeto. E o que chama a atenção é que a Folha de S.Paulo,
à época, noticia que esse projeto atenderia a vários lobbies
empresariais. Isso é verdade?
O SR. EGYDIO BIANCHI – A minha interpretação vai nesse sentido. Todos os lobbies
empresariais realmente se manifestaram. Em alguma medida, conseguiram coisas
assim...Umas confrarias...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quais eram os lobbies
empresariais? Vamos sintonizar, para podermos localizar.
O SR. EGYDIO BIANCHI – As empresas de encomendas expressas internacionais, as
multinacionais.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – As empresas de encomendas
expressas internacionais. Qual era o favorecimento a elas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Elas têm uma associação nacional. Elas se insurgiam...Eu
não me lembro de todos os...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas o que o senhor puder
lembrar.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Elas se insurgiam contra o fato de haver uma regulação.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – É a mesma entidade que recorreu ao Supremo
contra o monopólio?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu não saberia lhe dizer, Senadora. Eu não saberia lhe
dizer. Mas ela é muito ativa. Aliás, ela não fazia segredo nenhum. Ela fazia um
proselitismo aberto das posições dela, divulgava os seus boletins, divulgava os
seus... Essa era a empresa que e tal...
A outra coisa – para
nós, um paradoxo na época – eram os chamados motoboys. Víamos com grande
preocupação essa pletora, essa frota imensa que, em São Paulo especificamente,
na capital, atinge alguma coisa próxima de 200 mil unidades, correndo e
distribuindo correspondências, objetos, isso e aquilo. O escopo da lei criava
regras de regulação. As pessoas tinham que se organizar sob a forma de empresa,
tinham que pedir a sua autorização, enfim, tinham que mostrar o seu jogo e se
habilitar formalmente. Então, eram setores que eram avessos à idéia da
regulação.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – À época, registra-se que
uma das principais divergências era a manutenção do monopólio do transporte de
cargas pequenas pelos Correios. O que vem a ser isso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – De fato, não, a...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Que teria sido quebrado
esse monopólio, nessa época, com favorecimento a lobbies empresariais.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não sei. Acho que está mal expressa essa matéria...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Essa colocação não é sua.
Ela foi publicada nos jornais da época, dizendo que a principal controvérsia
seria essa. O senhor sabe precisar isso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Acho que uma controvérsia grande era o seguinte. O
monopólio que ainda existe hoje, que sobrevive, é com relação às cartas. Mas,
na época em que a lei foi criada, havia uma definição que eu não diria genérica
mas abrangente do que é serviço postal, do que são os objetos ou não são os
objetos. Na vida prática, na economia concreta, são inúmeros hoje os objetos
que são transacionados. Até hoje, tecnicamente, usa-se a expressão de objeto
postal. Não se fala mais em carta, é objeto postal. Agora, o monopólio que a
empresa tinha e a lei se propunha a rompê-lo, até estabelecer prazo para ela ir
saindo do monopólio e enfrentar a guerra total ali na frente. A própria
proposição da empresa era nesse sentido. Ela reconhecia que tinha que ter
concorrência, apenas que a estabilidade econômico-financeira dela, em grande
parte, estava ancorada por 40% a 45% da sua receita que era proveniente desse
setor de monopolizado. Não havia monopólio de encomenda. Nunca houve.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Certo.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não há na lei atual e...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sinteticamente, pelo que o
senhor se recorda, quais eram os principais lobbies empresariais
beneficiados por esse projeto, por esse substitutivo ao projeto original?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Olha, beneficiados por esse projeto substitutivo, eu não
posso lhe pontuar e fazer uma relação precisa. O que eu posso lhe dizer é
quantos segmentos se insurgiram contra as proposições...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por favor, por favor.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Então, manifestei esse segmento fortíssimo que envolve
empresas de expressão internacional, enormes empresas, FedEx, DHL e outras
instituições...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Essas empresas estavam
atendidas por esse substitutivo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu penso que sim, eu penso que sim, não posso jurar de pé
junto.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Mas elas se insurgiram. Evidentemente, quando elas
perceberam que havia um nicho para dialogar, elas foram fazer as suas... Elas
deixaram de dialogar com os Correios...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O diálogo foi diretamente
com o Ministro Pimenta da Veiga?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não estou seguro. Acho que quem realmente coordenou
essa... Era relator do projeto, evidentemente a missão dele era essa, não é?
Agora, não precisava ter exagerado tanto.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Certo.
Além desse setor,
qual era outro?
O SR. EGYDIO BIANCHI – As franquias, certamente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – As franquias eram beneficiadas
por esse projeto?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não. Pelo contrário...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não, pelo original.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu não sei... Na...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pelo original, eram
prejudicadas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Na caneta do Deputado Marcelo Barbieri, devem ter passado
várias fórmulas.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Várias?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Várias fórmulas.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – De beneficiamento?
O SR. EGYDIO BIANCHI – De beneficiamento. O que esse povo vai querer? Ele vai
querer que a lei desse mais dez anos. Os setores mais...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A prorrogação?
O SR. EGYDIO BIANCHI – É, a prorrogação. Dez anos, pronto. Os setores mais...
O SR. EGYDIO BIANCHI – A prorrogação.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – É, a prorrogação, 10 anos.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Outros deixavam por 5. Mas eles queriam, essencialmente,
a prorrogação. Eles nem se estavam insurgindo tanto quanto ao fato de terem
sido realmente legislados na direção da concessão. Não era essa a objeção
central. A objeção era que precisavam realmente de mais tempo, mais tempo, 5
anos, 10 anos. Não sei exatamente o que prevaleceu no substitutivo. Não me
lembro mais do que prevaleceu, mas ele estava sensível a esse tipo de coisas.
Não sei por que ele realmente...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor era contra essa
prorrogação.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Era contra essa prorrogação.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por quê?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Porque achava, achava, primeiro, que o procedimento, o
desdobramento, do sistema de distribuição brasileiro depende realmente do
capital privado, ele depende da parceria com o setor privado. Nós não temos,
seguramente, recursos para multiplicar o setor de atendimento de 1.500
agências, criar mais 1.500 agências. Isso já foi um movimento que, no passado,
ocorreu. Só como eu já disse, ocorreu de uma maneira muito precária, em cima de
um instrumento jurídico frágil, que é este contrato que vigorou por 10 anos,
não é.
Então nós precisamos
de uma coisa sólida, de uma coisa sólida, com embasamento jurídico correto,
adequado. E esse embasamento jurídico correto adequado está no projeto de lei,
evidentemente, ele está com todas as palavras, de uma maneira muito original.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Depois de ler o original,
prevê licitação.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Prevê a licitação.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Prevê licitação.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Quer dizer, a concessão é concessão onerosa, feita
a nível público, disputando essas posições.
Há que se dizer: mas
isso é realista? Eventualmente, você tendo uma capacidade instalada, 1.500
casas funcionando, com uma certa experiência, muitos empresários interessados,
produtivos e muitos, realmente, sem nenhuma vocação empresarial, com outras
motivações e tal. Mas, de qualquer forma, você tinha uma capacidade instalada
funcionando e tal, não podia ser ignorado esse tipo de coisa, certamente.
Alguma, digamos assim, providência deveria ser tomada.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor falou em
motivações. Que motivações seriam essas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Desculpe, mas em que momento eu falei em
motivações?
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Agora, outras motivações,
o senhor falou....
O SR. EGYDIO BIANCHI – Espera, perdi o fio da meada.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pois não! Então vamos resgatar
um pouquinho a questão dos franqueados. Como o senhor citou na sua exposição a
preliminar, inicialmente essas franquias foram outorgadas sem licitação. À
época em que você estava nos Correios, o
senhor teve alguma informação ou constatação de fato de que políticos ou
pessoas com influência política estariam por trás dessas franquias?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Isso é voz corrente no setor, que a distribuição
dessas “cartas patentes”, vamos dizer assim, entre aspas, foi feita realmente
de uma maneira muito generosa e teria contemplado, assim, prioritariamente, os
setores ligados ao Parlamento brasileiro. Mas eu não tenho, confesso, nenhum
registro, a empresa não tem qualquer registro, e eu não tive nenhuma
constatação concreta de que tivesse isso ocorrido.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor teve, ou chegou a
ter, notícias, ou constatou fatos de que essas franquias, algumas delas, têm
laranjas como proprietários, de maneira que o verdadeiro proprietário está
oculto?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Há muitos indícios, Deputado, de que isso, de fato,
ocorre. Dava até, outro dia me dirigia pelos trajetos em São Paulo de
automóveis, quase que dá para cobrir uma sessão toda da Comissão de Inquérito.
Então eu via...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor podia precisar os
indícios?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Enfim, um dos indícios, uma senhora, detentora de
uma franquia dessa, que foi interrogada aqui.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sim.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não é. E realmente não tem como se admitir que
aquela pessoa tenha, minimamente, uma vocação empresarial ou que tenha chegado
a esse... É impossível. Então é uma dedução, evidente, porque eu não conheço o
caso específico dela.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Claro.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Mas casos como esse de imaturidade empresarial, de
irresponsabilidade, são freqüentes. Falta de preparo, eram freqüentes. Eu não
me lembro mais, não estou convivendo com esse setor agora, mas eram muito
freqüentes. De sorte que tanto o senhor pode ter laranjas, digamos assim, bem
formados, como laranjas absolutamente despreparados!
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Laranjas maduras e
laranjas verdes.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Isso pode ocorrer.
A minha percepção é
que existe. Eu não saberia lhe dizer, não tenho indícios, mas existe.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Deixe-me só complementar um pouquinho.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por favor, Senadora!
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Quando foram concedidas essas franquias? Qual
foi a época? Porque houve, depois, uma prorrogação. Mas a época foi qual?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Bom, a época nós não estávamos realmente no
governo, e eu quero crer que isso tenha sido feito no Governo Collor. Foi em
1990. E foi da ordem de grandeza acho que de umas 1.700, 1.800.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) –1.700.
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Eu digo isso porque algumas caíram durante o tempo. Foram cassadas, foram
eliminadas e tal. O número que eu tinha na cabeça agora – eu ainda tenho alguma
lembrança de ter mexido nesse número – é mil e quinhentas, mas o número
atribuído originalmente foi um pouco maior.
A SRª IDELI
SALVATTI (PT – SC) – E isso
teve prorrogação na Lei Postal. É isso?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Não, a Lei Postal não foi aprovada.
A SRª IDELI
SALVATTI (PT – SC) – Não
mexeu?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Isso foi objeto de uma iniciativa legislativa diferente.
A SRª IDELI
SALVATTI (PT – SC) –
Diferenciada?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Só para tratar desse assunto.
A SRª IDELI
SALVATTI (PT – SC) – Só
deste?
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja, então, à época, o senhor era contrário a
essa prorrogação, pelas razões obviamente expostas, e o Ministro Pimenta da
Veiga era favorável à prorrogação por lei. Quais as razões?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Eu não diria isso, Deputado. De fato, eu não tenho uma história
de relacionamento com o Ministro que me dê muitos elementos, nenhuma procuração
para defendê-lo. Antes, pelo contrário. Mas eu não gostaria de cometer uma
injustiça e dizer que ele era efetivamente contra. Ele, de certa maneira, era
sensível a essas pressões.
O SR. (Orador não identificado) – (Fora do microfone. Inaudível.)
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Não, ele era sensível a essas postulações. Tinha um temperamento
político e uma maneira de se relacionar com a sociedade e com os interesses
diferente da gente.
Nós vínhamos trabalhando, eu vinha nos Correios, há quatro
ou cinco anos. Conhecia a história da proposição, tinha uma intimidade com ela,
com os técnicos e tudo mais. É evidente que para nós tinha chegado ao ponto
final e não ao ponto inicial, e as pessoas retomaram as questões. Acho que é
uma questão de temperamento, de formação política, embora, mesmo atribuindo
isso à formação política, ao estilo político, eu, de fato, não concorde. Não
acho que isso é fazer política no século XXI, não é uma maneira correta,
adequada, de fazer política. De qualquer forma, era um pouco esse o
temperamento dele. Agora, dizer que ele era a favor da prorrogação ou não era a
favor da prorrogação, nunca ele me disse isso especificamente. Mas ele tinha
prepostos, tinha uma equipe, tinha pessoas que trabalhavam nessa direção. Tinha
o Secretário de Serviços Postais, que era quem dialogava com esse setor, de
certa maneira quem dialogava também com o Marcelo Barbieri.
Agora, o trabalho do Barbieri...
O SR. (Orador não identificado) – Posso esclarecer, só porque eu estava nesse período? Eu
assisti e votei nessa época. Foi lobby interno aqui no Congresso. Não
tinha nada a ver com o Executivo. Foi um lobby interno no Congresso para
a prorrogação do prazo.
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. Mas voltando a V. Sª, relativamente,
então, a essa questão dos franqueados, o senhor, como Presidente dos Correios,
recebeu gestão de pessoas, da área político-parlamentar ou do Executivo para
beneficiar essa ou aquela franquia especificamente?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Não, em geral, pelo meu perfil de atuação, que rapidamente se difundiu,
especialmente no Planalto, as pessoas não tinham muita, digamos assim,
disposição, muita coragem de fazer chegar a mim proposições dessa natureza, de
forma...
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sr. Presidente, vou fazer uma sugestão porque acabo
de ser informado que a Câmara dos Deputados está em votação nominal. Como a
Senadora Ideli Salvatti não está sendo convocada para essa votação por ser
Senadora e está inscrita para argüição, eu proporia, Sr. Presidente, que eu me
ausentasse para votar e a Senadora faria a sua argüição. V. Sª também iria votar e não precisaríamos,
necessariamente, fazer essa interrupção neste momento.
O SR. (Orador não identificado) – (Fora do microfone. Inaudível.)
O SR. RELATOR (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não, nós permaneceríamos revezando, eu e o Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Asdrubal
Bentes. PMDB – PA) – Exato. Então, V. Exª pode ir. Eu aguardo.
O SR. RELATOR
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Eu vou. Depois eu retomarei a minha
argüição.
O SR. PRESIDENTE (Asdrubal
Bentes. PMDB – PA) – Com a palavra a Senadora Ideli Salvatti.
A SRª IDELI
SALVATTI (PT – SC) – Deixa só
eu me organizar aqui um pouquinho, Sr. Presidente, porque eu não estava
preparada para falar em seguida.
Eu queria continuar
um pouco nessa linha da questão da... Nós tivemos o depoimento, na semana que
passou, da pessoa que o substituiu lá nos Correios, depois que o senhor foi
demitido. Na explanação, ele foi muito contundente no sentido de que, durante o
período em que ele administrou, esteve à frente da Presidência dos Correios, os
Correios sofreram uma profunda remodelação, inúmeros processos de
aperfeiçoamento tecnológico... Até porque o Marinho, na segunda presença dele
nesta CPMI, declarou, no seu depoimento – ele fala muito contundentemente –,
que as principais irregularidades, o volume maior dos contratos que envolviam
recursos mais vultosos foram exatamente no período do Hassan Gebrin. Então, eu
queria ir um pouco nessa lógica ainda.
Há uma reportagem da ISTOÉ
que trata de um embate político entre o Pimenta da Veiga e o Mendonça de Barros
a respeito da história de como seria montada a empresa reguladora do setor de
comunicação. Pelo que eu entendi da reportagem, a proposta do Sérgio Motta era
de trabalhar na lógica de uma Agência Nacional de Comunicação, a Anacom, e isso
acabou sendo um grande embate.
Nesse processo, a
reportagem coloca que o Pimenta da Veiga estaria abandonando o projeto do
ex-Ministro Sérgio Motta e que o Sérgio Motta havia mudado de idéia a respeito
da Anacom, que teria dito isso a amigos, e que essa afirmação enfureceu o
Mendonça de Barros, o Deputado Federal – é pena que S. Exª saiu – Alberto
Goldman e o ex-Presidente dos Correios Egydio Bianchi.
O senhor confirma
essa disputa a respeito da maneira como seria regulamentado, ou seja, como
funcionaria a agência reguladora do setor de comunicações?
Inclusive, há aqui
uma afirmação: “... ‘Eu era amigo confidente, uma pessoa para quem o Sérgio
abria suas idéias. Se alguém pudesse ser depositário dessas preocupações, seria
eu, não o Ministro, que era inimigo dele’, disse Mendonça. Em coro, os tucanos
disseram desconhecer a suposta mudança dos planos de Serjão. Bianchi, demitido
quando Pimenta assumiu a Pasta, chamou o novo projeto de mesquinho e
eleitoreiro”.
Então, eu queria que
o senhor pudesse nos explicar se efetivamente houve essa disputa...
O SR. EGYDIO BIANCHI – Pois não.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – ...por que, o que estava por trás dessa
disputa, por que acabou não saindo a Agência Nacional de Comunicação, Anacom.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Pontualmente.
A idéia do Ministro
Sérgio ia um pouquinho mais adiante. Ele propunha que, dentro da tese de acabar
com o Estado empreendedor, com o Estado patrão, com o Estado executor da
atividade econômica, que, em determinado momento... Ele dizia: “Vou perder o
emprego porque proponho que o Ministério das Comunicações deixe de existir”.
Ele tinha um sonho de ter um grande Ministério de infra-estrutura, que também
não seria um Ministério operador, executivo, empresário, mas seria o gerador
das políticas e tal, e uma agência reguladora totalmente independente, que ele
raciocinava, naquele momento, como uma agência única, uma agência única para a
área de comunicações.
Como ele trabalhou só
a primeira parte do projeto – não teve fôlego, não teve vida para dar
seguimento ao projeto dele de reforma de todas as comunicações –, a Anatel
passou a se dedicar única e exclusivamente ao setor de telecomunicações, que
era o que havia sido objeto da reforma, uma reforma teoricamente bem-sucedida.
Ele também
pretendia... O Ministro Sérgio, a bem da verdade, pretendia que, quando
tivéssemos terminado a questão da reforma dos Correios, que ela viesse a ser
incorporada.
Agora, Senadora e demais Parlamentares, vou confidenciar,
revelar uma coisa do nosso engenheiro Motta. O engenheiro Motta era contra a
privatização do sistema, sempre foi. Ele era contra. Mas ele teve a sabedoria
de estudar, aprender e tal, e se convenceu, convenceram-no de que o Brasil não
faria a reforma das comunicações se não fosse por essa via. Pode-se discutir a
forma como foi feita ou não foi feita, mas ele mudou de opinião a esse
respeito. Portanto, ele era passível de mudar também. Mas, nessa questão de
Anatel e Anacom, jamais ele mudou, jamais teria mudado, e endosso inteiramente
as palavras do ex-Ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros: se tivesse mudado,
teria dito a ele, pois eram amigos realmente muito íntimos e conviviam aqui no
Planalto, cada um em seu setor de atividades; conviviam socialmente, tinham
amizade profunda e eram confidentes. De forma que não mudou não.
Se a Srª me permitir, vou um pouco além, e gostaria de fazer
um comentário que ajuda a compreender um pouco as coisas. O Ministro Pimenta da
Veiga não ajudou as coisas da comunicação. Ele não teve a compreensão exata, a
percepção, a grandeza técnica e política de compreender realmente as
necessidades do setor. Ele não estava identificado efetivamente com as
proposições que eram feitas.
Didaticamente, dá para enxergar o setor no Brasil em torno
de três grandes segmentos: telecomunicações, a radiodifusão e o setor postal.
Na questão da radiodifusão, perdoe-me o jogo de palavras, ele foi um pouco
precursor das pessoas que, no atual Governo, insurgiram-se contra as agências
reguladoras. O Governo a que ele pertencia havia instituído praticamente a
primeira agência reguladora operando com funções, mas ele trabalhou de maneira
muito prática e concreta para esvaziar as agências. Acho que não tanto por
conceito, mas porque ele achava que os ministérios tinham que ser fortes, e o
Ministro que acabava de sair dizia que o Ministério ia ser extinto – era essa a
visão que ele tinha. Pois bem, com esse objetivo de fortalecer o Ministério,
ele teve que olhar para as atribuições da Anatel, e começou todo um embate
muito forte nessa questão com a Anatel. E acho que o Ministro Pimenta da Veiga
teve um desgaste muito forte –porque é um setor muito técnico, com muita
tradição e experiência - ao esvaziar um pouco a Anatel. Um esvaziamento
concreto que ele conseguiu foi relacionado ao tal fundo, o Fust, que acabou
saindo do âmbito da Anatel. De fato, ele se insurgiu um pouco contra a Anatel,
achando que as agências reguladoras não poderiam ter essas funções, que
precisavam ser uma coisa mais leve. Ele não gostou do modelo. Portanto, no que
já estava feito, ele tentou desestabilizar um pouco o modelo, voltando um pouco
atrás e fortalecendo o Ministério, porque ele achava que o Ministério não tinha
prerrogativas.
Na parte da lei postal, o mínimo que posso dizer é que ele
não foi feliz na condução política, foi um pouco alheio à maneira como tecnicamente
esse projeto foi formulado, e realmente se perdeu um pouco no estilo dele de
ouvir, de conduzir. Não gostaria de usar uma expressão, pois acho que falamos
politicamente e se pensa que se está fazendo um achincalhe; não é isso, mas foi
uma coisa de fazer política com “p” minúsculo. Acho que ele não foi bem. Acho
que ele não soube conduzir, e a reforma do setor postal foi realmente para o
brejo.
Quanto à radiodifusão, que era outra função que se esperava
dele, ele fez realmente um projeto absolutamente sem precedente na história do
País: nenhum setor conseguiu se interessar pelo projeto.
Então, creio que ele não deu uma contribuição adequada para
o País na área de comunicações. Ele quase que estragou o que já estava feito: a
proposição do setor postal, que foi um projeto elaborado durante um ano, com
grandes talentos da área internacional, ele praticamente jogou fora; e a
iniciativa dele na área de radiodifusão foi uma coisa desastrada. Então, essa é
a visão que tenho da participação dele na área de comunicações.
No tocante a se dizer que ele mudou de idéia quanto à
Anacom, não mudou nada – embora não fosse um homem com capacidade de mudar de
idéia quando ele realmente era convencido do contrário. Mas, nesse particular,
nenhum esboço jamais eu vi nessa direção. Portanto, dou razão ao Luiz Carlos
Mendonça de Barros.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Inclusive, segundo outros trechos da reportagem
que saiu na ISTOÉ em 2001, o Sérgio Motta sonhava com uma única agência,
autônoma e impermeável às questões políticas, responsável pela regulação de
todos os setores da comunicação no País. No futuro, o plano era eliminar a
própria Pasta que ocupava, para afastar da esfera política todas as decisões
referentes à área, acabando com um dos esquemas mais arcaicos de barganha e
favorecimento, que é exatamente a aprovação das concessões, que foram um grande
balcão de negócios e há um histórico de influência política no Ministério das
Comunicações, principalmente – a palavra do Mendonça – na gestão do Antonio
Carlos Magalhães, que ocupou a pasta entre 85 e 90 e que entrou na briga dos
Tucanos para se defender.
Há, ainda, em outro
trecho que coloca que o Pimenta cria mecanismos facilitadores para o
empresariado e o Ministério continuarem sendo um balcão de negócios das grandes
empresas de comunicação eletrônica. Palavras do professor da UnB, Murilo Ramos.
Parece-me que essa questão ainda da agência reguladora e da forma como foi
conduzida, tinha a ver com esta utilização política, principalmente das
concessões.
Mas o senhor entrou
numa outra questão, ao me responder, que eu quero também tratar. Quanto o
senhor falou dos grandes interesses internacionais envolvidos na questão da lei
postal, etc. Eu gostaria de saber se as empresas interessadas o senhor pode
confirmar: TNT Logística.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Senadora, é simples. Essas empresas agiram durante toda a
lei – e agem na defesa dos seus interesses – de uma maneira organizada. Existe
uma associação nacional dessas empresas e elas têm, seguramente, um número de
associados muito maior do que aquelas que eu citei. Eu não saberia lhe dizer se a TNT Logística
tem ou está ou não associada. Eu falei algumas, até mesmo porque os dirigentes
dessas empresas também eram dirigentes da associação. Então, isso confundia um
pouco.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Acaba se confundindo um pouco.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Mas há muitas. Acho que todas que são internacionais ou
operam são dessa associação. Então, não é difícil saber a qualquer instante
quem são os associados.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – UPF, FedEx, DHL?
O SR. EGYDIO BIANCHI – DHL é uma empresa internacional importantíssima. FedEx,
igualmente.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – A representação. Como são empresas ligadas à
questão do transporte, qual é o papel da Confederação Nacional dos Transportes
nesse processo do lobby dos interesses na modificação da legislação?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não consegui identificar claramente quais eram as
objeções e nem quais eram as intenções. Apenas, notar que houve um certo
desconforto no setor, que achava que nós do setor postal estávamos extrapolando
as nossas competências e, de certa maneira, invadindo a área privativa dos
transportes. Se formos buscar as memórias desses debates, talvez eu até
conseguisse localizar exatamente. Essa era a objeção geral.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Eu estou fazendo até para poder explicitar por
que eu estou fazendo essa pergunta e tentando ver se há algum vínculo ou não.
Por quê? Se há alguma interferência ou se houve alguma interferência da Confederação
Nacional dos Transportes, há um elo – como o que estamos tratando aqui também
na CPMI dos Correios – que é a presença do Sr. Clésio Andrade, como tendo sido
sócio inicial do Marcos Valério nas empresas da SMP&B e DNA. É por isso que
estou querendo saber se é do conhecimento do senhor alguma interferência da
Confederação Nacional dos Transportes no interesse dessas empresas
multinacionais.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não vejo nenhum nexo. Que eu saiba, não há nenhum
registro, nenhum nexo causal. Posso lhe dizer que o que sei desse conflito
captado na época é que eles entendiam que, como nós estávamos... É claro que o
transporte é uma coisa vital na atividade postal, não há atividade postal sem
transporte aéreo, ferroviário, rodoviário ou por bicicletas. É claro que o
transporte está presente. Eles entendiam que algumas formulações do nosso
transporte excediam a nossa área de competência e estavam se imiscuindo na área
do transporte. Isso que eu sei que era a objeção central. Mas não há nenhum
nexo causal direto entre o Sr. Clésio. Não tenho registro de fato.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Durante o seu período e na seqüência, no
período do Hassan Gebrin, nós tivemos essas questões que envolveram recursos
vultosos. Por exemplo, essa questão das empresas de entrega expressa, tenho
aqui uma reportagem do ano de 2000, da Mônica Bergamo, que diz que o que estava
em jogo era algo em torno de US$20 bilhões nos próximos dez anos. Numa década,
uma movimentação da ordem de US$20 bilhões. Portanto, o jogo que esteve colocado
nessa guerra das empresas e tal não foi muito simples.
Na reportagem da
Mônica Bergamo, há uma colocação de que o senhor estava preocupado em garantir
o monopólio para a estatal e usavam termos como “retrógrado” para se referir ao
senhor. De toda forma, o que as empresas queriam era todo tipo de desculpa para
tentar se livrar da fiscalização da futura agência postal. Aqui na reportagem
diz que também o lobby das franquias atuaram nessa tramitação,
fartamente distribuídas no ano passado para apadrinhados de políticos. A
reportagem diz, inclusive, que o genro do Inocêncio Oliveira era dono de uma.
Então, eu queria que o senhor me explicitasse este tipo de movimentação que
houve e essa disputa efetiva por esse bilionário mercado que esteve em disputa
durante o seu período e, na seqüência, do Sr. Hassan Gebrin.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Veja bem, a nossa percepção, dos profissionais dos
Correios que estudaram a área postal, a atividade postal, ao longo dos anos,
vai se metamorfoseando e vai se adaptando às novas demandas, às novas
tecnologias, e nós percebemos, nitidamente, que estamos vivendo a era das
encomendas. As encomendas tinham uma função assim um pouco subsidiária, era uma
coisa não predominante, mas, quando os Correios vão perdendo substância nas cartas,
que é uma coisa mais tradicional, ele vai substituindo por novas tecnologias,
ele adota o Correio Híbrido. Os correios no mundo todo – não é questão que os
brasileiros queriam fazer isso não. Todos os correios oficiais do mundo são
grandes transportadores de encomendas. E, especialmente na era do e-commerce,
na era das compras, é claro que eles ganharam um papel muito relevante. Então,
nós aqui no Brasil estávamos de olho em habilitar os Correios, e ele está
habilitado em grande parte hoje. As encomendas geradas pelo sistema do e-commerce,
em grande parte, são transportadas pelos correios brasileiros, habilitado para
poder fazer isso. É um novo papel, uma nova forma de prestar serviços à
sociedade. Portanto, uma fatia de mercado muito ampla.
Não há, objetivamente,
no projeto nada que proíba qualquer empresa nacional ou multinacional de
exercer a sua função, absolutamente não há nenhuma razão para que as
multinacionais, exceto o controle da agência reguladora. A agência reguladora
queria que esses players, que esses agentes do processo se inscrevessem,
registrassem-se. Insurgiram-se contra isso. O projeto, pelo contrário, se tinha algo a ver com a
questão de privatização ou não, acabava com o monopólio da ECT, ele marcava
data para acabar o monopólio, marcava duas datas: ou cinco anos ou dez anos no
que há de monopólio. E o que há de monopólio hoje são as cartas. O que é
importante para os Correios no atual são as cartas e as correspondências
bancárias, que é um volume imenso.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Quer dizer, o filé mignon mesmo, aquele
dos bilhões, este foi flexibilizado.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Perdão. Não entendi, Senadora, o raciocínio.
A
SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – É porque o senhor está dizendo que o que
acabou ficando no resultado foi apenas o monopólio das cartas.
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Não. Isso sempre existiu. O que chama o correio de monopolista sempre existiu
em torno das cartas, nunca nas encomendas. Nunca houve monopólio nenhum. Então,
não há razão de as multinacionais, ou quem quer que seja, se insurgirem contra
a posição dos Correios. Pelo contrário, os Correios estão defendendo o
aparecimento de mais players. A lei está abrindo as portas só que de uma
maneira regulada. Essa era a única exigência.
Nós tínhamos exemplo do que a Argentina fez na área de
correios e o que fez na área de telecomunicações, de tentar regular depois que
todo mundo já estava no mercado. Então, você não consegue fazer mais isso.
Então, a idéia era criar uma plataforma reguladora...
A SRª IDELI SALVATTI (PT
– SC) – Mas havia divergências entre a posição que o senhor estava defendendo e
a que o Pimenta da Veiga estava defendendo nesses assuntos de grande vulto.
O SR. EGYDIO BIANCHI – É bem possível, mas eu não me lembro assim precisamente.
Não, não. Realmente, a nossa convergência não era muito freqüente. Então,
aposto que pudesse estar havendo realmente alguma divergência nessa matéria.
Mas o que eu queria precisar é que esse negócio fabuloso de bilhões e bilhões,
ele está colocado aí. Ninguém ou a lei nunca criou qualquer empecilho para que
ele acontecesse, não criou nenhuma restrição, e tampouco protegeu a ação
brasileira da ECT. O que a lei colocava, em matéria de monopólio, é que ela
quebrava o monopólio da ECT, o que é uma coisa que já existe. E não em encomendas,
nunca foi em encomendas, porque nunca existiu “encomendas”, e não haveria o que
quebrar.
Ao que a ECT se
propunha, nessa discussão toda, era abrir mão do seu monopólio. Pedia cinco
anos para se reaparelhar, para se rediscutir, mas nada a ver com a área de
encomendas, que nunca foi objeto de monopólio.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – É porque a sua demissão foi extremamente
ruidosa. Não foi uma demissão tranqüila; foi extremamente ruidosa, e inclusive
propiciou uma ida do senhor ao Presidente, à época, em uma longa conversa
registrada pela imprensa.
O senhor saiu falando
de inúmeras irregularidades que vinham sendo cometidas, que estariam sendo
cometidas ilegalidades nos Correios, e que o senhor estava assim se insurgindo
contra isso. E me parece que, se há disputas tão significativas, como disputas
de mercado de bilhões – vinte bilhões em dez anos, não é em qualquer nicho de
mercado uma disputa dessas – parece-me que essas deveriam ser, do meu ponto de
vista, questões centrais que estavam na disputa entre as posições que o senhor
exercia como Presidente dos Correios e o Sr. Ministro Pimenta da Veiga.
O SR. EGYDIO BIANCHI – É uma interpretação. Mas posso com muita segurança lhe
dizer que, embora essa questão do mercado milionário exista, e ele continua
existindo para todo mundo, o que as empresas multinacionais especialmente
queriam era trabalhar sem a ação de uma empresa reguladora. Elas não
reivindicavam nada, absolutamente nada. Agora, é claro, o negócio continua
sendo milionário, e evidentemente que os interesses se jogam em torno deles.
Mas eu posso lhe garantir que ninguém ficou com essa ou aquela vantagem. A
vantagem é que o projeto não foi adiante e não teve uma agência reguladora.
Essa a vantagem que elas ganharam.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Então, deixe-me fazer as perguntas pontuais,
pois já tocou o sinal do meu tempo, se o Deputado José Eduardo Cardozo me
permitir; mas a reportagem que tenho nas mãos é “Barraco tucano. Demitido dos
Correios, Bianchi alia-se à viúva de Serjão para torpedear Ministro.” E lista
as peripécias. “Eis as peripécias que Bianchi denuncia.” Vou ler uma a uma e
quero que o senhor confirme-as ou não.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Perdão, Senadora, interrompê-la um segundinho. V. Exª se
refere a irregularidades, que eu teria restrições a essa expressão. Agora, as
peripécias...
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Não, mas a palavra “peripécias” é como consta na
revista. Não são minhas palavras, não. As irregularidades é depois, na minha
pergunta, mas estou lendo aqui o que está escrito. Vou até ler o que está
escrito:
“Eis as peripécias
que Bianchi denuncia. Diz que quando cancelou o contrato da Empresa de Correios
e Telégrafos com a Vasp, porque a empresa apresentara documentos falsos,
Pimenta não gostou. Ele me chamou no gabinete dele e lá encontrei os Senadores
José Roberto Arruda e Romero Jucá, que fazem lobby para a Vasp. Pimenta me
constrangeu de forma acintosa. Queria que eu revisse a decisão de cancelar o
contrato com a Vasp.” – isso tudo está entre aspas – “Jucá confirma o encontro,
mas diz que o assunto era um plano de reformulação do setor aéreo, estudado
pelo Senado, no qual a Vasp se sentia prejudicada. Ele disse que foi ao
gabinete do Ministro pedir apenas a sua compreensão para a Vasp.”
O SR. EGYDIO BIANCHI – A questão Vasp. Nós vivemos a questão Vasp. Eu tenho aqui
os gráficos de performance da Vasp como operadora a serviço dos Correios, quer
dizer, a quantidade de atraso, a carga que ela prejudicou, o número de
cancelamento de vôos, enfim, a deterioração dos serviços de correios,
proporcionado pela Vasp, que, aliás, era decadente também na aviação comercial
comum, de passageiros. Tanto que o que aconteceu o Brasil todo conhece e sabe
das deficiências e das limitações da Vasp. Nós não tínhamos nenhuma outra saída
que não a de cancelar efetivamente o contrato da Vasp. Ela era inadimplente em
relação à companhia, inadimplente em relação ao Governo Federal, e, mais ainda,
ela falsificava os CNDs para se candidatar ao recebimento dos recursos. E nós
não podíamos. Recebíamos representação de Procuradorias chamando a atenção de
que não podíamos pagar uma empresa que não apresentasse os documentos
normalmente exigidos pelo Poder Federal. Eu disse – acho que a senhora não
estava presente ainda – que descobrimos posteriormente que essa CND é de uma
padaria no Rio de Janeiro. Então, não havia como, nem se quiséssemos, voltar
atrás. Era absolutamente ilegal.
Usamos uma saída
muito engenhosa que foi a seguinte: o INSS está disputando um dinheiro que
devemos à Vasp. Nós queremos pagar, só que não podemos pagar. Então, fomos ao
juízo, recolhemos em juízo essa quantia e deixamos a Vasp brigar com o INSS
para ver quem tinha direito a esses recursos.
Agora, quanto a essa
entrevista que a senhora menciona...
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Por que aqui na reportagem diz que o Pimenta não
gostou e o chamou ao gabinete. Então, essa é a pergunta...
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Ele deve ter sido... veja bem,
uma autoridade maior, no setor de comunicações, como era o Ministro, e com o
temperamento sensível, ao ouvir os segmentos da sociedade, os que se sentiam
prejudicados, em particular, com essa medida, era natural que a Vasp, em grau
de recurso, fosse recorrer a ele, porque havia terminado o nosso diálogo, não
tinha mais como dialogar, não tinha mais espaço, nem legal, nem operacional.
Então, quanto ao fato de ele ter sido visitado pela Vasp,
isso é uma coisa perfeitamente compreensível. E ele não estava, de fato, quando
nos chamou, consciente do nível de inflação e do nível de irregularidades na
ação da Vasp. Ficou sabendo nessa reunião exatamente.
Para meu espanto, para minha surpresa, os Senadores então
presentes também se surpreenderam com essas irregularidades todas e,
naturalmente, deixaram de fazer seus pleitos. O importante que gostaria de
frisar é que, a despeito dessas questões, não se consumou a principal saída,
não se consumou a saída de favorecimento ou a volta atrás. O que aconteceu foi
um temperamento político que, de certa maneira, se antepunha um pouco ao rigor
das decisões técnicas. E era o nosso caso. E falaram: mas, porque você falou
isso para o jornal? Eu estava muito cansado, estava exausto...
A SRª IDELI SALVATTI (PT
– SC) – Isso foi bem próximo da sua demissão, mais longe, o senhor distancia ou
não?
O SR. EGYDIO BIANCHI –
Bom, nas proximidades, corretamente ou não – assumo naturalmente a
responsabilidade pelo que falei – na minha saída achei uma hipocrisia dizer que
era problema de razões de procedimento administrativo. Tem muito mais do que
procedimento administrativo. Então, veio, de fato, uma matéria.
A SRª IDELI SALVATTI (PT
– SC) – Mas, qual é a distância dessa reunião que o Pimenta chama ao gabinete
dele para tratar dessa questão da Vasp e a sua demissão?
O SR. EGYDIO BIANCHI –
Não sei lhe dizer. Questão de meses talvez. Cinco meses, seis meses -
imagino, não tenho muita segurança.
A SRª IDELI SALVATTI (PT
– SC) – Não sei se o Deputado Eduardo me permite. Teria ainda outras coisas e
sei que tem outros inscritos.
O SR. PRESIDENTE (Asdrubal
Bentes. PMDB – PA) – Há poucos inscritos, Senadora.
A SRª IDELI SALVATTI (PT
– SC) – Posso me reinscrever.
O SR. PRESIDENTE (Asdrubal
Bentes. PMDB – PA) – Em especial referência a V. Exª e não havendo tantos
inscritos assim, prossigamos.
A SRª IDELI SALVATTI (PT
– SC) – Continuando aqui na lista das peripécias. Bianchi conta que foi
pressionado a aceitar que a Mercedes-Benz entregasse quinhentos veículos de 98
à ECT e não do ano de 99, como definia o edital de licitação da compra. A
pressão vinha de dois diretores, ambos nomeados por Pimenta da Veiga. Um era o
Diretor de Tecnologia da ECT, Éder Pinheiro, cuja família tem uma revendedora
da Mercedes-Benz em Brasília. O outro era o Diretor de Administração, Afrânio
Rodrigues, amigo de Pimenta da Veiga há quatro décadas. A licitação foi anulada,
fez-se nova concorrência e quem venceu foi a mesma Mercedes-Benz que entregou
os carros do ano.
O SR. EGYDIO BIANCHI –
É, seguramente isso existiu e havia pressões de várias naturezas no sentido
de que acolhêssemos o resultado da primeira licitação. Mas não acolhemos esse
resultado. Finalmente ganhou uma empresa que era a representante. Uma
preliminar que acho muito importante: nós quebramos, nessa oportunidade, o
chamado monopólio do motor a gasolina. Toda a frota dos Correios estava
construída em torno das Kombis. Não tivemos nada contra, mas era realmente um
combustível oneroso, era uma manutenção cara, e não era o carro mais eficiente.
Os Correios sempre perseguiram essa questão de buscar os
carros a diesel, e não eram tantas montadoras que trabalhavam com esse carro.
Evidentemente, a Mercedes-Benz tinha e tem um dos melhores utilitários e havia
um grande interesse de que os fabricantes de diesel se apresentassem e
ganhassem. Nunca se conseguiu colocar nas licitações esse tipo de coisa na
história dos Correios. Nós conseguimos, de fato.
Agora, quem ganhou – a primeira foi cancelada; a segunda
realizada – quem ganhou foi uma licitação resolvida no final do ano e a entrega
dar-se-ia no começo do ano seguinte, em decorrência normal de um
processo de licitação. Acontece que a empresa interpretou que, como a licitação
começou no ano “n” que ela poderia entregar os carros, porque ela já estaria
comprometida. Provavelmente, já tinha algum negócio, alguma negociação com a
montadora. E nós não aceitamos. Nós queríamos para o ano da entrega. Só que, se
ganhássemos uma licitação no ano, sei lá, de 95, e demorasse três anos para
entregar o veículo, receberíamos um veículo de 95 e de 98? Não era possível.
Então, fizemos o (Inaudível.) e fizemos um altíssimo negócio, porque
elas tiveram que se render à evidência da nossa posição, da legalidade da nossa
posição, e nós não nos vergamos às pressões. As pressões existiram exatamente
nas companhias vencedoras do pleito. Que, ocasionalmente...
A SRª
IDELI SALVATTI (PT – SC) – E a pressão dos dois diretores é
correta? Existiu? Do Éder Pinheiro e do Afrânio Rodrigues?
O SR.
EGYDIO BIANCHI – Veja bem, eu era Presidente e sempre tive um
temperamento muito forte de gestão, de relacionamento. Essas pressões eram
muito sutis. Não havia coragem de abordar com pressões e tal, mas havia; havia
realmente pressões. E uma, em particular, tinha uma relação de parentesco com
a...
A SRª
IDELI SALVATTI (PT – SC) – Com o Ministro...
O
SR. EGYDIO BIANCHI – Tanto que ele foi afastado de qualquer tipo de
processo interno. Não opinava, não votava. Ele mesmo percebeu, digamos, a
contradição e afastou-se. Mas, na hora das pressões, havia pressões;
evidentemente que havia pressões.
A
SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Aí, continua a questão do Sr. Afrânio
Rodrigues, continua a reportagem dizendo que o senhor, Bianchi, acusa o Sr.
Afrânio Rodrigues, o Diretor de Administração, de recorrer a amigos,
corretores, para comprar e vender imóveis dos Correios em todo o País.
“É um absurdo. Os Correios têm toda uma estrutura para
comprar os imóveis diretamente. O amigo de Pimenta inventou a figura do
corretor. Quem é inteligente deve saber o porquê”. O senhor até informa que
jamais recorreu à corretagem em seus negócios imobiliários.
O SR.
EGYDIO BIANCHI – Então, exatamente. Os Correios têm uma
capacidade instalada, têm um capital, digamos, intelectual suficiente para
comprar terreno. É uma das maiores organizações imobiliárias; têm dependências
operacionais, têm cadeia de agências monstruosas e, de fato, têm mecanismos
muito claros. E houve uma iniciativa desse diretor de trazer a figura dos
corretores, que, evidentemente, foi absolutamente rechaçada. Agora, na hora da
prestação de contas, eu realmente me lembrei de todas essas pressões, essas
distorções e relatei. Mas não foi acolhido e eu quase que desafiaria qualquer
um a localizar uma transação imobiliária dos Correios que tivesse tido a
participação dos Correios. Não foi aceita a forma. Agora, foi uma novidade.
A SRª
IDELI SALVATTI (PT – SC) – Mas foi tentado. Afrânio Rodrigues
tentou fazer essa corretagem...
O SR.
EGYDIO BIANCHI – Sem grande convicção, mas foi, porque, veja
bem, eu disse, no começo, que levantamos um processo de investimento da ordem
de 500 milhões anuais. Apenas 10 vezes mais do que os Correios haviam feito até
aquela data, em termos de médias anuais. Não houve a concretização desses 500
milhões anuais, dos quatro bilhões. Mas citei, no começo, Senadora, que foi
atendido em 67%. Isso dá dois bilhões e setecentos bilhões. Realmente, recursos
que a empresa, teoricamente, nunca havia visto. Foi, realmente, uma quantidade
imensa de investimentos de alta tecnologia, e isso – eu não vou nem dizer nem
desdizer ao Hassan Gebrin – isso começou com um plano chamado Paste, que era um
Programa de Recuperação e Ampliação do Sistema de Telecomunicação e do Sistema
Postal brasileiro.
A SRª
IDELI SALVATTI (PT – SC) – O Afrânio Rodrigues continuou
quando o senhor saiu?
O SR.
EGYDIO BIANCHI – Ele não foi solidário, realmente!
A SRª
IDELI SALVATTI (PT – SC) – Ele continuou, porque temos, no
depoimento do Hassan Gebrin... Inclusive, estamos apresentando um requerimento
para fazer um levantamento cartorial, porque há fortes suspeitas de ter havido
questões ligadas à compra e venda de imóveis.
O SR.
EGYDIO BIANCHI – Eu, francamente, afirmaria, no que me é dado
a conhecer e perceber, que nenhuma operação imobiliária se deu. Agora, que a
licitação no mercado era enorme, era. Tem-se de fazer investimentos vultosos em
Minas, em São Paulo, Rio de Janeiro. Todas as capitais seriam alvo de
instalação, de dependências operacionais, de verdadeiras indústrias.
Então, havia, realmente, uma movimentação. E, naturalmente,
a licitação do mercado imobiliário é muito grande. Não é que ele inventou ou
deixou de inventar. Nós éramos procurados
também por corretores em Minas e em São Paulo, uma quantidade imensa de pessoas
oferecendo coisas, oferecendo via Deputados da sua confiança, da sua amizade,
enviando propostas por escrito. Acho até natural essa excitação toda. Tem
dinheiro, tem recursos. Os Correios sempre foram uma empresa muito correta nas
suas obrigações financeiras. Então, acho que essas pessoas naturalmente viam
oportunidade de fazer negócio. Agora, no que isso constou das iniciativas de um
diretor foi absolutamente rechaçado, não houve nenhum acolhimento desse tipo de
conduta, e as coisas foram feitas como nós sempre fizemos.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – A última questão que está na lista, para já
poder passar a palavra ao Deputado Sílvio, é que há uma referência à questão da
dívida de gastos postais em campanhas eleitorais do PSDB mineiro. Houve uma
solicitação de parcelamento, e há inclusive a confirmação de uma negociação, e
o PSDB pagará a dívida em dezoito parcelas. Então, queria que o senhor pudesse
confirmar se isso ocorreu ou não.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Francamente, ocorreu, sim. Ocorreu. A nossa gestão...
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – É uma dívida e R$1,2 milhão.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não lembro mais os valores, francamente. Mas, por
consciência pessoal, profissional e de cidadão, todas as eleições
intermediárias, nós criamos mecanismos de abrir as portas dos Correios para
todas as agremiações, indiscutivelmente todas as agremiações. Fazíamos chegar
aos partidos os serviços que estavam disponíveis realmente, até criamos
gerências especiais para nessas ocasiões estarem disponíveis, realmente, por
uma crença pessoal e profissional de que os Correios deviam estar a serviço de
qualquer exercício democrático dessa natureza. Agora, uma certa frustração
porque, depois de usufruir esse serviço, várias agremiações – eu diria, no
mínimo, três – deixaram de nos pagar. E aquilo eram coisas controladas, nós
tínhamos reuniões para...
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Quais as três? O senhor pode citar?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não estou muito seguro, mas uma, seguramente, era o PSDB.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Que não pagou? Negociou e não pagou?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não pagava até um certo momento, e nós naturalmente nos
insurgimos, até por uma questão de proximidade com a própria agremiação. Não
será o PSDB que deixará de pagar um serviço dessa natureza. Houve, de fato,
algum tipo de dificuldade, mas isso, pelo que eu soube posteriormente, foi
equacionado e foi pago, assim como das outras legendas, se não me engano, uma delas
era o PTB, que até fazia um jogo assim: “Puxa vida! Dos tucanos vocês não
cobram, mas cobram da gente”. “Não, nós cobramos de todo mundo”, e foi assim
que fizemos.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Por conta dessas irregularidades que o senhor
denunciou, o Ministro Pimenta da Veiga chegou a processar o senhor? Porque ele
ameaçou. Chegou a processar?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não. Eu acho que ele não teria nem fundamento nem coragem
para fazer isso. Não faz sentido.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Eu tenho mais questões, mas vou-me reinscrever.
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – V. Exª se reinscreve.
Deputada Denise Frossard.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Sr.
Presidente, há uma questão aqui. Eu gostaria de submeter um requerimento a V.
Exª, naturalmente com a oitiva dos Pares que aqui se encontram. Nós temos aqui
um último depoente, que é o Sr. Kress, que é a questão das franquias. Então,
obedecendo a essa seqüência, talvez fosse bom a inversão. É o que requeiro, se
não houver oposição dos Pares.
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – Consulto as Srªs e os Srs. Deputados e as Srªs e os Srs.
Senadores. (Pausa.)
De acordo.
Então fica determinada a inversão. Nós ouviremos primeiro
então o depoente citado pela nobre Deputada Denise Frossard.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Muito
obrigada, Sr. Presidente; obrigada, colegas.
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – Então, eu retomo um pouquinho a argüição, posteriormente o
Deputado Silvio Torres e a reinscrição da nobre Senadora Ideli Salvatti.
Eu acompanhava a
argüição da nobre Senadora Ideli Salvatti, inclusive com alguns pontos
concretos, e eu gostaria da fazer uma pergunta ao senhor, porque o senhor disse
claramente que o ex-Ministro Pimenta da Veiga tinha uma forma antiga de fazer
política e que talvez nisso estivesse a sua divergência. Mas, pelo depreendi de
algumas respostas que V. Sª deu às minhas inquirições e também às da Senadora
Ideli Salvatti, me parece que talvez a divergência é mais do que forma, mas uma
questão ética mesmo, uma compreensão ética diferente da coisa pública. Seria
isso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não saberia, quer dizer, minha formação inclusive é na
área industrial e talvez não permitisse classificar essa coisa no campo da
ética, mas seguramente de convicções e posturas absolutamente diferenciadas.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sim, porque quando se fala de corretagem,
quando não precisa, temos aí toda uma série de colocações que foram feitas V.
Sª fala que a máquina administrativa estaria sendo utilizada para favorecimento
naquela questão dos patrocínios, ou seja, essa é uma questão que já transcende
a compreensão política e vai para o plano ético.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Veja, as corretagens, acho que esclareci o suficiente, o
que quis dizer é que realmente os Correios apareceram no mercado como
compradores de imóveis, e precisavam fazer isso porque tinha fornecimentos
internacionais com datas previstas, que era uma coisa líquida e certa que
aconteceria. Era natural que houvesse essa excitação mercadológica que houve de
fato. E por meio de um diretor indicado pelo Sr. Ministro, das relações dele,
surgiu essa idéia. Não quero dizer que a idéia seja do Ministro, o Ministro
nunca ligou para mim e disse: olha, vai um corretor aí tratar desse assunto.
Agora, dizer da iniciativa de um diretor dele transferir para ele a
responsabilidade de estabelecer corretagem na compra de imóvel, eu não faria
isso, seria temerário da minha parte.
Ao fim e ao cabo,
nenhuma transação imobiliária se efetivou sob a nossa gestão, sob a nossa
responsabilidade, que tivesse corretagem de corretores indicados ou não
indicados. De forma que não há o principal. Agora, que há um estilo diferente,
há. Se ele estava recomendando isso,
claro, eu até daria razão a V. Exª. Mas de qualquer maneira não tenho; tenho
uma dedução de que provavelmente essas pessoas, falando ou não em nome dele,
tinham de fato esse hábito.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor tem ciência se o ex-Ministro Pimenta
da Veiga funcionava na arrecadação de recursos eleitorais, nas campanhas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não me consta... V. Exª está falando de que campanha?
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Qualquer uma.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não conheço essa habilidade dele.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor sabe de eventuais relações do Sr.
Pimenta da Veiga com o Sr. Marcos Valério ou tinha ciência dessas
relações?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não. Eu me dei conta dessa questão a partir do noticiário,
do acompanhamento dos trabalhos das comissões, em especial da ala mineira
responsável pelo epicentro do fenômeno. Mas não tinha qualquer vestígio
anteriormente; não sei dessa relação; não tenho a menor percepção desse caso.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em algum momento ele insistiu para que o
senhor contratasse, ou alguma agência de publicidade terceirizasse alguma
coisa? Houve alguma situação de gestão nessa situação?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, absolutamente. Primeiro porque estava em pleno vigor
um trabalho com três agências, a terceira das quais eu me esqueci, mas uma
delas era de fato a DM-9, a outra era a Stander. Elas tinham planos, programa
de trabalho e tinham um contrato, sobretudo. Contrato esse que terminou, que
foi concluído após o meu... Eu sai dos Correios e eles continuaram.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sim, é que depois entra a empresa chamada
Jacomet.
V. Sª não conheceu
nem os proprietários dessa empresa?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não tenho a menor idéia. Qualquer fenômeno que possa
ter ocorrido, seguramente ocorreu depois da conclusão desses contratos das
entidades que trabalhavam conosco. Não houve e nem poderia haver espaço legal
para falar: contrate esse ou contrate aquele.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Voltando, queria adentrar um pouquinho à
questão relativa ao correio noturno, ao transporte aéreo. Na sua exposição
preliminar, me chamou atenção uma ponderação que V. Sª fez sobre a rede postal
noturna. O senhor falou que havia algumas exigências da Lei 8.666, de 1993, que
teriam sido sacrificadas – essa expressão é de V. Sª. Que exigências foram
essas que tiveram que ser sacrificadas na montagem da rede postal noturna?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Sr. Deputado, eu tenho o documento que deu embasamento jurídico para isso que foi
chamado de procedimento especial – tenho esse documento – e ali são feitas
essas considerações. Mas especialmente o que eu me lembro assim é você não ter players,
é você não ter agentes participando da concorrência.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Como assim?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Vou lhe dar um exemplo. A Vasp, durante muito tempo,
operava uma linha, só ela tinha um avião com essa capacidade, não é? Então, se
se tirasse a Vasp, não tinha correio. É evidente que, aos poucos, fomos mudando
essa Lei, essa malha, diminuindo as capacidades e chegando mais próximos da
frota nacional, não criando linhas que só dependessem de uma pessoa.
Então, em grande
parte, ocorria isto: nós fizemos a concorrência com 29 linhas, é só conseguimos
preencher sete. Faltaram 22 linhas, porque, realmente, não tinha ...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Foi depois disso que esse
estudo jurídico foi feito, ou foi antes da concorrência.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Foi depois da concorrência.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor tem esse estudo
jurídico?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Tenho esse estudo, sim.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor poderia
encaminhar-nos?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Com grande prazer.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Porque é de grande valia.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Mais ainda. A ordem, a seqüência é esta: uma concorrência
foi abortada pelo Governo, quando entramos. Fizemos uma reformulação da rede
postal. Saímos de 50 linhas e caímos em 29 linhas. Em cima dessa nova malha,
foi feita uma licitação. Esta não foi concluída, porque, das 20 e tantas, só
sete realmente foram atendidas, e não tínhamos saída. Não sabíamos. Não
podíamos parar o serviço. Não podíamos fazer
uma contratação.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E qual o caminho que foi
feito?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O chamado procedimento especial de licitação ou de
negociação. Não estou muito claro. Existe esse procedimento. Ele foi
manualizado, enviado à Aeronáutica, porque, de certa maneira, o DAC era a
entidade reguladora daquele momento, e o embasamento jurídico para que se
fizesse isso foi desenvolvido pelo Conjur do Ministério das Comunicações. Há
uma fundamentação.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Foi um regulamento
específico de licitação?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Foi um regulamento específico para atender a essa
circunstância específica – não ter players, não ter fornecedores
concorrentes para atender a uma determinada demanda da empresa que faz a
licitação. Então, teríamos de procurar uma outra forma. Para não ser uma forma
arbitrária de distinguir a, b ou c, foi feito um procedimento aberto de
negociação. E tem as regras, não me lembro precisamente, mas por isso se chamou
um procedimento especial de licitação. E o sacrifício foi que realmente algumas
questões foram de fato sacrificadas. Eu não saberia fazer uma comparação entre
esse procedimento...
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – Claro. Mas, se V. Sª pudesse encaminhar, porque seria de
grande valia para nós verificarmos qual foi esse procedimento jurídico, que
mudanças e que aspectos da Lei 8.666 acabaram não sendo atendidos nesse
respectivo procedimento.
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Perfeitamente.
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – Bem, o senhor conhece o Sr. Antônio Augusto Conceição
Morato Leite Filho, representante da Beta?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Não, não conheço.
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – Não?
Luiz Otávio Gonçalves, representante da Skymaster?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Não, não conheço, só de notícias dos jornais, da imprensa, com relação aos
trabalhos da CPMI.
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – Depois dessa reformulação e desse procedimento, que linhas
aéreas operaram o correio noturno? O senhor lembra?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Foram muito mais, posso lhe dizer, do que aquelas que operavam inicialmente,
que, virtualmente, e monopolizavam. Acho que adentraram o cenário a TAM, uma
empresa de porte grande e regular que até então não produzia. O entusiasmo dos
Correios em relação à TAM só diminuiu quando também passou a ser concorrente
dos Correios; a própria Vasp, que permaneceu até ter o seu contrato extinto; a
Rio Sul; a Skymaster; a Beta; a Atlântica; e o conjunto. Precisaríamos pegar
agora se eram 29 linhas, e nem todas estavam reunidas sob a responsabilidade de
uma só, eram várias companhias.
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – O senhor tomou ciência de pedidos de reequilíbrio
econômico-financeiro dos contratos das empresas que trabalhavam nessa área?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Embora essa seja até uma obrigação do órgão público de estar atento para essa
circunstância, francamente, não me lembro de termos inaugurado qualquer
temporada de...
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – O senhor não lembra de qualquer reequilíbrio
econômico-financeiro?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Não, não me lembro, pode ter ocorrido, mas não me lembro. O curioso,
Deputado, e acho que é importante que os Parlamentares e a sociedade tomem
conhecimento disso, os preços, até a liberação da parte do DAC, eram formulados
pelo DAC, que publicava um referencial de preços e estabelecia que não se podia
contratar preços inferiores a 80% desse referencial. Então, de certa maneira, a
experiência de administração de preços por parte dos Correios sempre foi muito
pequena, porque, embora paradoxalmente quisesse fazê-lo, na verdade, não
precisava se preocupar muito não. Isso dizia respeito à atualização dos custos,
essas companhias mostravam as suas planilhas e tal, e, de quando em vez, não
sei dizer a periodicidade, o DAC entrava com esses preços referenciais
reformulados.
Para que essa etapa cedesse lugar a um trabalho mais
autônomo do contratante, foi feito, não me lembro agora, por uma consultoria
francesa também, exatamente um estudo dando ferramentas para os Correios
trabalharem as estruturas de custo, o tipo de aeronave, a quilometragem, o tipo
de carga, enfim, a freqüência com que isso é realizado, de instrumentos para
administrar a questão dos custos, porque sempre foi uma coisa bastante,
digamos, polêmica. Só não era mais porque se assentava exatamente nos preços
referenciais fornecidos pelo DAC.
Fiz essa observação porque a questão de preços na aviação
não era realmente uma cultura que a empresa tivesse como tem de outros insumos
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – O senhor chegou a fazer um estudo, e mencionou isso na sua
exposição inicial, acerca da rede postal noturna atuar com aviões próprios.
Isso foi um estudo que o senhor disse que era bastante polêmico. Por que isso
não foi viabilizado? Houve pressão de políticos ou do Executivo, do Ministério,
para que isso não ocorresse?
O SR. EGYDIO BIANCHI – A cultura, digamos assim, da aviação civil de passageiros
no Brasil, o modelo que ela defendeu e trouxe em alguma medida até os dias de
hoje, de certa maneira foi responsável, tem sido responsável pelo insucesso
econômico e financeiro do setor. As companhias que são filhotes dessa temporada
toda, dessa época toda, quase todas elas, salvo as que entraram com outro
vigor, com uma outra proposição, elas foram aos poucos caindo: a Transbrasil
caiu, a Vasp, com problemas terríveis, a Varig... Enfim, as companhias dessa
era estão realmente sucumbindo, porque as linhas eram garantidas, não tinham
concorrência, as atribuições tal... Pode ou não haver concorrência nesse setor?
Há correntes na área do DAC que advogam que não, que o mercado é pequeno, que
se não se fizer essa atribuição a concorrência é predatória, é isso, é aquilo,
aquilo outro. Sempre houve esse embate de quem achava que o mercado poderia ser
aberto para a concorrência, com maior liberdade e outras proposições, e aqueles
que achavam que não, que realmente as linhas têm que ser autorizadas uma por
uma, as empresas são as regulares ou não regulares. A regular pode fazer isso,
isso e aquilo; as não regulares não podem fazer isso... Enfim, essa disciplina
e essa gestão que esse setor realmente fazia.
O senhor me perdoe,
mas eu acabei divagando e perdi o fulcro da sua formulação inicial.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pois não, está
perfeito. Na verdade, queria saber quem foi contrário a que os Correios tivessem
aviões próprios?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Então, dentro dessa cultura não havia a menor simpatia
para com a idéia de os Correios terem um transporte próprio, em nenhum setor,
nem no DAC, nem no Ministério das Comunicações e muito menos na área privada
das empresas já existentes, não é? Não havia, realmente, nenhuma simpatia e
tal.
Deixe-me dizer uma
coisa, a FedEx, que é uma grande companhia internacional, já chegou a ter em
sua frota própria quase duas mil aeronaves no mundo todo. A DHL, que é uma
empresa privada americana, tem pelo menos 260 aviões próprios, não é? A
Aeropostal, que é uma empresa controlada pelo Correio francês, tem toda a frota
própria, ela vai até um pouco ao contrário, ela otimiza, em função do
transporte postal, e o que sobra de carga ela transporta passageiros. Quer
dizer, ela otimiza de uma outra maneira.
É muito difícil isso
que os franceses nos disseram. Então, o estudo a que eu me referi é um estudo
desenvolvido pela consultoria de uma empresa chamada Aeropostal. Todos os
técnicos que conduziam esse assunto lá na França estiveram aqui e examinaram a
nossa situação, um diagnóstico muito minucioso. Esse estudo existe, é
disponível na empresa. Eles apontaram três caminhos para que refletíssemos.
Falaram: “Olha, vocês precisam pensar seriamente nesse assunto. Um modelo é
continuar fazendo o que vocês estão fazendo. Como vocês podem resolver esse
modelo? Podem resolver fazendo isso, maior controle aqui, melhor nisso, tal e
tal. O outro modelo seria eleger parceiros prioritários, uma ou duas parceiras
privadas prioritárias. E um terceiro modelo seria fazer uma frota própria”.
Eles,
modestamente, advogavam que lhes parecia que esse seria o caminho mais indicado, embora os outros não
fossem inviáveis. O próprio modelo hoje não é inviável, ele funciona, mas
funciona com grandes limitações, funciona com distorções, com custos
provavelmente maiores e, sobretudo, com eficiência baixa no sistema.
Devo adiantar uma
coisa que parece curiosa. Uma vez eu tive uma altercação grande, porque nós
tínhamos um controle das companhias, do número de atrasos, do tempo que elas
deixavam e, sobretudo, das cargas que ela prejudicavam. E um dia tomamos
conhecimento de que num hub, num ponto de ligação, a Vasp teve a coragem
de descarregar toda a mala postal para atender a um outro cliente privilegiado.
Então,
como se pode aceitar que um fornecedor seu, num contrato rigoroso, e ainda
mais, concorrente também, chega no meio do caminho alguém pede alguma coisa e
ele descarrega a mala postal do Brasil todo, em função de atender uma... Então,
você ficar na mão da concorrência, os franceses achavam realmente uma coisa
impossível de... Portanto, eles eram a favor de um modelo em que se tivesse o
domínio disso, domínio das partidas, domínio dos atrasos, que se tivesse uma gestão.
Tanto é que, independentemente do modelo, eles sugeriram a montagem de um
centro de operações, de um comando central de operações que hoje existe. Hoje
nós temos um comando central de operações que mesmo nesse sistema de
contratação picadinho das linhas sabe o que está acontecendo, onde estão os
atrasos, mas não tem o pleno domínio. Se um deles cismar de, no meio do
caminho, destrambelhar para carregar a carga de um concorrente, isso vai
acontecer, porque não se tem esse domínio. Mas não havia realmente simpatia e
eles não deram um único caminho. Eles deram vários caminhos. Esse trabalho está
disponível, e as administrações, os técnicos, sobretudo os profissionais,
aplicaram o que era possível, mas as decisões mais complexas, mais radicais
ficaram realmente...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Vou variar
um pouquinho, porque há uma grande quantidade de perguntas.
A imprensa noticiou,
à época, que em sua conversa com o Presidente Fernando Henrique Cardozo, logo
após sua demissão, V.Sª levou um dossiê com várias denúncias sobre os Correios.
Na imprensa, V.Sª fala o seguinte: “Se o Presidente falar sobre nossa conversa
e as denúncias que fiz, ele se obriga a se manifestar, o que provavelmente não
quer”.
V.Sª realmente falou
isso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não. Isso foi uma dedução da...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Isso está
entre aspas, uma frase atribuída a V. Sª, entre aspas.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, a intenção, em nenhum momento, foi essa. Foi um
tratamento inadequado dessa...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas V. Sª
levou um dossiê para ele?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não levei um dossiê, porque dossiê pressupõe uma
formatação física, documentos... Houve um relato realmente das minhas
preocupações.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Um relato
com denúncias?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, denúncias...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou
indicações de irregularidades?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não de irregularidades, mas de formas inadequadas de
condução da gestão de uma empresa pública.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª se lembra
quais? Pontualmente, são todas essas? Quais foram, pontualmente, aquelas que
falou com o Presidente da República?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Questões de um modo geral, em especial, a lei. Eu acho que
trabalhamos durante um ano... “Nós”, o Governo...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Veja, V. Sª fala em
denúncias, pelo menos a imprensa registra isso. V. Sª fala: Se o Presidente
falar a nossa conversa, as denúncias que fiz... Não me parece que foi só uma
análise política que fez. V. Sª pontuou situações para o Presidente da
República. Quais foram?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Há um projeto do Governo subscrito pelo Presidente da
República e por um ministro. Ao longo do tempo, o ministro efetivamente
conduziu o processo legislativo desse...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Projeto de
lei.
O SR. EGYDIO BIANCHI – ...projeto de lei com muita impropriedade, sem dúvida com
muita impropriedade, e que advém essencialmente de alterar uma proposição, de
certa forma madura, do próprio Poder Executivo e subscrita pelo Presidente da
República. Quer dizer, essas condutas, digamos assim, de amparar, de acolher
pleitos, de discutir com os setores que se sentiam prejudicados, de certa
maneira de apoiar um projeto de lei alternativo, eram, ao meu ver, coisas
graves. Eu considero isso coisas graves. Considero isso condutas graves em que
se está destoando de uma linha do próprio Governo, do próprio Executivo.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja, o
que V. Sª falou com o Presidente da República tem a ver exclusivamente com esse
projeto ou tem...?
O SR. EGYDIO BIANCHI – A maioria dos comentários meus diziam respeito...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E a minoria?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu não me lembro mais de uma conversa em um momento tão
acidentado. Mas essas questões, por exemplo, de Vasp, de problemas que
apareceram, de certa maneira fizeram parte desse relato meu.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O problema
relativo à Vasp sobre o qual V. Sª falou com o Presidente, qual foi exatamente?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Presidente sempre nos apoiou na Vasp...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na Vasp.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Especificamente as restrições...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A rescisão
do contrato com a Vasp.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não era só o Ministro. Realmente os Parlamentares que se
sentiam, de certa forma, sensibilizados com o discurso da Vasp e – teoricamente
em defesa da companhia brasileira – pressionavam provavelmente até mais que o
próprio Ministro.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. V.
Sª retratou quem eram os Parlamentares, as pessoas que o pressionavam em
relação à Vasp?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Provavelmente, Deputado, mas eu não me lembro
precisamente.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Além da
Vasp, que outros fatos V. Sª mencionou? Foi o projeto de lei, a Vasp e...?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não posso... Não me recordo exatamente. Não fugiria
daquilo que estamos conversando aqui, de modo geral, mas não me lembro
especificamente.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª cobrou
providências do Presidente da República em relação a isso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não. Primeiro, sou um subordinado...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas aí V. Sª
não era mais subordinado.
O SR. EGYDIO BIANCHI – ...subordinado, amigo, um soldado de todas as
batalhas eleitorais que o Presidente Fernando Henrique teve, desde a primeira
candidatura dele. Não compete a mim, com esse tipo de relação, fazer qualquer
tipo de cobrança. Um tipo de relato para que ele tomasse conhecimento de que o
meu desligamento não se dava apenas por estilo administrativo, por divergência
de estilo administrativo, isso era importante, para que ele não dormisse com um
barulho desses, imaginando que a coisa tivesse ocorrido em razão de uma
divergência meramente administrativa. Mas não tem nenhum cabimento não só pela
“deshierarquia”, como por toda a minha relação de amizade, de dedicação à vida
política dele.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª
entregou um papel por escrito ao Presidente?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nada
escrito?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu tinha um roteiro meu, um pró-memória, até para
não tomar muito tempo do Presidente. Em geral, sou prolixo, falo em demasia,
talvez. Então, corria esse risco de não usar bem o tempo que eu tinha
disponível.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª tem
esse pró-memória ainda hoje?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não tenho. Não existe dossiê. Eu tinha um
pró-memória.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª não
tem mais a cópia desse pró-memória?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Fui convidado aqui para fazer essa exposição e fiz
um roteiro.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas aquele
pró-memória V. Sª não tem mais?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não tenho.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – É uma pena,
porque isso poderia pontuar os nossos trabalhos.
À época, V. Sª era
Vice-Presidente dos Correios, saiu e foi trabalhar no comitê financeiro da
campanha à reeleição do Presidente Fernando Henrique Cardozo, voltando depois a
ser Presidente. Nesse período da campanha para a reeleição, no comitê
financeiro, V. Sª presenciou doações, vou utilizar o eufemismo da moda, não
contabilizadas para a campanha de Fernando Henrique Cardozo, feitas por
doadores ou de empresas vinculadas aos Correios?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não. Eu diria que nem vinculadas aos Correios nem a
qualquer outro tipo de empresa. Fui encarregado de montar todo o sistema de
registro das contribuições com a correspondente emissão de bônus ou recibos...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – As contribuições
contabilizadas ou não contabilizadas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – As contabilizadas, porque as não contabilizadas eu
desconheço.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – É que houve
uma planilha, à época, que foi noticiada pela imprensa. Inclusive, uma
planilha, à época, que registrava doações não contabilizadas para a campanha do
então candidato Fernando Henrique Cardozo. V. Sª foi citado na imprensa como o
talvez autor daquele vazamento e, na época, reagiu com muita veemência, dizendo
que não. Mas havia, foi divulgado pela imprensa, uma planilha de doações não
contabilizadas. O que V. Sª teria a comentar sobre isso? Eventuais contratados
dos Correios tinham presença nessas planilhas de situações não contabilizadas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Seguramente, os contratados dos Correios não faziam
parte desse universo em hipótese alguma. De outro lado, essa planilha a que V.
Exª se refere já recebeu um tratamento em nível de setor público, a que me
referirei posteriormente. Esse trabalho foi alvo das preocupações da
Procuradoria-Geral da República. Fui convidado, fui, de certa maneira, intimado
a prestar esclarecimentos. Fiz um depoimento minucioso a respeito desse tema,
dessa reportagem, dessa matéria da jornalista Andréa Michael e o Gramacho, o
seu colega. Esse depoimento existe, é um documento público, e essa matéria de
impropriedade ou irregularidade na questão da obtenção dos recursos da campanha
do Fernando Henrique foi alvo de uma representação, à época, do Partido dos
Trabalhadores, em parceria com o PDT, em parceria com o PCdoB. Essa
representação foi ao TSE. Havia uma outra representação do mesmo teor do PSC,
que não quis se associar à iniciativa dos primeiros, e essas duas
representações foram arquivadas por tecnicalidades do mecanismo. Não sei lhe
dizer se foi pelo mérito ou se foi nas preliminares, mas o fato é que esse
assunto foi alvo. No que diz respeito à minha participação e à maneira como eu
expliquei – posso reproduzir aqui simplificadamente –, existe um termo de
depoimento dado à Procuradoria. Isso, de certa maneira, rendeu-me, no plano
pessoal, uma auditoria contábil, feita pela Receita Federal, auditoria essa que
foi solicitada pelo Ministério Público.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Auditoria
onde?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Na minha vida financeira pessoal, nas minhas contas, nas
minhas demonstrações financeiras nos anos de 1998 e 1999.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por que foi feita essa auditoria? Não entendi.
Qual a razão de ter sido determinada a auditoria?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não há razão, por que se supunha – imagino que o senhor
deveria perguntar realmente aos procuradores que fizeram esse requerimento –,
mas acho que havia a presunção, enfim, de que eu pudesse estar...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor chegou a fazer alguma doação pessoal
para a campanha ou sua empresa?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu, pessoalmente? Não, absolutamente. Eu doei a minha
energia, a minha disposição e o meu entusiasmo. Claro que até tem algum valor,
mas, de qualquer maneira, não fiz nenhuma doação pela minha empresa. Porque era
uma empresa que era modesta e continua sendo modesta até hoje.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na verdade, talvez seja essa razão. Á época o
ex-Ministro Bresser Pereira, que V. Sª mesmo declina que era o coordenador do
comitê financeiro, em entrevista à Folha de S.Paulo, do dia 12 de
novembro de 2000, admitiu a existência daquelas planilhas. E disse que havia
jogado fora todas as planilhas dessas doações não contabilizadas, utilizadas, e
que não se lembrava dos detalhes de cada doação. E, à época, o ex-Ministro
Bresser disse também que as doações foram registradas no TSE, mas aquelas
planilhas... Ele disse o seguinte: “Quem fez isso foi o Egydio. Tudo que passou
por mim foi entregue ao Egydio”.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Sr. Presidente, quero só fazer um
registro.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Com o máximo
prazer.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Evidentemente, sem querer de forma alguma
fazer qualquer sentido de limitar o âmbito que V. Exª pretende investigar como
Presidente e Sub-Relator, mas me parece muito claro, com a devida vênia, que o
V. Exª está entrando no campo da investigação na campanha de 1998, se não em
engano.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Com certeza.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Isso faz parte dos objetivos e qual é a
ligação que V. Exª estabelece? Apenas para eu entender.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Claro, se V.
Exª me permite, faço a ligação.
Nós estamos
investigando irregularidades nos Correios. Há uma série de contratos, dentre os
quais o da Rede Postal Aeronoturna, que têm claro superfaturamento no período
que vai do atual Governo ao Governo anterior. Há outros contratos também que
têm essas características.
O ex-Ministro das
Comunicações do Governo Fernando Henrique, o Sr. Pimenta da Veiga, que foi aqui
mencionado, tem um depósito em conta do Sr. Marcos Valério, que estamos
investigando nessas relações. Há notícias, portanto, de fraudes...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Mas isso não em 1998, quando ele era Ministro?
Foi quando, em que ano ele tomou posse?
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Acho que foi
em 2002.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Foi em 2003 ou em 2004.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Isso. Agora,
a empresa contratada pelos Correios, de publicidade, a empresa Jacomet, tinha
sua sede no mesmo local em que a SMP&B tinha sede em Brasília, quando tinha
a contratação efetiva dos Correios, à época em que o Pimenta da Veiga era
Ministro. Exatamente por isso, sendo objeto desta Comissão Parlamentar de
Inquérito investigar irregularidades nos Correios e, evidentemente, desvios de
recursos públicos para o mundo público, tanto atual como o antigo, o que eu
perguntei a ele é se, nas doações não contabilizadas, havia empresas doadoras
dos Correios à época em que ele era Presidente dos Correios, uma vez que ele
foi também Vice-Presidente, Presidente e foi Membro Gestor Financeiro.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O que ele já negou na primeira pergunta de V.
Exª.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas eu não
vejo por que V. Exª esteja incomodado com as perguntas que estou fazendo,
porque estão estritamente dentro do objeto de investigação. Aliás, tenho sido
muito criterioso.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Estritamente, é uma palavra um pouco...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Até para que
possa me policiar, V. Exª acha que extrapolei onde, no objeto da CPMI?
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – V. Exª está trazendo agora para debate uma
denúncia que foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, no ano
2000, relativa à campanha de 1998 do Presidente Fernando Henrique. E nessa
denúncia surge a história de uma planilha que, aparentemente, seria uma
planilha que não bateria com...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – De doações não contabilizadas.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Que não bateria com aquela...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Exatamente,
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Então, o que eu quero dizer é que estamos
entrando num campo, V. Exª está entrando num campo que remete a fazer
investigações de caixa dois em outras campanhas. É disso que estamos tratando?
Porque não me parece que os Correios tiveram alguma coisa, a não ser pela
presença do ex-presidente dos Correios, não se estabelece uma relação de causa
e efeito, pelo menos até agora. É isso que V. Exª está procurando? A relação de
causa e efeito?
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Eu não estou
procurando. Eu estou procurando irregularidades e verificando se houve desvio
de dinheiro público nos Correios para campanhas eleitorais, sejam elas quais
forem. Se é do Partido dos Trabalhadores, do meu Partido, se é do PSDB, o
Partido de V. Exª, não me interessa. O que estou querendo saber efetivamente é
se há dinheiro público em campanha eleitoral – porque esse é o nosso objetivo –
e dinheiro desviado dos Correios. Não é outra coisa.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Essa questão V. Exª colocou de antemão. E, a
partir daí, direcionou as perguntas para outra vertente das investigações.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não, é a
mesma vertente. E se V. Exª me permite, na medida em que tenho contratos com
agência de publicidade nos anos de 2000 e 2001, e são de uma empresa de
publicidade que tem a mesma sede em Brasília que tem a empresa do Sr. Marcos
Valério, contrato com os Correios, cujo Ministro é Pimenta da Veiga, que tem
todo um conjunto de colocações que foram feitas aqui pelo depoente, obviamente,
na medida em que há superfaturamento de contratos, da mesma maneira que
perguntei aqui ao presidente dos Correios da atual administração, tentando
estabelecer eventual nexo de drenagem de recursos dos Correios para o caixa não
contabilizado do Partido dos Trabalhadores, não vejo nenhum problema que a
mesma pergunta seja feita em relação à campanha anterior. Afinal de contas
dinheiro público, Deputado, é dinheiro público, não importa se é do atual
Governo ou do antigo.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Sabemos que não se trata
de ser ou não ser problema, nobre Relator, sabemos que se trata de começarmos a
tirar o foco das investigações, que
deveriam estar se circunscrevendo mais...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na verdade,
ele foi presidente dos Correios. Estou querendo saber se, na época em que ele
foi vice-presidente, veja: ele foi vice-presidente dos Correios, saiu para uma
campanha eleitoral e foi presidente depois. O que estou querendo saber é
exatamente se ele tem notícia que à época...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – E o vínculo é o Marcos
Valério daquela época do Sr. Pimenta da Veiga com agora? É isso que V. Exª está
estabelecendo?
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não. O
vinculo é o superfaturamento, não sei nem se tem vínculo. Mas é que há, da
mesma forma que há vínculo, que há situações irregulares nos contratos atuais,
há no da época. E sei que V. Exª, também como eu, e conheço o papel de V. Exª,
nosso desejo é colocar tudo em pratos limpos, doa a quem doer. É isso. Ou seja,
não interessa... Não se trata nem de uma politização. Eu gostaria imensamente
que não houvesse nada disso.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Causa-me estranheza, até
porque V. Exª realmente tem-se pautado por essa isenção até agora, é que, de
repente, comece a se estabelecer uma rede de tentativa de investigações de
campanhas do passado. Penso que isso seria muito ruim para o desenvolvimento
dos nossos trabalhos.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Até
concordaria que V. Exª estivesse me argüindo se fosse uma campanha estadual,
mas estou falando de campanha federal, com relações com órgãos federais. Não
estou falando da campanha de Minas e São Paulo, estou falando da campanha
federal em que um Ministro de Estado foi citado aqui. E preciso saber das
eventuais relações.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – V. Exª tem toda a
liberdade. Não quero estabelecer nenhum limite. Estou fazendo apenas essa
observação, mas da minha parte...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Agradeço.
Tenho a convicção de que V. Exª sabe que estou estritamente dentro do objeto da
CPI. Aliás, se há uma coisa que me repugna são as Comissões Parlamentares de
Inquérito que passam notícias no jornal e saem fazendo investigações a torto e
a direito como se não tivessem nexo. Essa argüição, como outras que fiz, como
outras que V. Exª faz, têm estrito nexo e objeto. Há irregularidades nos
Correios? Houve drenagem desses recursos para campanhas eleitorais? De quais
partidos? É isso.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Então, só vou fazer o
registro, que já foi até informado pelo depoente, de que o PT, o PC do B, o PSB
e outros Partidos, quando surgiu a notícia no jornal Folha de S. Paulo,
entraram com uma representação buscando cassar a diplomação do ex-Presidente
Fernando Henrique Cardoso. O Supremo Tribunal Federal arquivou porque não
encontrou nenhum indício de recursos não contabilizados na campanha. Por essa
razão, foi arquivado. Só para deixar o assunto democratizado.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeitamente
democratizado. Isso é rigorosamente verdadeiro, o que não quer dizer que uma
Comissão Parlamentar de Inquérito, diante das realidades novas, não deva...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Não possa retomar...
O SR. PRESIDENTE (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não diria nem retomar, é tomar,
porque, na dimensão que foi colocada aqui, isso nunca havia sido investigado
outrora. Agradeço a intervenção de V. Exª. Penso que ela permite esclarecer que
os propósitos deste Relator não tem a ver com um duelo político-partidário, em
hipótese nenhuma! Tenho repugnado, juntamente com outros Membros desta Comissão
Parlamentar de Inquérito, inclusive a nobre Deputada Juíza Denise Frossard,
que, desde o início, o meu intuito estritamente objetivo, que eu sei que é
também o de V. Sª, é o de botar as coisas às claras, não importa as fronteiras
político-partidárias que tenhamos que ultrapassar neste momento. (Pausa.)
Então, se V. Sª me permite, eu tinha feito a pergunta
exatamente nessa linha: o Ministro Bresser, ao comentar aquilo da planilha não
contabilizada, disse: “Quem fez isso foi o Egydio. Tudo que passou por mim foi
entregue ao Egydio”. Ele faltou com a verdade nessa afirmação?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Não. Permita-me comentar.
O temperamento administrativo do Ministro Bresser – sei por
quem teve a oportunidade de conviver com ele – não é propriamente o de um
executivo que tenha esse tipo de experiência. Tudo o que passou por ele em
matéria de recursos realmente foi encaminhado ao controle central da campanha,
foi devidamente tratado, identificada a origem, foram emitidos os
correspondentes recibos ou bônus – não me lembro mais qual é o nome dessa
documentação – e naturalmente registrados, contabilizados na nossa conta, na
conta nacional, e distribuídos para o pagamento das nossas despesas. Eu fazia
claramente essa intermediação, essa interface entre a estrutura de captação e a
estrutura de “gastação”, do pessoal que consumia esse tipo de recurso.
A planilha foi elaborada pelo Sérgio Pereira, irmão do
Ministro Bresser, que tinha habilidades ali, e logo entrou nos computadores e
organizou as planilhas para ele.
Eu gostaria de voltar um pouquinho.
O SR. PRESIDENTE (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não entendi exatamente. Se V. Exª puder explicar
menor...
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Eu vou esclarecer. Eu creio que, depois de eu expor, o senhor deverá ter o
quadro mais claro.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pois não.
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Eu queria voltar um pouquinho atrás, senão vou acabar me esquecendo deste
ponto: eu não saí da ECT para ir para a campanha. Eu fui demitido da ECT no
momento de uma crise político-administrativa, fiquei um pouco desempregado,
digamos assim, e assumi a Secretaria de Serviços Postais, onde eu tinha uma
função muito bem delineada, muito bem definida, no começo de 1998.
Eu queria dizer aos senhores que, em abril de 1998, nós
perdemos o nosso companheiro Sérgio Motta. De sorte que continuamos a trabalhar
iluminados um pouco pelas idéias e pela força dele, mas sem a presença dele.
A outra coisa é a questão dessa planilha. Eu tenho um termo
de depoimento que dei à Procuradoria. Tenho esse documento e posso colocá-lo à
disposição, devo colocá-lo à disposição dos senhores e da Comissão, sem dúvida
nenhuma, pois nele dou uma explicação cabal sobre essas questões. Mas eu queria
desmanchar um mal-entendido em torno dessa questão das planilhas.
O SR. PRESIDENTE (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pois não.
O SR. EGYDIO BIANCHI
– As planilhas eram um instrumento de trabalho e, de fato, existiram. O
Procurador me perguntava: “O senhor conhece esta planilha?” Eu dizia: “Esta em
particular que o senhor está me apresentando eu nunca vi. Inclusive porque eu
acho que ela apresenta algumas distorções”. Mas essa planilha sendo um
instrumento de trabalho de quem a trabalhava no comitê financeiro...
O SR. PRESIDENTE (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Essas planilhas registravam o quê?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Elas registravam... Elas estavam organizadas por setor da economia. Pega o
setor de siderurgia e tal, tem a empresa A, B, C e D.
O Ministro Bresser foi Ministro da Fazenda, um homem da área
empresarial, conhecia os Presidentes, os Diretores, enfim, tinha o mapeamento
por setor da economia, e empresa por empresa. E tinha ali um palpite dele, uma
estimativa dele ou dos empresários das relações dele do que poderia ser
encaminhado para a campanha.
A planilha não era absolutamente de registros não
contabilizados.
O SR. PRESIDENTE (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Elas não registravam doações não?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Absolutamente. O senhor tem freqüentemente usado essa expressão: planilha de
recursos não contabilizados.
O SR. PRESIDENTE (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – É, não fui bem eu que usei. A autoria da expressão
é de outra pessoa.
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Não, não. A planilha era de recursos captados. Absolutamente de recursos
captados. E o que havia? Existiam reuniões – eu quero crer semanais, muitas das
quais eu participei – em que se avaliava a performance – o Ministro é
quem fazia esse serviço – dos representantes que ele legitimava e formalizava
diante desses setores. E eles diziam se haviam ou não haviam cumprido as suas
metas, as suas missões. Essas planilhas eram refeitas. Em todas as reuniões,
refaziam-se. Não era eu que operava isso não. Tomava conhecimento, até tinha as
planilhas nas mãos, a versão 1, a versão 2, a versão 3. Sempre que havia uma
reunião de avaliação do esforço, havia uma planilha nova, dizendo se a coisa
superou a expectativa ou não atingiu a expectativa.
Portanto, era um instrumento de trabalho, não era de
recursos não contabilizados, e, ali em cima, realmente ele fazia o controle
dele, do trabalho de captação.
O SR. PRESIDENTE (José
Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nessas planilhas, V. Sª sabe se constavam as
empresas da rede postal noturna dos Correios?
O SR. EGYDIO BIANCHI
– Nada. Nada.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não
constava?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Absolutamente. Agora, deixe eu lhe dizer: primeiro, esse
não é um documento de guerra, era um documento reservado e, naturalmente, não
vejo um comitê financeiro de campanha nem do Presidente Lula nem do Presidente
Fernando Henrique que esteja disponível em todo lugar para dizer que são as
pessoas e tal. Não há. Mas era um documento reservado mas não clandestino. Era
um documento de trabalho. Alguém lançou mão dessa planilha. Lamentavelmente,
algumas pessoas achavam que teria sido o depoente o autor dessa proeza. E a
jornalista fez um trabalho... Diga-se de passagem que a jornalista cumpriu um
ritual que era muito freqüente à época. A jornalista municiava a Procuradoria,
que abria um requerimento, e eles se auto-alimentavam. Em particular, essa
jornalista e o Procurador que orientou o meu depoimento tinham uma relação
pessoal de amizade. Talvez essa intimidade permitisse que eles se abastecessem
com esse tipo de informação. Mas ela foi muito engenhosa, muito ardilosa. Ela
me pediu uma entrevista, com o colega dela, o Gramacho. Queriam saber sobre a
função do ex-Ministro Eduardo Jorge: “Qual é a função dele?” Eu estou lhe
contanto como é que a coisa transcorreu. Perguntaram se ele captava ou não
captava, e eu mostrei a ela toda a estrutura da campanha e como funcionava – a
estrutura financeira, a coordenação geral financeira, a coordenação política e
a coordenação de operações. Eu mostrei a ela, claramente, que estava todo um
conjunto de pressões muito forte em torno do Ministro Eduardo Jorge e falei que
não tinha absolutamente nada a ver com as campanhas de captação. Pelo
contrário, ele era um homem gastador de recursos porque era o coordenador de
operações. Freqüentemente, nós, da área, vamos dizer controladores financeiros,
nos opúnhamos a ele por uma questão de papéis diferentes: um quer colocar o pé
no freio e outro quer realmente colocar no acelerador. Mas esse foi o teor. Lá
pelas tantas, a jornalista me perguntou: “O senhor acredita que não exista
caixa 2 nas campanhas?” Eu falei: Olhe, minha filha, eu, particularmente, acho
muito difícil que um comitê nacional de campanha possa consignar, num Brasil
complexo, com tantas regiões, todos os recursos que foram efetivamente
mobilizados para a campanha. Inclusive, dei exemplos e mostrei qual era a nossa
política. Os exemplos eram assim: você tem seis, sete ou oito comitês
regionais, e é complicadíssimo para uma campanha nacional captar todas essas
contribuições. E de que forma? Um foguetório que se coloca quando vai a
comitiva da campanha, um aluguel de sede, um aluguel de automóveis. Nós
tínhamos uma política para registrar essas coisas, até converter em valores os
imóveis que eram colocados à disposição, os automóveis, nos valores da praça,
realizar contratos e transformar aquilo em doações. É humanamente impossível
que uma campanha nacional conseguisse captar, ter sensores. Foi essa afirmação
que eu fiz a ela. Portanto, dizia claramente que as demonstrações
financeiras... Isso era genérico e, claro, se era genérico, também envolvia o
nosso caso. E muitos recursos não estavam ali presentes. Ela, então, concordou
que há caixa 2. Esta foi a conclusão que ela deu. E mais ainda, a jornalista já
dispunha dessa planilha – que eu não sabia naquela altura dos acontecimentos –
e explorou isso na mesma matéria, habilmente, eu diria que com uma certa
habilidade. E o que ela fez? Ela pegou a planilha – uma folha, porque a
planilha tinha várias folhas; ela pegou uma folha que ela conseguiu não sei
como – e viu as empresas A, B, C, D, algumas empresas, verificou os valores que
estavam ali, foi ao TSE e confrontou com as aplicações formais. Evidentemente,
havia uma diferença. Pela conta dela, era uma diferença de 10 milhões. Então,
ela sentenciou: a campanha tem caixa 2, e o caixa 2 são R$20 milhões. É a
diferença da soma que ela fez com o que de fato essas pessoas tinham aplicado.
A partir daí, a Folha
assumiu isso como uma verdade histórica. Vários setores do mundo político
assumiram. E desfazer todo esse enredo a mim me custou tempo, me custou
depoimento, e tenho isso registrado, levado a termo.
Coloco-me,
naturalmente, à disposição, sem qualquer restrição. Nem precisaria fazê-lo
porque isso é um documento oficial. Mas, de qualquer maneira, está à disposição
dos Srs. Parlamentares.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
Então, apenas para concluir essa etapa do depoimento, V. Sª não lembra
efetivamente, ou não sabe, ou nega que quaisquer empresas que tinham à época
contrato com os Correios estivessem constando dessas planilhas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Veja bem, se o senhor tiver um retrato da estrutura de
todos os setores da economia, ela já é supercomplexa; se o senhor tiver ali
todos os agentes econômicos de cada um desses setores, fica uma coisa imensa.
A planilha a que se
refere a jornalista – ela conseguiu obter não sei exatamente de que maneira – é
uma folha, mas é um conjunto de planilhas: talvez oito, dez – eu não me lembro
efetivamente; acho que não e tenho a impressão de que não. Nunca ouvi falar.
Nunca partiu da minha iniciativa sugerir qualquer empresa dessa natureza, e não
travamos nenhuma relação com empresas que pudessem ser fornecedoras da nossa
campanha. É isso o que eu posso lhe afirmar. Agora, se tem naquela lista, se
tinha ou não tinha, provavelmente, com todos os setores da economia ali
estratificados, eventualmente poderia até ter, mas eu, conscientemente, posso
lhe afirmar que não havia nenhuma coincidência com fornecedores dos Correios.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. Vamos, então,
voltar um pouquinho aos franqueados.
V. Sª, quando
presidente dos Correios, recebeu visitas de políticos vinculados ao Distrito
Federal para tratar de assuntos relativos às franquias?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Veja... Bom, em primeiro lugar, vou afirmar: não.
Agora... Até lamentavelmente, pelo meu temperamento, você tem que estar à
disposição, naturalmente, das associações, dos presidentes. Pode ter ocorrido,
mas, de fato, não me lembro. Eu acho que não. Eu acho que não. Tenho quase
certeza de que não.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor não se lembra de
nenhum parlamentar, de nenhum agente político ligado ao Distrito Federal que
tenha procurando V. Sª?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não me lembro. Não me lembro.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E, quando o senhor falou,
então, que as franquias distribuídas em 1990 – V. Sª afirma isso na imprensa –
foram uma verdadeira ação entre amigos, o senhor tinha algum norte nisso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não. Essa é minha opinião pessoal.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Foi uma ação entre amigos
a distribuição das franquias?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu acho. Eu acho que foi uma ação entre amigos, por quê?
Ela não foi presidida por qualquer critério. O critério não era técnico, o
critério não era vencedores de uma licitação, o critério foi qualquer um.
Alguns, por sorte dos Correios e da população, tinham um jeitinho assim para serem
empresários, deram certo, acabaram fazendo um trabalho razoável; outros eram
realmente pessoas totalmente equivocadas, que não tinham a menor competência
pra gerir uma banca de jornais, que dirá realmente uma franquia como tal!
Então, eu tenho essa
convicção e essa impressão: foi, de fato, uma ação entre amigos. Agora, quem
são os amigos eu de fato não tenho idéia. Mas foi uma distribuição aleatória
que não foi presidida por nenhum critério profissional, empresarial, do
interesse público e, sobretudo, do interesse da empresa.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – V. Exª
me permite, Sr. Presidente? (Pausa.)
O senhor
classificaria, então, a distribuição das franquias como as antigas
distribuições dos cartórios?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não conheço perfeitamente como é que teria ocorrido a
distribuição dos cartórios.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Mas o
senhor conhece a história.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Mas, se foi uma distribuição cartorial, assim...
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – É, distribuição
cartorial. Porque os cartórios eram distribuídos entre políticos. O meu
escrivão, na pequenina Porciúncula, quando eu era juíza, ganhou porque atendeu
a um favor do ditador de plantão. A verdade é esta: havia um ditador. Era
Getúlio. E ele concedeu, então, o cartório do ofício único ao meu escrivão
(risos), e lá ele ficou. E era um excelente escrivão, diga-se de passagem. Mas
eram concedidos assim. Isso é a história que registra.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu queria esclarecer...
A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS – RJ) – Eu estou mal comparando, falei no Getúlio
Vargas, mas isso foi assim até depois.
O SR. EGYDIO BIANCHI – A senhora vai ver que o meu testemunho a respeito desse
assunto tem algumas restrições. Primeiro que eu não sou contemporâneo dessa
fase em que elas foram de fato distribuídas. Elas foram distribuídas
possivelmente nos anos de 1990, 1991, e, ao que consta, sem qualquer critério,
ou seja, sem qualquer critério empresarial.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – E
depois, essa alteração, como é que se dava isso? Essa passagem de um para o
outro, como é que...
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essas alterações...
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Quais
os critérios, como é que se escolhia: “Vem cá, fulano”...?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essas alterações são regidas por manuais bem rigorosos.
Outro dia eu ouvi de um amigo dos Correios o seguinte: “Mas os Correios não
inventaram nenhuma máquina de detectar laranjas, não tinham essa obrigação”. Se
o cidadão se apresenta, é capacitado, não tem nenhum registro de ocorrência
realmente, nenhuma infração, tem que aceitar, tem que atender. Então, se é um
pleito regulamentar atendido pelos manuais, que são absolutamente rigorosos
nessa matéria, faz-se a transferência. Caso contrário, não se faz a transferência.
Então, é assim que se dá. As transferências são realmente... Quanto à
implantação de novas... isso está proibido há muito tempo. Pelo TCU criamos um
caminho que fosse reaberto através da lei que já mencionei aqui e que foi
apresentada ao Congresso, só que amparados pelo regime da concessão, que é
onerosa e ganha em disputas abertas e em processos licitatórios, mas isso não
foi acolhido, de forma que o crescimento do sistema está absolutamente
prejudicado. O Brasil precisa disso. Tínhamos metas de atendimento, que é uma
relação em que se mede o número de agências por habitantes. Ocupávamos um lugar
muito incômodo, digamos assim, porque tínhamos muitos habitantes por agência, o
que significa um grau de desconforto, e não se consegue mexer nesse número se
não aumentar o número de pontos.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Mas, Dr.
Egydio, quando o senhor era Presidente, mantinha os clientes corporativos nos
Correios ou a sua diretoria comercial permitia isso? Como é que era?
O SR. EGYDIO BIANCHI – A figura dos clientes corporativos é uma deformação da
visão mais genuína da questão da franquia, tanto que os canadenses que têm o
maior sistema de franquias com o setor público do mundo – têm 15 mil lojas –
mostraram que o sistema que queriam implantar é um sistema de varejo, e toda a
filosofia que trouxeram para nós é o sistema de varejo e não um sistema de
atacadista. Agora, essas coisas foram se dando durante o tempo, com vantagens
que foram se acumulando, clientes que essas pessoas foram chamando para si – a
Deputada me pergunta de que maneira, mas eu não saberia explicar –, sobretudo
sem nenhuma regulação no contrato que se escreveu. Os Correios não podem se
insurgir dizendo “o senhor não pode fazer isso porque lhe dei uma loja de
varejo”. O contrato é precaríssimo. A Deputada evidentemente pode ter acesso a
eles e vai, de certa maneira, me acompanhar nessa conclusão. Ele não proíbe,
não inibe, não contribui e vem sendo postergado pelos pleitos que a área tem
apresentado e tem uma sobrevida que já vai para sete anos. Portanto, dez mais
dois mais cinco, dezessete anos.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Por
exemplo, temos aqui a maior franqueada, que é Tamboré. A proprietária dessa
franqueada não tem a menor condição. Ela veio aqui e declarou que ganhava menos
de R$10 mil, e a empresa dela fatura R$144 milhões. Nitidamente é uma
“laranja”.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Tive a oportunidade de acompanhar esse depoimento pelo
rádio do meu carro e, naturalmente, não fiquei tão surpreendido porque não seria o primeiro caso de
pessoas totalmente desqualificados que se apresentam como titulares. Mas
realmente é um caso dramático. É um caso realmente de uma pessoa totalmente
desqualificada. E ela...
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – E o pai
dela também não tem vigor para enfrentar uma empresa daquela. A única pessoa
que tem é a outra sócia, que parece que é mulher de um ex-deputado.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não tenho elementos formais para lhe afirmar isso, mas os
indícios são todos no sentido de que, de fato, é uma testa-de-ferro, uma
laranja. E provavelmente existam outros casos nos Correios. Não tenho
consciência deles nem o registro, mas provavelmente existem.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Voltando um pouco à
questão da publicidade, obviamente estamos aqui fazendo a investigação, e eu
havia pedido um levantamento. Uma das empresas contratadas pelos Correios a sua
época era a Ogilvy, não é isso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Acho que ela não tinha essa denominação. Era Standard,
depois ela caminhou, mas não conheço bem as fusões do setor.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A relação da Ogilvy com a
DNA é muito estreita. A Ogilvy, em fevereiro de 2002, quando em tese contratada
pelos Correios, faz um pagamento para a DNA da ordem de R$38.615,00, ou seja, a
empresa contrata pelos Correios à época, a Ogilvy, em fevereiro de 2000, faz um
pagamento à DNA. A DNA recebe da Ogilby R$38.615,00 em fevereiro de 2000, que
era a época em que V. Sª era Presidente. O senhor sabe se há alguma relação
entre a contratada dos Correios, à época, e um pagamento que ela faz à empresa
de publicidade do Sr. Marcos Valério?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não sei. Não sei.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Porque isso se repete
depois. Em abril de 2001 a novembro, a DNA recebe da Ogilvy R$163 mil.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Desconheço qualquer...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Depois, de janeiro a
março, a DNA recebe da Ogilvy R$38.374,00. Depois, já em 2004, a DNA recebe da
Ogilvy R$51.591,00. Depois, de janeiro a junho de 2005, R$41 mil. Ou seja, a
DNA recebeu da Ogilvy, ao longo desse período, R$333 mil. Também há pagamentos
inversos. A DNA, agora já em fevereiro a dezembro de 2004, paga à Ogilvy R$899
mil. De janeiro a junho de 2005, paga R$665 mil. Temos verificado certa
coincidência entre empresas contratadas pelos Correios e a DNA. Por exemplo, a
própria Jacometti, empresa que tinha, depois da Presidência de V. Sª, sua sede
no mesmo lugar da DNA, faz depósitos a DNA. Ou seja, curiosamente, as empresas
que têm contrato com os Correios fazem pagamentos à DNA nesse período.
Posteriormente, há uma inversão: a DNA faz pagamentos a essas empresas.
V. Sª não lembra se
existe algum tipo de subcontratação para serviço dos Correios ou algo que
justificasse, na época em que V. Sª presidia, pagamentos da Ogilvy para a DNA?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Naturalmente, eu não posso me atrever a opinar sobre as
transações privadas entre companhias dessa natureza, mas posso lhe dizer que,
dentro da funcionalidade dos Correios, nenhuma razão existiria para que
houvesse esse tipo de tratamento. Seguramente, no meu entendimento, se deve a
outro tipo de transação. Dos Correios, seguramente não.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja, os Correios
nunca autorizaram nenhum tipo de subcontratação de agência de publicidade?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Absolutamente. Tomei conhecimento de DNA pelo trabalho
dos ilustres Parlamentares. Nunca ouvi falar de DNA nos nossos negócios.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Concedo a palavra ao
Deputado Silvio Torres para argüição.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Sr. Egydio, o senhor fez menção ao DAC. O
senhor disse que quem ditava os preços era o DAC. Ou seja, ele estabelecia os
preços de referência, que poderiam oscilar 20% a mais ou a menos. Foi isso
mesmo o que o senhor falou ou entendi errado?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Foi exatamente. Da mesma forma que ele, de certa forma,
jurisdicionava os preços das passagens, dos bilhetes aéreos, na área de transporte
de passageiros, ele igualmente jurisdicionava a partir de um procedimento que
era atualizar uma relação de...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP)
– Por gentileza, peço silêncio às pessoas que compõem a CPMI para que possamos
ouvir o depoente.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não me lembro se se chamavam preços referenciais. De
qualquer maneira, era uma tabela de preços que, periodicamente, ajustava ou
reajustava os contratos em andamento. Havia uma regra que tínhamos que
obedecer: os preços de contratação não poderiam ser inferiores a 80% daqueles
valores referenciais. É uma regra que eles acharam que... Enfim, o valor
referencial era 100, você não podia contratar por 79. O máximo pelo que você
podia contratar era 80. Talvez foi o instinto de proteção da indústria da
aviação civil, que sempre presidiu a ação do DAC, a vida toda, como as linhas.
Não deixavam as pessoas terem várias companhias numa linha só. Eles atribuíam
qual linha podia ter uma companhia, qual linha não podia ter e também mexiam nos
preços. Então, quem pode fazer, quando pode fazer e por que preço, sempre foi,
na época, uma prerrogativa do DAC.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Até quando aconteceu isso?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Em matéria de... Eu penso que até o final de 1999, quando
eles deram uma carta de alforria para os Correios, permitindo que realmente
todas as empresas, desde que devidamente registradas no DAC, pudessem
participar. O preço especificamente não sei lhe dizer, mas acho que a
autonomia...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Foi quando o senhor estava no cargo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu estava no cargo.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Já estava no cargo?
O SR. EGYÍDIO BIANCHI
– Eu estava no cargo, no final de
1999, se não me engano.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Além de dar referência dos preços, o DAC
também participava do julgamento quando havia alguma licitação na área de rede
postal aérea?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Francamente, a questão da licitação é um advento da nossa
gestão, porque jamais os itens da RPN foram contratados por licitação.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – E eram contratados de que maneira então?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eram contratados pelos mais diferentes regimes.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Mas baseado nessas referências do DAC?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Baseado nessas referências. Por exemplo, como o DAC
procedia? Ele fazia uma análise técnica para saber se a companhia tinha
condições técnicas – comandantes, manutenção, enfim, fazia um exame para ver se
ela tinha condições de realmente operar; segundo, que aeronaves ela tinha, a
vida dessa aeronave e a capacidade. Ele designava: Para essa linha de vocês tem
a companhia A e B.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Isso valia para todas as linhas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Certamente para todas as linhas.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Então podemos dizer que a partir do momento
em que começaram as licitações os preços de referência eram aqueles que estavam
em vigência?
O SR. EGYDIO BIANCHI – De certa maneira sim, porque como expliquei há pouco, a
uma pergunta que me foi dirigida pelo Sr. Relator, a cultura de preços, em
larga medida, não foi desenvolvida nos Correios, que não mexiam com preços.
Eles começaram a mexer com preços depois que caiu essa regra, depois da carta
de alforria, e não tinha mecanismos, elementos, instrumentos, para fazer
avaliações corretas. Surgiu um trabalho técnico, de uma empresa francesa que,
vamos dizer assim, ensinou os Correios a fazer a avaliação da planilha de custo
da aviação de transporte de carga. Eu me esqueci do nome da empresa, mas posso
recuperar e fornecer. Ela ensinou uma metodologia de como se faz esse tipo de
coisa.
A partir de então,
foi criada uma cultura própria, trabalhando em cima dessas questões. Mas, até
então, ela não tinha preocupação com os preços...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Os preços ficaram muito diferentes?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não sei lhe dizer, não sei lhe informar. O que posso lhe
afirmar com segurança é que ao longo da nossa gestão sempre contratamos por
preços melhores. Os custos...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – E a referência eram os preços praticados em
algumas companhias aéreas no exterior ou era pelo levantamento de planilha de
custo...
O SR. EGYDIO BIANCHI – Contratamos por preços melhores e por negociação e
reduzimos os custos do sistema geral da RPN por extinção, por racionalização do
modelo. Citei no início – talvez o Deputado não estivesse presente – que
recebemos uma RPN com 50 linhas e, logo no primeiro semestre do nosso mandato,
nós definimos uma RPN com 29 linhas, e ganhamos para o poder público, para a
empresa, a bagatela de US$50 milhões, que desincorporamos dos custos da
operação para sempre, porque sempre temos esses custos.
Na verdade,
batalhamos muito para que houvesse concorrência, licitação e uma certa liberdade.
O DAC não agia por inspiração de um ou outro oficial. Existia todo um
regulamento e eles acreditavam que esses dispositivos levavam, conduziam a essa
ação normativa, à definição de preços, à caracterização de empresas regulares e
não-regulares, porque eles não deixavam que as empresas não-regulares
participassem das licitações daquelas regulares que tinham sido classificadas
como regulares por eles próprios. Então, havia uma certa ingerência e não era
um setor que trabalhava com plena autonomia. Mesmo assim, acho que reduzimos
drasticamente os custos dessa operação para os Correios. Não é à toa que a
empresa passa, a partir de certo instante, a dar lucros, porque deixou de
gastar desnecessariamente em uma porção de setores.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Eu queria também fazer uma referência à
questão das franquias, que já foi abordada aqui pelo Sub-Relator, pela Deputada
Denise. Um dos argumentos que foi utilizado aqui numa das reuniões, quando
tentava justificar o fato de algumas franquias terem sido contempladas
novamente com grandes clientes, tipo bancos, que isso se deveu a uma
indenização, porque elas teriam sido prejudicadas quando perderam esses
clientes, quando os Correios resolveram absorver, trazer para dentro dos
Correios o atendimento desses clientes, não sei se o senhor já teve
oportunidade de falar sobre isso, mas eu queria retomar um pouco essa linha
para tentar entender. O senhor mesmo disse que era uma ação entre amigos,
quando se iniciou, provavelmente foi no Governo Collor, quando houve os
primeiros movimentos nesse sentido, na década de 90. Agora, o que estamos
tentando deixar bastante claro para a Comissão é que tipo de indenização
poderia caber a essas agências franqueadas, de que forma eles poderiam ter sido
prejudicados por investimentos que fizeram ou se o senhor acha que os Correios
tomaram a atitude correta de reaver esses grandes clientes e imagina que,
quando houve esse retorno dessas contas, foi muito mais uma decisão de amigos,
digamos assim, para ficar no seu conceito.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pela ordem, tem a palavra o Deputado Onyx
Lorenzoni.
O SR. EGYDIO BIANCHI – É importante registrar, Deputado, porque acho que isso é
esclarecedor. Ela vem das priscas eras do MDB, em que era uma figura
parlamentar respeitadíssima no Brasil todo. E eu, francamente, torcia muito
pelo acerto do Deputado, de uma nova geração, muito combativo e tudo o mais.
Tinha a melhor das impressões dele.
Lamentavelmente, a
convivência nossa, especialmente nesses 20 meses que eu convivi com ele,
derrubou efetivamente toda a boa impressão que eu tinha do político, do homem
público e tal, dadas as divergências que já mencionei, as diferenças de postura
e – acredito – o envelhecimento precoce de um político cronologicamente jovem,
relativamente jovem, mas que envelheceu sem ter uma dimensão em matéria de
interpretação política, de ação política. Envelheceu nos modelos antigos de
fazer política que eu chamo de política com “p” minúsculo.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Mas o senhor chegou ao ponto da
divergência ao achar que ele fosse um Ministro desonesto, que cometesse algum
tipo...
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, seguramente. As divergências eram na condução. Bom,
para começar, nós éramos de uma equipe que tínhamos acabado de implantar uma
reforma drástica no sistema de telecomunicações. O que ele fez foi querer
voltar atrás nessas matérias. Não era fácil conviver com uma liderança que
tinha esse tipo de divergência.
Segundo, no que tange
ao setor postal especificamente, ele, de fato, não tinha a percepção das bases
conceituais, factuais e da experiência internacional que estava incorporada.
Ele não valorizou essas coisas. Ele saiu para um outro tipo de conduta na
condução desse processo.
Então, realmente, a
impressão não era, não podia ser boa de fazer um trabalho de equipes que
ficavam anos em cima dessa matéria, com argumentos em geral fúteis e descabidos
no que diz respeito a essas formulações técnicas, não é?
Então, eventualmente,
valorizando mais um contato com Municípios XY do que de uma idéia forte que
demorou um ano para florescer, para se fortalecer e tal. Era um pouco essa...
Era difícil de fato. E o cotidiano...
Naturalmente, eu cito
um fato que eu acho que tem muito a ver com aquele diagnóstico, com essa
psicologia de orelha de almanaque que eu fiz no começo, não é? Mas, por
exemplo, nós tínhamos um... Os Correios em São Paulo têm um, como de resto no
Brasil todinho – e fazia parte de uma ação importante que nós fazíamos de
preservação, de valorização dos prédios antigos e tudo o mais, sempre
transformando essas unidades em unidades culturais e manutenção dessas
arquiteturas, da história dessas localidades e tal –, mas em São Paulo, nós
temos o famoso Correios da Praça dos Correios, que é de propriedade dos
Correios, é um prédio tombado e ali houve uma decisão da nossa gestão, com o
amparo dos Ministros de então, de transformarmos aquele centro num centro
cultural. Há um projeto fantástico, projeto que ganhou um prêmio de arquitetura
internacional, um projeto de jovens, foi um concurso nacional que se montou, e
os jovens arquitetos ganharam uma formulação muito importante.
Certa vez, nós fomos
levados a fazer uma espécie de uma pré-inauguração, porque o projeto era
supercomplexo, e essa pré-inauguração foi cancelada na última hora, deixando
todos os dirigentes num desconforto muito grande em relação ao mercado. Ela foi
cancelada por interferência do Ministro, que não queria realmente que se
realizasse aquilo que seria um ato em homenagem ao falecido Ministro Sérgio
Motta, seu desafeto. Então, é o tipo da coisa que fica claramente... Vai
pontuando e vai atormentando as relações do dia-a-dia. Era uma coisa
absolutamente legal, com todo o amparo e você, sem nenhum fundamento, cancela
uma coisa que toda a sociedade paulistana estava realmente convidada para isso.
Então, isso não favorece uma boa relação realmente.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Apesar dessas dificuldades, como o senhor
mesmo disse, de relação, o senhor permaneceria no cargo se não fosse demitido?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Permaneceria.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Permaneceria?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu permaneceria, claro, lutando, defendendo as nossas
idéias, tentando preservar o que era um projeto importante, lutando por essas
idéias. Eu entendi perfeitamente que chegamos a um ponto em que ele
efetivamente não queria mais conviver – talvez fosse uma certa referência,
lembrando a ele sucessivos sucessos do seu... uma análise meio psicológica, mas
acho que é mais ou menos por aí mesmo.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) –
Eu perguntaria se o senhor, desagradado por ter sido demitido, nas
circunstâncias em que o senhor acreditava muito no trabalho, o senhor
consideraria as suas declarações, quando foi passar o cargo e outras, como um
desabafo e resultado dessa decepção.
O SR. EGYDIO BIANCHI –
Eu considero que, em alguma medida, essa atmosfera de rompimento de uma relação
importante profissional, política, com um projeto, com um ideário – eu me
dediquei sete anos ao trabalho de reforma das comunicações –, é claro que ela
estava presente e, de uma maneira mais serena, talvez o meu depoimento
estivesse despojado de considerações assim mais hepáticas. É claro, isso esteve
presente nessa minha avaliação certamente. Se tivesse um pouco mais de
serenidade, se o momento fosse outro, talvez esses depoimentos pudessem ter
ganho uma outra conotação, e, longe de querer colocar culpa na imprensa, há
momentos em que a notícia é aquela: a divergência do cidadão, da equipe do
Serjão contra o outro ministro, então há também aquela capacidade de buscar,
como você falou, aquela quinta-essência e chegar, pegar realmente aquele ângulo
mais agressivo.
Acho que houve um
pouco de exagero também, mas eu dei matéria-prima, digamos assim, para que
assim fosse. Respondo positivamente. Se fosse um momento mais sereno, talvez os
depoimentos pudessem ter uma outra conotação.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Sr. Presidente, estou satisfeito.
O SR.
PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – Agradeço ao Deputado Silvio Torres.
Com a palavra o Deputado Arnaldo Faria de Sá.
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – A AP
tinha guerrilheiro?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Perdão?
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – A AP
tinha guerrilheiro?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Em homenagem à amizade
que tenho com o Deputado, ela teve guerrilheiros, não na época em que militei,
mas a partir de 1968, ela passou a ter uma facção que achava que os caminhos da
liberdade no Brasil passavam pela tomada das armas e expropriações. Enfim, um
trabalho guerrilheiro.
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Como
você votou no referendo de domingo?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Sim.
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Por que
tanta pimenta na relação Pimenta/Egydio?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Bem, quem
introduziu esse condimento da cultura baiana foi realmente o Sr. Relator. Eu,
de fato, embora goste profundamente da culinária baiana, não teria essa
iniciativa, mas fui levado a dar minhas opiniões e acho que por isso é que...
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Foi da
sua época de AP que o senhor achou que tinha que guerrear com o Pimenta aqui na
Comissão?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Não, já mencionei,
a minha época de AP coincidiu. O final dessa época coincide um pouquinho com o
advento da normalização das relações políticas no Brasil, normalização, começo
de MDB para cá, não sei o quê, e conheci Pimenta da Veiga exatamente nessa
época.
Eu tinha uma excelente impressão dele, para não dizer que
era do fã clube dele, mas de fato era um Deputado combativo e gostava muito da
atuação dele. Depois, passaram-se alguns anos e eu, de fato, tive uma decepção
muito grande e não foi uma decepção puramente pessoal, de relações pessoais.
Acho que foi de conduta, de interpretação política, de ação política e tudo o
mais.
Não acho também que ele tenha ajudado o nosso Governo. Pelo
contrário, acho que até atrapalhou.
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Qual era
o seu codinome na AP?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – O meu codinome?
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – É.
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Acho que era
Adílson. Acho. Existiam alguns codinomes, e tenho a impressão de que o meu era
realmente Adilson.
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O senhor
foi Presidente dos Correios por quanto tempo?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Fui Presidente dos
Correios no final de 95. Na saída do Presidente Hargreaves, eu respondi pela
presidência durante uns quatro, cinco meses, e fui Presidente em 99, o período
inteiro, fui Presidente no ano de 2000, até julho de 2000.
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Por que
não conseguiu acabar com as franquias no seu tempo?
O SR. EGYDIO
BIANCHI – Acabar com as
franquias?
O SR. ARNALDO
FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O senhor
tem uma posição contrária a franquia. O senhor foi Presidente. Por que não
acabou com as franquias?
O SR. EGYDIO BIANCHI –
Não, não senhor. A nossa intenção nunca foi acabar com as franquias. O que nós
queríamos é que as franquias e a expansão da rede de serviços terceirizados no
atendimento, preferimos usar essa expressão, se desse em bases jurídicas, com
suporte jurídico saudável e adequado ao ordenamento jurídico que existe no
Brasil, que obriga o setor público a oferecer oportunidades econômicas mediante
a concessão.
O contrato estava
terminado, não havia por que você não migrasse para o regime da concessão. Essa
era a nossa opinião. Não éramos contra não. Éramos contra aquele ordenamento
jurídico, éramos contra prorrogar um contrato condenado pelo TCU. Era e sou.
Continuo contra até hoje, embora eu ser contra não tenha nenhuma eficiência
prática.
Mas, de qualquer
forma, acho que esse ordenamento jurídico estava totalmente equivocado. E não
se conseguiu conduzir essa questão para uma migração adequada para as
concessões.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Há uma
certa incoerência, essa sua posição crítica às franquias e o Governo ao qual o
senhor serviu queria privatizar os Correios.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Deputado, eu francamente ignoro e discordo, porque o
Governo sabia... As opções de privatização ou não dos Correios foram
profundamente estudadas e, por exemplo,...
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Mas o
Governo FHC chegou a mandar para o Congresso uma proposta que era...
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, nada de privatização. Pelo contrário, criação de uma
empresa mais moderna, mais instrumentada para enfrentar a competição de um
mercado, que ocorrerá de qualquer maneira, uma sociedade de economia mista cuja
proposta era Correios do Brasil Sociedade Anônima, permitindo que ela,
eventualmente, assumisse parcerias com a área privada. Quer dizer, no fundo, no
fundo, era o fortalecimento...
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Mas com
a área privada? Você falou agora?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Permitindo que ela se emparceirasse com a área privada,
mas mantendo esse instrumento com controle do Poder Público. É claramente isso.
Isso é o que acontecia.
Em compensação, a lei
promovia... Pelo contrário, ela promovia a quebra do monopólio que a ECT ainda
tem hoje. Ela propunha 5 anos para esse monopólio zerar. Mas fortalecia, de
outro lado, a empresa para poder enfrentar a concorrência.
Era um fortalecimento
da empresa, uma instrumentalização adequada para uma fase capitalista
competitiva, para enfrentar, de certa maneira, os grandes players da
área de encomenda, que são players internacionais.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – O seu
segundo período nos Correios não foi pouco tempo, foi um ano e meio.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Um ano e meio.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – E nesse
ano e meio não teria dado para consertar um pouco desse estrago da Rede Postal Noturna?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Olha, teria dado, mas nós consertamos muita coisa. Muita
coisa, Deputado.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Você
consertou muito e ainda ficou assim?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Veja, nós encontramos a seguinte realidade: uma RPN – eu
fiz esse relato, não quero cansar os demais ouvintes desta audiência –, nós
pegamos uma rede com 50 linhas. Muitas delas não se sabia nem para quê
existiam, de onde elas partiam e para onde elas iam. Nós tínhamos linhas
funcionando no final de semana, também não sabíamos para quê, sábado e domingo.
Nós enxugamos, logo
de cara, essa questão para 29 linhas, proporcionamos uma economia drástica
nessa questão, isso num primeiro momento. A rede ficou absolutamente
racionalizada.
Fomos para as concorrências,
como queria o TCU. Não foi possível completar as linhas todas pela
concorrência. De 20 e tantas só 7 foram atendidas.
Idealizamos um
procedimento licitatório especial, com a concordância jurídica das várias áreas
envolvidas, para poder prover essas linhas de operadores. Isso funcionou.
Paralelamente,
contratamos estudo de uma empresa francesa, dos correios franceses, chamado
Aeropostal, que fez um diagnóstico completo das cargas das aeronaves no Brasil,
das leis, das regras, e mostrou que havia caminhos, e criticou fortemente que
uma empresa como a nossa, com o volume de cargas, com o volume de tráfego
aéreo, dependesse de empresas que fortuitamente faziam esse tipo de serviço, e
algumas delas até concorrentes. Mostrou alguns caminhos.
Agora, as administrações
que nos sucederam não se sensibilizaram com essas, digamos, com essas
propostas, com essas idéias. Os projetos existem. Agora, eu acho que houve uma
melhoria muito grande.
No plano interno,
assentos de controles hoje, todas as empresas são controladas, horário de
partida, os atrasos são chamados à responsabilidade. Quer dizer, o
gerenciamento disso que está aí melhorou. Melhorou muito. Tomar consciência
desse tipo de coisa.
As próprias
concorrências. Acabou-se com aquela reserva de domínio das empresas regulares.
Hoje você tem muito mais... Podem ter outros defeitos, mas têm outras empresas
participando desse cenário. Então, há uma melhoria. Eu acho que não piorou,
não. Melhorou.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Na época
do Governo passado, também tinha indicação política nos Correios?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Perdão?
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Na época
do Governo passado, também tinha indicação política para os Correios?
Diretorias, diretoria regional, indicações políticas?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Olha, nós lutamos muito pela profissionalização,
especialmente das diretorias regionais, porque são diretorias operadoras.
Então, resistimos muito às interferências políticas. Não saberia dizer se
ganhamos a guerra de dez a zero, mas, realmente, resistimos muito e relutamos
em aceitar ingerência política nas regionais.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Mas,
apesar da resistência e da relutância, tinha indicação política?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu não vou descartar, não, mas foi uma coisa muito
reduzida. Se houve... Especialmente no Nordeste. As vitais para o funcionamento
do sistema, não se admitia... Foi altamente profissionalizada. Aliás, por lei
interna, por disposições internas nos Correios, a titularidade dessas
diretorias regionais tem de ser funcionário de carreira, concursado e com as
qualificações profissionais adequadas.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) –
Obrigado, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Muito bem. Não havendo
mais inscrições para a presente reunião, eu, em nome do Presidente desta
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, agradeço imensamente o Sr. Depoente e
o cumprimento pelo depoimento prestado.
A seguir, vou
suspender a presente reunião por... Cinco minutos?
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Sete
minutos.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por sete minutos. Então,
está bem. (Risos.)
Há uma solicitação
por uma rápida suspensão. O Deputado Sílvio Torres utilizou argumentos fortes
e, então, esta Presidência suspende a reunião por cinco minutos.
(A reunião é suspensa
às 19h05min e reaberta às 19h32min.)
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Está reaberta a reunião.
Convido para tomar
assento à mesa o depoente Paulo Roberto Kress Moreira, bem como, se estiver
acompanhado de advogado, o seu advogado. (Pausa.)
Esclareço que o nobre
Depoente está desacompanhado de advogado e vem prestar seu depoimento na
condição de testemunha. Para tanto, já assinou o termo de compromisso na forma
legal e regimental.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Sr.
Presidente, pela ordem.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pela ordem, a nobre
Deputada Juíza Denise Frossard.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – O
depoente é advogado?
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª é advogado?
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – Não sou advogado.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Então,
seria bom ler o artigo para ele. Se V. Exª me permite, eu o tenho na cabeça.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Como V. Exª tem o Código
Penal inteiramente registrado, poderá ajudar esta relatoria.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – É o
falso testemunho. É crime fazer afirmação falsa ou negar ou calar a verdade
como testemunha, perito, tradutor ou intérprete em processo judicial, policial
ou administrativo ou em juízo arbitral. Pena: de um a três anos de reclusão e
multa. Há formas agravadas e atenuadas.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Está feita a lembrança da
legislação penal aplicável aos depoimentos das testemunhas.
Indago se V. Sª
gostaria de fazer uso, preliminarmente, da palavra, de forma livre, para
enfocar alguns aspectos relativos às franquias dos Correios ou se já gostaria
de passar, de imediato, à argüição?
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – Eu gostaria de
agradecer o convite para vir dar meu testemunho. Espero, no decorrer do
depoimento, poder esclarecer as dúvidas que, eventualmente, existam. Trago,
obviamente, comigo o grande desafio, em detrimento de ter acompanhado os
depoimentos de alguns colegas da empresa ECT, de tentar quebrar alguns
paradigmas ou de tentar melhorar, se possível, a imagem que eventualmente o
Parlamento hoje faz, por conta desta CPMI, dos franqueados. Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então, começo, fazendo uma
rápida introdução do depoimento de V. Sª.
Quando foi que V. Sª
teve a sua primeira relação com os Correios, do ponto de vista de relações
comerciais ou de outra natureza?
O
SR. PAULO ROBERTO KRESS MOREIRA – A minha família adquiriu a JK Comercial,
que é uma franqueada dos Correios, cujo nome os Correios denominam agência....
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – JK Comercial é uma
empresa...
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – É uma empresa que
tem a titularidade de franqueada dos Correios...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Adquiriu quando?
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – ...e que é
denominada ACF Anchieta.
Nós adquirimos, se
não me falha a memória, em agosto de 1996.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Agosto de 1996.
Quem são os
proprietários da JK Comercial, é isso?
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – Isso. 80% de minha
propriedade e 20% de propriedade do meu irmão, cujo nome é o mesmo, Paulo, só que
Ricardo.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – À época, quanto V. Sª ou a empresa pagou pela transação?
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – À época, a
transação foi feita da seguinte forma: essa franqueada se encontrava em débito,
o antigo proprietário, Douglas Jovanete Bachi, então....
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Era uma pessoa física o
proprietário ou era uma empresa?
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – Não, não, era a
mesma empresa, a JK Comercial.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A JK Comercial.
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – Isso, eu adquiri
as cotas dessa empresa.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito! Então quem era o
proprietário da JK Comercial?
O SR. PAULO ROBERTO KRESS
MOREIRA – O proprietário era
o Douglas Jovanete Bachi.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Douglas...
O SR. PAULO ROBERTO
KRESS MOREIRA – Jovanete Bachi, se
não me falha a memória.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo
Cardozo. PT – SP) – Bachi?
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