|
O SR.
PRESIDENTE (Asdrubal Bentes.
PMDB – PA) – Sob a proteção de Deus, declaro reaberta a nona reunião da
Sub-Relatoria de Contratos da CPMI, criada através do Requerimento nº 3, de
2005, para investigar as causas e conseqüências de denúncias e atos delituosos
praticados por agentes públicos nos Correios – Empresa Brasileira de Correios e
Telégrafos.
A pauta desta reunião destina-se à oitiva do Sr. Marcus
Vinícius di Flora, ex-assessor da Secom.
Solicito à assessoria para conduzir o Sr. Marcus Vinícius di
Flora e fazê-lo tomar assento à mesa para iniciarmos os trabalhos. (Pausa.)
Sr. Marcus Vinícius, V. Sª comparece a esta Comissão para
prestar esclarecimentos na condição de testemunha e, como tal, já prestou o
compromisso legal. Devo alertá-lo para as penalidades, já que, no compromisso,
V. Sª deve dizer a verdade. Qualquer declaração sua será tomada como verdadeira
e, se não o for, estará sujeito às penalidades da lei.
Gostaria que V. Sª fizesse sua classificação, desse o nome e
a qualificação também do seu patrono, nosso colega advogado, e prestasse os
esclarecimentos iniciais.
Quero pedir permissão ao colega Sub-Relator e também aos
colegas Parlamentares, à imprensa, ao depoente e a seu advogado, que ainda não
consegui o dom da ubiqüidade. Tenho uma reunião, agora, com o Presidente do
Senado e com uma comissão de prefeitos do meu Estado, de maneira que peço
permissão para me ausentar, embora, temporariamente, para cumprir o meu dever
com os meus prefeitos e companheiros do meu Estado.
Portanto, eu gostaria que V. Sª iniciasse com a
qualificação, e, depois, o nosso querido Sub-Relator, José Eduardo, vai
assumir, concomitantemente, a Presidência e a Relatoria da Comissão.
Obrigado.
O SR. MARCUS VINÍCIUS DI FLORA – Muito obrigado, Deputado Asdrubal Bentes.
Eu queria cumprimentá-lo, ao Deputado José Eduardo Cardoso e
a todos os presentes.
Meu nome é Marcus Vinícius di Flora, sou formado em História
pela Universidade Federal de Minas Gerais, sou empregado da Caixa Econômica
Federal há 16 anos, apesar de estar cedido a outros órgãos há cerca de dez
anos. Fui chefe de gabinete do prefeito de Belo Horizonte e chefe da assessoria
da presidência da empresa de transportes de Belo Horizonte. Sou filiado ao PT
desde 1980 e fui secretário-adjunto da Secretaria de Comunicação de Governo da
Presidência da República, de janeiro de 2003 a agosto passado.
Estou, aqui, na condição de testemunha, para colaborar com a
apuração da CPMI, e me coloco inteiramente à disposição desta Comissão para os
esclarecimentos necessários. Estou acompanhado do Dr. José Roberto Leal de
Carvalho, que é meu advogado constituído.
O SR. PRESIDENTE
(José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Inicialmente, cumprimento o depoente e
agradeço a presença também do advogado, que o acompanha neste momento.
Inicialmente,
eu gostaria de introduzir o depoimento de V. Sª, indagando como foi a sua vida
junto à administração pública: que cargos exerceu e que atuações teve.
O
SR. MARCUS VINÍCIUS DI FLORA – Deputado, sou funcionário concursado da
Caixa Econômica Federal há 16 anos, como informei, apesar de estar cedido. Fui
cedido à Prefeitura de Belo Horizonte, em 1995, primeiro, para ser Secretário
particular do Prefeito Patrus Ananias; posteriormente, fui promovido à condição
de Chefe de Gabinete do Prefeito Patrus Ananias.
No mandato seguinte
do ex-Prefeito Célio de Castro, fui nomeado para chefiar a assessoria da
Presidência da Empresa Municipal de Transporte de Trânsito de Belo Horizonte,
que era a responsável, encarregada por uma série de atividades, entre elas
atividades de educação para o trânsito, a questão da área de comunicação ficava
vinculada a essa assessoria; a parte de atendimento ao usuário do serviço de
transporte de Belo Horizonte.
No
final de 2002, fui convidado para compor a equipe de transição do Governo Lula
e, posteriormente, fui convidado, pelo ex-Ministro Luiz Gushiken, para assumir
a condição de Secretário-Adjunto da Secretaria de Comunicação da Presidência da
República, cargo que exerci até agosto último. Hoje, estou de volta à Caixa
Econômica Federal, que é a minha empresa de origem.
O
SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª é filiado a algum
partido político?
O
MARCUS VINÍCIUS DI FLORA – Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores desde
1980; fui membro de diretórios de base do partido, do diretório municipal de
Belo Horizonte, depois do diretório estadual de Minas Gerais e fui membro da
direção nacional do PT, de 1997 até agora, no final da semana passada, quando
expirou o último mandato que exerci.
O
SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Relativamente às suas
funções partidárias, V. Sª exerceu algum cargo de coordenação em campanha que
implicasse em missão de arrecadação de fundos eleitorais?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não.
O
SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nunca exerceu?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – De captação de
recursos, nunca exerci.
O
SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E a parte de gestão
financeira de uma campanha eleitoral?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Também não.
O
SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Apenas para melhor
especificação: o cargo que V. Sª exercia na Presidência da República,
exatamente como era denominado?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Secretário-Adjunto
da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência da
República.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
A
data em que V. Sª foi provido no cargo exatamente?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Dia 1º de janeiro
de 2003.
O
SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E a data exata da
exoneração?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Dia 2 de agosto de
2005.
O
SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quais eram as atribuições
relativas a esse cargo?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Bem, a minha
principal atribuição era responder ao Ministro Luiz Gushiken, na época, e
substituí-lo em todas as atribuições que
ele, eventualmente, não tivesse condições de realizar. Era a primeira
atribuição.
Em segundo lugar, a
atribuição de coordenar a equipe da Secretaria de Comunicação.
Em terceiro, manter o
relacionamento com o mercado de comunicação (tanto o mercado público quanto o
mercado privado, tanto as organizações públicas de comunicação como as
organizações privadas: veículos, agências de publicidade, fornecedores – eu
tinha o trabalho do relacionamento público com esses setores) e atuar em
relação às atribuições legais de supervisão, de coordenação e de controle que a
Secretaria exercia em relação a outros órgãos da administração pública federal,
direta e indireta.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Era habitual, no exercício
das atribuições funcionais, que V. Sª mantivesse contato com outros Ministros
de Estado?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Era habitual em
várias circunstâncias: Ou em reuniões colegiadas de ministros, onde o tema de
comunicação era pautado pelo Governo, seja a discussão de comunicação geral do
Governo, seja a discussão de algum tema específico, ou em contatos relacionados
a alguma ação de comunicação; contatos, vamos dizer assim, individuais, feitos
ou nos ministérios respectivos, ou na própria Secom, em que a Secom era
demandada a realizar ou a estudar, a propor, a discutir, alguma ação de
comunicação afeta àquele ministério.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Consta, na documentação
que temos, obtida ao longo da investigação da CPMI, particularmente na quebra
dos sigilos telefônicos, que V. Sª tinha constantes contatos telefônicos com o
Ministro José Dirceu. Qual a razão dos constantes contatos telefônicos?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – O Ministro José
Dirceu exercia a função de coordenação de Governo, como Ministro da Casa Civil.
E, em diversas oportunidades, ele demandava ações de comunicação ou pedia
informações sobre as ações de comunicação que a Secom desenvolvia. Esse era um
contato relativamente freqüente, que, de fato, ele mantinha não só comigo, mas,
creio, com o Ministro Gushiken também.
Em algumas
oportunidades, ele informava algum tipo de demanda ou reivindicação que tinha
sido enviada indevidamente à Casa Civil e que era, na verdade, direcionada à
Secretaria de Comunicação.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª tratava com o
ex-Ministro José Dirceu de assuntos relativos ao Partido dos Trabalhadores?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Só nas reuniões do
Partido. Normalmente, em despachos e em contatos relativos às questões de
Governo, não.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em algum momento, tratou com ele questões
relativas à obtenção de recursos partidários para campanhas eleitorais para
partidos aliados?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Esse assunto nunca
tratei nem com ele, nem com nenhuma outra pessoa dentro do Governo.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª também tem
constantes contatos telefônicos com o Sr. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do
Partido dos Trabalhadores. Qual a razão desses contatos?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Eu era membro do
Diretório Nacional do PT, o Delúbio era membro da Executiva Nacional do Partido
e, assim, como comigo, ele certamente realizava com outros membros da direção
do Partido, para tratar das pautas públicas que o Partido ia definir. Ou as
pautas relacionadas às decisões que estavam em pauta no Diretório Nacional, ou
algum tema que a Executiva Nacional precisava decidir, sobre o qual ele fazia
consultas a alguns dirigentes do Partido para saber a opinião, o
posicionamento, para sustentar eventuais decisões que seriam adotadas nessas
reuniões.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. Mas, em algum
momento, V. Sª teve contatos com o Sr. Delúbio Soares na perspectiva de debater
com ele ou, de alguma maneira, buscar a captação de recursos para o Partido dos
Trabalhadores?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª conheceu o Sr.
Marcos Valério, proprietário da empresa SMP&B e DNA?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Sim.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em que condições?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Ele se apresentou,
no início do Governo, em abril de 2003, como ocorreu com praticamente todas as
agências de publicidade que atendiam contas do Governo Federal. Tanto o
Ministro Gushiken quanto eu não éramos figuras conhecidas no mercado
publicitário. Havia interesse das agências, e não só das agências, mas também
dos veículos de comunicação e de outros setores de nos conhecer e de saber qual
seria a política de comunicação que seria implementada, assim como era
interesse nosso também estabelecer contato com esses setores para saber quem
seriam os nossos interlocutores nas ações de comunicação. Ele se apresentou com
vários outros. Pediu uma audiência, que foi concedida, como ocorreu com vários
outros empresários do setor.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Como o senhor conheceu o
Marcos Valério? Quem o apresentou?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Ele pediu uma
audiência, ele, como outros...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O contato começou assim?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – É um
procedimento normal na Secretaria e, em especial, foi, no começo do ano de
2003, que as agências ou veículos de comunicação ou empresas fornecedoras de
outra natureza solicitassem a agenda. E isso ia sendo encaixado à medida da
disponibilidade, porque era uma forma, inclusive, que nós tínhamos de entender
melhor o mercado, de entender melhor como era o relacionamento do governo com
essas agências e informar a elas quais eram os procedimentos que o governo
estava decidindo em relação a sua política de comunicação.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Sr. Relator, só para aproveitar a
oportunidade.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por gentileza, Deputado
Silvio Torres.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Queria perguntar o seguinte: sendo o senhor de
Minas Gerais, o senhor nunca tinha conhecido o Sr. Marcos Valério antes? Não
tinha sequer ouvido falar dele?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Deputado, eu já
tinha ouvido falar e conhecia das agências SMB&B e DNA, porque eram
agências estruturadas. Inclusive, tanto detinham contas em Minas, quanto
detinham contas do Governo Federal. Mas eu realmente não o conhecia, como não
conhecia os outros sócios dele, porque não tinha uma atuação direta na área de
comunicação em Belo Horizonte. Nunca tive.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Na sua área de atuação em Belo Horizonte, o
senhor não se encontrou nem com ele nem com a agência?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Eu tive contato com
agências quando eu estava na prefeitura de Belo Horizonte, mas com as
agências que atendiam à prefeitura. E nenhuma delas eram agências de
propriedade ou tinham qualquer relação com o Sr. Marcos Valério. E eu não era
uma figura que circulava no meio publicitário. A minha atuação era uma atuação
mais distanciada da área de comunicação na prefeitura de Belo Horizonte ou na
empresa de transporte onde eu trabalhei.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Muito obrigado. Só queria aproveitar a
oportunidade.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pois não, e eu também pegando
carona com o Deputado Silvio Torres, em algum momento - o senhor tem origem em
Minas Gerais -, o senhor tinha notícia que o Sr. Marcos Valério ou que as
agências SMP&B e DNA tinham contatos com o mundo político na perspectiva de
captação de recursos?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Isso quando eu
ainda estava em Belo Horizonte ou aqui já em Brasília?
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em algum momento.
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não tinha essa
informação.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em nenhum momento, nem em
Belo Horizonte nem quando estava aqui?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor conhece o Sr.
Cristiano Paz?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Conheci também aqui
em Brasília.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – De que forma?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Da mesma maneira,
ele, numa mesma oportunidade, com o outro sócio dele, o Sr. Chico Castilho, que
é o outro sócio da DNA, eles também solicitaram audiências e foram recebidos da
mesma maneira. Audiências em separado, não foram juntas.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não foram audiências
juntas com o Sr. Marcos Valério?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nessas audiências,
exatamente, o que se tratou?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Nesse caso,
especificamente, da mesma temática dos encontros que tivemos no começo do
governo, no primeiro semestre do governo e um pouco no segundo semestre, que
foram temas de apresentação. As agências vinham se apresentar, informar a sua
disponibilidade de colaborar com política de comunicação do governo e,
principalmente, quererem informações sobre quais as orientações de comunicação
que o governo pretendia dar.
Havia uma grande
expectativa, por que era uma mudança significativa de governo, do Governo
Fernando Henrique para o Governo Lula, e eles tinham curiosidade aliada a um
pouco de temor de que o governo, na área de comunicação, fosse promover algum
tipo de mudança drástica, de ruptura no relacionamento com as agências que já
atendiam ao Governo Federal.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
Na agenda da
secretária Fernanda Karina, secretária do Sr. Marcos Valério, estão registrados
encontros de V. Sª com o Sr. Marcos Valério. A razão desses encontros quais
foram?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Em geral, todos
eles por solicitação dele. Ele era e é, ou era, não sei se ele continua
exercendo a função, mas ele era um empresário muito insistente em manter
contatos com a Secom. Não é um privilégio dele. Não sei em outros segmentos do
governo, mas a insistência de empresários da área de comunicação em manter um
contato com o governo é muito grande.
E eu sempre tive
disponibilidade na minha agenda para atender, ou nos despachos próprios dentro
da secretaria, ou aproveitando horários vagos de café da manhã, de almoço, para
cumprir a agenda, porque a agenda sempre foi muito carregada. E no primeiro ano
em especial de governo era carregada sobremaneira em função das novidades que
estávamos enfrentando em relação ao novo desafio de coordenar a área de
comunicação do Governo Federal.
E nessas condições,
em alguns momentos, eu o recebi na Secom e, em outros momentos, tive alguns
contatos com ele fora da Secom.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª lembra que contatos
teve fora da Secom com o Sr. Marcos Valério?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Almocei com ele –
creio que duas vezes eu tive contatos de almoço com ele – e tive um contato com
ele em Belo Horizonte, porque eu estaria em Belo Horizonte, acompanhando o
Ministro Luiz Gusiken, em uma data e, certamente, ele estava pedindo uma
agenda. Aproveitei para encontrá-lo lá. E acho que tive um jantar, embora eu
não me lembre exatamente onde, mas acho que tive um jantar com ele e com os
outros dois sócios dele – o Cristiano e o Chico Castilho –, mas não me lembro
bem qual foi o restaurante. Não sei se foi no Piantella ou em outro.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O que foi
tratado nesses encontros?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Em geral, ele, como
outros empresários da área de comunicação, procuram estabelecer com o Governo
um processo de relacionamento público, de fazer a RP com o Governo; de
valorizar as suas agências e as ações que eles fazem, seja no atendimento de
órgão de Governo, seja no atendimento de clientes privados. Mostram campanhas,
falam que fizeram isto e aquilo; trazem informações do mercado, trazem
informações sobre a situação em que uma agência se encontra e, às vezes,
conflito entre agências ou incorporações – são informações importantes, para
sabermos como é que o mercado está se posicionando –, trazem informações, em
geral, dessas conversas. É um processo que creio ser natural, de eles se
valorizarem diante do setor público.
Em 2003, havia muita
reclamação sobre a forma pouco disponível do relacionamento do Governo com a
mídia, com a imprensa, em particular. Lembro-me, uma vez – não me lembro de
outra oportunidade – em que ele fez reclamações sobre a execução de contratos
dele no Governo. Ele afirmava que havia uma subvalorização da Agência dele em
contratos – não sei se no Ministério do Trabalho e no Ministério de Esportes,
que eram as contas que tinha na administração direta. Mas, certamente, em
relação a isso, tomei a mesma atitude que tomei quando outros empresários
trouxeram esse tipo de informação, que era de informar que eles deveriam fazer
essas reclamações aos seus clientes, aos Ministérios e aos órgãos que eles
atendiam.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor
sabe precisar, temporalmente, a data, o período, em que foram feitos esses
almoços ou esses jantares, mais ou menos?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Eu tive com ele foi
em abril, o primeiro contato. Acho que, em abril mesmo, tive um almoço com ele,
porque eu me lembro que foi pouco depois de eu conhecê-lo. Ele tentou marcar
uma outra audiência, e eu reservei um horário de almoço. Ao longo de 2003, eu
tive mais alguns contatos e no começo de 2004. Depois, em função de mudanças
nas atribuições internas da Secom, passei a ter menos disponibilidade para
fazer essa função de relações públicas dentro da Secom. A partir de 2004. E, de
lá para cá, do começo de 2004 para cá, eu, praticamente, pessoalmente, acho que
não tive mais nenhum contato com ele. E, por telefone, eu, talvez, tenha falado
com ele uma vez ou outra em que ele tentou esses contatos.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Há registro
de que V. Sª teve contato com Marcos Valério em Belo Horizonte. Foi essa a
única vez?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Essa a única vez.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. E,
nesses contatos, que V. Sª teve, em algum momento, o Sr. Marcos Valério chegou
a fazer algum tipo de colocação relativa à política de captação de recursos ou
alguma coisa que pudesse tratar de assuntos correlatos a este?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não. Falar de
política, ele e todos falavam.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Fazia parte e era
natural na conversa, mas ele nunca fez qualquer insinuação ou sugestão
relacionada à questão de captação de recursos. Ele falou, sim – e eu já disse:
ele reclamava da execução dos contratos dele, mas isso nada tinha a ver com
a...
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª tinha
ciência de relações de amizade entre o Sr. Marcos Valério e de dirigentes de
âmbito nacional do Partido dos Trabalhadores?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não. De amizade,
não. Isso eu não tinha, mas eu sabia que ele tinha contatos com o Sr. Delúbio
Soares e com o Sr. Silvio Pereira. Disso eu tinha informações. Ele mesmo, num
momento, comentou que já teve contatos, que já tinha conversado.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E V. Sª
sabia que tipo de contato era esse que ele mantinha?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Em detalhes, não.
Nunca me aprofundei nesse tipo de conversa com ele. Eu sempre procurei manter a
conversa com ele como com outros empresários no âmbito ou das questões
políticas gerais ou dos assuntos relacionados à política de comunicação.
Hoje eu vejo, nas
declarações dele e do Delúbio que o interesse dele era o interesse de prestar
serviço nas campanhas eleitorais do PT, mas ele nunca tratou desse assunto
diretamente comigo em relação às conversas que ele teve com os dirigentes do
PT. Ele dizia que tinha um relacionamento, gostava dessas pessoas, mas nunca
entrou em detalhe e eu também nunca me interessei por saber quais eram os
detalhes dessa conversa dele com dirigentes do PT.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.
Eu indago se – eu fiz
as perguntas iniciais, introdutórias. Essa Relatoria tem muitos questionamentos
posteriores – os Deputados reinscritos gostariam já de fazer suas perguntas.
Senadora Ideli Salvatti, gostaria de fazer as perguntas agora? Deputado Silvio
Torres gostaria de fazê-las agora?
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Eu acho que vou fazer como V. Exª. Vou fazer
algumas perguntas e depois eu retorno.
O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Da parte desta Relatoria,
não há nenhum problema.
V. Sª tem, portanto,
o uso da palavra. O nobre Deputado tem 15 minutos, sem prejuízo de, em não
havendo outras inscrições, podermos fazer como temos feito de praxe.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Eu também estava organizando um pouco aqui as
nossas perguntas, até em função das perguntas que V. Exª fez.
Vou começar retomando
a questão dos telefonemas que o senhor disse que fazia - disse, não -, que o
senhor fazia os contatos telefônicos com o Sr. Delúbio Soares. O senhor alegou
ao Relator que esses telefonemas ocorriam em função da sua condição de membro
da Executiva Nacional e do Sr. Delúbio, como Tesoureiro, para discutir políticas
públicas para o Partido, coisas desse tipo, acho que foi isso que anotei, Esta
correto isso?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Eu só não era
membro da Executiva. Era membro do Diretório.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O senhor não era membro da Executiva?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não, não era
membro da Executiva, só do Diretório Nacional, junto com outros 81 membros.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O senhor sabe quantos membros o Diretório
Nacional tem?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Oitenta e um
membros.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – E o senhor acha que o Sr. Delúbio falava com
os 81 membros com a mesma constância com que falava com o senhor?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não, isso eu não
sei. Nunca perguntei isso a ele, mas ele tinha contatos com muitos membros do
Diretório Nacional. Não sei se tinha uma divisão de trabalho entre eles, na
Executiva Nacional, para fazer as consultas que ele me fazia a respeito da
pauta do Partido.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Desde quando o senhor era membro do Diretório
Nacional?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Desde 1997.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O senhor era indicado pelo ex-Prefeito de
Belo Horizonte?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Eu era, fui
indicado por meio do processo de escolha que o Partido faz. Cada Estado, os
Delegados presentes ao encontro estadual do Partido escolhem os seus membros.
Eu tinha uma atuação no Partido já antiga. Certamente tive apoio de figuras
importantes, como o ex-Prefeito Patrus Ananias, mas também por conta da minha
atuação e do meu trabalho no Partido.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Então o senhor se considerava ou se considera
um membro importante do Diretório Nacional do PT?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não, me considero
um entre os 81 membros do Diretório Nacional. Não me considero mais importante
do que ninguém. Nunca fui uma figura pública.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – A minha pergunta procede em razão dos
telefonemas. Vou voltar a insistir nisso porque acho que o Tesoureiro do
Partido normalmente não discute pautas públicas. Discute questões relativas às
finanças do Partido. Não discute pauta pública com um dos membros do Diretório.
Acho que essas discussões são públicas. Provavelmente os Partidos funcionam
assim. Acho que o PT funcionava nessa base. Por essa razão, estou insistindo
nessa pergunta.
Quando foi que o
senhor teve mais contatos com o Sr. Delúbio? Qual foi o período?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Primeiro,
Deputado, dentro do PT - e o senhor acompanha isso aqui no Congresso, com
certeza -, todo assunto é motivo de debate e, em geral, motivo de votação
interna. Então, o processo de consulta dentro do partido é muito freqüente,
sempre foi muito freqüente, o que tem seus lados positivos, mas tem muitas
críticas – o democratismo, o assembleismo dentro do PT. Mas isso
sempre ocorreu. Esse processo de consulta, de conversa, ele é comum sobre
qualquer tema que vai ser debatido e discutido. Na ação dentro do Partido, o
Sr. Delúbio, ainda que sendo Tesoureiro, ele não tratava só das questões da
Tesouraria. Ele tratava questões da política, do debate político, da polêmica
política interna dentro do Partido, das votações que iam ocorrer na Executiva
ou no Diretório Nacional, da discussão sobre políticas de aliança. Ele
interferia e debatia como todos os outros dirigentes sobre vários assuntos da
pauta política do Partido. E eram essas as consultas.
As
questões de finanças, ele as tratou sempre nas próprias reuniões do Diretório.
Ele apresentava, de vez em quando, os balanços do Diretório e eram lá
debatidas. Comigo ele nunca tratou, especificamente, sobre nenhum assunto
relativo às finanças do Partido, porque é um assunto que nunca me envolvi
dentro do Partido. E a freqüência dos meus contatos com ele, não tem um
período; em geral, ele ligava próximo às reuniões do Diretório ou às reuniões
de Executiva do Partido, quando tinha algum tema na pauta. Não houve
concentração num ou noutro período. Sendo que, em 2004 e, agora, 2005, eu tive
relativamente pouco contato com ele, porque as minhas atribuições na Secom,
como eu informei ao Relator, elas se alteraram e eu passei a ter uma dedicação
de outra natureza dentro da Secom, que passou a me absorver mais e ter menos
disponibilidade para os contatos externos.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – O Secretário
do Partido, Sílvio Pereira, ou o Marcelo Sereno, ou o Presidente José Genoino,
alguém deles ligava para o senhor para discutir políticas, pautas públicas do
PT?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – O Sr. Genoino, eu tive alguns contatos, poucos.
Sílvio Pereira também tive poucos contatos com ele, mas ele, uma vez ou
outra...
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Por
telefone, o senhor está dizendo?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Por telefone. É, não, e nas reuniões do Diretório
com eles.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – E por telefone?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Por telefone, contatos, mas...
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Mas eles
consultavam o senhor?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Consultavam também. E o Marcelo Sereno, eu tive
contatos com ele porque ele era assessor da Casa Civil, tratei vários assuntos
relativos ao Governo com ele, era questão de comunicação e, também, algumas
questões relativas à pauta do Partido. Assim como tratei com outras pessoas do
Partido, que não estão citadas.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Mas os
registros mostram que o senhor falava mais com o Sr. Delúbio do que com os
outros, por quê?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Porque o Delúbio tinha mais iniciativa de ligar
para mim. Aí, é uma escolha. O porquê de ele falar mais comigo do que os
outros, eu não tenho idéia.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Mas não
parece estranho que, exatamente, que o Tesoureiro do Partido que fosse o
portador de discussões com o senhor sobre pautas doutrinárias ou políticas de
alianças ou qualquer coisa que seja do Partido, enquanto os demais membros,
cuja função deveria ser essa, ligavam menos para o senhor? Parece-me estranho.
Dá para imaginar que o senhor tinha uma ligação muito mais forte com o Sr.
Delúbio do que com os outros.
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Não, Deputado, eu tinha..., conhecia todos eles há
muitos anos. Sou filiado, como declarei aqui, membro da direção do Partido há
muitos anos, conheço todos eles há muito tempo. Não tenho relação de amizade,
de convivência íntima com nenhum deles, mas os conheço há bastante tempo. Não
sei se, pela divisão de trabalho interno da Executiva Nacional do Partido, se
coube ao Sr. Delúbio fazer esses contatos. Eu nunca me coloquei esse problema
antes, porque a minha relação com o Partido é uma relação antiga, e o meu
contato e o meu debate sobre temas do Partido sempre foi um processo natural,
estando no Governo ou não. Então, nunca me coloquei esse tipo de problema.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Antes do
Governo, o senhor costumava falar com o Sr. Delúbio com freqüência também?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Sim, sempre tive contato com eles.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Para
discutir os mesmos assuntos?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Também. Assuntos da pauta.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – E com o
Deputado José Dirceu?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Com o Deputado José Dirceu, antes...
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Qual era
a razão dos telefonemas que foram registrados?
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Dentro do Governo, quando eu estava no Governo...
.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Antes e
depois do Governo.
O SR. MARCUS
VINÍCIUS DI FLORA – Não, antes do Governo sempre da mesma maneira,
ele, em algumas oportunidades, ligava ou eu ligava para ele para poder tratar
assuntos do Partido: questões eleitorais, de temas que estavam na pauta, dos
processos de eleição interna dentro do Partido. Essas questões se colocavam.
O SR. SILVIO
TORRES (PSDB – SP) – Ele
discutia com o senhor isso?
O SR. MARCUS VINÍCIUS DI FLORA – Em
algumas oportunidades, sim. Eu não tinha uma relação freqüente com ele. Nunca
tive, com ele, uma relação freqüente de todo dia, toda hora estar conversando
com ele sobre essas questões, mas, eventualmente, sim, eu era membro do
Diretório Nacional e ele era Presidente do Partido, esses contatos se faziam.
E, no Governo,os meus contatos foram contatos relacionados, nesses telefonemas,
certamente, praticamente, a totalidade, com as questões relativas à política de
comunicação do Governo. Ele, como Coordenador
de Governo, Ministro da Casa Civil, tinha interesse que o Governo tivesse uma
boa política de comunicação. Então, ele, freqüentemente, fazia demandas,
críticas ou encaminhava algum tipo de...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Sugeria estratégias de comunicação?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Ele sugeria
estratégias de conteúdo de comunicação, sim. Ele avaliava que o Governo poderia
investir, do ponto de vista do discurso, mais na questão social ou mais na
questão econômica, dependendo das circunstâncias que o Governo vivia, mas era
um diálogo. A decisão era tomada pelo Ministro Gushiken.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O senhor, então, era um interlocutor, digamos
assim, do Ministro José Dirceu na época, que substituía o Ministro Gushiken em
determinados momentos para esse tipo de interlocução?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não, senhor.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Porque no caso do Ministro-Chefe da Casa
Civil, homem tão importante do Governo Lula, pressupõe-se que ele falava
diretamente com o Ministro Gushiken.
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Certamente falava.
Agora, era critério dele saber se o assunto que ele gostaria de tratar
demandava fazê-lo com o Ministro Gushiken ou comigo. Não era uma decisão minha
ou do Ministro Gushiken. O Ministro José Dirceu, em algumas oportunidades, deve
ter avaliado que os assuntos que ele tratou comigo – ou porque o Ministro José
Dirceu não estava disponível, ou porque ele achava que eram assuntos que não
demandavam ocupar o tempo do Ministro Gushiken –, ele gostaria que chegassem à
Secom, como órgão do Governo.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Ele não tratava com o senhor assunto do
PT...?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não. Ele tratava
comigo de assuntos do PT.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – ...nesse mesmo telefonema?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Em geral, não.
Praticamente, no trabalho dentro da Secom, e ele na Casa Civil, certamente
podemos ter feito algum comentário sobre o PT, mas nenhum que me realce
especificamente. O Ministro José Dirceu tinha se afastado da Direção Executiva
Nacional do PT, da Presidência do PT. Então, se houve comentários, foram
comentários genéricos, sem nenhuma questão específica.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Mas que tipo de comentário genérico?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Sobre a conjuntura
política, sobre o fato de o PT estar ajudando ou não o Governo do ponto de
vista do seu posicionamento político. São temas dessa natureza.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – As estratégias de Governo eram discutidas em meio
às idéias sobre estratégias do Partido. É isso que o senhor está dizendo?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não. Estou dizendo
para o senhor que o Ministro José Dirceu, assim como outras pessoas que têm
militância no Partidos dos Trabalhadores, comentava se a atuação do Partido
estava gerando dificuldades, do ponto de vista político, ou não para o Governo.
Creio que em qualquer Governo essa é uma preocupação natural de pessoas que têm
atuação partidária. Se o Partido está entendendo que o Governo está fazendo uma
política adequada com o programa ou não. É um debate natural de idéias. Isso
não implicava qualquer tipo de interferência.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Não, só que se supõe que isso seja feito
dentro do foro adequado. É isso que estamos tentando acertar.
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Com certeza, o
debate em que se adotava qualquer tipo de decisão, e que era mais aprofundado,
era feito nos diretórios do Partido. Agora, pelo menos eu, desconheço que haja
qualquer impedimento ou proibição que se comente questões de política
partidária em um telefonema ou em um contato pessoal. Desconhecia, se isso
existe.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O senhor trocava telefonemas com o Ministro
José Dirceu no período eleitoral de 2002 também?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Sim, porque
participei da campanha presidencial. Não só trocava telefonemas como tinha
contato pessoal com ele também.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Como era sua relação com ele? Qual era o tipo
de contato?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Eu acompanhava as
pesquisas de opinião que eram divulgadas e reportava a ele, como a outros
dirigentes do Partido, avaliações sobre o resultado das pesquisas. Era nesse o
âmbito o meu contato com ele.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O senhor acompanhava, fazia a avaliação
técnica, mas não tinha nenhuma interferência na contratação das pesquisas?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Na contratação,
não. Na campanha do primeiro turno do Presidente Lula não houve nenhuma
pesquisa contratada, por exemplo. No segundo turno, sei que foi contratada com
o Ibope, em determinado momento, uma pesquisa de acompanhamento diário da
eleição. A campanha trabalhava muito com as pesquisas registradas junto ao
Tribunal. Eu fazia a análise, junto com uma equipe de técnicos, e reportava à
coordenação da campanha as avaliações sobre a pesquisa. Mas não tive nenhuma
participação na contratação das pesquisas.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O senhor não tinha nenhuma função ligada à
captação de recursos ou gastos de campanha?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Qual era a agência com a qual o senhor
costuma se relacionar na questão das pesquisas? Qual era a agência que fazia as
pesquisas?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – As pesquisas da campanha,
a que foi contratada, a que eu me lembro de que foi contratada pela campanha,
que foi do Ibope, foi diretamente pela campanha. Não houve contratação por meio
de agência. Agora, a agência que atendia à campanha presidencial – é de
conhecimento público – era a de Duda Mendonça, que provavelmente tinha
contratação das suas pesquisas próprias para o acompanhamento de programa de
televisão e esse tipo de coisa.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O Deputado José Eduardo já perguntou sobre o
seu contato com o Marcos Valério. O senhor registrou que o conheceu em abril de
2003 e que não o conhecia antes, quando ele se apresentou no Ministério para
trocar idéias sobre o trabalho dele. Eu entendi que ele se apresentou uma vez,
o Sr. Cristiano Paz outra vez e o outro sócio outra vez. Quer dizer, os três
sócios se apresentaram.
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não, não. Ele se
apresentou uma vez, e eu não lembro se foi antes ou depois – não me lembro de
cabeça se foi antes ou depois –, o Sr. Cristiano e o Sr. Chico Castilho se
apresentaram juntos.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Juntos. Para o mesmo fim?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Mesma finalidade.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Mesma finalidade. Quando o senhor se
encontrava com o Sr. Marcos Valério, os outros dois estavam juntos?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Numa oportunidade,
sim; nas outras, não.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Em qual delas estavam juntos?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Acho foi em um
jantar ou em um almoço que eu tive com eles. Mas eu não me lembro, não me
recordo de cabeça. Mas, com certeza, num desses dois eventos, fora da Secom, eu
tive contato com os dois sócios, mais o Sr. Marcos Valério.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Os sócios das empresas do Sr. Marcos Valério,
especialmente esses dois, diziam que ao Sr. Marcos Valério cabia apenas os
contatos comerciais; o Sr. Marcos Valério não era um técnico. Ou seja, as
estratégias de comunicação, os assuntos específicos de técnicos de comunicação
não eram tratados com o Sr. Marcos Valério, e a sua função, salvo engano, era
tratar de estratégias de comunicação. Por que, então, o senhor se encontrava
mais com o Marcos Valério e menos com os sócios dele?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – A minha função,
Deputado, é, entre outras coisas, estabelecer relações com...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Qual era a sua principal função?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – A minha principal
função era substituir o Ministro Gushiken nas atribuições que ele não iria
executar, depois coordenar internamente a equipe da Secom e depois estabelecer
relacionamento público com o mercado de comunicação, envolvendo as agências, os
veículos, outros fornecedores. Essa função era realizada não só do ponto de
vista de conteúdo de comunicação. Eu estabeleci uma relação...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O senhor decidia sobre o conteúdo?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – De comunicação?
Havia decisões que eram decisões minhas, havia decisões que eram decisões do
Ministro e havia decisões que eram coletivas também.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Mas o senhor decidia?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Claro, também.
Agora, o meu contato com o mercado publicitário era com as empresas de
publicidade. Em determinadas circunstâncias, como empresas, e em determinadas
circunstâncias, para tratar de assuntos de conteúdo de comunicação, de
estratégias de comunicação.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Então, não era o objetivo da sua conversa com
o Sr. Marcos Valério?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – O Sr. Marcos
Valério...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – O conteúdo não era tratado com ele?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Também; ele também
representava. Os outros dois sócios dele nunca, em momento algum, questionaram
o papel do Sr. Marcos Valério nos contatos dele com a Secom, onde ele trazia...
Evidentemente, ele não era um expert em estratégia de comunicação, mas
ele trazia, como empresário, as ações de comunicação que as empresas dele
realizavam para outros contratos, públicos ou privados, a fim de valorizar a
empresa dele. Esse é um processo que não era só ele que fazia, esse é um
processo que o mercado inteiro faz. Todo empresário ou publicitário procura
valorizar, faz parte do trabalho de valorização deles, e ele costumava fazer
isso.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Sr. Marcus Vinícius, todos nós sabemos, a
essa altura de todas as investigações, o Brasil inteiro sabe qual era o papel
do Sr. Marcos Valério. Creio que seria até ocioso ficarmos repetindo qual era a
função que ele desempenhava nas empresas dele. Por isso, estou registrando que
o senhor deveria, a rigor, ter-se encontrado mais com o sócio dele do que com
ele.
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Deputado, eu tive
contato com os sócios dele, tive contato com inúmeros outros publicitários, com
uns mais, outros menos, dependendo da demanda deles ou da necessidade da Secom.
Agora, eu queria registrar para o senhor que há quatro meses esta CPMI está
apurando, esmiuçando as contas do Sr. Marcos Valério, e eu não apareci, nem vou
aparecer como sacador ou como beneficiário do Sr. Marcos Valério. O único
registro das minhas relações com o Sr. Marcos Valério são os registros da
agenda da Srª Karina e da minha própria agenda. Eu não tenho nada a esconder.
Todo o meu contato e todo o meu trabalho com ele foi feito de maneira clara,
transparente, dentro das minhas obrigações e das minhas responsabilidades.
Então, aproveito a oportunidade que o senhor está-me oferecendo para deixar
isso bastante claro: tem quatro meses que a CPMI está investigando
detalhadamente essa circunstância e não há qualquer, qualquer indicação de
beneficiamento da minha pessoa, ou de alguém da Secom, ou próximo a mim, em
relação às operações do Sr. Marcos Valério.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Da
minha parte, vou dizer que ainda não cheguei a isso, nem tive nenhuma
sinalização. Não estou querendo explorar isso. Não estou dizendo que o senhor
teve, mesmo porque, se o senhor tivesse, o senhor estaria aqui até em outra
condição.
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Com certeza.
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Estou querendo entender a relação, que a CPMI
investiga, da origem dos recursos do Sr. Marcos Valério, e a Secom é uma das
suspeitas dessa origem. Essa é a razão das nossas perguntas.
O senhor foi a Belo
Horizonte – segundo o senhor – uma vez. O senhor teve, registrados pela agenda
da Karina, seis encontros com o Sr. Marcos Valério. O senhor se lembra se o
número é esse?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA – Não, assim...
O SR. SILVIO TORRES (PSDB – SP) – Ou mais do que seis?
O SR. MARCUS VINÍCIUS
DI FLORA |