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O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria De Sá. PTB–SP) – Declaro aberta a reunião da
Sub-Relatoria de Contratos, da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, criada
através do Requerimento nº 3, de 2005, para investigar as causas e
conseqüências e atos delituosos, praticados por agentes públicos na Empresa
Brasileira de Correios e Telégrafos.
Sr. Sub-Relator desta
Comissão, Deputado José Eduardo Cardozo.
Convido a tomar lugar
à Mesa, Sr. João Leite Netto, que vai prestar seus esclarecimentos. Informo que
já se encontra sobre a mesa termo de compromisso do Sr. João Leite Netto.
Concedo a palavra ao
Sr. Relator, Deputado José Eduardo Cardoso.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Inicialmente, Sr.
Presidente, gostaria de cumprimentar o depoente, Sr. João Leite Netto,
inclusive pela disposição com que teve de prestar esclarecimentos a esta
Comissão Parlamentar de Inquérito, aliás, coisa rara entre os depoentes que
temos tido aqui ao longo dos tempos.
S. Sª veio a esta
Comissão de livre espontânea vontade. Contatou-nos dizendo que poderia prestar
os devidos esclarecimentos sobre específica agência franqueada do Estado de São
Paulo que estava sob investigação desta Comissão Parlamentar de Inquérito.
Então, minhas homenagens sinceras ao Sr. João Leite Netto pela disponibilidade
e a certeza de que, obviamente, o comportamento de V. Sª será apreciado por
esta Comissão na dimensão correspondente, evidentemente pela disponibilidade
que V. Sª tão bem demonstrou em participar da nossa investigação.
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria De Sá. PTB – SP) – Sr. Relator, sinto
interrompê-lo, mas devo colocar em votação a dispensa da leitura da ata da
reunião anterior.
Em votação.
As Srªs e os Srs.
Parlamentares que aprovam queiram permanecer sentados. (Pausa.)
Aprovado.
Indago do Sr. João
Leite Netto se ele quer fazer uso da palavra antes de ser inquirido.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Sr. Presidente, Sr.
Sub-Relator, conforme V. Exª colocou no início, realmente me dispus, desde os
primeiros momentos, quando soube do envolvimento de franqueadas dos Correios.
Sou franqueado dos Correios desde o ano de 2000; conheço a mecânica do
franqueamento, do franchising, como queira.
Muito embora toda
vida tenha sido jornalista, em 1988, após uma acirrada disputa pelo Senado com
o nosso querido Senador Eduardo Suplicy, disputamos o Senado, achei que me
deveria ausentar da política.
Mas tinha comigo, e
tenho comigo até hoje, um grande amigo de mais de trinta de anos de
companheirismo, Nilton Pinhal Nunes de Carvalho, a quem disse: preciso fazer
outra coisa além do jornalismo, como sempre fiz. O jornalismo, como V. Exª bem
sabe, é meio irregular. No aspecto jornalístico, muitos programas surgem e
desaparecem. Muitos programas são tirados do ar pela simples vontade do dono de
uma emissora que liga e diz: tire do ar, o programa acabou, cancele os
contratos. Então é uma coisa que nos deixa inseguro apesar de tudo. Sempre
mantive outra atividade fora essa, e naquele momento, o Nilton se propôs... eu
disse: você vai procurar alguma coisa, vamos ver o que a gente vai fazer, não
quero mais política, chega, depois dessa não agüento mais. E o meu querido
amigo e companheiro Mário Covas me disse: João, realmente – ele já estava muito
doente – pára com isso, você teve mais de três milhões de votos. Você teve
muito mais que merece. Vai para casa. E achei, que depois do desaparecimento do
Mário Covas, a política ficou muito vazia. E já não tinha dentro da política
aquele braço forte, aquela pessoa que sempre me deu guarida e muito me ensinou
em termos de comportamento humano.
Então, esse meu amigo
saiu um dia e disse: “Vou procurar alguma coisa para fazer”. E a primeira coisa
que surgiu, Excelência, foi uma franqueada, uma franchising do
McDonald’s, sanduíche McDonald’s. Eu falei: “Vou virar vendedor de sanduíche”,
mas era muito difícil, era um depósito inicial de 500 mil reais, depois você
tinha que construir, era um negócio muito caro, não era para o meu bolso, nem
de perto passava. Mas, daí, existe em São Paulo uma revista – acho que todos
conhecem – chamada Revista das
Franqueadas, uma coisa assim. E,
lá, ele pesquisando aquilo, viu, entre as várias franquias, franquia de
Correios. E ele me disse: “Olha, João, você é jornalista, já foi político, é
bem relacionado, essa franquia, aquilo é interessante, você pode angariar
clientes, conhece diretor de empresas, tal”. Falei: “Olha, eu não sei. Quanto é
que vale isso? Como é que faz isso? Isso se vende, se compra, como é que é
isso?” “Não, tem aqui algumas e tem algumas à venda”. “Então vamos procurar ver
uma dessas”.
E contava a história das franquias; como é que era o negócio da postagem,
que você recebe 10% dos Correios, aquela coisa toda, e tal. Eu falei: “Bom. É
interessante. Então, vamos ver isso aí”. Eu moro há mais de 20 anos em
Alphaville. Sou, acho, que um dos mais... meu pai morava em Alphaville, minha
mãe morava em Alphaville, minha irmã
mora em Alphaville, minha família toda, toda a vida, morou em Alphaville.
Então, eu passando, vi uma bandeira “Correios”. Falo para o Nilton: “Procura
saber se essa aí é franquia ou não”. Porque, até então, eu nem sabia o que é
que era franquia dos Correios ou não. Aí, ele me disse: “Não, essa aí é uma
franquia; é uma franquia de Correios”. “Então, procura ver se o cidadão vende”.
Até então, nem conhecia o proprietário dessa franquia. Ele procurou o dono da
franquia e disse: “Olha, ele vende”. “Vamos, então, conversar”. Foi a primeira
vez que eu tive contato com o antigo proprietário, Sr. Armando, que era o
antigo proprietário da franquia que eu comprei.
Eu acho que me alonguei um pouco na explicação, mas esta é a razão pela
qual eu fui parar dentro de uma franquia.
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo
Faria de Sá. PTB – SP) – Mais um minuto.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Então adquiri a franquia. Tenho toda a
documentação, que até me apressei aqui em tirar essa documentação, os
contratos, tudo isso, e vou deixar à disposição, Sr. Presidente, Sr. Sub-Relator, me desculpem...
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria de Sá. PTB – SP) – É um jogo só ou
dois jogos aqui?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Não. São vários jogos. Aí são contratos, contratos
de locação...
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria de Sá. PTB – SP) – Pois é. Mas é um
exemplar só de cada um?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Isso. Eu não tive tempo...
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria de Sá. PTB – SP) – Eu passo ao
Relator.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Em função do feriado, Sr. Relator, muita coisa não
foi possível tirar cópia, aqui em Brasília estava difícil tirar xérox ontem.
Esta foi, então, a razão pela qual eu acabei me tornando um franqueado de
Correio. Isso foi no ano... 1998 terminaram as eleições... 1999... isso foi
início de 2000, aproximadamente, conforme estão aí os documentos. E de lá para
cá eu venho – ah, sim, uma coisa que talvez seja interessante, eu até vou
deixar depois para as perguntas, quanto eu paguei, isso tudo está declarado,
está tudo aí documentado, quanto paguei, quanto me custou, de que forma eu
consegui, muito embora tendo saído de uma eleição de Senador, o que foi difícil
conseguir pagar essa ... e não paguei até hoje o resto. Mas esse foi apenas um
preâmbulo e estou à disposição para todas as perguntas e, já tendo assinado o
termo de compromisso, sabendo das conseqüências de qualquer falta da verdade.
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo
Faria de Sá. PTB – SP) – Com a
palavra o Sr. Relator, o Deputado José
Eduardo Cardozo.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Agradeço ao nobre
depoente. Vou fazer algumas perguntas preliminares e depois consultar os
Deputados e as Deputadas presentes se eventualmente desejam fazer uso da
palavra, para que eu não monopolize, e depois, aquilo que for residual nas
indagações eu retomarei a palavra e as argüições.
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria de Sá. PTB – SP) – Saudade da nossa Deputada Denise Frossard, que está no
pós-operatório e no pré-operatório.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – É verdade. Está em curso.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – E
dizem, Sr. Presidente, Sr. Relator, que, para terror do Federer, eu estou me
recuperando rapidamente. Vou julgar com ele.
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria de Sá. ) – Seja bem-vinda.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Muito
obrigada, Sr. Presidente.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – De quem o senhor adquiriu
a franquia do Shopping Tamboré?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – O Shopping Tamboré eu adquiri do
Sr. Armando Cunha.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Armando Cunha.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Armando Cunha, que era o
proprietário. Claro, hoje eu já sei mais ou menos a história da empresa, ele
adquiriu de uma outra senhora que era chinesa ou coreana, Srª Teng. Tanto é que
a empresa mentem o nome Expresso Postal Teng até hoje. Mas eu adquiri do
senhor...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor sabe quando foi a
primeira aquisição da franquia?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Sim, senhor. Inclusive, nessa
documentação que encaminhei a V. Exª consta que isso foi, se não me engano...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Três de novembro de 1993.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – De 1993, a data
exata.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Três de novembro de 1993.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Sim, senhor.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor tinha alguma
relação com essa Srª Teng?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Não, nem a conheço.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nem a conhece.
Posteriormente, a
primeira alteração foi em 2 de janeiro de 1996?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Isso. Acho que
entre eles.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Aí, então, adquiriu o Sr.
Antônio Vinholi, com 49,5%; e Armando Ferreira da Cunha, com 49,5%. Então, em
1996.
O senhor tinha alguma
relação com esses proprietários anteriormente?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não conhecia até
então.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não conhecia?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Não, senhor.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Aí, em 15/11/96, a
franquia é adquirida pelo Sr. Armando, com 99% e D. Maria Júlia Guerra da Cunha
com 1%. O senhor seria proprietário aqui pela ligação que teria com Maria
Júlia? É isso?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Não. D. Maria Júlia é esposa do
Sr. Armando.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por que o senhor não
figura como proprietário?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Eu comprei deles abaixo.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perdão, em 14/10/97.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Não, depois disso vem outra
alteração.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em 2000. Aí, depois, tem
Valéria Amaral.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Isso, que é a minha esposa. Aí
entro eu.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O Sr. Armando e D. Maria
Júlia adquiriram do S. Geraldo.
O senhor tem algum
contato com o Sr. Armando e com a D. Maria Júlia?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Não, foi de quem eu comprei.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas conhecia antes?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não, conheci
exatamente nessa colocação que eu fiz.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Depois, entra D. Vanessa
Ferreira da Cunha.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Que é a filha dele.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Que também o senhor não
conhecia.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Não, nunca tinha visto.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Aí, então, em 26 de abril
de 2000, aparece o Sr. Ernesto Duarte, com 1%, e D. Valéria Amaral Gianodoli,
que é a sua esposa.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Isso, aí que é o ponto. Se o
senhor me permitir explicar.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pois não, por favor.
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Aí foi quando eu conheci o Sr. Armando
e D. Vanessa, que era o nome da filha
dele. Aí, nós adquirimos a Expresso Postal Teng, mantendo o nome Expresso
Postal Teng, que existe até hoje com o mesmo nome, que era dessa senhora
chinesa ou coreana. Adquirimos.
Valéria do Amaral
Gianordoli, que é a minha esposa, 99%. Sr. Ernesto, aí entra na história do S.
Ernesto, que eu preciso explicar – até, se não fosse trágico, seria cômico –
com 1%. O Sr. Ernesto é uma pessoa que conheço – e de quem gosto muito, por
sinal – desde 1978. Uma pessoa da melhor qualidade, uma pessoa humilde, uma
pessoa honesta, uma pessoa muito bacana. A primeira vez, quando fui candidato a
Deputado em 1978, esse homem pegou um pequeno armazenzinho que ele tinha, uma
coisinha que vendia vara de pesca, transformou aquilo num comitê eleitoral e
ajudou a me eleger, sem nunca ter me pedido, a não ser o material que ele pedia
por telefone.
E o Sr. Ernesto é uma
daquelas pessoas que na hora em que você precisa aparece e na hora me que você
procura desaparece. Na vida da gente, na vida política de todos já deve ter
surgido esse tipo de personagem. Eu acho que tinha até um dever de gratidão com
esse homem. Quando eu adquiri a franqueada, falei assim: “Talvez seja uma
oportunidade, é uma pessoa de confiança”. A minha intenção não é ficar atrás do
balcão batendo carimbo de carta. Convenhamos, não ia ficar ali. Eu tenho um
programa de televisão que me ocupava e ocupa 80% do meu tempo. Na época, o
Cidade Alerta era líder de audiência no Brasil inteiro. Então, eu não podia
ficar vendo quanta cartinha saía dali, obviamente. Mas, ao mesmo tempo, eu não
era conhecedor do ramo e precisava ter alguém de absoluta confiança para estar
ali, e essa pessoa é merecedora da minha confiança.
Então o que vejo:
para trazê-lo na condição de empregado de alguma coisa – sabe? –, era uma
pessoa já numa certa idade, eu disse a ele: “Não, Ernesto, você vem trabalhar
comigo, vou-te dar 1%”, até porque precisava compor legalmente, juridicamente –
todos sabemos –, a sociedade limitada: 99% da Valéria – Valéria do Amaral, que
é jornalista também, minha mulher – e 1% ficou constando do... Isso
representava – já vou até adiantar uma possível pergunta – para o Sr. Ernesto
qualquer coisa em torno de R$2,5 mil a R$3 mil – eu tenho na contabilidade –
por mês esse 1% desse cidadão. E aí fomos tocando com o Sr. Ernesto esse
Expresso Postal Teng, que tanta dor de cabeça está me causando agora. Essa é a
razão...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por que o senhor não
figurou na sociedade...
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Exatamente...
Primeiramente, Sr. Presidente, a primeira coisa que falei – alguém vai fazer
essa pergunta, e pode parecer que seja um absurdo, e não é absurdo nenhum –,
primeiramente, eu vivo numa união estável com a minha mulher, com a minha
esposa, a jornalista Valéria do Amaral, há mais de 25 anos: com filhos, casa,
declaração conjunta de Imposto de Renda, tudo declarado no Imposto de Renda,
mas tenho três outros filhos do casamento anterior, porque depois me tornei
viúvo – e aquilo eu acho que também não seria necessário –, mas quis mostrar às
pessoas que eu queria deixar uma certa segurança a ela, e passamos 99%. Ela
nunca me pediu, nunca me exigiu isso; muito pelo contrário, é independente, tem
a profissão dela. E outra que não sou machista, confio no trabalho dela, da
mulher. Acho que a mulher hoje em dia – não é... Em algumas ocasiões ela dá
banho em muito marmanjo que tem por aí.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – As mulheres aqui sorriram
todas.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não fui nunca machista
– se permitem, não sei, mas estou na condição de testemunha, talvez –, mas
temos um grande exemplo temos dentro desta sala: uma mulher com esse
tamanhozinho todo foi a única, com um monte de homem tentando fazer o que ela
fez, que acabou com o crime organizado do jogo do bicho no Brasil. Eu conheci,
no Rio de Janeiro, no tempo que eu gravava o meu programa lá, grupo dos sete,
grupo de ouro, grupo não sei do quê; formaram-se grupos e grupos, e foi uma
mulher que fez isso. O País deve isso a ela. E a coisa parece que depois deixou
de ser comentada, mas não vem o caso. Isso para mostrar que a mulher, quando se
dispõe a fazer, faz melhor, muitas vezes, do que nós.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Acabou com os vinte e
cinco grupos.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não me vou estender
aqui, mas aquilo não é simplesmente um inocente jogo do bicho, aquilo abria o
crime organizado para coisas muito piores – e ela sabe melhor do que nós do que
estou falando. Mas então eu ficaria em cima destes dois: primeiro, a garantia
dela no futuro – acho que isso é uma obrigação moral nossa; segundo, porque não
posso achar que ela não teria capacidade – tem –, tinha mais disponibilidade de
tempo do que eu. Até então, naquela ocasião, vislumbrava a hipótese de voltar
para a política. Se eu tiver que fazer uma viagem, como é que faz? Isso
depende...
Existe o manual do
tal dos Correios – não vou criticar os Correios, mas algumas coisas vou dizer,
sim, porque acho que, como brasileiro, sou obrigado a trazer para esta CPI, que
acompanho e acho mesmo que vocês têm que ir a fundo nisso, tem muita coisa,
corro o risco talvez de ficar antipático perante os Correios –, mas ali existe
um espírito de cobrança, de ódio, um negócio muito corporativo, uma coisa
difícil de se explicar realmente com relação aos Correios. E eles destilam todo
o seu ódio, todas as suas frustrações em cima do franqueado. O franqueado, Sr.
Presidente, é quase que uma vítima. Os Correios praticam ato de tremenda
deslealdade com o franqueado. Eles roubam o cliente, eles praticam
internamente, o que sabemos todos nós, a concorrência desleal. Eles mandam um
elemento deles dentro do seu cliente, angariam este cliente para eles. Isso é
caracterizadamente, no meu entender, uma concorrência desleal. E ele é muito
rigoroso em minúcias. Essa agência, ela posta, digamos, chutemos um número, um
Bradesco, um Banco de Boston, vai postar lá vinte milhões de objetos, que eles
chamam. Existe uma outra agência na vila alguma coisa que posta dez cartinhas
de namorado. A Tamboré e outras maiores lá – eu não me relaciono com outras
maiores –, mas devem ter outras no nível da minha, têm o mesmo critério. Eu,
postando dez milhões de documentos, naturalmente devo ter uma margem de risco
muito maior do que outro que postou quatro ou cinco cartinhas de namorado lá no
balcão. E não querem saber se a minha carta dobrou, se o envelope saiu.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nada contra os namorados,
não é?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não. Absolutamente
nada. Se a carta foi mal colocada, se não foi fechada a barbela, eu sou punido,
e pecuniariamente. Eu tive problema financeiro, e estou aqui com o
demonstrativo. Já deixei também uma parte com o senhor. Tem até um resumo aqui.
Sabe os juros que os Correios cobram do franqueado? Vinte por cento, Deputada.
Isso é abusivo; é criminoso. Eu tenho um débito – estou deixando aqui com os
senhores –, eu tive um débito com a ECT, só fazer um rápido registro, um débito
com a ECT. Eu corro todo o risco. Ele não corre risco nenhum. O contrato com o
cliente é meu. O cliente perturba é a mim. Ele não quer saber dos Correios. Ele
não tem risco nenhum. Eu corro 100% do risco. Eu tinha um débito com a ECT de
R$2.202.540,00, em dezembro do ano passado, Deputado. Pedi um parcelamento. A
duras penas, estou pagando R$91.772,00. Paguei dez prestações; quatorze
prestações, perfazendo um total de R$1,998 milhão. O meu débito era de R$2,202
milhões. Atualizei agora. Já foram gerando um total. Eu devo ainda aos Correios
R$1,998 milhão.
Isso parece os
negócios de antigamente, quando se comprava e pagava, pagava, pagava, pagava e
devia mais ainda como mutuário. Acho que era da Caixa, algo assim. Isso não
acaba nunca. Por quê? Aí vêm os critérios deles. Estou deixando todos os
comprovantes, inclusive deles, as prestações. Eu me ative, muito preocupado,
aos contratos. Vou deixar isso aqui também, Sr. Presidente, porque os
comprovantes de recolhimento, os débitos todos, as multas. Eles cobram 10%.
Daí, eles cobram mais 10%.
O SR. (Orador não
identificado) – Sr. Relator...
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Aqui tem um resumo.
Então, é um absurdo. Eles judiam mesmo. A verdade é essa.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. O senhor tinha
alguma atuação formal frente à agência franqueada? O senhor tinha algum tipo de
atividade formal frente a ela?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – A documentação está
aí. Eu sempre fui o administrador e o procurador.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor tinha uma
procuração da ACF?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Sim, com amplos poderes.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A sua esposa... houve um
momento que deixou de ser titular da ACF? Isso bate com documentos que o senhor
nos entrega. A sétima alteração, em 7 de abril de 2004.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Isso.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por que a sua esposa
deixou de ser titular?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Quando isso ocorreu
em...acho que deixei até aí com o senhor essa relação, no início. (Pausa.)
Quando foi? Foi
agora, em 2002?
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Foi em 2004.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Em 2004. Não, não,
em 2002.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor tem, em 2002, uma
alteração.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Isso.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Foi revogado como
mandatário o Sr. (Incompreensível.) e nomeado outro mandatário, o Sr.
Alípio dos Santos Filho.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Isso.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Aqui, em 2002, foi
revogado.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Isso.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas não houve alteração. A
alteração, Dona Valéria Amaral entra em 26 de abril de 2000. Aí a sétima
alteração, a representação, está aqui: Valéria, do contrato foi revogado o
mandato outorgado ao Sr. João Leite Netto.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Então, confere
exatamente o seguinte. Em 2002, eu estava com algumas dívidas, inclusive
trabalhistas, porque nesse volume é um negócio muito ilusório. Faturamento eu
já ouvi dizer até de R$200 milhões. Meu Deus do céu, nunca chegou a isso, mas
nem perto disso, nem metade disso! Cem milhões, vamos supor.
Esquecem as pessoas
que, dos R$100 milhões, a agência franqueada fica com 10%, ela fica com 10%. Na
época, eu tinha 147 funcionários. Só de Confins, PIS, encargos sociais,
salários...O aluguel que eu pago, só para V. Exªs terem uma idéia, é de R$33
mil por mês! E os Correios, se venceu no dia 15, ele não quer saber se o seu
cliente pagou ou não.
Então, por exemplo,
para eu entrar em algum banco, algum amigo, alguma empresa, vou citar nomes,
C&A, não tem por que não dizer. Para ganhar a C&A, negociar com uma
pessoa que qualquer centavo era importante – tem que ser e deve ser assim –,
que me diz: “Qual é a minha vantagem, João, ao tirar a postagem de onde estava
e passá-la para você? Se o seu preço é o mesmo – o preço é tabelado –, se você
não pode mudar, qual é a vantagem?” Eu falei: “Como é que você paga?” Ele
disse: ”Eu pago de 15 em 15 dias”. Eu falei: “Então, você pode me pagar de 30
em 30”. Olha, é coisa de jornalista tentando ser comerciante.
Na hora, nós pegamos a C&A, que é uma das
maiores postagens do Brasil. O que acontecia? No dia 16, eu tinha que pagar aos
Correios. A C&A ia me pagar no dia 16 do outro mês. Meu Deus do céu, é
coisa de maluco fazer um troço desse! Mas o que eu tinha de fazer? Eu recorria
a banco, tomava o dinheiro do banco e pagava os Correios. E ficava esperando
receber da C&A. E assim eu digo, C&A, citei como exemplo, outras muitas
nesse mesmo sentido.
Sr. Presidente, eu
tenho um débito com o Bradesco de R$3,5 milhões, com o Banco Real de R$1,2
milhão, com o Banco Safra R$1,3 milhão. Eu pago em torno de R$265 mil, aquele
sistema de garantia de contrato meu com o banco. Eu tenho débitos trabalhistas
e fiscais.
Em 2002, alguns
amigos me disseram: “João, você largou
da política?” Eu falei: “Larguei, eu não agüento mais”. Até o meu próprio
Partido: “Mas você teve mais de três milhões de votos, você tem uma
responsabilidade. Você largou três milhões de votos pela janela e foi embora?
Volta a ser candidato”. Eu não estava disposto, como não estou. Volto a dizer,
não quero mais saber disso. Mas achei que, principalmente na minha região, eu
deveria sair candidato, para ajudar principalmente alguns companheiros da minha
região. A minha região é Itapeva, temos algumas prefeituras ali.
Aí eu disse, bom, com
esse pepino dos Correios e com essas dívidas todas que eu tenho aqui, vou ter
de vender isto aqui. Olha, Sr. Presidente, tentei vender aquilo durante muito
tempo. Todos que se apresentavam queriam comprar a minha carteira. Queriam
comprar os meus clientes, mas não queriam comprar a minha empresa. Então, se eu
vendo os clientes e fico com esse débito, eu quebro de vez.
Daí, eu tenho um
gerente que trabalha comigo desde o início, que já veio da gestão anterior,
chamado Paulo Firmino, que chegou para mim e disse: “Olha, Dr. João, vamos
tocar. A gente passa essa fase. Nós vamos pagar esses débitos. A gente paga
isso, a gente paga tudo. Vai melhorar. Isso vai melhorar”. Porque o famigerado
dos Correios, poucos anos antes, instituiu um negócio que é uma coisa absurda
chamado FAC, que acho que é o pombo da discórdia de tudo isso, a mais brutal e
desleal concorrência que se possa ter. Vou citar como exemplo... Sr.
Presidente, não sei se outros franqueados estiveram aqui, não sei se sou o
primeiro, não sei se falaram sobre isso. Não tenho relacionamento, nem faço
parte da Associação. Mas o que essas pessoas têm de vir aqui dizer é o que está
se passando com relação a essas franqueadas, porque a intenção é acabar com as
franqueadas. Ótimo, acabem, mas não matem aos poucos, não matem da forma como
estão matando. Vou citar um exemplo: eu tinha uma cliente chamada Embratel,
todo mundo conhece. Isso está aí documentado. A duras penas conseguimos a
Embratel. Houve uma série de exigências para se fazer aquele contrato:
exigiu-se que tivesse um funcionário lá dentro, exigiu que fosse retirado em
determinado horário, exigiu que fosse postado em determinado horário, exigiu
tudo isso.
Muito bem, para se
conquistar o cliente foi feito tudo isso. Quando se mexeu com esse tal FAC, os
Correios colocaram um elemento deles, Correios, dentro da Embratel. Acabei
perdendo a Embratel para os Correios, que era 60% do faturamento dessa agência.
Levou a Embratel, que era o meu sustentáculo. Eu fiquei desesperado com isso,
daí comecei a entrar para banco, aquela coisa toda. Todo mundo conhece essas
histórias, devem ser comuns a todas as empresas. E eu tinha do faturamento 10%
E assim ela fez com a Embratel e com uma série de outros clientes.
Num determinado
momento, não sei por que razão, porque não conheço ninguém da diretoria dos
Correios – sei que o diretor de São Paulo é o Sr. Marco Antonio. Fui uma vez
lá, para tomar puxão de orelha deles. Nunca vim aqui em Brasília, desculpem-me,
mas nem sei o nome do Presidente dos Correios – em alguma ocasião alguém me
falou que ele era do PDT do Rio Grande do Sul, mas não sei o nome. Então,
talvez eu não seja comensal da cozinha deles. Mas um dia eu falei: vou passar a
mão na minha pastinha, como um simples cidadão, e vou lá brigar com esses
caras, vou brigar para saber o que é isso, o que vai acontecer. Na realidade,
eles toda a vida usaram um facão na cabeça dos franqueados. Ah, sim, quando
comprei a Expresso Postal Teng, chamaram-me nos Correios e me disseram: “O
senhor sabe bem o que está comprando?” Assim mesmo, porque eles são desse tipo.
Eu falei: “Não, não sei, porque não sou do ramo, nunca fui. Eu quero saber”.
Primeiro, fizeram uma sabatina com a minha mulher, que era a titular. Um
negócio até vexatório. Mas tudo bem. Eles disseram: “O senhor vai agora assinar
um termo de que o senhor tem conhecimento de que ela vai existir só por dois
anos.” Você é obrigado a assinar lá com eles. Por muita sorte, algum tempo
depois, não sei o que aconteceu, prorrogaram por mais tempo, senão já teria
acabado.
Então, a pior coisa que fiz na minha vida foi
entrar nesse negócio. Estou saindo sem nenhum e devendo muito. Essa é a
verdade.
Então, ele começou,
acho até porque a franquia, talvez eles pretendam acabar com ela por alguma
razão... Comenta-se tudo no mercado. Mas, então, eles não olham com bons olhos,
em resumo, a tal das franqueadas.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Apenas para precisar para
o depoente, para mim não ficou clara a razão pela qual a sua esposa saiu da
sociedade em 2004 e a sua procuração foi revogada em 2002.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Exato. Aí, eu fui
para uma campanha política.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Para Deputado Estadual?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Para Deputado
Estadual para ajudar minha região. Aí, eu fui para a campanha. Como eu podia
viajar o Estado de São Paulo todo – o que deveria ter feito e acabei não
fazendo, fiquei só concentrado na minha microrregião – tendo de estar presente
na agência?
Mas, nessa ocasião,
já com esse negócio todo, esse Paulo Firmino, conforme eu estava dizendo a V.
Exªs, disse: “Não, não venda não”. E ele fez a cabeça do coitado do Sr.
Ernesto: “Sr. Ernesto, por que o senhor não compra? Fica com as ações da D.
Valéria. Eu tenho 20 anos de Correios, eu vou ajudá-lo, compra pelas dívidas”.
Eu tinha dito: “Eu dou isto aqui...” Aliás, eu dou pelas dívidas até hoje. Fica
pelas dívidas. E o Sr. Ernesto se entusiasmou com isso e disse: “Opa, legal,
vamos lá. Dá, Paulinho?” “Dá”. “Vamos fazer”. E fizemos. Eu me livrei daquilo.
Um mês depois, Sr.
Presidente, volto a dizer, o Sr. Ernesto é uma pessoa humilde... Ah, sim, o que
ele fez? Para fazer a empresa, ele pôs 99% em nome dele e 1% em nome da filha
dele. A filha dele que veio parar aqui na Comissão. Acho que essa menina nunca
foi lá, nem sei, acho que ela nunca chegou a entrar lá.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ela disse na CPI que não.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Com 1% para ela
poder compor com o pai uma Ltda. Tinha 1%, e o pai os 99%.
Passados uns dois
meses, eu estava na cidade de Itaporanga, divisa com o Estado do Paraná, e
começaram a me ligar: “Venha para São Paulo, venha para São Paulo” – eu estava
num comício lá – “venha que o Sr. Ernesto baixou até hospital”. Eu falei: “Ai,
meu Deus”. Vim correndo. O que aconteceu? O contador pediu-lhe um levantamento
dos débitos, desses débitos que estão aqui. Uma pessoa humilde, que tinha um
armazenzinho desse tamanhozinho, foi consultar um advogado, segundo ele. O
advogado, ao dar a resposta, reuniu a família inteira e disse: “Você quer
morrer? Você quer ir para a cadeia? Você quer explodir? Você quer ser preso?
Olha o débito que tem isso aqui?” O homem entrou em parafuso, foi parar no
hospital, ficou doente, ele tem problema de diabetes. Eu falei: Bom, a primeira
coisa que eu não quero é transferir a responsabilidade, muito menos para uma
pessoa de quem eu gosto e muito menos colaborar para a má saúde do cara. Eu
falei: “Não, Ernesto, pelo amor de Deus!” Fizemos uma reunião com ele em
Belenzinho, Tatuapé, fui até a casa dele, ele estava acamado e disse a ele:
“Ernesto, não tem por que, tudo bem, vamos desfazer o negócio. Reúne a sagrada
família e pode dizer que ninguém está te impingindo a empresa. Você e o Paulo
Firmino me fizeram essa proposta de ficar com a empresa, tudo bem, devolva-me,
não há problema nenhum, não há nada”. E fui embora cuidar da minha campanha.
Quando eu voltei, o
contador me passou... Eu falei: “Olha, avisa ao contador para transferir tudo
para mim de novo”. Eu tinha também um procurador meu, um amigo particular que
eu juntei até... Está aí a procuração? Está lá. Sr. Alípio.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sr. Alípio dos Santos
Filho.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Isso, era o
procurador. Para ajudar os dois. Dá-me a empresa de volta e digo para o outro
contador: “Arruma tudo, devolve, tira as ações, acaba com esse negócio do
Ernesto, deixa ele sossegado, entrega ele para a família dele lá e deixa o
pepino comigo”. Passados uns dias, eu cheguei lá e o contador disse: “Não pode,
está aqui junto”. O cartório mandou devolver toda a documentação por falta da
certidão negativa, junto à Receita Federal. Não pude, de novo, transferir para
mim. Daí, fiquei mais desesperado ainda, porque não só isso, no meio da
campanha, a família me infernizando, a família do Sr. Ernesto achando que eu
tivesse feito um mal ao cidadão, quando muito pelo contrário, a minha intenção
nunca foi essa e não é.
Falei: “Vamos
consultar advogado...
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A certidão negativa seria
sua pessoal?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não; da empresa.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas a empresa tem a
certidão negativa.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não. Isso foi
posterior, isso foi em 2004.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A transação foi em 2004.
Temos aqui a certidão negativa que foi emitida no dia 5 de abril de 2004.
Válida até 5/10/2004.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Da onde é?
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Do Ministério da
Fazenda.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Ah, Fazenda. Aqui,
o cartório me devolve dizendo..
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O seu documento
está aqui.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – V. Exª me dá
licença só um minuto?
Tem uma devolução do
cartório...Esses aqui são os contratos...”Nota oficial de registro civil.
Alteração contratual. Declaro (...) da Secretaria da Receita Federal e
Procuradoria Geral da Fazenda Nacional”. Está aqui o cartório e o registro.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor poderia me
passar o documento para a Assessoria ir acompanhando?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Pois não.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor não
apresentou a certidão porque não tinha? Tinha débito?
O SR. JOÃO LEITE NETTO – Estou
inadimplente. Tenho débito, débitos fiscais lá. Pedi o parcelamento. Mas é
demorado.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT–SP) – É curioso pois
a certidão que vem do Ministério da Fazenda diz que o senhor não tem débito.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Que bom. Então me
empresta, porque o outro diz o contrário.
Tenho, tenho sim.
Outra coisa, daí para
atender a essas necessidades, principalmente junto à família do Sr. Ernesto, o
que eu fiz? Pedi a um advogado que me assessorasse, um colega mais afeito a
esse tipo de coisa.
Ele falou: “João,
pega a empresa de volta, enquanto não se pode transferir, você faz uma
procuração em causa própria, porque a qualquer momento, assim que sanar o
problema documental, você passa a empresa para o seu nome, para dar uma
satisfação à família do Sr. Ernesto”.
Assim foi feita a
procuração. Está aí.
Eu sou o
administrador no momento.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quer dizer,
a empresa está em nome do Ernesto e da sua filha, até o momento?
O senhor é o procurador,
embora seja o verdadeiro proprietário?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Sim, sou o
verdadeiro proprietário, com procuração passada, porque a qualquer momento,
sanado esse tipo de compromisso fiscal, passo para o meu nome novamente. Só não
o fiz por uma questão de impedimentos legal. Assumo totalmente, sou eu, eu que
administrei. Não tem nada a ver com ninguém, sou eu mesmo.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Indago da
Deputada Juíza Denise Frossard se gostaria de começar a fazer as suas perguntas.
Ainda tenho várias questões, mas, em homenagem a V. Exª, se assim desejar, eu
gostaria, Sr. Presidente, de que S. Exª pudesse fazer a sua argüição.
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria De Sá. PTB – SP) – Concedo a palavra a
Deputada Juíza Denise Frossard.
A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS – RJ) – Sr. Presidente, Sr. Relator, Sr. depoente, vou
fazer algumas considerações para retornar ao senhor. Tenho acompanhado o Sr.
João Leite Netto; tenho acompanhado essas questões das franquias. De uma forma,
estabeleci um foco nisso, qual é a minha preocupação?
A minha preocupação
são os dutos que permitem a colocação de pessoas na administração publica para
produzir decisões administrativas que vão carrear recursos para campanhas
políticas, para partidos políticos e para o bolso de alguns, dependendo do
governante de plantão. É mais ou menos isso que, ao longo dos anos, vem sendo
feito.
Eu tenho acompanhado
com muita atenção a questão das franquias. Acho que estamos perdendo, Sr.
Relator, o foco da questão das franquias. Ouvi aqui, nesse tempo que estive de
licença médica, coisas como o senhor mesmo disse aqui: “Olha, estou quebrado.
Olha, não me está dando lucro. Eles me maltratam, estão-me matando, matam aos
poucos”. Eu tenho ouvido tudo isso. Agora, é
preciso ter o foco. Estou tendo o foco aqui do ponto de vista público.
Nós não estamos tratando de franquias comerciais ordinárias que são aquelas da
lei – Deputado José Eduardo, me ajude, a Lei do Itamar, qual é o número dela?
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A da franquia?
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
A Lei das Franquias.
O SR. RELATOR (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não me lembro o número
dela.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Enfim, a Lei das Franquias, do Governo Itamar. Então, vamos por etapas: as
franquias são necessárias, podem ser ampliadas por várias atividades – não
estou discutindo isso –, mas a franquia do Mcdonald’s é uma coisa, a franquia
dos Correios ou até mesmo da Petrobras é outra. Então, estamos falando de um negócio
público. Se fosse na área privada, seria um problema da empresa privada, e,
mesmo assim, nenhuma transferência se faz sem que aquele que outorga o nome, a
franquia feita entre as partes, este é o contrato de franquia. Nada se passa
entre uma franquia do Mcdonald’s, o franqueador e o franqueado, que não seja
entre os dois; não se usa isso, e eu estou falando de negócios privados. Pois
bem.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Entendi
perfeitamente a pergunta que V. Exª vai fazer.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Vou-me espraiar um pouquinho mais aqui, porque quero voltar ao foco.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – V. Exª quer que eu
responda já essa parte? Eu já captei.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Não formulei, estou exatamente restabelecendo o foco.
Então, quando não se
faz assim – e é na área pública –, pratica-se uma imoralidade administrativa;
esse é o nome. O que estamos vendo, portanto, é uma sucessão de imoralidades
administrativas. Não estou imputando ao senhor.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Entendi perfeitamente.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Estou fazendo o desenho.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Perfeitamente.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Os Correios é uma empresa pública monopolista. Lá atrás, quando se fizeram as
franquias, há várias e várias posições do Tribunal de Contas de que deveria ser
uma atividade por licitação: 8.666; o que houve foi a entrega política, como
era na minha área: os cartórios.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Exatamente,
cartorialmente. Sem dúvida.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Eu tive um escrivão que ganhou um cartório porque, digamos, ele...
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Foi feita uma
aleluia – não é, Deputada? – para ser bem... Na ocasião, em noventa e pouco; eu
soube disso.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Em 1990.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Em 1993.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Eu tive um escrivão que recebeu um cartório porque ele alcovitava um
determinado Parlamentar. Estou falando a história do Brasil, e eu vivi.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Mas isso é
histórico, porque o Getúlio também fez muitos prêmios desse tipo.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Mas aí, agora não é justo que a sociedade pague por isso. Eu estava aqui... As
transferências... Primeiro, a concessão se faz pelo critério da pessoalidade,
quando a Administração Pública se pauta pela impessoalidade, um princípio
administrativo, portanto, que foi ferido de morte. Outro princípio é que as
transferências são feitas sem qualquer vigência de parâmetros.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – V. Exª me
permitiria só um apartezinho para ilustrar o que V. Exª está colocando?
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Perfeito.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – A concessão de um
serviço...
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria de Sá. PTB – SP) – Aqui o senhor não está
como Deputado, não é?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não, não,
desculpe-me.
O SR. PRESIDENTE (Arnaldo Faria de Sá. PTB – SP) – O senhor pediu um
aparte.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
Mas é que somos tão poucos...
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Eu queria
colaborar.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) –
...e o objetivo é esclarecer porque...
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Sr. Presidente, eu
queria apenas vir a colaborar com o raciocínio, que eu acho perfeito. Eu quero
pegar um ponto, que talvez tenha passado despercebido, e é muito importante.
Qual é o critério
para se entregar uma concessão da importância dos Correios para um cidadão?
Essa senhora, enquanto me conste, pois não tive o prazer de conhecê–la
pessoalmente, era inclusive estrangeira, Deputada. A Srª Teng mal sabia falar
português; em sociedade com o filho, que não sabia falar português.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – É a isso
que eu chamo de imoralidade administrativa.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Como ela ganha
isso?
A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD
(PPS – RJ) – Exatamente.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Como ela recebe? É
uma estrangeira. Será que é permitido?
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Não. É a
imoralidade administrativa, porque não há os critérios, a impessoalidade, a
vigência de parâmetros, nada disso. Pois, bem. Não há qualquer transparência. É
um negócio fechado. Agora, os contratos, e o senhor mesmo diz – não se
preocupe, pois o senhor não é o único. Os que passaram aqui, e eu acompanhei do
meu leito lá no hospital, vários, enfim, recebi os documentos, e todos tinham
contrato de gaveta.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Eu não tenho. O
meu, não. O meu é...
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Há
alguma forma?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – De alguma forma,
chamamos isso de irregular. É o nome.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – De
burla. É o nome?
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Não sei. Não...está
declarado inclusive no meu imposto de renda.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Veja,
nós, brasileiros, não gostamos de eufemismos.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Eu não sou
português. Desculpe.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Nós
gostamos de eufemismos. Mas, na verdade, é a burla. O serviço da administração
púbica é absolutamente transparente. Quem não quer fazer assim, não contrate
com o ente público. Eu sou da vida pública há quase trinta anos. Quer dizer, na
vida pública, sabemos que, primeiro, não se vai enriquecer. No caso, o meu. Sou
funcionária pública. Se quer enriquecer, não é na vida pública.
O SR. JOÃO LEITE
NETTO – Com certeza.
A SRª JUÍZA DENISE
FROSSARD (PPS – RJ) – Os
princípios são outros. Quer dizer, a vida de um homem, de uma mulher de vida
pública, é |