|
O SR.
PRESIDENTE (Asdrubal Bentes.
PMDB – PA) – Declaro aberta a 9ª Reunião da Sub-Relatoria de Contratos da CPMI,
criada através do Requerimento nº 3, de 2005, para investigar as causas e
conseqüências de denúncias e atos delituosos praticados por agentes públicos
nos Correios – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
Sobre a mesa, ata da reunião anterior, a qual coloco em
votação, propondo a dispensa da leitura.
As Srªs e os Srs. Senadores que a aprovam permaneçam
sentados. (Pausa.)
Aprovada.
A pauta desta reunião destina-se à oitiva dos Srs. Egydio
Bianchi, ex-Presidente da ECT; Marcus Vinícius di Flora, ex-assessor da Secom;
e Paulo Roberto Kress Moreira, sócio da agência dos Correios franqueada:
Anchieta.
Solicito à assessoria que faça adentrar ao recinto o Sr.
Egydio Bianchi, que vai depor na condição de testemunha e, como tal, já firmou
termo de compromisso. (Pausa.)
Por obséquio, convido o Sr. Egydio Bianchi para prestar os
seus esclarecimentos. (Pausa.)
Sr. Egydio Bianchi, V. Sª foi convidado a prestar
esclarecimentos a esta Comissão como testemunha e, como tal já prestou, o seu
compromisso. Quero alertá-lo para as disposições legais a respeito, porque V.
Sª se comprometeu a dizer a verdade, de maneira que, quando falar, tudo o que
disser será considerado verdadeiro. Se não o for, V. Sª está sujeito às sanções
da lei. Se o desejar, poderá até deixar de responder, mas não poderá deixar de
falar a verdade.
Inicialmente, passo a
palavra a V. Sª, indagando se se faz acompanhar de advogado.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, senhor.
O SR.
PRESIDENTE (Asdrubal Bentes.
PMDB – PA) – Não. Então gostaria que V. Sª fizesse a sua qualificação e
prestasse os esclarecimentos iniciais que julgar convenientes.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srªs e Srs. Parlamentares,
meu nome é Egydio Bianchi, tenho 64 anos, sou formado em Engenharia Industrial
pela Pontifícia Universidade Católica do Estado de São Paulo, fiz extensão
em Economia do Desenvolvimento e em
Economia Política com o Professor Celso Furtado. A minha participação na vida
política brasileira, modestamente, se deu a partir do ano de 1962, ano que
ingressei na universidade e me aproximei do movimento político, denominado Ação
Popular, do qual faziam parte ilustres companheiros, movimento formado por
Betinho, Aldo Arantes, Padre Vaz e outros que seguiram posteriormente. Em São
Paulo: Sérgio Mota, José Serra e outros companheiros.
Tivemos uma ação
durante os anos do golpe de Estado de 1964, até aí uma ação legal, não
clandestina e a partir daí uma ação clandestina, na medida que não era possível
ter um espaço de participação.
Em 1965 abrimos a
galeria dos estudantes presos pela ditadura e tivemos uma experiência de
responder processo perante a Justiça Militar, no Estado de São Paulo, durante
dois anos, mas continuamos na vida universitária. Formei-me engenheiro no ano
de 1965, iniciando a vida profissional, como engenheiro, em 1966.
Sou casado, tenho
três filhos, minha vida profissional remonta a uma época que muitos dos
senhores não tiveram oportunidade de participar. Trabalho com carteira assinada
desde três de setembro de 1954, portanto já estou meio século aí na estrada.
Em especial, na vida
pública, depois de uma série de experiência de vida privada, que é
essencialmente a minha experiência profissional. Tive o primeiro contato com o setor público em São
Paulo, onde fui gerente da Companhia Metropolitana, Metrô de São Paulo, e
posteriormente me tornei membro do conselho de administração dessa empresa.
A partir daí retornei
à área privada e voltei à área pública no Governo Franco Montoro, quando fui Diretor
Administrativo Financeiro da Companhia de Processamentos de Dados do Estado de
Sã Paulo – Prodesp. Posteriormente fui presidente dessa mesma companhia. Retornei,
ao final desse Governo, novamente à minha atividade privada. Nos idos de 1994,
retornei a Brasília e, em 1995, por convite do Ministro Sérgio Motta, assumi a
Secretaria de Fiscalização e Outorgas do Ministério das Comunicações. Prestei
um serviço inicial nessa instituição da administração direta alguns meses,
tão-somente, ajudando a identificar os problemas e a preparar as reformas que
se seguiram.
Logo depois fui assumi a vice-presidência da
Empresa Brasileira Correios e Telégrafos, conhecida pela sigla ECT. A minha
missão era executiva, mais voltada à gestão da empresa internamente, enquanto o
Sr. Presidente se ocupava das obrigações externas e institucionais e das
relações externas não só com o público, mas também com o Governo.
Encontramos essa
empresa em 1995 numa situação bastante crítica, com o seu nível geral de
serviços absolutamente deteriorado, havendo um sintoma fundamental na área de
tecnologia, em que a empresa se apresentava totalmente desatualizada. As suas
tentativas de mecanização e automação estavam obsoletas, quase à nível de ferro
velho. Havia baixos investimentos realizados, que mal supriam a própria
depreciação dos ativos da empresa. Faltavam planos, planejamentos e rumos para
a empresa.
Ela tinha realmente
uma grande indefinição e, sobretudo, uma desmotivação enorme nos seus recursos
humanos, sabidamente o maior patrimônio que esta empresa brasileira tem – seus
recursos humanos altamente profissionalizados e, de quando em vez, agredidos
por esses acontecimentos recentes que todo o País conhece.
Assumimos essa gestão
com plano de ações emergenciais, partindo para uma revisão geral de contratos e
licitações em andamento, o cancelamento de uma licitação da chamada Rede Postal
Noturna, conhecida como RPN, e, logo em seguida, uma revisão imediata da sua
estrutura de funcionamento. Partimos para um programa das condições
operacionais básicas de uma empresa que se apóia drasticamente em meios de
transportes e que estava inteiramente sucateada nessa matéria, em se tratando
de veículos e de todos os meios de locomoção, a começar pelo coração central
desse sistema, que era a Rede Postal Noturna.
Partimos para o
restabelecimento dos processos de fiscalização e controle, uma vez que uma
companhia haveria de ter essas ferramentas nas mãos da direção central, que
acompanhasse as ocorrências no Brasil todo, pois se trata de uma empresa
presente em todos os municípios do Brasil – são 5.500 e alguma coisa, senão me
falha a memória.
O Departamento de
Inspeção, em particular, foi reeditado e recuperado, nos moldes ocorridos nos
correios franceses, com quem os correios brasileiros mantêm um grande
intercâmbio. Implementação de um programa de despesas operacionais e
implementação do programa de recuperação das receitas da empresa.
Os resultados desse
trabalho foram muito interessantes. A empresa aderiu rapidamente a essas
proposições. Mobilizamos um conjunto apreciável de gerentes e assessores, que
realmente se imbuiu desses novos propósitos, e realizamos uma gestão –
perdoem-me a modéstia -, considerada por muitos e por mim mesmo exemplar, do
ponto de vista da condução dos negócios de uma empresa pública dessa
envergadura.
Acho que é digno
notar, nessa fase inicial, uma reestruturação da RPN, um tema que preocupa a
todos do setor público e a todos que se interessam por essa matéria. Levamos à
efeito uma revisão de uma malha, de uma rede de vôos, de tramos, de pedaços que
compunham a rede postal noturna, até então em vigor, que tinha da ordem de 50
linhas operadas por inúmeras companhias regulares e auxiliares.
Essas 50 linhas foram
reduzidas a 28 linhas, num trabalho de racionalização e de otimização dos
recursos da empresa de um modo geral. Tivemos sucesso na racionalização e na
obtenção de resultados e logramos uma redução de custos da bagatela de US$50
milhões, evidentemente à cotação da época. Esse foi um legado que a rede postal
noturna carregou consigo, uma vez que deixou de carregar esse peso, esse fardo
de US$50 milhões, mercê do esforço profundo que se realizou de racionalização
desse trabalho.
Logo em seguida, a
Empresa fez parte de um programa majestoso, amplo, que ficou conhecido pela
sigla amistosa de Past (Programa de Recuperação e Ampliação do Sistema de
Telecomunicações e do Sistema Postal), formulado e conduzido pelo ex-Ministro
Sérgio Motta, que fez questão de incluir a área postal, dando-lhe um relevo e
um destaque, pois, até então, os Governos brasileiros não haviam se dado conta
da importância desse setor. Especialmente notamos que a média de investimento
no setor nos últimos cinco anos que nos precederam era da ordem de 40 ou 45
milhões, alguma coisa assim, não atingia 50 milhões. Então nos lançamos a um
programa que, em oito anos, acenou especificamente para a área postal com quase
R$4 bilhões, R$3,9 bilhões nos anos de 1996 até 2003. Esse programa estruturado
dizia respeito a uma reformulação do parque industrial, mecanização de todo o
sistema de triagem, rastreamento de objetos, mecanização dos terminais de
carga, instalações industriais.
Na rede de
atendimento, automação das agências, mecanismos de auto-atendimento, as caixas
postais comunitárias, um sistema de transporte, reformulação da RPN,
atualização da frota de veículos da empresa, inteiramente sucateada.
Na área de correio
avançado, houve a instalação de uma rede corporativa. Hoje, os Correios têm uma
ligação generalizada de mais de cinco mil agências com todos os seus pontos,
mais de 20 mil postos de trabalho, todos fazendo parte de uma rede integrada
corporativa, os correios híbridos, nas suas diferentes expressões, o programa
de modernização empresarial começando pela capacitação de recursos humanos.
Dentro disso, pode-se ressaltar o esforço para adquirir essa instalação,
outrora, a instalação de treinamento da antiga Telebrás, onde, hoje, funciona a
Universidade dos Correios. Era imperioso desenvolver um programa de capacitação
tecnológica e não haveríamos de mudar a empresa de nível tecnológico sem
proporcionar ao seu corpo de recursos humanos essa mesma atualização exatamente
para manipular e fazer a gestão desses novos recursos que, até então, foram
projetados.
Houve investimentos,
como já mencionei, de um total de 3,9 bilhões, dando, portanto, uma média anual
em torno de R$500 milhões, que eram simplesmente 10 vezes mais o esforço, se
chamarmos isso de esforço, ou a falta de esforço que existia nesse setor. A Empresa,
é evidente, teve de se aparelhar e realmente se instrumentar, para aprender a
fazer investimentos desse porte, 500 milhões, uma vez que vinha, como já disse,
realizando investimentos da ordem de 50 milhões anuais.
Principais projetos
implantados e investimentos realizados.
Posso depois
citá-los, se for de interesse dos Srs. Deputados e Senadores.
De fato, o nível de
cumprimento dessas metas, do ponto de vista dos orçamentos de então, foi da
ordem de 70%. Foram realizados nesse período investimentos de R$2,6 bilhões,
quantia muito expressiva não só pela tradição dos Correios, em matéria de
investimentos que era praticamente zero, mas também pela resposta que o corpo
gerencial deu, saindo atrás do seu adestramento, do seu aperfeiçoamento e
aprendendo realmente a empregar bem os recursos.
Eu queria me referir
aos resultados operacionais da Empresa nesse período em que estivemos à frente
dela. Não me referi totalmente a minha participação no setor postal brasileiro,
quando disse que fui convidado em 1995 para o cargo de vice-Presidente, função
que exerci até 1997, deixei essa diretoria da Empresa na condição de
vice-Presidente Executivo, assumi a Secretaria de Serviços Postais, criada
naquele mesmo ano – 1998 –, e estruturei essa Companhia nos moldes de uma
incipiente agência regulamentar para o setor, e, ali, tive oportunidade de
coordenar também o chamado projeto de reestruturação do Setor Postal
Brasileiro, já como membro, como Secretário de Serviços Postais, tarefa que dei
continuidade em 1999 e parte de 2000, período em que fui Presidente dessa mesma
Companhia, missão que muito me honra.
Houve no período uma
evolução. Tal era o acerto da percepção da equipe que realizou o diagnóstico,
que nós saímos de um tráfego de 4,7 bilhões de objetos processados e entregues
e atingimos, em 1999, a cifra de 7,4 bilhões, o que significa, nesse período,
um incremento do movimento dos Correios da ordem de 60%. Isso demonstra que o
diagnóstico era correto. Havia uma demanda não atendida, mercê do estado de
abandono em que a instituição nesse momento se encontrava.
A qualidade
operacional, que mede exatamente a pontualidade com que os Correios entregam os
objetos, cresceu de 91,9%, em cartas comuns, para 95% em 1999; e o Sedex, que
os senhores talvez prefiram e é um serviço diferenciado, pulou de 97,9% para
99,6% em 1999.
A produtividade, que
é uma medida internacional da ação dos Correios no mundo todo, é avaliada pelo
número de objetos processados dividido pelo corpo funcional, pelo número de
funcionários.
Os Correios, à época
em que eu deixei a companhia, tinham 84 mil funcionários, pelo regime
celetista, portanto empregados de carteira profissional, e 21 mil outros
agregados, contratados pelos mais variados regimes e convênios, envolvendo-se
aí os apenados, os deficientes físicos, os terceirizados, realmente uma massa,
um segmento de mais de 20 mil pessoas, o que fazia com que nós lidássemos – os
Correios – com mais de cem mil famílias no Brasil ou, pelos números
estatísticos, pelo menos com 500 mil pessoas que acabavam, considerando as
famílias, girando em torno desses cem mil agentes do processo postal
brasileiro.
Na parte de
resultados financeiros é bom que se ressalte que a empresa, desde 1984, já não
dependia do Tesouro Nacional, não tinha aporte do Tesouro Nacional e, digamos
assim, sobrevivia com os seus próprios recursos, com as suas próprias
possibilidades. Tinha uma performance econômica e financeira modesta, muito
discreta, ruim em alguns momentos, mas, de qualquer forma, ela não dependia do
Tesouro.
E de lá para cá,
também até o ano em que a deixei, com muita felicidade constato que ela
continua a não depender do Tesouro Nacional, com uma singularidade: ela passou
a dar lucros a partir do primeiro ano de 1995. Apesar de alguns esqueletos,
que, na linguagem de contabilidade, tivemos que baixar a lucros e perdas, ela
teve um lucro operacional. A partir de 1996, ela tem tido lucros sucessivos, a
ponto de, no período de 1994 a 2003, dado que eu obtive pela publicação de
balanços, ela gerou um lucro líquido acumulado de 2,1 bilhões de reais. Pagou
dividendos ao Tesouro Nacional, procedimento do qual também me orgulho, pois
insistimos para que destinássemos recursos do lucro auferido ao nosso
acionista, ao dono das ações, ao dono de capital. Isso não parou de ser feito de
lá para cá até os nossos dias.
Foram pagos ao
Tesouro Nacional dividendos, no período de 1997 a 2003, da ordem de 455
milhões. Os tributos pagos nas diferentes modalidades, nesse mesmo período,
alcançaram a cifra de 2,3 bilhões de reais. Portanto, uma performance
operacional muito satisfatória e seguramente uma performance econômica e
financeira igualmente satisfatória.
Tenho as
demonstrações financeiras, mas são documentos públicos, penso que estão
disponíveis a qualquer...
O SR.
PRESIDENTE (Asdrubal Bentes.
PMDB – PA) – Mas, se V. Sª quiser, poderá encaminhá-las ao Relator.
O SR. EGYDIO BIANCHI –
Pois não, pois não.
Queria me referir aos
balanços da empresa. No final de nossa gestão procuramos dar publicidade a
esses balanços, dar satisfação à sociedade, uma vez que é do conhecimento dos
que militam no setor postal brasileiro a minha posição favorável à
transformação de uma empresa pública em uma empresa pelo regime da sociedade
anônima, de economia mista, atuante, competitiva. Para que isso acontecesse,
cada vez mais, ela deveria dar satisfações à sociedade, dar satisfações ao
mercado, dar satisfações a fornecedores, a todos os agentes desse processo.
Essas demonstrações financeiras, portanto, foram, em sua maioria, publicadas em
veículos de grande circulação, além, é óbvio, das publicações oficiais em Diários
Oficiais.
Para nossa
felicidade, no período 1995 a 1999, todas nossas contas foram aprovadas pelo
Tribunal de Contas da União com ressalvas, com recomendações, como esses
acórdãos demonstram. Há uma exceção: o ano de 1997, quando ouve um
recrudescimento da análise em razão de um processo de recursos humanos e
concursos públicos. Nós, portanto, não tivemos a felicidade de ver a aprovação
também nesse ano. Ao que consta, pelo que me informou a secretaria...Nós temos
uma secretaria nos Correios que só existe para dar satisfação aos organismos de
controle, a todos os organismos de controle. Ela existe ali exatamente para
informar.
Desculpe-me, Sr.
Presidente, Sr. Relator. Meu aparelho telefônico estava extraviado e acabei de
recebê-lo. Ele nos deu esse pequeno trabalho.
Eu dizia que a
empresa, consciente das suas responsabilidades para com a União e para com a
sociedade, mantém, permanentemente, um órgão que dá ciência e mantém todo o
fluxo de comunicação, especialmente com a União, com o Tribunal de Contas e com
outros organismos de controle, Ciset, CGU.
Nós introduzimos
também nos Correios a figura do Conselho Fiscal, embora isso não fosse uma
obrigação legal. Era facultativo, como é facultativa de certa maneira a
existência dele nas próprias sociedades anônimas, que não é a condição dos
Correios. Portanto, mais um organismo a se manifestar especialmente pela
movimentação financeira da empresa.
Conscientes de que os
esforços até então desenvolvidos eram localizados, necessários, porém
localizados e mostraram seus resultados, como acabei de expor agora, nós nos
lançamos a uma tarefa realmente importante de reforma do sistema nacional dos
Correios como um todo. Não se tratava tão-somente de alterar a Lei Postal
atual, ainda hoje em vigor, que disciplina fundamentalmente a ação da Empresa
Brasileira de Correios, quando o setor, no Brasil e em todo o mundo, realmente
não é composto apenas pelo operador público de Correios. Queiramos ou não, com
ou sem lei, com ou sem disposições legais, as atividades dos Correios no mundo
são compostas realmente por vários agentes desse processo. Aquilo que
propúnhamos e aquilo que a lei proposta perseguiu foi uma disciplina geral do
sistema nacional de Correios.
O cenário mundial que
encontramos, uma vez que, a exemplo do que foi feito na área de
telecomunicações, fomos ao mundo saber o estado da arte... Embora os Correios
tenham uma cultura internacional muito intensa, até mesmo pelo tipo de
atividade, fomos a outros países ver o que se fazia em matéria de Correios mais
avançados, Correios que já tinham vencido aquele limite tecnológico no qual
ainda não tínhamos ingressado. Percebemos mutações muito importantes. A União
Postal Universal é a ONU, vamos dizer assim, dessas atividades postais,
proporcionava essa experiência em seminários, em encontros, em congressos
nacionais. Vimos, no mundo todo, clientes mais exigentes, clientes mais
conscientes do atendimento das suas demandas. Havia novas tecnologias em
comunicação acossando todos os dirigentes postais, no sentido de que
procurassem novas formas de atendimento, aumento da competitividade, grande
concorrência entre os agentes desse sistema, uma redução total ou progressiva
dos monopólios, das empresas estatais - a exemplo do que acontecia com os
Correios, tinham, na maioria dos países, as suas posições reduzidas, os
monopólios reduzidos -, e um outro movimento, que acompanha, digamos assim, o
fenômeno da globalização, que era um movimento de internacionalização dos
Correios. Então, havia de se fazer uma reforma que contemplasse, digamos assim,
toda essa efervescência no plano internacional. Não se tratava apenas de fazer
um ajuste racional na atuação da empresa, mas de reconhecer e tentar colocá-la up
to date com tudo que se fazia no mundo, colocar os Correios brasileiros, já
tradicionalmente muito bem vistos na comunidade internacional, realmente numa
posição de destaque, recuperando o tempo perdido, recuperando os patamares
perdidos. Essa reforma ficou, digamos assim, enxergada, olhada, sob cinco
prismas fundamentais: uma reforma regulamentar, ou seja, a regra do jogo
haveria de ser criada para todos os agentes; uma reforma mercadológica, uma vez
que era importante que se alterasse as práticas específicas da ECT no campo, no
mercado; uma reforma financeira, tecnológica e organizacional. Isso resultou na
Lei Geral do Sistema Nacional de Correios, um projeto de lei encaminhado pelo
Executivo no ano de 1999 ao Congresso Nacional, que, por diferentes injunções e
muitos motivos, permanece nos Anais do Congresso Nacional até os dias de hoje.
Essa lei, fundamentalmente, tem um destaque: ela concebia um sistema nacional
de Correios. Ela não tratava única e exclusivamente da ECT; ela conceituava o
serviço, definia claramente o que eram os serviços postais, definia
essencialmente o regime de exploração em que poderiam ser operados os serviços
postais, notadamente no que diz respeito à atividade privada. Aí eram
instituídos, eram trazidos também para o campo da atividade postal os regimes de
autorização, de permissão e, especialmente, o regime da concessão, dado que a
natureza dos serviços postais é pública. Portanto, a atribuição da operação
desse serviço à atividade privada há que ser feita especialmente pelo regime
das concessões ou, em algumas circunstâncias, pelas autorizações ou permissões.
Propunha a criação da Agência Nacional dos Correios, separando as funções que
hoje ainda são muito confusas. Elas estão interpenetradas. Os Correios acabam
tendo, em relação ao mercado, funções de agência reguladora. Ele terá de
exercer, ainda hoje, a sua missão, de certa forma trabalhando contra os seus
próprios concorrentes, o que cria, realmente, antagonismos muito críticos. Por
quê? Porque ele ainda tem missões de funções reguladoras. Então, a Agência
Nacional dos Correios viria para regulamentar a ação de todos os agentes do
setor postal, inclusive os próprios Correios, que estariam, no que diz respeito
à regulação, subordinados a essa Agência Nacional. A transformação da ECT, esse
é talvez o ponto mais importante, dando a ela uma característica realmente
empresarial, de empresa de economia mista, com condições de operar
competitivamente no mercado e, ao mesmo tempo, aceitando os compromissos, a
universalização dos serviços postais, vale dizer, fazer com que eles pudessem
chegar, ainda que fosse na sua porção de cesta básica, digamos assim, a todo
cidadão morador do nosso país. Esse projeto reconhecia essa obrigação e,
sobretudo, colocava essa obrigação no ente operador, que eram os Correios, e
liberava a competição. Criava prazos para que as áreas ainda monopolizadas –
leia-se que os Correios no Brasil têm uma ação proveniente de serviços
monopolizados, ou pelo menos isso ocorria na época em que eu era presidente –,
da ordem de 40%, 45%, restando a maior parte da sua receita para as atividades
ditas privadas e, portanto, competitivas. Então, essa curiosidade de trabalhar
numa faixa de serviços exclusivos, portanto, digamos estatizados,
monopolizados, mas ter o grosso das suas receitas em campos competitivos, em
áreas competitivas...
Esse regime, como
disse aos senhores, foi realmente encaminhado ao Congresso Nacional e, por
força de interesses divergentes na própria sociedade, dos agentes desse
processo, não teve sucesso no seu andamento, não foi aprovado, mas essas idéias
ainda estão permanentes e poderão, quando houver interesse realmente do País,
quando houver interesse e reconhecimento da importância do setor postal, poderá
ser bastante útil para a retomada dessas bandeiras.
A empresa nesse
período de 1999 cedeu, evidentemente, quadros muito importantes para a
elaboração desse projeto. Contamos com uma assessoria internacional de empresas
privadas de consultoria internacional. Mas contamos, sobretudo, com a
consultoria da União Postal Universal, que acompanhou todo esse esforço. Viemos
até, na época, em seminários e para cá vieram todos esses dirigentes, de certa
maneira, examinando o nosso esforço e participando com sugestões, para que
tivéssemos uma reforma postal adaptada, de fato, às necessidades do novo
século.
Mas queria dizer aos
senhores que a empresa, a par de sua performance, na qualidade dos seus
serviços, no volume dos seus serviços e na própria produtividade, fez com que a
sua atuação fosse, efetivamente, reconhecida pela sociedade. Ela foi
considerada pela revista Exame, dentre 40 empresas concorrentes, a
melhor empresa prestadora de serviços públicos do País em 1999.
Ela, no mesmo ano,
foi agraciada com o top de recursos humanos, com o projeto de gestão de
produtividade aplicada aos Correios, com o top de marketing no
ano 2000, com o projeto Correios Online e o top social, no ano 2000
também, com o projeto Carteiro Amigo ou Aleitamento Materno.
Há uma pesquisa
encomendada pela Confederação Nacional da Indústria no ano 2000 – quem
realizou, tecnicamente, foi o Ibope –, que colocou os Correios, num universo de
cinco empresas públicas importantes do País, como a melhor empresa pública do
País no reconhecimento do público.
E, no período da
minha gestão, tive a felicidade de ver a empresa sendo reconhecida como uma
instituição de maior credibilidade no País, exceto por um ano em que ela tirou
o segundo lugar e foi superada pela instituição dos Bombeiros, o que não chega
a ser uma derrota e nós, naturalmente, nos orgulhamos muito também desse resultado.
A empresa, portanto,
à mercê desse esforço realizado e seguido, pôde, realmente, reunir esses
resultados, apresentar esses resultados à sociedade num período em que eu tive
um grande comprometimento, um período de gestão em que tive uma grande responsabilidade
nesse setor.
Sr. Presidente, Sr.
Relator, pergunto se há tempo ainda, porque eu teria interesse de declinar
algumas informações a respeito de Rede Postal Noturna e a respeito de
franquias.
O SR. PRESIDENTE (Asdrubal Bentes. PMDB – PA) – Sinta-se à vontade.
O SR. EGYDIO BIANCHI – A respeito de Rede Postal Noturna que tem sido,
historicamente, um assunto tumultuado mesmo, eu diria que, do ponto de vista
dos Correios e a Rede Postal Noturna, a relação que existe é de certa forma a
mesma relação que existe entre o setor de aviação civil e as companhias, o tipo
de conflito. Porque a maioria dos problemas que se enfrentou, eles têm origem
no modelo que o País adotou para fazer a gestão do transporte público, da
aviação civil. As virtudes eventuais e os vícios, os entraves são muito
parecidos.
Foi feito, como disse
já aos senhores, uma primeira revisão, e até para o nosso espanto reduzimos de
50 para 29 linhas; uma redução, uma economia que se proporcionou,
permanentemente, de US$50 milhões, à cotação da época.
Continuamos com esse
trabalho, e o Tribunal de Contas da União, em 1996, passou a exigir que se
fizesse concorrência no setor; e, de certa maneira, mais ou menos em
contradição com o regime do órgão regulador daquele momento – o regime, as
posturas, os procedimentos, as normas, as portarias –, que era o Departamento
de Aviação Civil, o famoso DAC, que os senhores conhecem, que se subordinava ao
Ministério da Aeronáutica.
A empresa ficou
diante de uma situação bastante difícil, uma vez que ela é obrigada a fazer
licitação num segmento que não tinha players, não havia concorrentes, ou
melhor, os concorrentes que existiam quase nunca satisfaziam as condições das
linhas existentes, das cargas transportadas; necessidade de equipamentos de
vôo, de aviões, de aeronaves. Havia grandes dificuldades, mas, mesmo assim,
encontramos uma licitação em andamento, que foi sustada, e levamos, em 1995,
uma grande licitação para renovar os contratos da RPN. E ela não foi
bem-sucedida; naturalmente, ela não foi bem-sucedida. A maioria das linhas não
conseguiu resposta, não havia concorrentes interessados e tal. E, mediante um
trabalho do jurídico do Ministério das Comunicações de então, em conjunto com,
de certa maneira, o próprio DAC, foi gerado um procedimento especial de
negociação. E carregava com ele muitos dos mecanismos da Lei nº 8.666, mas, de
certa maneira, desprezava algumas questões, porque era sabidamente um setor
onde não havia player, não havia gente disputando. Então, dever-se-ia
fazer um trabalho, realmente, em que o interesse da empresa fosse preservado,
em matéria de custo, de eficiência, mas, de qualquer forma, sacrificar algumas
das exigências da 966.
Isso foi realizado.
Esse procedimento foi realizado, a rede postal noturna foi reeditada, foi
atualizada com novas linhas. E, nessa época, grande dificuldade existia porque
quem participava ou quem não participava, os preços que eram adotados eram
variáveis que nunca estiveram nas mãos do contratante. O contratante era a
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, mas quem podia voar no trecho
“ab”, no trecho “xy”, no trecho “mn” não éramos nós que definíamos, não
tínhamos condições técnicas de distinguir – isso é verdade –, não tínhamos
condições técnicas de distinguir quem eram os habilitados a realizar esse ou
aquele. E havia mais uma singularidade: só podiam trabalhar na nossa rede
mediante uma interpretação do DAC da época; só podiam trabalhar, digamos assim,
na rede postal noturna, as empresas, ditas, regulares. Isso, então, estreitava
o universo de proponentes para nós de uma maneira muito rigorosa.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Quem
estabelecia essas linhas ditas regulares?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Era o DAC. A função de linhas regulares ou não-regulares,
companhias regulares ou não-regulares é um regulamento do DAC, e havia um
suporte, numa interpretação, numa lei, alguma coisa desse gênero, do qual, no
momento, não me lembro. Mas, se for de interesse do Deputado, posso pesquisar e
ressuscitar.
Então, era curioso
como a companhia deveria se lançar em licitações, se ela não tinha credenciais
e não tinha condições; de um lado, não tinha condições técnicas mesmo, porque
ela não tinha condição de examinar o perfil técnico dessas companhias, mas, de
outro lado, ela teria condições perfeitamente de fazer crescer o número de
proponentes. Mas quem determinava quem podia e quem não podia operar realmente
era o DAC. Isso deixava a companhia... deixava e, penso eu, até 1999, continua
deixando a companhia... até que uma salvadora portaria do DAC veio a liberar
totalmente empresas regulares e não-regulares, para que entrassem nos regimes
realmente competitivos.
Houve um fenômeno crítico, que está sempre na agenda das
pessoas preocupadas com o setor. Antes de relatar isso, eu queria dizer que,
portanto, sempre houve da parte da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos
e, em particular, do Vice-Presidente, durante três anos, e Presidente nos anos
de 1999 e parte de 2000, que é a criatura que vos fala aqui agora, um empenho
muito grande para fazer crescer esse universo de proponentes. Então,
evidentemente que nós nos insurgimos administrativamente, pois não tínhamos
outros recursos, contra a autoridade que, de certa maneira, jurisdicionava o
setor, pleiteando que ela fosse realmente mais generosa na liberação das
empresas, coisa que acabou ocorrendo. E foi exatamente nessa época que
surgiram, no cenário postal brasileiro, um conjunto grande de empresas por
força desse esforço que nós fizemos. Que a nós interessava fundamentalmente
praticar, senão concorrência, certames que pudessem comparar a capacidade de
um, a capacidade de outro.
Vejam que nós fomos alarmados: entramos e, no primeiro
exercício que fizemos, ganhamos US$50 milhões. Uma redução de US$50 milhões.
Então, era sinal de que o setor apresentava realmente gorduras, como se costuma
dizer. Então, era um setor ao qual a gente tinha que se dedicar
permanentemente. Insistimos muito para que realmente viessem para o setor novas
companhias. Aí, surgiram inúmeras companhias. Tenho essa relação, mas não me
lembro de todas elas.
Entre as chamadas companhias regulares, inseria-se a Vasp. A
Vasp, a par de ser um fornecedor, era um forte concorrente nosso, uma vez que
ela tinha a Vaspex, que era exatamente uma empresa subsidiária concorrente num
setor do futuro, vamos dizer assim. Uma vez que os Correios antigos vão se
superando, vão surgindo novas modalidades importantes para a sobrevivência das
atividades dos Correios. Uma delas é o setor das encomendas. Então, de fato, a
Vaspex era um concorrente nosso, um concorrente final, e, curiosamente, ela
também era um fornecedor de serviços – digamos assim – que determinava a nossa
eficiência. Então, é uma coisa realmente muito ambígua, não é? Para que se
tenha uma idéia, ela detinha 44% da operação da RPN na época, com diversas
linhas. Mas também, a partir do momento em que se iniciou o controle das
chegadas dos vôos, dos atrasos e dos cancelamentos, ela respondia por 23% das
irregularidades de toda a rede. No período de 1996 a 1999, a Vasp foi
responsabilizada por 16% no atraso de toda a carga nacional. É uma carga
realmente brutal, e ela teve, então, no seu currículo, esse índice de ter
atrapalhado os Correios em 16% de toda a sua carga. Mas eu acho que o controle
operacional se fazia, e não foi aí que os interesses e as ocorrências se deram.
O problema foi que a Vasp foi caminhando para um estado de
precariedade na manutenção dos serviços, até o momento em que tínhamos
elementos claros de cancelamento do contrato ou não prorrogação - não estou
muito seguro se era não prorrogação ou cancelamento do contrato. E aí se deu um
pleito, considerado correto, que, independentemente de não estar em dia com
suas obrigações com o Fisco brasileiro e tal, ela havia trabalhado num
determinado período. Portanto, havia uma receita a ser paga a ela. Mas o INSS,
na época, por meio de uma representação, pleiteava que os recursos que nós
devêssemos pagar à Vasp deveriam ser pagos a ele, INSS, que era credor de uma
grande quantia. Foi aí que a Vasp resolveu essas dificuldades, chamadas
burocráticas, com a utilização de CNDs – Certidões Negativas de Débitos falsas.
Então, de um lado, nós tínhamos as certidões nas mãos, que
liberavam os pagamentos e os contratos. Consultávamos o INSS, ele não
reconhecia a legalidade dessas certidões, e, ao fim e ao cabo, acabamos
descobrindo que se tratava de CNDs emitidas por uma padaria no Rio de Janeiro,
que eram adequadas aos interesses da Vasp de então. Foi uma coisa realmente
escandalosa, e não era mais possível.
Tivemos um grande
desgaste com... Nós não tínhamos nenhum prazer de ficar desatualizando ou
desativando uma empresa nacional. Nós queríamos é que mais empresas entrassem
no circuito, mas realmente a atuação deteriorada da qualidade dos serviços dos
correios da Vasp era quase que insuportável. Foi nesse momento que houve a
exclusão da Vasp do nosso trabalho – e ela respondia pela bagatela de 44% em
todo o movimento da rede postal noturna. Nós tivemos de fazer contratações
emergenciais. Naquele momento, várias companhias detinham condições para arcar
com as cargas dos diferentes tramos que, até então, eram atendidos pela Vasp.
Nós contratamos essas companhias em caráter realmente emergencial. E, como era
nosso propósito, desde o início, seguiu-se um estudo de reformulação geral da
RPN. Contratamos a consultoria de uma empresa francesa – a Aeropostal –,
que é controlada pelos correios franceses e que, naturalmente, é controlada
pelo Tesouro com uma larga experiência em transporte aéreo de carga postal. Eu
tenho um relatório que, se houver interesse da Comissão, posso fazer chegar a
ela. Ela tem a recomendação de um tratamento importante para o futuro. Além de
todos os trabalhos da atuação cabocla, nós estivemos melhorando a organização,
melhorando a racionalização, acabando com os abusos existentes por parte de
fornecedores. E eles, realmente, propuseram uma reforma mais radical e
apontaram para nós três caminhos alternativos. Um deles seria uma tentativa de
conviver com o modelo atual que eles chamam de alugar as cargas disponíveis nas
diferentes companhias. Vejam os senhores que, se não me engano, em 1974 – e
está na história dos Correios – nós, brasileiros, dependíamos do transporte de
cargas no reservatório de malas, de bagagens, no transporte de passageiros.
Isso evoluiu como a RPM, que tinha vôos dedicados e só transportavam, portanto,
a mala postal. Em alguns exemplos em todo o mundo, a especialização foi a tal
ponto que as frotas só levavam a mala postal e, portanto, não ficavam
dependendo desses vazios isolados que as companhias têm. Nenhuma delas, sobretudo,
não costuma dar a sua carga postal aos concorrentes que, realmente, não é uma
medida inteligente no mundo capitalista e concorrencial.
Há um outro caminho
que essa empresa francesa apontava, que nós tivéssemos alguns parceiros
preferenciais, mas ela previa, aí, dificuldades, uma vez que nós tínhamos a Lei
nº 8.666. Qual seria o critério para você escolher, seria a companhia X ou a Y?
E, aí, vinha todo um modelo a partir disso. E uma terceira opção, mais radical,
dividia muito as autoridades do setor, inclusive no setor postal, no Ministério
das Comunicações, sobretudo no DAC, que era a constituição de uma empresa
especial só para transportar a carga postal brasileira. Tinha a nossa crítica,
tinha condições econômicas. Era um estudo belíssimo nesse setor. Evidentemente,
há prós e contra mas o que eu estou querendo registrar é que houve alguns incidentes de percurso,
algumas dificuldades de percurso, mas foi feito um estudo de fôlego, acenando
com a possibilidade de tirar essa questão da RPM de tantos atritos, de tantas
improvisações, de tantas ilegalidades e – por que não dizer? em alguma circunstâncias –, de tantos abusos?
Sr. Presidente e Sr.
Relator, outro tema: franquias – as franquias brasileiras, na época em que
foram atribuídas, não existia a Lei das Franquias no Brasil e tampouco existia
no Brasil a Lei das Concessões.
Ela, então, foi instituída em cima de um contrato comercial
que, de alguma maneira, obrigava as partes – um contrato extremamente frágil
não só do ponto de vista da autoridade concedente – que são os Correios ou o
Governo, o Poder público através dos Correios, como, também, até para os
próprios empresários porque ali não existem mecanismos claros que garantam seus
direitos e, sobretudo, não garantem também as suas obrigações. Então, era uma
formulação de uma tarefa, de uma empreitada vaga, complicada, sem precisão, mas tem o mérito de ter começado,
de ter aberto as portas para essa
colaboração da área privada. E, a meu ver, tem um vício crucial, que foram os
mecanismos de atribuições dessas instituições, dessas agências, dessas
franquias. Esse Contrato, evidentemente, tão precário, existe até hoje, mercê
de uma série de articulações que o setor e esses empresários fizeram junto ao
setor público, junto ao Congresso. Ao longo do tempo, têm-se conseguido dar uma
sobrevida a esses contratos, e são contratos, do ponto de vista dos Correios e
do ponto de vista do seu dirigente nesse período, inservíveis, contratos
realmente muito precários.
Eu, particularmente, tinha uma posição muito severa em
relação a essa questão. Como dirigente, como engenheiro, como administrador, eu
tinha uma posição muito severa, e alguém me perguntou outro dia como é que era
a minha relação com o setor. Eu falei: “Olha, eu não respondo isso com muita
satisfação, mas eu sou considerado inimigo público número um das franquias” -
embora entenda claramente que a terceirização do atendimento nos Correios é uma
necessidade, mas não com base num aparato jurídico tão precário quanto este,
mormente agora, quando não só temos lei de franquia no Brasil, como temos uma
lei que regula as concessões e que diz que o serviço público, para ser
atribuído à atividade privada, tem que ser feito mediante esse regime.
Esses contratos que foram firmados no começo da década de 90
provavelmente, todos eles completavam dez anos em 1999, 2000, 2001; portanto,
no meio da nossa gestão, estourava esse tipo, digamos assim, de ocaso, e nós
procuramos acelerar esse mecanismo. E tivemos até uma iniciativa, tendo em
vista que havia uma transição muito complexa, e era um número de 1.500 casas
funcionando dentro da nossa rede; mas não tínhamos interesse de ter uma ação
predatória. Nós procuramos nos aproximar do Governo, entrar com uma medida que
criava um período de transição para que os empresários se adaptassem e
passassem a entrar nas novas concorrências, que seriam concorrências complexas;
não seriam coisas muito simples, levando-se em conta que iam lidar com pessoas
que já exerciam as atividades, que já tinham ativos no setor. Não eram coisas
certamente ordinárias; era um mecanismo bastante complexo.
Então, precisávamos de um tempo, e esse tempo é o que era
pleiteado numa medida provisória – se não me engano, uma medida provisória do
setor elétrico; lamentavelmente, pegando carona, digamos assim, nessa medida do
setor elétrico. E, para nossa surpresa, nós pegamos carona nessa medida
provisória, mas pegaram carona também na nossa iniciativa. Assim, nossa
proposição saiu totalmente deformada, e o setor conquistou, nessa oportunidade,
uma prorrogação em torno de dois anos. Posteriormente, ele conseguiu uma nova
prorrogação de mais cinco anos, contestada por alguns Ministérios Públicos
regionais, a exemplo do que ocorreu com o Ministério Público de Minas Gerais,
que se insurgia contra a constitucionalidade desse tipo de prorrogação.
Enfim, as coisas não foram pacificadas, sequer resolvidas,
mas foram prorrogadas. Ao que me consta, esses contratos seguirão até o ano de
2007, momento em que o setor público, o Governo terá que se haver novamente com
essa questão, mormente porque, se não tratar dela e deixar para a antevéspera,
terá dificuldades também de pacificar esse setor.
A exemplo do que fizemos na RPN, trabalhamos também com uma
consultoria internacional muito importante, que nos foi proporcionada pelo Correio
do Canadá, um dos melhores correios do mundo e que administra a maior rede de
franquias do mundo, algo em torno de 15 mil franquias – franquias ou lojas
terceirizadas –, portanto, uma experiência única no mundo de organização do
mercado de varejo.
Essa consultoria esteve aqui no Brasil, especialmente em
Brasília, com um grande número de técnicos; realizou um trabalho demorado, de
um ou dois anos, e foram propostas linhas de atuação muito interessantes, muito
importantes. E, mais uma vez, como não poderia deixar de ser, voltava-se a
falar nas concessões como o suporte jurídico ideal. Eles analisaram todas as
nossas formulações jurídicas e chegaram à conclusão de que realmente teria que
ser por esse caminho.
Esse estudo está
disponível na Empresa, e ela não conseguiu avançar muito, mas a cultura nossa
hoje de correios, no Brasil, foi muito melhorada pela percepção de negócios de
varejo, de relação com o público, a partir dessa convivência com os técnicos do
Canadá, que estiveram conosco por mais de um ano aqui, por intermédio desse
convênio.
Finalmente, eu
falaria de um assunto importante, mais para citar que temos aqui um documento
que pode ser de interesse da Comissão. Falo da chamada instituição do Banco
Postal no Brasil. Eu fui um dos dirigentes que se interessou por essa matéria,
que retirou essa matéria do fundo do baú. Localizamos nos Correios as pessoas
que já haviam estudado esse assunto no mundo todo, especialmente no Japão,
fizemos um trabalho extremamente interessante e aplicamos realmente nos Correios.
Chegamos a montar a primeira fase preliminar, uma fase piloto, por assim dizer,
dos Correios Postais, em parceria com o Banco do Brasil.
Todas as
recomendações apontavam nesta direção: vocês não podem, depois de trinta,
quarenta anos de vida postal, tentar fazer uma coisa que não é a vocação de
vocês. Vocês têm um grande aparelho, uma grande rede e, para otimizar e se
valer deste patrimônio, precisam fazer parcerias com quem tem essa vocação da
operação financeira, que vocês não têm.
Fomos buscar essa
parceria no Banco do Brasil, porque era mais fácil, era mais razoável e não
dependia de mecanismos de escolha, de seleção no mercado. Lembro-me que a
primeira loja foi implantada em Soretama, que é um Município do Espírito Santo,
e sucederam-se algumas dezenas de lojas.
Finalmente, depois da
minha saída dos Correios, o modelo foi reelaborado e estudado na sua
profundidade e, mediante um mecanismo de consulta pública muito ampla, foi
realmente idealizado o modelo que está em vigor. Diga-se de passagem, um grande
sucesso para fins de atendimento e para fins comerciais, pelos números, pelos
relatórios que são divulgados. Tenho aqui um sumário executivo do projeto que
foi desenvolvido pela empresa de consultoria dos correios holandeses, a
PostBank International Consultancy, importante para que os senhores
Parlamentares possam ter oportunidade de buscar onde surgiram as raízes dessas
idéias, das formulações que nortearam, até certo momento, as ações dos Correios
brasileiros.
Peço desculpas pelo
gasto excessivo de tempo e agradeço a atenção dos senhores.
O SR. PRESIDENTE (Asdrubal Bentes. PMDB – PA) – Esta Presidência agradece a
V. Sª e, de pronto, passa a palavra ao Relator para as indagações.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sr. Presidente, cumprimento,
inicialmente, o depoente agradecendo pela exposição original.
Apenas para precisar,
eu gostaria que o depoente indicasse datas da sua vida funcional nos Correios.
O seu ingresso nos Correios se deu há quantos anos?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Em 1995, na primeira gestão do Presidente Fernando
Henrique, na condição de Vice-Presidente, como pude expor, com a missão,
digamos assim, de administrar a empresa olhando para dentro do sistema. O
Presidente de então era Henrique Hargreaves, que ficou com a missão, como
Presidente, de se relacionar externamente, de olhar a empresa para fora, com as
missões que normalmente são atribuídas ao Presidente. Mas o relacionamento com
o Governo, o relacionamento com a sociedade, eu tinha, então, essa
incumbência...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Era só uma
Vice-Presidência?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Era só uma. Foi criada exatamente nesta ocasião para que
esse modelo de um profissional, eventualmente com maior experiência de gestão
empresarial, olhasse a empresa para dentro e o outro, que não detinha,
necessariamente, essa experiência, ficasse com outras missões. Foi um modelo
criado exatamente para essa circunstância.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Certo. Então, o senhor
entrou em 1995, como Vice-Presidente, durante a Presidência do Sr. Henrique
Hargreaves. Quem era o Ministro à época?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Sérgio Motta.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Até quando o senhor ficou
na Vice-Presidência nesse período?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essa minha função se estendeu – o mês, eu confesso, não me
lembraria – até o final de 1997, quando, por dificuldades, creio eu, de
articulação política e de performance de alguns dos dirigentes, o
Ministro de então exonerou a diretoria como um todo.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem era o Ministro? Ainda
era o Ministro Sérgio Motta?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Ministro Sérgio Motta. Ele exonerou a diretoria como um
todo e colocou, no lugar da diretoria antiga, uma nova diretoria, especialmente
montada, em sua maioria, com funcionários de carreira. Os demais...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor saiu dos Correios
no final de 1997?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu saí. Em 1997 deixei de ser Vice-Presidente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E foi para qual atividade?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu assumi a Secretaria de Serviços Postais, no Ministério
das Comunicações, com a incumbência de montar essa Secretaria, de dar
estrutura, de dar substância para ela. Como eu lhe disse...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ela já existia antes ou
não?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, existia um departamento, uma unidade administrativa
bastante modesta, que não estava, digamos assim, à altura da importância que o
Governo, em especial o Ministro Executivo do setor, que era o Ministro Motta,
atribuía ao setor postal.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem o indicou para o
cargo da Vice-Presidência em 1995?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Foi o engenheiro Sérgio Roberto Vieira da Motta, o
Ministro de então.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
Então, no final de
1997 o senhor assumiu a Secretaria de Serviços Postais, no Ministério das
Comunicações, que, à época, era titularizado pelo Ministro Sérgio Motta.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Exatamente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ficou até quando na
Secretaria?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu fiquei até... Não posso lhe precisar a data, mas posso
lhe precisar as circunstâncias em que eu me afastei. Eu me afastei para fazer
parte da equipe que conduziu a campanha da reeleição do Presidente Fernando
Henrique.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor, então, trabalhou
na campanha à reeleição do Presidente Fernando Henrique Cardozo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Trabalhei.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Qual a função que V. Sª
exercia na campanha?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Minha função na campanha era... Eu era ordenador de
gastos de campanha nas áreas de TI, de tratamento da informação, informática, telemarketing,
tudo o que dissesse respeito ao tratamento da informação. Eu era um executivo
desse setor. Adicionalmente, eu era Vice-Presidente do Comitê de Finanças e me
ocupava exatamente de uma mesa controladora de recursos que existia em Brasília
e que, de certa maneira, regulava o trabalho entre os gastadores de dinheiro e
os captadores de recursos no mercado.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor era o
Vice-Presidente. Quem era o Presidente?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Presidente... Na verdade, esse era um modelo que o PSDB
e a campanha adotaram. O Presidente era o Presidente formal do Comitê Nacional
de Campanha, que era o Ministro Bresser. Havia um tesoureiro, que era o
engenheiro Adroaldo Wolf, de São Paulo. Minha missão de Vice-Presidente não era
prevista na legislação. Era uma acomodação interna que nossa campanha tinha,
até mesmo porque o Ministro Bresser não tinha disponibilidade de estar
permanentemente em Brasília, exercendo exatamente a missão que eu exercia,
subordinado a ele, de controle da mesa de recursos, digamos assim.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – À época, o senhor chegou a
trabalhar como arrecadador de recurso eleitorais para a campanha?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não era a minha missão. Minha missão não era
trabalho de captação. Eu acompanhava esse trabalho dos vários segmentos que
faziam. De certa maneira, eu era um cliente desses recursos porque, de outro
lado, eu haveria de abastecer os operadores, os gastadores de dinheiro. De forma
que eu acompanhava esse trabalho por obrigação e por necessidade de manter os
orçamentos atualizados, as nossas receitas e despesas equilibradas.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor tem filiação
partidária?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu tenho. Como eu lhe disse, comecei na vida política
militando na Ação Popular. Posteriormente, quando voltamos às forças que
lutavam contra o Estado autoritário, resolveram adotar a via legal, e eu
ingressei no MDB. Posteriormente, eu me transferi para o PMDB. Faço parte
daquela facção que deixou o PMDB e criou, em 1988, o PSDB, ao qual sou filiado,
embora minha militância não seja ativa hoje.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor é filiado ao PSDB
de que Estado?
O SR. EGYDIO BIANCHI – De São Paulo.
Quando terminou a
campanha eleitoral, o senhor, obviamente, deixou de atuar nas funções que
tinha. O senhor foi para que cargo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu assumi a Presidência da Empresa Brasileira de Correios
e Telégrafos.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Isso foi exatamente em que
data? O senhor se lembra?
O SR. EGYDIO BIANCHI – No início de 1999, no início da gestão.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Logo no início do Governo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – No início do Governo, na montagem da...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem o indicou para esse
cargo?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Presidente da República.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Diretamente o Presidente
da República?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não creio. Tinha vários companheiros que devem ter feito
chegar a ele esta gestão, mas o convite partiu dele.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem era o Ministro à
época?
O SR. EGYDIO BIANCHI – O Ministro, à época, eu creio que era Luiz Carlos
Mendonça de Barros. Perdão, não era. Era o Ministro Pimenta da Veiga.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pimenta da Veiga.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Que entrou exatamente... Cuja gestão iniciou-se exatamente
em 1999.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor fica na
Presidência dos Correios até que ano?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu fico até o ano de 2000, até julho de 2000, uma data
muito simbólica, que é 14 de julho.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Saindo da Presidência dos
Correios, foi para que função?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu fui para a atividade privada, onde eu me encontro até
hoje. Deixei de...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor trabalha em
alguma empresa ou tem alguma empresa?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu sou titular de uma pequena empresa, Valbec, em São
Paulo...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Como chama?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Valbec.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Valbec.
O SR. EGYDIO BIANCHI – É. A Valbec, em sucessivas alterações do objeto social,
ela é uma empresa de consultoria, engenharia e sistemas, que é um pouco,
digamos assim, a área de atuação com a qual...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Essa empresa foi fundada
quando? Foi criada quando?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Ela foi criada em 1979.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E ela permaneceu em
atividade mesmo durante o período em que V. Sª estava exercendo as funções
públicas que declinou?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, uma atividade... Ela foi desativada, na verdade. Ela
não desapareceu do cenário. Mantinham-se as obrigações fiscais, mas a atividade
dela foi decrescente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ela chegou a ter algum
tipo de contrato com órgãos públicos?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, absolutamente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não? Não tem. Sempre com a
iniciativa privada?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, nenhum contrato.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então, feita essa
introdução preliminar, eu começo, então, algumas questões a V. Sª.
Durante o período em
que V. Sª presidiu os Correios, quais eram as empresas contratadas na parte de
publicidade?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu me lembro perfeitamente da DM9, que era uma empresa
com que se trabalhava, da Standard, e uma terceira, que eu, de fato, não
lembro. Eram três empresas que foram...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A empresa Giacometti já
trabalhava à época?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não trabalhava?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não trabalhava conosco. Eram essas três empresas,
que, ao que consta, teriam saído na posterior licitação que ocorreu nos
Correios.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja, a empresa
Giacometti não prestava serviços à época...?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, não prestava serviços. Não tinha nenhuma relação
conosco.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor teve algum
contato com a empresa SMP&B ou DNA?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, em nenhum momento.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Em nenhum momento.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Chegou a ter algum contato
com o Sr. Marcos Valério?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não. Absolutamente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Com o Sr. Cristiano Paz?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Também não.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Também não.
Havia alguma
interferência do Ministério no gasto de verbas publicitárias do Correio?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essa... Se disser afirmativamente, talvez cometa alguma
injustiça, e negativamente, eu estou fugindo um pouco à verdade. Evidentemente,
há um mecanismo, aliás, ele é mantido pelos Governos todos – eu quero crer que
o próprio Governo atual se utiliza desse mecanismo –, que é uma certa
centralização, na Secom, do direcionamento das verbas publicitárias,
especialmente das empresas. E eu acho que faz sentido. São empresas de que o
setor público detém o seu capital. É natural que ele tente dar uma certa
unicidade no discurso, digamos assim, no discurso de comunicação. Os limites
desse tipo de coisa esbarram quando a empresa é uma empresa concorrencial, que
vai ao mercado, que precisa se expor ao mercado, que precisa gastar sua verba,
primordialmente na questão comercial, na questão do seu marketing. E aí
eu acho que é um pouco, então, o limite.
Então, o senhor me
pergunta se havia interferência. Interferências havia exatamente nessa medida
em que algumas questões eram de fato centralizadas pela Secom, como continuaram
a ser, de certa forma, centralizadas, homogeneizadas, do ponto de vista da
linha de conduta. E os Correios são uma instituição que, ao longo dos anos, se
irmanaram com a sociedade e freqüentemente patrocinaram, e continuam
patrocinando, manifestações culturais, esporte. Não é preciso dizer o grande
número de pressões de todos os setores da sociedade brasileira que despencam
sobre os Correios para obterem essa ajuda, essa participação dos Correios
nesses empreendimentos, nesses projetos, nessas idéias.
Nesse particular, o
Ministério das Comunicações acaba sendo uma antena que chama todas essas
demandas, essas solicitações. E é evidente que havia um fluxo muito grande de
demandas, de solicitações, de recomendações partidas dos órgãos de comunicação,
de assessorias, de publicidade do próprio Ministério.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O Ministro Pimenta da
Veiga de alguma maneira tentava interferir na destinação de verbas de
publicidade?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu acho que, na medida em que eu lhe disse de
recomendações, especialmente na área de patrocínio, de projetos patrocinados,
havia um interesse grande nessa direção. E do lado da empresa havia, falo isso
com bastante segurança, toda uma postura de guardiã, digamos assim, dos
recursos da empresa e a defesa para que o seu direcionamento prioritário se
desse em direção à iniciativa de comunicação mercadológica, iniciativa de comunicação
com a sociedade, mesmo porque esta tendência ficou exacerbada na figura dos
dirigentes, porque nós estávamos defendendo uma lei para a reforma do setor
postal, e ela haveria de ser muito bem conhecida da sociedade. Então nós
achávamos que a empresa tinha que se expor muito.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Essa é uma das questões
que vou-lhe perguntar.
Logo após a sua saída
da presidência dos Correios o senhor declarou para a imprensa – eu tenho aqui
em mãos a matéria – o seguinte: O ex-Presidente dos Correios, Egydio Bianchi,
acusou ontem o Ministro Pimenta da Veiga, das Comunicações, de ter “interesse
em controlar a verba de publicidade da empresa para favorecer o município X de
Minas Gerais”. Qual era a razão dessa declaração que V. Sª fez, referente ao
Ministro Pimenta da Veiga? Ele queria favorecer um município ou queria
favorecer a destinação da verba para uma agência, o que efetivamente era?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Cumpre-me fazer algumas considerações. Primeiro, que eu
não me apressei em fazer a correção. O jornalista que captou esta minha frase
não foi feliz ao expressar isso. Na verdade, eu dizia exatamente para não
enumerar: o município X ou Y, que é uma maneira de fazer política, uma maneira,
no meu entendimento, antiga, atrasada de fazer política, mas é que se confronta
com as maneiras, especialmente no que diz respeito à empresa pública,
profissionais, com a postura.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas o Ministro queria
interferir de que maneira nessa destinação de verbas para favorecer o Ministro
X ou o Y?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Eu queria fazer um comentário inicial que vai ajudar a
compreender essa questão.
O SR. ARNALDO FARIA
DE SÁ (PTB – SP) – Esse
município X então é genérico, não é um município qualquer que ficou colocado
como X?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Não, eu me referi ao jornalista e dizia que era uma
maneira de fazer política. Que você tem instrumentos do Estado, instrumentos do
poder público que às vezes são confundidos na vida pública como uma maneira de
fazer política.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Se o senhor pudesse ser um
pouquinho mais concreto. Como o Ministro fazia? Ele queria que direcionasse a
verba para quem? De que maneira? De que forma?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essa relação é uma relação complexa. Não é o Ministro que
chega para o Presidente dos Correios e diz isso. Ele tem equipes, assessores,
chefia de gabinete. O número excessivo de pleitos que chegavam...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem comandava nos
Correios a Secretaria de Comunicação que cuidava dessa área?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Era um profissional do quadro dos Correios, mas eu não me
lembro. Era um profissional que atendia a orientação da Presidência. Os setores
de marketing, não era essa a denominação na época, os setores de comunicação
respondem ao Presidente, então o titular dessa área respondia ao presidente
literalmente, sofria naturalmente as suas pressões, mas ele respondia ao
presidente, não era um outro tipo de profissional. Profissional de carreira dos
Correios, envolvidos com essa coisa, respondiam ao presidente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na mesma oportunidade, o
senhor declarou o seguinte: Bianchi afirmou ainda que Pimenta nomeou por contra
própria o representante dos Correios na comissão da secretaria de comunicação
que define as verbas de patrocínio. Então, era essa a interferência que ele
tinha?
O SR. EGYDIO BIANCHI – De alguma forma, sim. Havia na Secom, não sei se esse é o
método ainda de trabalho de hoje, mas as empresas escalavam, designavam um
representante seu para, num comitê existente na Secom, discutir e otimizar
eventuais linhas de crédito para apoio dos projetos, para que não existisse
redundância e, de certa maneira, houvesse algum entendimento quanto ao
acolhimento de projetos e de iniciativas de interesse do Governo.
Lembro-me
perfeitamente de que, ao tomarmos a iniciativa de indicar, já tinha sido
tomada. Já tinha sido indicado um elemento...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – É visível que o senhor
tinha uma divergência com esse tipo de interferência.
O SR. EGYDIO BIANCHI – Sem dúvida!
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Exatamente, qual era o
direcionamento que o Ministro Pimenta da Veiga, por meio do seu homem, na parte
de Comunicações, dava e com o qual o senhor não concordava? O que exatamente
era?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Essa reportagem, essa matéria surgiu num momento de certa
exaustão das minhas relações com o Ministro Pimenta da Veiga, num momento de
estresse, de cansaço completo e, sobretudo, de um posicionamento que considerei
inadequado do Ministro, ao atribuir a minha demissão, à época, a divergências
de estilo administrativo. Eu achei que era tão pobre essa explicação e fiquei,
de certa maneira, estressado e revoltado com esse diagnóstico que ele fazia.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E, nesse estresse, o
senhor acusou de haver um direcionamento do Ministro na parte de publicidade. O
que era isso exatamente?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Deixe-me completar. Talvez, o senhor compreenda melhor.
Eu dizia ao
jornalista: “Não é só essa questão. Há questões”. E enumerei uma série de
questões que montavam exatamente o estresse daquele momento. A publicação era
uma das intervenções.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O que era exatamente,
concretamente?
O SR. EGYDIO BIANCHI – Concretamente, o que eu posso... o tal Município “X” ou
“Y”, não posso dizer que não existe; o “X” determinado ou o “Y” determinado não
são incógnitas de uma dilação do antigo Presidente. Foi uma maneira de eu
expressar como se faz política, que é algo com o qual eu não concordava.
Por exemplo, quanto
aos patrocínios, se formos avaliá-los, veremos que o Brasil tem uma geografia
cultural fantá |