TRANSCRIÇÃO LITERAL DAS NOTAS TAQUIGRÁFICAS DAS OITIVAS DOS DEPOENTES SRS. JOEL SANTOS FILHO E ARLINDO GERARDO MOLINA GONÇALVES
(28/06/2005)

SENADO FEDERAL

COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DOS CORREIOS

QUINTA REUNIÃO DA COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 52ª LEGISLATURA, CRIADA ATRAVÉS DO REQUERIMENTO Nº3/2005 DO CONGRESSO NACIONAL COM A FINALIDADE DE INVESTIGAR AS CAUSAS E CONSEQÜÊNCIAS DE DENÚNCIAS E ATOS DELITUOSOS PRATICADOS POR AGENTES PÚBLICOS DOS CORREIOS, EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELÉGRAFOS REALIZADA NO DIA 28 DE JUNHO DE 2005 ÀS 09 HORAS.

SEGUE ABAIXO TRANSCRIÇÃO LITERAL:

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com as bênçãos de Deus, havendo número regimental, declaro aberta a 5ª Reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, criada por meio do Requerimento nº 03, de 2005, para investigar as causas e conseqüências de denúncias e atos delituosos praticados por agentes públicos nos Correios, Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.

A Ata de reunião anterior encontra-se sobre a mesa.

Coloco-a em votação, propondo a dispensa de sua leitura.

Os que aprovam permaneçam sentados (Pausa.)

Aprovada.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – Pela ordem, Sr.Presidente.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Depois eu, pela ordem, peço a palavra, Sr.Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Antes de conceder a palavra pela ordem, eu gostaria de, até para dar seqüência aos nossos trabalhos, em função do que conversamos hoje aqui pela manhã, informar a V. Exªs que cumprirei o acordo previamente ajustado na semana passada.

Portanto, hoje vamos ouvir os três responsáveis pela gravação. Amanhã, com o que já foi disponibilizado, mesmo que uma oitiva seja prejudicada por não termos todas as informações, nós ouviremos os diretores dos Correios. E na quinta-feira, ouviremos somente o Deputado Roberto Jefferson.

Quero sugerir a V. Ex ªs, conforme acordo feito na semana passada – deixando bem claro isto –, na primeira reunião de oitiva do Sr. Marinho com as Lideranças, que amanhã discutiremos os requerimentos. Não só os requerimentos, alguns dos requerimentos que ficaram para serem analisados pela CPI na semana passada, bem como também novos requerimentos que foram apresentados.

Portanto, amanhã nós faremos essa discussão não só para ajustar a questão dos requerimentos, mas também para combinar a nossa agenda da primeira semana de julho e da segunda semana de julho.

É importante registrar que eu louvo a atitude dos Líderes da Oposição e do Governo para que nós tenhamos celeridades nestas duas semanas. Agora, com o funcionamento da CPI, podemos de comum acordo trabalhar nos requerimentos, trabalhar nas agendas sem nenhuma dificuldade para que a CPI cumpra com os seus compromissos especialmente junto à Nação e à opinião pública.

É o que eu gostaria de deixar claro para V. Exªs.

Pela ordem, tem a palavra o Deputado Rodrigo Maia.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Pela ordem, depois, Sr. Presidente.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – Sr. Presidente, eu havia solicitado a palavra.

O SR.  RODRIGO MAIA (PFL – RJ) – Sr. Presidente, posso falar?

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, peço que anote o meu nome, Deputado Arnaldo.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Heloisa...

O SR. RODRIGO MAIA (PFL – RJ) – Sr.Presidente, posso falar agora?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra, o Deputado Rodrigo Maia.

O SR. RODRIGO MAIA (PFL – RJ) – Obrigado, Sr.Presidente.

A minha questão é simples. Os contratos pedidos pela CPI em relação aos Correios, pela informação que eu recebi, chegaram apenas ontem à noite. Havia uma expectativa de que o próprio Tribunal de Contas mandaria parte desses contratos na sexta-feira à noite.

A nossa Assessoria tentou pela Internet, por várias vezes, investigar, descobrir esses contratos. Só que os Correios, depois da crise, tiraram tudo. A informação que eles dão é que foi tudo para a Polícia Federal – deve ter ido a memória junto.

Então, Sr. Presidente, a questão que coloco é se de fato a CPI terá condições de questionar, argüir os diretores, os ex-diretores dos Correios. Depois, eu gostaria que V. Exª, como Presidente da CPI, como representante do Congresso Nacional nesta CPI – e o é de todos, não apenas dos que são membros aqui –, que pudesse pressionar de alguma forma o Governo, o Tribunal de Contas, principalmente o Governo, para que esses documentos chegassem de forma mais rápida. A Polícia Federal entra na casa dos outros com a maior tranqüilidade e com a maior facilidade, mas entra somente na casa de uma parte dos investigados, não entra na casa da outra parte – entra na casa do tesoureiro do PTB e não entra na casa do tesoureiro do PT. Tudo bem; vamos acompanhando. Estamos criando a Comissão Externa exatamente para que possamos acompanhar os trabalhos da Polícia Federal.

Por que uma parte do Governo trabalha com tanta agilidade e a outra, quando se trata apenas de remeter documentos para que o relator, os membros da CPMI e V. Exª possam trabalhar, leva um tempo que não tem explicação? Trata-se apenas de entregar um disquete com os contratos ou entregar papel. Temos de ter acesso ao arquivo dos Correios, arquivos que não podem, de forma alguma, ter saído dos Correios. Essa é a minha questão, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Concedo a palavra, pela ordem, ao Deputado Arnaldo Faria de Sá.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – Sr. Presidente, V. Exª não considerou minha solicitação de questão de ordem?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Perdão, Senador. V. Exª tem absoluta razão.

Concederei a palavra ao Deputado Arnaldo somente para S. Exª concluir.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – O Deputado Arnaldo pode falar.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O Senador pode falar.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – Obrigado, Deputado Arnaldo.

Sr. Presidente, é evidente que todos devemos estar preocupados com a imagem que passamos à opinião pública. Gostaria, então, de fazer um apelo para que reuniões extemporâneas, como a que assistimos há pouco, não se realizem mais – lembrou-me um pouco o tempo das assembléias em grêmio estudantil no meu período de secundarista. Faço esse apelo em nome até da imagem e do conceito desta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito.

De outro lado, no sentido da colaboração, solicito à Mesa e, especialmente, a V. Exª, Sr. Presidente, uma maior flexibilidade. Determinados requerimentos, a meu ver, devem ser deliberados na oportunidade da apresentação. Por exemplo, na oitiva do Sr. Marinho, propus que aqueles que serão ouvidos hoje, o Sr. Joel especialmente, fossem ouvidos juntamente com o Sr. Marinho, realizando uma acareação. Se solicitei durante o depoimento do Sr. Marinho, assim o fiz porque senti, naquele momento, que uma acareação seria muito mais objetiva, oportuna e nos proporcionaria um resultado muito mais eficiente.

Imagino que o brilhantismo dos senhores parlamentares aqui presentes possa arrancar dos depoentes algum fato novo, mas tenho dificuldade de acreditar nisso. Se hoje tivéssemos aqui de novo o Sr. Marinho, numa acareação com aqueles que serão ouvidos, os que gravaram a fita, certamente teríamos condições de concluir se realmente ele foi sincero no momento da gravação ou se foi sincero depois da gravação, quando disse que apenas usou de bravata naquela hora.

Sr. Presidente, estamos iniciando os trabalhos desta CPMI. Embora V. Exª tenha dito à imprensa que pretende encerrar os trabalhos desta CPMI o mais rapidamente possível, entendemos que isso é impossível e que ela demandará, no mínimo, seis meses, que é o prazo do requerimento. Solicito a V. Exª essa flexibilidade para sermos mais práticos.

Volto a insistir, Sr. Presidente: ouvir os diretores dos Correios sem conhecer os contratos, sem poder analisá-los e submetê-los a técnicos de confiança para que possamos indagar de forma inteligente é também perder tempo. Deveríamos suspender a oitiva de amanhã. O correto seria – como propôs a Oposição – antecipar o depoimento do Sr. Roberto Jefferson para amanhã e adiar o depoimento dos diretores dos Correios sob pena de estarmos fazendo aqui o jogo deles e não o jogo do interesse da investigação para valer.

De outro lado, não deveríamos estar adiando a votação de requerimentos porque perdemos tempo. Por exemplo, a solicitação da transferência dos sigilos bancário, telefônico e fiscal do Sr. Marcos Valério se deu no primeiro dia. Na instalação desta CPMI, já requeri a quebra e transferência dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do Sr. Marcos Valério. E não vamos deliberar, hoje, sobre isso? Não vamos dar formalidade para que se possa pedir a transferência desse sigilo em tempo até de podermos fazer consultas antes do depoimento dele nesta CPI?

Sr. Presidente, são esses os apelos que formulo a V. Exª, pedindo, mais uma vez, que considere a possibilidade de não realizarmos os depoimentos dos diretores dos Correios amanhã e de votarmos, hoje, sim, pelo menos, o requerimento de quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico do Sr. Marcos Valério, que creio que é unanimidade aqui, e nós votaríamos isso em 30 segundos.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Senador Alvaro Dias.

Deputado Arnaldo Faria de Sá.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, Srªs e Srs. Deputados, solicito ao Presidente, Senador Delcídio Amaral, que consultasse à Assessoria da CPI sobre a possibilidade de subsidiar os nossos trabalhos durante o mês de julho. Porque, não havendo convocação extraordinária e sendo o Regimento do Senado omisso quanto à possibilidade de depoimentos durante o recesso, é necessário que o Presidente do Congresso Federal, com aquiescência do Presidente da Câmara, convalide os atos da CPMI durante o mês de julho. Do contrário, podemos correr o risco de sermos desautorizados por estarmos funcionando durante o recesso, sendo o Regimento do Senado omisso em relação ao funcionamento nesse período.

Então, na verdade, essa é uma sugestão preventiva, que visa dar suporte legal aos nossos trabalhos.

E queria insistir na parte final do que foi dito pelo Deputado Alvaro Dias. Entendo, Senador Delcídio Amaral, que precisamos ter ligeireza quanto à decisão da quebra de sigilo do Sr. Marcos Valério, divulgado a semana inteira pela imprensa, e, de repente, parece que não estamos querendo decidir aqui essa questão. Acho que decidir outros requerimentos amanhã, concordo plenamente com V. Exª, mas pelo menos o do Marcos Valério deveríamos decidir hoje, para não passar a impressão de que estamos perdendo oportunidade de tempo.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – Sr. Presidente, solicito V. que responda às questões de ordem, senão vai acumulando e depois V. Exª não lembrará de todas elas.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Meu caro Senador Alvaro Dias, estou anotando tudo e vou responder em bloco, senão vai virar um debate interminável.

Com a palavra, o Senador Sérgio Guerra e, depois, o Senador César Borges.

Está anotado também aqui.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Sr. Presidente, questão de ordem!

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Já estão registrados os pedidos para falar pela ordem, que terminam na inscrição da Senadora Ideli, pois, do contrário, vamos ficar aqui pela ordem, falando uma porção de coisa até nem Deus sabe quando!

Já estão inscritos o Deputado Goldman e o Deputado Bittar.

Senador Sérgio Guerra!

O SR. SÉRGIO GUERRA (PSDB – PE) – Sr. Presidente, uma primeira ponderação é no sentido de reconhecer, de elogiar a atitude e o comando que o Presidente tem tido nesta Comissão. Há um evidente esforço de lucidez, de reconhecimento democrático por parte do Sr. Presidente da Comissão, o que nos tem levado a resultados, que considero positivos, neste momento de grande turbulência.

Segundo, apenas ponderaria ao Presidente Delcídio, em colaboração ao seu trabalho – não veja nessa ponderação nenhum tipo de questionamento polêmico –, o seguinte: é natural que, num quadro destes, todos se esforcem para contribuir e colaborar para um resultado positivo. Como estamos no começo de um processo e esse processo pode nos levar a várias formas de encaminhamento, sugeriria ao Presidente que tivesse como regra levar sempre a discussão ao conjunto da Comissão para decisão. Por mais relevantes que sejam os líderes, que possa ser a minha contribuição, ou de qualquer deputado, ou de qualquer senador, o preenchimento dessa formalidade garantirá a todos nós para o futuro. Mesmo que ela seja trabalhosa, exaustiva, muitas vezes aparentemente desestruturante, essa formalidade é imprescindível para que o começo da sua gestão nesta Comissão seja continuado até uma conclusão que todos desejamos.

Eu faria uma ponderação que até o presente momento não foi acatada por V. Exª, que é natural que seja discutida aqui. Foi da Oposição – e de maneira especial de alguns parlamentares, entre eles eu, e até assinei um requerimento – a idéia de ouvir diretores dos Correios, brevemente, o mais brevemente possível.

Depois dessa decisão, houve aqui um depoimento do Sr. Maurício Marinho no qual ele de alguma maneira levantou expectativas sobre um conjunto de contratos que, nos Correios e no âmbito daquelas diretorias, poderiam estar contaminados de irregularidades.

Nós estávamos a praticamente menos de 24 horas da audiência prevista para quatro diretores. Além disso, estaremos todos, ao longo do dia de hoje, em depoimentos já marcados, que são também relevantes. Então, eu não vejo possibilidade material de a Comissão, no plural, inclusive o Sr. Relator e todos nós, encontrar base para um questionamento produtivo dos quatro diretores.

Na medida em que compareçam aqui, apresentem os seus argumentos e não tenham da parte da Comissão um conteúdo relevante no contraditório, essa audiência poderá não ser produtiva para a visão geral do processo.

Eu não quero rigorosamente dizer que o Presidente está errado quando propõe e confirma o que foi sugerido por este Plenário, de uma maneira especial por alguns parlamentares, inclusive o Senador que lhe fala. Eu não estou de maneira nenhuma querendo alterar a sua primeira opinião. Apenas estou sugerindo que V. Exª considere o fato concreto, real, de que não estaremos amanhã tomando conhecimento dos contratos a partir de hoje, e rigorosamente só quando terminarmos as audiências de hoje. Estaremos, amanhã, em condição de fazer aqui uma sessão produtiva, com a qualidade das sessões que têm aqui se desenvolvido.

Essa é a ponderação que eu faria ao Presidente Delcídio Amaral.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Senador Sérgio Guerra.

Concedo a palavra ao nobre Senador César Borges.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, Srªs e Srs. Deputados, na semana passada tive a oportunidade de tecer aqui elogios à condução dos trabalhos por V. Exª nesta Comissão, na quarta-feira da semana passada.

No entanto, hoje, Sr. Presidente, diante da agenda que foi feita por essa Presidência, a meu ver ao arrepio de deliberações desta Comissão, fico extremamente preocupado com a condução dos trabalhos.

Nós vamos hoje fazer a oitiva de arapongas, pessoas que fizeram gravações. O Sr. Relator está ouvindo atentamente, e não podemos transformar esta CPI em uma CPI de arapongas. Arapongas fizeram as suas gravações de forma ilícita, então que respondam, e a Polícia Federal está aí para ouvi-los. Não podemos aqui ficar de forma detalhada olhando para trás. Como é que foi originada a gravação? Quem fez? Qual foi a tecnologia? Qual foi o método? Se foi uma câmara dentro de uma maleta ou uma maleta dentro da câmera, não sei bem. Isso não é especialidade nossa aqui, nem é esse o nosso fim, nem é isso o que está interessando a população brasileira, e não vai nos levar a nada.

Na verdade, nós temos hoje uma rota muito clara. Uma rota que a própria mídia está colocando aí para toda a Nação brasileira, mídia esta que está à frente desta Comissão, Sr. Presidente. Fico muito preocupado com o fato de que esta Comissão possa sair desmoralizada perante a opinião pública. Estamos sempre a reboque de uma imprensa que faz um trabalho investigativo muito bom.

Nesse final de semana, foram apresentados para a população brasileira os saques acima de R$100 mil feitos no valor de R$20 milhões, podendo chegar a R$27 milhões, pelas empresas do Sr. Marcos Valério.

Eu tinha apresentado, na terça-feira da semana passada, nobre Deputado Osmar Serraglio, Relator da CPMI, três requerimentos, Sr. Presidente, que não foram apreciados e que poderiam ter poupado esta CPMI desse vexame de ter de correr atrás – como hoje faz o Relator – da informação da imprensa. A imprensa cita que, a partir da informação da revista IstoÉ, que dá a rota do “mensalão”, o Sr. Relator agora faz requerimentos pedindo a transferência do sigilo da SMP&B e também da DNA.

Na semana passada, pelo Requerimento nº 165, de minha autoria, estava requisitado ao Banco Rural que identificasse, no prazo de 15 dias, todos os saques realizados em dinheiro nas agências de Belo Horizonte, desde janeiro de 2003, superiores a R$100 mil. O Requerimento nº 166 solicitava ao Banco Rural que identificasse, no prazo de 15 dias, todos os saques realizados em agências de Belo Horizonte, desde janeiro de 2003, superiores a R$100 mil, a partir das contas da SMP&B Comunicação e de suas empresas coligadas. Outro Requerimento, o de nº 167, pedia que fosse requisitada ao Departamento de Aviação Civil a listagem de todos os deslocamentos realizados pelos aviões de propriedade do Banco Rural ou de seus sócios, desde janeiro de 2003, bem como a relação dos passageiros que neles viajaram em cada projeto.

Ora, não aprovamos nenhum desses requerimentos. Eles ficaram sobrestados por uma deliberação da Presidência. Houve várias sessões, foram três na semana passada. Hoje, a Presidência diz novamente que vamos deliberar a partir de amanhã sobre o requerimento. Poderemos ter a surpresa de novas informações na mídia.

Então, esta CPMI está ainda a reboque do que está sendo publicado. O próprio Relator, ontem, declarou para a imprensa nacional que vai fazer requerimentos a partir de agora, Sr. Presidente. Por isso, estou temendo que a própria opinião pública formule uma idéia de que estamos aqui num faz-de-conta atrás das informações da imprensa. Sr. Presidente, isso é muito grave, até porque, para mim, há quebra de acordos.

Tenho aqui a transcrição do que V. Exª disse na semana passada, na terça-feira. V. Exª disse textualmente que, na próxima semana, que seria agora, ouviríamos os diretores dos Correios que foram citados e ouviríamos o Deputado Roberto Jefferson na quarta-feira – está dito aqui “quarta-feira” por V. Exª. Posteriormente, olhou-se exatamente para trás, foi-se ouvir o Sr. Wascheck. A partir daí, muda-se o cronograma preestabelecido, que era a oitiva hoje dos diretores dos Correios, e passa-se a ouvir agora novos arapongas, que foram os autores materiais da gravação. O que isso vai acrescentar à linha de investigação, Sr. Presidente?

A imprensa está muito adiante, está chegando na fonte dos recursos que tornaram possível criar toda essa instabilidade existente hoje no País, por conta de que dinheiro público estaria sendo utilizado para compra de consciência de Parlamentares.

Portanto, Sr. Presidente, quero, além disso, solicitar também a V. Exª que possa abrir – coisa que não foi feita até agora – aos funcionários indicados pela Oposição os documentos da CPMI, porque havia um comprometimento pela Presidência, pela direção dos trabalhos, de que haveria a garantia desse acesso, coisa que não houve até o momento. A assessoria da Oposição não está tendo – como deveria ter – acesso a esses documentos.

Além do mais, Sr. Presidente, parece-me que ouvir Marcos Valério é urgente urgentíssimo. A partir da oitiva de Marcos Valério, da Srª Fernanda Karina Somaggio e do próprio Ministro Gushiken, que foi citado aqui – e a própria imprensa já coloca que, por meio de interferência da Secom e do Ministro Gushiken, foram alteradas normas internas dos Correios para licitação da contratação de empresa de publicidade, a licitação que possibilitou a contratação da SMP&B, do Sr. Marcos Valério. Então, isso é muito grave, Sr. Presidente.

Então, eu quero voltar novamente à questão do elogio que fiz a essa direção. Eu acho que V. Exª tem todos os méritos, nós temos relações de amizade, temos todo respeito por V. Exª, mas, se os trabalhos aqui não forem conduzidos para resolver rapidamente a votação dos requerimentos, uma pauta que possa fazer andar célere os trabalhos desta Comissão para dar uma resposta à opinião pública brasileira, eu lamento, Sr. Presidente, que, efetivamente, aí a pecha de chapa branca, ou de que nós estamos aqui numa Comissão procurando atender os desígnios do Governo, que não quer investigação, tem um discurso de cortar na própria carne, mas, na prática, faz tudo para abafar e para impedir exatamente o andamento dos trabalhos... A Polícia Federal investiga aquilo que o Governo quer e não investiga aquilo que o Governo não quer. Tem sido assim. Ouve o que é de interesse do Governo, da linha investigatória que o Governo deseja, mas não ouve a todos.

Então, Sr. Presidente, eu faço um apelo a V. Exª, ao seu currículo de político, à sua vida pública, Por favor, não se apequene diante das pressões do Governo. Assuma, efetivamente, o que a Nação brasileira espera de V. Exª. Acelere esses trabalhos, dê o rumo certo, que está aí indicado pela mídia nacional, e que a opinião pública já tem conhecimento. Não podemos ficar aqui fazendo de conta, para ouvir aqui os senhores que hoje serão ouvidos, o Sr. Jairo, o Sr. Molina, o Sr. Joel Santos Filho, o que não vai acrescentar, efetivamente, nada ao que nós queremos esclarecer para a opinião pública brasileira, que é o nosso dever e a nossa obrigação.

Portanto, fica esse apelo dramático e veemente a V. Exª, porque eu tenho, efetivamente, apreço pela sua figura, e quero vê-la preservada desse lamaçal que hoje, infelizmente, traz preocupações muito grandes a toda a Nação brasileira.

Era isso, Sr. Presidente.

Agradeço a oportunidade.

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Pela ordem, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Senador César Borges.

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Pela ordem, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Jamil Murad, se nós não nos organizarmos, vamos ficar aqui até o meio-dia, todo mundo pedindo pela ordem,...

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Eu quero saber...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – ... não atendendo ao que é pela ordem, e prejudicando o andamento dos trabalhos da CPI. Se V. Exª quiser se inscrever, eu o inscrevo, excepcionalmente, porque já há dez pessoas inscritas pela ordem. E ninguém fala pela ordem, a maioria,...

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – O Senador que me precedeu...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com algumas exceções, a maioria fala para tratar de outros assuntos.

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Ele não... Foi resolvido ouvir depoentes aqui, e ele propõe...

O SR. (orador não identificado) – Sr. Presidente, ele está subvertendo a ordem de inscrições.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Jamil Murad, eu vou ter a oportunidade de explicar essas questões, mas não vou começar a debater com cada orador, senão não acabamos nunca.

Com a palavra, o Deputado Alberto Goldman.

O SR. ALBERTO GOLDMAN (PSDB – SP) – Srs. Deputados, Srs. Senadores, Srª Senadora, quero, em primeiro lugar, Sr. Presidente, cumprimentar V. Exª e o Relator pela forma pela qual vêm conduzindo os trabalhos, e temos que reconhecer que V. Exªs estão respondendo de forma correta à demanda que não é nossa, é da sociedade. Que se portem – tenho certeza que assim será – até o final desses trabalhos, porque nós vamos, o Congresso Nacional vai responder, como está respondendo, à sociedade.

Inclusive, ontem, a leitura de material dos jornais mostrou o Líder do Governo, Senador Aloizio Mercadante, se opondo, de uma forma até ridícula, a uma convocação do Marcos Valério, figura central agora, pelo menos neste momento, em todos esses episódios, porque, a partir daí, poder-se-ia, então, chegar ao famoso “mensalão”, e, segundo ele, a CPI dos Correios não pode tratar de “mensalão”, nem que os Correios tenham sido a fonte para uma distribuição de recursos, se isso se comprovar adiante.

Então, V. Exªs, ao tomarem essa atitude – eu li pelos jornais – e apoiarem a convocação do Valério, sem dúvida, estão tendo uma postura isenta, e nós temos que cumprimentá-los por isso.

Sr. Presidente, a questão de ordem é a seguinte: a Comissão tem o desejo de funcionar durante do recesso, no mês de julho, mas existe uma dúvida regimental. Essa dúvida regimental tem de ser resolvida e não pode ser resolvida aqui apenas. Ela tem que ser resolvida pelo Plenário do Congresso. V. Exª deve, na minha opinião, fazer uma questão de ordem ao Presidente José Sarney sobre essa questão – desculpe, ao Presidente Renan Calheiros.

Essa questão de ordem se deve porque o Regimento Comum não trata da questão do funcionamento de comissões no período de recesso. O Regimento do Senado impede que comissões temporárias funcionem. Mas, no caso específico, quando trata das CPIs, é omisso em relação a isso. O Regimento da Câmara que é subseqüente, vem depois para efeito de decisão, permite que CPIs funcionem dentro do período de recesso.

Então, essa decisão é fundamental e vai, inclusive, orientar o nosso trabalho tanto no Plenário da Câmara e do Senado, como vai orientar o nosso trabalho em relação à Lei de Diretrizes Orçamentárias. Nossa atuação no Congresso depende da decisão que for tomada a respeito dessa matéria.

Então, sugiro a V. Exª que faça uma questão de ordem. Formalize ao Presidente Renan Calheiros uma questão de ordem em plenário, ainda hoje, de maneira que essa questão fique absolutamente esclarecida e que esta Comissão possa funcionar. Do contrário, se não tivermos feito isso, a qualquer momento, qualquer Deputado ou Senador, membros da Comissão, numa questão de ordem, pode levantar essa questão e, de repente, todos os trabalhos ficam suspensos ou até prejudicados aqueles que já foram feitos.

É a sugestão que faço a V. Exª.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Alberto Goldman.

Com a palavra o Deputado Eduardo Paes.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, não quero aqui parecer redundante, mas também faço o registro da postura correta que vêm adotando o Presidente Delcídio Amaral e o Deputado Osmar Serraglio, saudando, principalmente, a postura do Presidente tomada neste exato instante nesta Comissão.

Acho que pecadilhos se cometem, mas o que havia de grave, efetivamente, em relação à agenda acordada, para esta semana, era a introdução de uma figura, um depoente que não havia sido acordado. Portanto, o Presidente aqui, de público, reconhece o seu erro, volta atrás na sua decisão e estabelece o calendário definido na semana passada.

Portanto, creio que, se continuarmos, Sr. Presidente, avançando dessa forma, conversando, deliberando em conjunto, acordando, não teremos dificuldade de trabalho e daremos à sociedade a resposta que ela exige do Congresso Nacional neste momento. Quero parabenizar V. Exª, inclusive pela humildade em reconhecer um erro, ao incluir na agenda uma figura que não estava incluída.

Sr. Presidente, seria interessante – é uma sugestão – que todas as decisões fossem tomadas no plenário da Comissão, mas é importante, talvez, que V. Exª e o Relator estabeleçam algumas conversas com todos os membros da Comissão ou com membros da Comissão, representantes partidários, no sentido de que cheguemos aqui e não percamos tanto tempo, enfim, com tantos “pela ordem”, como V. Exª mesmo diz.

Mais uma vez, reitero o apelo feito pelo Senador Sérgio Guerra. Quanto à questão dos diretores – na verdade, trocamos, e disse isso à Senadora Ideli –, invertemos os papéis nesta semana. Na quinta-feira, a Oposição batia firme no sentido de que se cumprisse aquilo que havia sido acordado, que era a necessidade do depoimento dos diretores nesta semana. E os Deputados da base do Governo não queriam que os diretores fossem ouvidos nesta semana. Inverteram-se os papéis. Por quê? Faço questão de explicar, mais uma vez, para apelar ao Sr. Presidente sobre a importância da decisão que S. Exª pode tomar.

O fato de nós não termos tido acesso aos contratos, aos documentos da Empresa de Correios e Telégrafos, tornará muito difícil o depoimento, ou que nós, da Oposição, ou os próprios membros da base do Governo possam argüir os diretores da Empresa de Correios e Telégrafos. Portanto, Sr. Presidente, o que vamos ter aqui amanhã, com o exíguo tempo que temos para olhar e debater os contratos, provavelmente, seja um debate político: saber quem indicou o diretor tal; qual o envolvimento dele; onde ele já foi filiado. Esse será o debate. O que não creio ser um debate. É relevante, mas não será um depoimento completo. Portanto, reitero esse apelo para que V. Exª reflita a respeito da oportunidade ou não de ouvir os diretores dos Correios.

Sr. Presidente, quero também fazer uma sugestão a V. Exª – aliás, é quase um requerimento – e ao Relator também, Deputado Osmar Serraglio. O Senador Romeu Tuma me fez uma sugestão, lembrou-me de algo acerca da Comissão. Os documentos requeridos pela Comissão não estão chegando. Na verdade, a única coisa que tínhamos ontem, às 19 horas, era o inquérito da Polícia Federal. O Relator, ontem – estive com S. Exª na Sala da Comissão –, estava com dificuldade para trabalhar, em razão da ausência de documentos, pois não chegou nada da Controladoria-Geral da União; nada, absolutamente nada. Não chegou absolutamente nada dos Correios; não chegou absolutamente nada da Procuradoria. Ou seja, não é possível que não tenha havido tempo de os documentos solicitados por esta Comissão, que já funciona há duas semanas, terem sido encaminhados! O Senador Romeu Tuma lembra-me, também, que a Comissão tem o poder de montar uma subcomissão de busca e apreensão. Portanto, estamos chegando a um ponto, Presidente Delcídio Amaral, de necessitar criar essa subcomissão aqui, se as coisas continuarem caminhando da forma como estão, com a lerdeza que estão. Isso é necessário para que tenhamos acesso aos documentos de que precisamos, a fim de que possamos fazer os depoimentos, enfim, para que o Relator possa iniciar a montagem do seu relatório final. Portanto, essa é uma questão grave, e a cada momento fica mais grave. Já foi dito aqui ser curiosíssima a postura da Polícia Federal ao apreender documentos e ao invadir a casa do Tesoureiro do PTB. Mas, quanto ao Tesoureiro do PT, que está em todas, absolutamente em todas – é o primeiro nome citado; é o campeão de audiência nas citações –, não há qualquer tipo de ação da Polícia Federal, nem relação aos documentos que pudesse estar guardando. Ou seja, já deu tempo de ele guardar ou limpar tudo aquilo que ele deveria limpar ou esconder. Sr. Presidente, chegou a hora – parece-me –, principalmente em razão, Deputado Osmar Serraglio, da dificuldade que tivemos. Eu disse, na semana passada, que o meu sonho, pela dificuldade que eu tenho de compreensão das coisas, seria passar o fim de semana inteiro lendo contratos dos Correios. A Senadora Heloisa Helena disse que esse era também o seu sonho. Infelizmente, nenhum de nós pôde concretizar esse sonho, porque os documentos não apareceram. Sr. Presidente, V. Exª deveria refletir sobre a possibilidade de criarmos essa subcomissão de busca e apreensão para que esses documentos não atrasem mais.

Finalmente, Sr. Presidente, quanto à questão colocada pelo meu Líder, o Deputado Alberto Goldman, precisamos deliberar urgentemente sobre esses requerimentos – pelo menos internamente, nem que seja uma manifestação política para fortalecer a questão de ordem que V. Exª fará, como sugerido pelo Líder Alberto Goldman ao Senador Renan Calheiros – antes que V. Exª o faça – creio que esse seria o único requerimento sobre o qual poderíamos deliberar hoje –, de a Comissão deliberar sobre o seu funcionamento durante o recesso. Poderíamos deliberar isso hoje, para que V. Exª possa fazer a questão de ordem que V. Exª tem que fazer ao Presidente Renan Calheiros, dizendo-lhe: “Olha, Presidente, a Comissão deliberou e aprovou o requerimento de que vai funcionar durante o recesso. Como V. Exª entende isso? Isso poderia fortalecer a sua posição? V. Exª teria um entendimento favorável, Senador Renan Calheiros?”

Eram essas as minhas considerações, Sr. Presidente.

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Eduardo Paes.

Tem a palavra o Deputado Antônio Carlos Magalhães Neto.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, antes de mais nada, eu gostaria de pedir a V. Exª que solicitasse ao Plenário silêncio.

Sr. Presidente, evito me juntar àqueles que pretendem denominar esta CPI de “CPI Chapa-Branca”. E gosto, sim, de reconhecer e louvar a correção do comportamento das pessoas. Sem dúvida alguma, nessas duas últimas semanas, tanto V. Exª como o Relator têm tido um comportamento isento, imparcial, digno dos nossos elogios e do nosso reconhecimento.

Agora, Sr. Presidente, peço a atenção de V. Exª para uma ponderação que vou lhe apresentar. Gostaria que V. Exª a analisasse com o mesmo equilíbrio e a mesma isenção com que vem conduzindo esta Comissão. Nós, na semana passada, fizemos um acordo político para viabilizar o funcionamento das duas primeiras semanas desta CPMI. Esse acordo político passava pela oitiva do Sr. Maurício Marinho, o que aconteceu, pela oitiva do Sr. Wascheck e do sócio dele, o que aconteceu. Nesta semana, iríamos analisar os depoimentos do Sr. Roberto Jefferson, Deputado Federal, e dos ex-diretores da Empresa de Correios e Telégrafos. Só que dois fatos supervenientes, na minha opinião, mudaram o curso do funcionamento da CPMI nesta semana. O primeiro fato superveniente: o depoimento do Sr. Wascheck. Depois do interrogatório dele, ficou claro que era fundamental ouvirmos os executores da gravação do Maurício Marinho. É por isso que hoje estamos reunidos para a oitiva do Sr. Joel, do Sr. Jairo, assim como a oitiva do Sr. Molina. Isso não estava acertado. Eu quero frisar: o acertado era ouvirmos os diretores dos Correios e o Sr. Roberto Jefferson, só que um fato superveniente, que foi o depoimento do Wascheck, obrigou-nos a interrogar hoje os três responsáveis diretos pela gravação.

Há outro fato superveniente que, da mesma forma, obriga-nos a rever o cronograma de funcionamento desta Comissão nesta semana. Qual é o segundo fato? É justamente a dificuldade que a Comissão teve de ter acesso aos contratos dos Correios. Eu vinha fazendo um apelo, desde a quarta-feira da semana passada, a V. Exª e à assessoria da Comissão para que cobrássemos da Controladoria-Geral da União que enviasse a esta CPMI, no mais breve espaço de tempo possível, todos os contratos da Empresa de Correios e Telégrafos, porque, assim como outros Parlamentares, este que neste momento se dirige a V. Exª gostaria de, com cuidado, de forma detalhada, com equilíbrio, analisar cada contrato. Só que isso não foi possível. Estou começando a suspeitar, inclusive, da condução da CGU. Estou começando a suspeitar dela, repito. Não suspeito desta CPMI, não suspeito de V. Exª, não suspeito do Relator, mas acho que a CGU está trabalhando a passos lentos para dificultar o trabalho desta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Por quê? Há duas semanas, a Liderança do PFL recorreu ao Tribunal de Contas da União, recorreu à Empresa de Correios e Telégrafos para ter acesso aos contratos, e a resposta foi: todos os contratos foram entregues à Controladoria-Geral da União. Portanto, não foi na semana passada que a CGU teve acesso e posse dos contratos. Esses contratos estão com a CGU há muito tempo. Se a CGU não nos enviou no tempo hábil, a responsabilidade é dela. E que fique claro: nós não poderemos ouvir os diretores amanhã porque a CGU não encaminhou no tempo hábil os contratos dos Correios e Telégrafos. Então, existiu esse fato superveniente. Amanhã, o que vai acontecer aqui, como bem disse o Deputado Carlos Sampaio, são alunos indagando aos professores. Esta Comissão se colocará como aprendiz das lições dos diretores da Empresa de Correios e Telégrafos. É claro, é obvio que nem os Parlamentares da base do Governo nem os da base da Oposição estarão preparados amanhã para argüir os diretores. Nós não estaremos preparados. Nós não temos conhecimento a fundo dos contratos; e até de outras informações afeitas a essas diretorias, que não foram disponibilizadas para a Comissão Parlamentar de Inquérito.

Então, Sr. Presidente, o apelo que faço, para o bom funcionamento desta Comissão e, sobretudo, para que nós aqui não nos prostremos diante dos diretores, é que V. Exª reveja a audiência de amanhã; que remarque logo, para segunda ou terça-feira da semana que vem, a oitiva dos diretores. Mostraremos a data já acertada para ouvirmos os diretores dos Correios. Mas isso não pode acontecer no dia de amanhã, Sr. Presidente. Não estamos preparados. Seremos humilhados pelos diretores. Ficará feio para os Parlamentares desta CPMI, porque não tenho dúvida de que o que alguns querem – não vou nominar, não vou “fulanizar” – é que as manchetes dos jornais de quinta-feira digam o seguinte: “Diretores da Empresa de Correios e Telégrafos vão à CPMI e mostram que não há irregularidades, que a empresa funciona bem; dão uma aula de conhecimento técnico e colocam os Deputados na parede, colocam os Senadores na parede”. Não podemos permitir que isso aconteça, sob pena de desmoralizar esta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito.

Então, Sr. Presidente, realmente quero que V. Exª pondere esta argumentação que lhe trago. Tenhamos o equilíbrio necessário para, até com a concordância deste Plenário, remarcar a oitiva dos diretores para a semana que vem. Ouviremos na quinta-feira o Deputado Roberto Jefferson. Cumpriremos o acordo que foi encaminhado por V. Exª. Amanhã, nós nos reuniremos para discutir os requerimentos que são vários; para deliberar sobre o funcionamento desta Comissão no mês de julho. Não há por que ouvirmos os diretores amanhã, Sr. Presidente.

Assim, peço a V. Exª que realmente dê atenção a esta minha ponderação. Vamos agir da forma correta, da forma que a sociedade brasileira quer. Vamos nos preparar para indagar as peças que são talvez as mais importantes desta Comissão Parlamentar de Inquérito na primeira fase, que são os diretores.

Essa é a ponderação que deixo a V. Exª.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Antonio Carlos Magalhães Neto.

A SRª ANA JÚLIA CAREPA (PT – PA) – Sr. Presidente, pela ordem, para o encaminhamento dos trabalhos.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Pela ordem, concedo a palavra à Senadora Ana Júlia Carepa.

A SRª ANA JÚLIA CAREPA (PT – PA) – Sr. Presidente, acerca do andamento dos trabalhos uma série de pessoas estão fazendo ponderações. Isso é natural. Mas, para o andamento dos trabalhos, penso que, como temos aqui três pessoas para serem ouvidas, temos de tomar uma decisão antes. Está-se falando muito da questão dos contratos. São quatrocentos contratos, e há alguns destacados.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – São seiscentos contratos.

A SRª ANA JÚLIA CAREPA (PT – PA) – Sim, seiscentos.

Então, talvez tenhamos de decidir se paramos ou se analisamos todos os contratos. Digo isso porque, por exemplo, não tínhamos analisado os contratos que estavam sob a gestão do Sr. Maurício Marinho, e nós o ouvimos. E talvez precisemos ouvi-lo novamente. Então, se é uma questão dos contratos, teremos de parar um pouco e analisar todos.

Então, penso que, para o bom andamento dos trabalhos, seria bom que pudéssemos decidir isto: ou paramos e analisamos todos os contratos para ouvir todos, porque tudo tem relação, ou então ouvimos hoje as pessoas que estão marcadas, amanhã também e, se for necessário, assim como nós mesmos avaliamos que é necessário ouvir o Sr. Maurício Marinho... Também não temos conhecimento. Mesmo assim, consideramos ser importante ouvi-lo logo. Foi a primeira pessoa ouvida, sem conhecermos os contratos que estão sob a gestão dele.

Então, eu creio que é esse...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Senadora, nós tínhamos 1 hora e 54 minutos...

A SRª ANA JÚLIA CAREPA (PT – PA) – Pelo andamento dos trabalhos.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Há uma ordem de inscrição, Sr. Presidente. Todos pediram a palavra pela ordem. Então, quero que V. Exª volte à ordem de inscrição. Ninguém está pedindo a palavra para uma questão de ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra a Senadora Heloisa Helena.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Todos pediram a palavra pela ordem, ninguém formulou questão de ordem, ninguém citou o Regimento. Portanto, apelei a V. Exª para manter a inscrição, porque todos estão tratando sobre o andamento dos trabalhos.

Presidente, é claro que o temperamento de V. Exª e do Relator ajudaM muito...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Nem todos, não é,  Senadora Heloisa?

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – É verdade. Eu sei mexer no Regimento e, quando quero enrolar, eu posso fazê-lo também, mas não estou a fim de fazer isso.

Sei que o temperamento de V. Exª e do Relator ajuda muito a manter o equilíbrio dos trabalhos, porque aqui todo mundo se conhece e ninguém ganha de ninguém no grito. Quando alguém grita, outro grita mais alto; então ninguém ganha de ninguém aqui no grito. Talvez ganhe no argumento, mas nem sempre ganha no argumento. E isso faz parte da vida, porque às vezes argumentos são aniquilados em função das relações estabelecidas de quem seja Oposição, de quem seja Situação.

O apelo que todos estão fazendo, acho que seja um apelo absolutamente justo. Se os diretores vêm amanhã, eu vou estar aqui cumprindo a minha obrigação, tentando ouvir os depoimentos, como foi acordado anteriormente. Não se pode mais reivindicar o que foi acordado anteriormente, porque houve uma flexibilidade, definida por V. Exª – e humildemente reconheceu que daqui para frente todas as outras serão discutidas pelo Plenário – em função da necessidade – que acho que é correta também – de ouvir o Sr. Marcos Valério.

Entretanto, é importante que se deixe absolutamente claro que não se trata de pegar apenas os contratos. Não é isso! O Deputado Eduardo dizia que sonhou e que a gente sonhava em passar o fim de semana analisando os contratos. Ninguém pensa que somos masoquistas, porque ninguém quer passar fim de semana analisando contratos. Isso é um verdadeiro pesadelo; não é sonho. Entretanto, não é apenas o contrato; é todo o processo de instrução. Todos sabem: nenhum delinqüente de luxo deixa as suas digitais, ou as suas patas no contrato. É o processo de instrução do edital de licitação, as definições que são tomadas pelas diretorias, as necessidades ou demandas criadas que acabam fraudando o edital de licitação. Então, não é só o contrato. Quando estamos discutindo – e por isso que é um processo grande – discutimos o processo de instrução do edital, é o contrato, é a execução do contrato e os aditivos que possam ter vindo. Por isso não é uma coisa simples. Para quem quer fazer frase de efeito, ou para quem quer abafar, ou para quem quer investigar, ou para quem é do Governo e para que é Oposição ao Governo, para quem quer fazer frase de efeito nos depoimentos, é a coisa mais fácil e cômoda de fazer.

Então, só para deixar absolutamente claro que não é uma coisa simplória; é uma coisa extremamente grave. É todo o processo de instrução; não é uma coisa simples. Para que tenhamos, o mais rápido possível, todos esses detalhes. O Senador Tuma trouxe algo que é vivenciado em outras CPIs também, que é uma diligência, oficiada por V. Exª como Presidente, para que um grupo de Parlamentares faça a busca e apreensão de determinados documentos. Do mesmo jeito que se fez a busca e apreensão da agenda do Sr. Marinho, que se faça também das de todos os diretores, que nós não temos ainda. Todo o processo de instrução, mais a agenda do diretores – então são muitas coisas.

Quero deixar absolutamente claro que, se for mantido... E aí V. Exª pode, de pronto, manter a agenda. Apelamos até que isso seja discutido no Plenário. Se não puder modificar – e acho que é conseqüente tecnicamente modificar, conseqüente tecnicamente –, eu não vou fazer nenhum boicote. Vou estar aqui amanhã tentando auxiliar no procedimento investigatório, tentando aprofundar as investigações.

Mas é bom que se deixe claro, porque de repente a imprensa nos consulta lá fora, dizendo: “Fulano de tal, da Base do Governo, chegou aqui e disse que vocês é que querem adiar porque estão com medo, porque não têm como inquirir o depoente”.

Não adianta esse tipo de marola, de manobra fraudulenta, porque os detalhes técnicos são muitos. Não é uma coisa qualquer; não se trata da subjetividade. Por mais complexas que sejam, não se trata disso. É um processo técnico, extremante complexo e que exige de todos nós o aprofundamento.

Se quer manter para amanhã, eu, pelo menos, quero deixar absolutamente claro, estarei aqui tentando aprofundar as investigações. Mas sei que é absolutamente justa, conseqüente politicamente, conseqüente tecnicamente a necessidade de que tenhamos acesso a todo o processo de instrução, ao edital, ao contrato, à execução, aos aditivos. Isso é essencial para que nós façamos um trabalho sério.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Senadora Heloisa Helena.

Concedo a palavra ao Deputado Jorge Bittar.

 A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS – RJ)– Sr. Presidente, gostaria que V. Exª me inscrevesse, porque, devido às exposições, surgiram algumas questões e vejo-me obrigada a manifestar-me.

Muito obrigada.

Desculpe-me, Deputado Jorge Bittar.

O SR. JORGE BITTAR (PT – RJ) – Pois não.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Tem a palavra o Deputado Jorge Bittar.

O SR. JORGE BITTAR (PT – RJ) – Sr. Presidente, Srs. Parlamentares, da mesma forma que outros Parlamentares aqui se manifestaram, quero também ressaltar o equilíbrio e a competência que têm pautado a atuação de V. Exª e do Relator, Deputado Osmar Serraglio.

Isso, inclusive, nos conforta muito, porque, inicialmente, levantou-se um clima de suspeição sobre nosso Presidente e nosso Relator, pelo fato de ambos pertencerem à base de nosso Governo. E nós afirmamos, desde o início, que desejávamos a apuração dos fatos e a realização de um trabalho sério nesta CPMI. V. Exªs estão nos brindando com um trabalho de excelente qualidade, capacidade de ouvir, seriedade, enfim, com uma boa linha de trabalho.

Esta é uma CPMI que tem um objeto claramente definido: apurar os fatos graves ocorridos na Empresa Brasileira de Correios. Um processo de investigação pressupõe uma linha de investigação. Desde o início, temos nos pautado por esta perspectiva, por esta assertiva, ou seja, não adianta sair ouvindo pessoas a esmo, se não tivermos uma linha de investigação e se não estivermos preparados para inquirir cada um dos depoentes que aqui vier a comparecer.

No entanto, esta é uma Casa política em que você é obrigado a combinar um trabalho técnico investigativo com as pressões políticas daqui ou dali. A Oposição, com toda legitimidade, tenta generalizar as críticas não só à Empresa de Correios e Telégrafos, mas ao Governo. É próprio do papel da Oposição, e nós entendemos. É um processo democrático. E nós tentamos trabalhar e mostrar que queremos a apuração, porque é da tradição de nossos partidos, é da tradição dos homens de bem buscar colocar os problemas em pratos limpos. A democracia supõe um tratamento rigoroso de situações como essa, e é disso que estamos aqui tratando.

Então, uma linha de investigação, por mais que se queira achar que, aparentemente, possa ser supérfluo, não pode abdicar de ouvir os chamados arapongas porque nem todos são exatamente arapongas. O Sr. Molina, por exemplo, é um lobista – não é exatamente um araponga – com vinculações não totalmente explicitadas com o Deputado Roberto Jefferson, autor da denúncia. O Deputado diz que este Molina foi autor de uma tentativa de extorsão sobre ele. Há, na verdade, um ambiente nebuloso nas relações que marcam o Sr. Molina. O Sr. Molina, quando foi ao Sr. Roberto Jefferson, declarou que estava representado não só o empresário Wascheck, aqui ouvido, mas um grupo de empresários insatisfeitos com o trabalho da diretoria de administração dos Correios.

Nós temos que colocar em pratos limpos essas informações, porque, certamente há fatos e questões importantes atrás dessas afirmações que não foram desvendados até agora e que, possivelmente, possam ser desvendados a partir de depoimentos e da documentação à qual nós estamos tendo acesso.

Da mesma maneira, não podemos ouvir o Deputado Roberto Jefferson antes dos arapongas e antes dos diretores, porque o primeiro a denunciar outras diretorias dos Correios foi exatamente o Deputado Roberto Jefferson.

Então, cumpre a nós, a partir de uma denúncia sem apresentação de provas, sem fundamentação, inicialmente, conhecer os contratos, inquirir os diretores. Após a inquisição do Sr. Marinho, do Sr. Wascheck, de todos os envolvidos nos depoimentos previstos para hoje, e dos diretores, aí, sim, devemos ouvir o Sr. Roberto Jefferson. Parece-me ser esse o fio lógico e natural de um trabalho sério e competente, tendo em vista o objeto definido para a investigação desta Comissão, que são os fatos ocorridos na Empresa de Correios. A Oposição, naturalmente, tenta extrapolar esse limite também – isso está claro nos depoimentos de alguns. É natural. É natural, Deputado Rodrigo Maia...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado Jorge Bittar.

O SR. JORGE BITTAR (PT – RJ) –... que V. Exª tenta fazer isso ficou claro no depoimento do nobre Senador César Borges e de outros que aqui se pronunciaram também. Desejam trazer apressadamente, do meu ponto de vista, pelas mesmas razões pelas quais quisemos construir uma linha de investigação mais consistente, tentam trazer apressadamente o Sr. Marcos Valério sem ter toda a documentação, todas as informações que nos permitam inquiri-lo mais profundamente. Claro. Entendo os risos todos aqui, porque essas mesmas pessoas falavam isso quando pedíamos para que nós tivéssemos mais consistência nas informações antes de inquirir os diretores dos Correios. E eles quiseram acelerar, porque o Sr. Marinho listou catorze contratos, o Sr. Roberto Jefferson lá, no Plenário, denunciou a Skymaster, HHP, que foi citada.

Sim, vamos apurar. Interessa a todos nós agir com a seriedade; todos nós temos um patrimônio moral e ético, e essas Casas têm também, e nós queremos apurar verdadeiramente. Agora, é claro que, por trás disso, há um processo de disputa política.

Então, uma questão nesta CPI vai pairar o tempo todo mal resolvida, ou não resolvida até agora, que foi objeto de discussão intensa na CCJ da Câmara dos Deputados. É a seguinte questão: qual o limite dos nossos trabalhos? Qual o objeto verdadeiro do nosso trabalho? Está definido no texto, mas há Deputados e Senadores que querem que venhamos a ouvir o Sr. Marcos Valério. É sabido e notório que os episódios aos quais o Sr. Marcos Valério está vinculado têm relação com a chamada denúncia do “mensalão”, que deve ser apurada.

(Intervenções fora do microfone.)

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Por favor, com a palavra o Deputado Jorge Bittar. Por favor, Deputado Bittar.

O SR. JORGE BITTAR (PT – RJ) – Eu entendo, veja bem, que todos devem ser investigados, agora, de forma tecnicamente adequada, de forma competente, de forma precisa. Então, essa questão não está resolvida, e sinto que não será resolvida aqui dentro. É preciso que os Líderes de todos os partidos, da Câmara e do Senado, definam esta questão: se teremos uma CPMI específica para o “mensalão”, se teremos uma CPI na Câmara para o “mensalão” ou se abriremos esta CPI... De minha parte, não tenho objeção a nada; apenas quero que pisemos em terreno político seguro, que não atropelemos o processo com argumentos... Alguns estão preocupados porque estamos pautados pela imprensa. Ora, não temos que ser pautados ou não pautados pela imprensa. Temos de averiguar os fatos e construir uma linha investigatória séria, consistente, para que possamos produzir resultados e para que esta CPI não acabe em pizza. Isso é o que todos nós verdadeiramente desejamos.

Sempre haverá, evidentemente, a tentativa de desqualificar as nossas assertivas. Nós ouvimos com a máxima atenção ataques ao nosso Governo, ataques a ministros etc, mas alguns parecem não ter a maturidade suficiente para se comportar numa situação tão importante para todos nós, num momento histórico tão importante para todos nós. No entanto, não vamos perder a serenidade, Sr. Presidente. Vamos continuar. Estou sendo absolutamente claro e objetivo no que diz respeito a isso. Então, em função disso, considero que, se há necessidade...

Eu ouvi de V. Exª – e gostaria depois que V. Exª precisasse – que os contratos, se não todos, a maior parte deles – não sei se todos –, já estão de posse da nossa Comissão; já foram enviados. Enfim, que esses contratos sejam disponibilizados da maneira... Eu estou indagando. Quero que o Presidente se coloque... Se isso não tiver ocorrido, que aceleremos o acesso a esses contratos, definindo o prazo mínimo para análise – não serão os Deputados e Senadores que vão analisar, mas as nossas assessorias, que são as pessoas qualificadas para isso. Nós, evidentemente, de posse das análises de pessoas confiáveis e competentes, vamos buscar aprofundar isso aí na análise dos depoentes aqui formulados. Por mais que o Deputado Eduardo Paes tenha dito que adoraria ler os contratos nos fins de semana, acredito que S. Exª gostaria de ler umas duas ou três páginas de um desses contratos para pegar no sono mais rápido, apenas isso. Verdadeiramente, ninguém ficaria examinando-os no fim de semana, porque isso é papel de analistas, especialistas, profissionais dessa matéria.

Proponho que definamos um prazo. Não há motivo para açodamento. Se há necessidade de um prazo maior, que venhamos a ouvir os diretores na quinta-feira ou na sexta-feira. O que não faz sentido é anteciparmos a oitiva do Sr. Roberto Jefferson ou do Sr. Marcos Valério, usando como pretexto essa informação de que não tivemos acesso ainda aos contratos. A nossa linha investigatória pressupõe coerência.

V. Exª e o nosso Relator agiram com a coerência necessária sobre esses fatos. É isso, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Bittar.

Concedo a palavra à Senadora Ideli Salvatti.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Sr. Presidente, há uma hora e quarenta minutos, estamos fazendo este debate, sendo que concordamos que é importante fazer as três oitivas, fruto exatamente do trabalho realizado na semana passada. Na evolução do trabalho, entendemos que, antes de ouvirmos o Sr. Roberto Jefferson, seria importante ouvirmos, além dos diretores dos Correios – este já era um acordo feito antecipadamente na semana passada –, também os responsáveis pela gravação.

Ontem, tive de responder a várias entrevistas a respeito das insinuações e propostas de fazer alterações no cronograma, de modificá-lo, por conta dos fatos supervenientes, como disse o Deputado ACM Neto.

Esta CPI precisa manter uma lógica, uma seqüência, uma linha de investigação muito clara e acordada entre todos nós. Que aquilo que está acordado entre nós seja cumprido e que não estabeleçamos a “operação pipoca”, tirando da linha antes de concluir, antes de terminar aquilo que está acordado: se apareceu não sei o quê, não sei onde, pulamos para uma outra situação antes de concluir aquilo que acordado estava. Não podemos trabalhar na lógica da pipoca, ou seja, a cada fato novo alterarmos o que estava acordado. Se o fizermos, vamos ser surpreendidos – todos sabemos disso –, porque o assunto entra na disputa dos meios de comunicação; cada meio de comunicação quer dar um furo maior que o outro.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Sr. Presidente, gostaria que V. Exª distribuísse nesta CPI alguns chazinhos de maracujá, porque há pessoas que não estão com a calma necessária para a condução dos trabalhos.

Que não adotemos essa lógica de, a cada fato, mudar o procedimento, porque vão aparecer denúncias, vão aparecer matérias! Que concluamos aquilo que se estabeleceu para esta semana!

O que foi acordado para esta semana foi acordado no plenário. Acordamos em ouvir, num primeiro momento, diretores, antes do Roberto Jefferson. Fruto do depoimento dos empresários, acordamos em ouvir os arapongas também antes do Roberto Jefferson. Aquilo que não foi acordado no plenário, V. Exª mesmo tomou a deliberação de suprimir, que era a questão do genro do Roberto Jefferson. São essas as ponderações que quero fazer.

A questão da dúvida regimental, o que podemos ou não fazer durante o recesso, precisa ficar absolutamente definida, para que o nosso trabalho não seja questionado juridicamente, inclusive na condução, na conclusão da própria CPI. Por isso, a questão deve ser levantada efetivamente. Quanto ao nosso cronograma, quero deixar claro que todos nesta Comissão têm o interesse não só de acelerar, mas de trabalhar durante o recesso, desde que haja amparo legal, porque, se não houver amparo legal, estaremos correndo o risco de aquilo que produzirmos como prova durante o recesso não ser convalidado posteriormente.

Apenas para contribuir com os dados supervenientes, muita gente está colocando a história de “passar a pipoca da vez”, que é a história do Marcos Valério, é importante lembrarmos que o depoimento do Marcos Valério já está aprovado na Comissão, mas na lógica de que ele tem um contrato com os Correios e não na lógica do que apareceu no final de semana, tendo em vista que os saques não são dinheiro carimbado, não tem como dizer que o saque é para “a”, “b” ou “c” a priori.

Portanto, temos que ouvi-lo dentro da lógica daquilo que está estabelecido.

Sr. Presidente, gostaria que fosse estabelecido um mínimo de respeito, sem provocação, durante a fala das pessoas. É inadmissível esse tipo de provocação.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Ouvimos todos os inscritos. Pediria, por favor, silêncio a V. Exªs. A Senadora Ideli Salvatti está com a palavra.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – É desrespeitoso. Vale aqui para todos os que estão nos assistindo, transmitirmos esse clima de respeito mútuo e de foco naquilo que estamos obrigados e comprometidos a fazer.

(Intervenções fora do microfone.)

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra, a Senadora Ideli Salvatti.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Eu não disse que nenhum colega é pipoqueiro, Senador. Aliás, pipoca é excelente; adoro. Gostaria de comê-la com mais freqüência, vendo filmes, não tão lógicos, acompanhada de chá de maracujá para os que estão nervosos.

Gostaria apenas de completar, se me permitem, que esta é a CPI dos Correios. Ela está investigando o fato dos Correios. Aquilo que tiver lógica e vinculação com o que estamos investigando será feito até as últimas conseqüências.

Portanto, o Sr. Marcos Valério, que tem um contrato de publicidade com os Correios, será investigado nessa lógica e não em outra, pois a lógica que estão tentando colocar neste momento aqui não cabe, até porque temos um debate esta semana, inclusive podendo sair a CPI do Mensalão da Câmara, ou a Mista. Talvez esse seja o foco, pelo qual desejam trazer o Marcos Valério para cá, da investigação e não o que estamos fazendo.

Então, precisamos ter muita calma, manter o cronograma, trabalhar com intensidade, de acordo com o que está previsto para esta semana, com várias oitivas, com sete oitivas, e conduzir com os chazinhos necessários, sem a “pipoca” da mudança de assunto a cada momento.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Obrigado, Senadora Ideli Salvatti.

Concedo a palavra ao Deputado Onyx Lorenzoni.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, foi protocolado, agora, pela manhã, atendendo a uma necessidade regimental, o Requerimento nº 230, que deveríamos submeter à votação, para que haja continuidade do trabalho desta CPMI ao longo do recesso parlamentar.

O Regimento Comum, no art. 151, remete, ou para o Regimento do Senado, ou para o Regimento da Câmara dos Deputados. O Regimento do Senado não tem nenhuma orientação a respeito do funcionamento das CPIs no recesso parlamentar. O Regimento da Câmara, no art. 35, inciso III, diz que a Comissão poderá atuar também durante o recesso parlamentar, desde que a Comissão faça a deliberação.

Por essa razão, Sr. Presidente, amanhã será o dia de deliberação. Então, responde ao questionamento do nobre Deputado Arnaldo Faria de Sá e de outros Senadores que também se manifestaram, esse requerimento, aprovado aqui, com o referendo, por garantir segurança dos Presidentes do Senado e da Câmara, dando tranqüilidade do ponto de vista jurídico regimental para a funcionalidade da Comissão Parlamentar de Inquérito ao longo do mês de julho, problema que todos nós estamos discutindo no momento.

Feita essa colocação, gostaria de lembrar que, na quinta-feira da semana passada, o Requerimento nº 207, que foi à mão do Relator, discutido também por V. Exª, dizia da necessidade da solicitação da execução dos contratos de publicidade da SMP&B com os Correios que viessem para esta Comissão.

Quero dizer aos nobres Senadores e nobres Deputados que se formos  receber a licitação e os contratos gerais, o contratão – aquilo que é o acordado pós-licitação –, muito dificilmente vamos encontrar irregularidade, por óbvio, ninguém aqui é ingênuo. Os eventuais desvios de dinheiro público podem ocorrer exatamente na execução. Na  minha opinião, estamos diante de uma quadrilha que começa a sua operação nos Correios e  que espalhou seus tentáculos por várias estatais. Sem dúvida nenhuma, um tentáculo importante é o Sr. Marcos Valério. Para mim, de tudo que foi analisado até agora, não há nenhuma dúvida sobre isso.

Por essa razão, quero lembrar ao Sr. Presidente, ao Sr. Relator, propusemos, terça-feira passada, um requerimento que elencava as pessoas que vão ser ouvidas esta semana e nos batíamos, o Deputado ACM Neto e eu, exatamente para que tivéssemos o Marcos Valério aqui. A argumentação de V. Exª, Sr. Presidente, é de que tínhamos uma pauta que seria de acordo para essa semana, a qual estamos cumprindo, e que não deliberaríamos nenhuma outra convocação – esse foi o acordo feito semana passada, está na Ata – sem que definíssemos a data da oitiva do Sr. Marcos Valério. Na quarta-feira, como fruto das novas declaração da Srª Fernanda Karina, apresentamos um outro requerimento conjunto, no qual solicitávamos que, por ocasião da oitiva do Sr. Marcos Valério, esta comissão fizesse a primeira acareação, que para essa data viessem juntos Marcos Valério e Fernanda Karina, e uma posterior acareação.

Então, só quero recuperar essas duas discussões que tivemos aqui, na terça-feira, na quarta-feira e na quinta-feira da semana passada, em que o nobre Relator concordava com a importância do requerimento que solicita a execução dos contratos, nos Correios, da SMP&B, para requisitar, através do 228, que vai ser apreciado amanhã, que todos os contratos que a SMP&B e a DNA tenham com estatais ou com Administração Direta, como é o caso do Ministério do Trabalho e do Ministério do Esporte, seja remetida para cá a sua execução. Porque já estão aparecendo, inclusive em períodos anteriores, prestações de contas feitas a contratações da DNA, em que, supostamente, notas frias foram compradas, já com nomes inclusive dos fornecedores das notas frias. Então, não tenho dúvida nenhuma de que devemos buscar amanhã, e eu apelo ao nobre Relator, que selecione todos os requerimentos que solicita o envio da execução dos contratos, quer do ano de 2003...

Se eu tiver atrapalhando o debate paralelo, fico em silêncio, até que eu possa concluir, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MT) – V. Exª não está atrapalhando, Deputado Onyx, ao contrário, está fazendo ponderações muito equilibradas.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, desejo que o nobre Relator desse atenção à execução dos contratos da SMP&B e da DNA por conta de tudo que tem sido noticiado.

Para concluir, Sr. Presidente, quero trazer a sugestão firmada pelos nobres Deputados Gustavo Fruet, Eduardo Paes, Antonio Carlos Magalhães Neto e este Parlamentar, no sentido de que, obedecendo ao que nós discutimos na semana passada, o Requerimento 229 sugere ao Relator, uma possibilidade de agenda para próxima semana, na qual viriam Marcos Valério  e Fernanda Karina, na terça-feira, com posterior acareação entre ambos. Na quarta-feira, José Fortuna e Edgar Lange, por óbvio de tudo o que já passou por esta Comissão. E estamos requerendo, para a próxima quinta-feira, também como desdobramento das oitivas da semana passada e desta, a vinda do Sr. Delúbio Soares, requerimento esse que ainda não está aprovado. Sugerimos que seja aprovado amanhã.

Era isso, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Agora, para encerrar, a Deputada Juíza Denise Frossard com a palavra, para encaminharmos todo esse rol de sugestões, a fim de que, realmente, tenhamos efetividade no dia de hoje e nos dois próximos... Deputada Juíza Denise Frossard.

A SRa JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS – RJ) – Sr. Presidente, cumprimentando V. Exª, cumprimento todos os colegas. Já me manifestei pela maneira como V. Exª vem conduzindo os trabalhos, a sua paciência, que tem que ser própria de quem preside. Eu presidi tribunal do júri por cinco anos, então é isso mesmo que o Presidente tem de ter: essa paciência infinita.

Sr. Presidente, eu não ia me manifestar, mas, diante das dificuldades que ouvi de cada um dos colegas Parlamentares, resolvi me manifestar.

No livro Comissões Parlamentares de Inquérito no Senado Federal, cujo autor é Mauro Márcio Oliveira, consultor legislativo, aposentado, desta Casa, ele analisou que, de 1946 a 1989, Sr. Presidente, passaram por esta Casa, pelo Senado, 37 CPIs, sendo que apenas 19 chegaram ao relatório final. A última, a CPMI do Banestado, de junho de 2003, descobriu que o montante de dinheiro desviado foi de R$150 bilhões, muito acima dos R$30 bilhões inicialmente aventados. A CPMI não aprovou o relatório final. Citarei as palavras do autor: “Quando a CPI chega num ponto que vai esparramar lama para todo o lado, realmente tem que terminar em pizza” – palavras do autor.

Pois bem, Sr. Presidente, ouvi as dificuldades de todos, aqui, sobre quem se deve ouvir primeiro. É claro que abrir o foco só interessa a quem não quer apurar.

Quando pegava um processo de 40 volumes, o juiz tinha que dar uma sentença de uma folha e meia. É a lógica. Quando se abre o foco, não se chega a lugar algum.

Então, Sr. Presidente, eu gostaria de lembrar que, quando Maurício Marinho e Wascheck, e todos os depoimentos que tivemos aqui... mais do que se lê na mídia, é certo, Sr. Presidente, que existe uma ligação complicada, eu diria, entre as nomeações para os cargos de função pública, que alguns preferem chamar, eu repito aqui, de “composições políticas para a governabilidade”, e a corrupção sistêmica, que é o que se discute nesta CPMI.

Os requerimentos que já foram apreciados aqui demonstram que, com exceção do Deputado Roberto Jefferson, nosso colega, talvez estejamos na busca de ouvir os responsáveis menores pelo que acontece na máquina pública brasileira. As pessoas que aqui estão, que estão arroladas como depoentes, foram designadas para os cargos públicos mas receberam as suas designações de Parlamentares. Portanto, elas têm uma missão a cumprir. Para entender o ciclo inteiro do problema, Sr. Presidente, nós precisamos dos testemunhos daqueles que são os responsáveis pelo preenchimento das funções e dos cargos públicos. Precisamos ouvir aqueles que sentaram à mesa das negociações e, com o aval do Senhor Presidente da República ou de suas lideranças no Congresso, terminaram por inserir na máquina pública os seus correligionários ou apadrinhados. É muito grave o que estou dizendo. Precisamos desses testemunhos, para saber, primeiro, quais as premissas para as indicações; segundo – não estou “fulanizando”, Sr. Presidente –, o que foi solicitado de cada um dos indicados; terceiro, como se dá a relação dos indicados com os Partidos que os indicaram; quarto, se houve metas a cumprir; cinco, que metas são essas; seis, como e por que foram convidados; sete, como e por que foram aqueles os escolhidos e não outros.

Pelo que vimos até agora, Sr. Presidente, o corpo diretivo dos Correios esteve loteado – esse é o termo – entre PTB, PMDB e PT.

Ouviremos os ex-diretores beneficiários diretos da partilha do loteamento, mas, antes disso, entendo que seria extremamente produtivo para a busca da verdade real ouvir os responsáveis diretos pela presença deles na máquina dos Correios. Então, pelo PTB, julgo que falará o Deputado Roberto Jefferson, pelas indicações que fez como Presidente do Partido. Pelo PT, talvez seja suficiente ouvir o Sr. Sílvio Pereira, com o crachá de Secretário-Geral do Partido, ou o Sr. Delúbio, ou, quem sabe, o Presidente do Partido, Genoíno. Todos, de alguma maneira, são responsáveis pelo preenchimento das Diretorias de Tecnologia, de Infra-Estrutura e de Operações.

Falta-nos, portanto, o PMDB, que respondia pela Presidência, setor ao qual está afeto o comando de toda a empresa e, de forma direta, as áreas de propaganda, de relacionamento com as empresas de publicidade, que, ao que tudo indica, Sr. Presidente, está no núcleo da confusão, além naturalmente do setor jurídico, que inquiria aqui o Marinho, que deu curso livre aos diversos contratos, sobre os quais se levantam seriíssimas dúvidas.

Então, nada mais indicado do que convidar – e, aqui, desde já requeiro, Sr. Presidente – o Presidente Nacional do PMDB, Deputado Michel Temer, para falar sobre as composições das diretorias que couberam ao seu Partido, com a vantagem de ter sido ele o responsável pela indicação maior, qual seja a do Presidente João Henrique.

Sr. Presidente, ele poderá dizer como se formou o modelo de loteamento dos cargos dos Correios e, quem sabe, a partir daí, demonstrar como se dá o funcionamento desse sistema. Por que digo que é muito importante o depoimento do Presidente do PMDB? Porque, agora, neste exato momento, a imprensa já antecipa que novos loteamentos surgirão a partir do PMDB sob o argumento de governabilidade.

Sr. Presidente, lamento dizer, não queria intervir agora, mas o dever de quem me colocou aqui me faz intervir: o que vemos é um Presidente inepto, frágil, e aquela foto que vimos é a mesma foto dele com Roberto Jefferson.

Portanto, a minha preocupação tem relação com quem indicou. Esses com que estamos aqui, Sr. Presidente, são menores; não tem a menor importância a oitiva dessas pessoas. Quem? Quem indicou? Por que indicou? Quais a metas? É o que requeiro, Sr. Presidente.

Peço perdão pelo excesso, mas dizem os juristas que só comete excesso quem está em legítima defesa própria e de terceiros, como eu aqui me encontro.

Muito obrigado, Deputada Juíza Denise Frossard.

Acho que poderíamos encerrar já, até porque já são 11h03min. Então, eu gostaria de ponderar com V. Exªs... Por favor.

O SR. GERALDO THADEU (PPS-MG) – Sr. Presidente, gosto de ficar sempre para o final. Mas considero um fato importante que pode ser muito útil para a CPI, para seu Presidente e seu Relator. Estamos discutindo aqui muito a questão do Sr. Marcos Valério. Dá para se notar, para quem conhece o Sr. Marcos Valério, que é uma pessoa envolvente, inteligente, esperta, ex-funcionário do Banco Central, com trânsito nas esferas políticas, empresários, bancos, etc. Com todas essas características, Sr. Presidente – e outras mais –, proprietário de várias empresas de publicidade, usava de tráfico de influência através de políticos e outros meios inicialmente para captar recursos para campanhas. E depois, com o andamento de sua vida, esse empresário começou a aumentar sua influência, e é bem claro hoje que essa influência pode ter uma finalidade, inclusive, neste mensalão que está aí. Considero que as colocações do Deputado Roberto Jefferson são bem válidas, têm que ser aprofundadas realmente, e tudo que for de relacionamento do Sr. Marcos Valério tem que ser investigado e tem que ser visto. Então, acredito que não tem como separar uma coisa de outra. Eu respeito a Senadora Ideli, mas vejo que temos que aprofundar essas investigações em todas as atividades do Sr. Marcos Valério: na captação de recursos, no relacionamento com políticos, nas empresas, inicialmente para um relacionamento e depois para levar proveito próprio – é claro –, mas com a finalidade a que estamos chegando neste ponto.

Então, temos que aprofundar e ter todas as informações para que possamos... O fio da meada, realmente, é o Marcos Valério – não tenho dúvida nenhuma.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Eu queria encaminhar com V. Exªs. Primeiro, gostaria de registrar, para deixar bem claro para todos, o cumprimento da agenda desta semana. Nós, quando iniciamos os trabalhos desta Comissão, além do cumprimento da agenda da semana passada, com a aprovação dos requerimentos, fizemos uma agenda para esta semana que incluía os diretores dos Correios, o Deputado Roberto Jefferson, e tivemos duas mudanças: a primeira, como foi muito bem dito aqui, fruto da oitiva da semana passada dos empresários Wascheck e Velasco, que, em função delas, fomos levados a agendar os encarregados pela gravação na terça-feira. E assim foi feito. Fruto desse entendimento, e como não havíamos – isso é real – acordado o depoimento do Sr. Vinícius, retirei o depoimento do Sr. Vinícius na quinta-feira. Portanto, ouviremos o Deputado Roberto Jefferson – e aí eu peço à Assessoria da CPMI – é importante essa comunicação, até porque, também, o Deputado Roberto Jefferson, sendo ouvido às 9 horas da manhã, seria bastante produtivo, ele não entraria às 3 horas da tarde, como previsto, e eu gostaria de destacar que entendo as ponderações de vários parlamentares aqui no que se refere ao depoimento dos diretores. Realmente, não temos as informações necessárias, temos ainda vários contratos – praticamente a Assessoria trabalhou em cima dos contratos que foram citados pelo Sr. Marinho para que se priorizassem as atividades da CPI, mas quero pedir a compreensão de V. Exªs, até porque esta CPI tem todas as condições de reinquiri-los, que mantivéssemos amanhã, quarta-feira, o depoimento dos diretores, a despeito de todas as deficiências –que eu reconheço aqui – colocadas de uma maneira muito clara por boa parte dos Parlamentares, especialmente pelo Deputado ACM Neto.

Então, eu gostaria de manter amanhã, na quarta-feira, a oitiva dos diretores. Retiramos a oitiva do Sr. Vinícius da quinta-feira. Ficaremos só com o depoimento do Deputado Roberto Jefferson, às 9 horas. Se for necessário inquiri-los novamente – e acredito que vamos inquirir muitas pessoas e, inclusive, até acarear muitas pessoas, como disse o Deputado Onyx –, penso que esta CPI tem absoluta liberdade para chamá-los ou, então, confrontá-los com informações que os trabalhos podem indicar como contraditórias, senão informações falsas.

Já encaminhando para também ouvirmos hoje as pessoas que serão inquiridas, é importante registrar que o acordo que fizemos levava em consideração uma reanálise dos requerimentos – não só dos requerimentos que já existiam, quando começamos a CPI, como também dos novos requerimentos que viriam.

Como disse o Senador César Borges e como disseram outros, pode existir uma intenção, uma vontade ou até uma exigência, em função dos fatos, de que se antecipem algumas coisas ou não. Mas devemos ter a consciência de que a CPI, principalmente no momento em que o País vive, é um processo absolutamente dinâmico, em que os fatos vão se precipitando. As denúncias vão surgindo, a despeito de todo o esforço da Comissão Parlamentar de Inquérito de se antecipar aos fatos.

Também queria entrar em consenso com todos os Parlamentares no sentido de que, amanhã, faríamos a aprovação dos requerimentos. Dos requerimentos que deixamos, além daqueles 110, vamos ver quais os requerimentos pertinentes. Vamos analisar – e já os estamos analisando – os novos requerimentos apresentados.

Aqui, foi citada a questão de quebra de sigilo. Independentemente dessas questões regimentais, daquilo que efetivamente entendemos como necessário, é melhor quebrar o sigilo agora, para que ninguém depois questione o funcionamento da CPI em julho, eventualmente em função de questões legais, caso tenhamos algum tipo de dificuldade no futuro.

Eu gostaria de pedir a V. Exªs, em função até do comportamento que tem pautado os trabalhos da CPI, que cumpramos a agenda de hoje, que aprovemos amanhã os requerimentos e que aprovemos, nas duas primeiras semanas de julho, a nossa agenda. É muito importante, Deputado Eduardo Paes e Deputado Onyx, que hoje possamos aprovar o requerimento de encaminhamento ao Presidente do Senado do funcionamento da CPI, para que não tenhamos... Essa é uma condição sine qua non para que a gente dê continuidade aos nossos trabalhos. Quero ponderar a V. Exª porque acho que com isso tocaríamos em frente. Já há quase três semanas de trabalho profícuo, mostrando a isenção, mostrando o equilíbrio com que todos nós temos pautado as nossas atividades aqui na CPI dos Correios. Eu queria ponderar a V. Exª se é uma proposta razoável.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL – PI) – Sr. Presidente, pela ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Pela ordem, o Senador Heráclito Fortes.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL – PI) – Sr. Presidente, para tentar colaborar com o que V. Exª acabou de dizer, encaminhei, juntamente com o Senador Tuma, um requerimento solicitando a convocação, possivelmente até numa reunião reservada, por conta do sigilo dessas informações, do Presidente do Coaf.

É sabido que vazou uma relação de informações com relação a apenas um dos acusados, mas poderá haver a possibilidade de outras pessoas envolvidas nessa questão terem tido saques que o Coaf tenha detectado. Daí por que acho da maior importância que, com a maior urgência possível, convoque-se ou convide-se o Presidente do Coaf para vir aqui prestar esclarecimentos. É uma colaboração que eu queria dar a V. Exª, porque o tenho visto muito interessado em acelerar os trabalhos e desfazer o que tentaram fazer junto à opinião pública: a imagem de que esta CPMI seria “chapa branca”. É uma colaboração.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Senador Heráclito. Se todos estiverem de acordo com as ponderações, absolutamente procedentes... Quero registrar que, ontem mesmo, conversei com o Ministro Waldir Pires, reclamando do encaminhamento dos contratos, porque isso é absolutamente necessário para que tenhamos um quadro claro de tudo aquilo que acontece nos Correios.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) (?) – Sr. Presidente, e o acompanhamento pelos nossos assessores?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Nós, amanhã, faremos esse encaminhamento, aproveitando a reunião, onde aprovaremos os requerimentos e vamos definir essas questões também.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – Sr. Presidente, V. Exª disse que tem os contratos citados pelo Marinho. Eles já chegaram à CPI?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Nós estamos, Senador Alvaro Dias, fazendo um esforço. Para que V. Exª tenha uma idéia, fui ao Tribunal de Contas da União, requisitei três representantes do Tribunal de Contas da União e estamos fazendo um esforço hercúleo para obter pelo menos os contratos citados pelo Sr. Marinho, até para que, entre outros assuntos, venhamos também a conversar, a discutir e a debater sobre esses contratos citados pelo Sr. Marinho na oitiva aqui realizada na semana passada.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – O que disse o Sr. Waldir Pires, quando indagado?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Que encaminhará, nesta semana, os contratos – são mais de 400 – que a Controladoria está analisando. Iremos aguardar com absoluta ansiedade a chegada desses contratos, até porque o Deputado Eduardo Paes, mesmo morando no Rio de Janeiro, lerá, com certeza, esses contratos no final de semana, na capital daquele belo Estado.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – V. Exª concordaria quanto à necessidade (Inaudível. Fora do microfone) ...espero estar errado, tanto quanto à CGU, como também com relação à realização da audiência de amanhã. Espero estar errado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Meu caro Deputado ACM Neto, espero que V. Exª esteja errado.

Quero, agora, convidar o Sr. Joel Santos Filho.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL – PI) – Está aprovado o requerimento, Sr. Presidente?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Nós votaremos amanhã, meu caro Senador Heráclito. Já está considerado isso. Nós, inclusive, discutimos isso ontem, com o Relator.

Eu gostaria de convidar o Sr. Joel Santos Filho para prestar o seu depoimento na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Correios.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – (Inaudível. Fora do microfone.)

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Pela ordem, o Deputado Eduardo Paes.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Sr. Presidente, parece-me que os demais depoentes não estarão aqui, acompanhando, ouvindo o depoimento.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não, não estarão. Não estarão. (Pausa.)

O depoente fará seu depoimento na condição de investigado.

Passo a palavra ao Sr. Joel Santos Filho; depois passarei a palavra ao Relator e, após, aos inscritos na lista que a Mesa já detém.

Quero deixar claro: quanto a essa questão de listas, eu gostaria de pedir a paciência e a compreensão de V. Exªs. A lista, todos os dias, às 8h30min, estará disponível. Hoje, mais uma vez, tivemos dificuldade. Mas, excepcionalmente, vamos considerar as duas listas – são três nomes apenas na outra lista –, mas, daqui para frente, se não assinar a lista às 8h30min, não vale lista em lugar algum aqui do Senado. Está certo?

Com a palavra...

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Pela ordem, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Pela ordem, tem a palavra a Senadora Heloisa Helena.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Gostaria de solicitar um esclarecimento a V. Exª: como será estabelecida a lista paralela ou a original? Hoje aconteceu algo que sei não é responsabilidade dos funcionários. Eles, evidentemente, ficaram constrangidos, porque os Senadores, ao se dirigirem à sala lá embaixo, não puderam assinar. Por exemplo, eu sou a quarta inscrita nas duas listas. E isso eu quero preservar. Eu fui lá embaixo, não assinei a lista, embora tenha chegado aqui cedo. O Deputado também chegou cedo, e a lista não estava aqui. Fui lá embaixo. Como a informação era a de que nós deveríamos assinar apenas nesta sala, eu, pacientemente, retornei. Quando cheguei aqui, acabei assinando as duas listas. Então, quero preservar o meu quarto lugar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora Heloisa Helena, eu gostaria só de registrar que, a partir de amanhã - o que vale para quinta-feira também -, as listas só serão assinadas aqui, após às 8h30min. Como houve um mal-entendido, vou, de certa maneira, considerar, até porque constam três nomes na lista que foi assinada lá na Comissão. Foi um vacilo nosso. Mas, de qualquer maneira, a partir da próxima semana, já falei com o próprio Vanderlei, é a segunda vez que acontece isso aqui. Isso é inadmissível.

O SR. CARLOS ABICALIL (PT – MT) – Sr. Presidente, parece que é de propósito.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Amanhã, se não assinarem aqui, às 8h30min, não terá validade nenhuma lista que não for assinada aqui na CPMI dos Correios, que estará sobre a Mesa Diretora.

Pela ordem, tem a palavra o Deputado Carlos Abicalil.

O SR. CARLOS ABICALIL (PT – MT) – Sr. Presidente, apenas para que não pairem dúvidas reiteradas, desde a primeira reunião, tenho apontado esse problema. Como V. Exª está mencionando que é às 8h30min da manhã, todas as vezes, o encaminhamento anterior era de que seria meia hora antes do início da reunião, porque haverá reunião às 8h, às 9h, às 10h, às 15h. Então, creio que, para o entendimento de todos, para que não paire qualquer dúvida quando mudar o horário da reunião, sugeriria que V. Exª mantivesse a disposição original: meia hora antes da reunião, seja ela de manhã ou à tarde, abre-se a lista sobre esta mesa.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Absolutamente correto, Deputado Carlos Abicalil, até porque poderemos ter uma agenda variável. Então, quero fazer um consenso com V. Exªs para que, meia hora antes do início dos nossos trabalhos, a lista esteja disponível.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Sr. Presidente, eu lhe pediria também, até para manter a ordem dos trabalhos da inscrição na lista, que o funcionário verificasse aqui a chegada de cada um, porque se pode chegar às 8h25min ou até 40 minutos antes. E, aí, como proceder? Poderemos ter dez Parlamentares querendo assinar a lista ao mesmo tempo, já que ela abre exatamente trinta minutos antes do início. A ordem de chegada deveria ser mantida.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador César Borges, esse negócio é uma coisa inacreditável! É inacreditável que ainda estejamos fazendo confusão com lista de oradores!

Quero dizer o seguinte:: vai ficar um funcionário destacado, a partir das 08h30min, para coletar as assinaturas dos Parlamentares, para que não tenhamos mais esse tipo de problema. Pelo amor de Deus!

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL – PI) – Sr. Presidente, escolha um funcionário bem forte para resistir às tentações.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador, forte e truculento.

Com a palavra, o Sr. Joel Santos Filho.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – Pela ordem, Sr. Presidente. Apenas para consultar a V. Exª se o depoente, já que ele presta depoimento como testemunha, não deve assinar o termo de compromisso. Creio que seria correto a assinatura desse termo de compromisso.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT– MS) – Senador, como eu disse aqui, ele está sendo investigado.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB – PR) – Sr. Presidente, creio que nesta  CPMI ele não está sendo investigado. Ele vem como testemunha. Ele deveria, a meu ver, assinar o termo de compromisso.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT– MS) – Isso, Senador, é um fato vencido e vou dar a palavra para o Sr. Joel Santos.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Primeiramente, o meu bom dia aos Srs. Senadores.

A SRª DENISE FROSSARD (PPS – RJ) – Sr. Presidente, desculpe, o depoente poderia, inicialmente, se autoqualificar – brasileiro, casado, solteiro, o que faz na vida, a qualificação completa. Rapidamente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT- MS) – O currículo de V. Sª, que é importante também, até para ilustrar a exposição de V. Sª.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Pois não. Meu nome é Joel Santos Filho.

O SR. (orador não identificado) – Sr. Presidente, aumente o som porque ele está de propósito falando baixo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT- MS) – Gostaria que aumentassem o som, porque é muito importante esse depoimento.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Primeiramente, gostaria de dizer que é a primeira vez que venho a um lugar assim. Eu, realmente, estou muito nervoso e até peço desculpas.

O SR. (orador não identificado) – Quando o senhor gravou não estava nervoso, não?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Por favor, vamos ouvi-lo, são 11h25min. e precisamos dar seqüência ao nosso trabalho. Por favor, gostaria contar com a paciência de V. Exªs.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Realmente, estou muito nervoso, tomei até um calmantezinho que a minha mulher me receitou antes de entrar aqui. A situação para mim é atípica.

Meu nome é Joel Santos Filho. Sou registrado na OAB. Sou Bacharel em Direito. Advoguei durante muito pouco tempo e depois parti para a consultoria, porquanto fiz um curso de especialização em Marketing pela Escola Superior de Administração de Negócios, Proex, na época – chamava-se assim – em convênio com o Proex, Programa de Treinamento de Executivos.

Como falei, quando vim para Brasília, assumi um cargo de coordenação no MEC, naquela secretaria que construía os Caics, na Secretaria de Projetos Educacionais Especiais. Vim a convite de um amigo já há 30 anos. Nessa oportunidade, fiquei impedido de advogar, porquanto no exercício do cargo público. Isso foi de 1992 até 1995 – acredito, salvo engano.

Depois disso, fiz várias consultorias, mais para o lado de Curitiba. A última que me recordo, só para resumir, foi para a Secretaria de Educação do Paraná.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS – RJ) – Sr. Presidente, pela ordem. A qualificação é algo muito sucinto – fulano de tal, brasileiro, casado, solteiro, residente em tal lugar, funcionário público ou não – e muito objetivo.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Perfeito.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS – RJ) Depois o senhor começa o depoimento, senão não sei com quem estarei falando.

Obrigada, Sr. Presidente.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não sou mais funcionário público desde essa época. Sou casado, ex-casado, recentemente ex-casado, mas me dou maravilhosamente bem com a minha família, somos uma família realmente, com os meus filhos. Bom, sucintamente seria isso.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Então, o senhor poderia dar início, Sr. Joel, ao seu depoimento.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Bom, o que é que posso falar para vocês? Na realidade, quando o Arthur me falou que tinha problemas dentro dos Correios, exatamente com o Sr. Marinho, e me perguntou se eu podia efetivamente levar a cabo essa ação de gravar – porque ele disse que precisava produzir uma prova para o Sr. Osório e que o Osório só acreditaria mediante uma prova –, eu disse: “Bom, vamos ver. Eu queria conhecer o Sr. Marinho antes, Arthur, ter a minha impressão, ter a minha idéia”. Aí me dirigi até os Correios, entrei lá com o meu documento normal e fui conhecer a sala do Sr. Marinho, que era no primeiro andar. Falei com a secretária dele, que é Amparo o nome dela, e ali, na hora já, eu inventei a história. Disse: “Olha, queria falar com o Sr. Marinho. Na realidade, represento um grupo de empresas multinacionais e tínhamos interesse em entrar nos Correios, de sermos fornecedores dos Correios, queria saber se ele pode me atender, porque estou de passagem em Brasília”. Aí ela foi lá falar com ele. Ele estava lá no canto da sala, ele me olhou. Demorou um pouquinho, ele veio, me conduziu até a sala dele. Até estranhei, a porta estava aberta, falei: “O senhor não vai fechar a porta?” Ele disse: “Não, não precisa”. Aí comecei a minha dissertação, que eu tinha pensado ali, justamente. Novamente, falei para ele: “Olha, Sr. Marinho, represento um grupo de empresas multinacionais que estão se instalando no Brasil e o interesse dessa empresa, precipuamente, é efetivamente fornecer para empresas públicas. E, como tal, escolhemos os Correios, uma vez que os Correios desfrutam de um conceito quase que de cem por cento de aceitação nacional, e, então, para nós, seria de muito interesse poder fornecer. A empresa estaria disposta” – isto falei para ele já na primeira vez – “a qualquer coisa para ser fornecedora dos Correios”. E aí ele começou a falar dos Correios realmente e tal. Daí eu falei: “Olha, inclusive, o pessoal...” Porque o Arthur tinha me falado anteriormente, ele tinha me dado algumas dicas, de que ele era indicado pelo PTB, que o Presidente era o Deputado Roberto Jefferson, me deu algumas dicas de nomes de algumas diretorias só para eu poder falar alguma coisa, demonstrar que conhecia alguma coisa dos Correios. E foi o que falei: “Olha, inclusive sabemos que o senhor é indicado pelo Deputado Roberto Jefferson. Nossa empresa tem pessoal dentro dos Correios” – isso inventei na hora –, “temos consciência de como funciona. Queremos saber se é com o senhor que a gente trata efetivamente, porque fica muito difícil tratar com várias pessoas ao mesmo tempo para esse tipo de situação. O que queremos? Queremos ganhar uma licitação”. Nessa ocasião até... Bom, isso foi depois. Só concluir essa parte: “Queremos ganhar uma licitação, queremos ser fornecedores dos Correios”. Aí ele começou a falar, dizendo que efetivamente o departamento dele era o departamento nevrálgico, era o departamento que cuidava de todas essas situações, que eles faziam a coisa de uma forma tão aparentemente legal que não haveria problema nenhum. E começou a explicar algumas das formas que eles faziam. E eu lhes confesso: não prestei muita atenção, não. Eu estava muito nervoso. O meu objetivo era fazer um favor para o Arthur e tomar a primeira impressão dele nessa primeira entrevista.

Daí ele falou. Falou aproximadamente... Eu não me recordo, mas tenho a impressão que foi coisa de meia hora aproximadamente. Aí eu me despedi dele e disse: “Então está bom, voltamos a conversar oportunamente. Provavelmente eu vou ter que conversar com a minha diretoria, levar esses recados que o senhor está me dando e depois a gente volta a conversar”. Essa foi a primeira vez. Já na segunda vez – eu acho que foram quatro vezes, três ou... quatro vezes que eu fui lá –, na segunda vez eu já fui para gravar. E eu já tinha conhecido... Os senhores.... Eu preciso pedir perdão por mais uma coisa: eu tenho uma dificuldade enorme, mas muito grande, com datas. Eu tenho uma “agendazinha” dessas... como que chama? Palm, não é? Eu anoto tudo, tudo ali, até um cafezinho que eu tomo, quanto eu pago, tudo. A Polícia Federal pegou essa agenda e eu asseguro que eu não deletei absolutamente nada dela. Ela está íntegra. Então, ali tem passo a passo meu. Passo a passo mesmo, Senador. No meu computador também tem... Eles pegaram também todos os meus – como é que chama? – extrato bancário. E nos meus extratos eu também... Eu sou bem organizado com as minhas coisas, eu ponho tudo no ladinho: o que eu gasto, de quem eu recebo, para quem eu pago. Tenho tudo certinho, já de dois, três anos. Então, a minha vida está completamente aberta dentro da Polícia Federal. Completamente aberta. Vocês, se for o caso, podem pedir abertura de sigilo telefônico, bancário. Não sei se isso a gente precisa autorizar, mas eu autorizo com a maior boa vontade, até porque eu tenho tudo lá. Tudinho.

E, bom, onde é que eu estava? Ah, sim! Daí, já nessa segunda vez que o Arthur me apresentou o Jairo, no escritório dele, disse: “Olha, o Jairo é um amigo meu de confiança que já fez um serviço para a gente e que efetivamente ele tem alguns equipamentos, equipamento bom que daria para você fazer essa filmagem do Marinho”. Antes disso, convém falar isto – eu vou esquecendo, vocês desculpem essas rés que eu dou às vezes, porque me falha um pouco a memória –, mas antes disso eu falei para o Arthur, eu digo: “Arthur, eu vou gravar para você sim, porque o homem é danado. Ele nunca me viu na vida e ele já foi me falando como funcionava o esquema, como é que eles faziam de forma que aparentasse uma forma legal. Então, realmente, o meu... a impressão primeira que eu tive foi de que não é uma pessoa honesta mesmo. Então, eu faço isso para você, para te ajudar, com a maior tranqüilidade”. Até aí eu imaginava que fosse para fazer uma vez, porque é chegar lá, filmar, ligar aquele equipamento e pronto. Aí o Arthur, ainda nessa ocasião, no escritório dele, pediu ao Jairo, disse: “Olha, Jairo, isso não pode ser vazado em hipótese alguma, pelo amor de Deus! O nosso objetivo é tão-somente gravar ele, apresentar para o Osório e fazer com que ele saia dessa função, porque consiste uma pedra dentro desse esquema todo”. Isso ele falou para o Jairo.

Aí, depois, em seguida... o... Nossa! Em seguida, o... Em seguida, não, depois dessa fase o Jairo foi me explicar como é que funcionava esse dito equipamento, essa pasta, né? É uma pastinha normal, de nylon, sei lá, com zíper. Ele abriu, dentro tinha uma bateria e um dispositivozinho com uma tela. Ele me ensinou como é que funcionava. Eram três teclinhas. Você aperta a primeira, espera um pouquinho, aparece não sei o quê, aí aperta duas vezes a terceira tecla. A câmara acende. Ele me fez movimentar a pasta, mostrar na telinha que, à medida que movimentava, aparecia na câmara, então, estava ligado. Está bem.

Aí eu fui fazer a primeira gravação. Liguei para ele, porque, quando eu saí da casa do Arthur – foi no terraço da casa do Arthur, que ele me explicou –, eu falei para ele que quando eu fosse fazer a gravação, eu ia telefonar para o Marinho, marcar, eu ligaria para ele, para ele me levar a pasta. E assim foi. Ele me levou a pasta. Não me recordo exatamente o local, tive dificuldades de lembrar isso na Polícia Federal, mas, com certeza, deve estar na minha agenda também, porque, como eu falei, eu anoto tudinho.

E aí, de posse da pasta, ele me falou ainda o seguinte... Ah, sim, perdão, nessa conversa ainda, no terraço do Arthur, eu perguntei para ele: “Mas, Jairo, você trabalha com isso, só com isso há muito tempo”. Ele disse: “Não, eu já faço isso há muito tempo. Sou ex-Polícia Civil ou Polícia Militar – alguma coisa nesse sentido que ele falou – e estou acostumado a fazer, inclusive, veja esse telefone que eu tenho aqui comigo é um telefone que grava digitalmente durante cinco horas”. Eu disse: “Nossa! E funciona como telefone?” Ele disse: “Funciona como telefone normal e tem cinco horas de gravação”. Eu disse: “Bom, e essa pasta grava quanto tempo?” Ele disse: “A capacidade da bateria dela é para cinco horas também”.

Então, quando eu fui para os Correios, eu marquei com o Sr. Marinho e liguei para ele, para me levar a pasta. Aí ele me levou a pasta. Ele me instruiu que eu podia ligá-la quando saísse do carro em que eu estava – e assim eu fiz. Eu a liguei dentro do carro, só que, quando eu fui ligar essa pasta, eu abri. Isso foi na primeira ou na segunda? Acho que foi na primeira, senhores. Eu acho que foi na primeira. Bom, eu já me recordo, mas o fato relevante é que, quando eu abri a pasta, tinha um fiozinho desligado, um fiozinho vermelho. Aí eu liguei para o Jairo. Eu digo: “Jairo, tem um fio desligado aqui. Vai funcionar?”

Não, foi na segunda. Foi na segunda. Na primeira vez, eu fui, gravei. Exatamente, na primeira vez eu fui e gravei, deu... Não sei quanto tempo deu, mas não foi muito tempo. Eu estava nervoso. Ele falou basicamente as mesmas coisas que ele havia me falado, quando eu fui sem a pasta, para conhecê-lo, e entreguei para o Jairo, nessa primeira vez.

É importante eu salientar, senhores: eu nunca tomei contato com essa fita. Eu acho que fui o único, pelo jeito, que nunca tomei contato com essa fita, porque eu sempre saía dos Correios, ligava para ele, entregava a pasta, ele levava e depois dizia que ia entregar para o Arthur, para o “meu amigo”.

Então, eu estava nessa primeira vez... É, não, a primeira...

O SR. (orador não identificado.) – (Intervenção feita fora do microfone.)

O SR. JOEL SANTOS FILHO – A primeira gravação. Pois é. Então, essa não demorou muito tempo, sabe? Realmente não demorou muito tempo e, basicamente, ele falou as mesmas coisas. Eu gravei e liguei para o Jairo. Entreguei para ele. E, logo depois, ele me disse: “Olha, essa gravação não gravou”. Eu disse: “Mas, como não gravou? Eu fiz tudo direitinho como você me explicou!”. Eu ainda repeti para ele todo o procedimento: “Olha, primeiro fiz isso, fiz isso, fiz isso, apertei o botão duas vezes, movimentei a pasta, ela mostrou que estava filmando. Como não filmou?” Ele disse: “Olha, não sei. Talvez tenha até um bloqueador na sala dele, e tal”. Isso foi o que o Jairo me falou. Eu digo: “Mas eu não entendo disso, gente! Eu fiz certinho! Eu não me lembro de ter errado em nenhum momento!”. Ele disse: “É. Acho que vamos ter que fazer outra gravação”.

Aí, você está na chuva, vamos nos molhar, então, não é? Eu tinha prometido que ia fazer. “Então, tá bom; vamos fazer a segunda gravação”. Foi marcado, volto a dizer, com certeza, na minha agenda, que se encontra na Polícia Federal, tem as datas em que vim para Brasília e voltei para Curitiba. Tem tudo certinho. Para quem tem problema de data aniversário, como eu, de se lembrar, você anota-se tudo. Lembro-me de fisionomias; lembro-me quando olho alguém. Isso eu me lembro bem, não me esqueço. Mas, datas...! Realmente... Então, por essa razão, eu tomo esse cuidado: eu anoto “tudinho”.

Eu estava falando da segunda, já?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Você ia para a terceira agora. “Não deu certo, e você foi gravar de novo”.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, daí...Estava na terceira visita; segunda gravação, não é? É isso. Daí, fui novamente tentar gravar o Sr. Marinho. Foi exatamente nessa vez – segunda gravação e terceira visita – que...o mesmo procedimento. Eu liguei para ele; ele me entregou a pasta; eu aguardei – acho que isso foi após o almoço, isso; e ele me entregou pela manhã; acho que foi após o almoço que eu fui fazer essa gravação. Abri a pasta, aí é que eu vi os fiozinhos desligados. Foi nessa vez. Aí eu liguei para ele, e digo: “Jairo, tem um fiozinho que está desligado aqui”. Daí, ele me disse assim: “Então, faz o seguinte, Joel: desligue os dois”. Eu desliguei um, porque um já estava desligado. Ele disse: “Agora, pegue o vermelho e ligue em tal contato”. Não me recordo, sinceramente qual, mas eu liguei direitinho, como ele falou – ou no de cima, ou no de baixo –, mas eu liguei, como ele falou. “E pegue o outro e ligue em tal contato”. Acho que era o preto no de baixo e o vermelho no de cima. Acho que era isso. Daí, ele disse: “Agora, aperte o botão, aperte novamente o botão”. Aquele procedimento que ele já havia...

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, peço a palavra, pela ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Concedo a palavra, pela ordem, ao Deputado Onyx Lorenzoni.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, acumulei, como muitos Parlamentares, alguma experiência em oitivas de CPI.

Solicito a V. Exª que determine um prazo para exposição dos fatos relevantes, a fim de nos poupar da explicitação de se o fiozinho é vermelho, se o fiozinho é branco, se apertou o botão ou não apertou o botão, Sr. Presidente! Senão, penso ser um desrespeito para com todos os Parlamentares presentes.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Sr. Joel, V. Sª tem quinze minutos...

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHAES NETO (PFL – BA) – Sr. Presidente, desde que possamos ouvir todos os fatos relevantes. Haverá outros depoimentos, cujos depoentes terão muito a acrescentar e em que não se poderá limitar o tempo do depoente em quinze ou vinte minutos.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Em função do que foi ponderado, Sr. Joel, aproveitando a presença de V. Sª, quanto à questão da cor do fio: se é vermelho ou preto, se liga em cima ou embaixo, isso não vem ao caso. O importante é o senhor se ater aos fatos que, efetivamente, são motivos das denúncias apresentadas com relação ao Sr. Marinho e todas as conseqüências dessas denúncias.

Por favor, peço a V. Sª objetividade, até porque, temos, hoje, uma agenda bastante extensa.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Pois não. Desculpe, não é minha intenção desrespeitar ninguém não, senhores. Eu só estou relatando isso, do fio vermelho e fio preto, porque o Sr. Jairo declarou. Eu só tomei conhecimento dos outros depoimentos ontem, e ele declarou que tinha sido ele que observou esse aspecto dos fios desligados, e não foi. Então, eu achei que era relevante colocar esse tipo de situação. Por isso é que estou explicando dos fios.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Sr. Joel, na seqüência, vamos em frente, por favor.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Pois não; aí foi feita essa segunda gravação, novamente eu entreguei para ele e, dias depois, ele disse que também não tinha sido gravado. Eu disse: “Mas gente, foi gravado. Como é que não foi gravado?” E tal, tal, aí ficou aquela coisa. Aí resolveram que ia fazer a terceira gravação. Eu disse: “Não vou fazer a terceira gravação, o homem não tem mais o que falar. Ele já falou a mesma coisa três vezes que eu fui lá. Como é que eu vou fazer mais uma gravação, gente? Eu, sinceramente, não...” Aí, uns dias depois, o Jairo disse assim: “Ah não, eu consegui localizar a gravação perdida”. Não sei como é que ele conseguiu localizar a gravação, eu não entendo desses equipamentos. Daí o Arthur me disse que a fita tinha ficado inócua, que o que ele falou muito pouco o incriminaria. Eu digo: “Mas pelo que eu ouvi ele falar...”, quer dizer, na realidade eu não prestei muita atenção no que ele falou, porque você fica ligado para pegar aqueles ganchos para fazer com que a pessoa desenvolva o assunto. Mas, até onde eu lembro, pelo que eu vi, eram relevantes.

Ele falou de todo o procedimento licitatório, como é que fazia, como é que dividiam as coisas, que ele contatava todos os fornecedores. Eu não entendo muito de licitação, mas ele falou que contatava todos os fornecedores antes, que isso era ajustado. Poxa, eu acho que isso é relevante, mas de qualquer maneira me disseram que era inócua a fita e que, se eu pudesse fazer novamente, eu digo: “Olha, gente, eu vou fazer pela última vez essa fita, eu estou cansado já”.

Aí eu fui, para resumir, para a última gravação. Só que aí teve um interregno de tempo entre essa gravação anterior e a última, em que eu vim para Curitiba e eu havia dito para o Arthur: “Arthur, talvez seja melhor pegar mais alguém, porque, como é que eu vou chegar lá para o homem e fazer ele falar a mesma coisa, tudo de novo, sem um fato novo, sem um motivo, sem uma motivação?”. Aí eu falei: “Tenho um amigo meu em Curitiba que entende um pouco de informática” e, como ele na realidade falou quase todas as vezes em informática, até numa das vezes me entregou um edital – edital não, era um documento sobre uma licitação que ainda iria haver nos Correios e versava sobre informática, eu digo: “Eu vou pegar o João Carlos, vou conversar com ele e ver se ele topa vir junto para cá”. Em Curitiba, eu falei com o João, que era meu companheiro de clube, e disse: “João, eu estou indo a Brasília fazer um serviço lá nos Correios, você não quer ir junto comigo para me ajudar? Porque talvez a pessoa que eu vou conversar  traga o assessor dele, que é da área de informática, e talvez precise conversar com ele, enfim, eu não entendo dessa área, você entende, para você fica melhor discutir sobre isso, talvez até tenha que sair da sala para discutir sobre isso e tal”.

O João disse: “Olha, Joel, nesse dia que você quer que eu vá, eu tenho uma aula para dar – alguma coisa assim – e vai me render perto de mil reais. Você me paga isso, e eu vou. Eu disse: Não, eu posso ver. Daí, liguei para o Arthur e disse: o João vai ter uma despesa para vir; é possível cobrir? Ele disse: “Não, é possível”. Aí, nós viemos juntos, e, isso, inclusive, lembrei depois, porque, no meu depoimento da Polícia Federal, eu estava bem nervoso, não lembrava realmente se tinha vindo junto com ele ou separado dele, se fui pegá-lo no aeroporto. Mas nós viemos juntos, ele se dirigiu ao hotel, e acho que foi à tarde mesmo. Nós chegamos pela manhã e, à tarde mesmo, fomos ao Correio, e eu falei com ele umas duas horas antes. Eu disse: “João, o que vou fazer, na realidade, é o seguinte: vou gravar o cara; você vai ver, não se assuste, como não me assustei, porque ele nunca te viu e vai começar a falar, vai começar a te mostrar coisas, vai apontar coisas dentro do Correio que são ilicitudes. Então, não se assuste. Precisamos gravar ele, para mostrar para o diretor dele que ele realmente é um funcionário não correto, etc e tal. E lá foi o João.

É duro fazer isso com alguém. Aí, fomos lá para gravar antes, logicamente. Até, nessa primeira gravação, entreguei um cartão meu para eles, posso até deixar aqui um exemplo do cartão depois. Nessa segunda, não. Nessa segunda, a gente teve mais tempo. Eu engendrei o nome de uma empresa de nome Alcom, que tinha alguma coisa a ver com informática.com. Achei que ficava bom. O nome que eu já tinha usado na primeira vez era o de J. Goldman, por uma razão qualquer: J, porque era Joel, e Goldman, porque me veio à cabeça. O meu sobrenome Santos Filho não dá muita respeitabilidade. Um nome também para o João Carlos, e, nessa última gravação, o Jairo tinha se comprometido a ir junto, como tesoureiro dessa suposta firma. Então, mandei fazer também o cartãozinho da Alcom para nós três. Estava marcado, inicialmente, para as 4 horas, e, deu bem perto de 4 horas, eu ligava para o Jairo e nada, ligava para ele e nada. Daí, liguei para o Marinho, acho que foi do hotel em que o João Carlos estava, do Pathernon. Liguei para ele e disse: Marinho, um dos nossos diretores está em outra reunião, está impossibilitado de vir. Dá para marcar um outro horário? Ele remarcou para mais tarde. Foi passando o tempo, eu ligando para o Jairo e nada, aí vi que ia ficar em cima de novo, liguei novamente para ele e disse: Olha, ele ainda não se livrou, dá para a gente procrastinar isso um pouco mais adiante? O Marinho remarcou novamente. Num desses telefonemas para o Marinho... Porque o Arthur tinha me adiantado já R$5 mil para pagar o Mancuso. Num desses telefonemas, eu achei que ele não... ele marcou para ir lá, mas eu falei para ele: Olha, inclusive, conversei com um dos nossos diretores financeiros, o nosso tesoureiro que se encontra aqui também, no sentido de sugerir a você, se quiser, que a gente pode fazer um adiantamento de R$15 mil, só que, neste momento, podemos, no máximo, conseguir R$3 mil, que eu levaria aí para você nesta vez, para a gente poder conversar, e vai junto o diretor, que está de viagem amanhã para a Alemanha. Eu inventei essa história. Mas aquilo me veio na hora, dos R$3 mil. O Arthur já tinha me adiantado os R$5 mil. Eu digo bom, então... E o Arthur já tinha dito que ele era louco por dinheiro. Então, daí, veio a idéia de levar esse dinheiro para ele, porque, com certeza, ele iria me receber e falar tudo novamente.

Olha, senhores, dessa última vez, fui proposto a gravar mesmo, porque tinha que ser a última. Pus a pasta, entramos no Correio também com a minha identidade normal. Sinceramente, nunca achei que estava fazendo nada errado com relação a isso. Nunca imaginei que fosse resultar nisso tudo.

Eu pus a pasta no braço da cadeira, pus o meu braço em cima e fiquei segurando aquilo firme o tempo todo. Foram quase duas horas de gravação. E digo agora que ele fale tudo.

O João iniciou a conversa, já que seria um dos diretores, apresentando a empresa do mesmo jeito, deixando ela grande, dizendo inclusive que a empresa estava comprando a IBM na Europa, etc e tal. Ele abriu o olho e daí perguntou qual era o espectro da empresa. Eu disse: “Olha, ela trabalha na área de informática, mas o espectro é enorme: uniformes, praticamente quase todos os itens”. Quando eu falei uniformes, ele disse: “Nossa, uniformes me interessam sobremaneira. Nós temos muita compra de uniformes. São não sei quantos mil carteiros, são não sei quantos mil isso, não sei quantos mil aquilo”. E começou a descrever.

Ele começou a falar para o João Carlos novamente todo o envolvimento: quem comandava as ações ali dentro era o Deputado Roberto Jefferson; que ele era um – não empregado o que ele falou –, mas que servia ao Partido etc e tal, assim como o Osório. Em uma das vezes, ele falou inclusive que o Osório era um “roda presa”, que quem decidia tudo era ele; não nessa última vez – é que eu fui lembrando. E começou essa dissertação dele do mesmo jeito, acusando percentuais, quanto ficava em baixa, quanto ia para cima. Se fosse licitação de materiais, se não me falha a memória, eram 3%; se fosse licitação de serviço, tinha de ser mais alto, porque tinha consultoria no meio, que isso, que aquilo. Que todos os diretores resolviam em colegiado, mas, na realidade, havia uma conversa entre eles sobre esses acertos; que eu podia ficar tranqüilo e que, na realidade, tudo se resolvia com ele. Nós frisamos mais uma vez ainda: “Mas, Marinho, é importante para a gente, para a nossa empresa saber se efetivamente é só com você que a gente trata, porque, claro, fica muito mais fácil, até para fazer os pagamentos que será preciso fazer. O nosso interesse, como eu lhe falei, é única e exclusivamente sermos fornecedores dos Correios. Agora, nós temos que entrar na primeira licitação que houver; nós temos que entrar”. E ele continuou descrevendo os processos todos. Então, nessa última fita, terminou de gravar. Até houve um fato que posso reputar como meio engraçado no final. O João Carlos estava tão atônito com o que ele tinha dito, e eu sentia que ele me olhava volta e meia, na medida em que o Marinho foi descrevendo as ações todas; ele ficava me olhando. Depois, num determinado momento, o João se calou. Ele ficou tão assustado... Ora, ele estava com um cartão da Alcom, uma empresa que não existia; ele estava com um nome que não era dele. Ele ficou realmente assustado, que, ao final dessa dissertação do Marinho, ele disse: “Olha, o senhor me desculpe, mas dava para o senhor me devolver o cartão? Não é por nada não, mas dava para o senhor me devolver o cartão?” Assim como ele pôs o dinheiro no bolso, ele pegou o cartão do João e deu de volta, na maior.

Dali, praticamente acabou a nossa... Foram quase duas horas. Nós saímos dos Correios, eu acho que eram oito horas. Deve estar registrado lá o horário que nós saímos; com certeza está registrado, porque nós entramos com o nosso nome e, então, deve haver esse registro lá. Na realidade, foi isso. Não sei se posso falar resumidamente, mas os fatos foram esses. A minha participação foi tão-somente essa. Depois disso, eu entreguei essa fita para o Jairo no hotel. Eu liguei para ele logo em seguida que eu saí de lá, eram oito, oito e pouquinho, e ele disse que nos encontraria no Hotel Parthenon...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, já deram os quinze minutos.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Ele já está concluindo, meu caro Deputado Arnaldo Faria de Sá.

O SR. LEONEL PAVAN (PSDB – SC) – Ele vai começar a falar agora? (Pausa.)

É bom prorrogar o tempo, pois ele vai contar o que queremos ouvir.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT – PE) – Sr. Presidente, não se pode ser rígido, até porque outros falaram mais tempo também.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Até por solicitação do Deputado Antonio Carlos Magalhães Neto, que fundamentou, inclusive, os argumentos em fatos relevantes, se for necessário, ele fala. Evidentemente, ele tem consciência do número de inquiridores e do que ainda temos pela frente em termos de agenda.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Para concluir, na realidade, ele marcou para nos encontrar nesse hotel, onde entregamos a pasta a ele. Ele abriu e mostrou que havia sido gravado. Eu realmente não queria mais saber de gravar coisa nenhuma. Então, eu queria saber se efetivamente tinha sido gravado.

Ele demorou para chegar – foi às dez horas ou dez e meia a hora em que ele chegou ao hotel – e foi embora. Depois disso, só fui saber dessa fita por meio da imprensa, para minha surpresa, porque me garantiram que jamais isso vazaria.

Pode-se concluir assim?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Certo, Sr. Joel.

Concedo a palavra ao Relator, Deputado Osmar Serraglio.

Registro, novamente, que há 27 Parlamentares inscritos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, antes de inquirir o nosso convidado como depoente, farei um esclarecimento, porque, eventualmente, algumas perguntas que eu vier a formular poderão aparentar-se despropositadas, tendo em vista que se já aventou, inicialmente, que estaríamos concentrando a nossa investigação no aspecto da “arapongagem”. Mas, na verdade, há várias vertentes sobre as quais há interesse, segundo os atores desse cenário, que sejam esclarecidas.

Existe uma vertente que indica no sentido de que haveria, eventualmente, o serviço de inteligência oficial trabalhando nesse intuito, nessa operação. É uma das hipóteses levantadas.

Há também a vertente do Deputado Roberto Jefferson, que diz que teria sido algo preparado para desestabilizá-lo e desestruturá-lo como Presidente de um Partido que teria indicado funcionários nos Correios.

Há a versão do Sr. Maurício Marinho, que se disse induzido àquela conversa e não teve, no fim, resistência suficiente para não ser ilaqueado na sua boa-fé pela forma como estava sendo questionado, na seqüência das formulações que lhe foram feitas naquela gravação.

Existe, ainda, a possibilidade de discussões internas de diretorias que, eventualmente, estariam procurando desarticular esquemas que poderia, na hipótese, haver nos Correios.

Desse modo, às vezes, alguns detalhes em que insistiremos poderão ter uma imbricação, uma ligação, uma vinculação à frente que possa interessar à CPMI.

Quando V. Sª esteve, na primeira vez – e valho-me, para que V. Sª tenha a informação da fonte, ou do que falou aqui ou na Polícia Federal –, o Sr. Maurício Marinho lhe fez uma afirmação de que “quem comandava as coisas” – isto está entre aspas no depoimento – “nos Correios era Roberto Jefferson, o Deputado Roberto Jefferson”. Ele lhe traduziu o que significavam “essas coisas”? Enfim, no diálogo, falou-se mais do que esta mera referência de que “quem comandava as coisas era Roberto Jefferson?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sr. Relator, até onde eu lembro, ele falou que quem comandava as coisas era o Deputado Roberto Jefferson e que eles se reuniam para avaliar esse tipo de coisa uma vez a cada mês. Ele falou que havia essa reunião entre os integrantes do partido uma vez por mês. Até onde eu lembro foi isso que ele relatou.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Nessa relação que havia falava-se eventualmente em participação em dinheiro ou era uma prestação de contas de ordem partidária?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ele falou que, entre outras coisas, também se tratava de prestação de contas, porque tinha ficado muita conta do partido para pagar. Esse tipo de coisa assim.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele era útil internamente para a arrecadação de recursos?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Isso eu não sei lhe...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele não fez referência a isso?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Se fez, eu não me recordo. Deve conter na fita, mas, realmente, eu não me recordo. Como eu lhe falei, eu ficava prestando atenção em nomes para ver se ele continuava a dissertar. Na forma como era feito eu não... Eu não conheço nada dos Correios. Se o senhor ver, a minha vida toda, quantas vezes eu entrei nos Correios, vai verificar que foram só essas vezes.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª disse que já na primeira vez que teve contato com Maurício Marinho ele lhe abriu as informações internas – aqui no depoimento consta – “do esquema”. Que esquema ele lhe explicou, e aí vamos por etapa, da primeira vez, no primeiro encontro?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ele falou do esquema de licitação, da forma como era feito. Ele falou que o esquema lá funcionava assim: na realidade, tinham vários diretores indicados por alguns partidos e que todos eles atuavam em consonância, quando decidiam em colegiado, porque havia essa concordância. O que eu entendi do que ele falou é que qualquer coisa que ele decidisse ali, no âmbito da diretoria dele, uma vez proposta para cima, para o colegiado, passaria, desde que houvesse interesse. Esse foi o meu entendimento.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Mas ele lhe esclareceu como era feito o esquema para se ganhar a licitação? Se o trabalho era feito antes da elaboração do edital, no edital, ou eventualmente os fornecedores teriam a possibilidade de recuperar a proposta quando da execução?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, o que eu lembro que ele falou é que o trabalho era sempre feito antes da elaboração do edital. Eram tomados todos os cuidados antes, de contatar os fornecedores, de contatar fornecedores para dar cobertura, de falar com os fornecedores; enfim, de revestir de toda a legalidade os atos que efetivamente eles fariam.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele lhe deu algum exemplo de algum encontro com fornecedores para elaboração de edital?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, senhor.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Não fez referência?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, da minha lembrança, não...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Em nenhum dos encontros?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ele falou numa empresa, num dos encontros, que foi a Novadata. Ele relatou até, acho que na fita, como é que a Novadata tinha ganho a licitação, ou como é que eles tinham feito para a Novadata ganhar essa licitação. Isso é o que eu lembro, né?.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele não fez referência, em determinada oportunidade, a um encontro que, pouco antes, tinha tido com fornecedores?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não, que eu possa lembrar, não.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª também fez referência aqui, hoje, que, num encontro, já lhe entregou um documento que se reportava a uma licitação que ainda seria realizada. Que licitação era essa? Pelo menos diga qual era o ramo.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu acho que era da área de informática, porque daí é que suscitou essa conversa toda de informática, que eu falei que... Porque eu tinha falado que a empresa que a gente representava equipamentos de informática, mas o espectro era enorme. Então, ele tirou da mesa dele exatamente esse documento, que era sobre a área da informática, e começou-se a conversar exatamente em cima disso. Ele falou em impressoras, ele falou em um monte de coisas. Essa não é a minha área, informática. Eu ficava escutando e tentando estabelecer alguma ligação.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)  – Essa área de informática é muito ampla. Não lembra algum detalhe sobre em quem incidiria essa licitação? Algo mais próximo? Chegou a ver em algum documento eventualmente o que estava sendo pretendido?

O SR. JOEL SANTOS FILHO  – Olha, com toda a franqueza do meu coração, Relator, eu não cheguei nem a ler; tanto que isso ficou na minha casa, e a Polícia Federal deve ter pego porque eu guardei tudo lá. E quando foram até em casa revistar tudo, eles pegaram esse documento também.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)  – V. S.ª afirma que trabalha para uma empresa de combustíveis? Que consultoria presta?

O SR. JOEL SANTOS FILHO  – Uma das empresas. É uma empresa distribuidora de combustíveis, é uma empresa pequena. Presto consultoria a essa empresa há uns sete meses aproximadamente. Eles queriam montar uma filial aqui em Brasília. Então eu vinha para ver um escritório para eles, para ver um contador, para contratar uma secretária. O escritório, eu contatei um amigo meu que se chama Rogério Torres, que tem um escritório e divide as despesas desse escritório. Como eles iriam se instalar inibidamente aqui, queiram ver também uma base secundária para funcionamento de uma nova distribuidora que eles iam montar de nome Monvale. Mas essa é simplesmente uma consultoria. Então, lógico,...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)  – Mesmo aqui em Brasília atuou em nome dessa empresa?

O SR. JOEL SANTOS FILHO  – Sim, sim, sim. O diretor mesmo veio várias vezes comigo para cá e trabalhamos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)  – Quando V. S.ª abordou, inicialmente, para captar a confiança de Maurício Marinho, fez referência a que para a empresa seria muito importante que ele fosse uma pessoa muito relacionada com o meio político?

O SR. JOEL SANTOS FILHO  – Eu fiz referência que, para a empresa, seria muito importante que fosse ele a pessoa centro e convergência de todas as negociações. Isso eu deixei bem claro para ele. Que para nós era interessante tratar apenas com uma pessoa, porque senão ia ficar um negócio dissociado. Você trata com ele, trata com o diretor, trata com o Deputado. Eu falei isto para ele: “Eu queria saber, Sr. Marinho...” – junto com o João Carlos – “...se efetivamente seria só com o senhor que a gente trata”. Ele reiterou e  disse: “Não, é só comigo”. Eu até fiz menção como seria no caso de haver pagamentos, como é que seriam os pagamentos. Ele me explicou. Eu perguntei: “Mas como é que você faz esses pagamentos em dólar, em banco, nisso, naquilo”. Tentando explorar mais o que ele havia falado, e ele foi explicando logo como é que isso era feito. Até ele falou que o lugar mais seguro para se conversar isso era dentro da sala dele mesmo, porque senão, se fosse em restaurante, poderia ser gravado, qualquer coisa assim. Que ali era o local mais seguro.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)  – O lugar mais seguro era na sala dele para conversar sobre isso?

O SR. JOEL SANTOS FILHO  – Dentro dos Correios. Disse que tratava todos os assuntos ali porque ele não confiava em outro tipo de lugar.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)  – Nesses diversos encontros, comentaram alguma coisa relacionada à consultoria dele, Maurício Marinho?

O SR. JOEL SANTOS FILHO  – Não, a não ser com relação a essa conversa efetivamente da licitação. Era essa a consultoria. Quando falei para ele nos três mil, até falei que a gente sugeria esse valor de quinze mil inicialmente e que eu levaria três mil para despesas que ele eventualmente pudesse ter para conseguir essas informações para a gente. Se ele entendeu isso como consultoria, mas acho que foi só nesse momento. Mas consultoria, expressamente dita, não.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)  – No esquema que foi referido nas conversas, falou-se sobre o que isso significaria, o que custaria para os fornecedores? A facilitação, hipótese da sua empresa que queria, a todo custo, participar, ser fornecedor dos Correios.

O SR. JOEL SANTOS FILHO  – Sim.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)  – Se isso fosse permitido e viabilizado através do Mauricio Marinho, que ganharia... qual o benefício que teria o funcionário em assim facilitando?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não se chegou a tratar disso, Sr. Relator. A conversa ficou restrita a este valor de R$15 mil. Seriam pagos R$3 mil, em algumas parcelas, até completar esses R$15 mil, e o resto efetivamente se trataria depois, na conseqüência das conversas que porventura fosse haver adiante. Mas não se chegou a tratar não.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Comentaram a propósito de porcentagens que seriam de alguma forma atribuídas a alguém, em virtude de ter vencido as licitações – pelo menos isso consta da gravação. Se fossem serviços, se fossem obras...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Isso, isso eu lembro bem. Isso me marcou bem, na realidade, quando ele falou que, se fossem materiais – não é verdade? –, seriam acho que 3% ou 4%, donde ficaria, parte disso, 1% para o pessoal de baixo, que ele falou ainda; e o resto subiria, entendendo-se que era – eu entendi – para rateio entre os diretores. E se fosse consultoria, que seria maior o valor... consultoria não, se fossem serviços, o valor seria maior, “porque o senhor entende – ele falou – tem consultoria no meio, então os valores são diferentes, são mais altos”. Nesse ponto é que ele falou em consultoria.  

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele fez referência a quem seria o operador, quem receberia esse dinheiro relativo a esse contrato?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sempre ele.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele que receberia e faria a partilha?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Exatamente. Que ele seria o centro das negociações e, dali, a partir dele é que se desenvolveria a negociação. Mas aí tão-somente por conta dele. Quer dizer, a negociação toda, na realidade, se daria através da pessoa do Sr. Maurício Marinho, nessa simulação que foi proposta aí.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª também afirma, na Polícia Federal, que, segundo Maurício Marinho, um dos que mais serviam de agente entre as empresas e os Correios seria o genro do Deputado Roberto Jefferson. Lembra de alguma coisa disso? 

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Lembro. Fiquei sabendo que o Deputado Roberto Jefferson tinha genro e tinha filho exatamente nessa entrevista com ele. Eu me lembro que, em determinada etapa... E ele falou isso na última gravação e na penúltima gravação. Ele repetiu isso.

O SR. (orador não identificado) – Está muito baixo, Sr. Presidente.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu lembro que ele... Como é que ele fez alusão? Ele falou que tratava diretamente com um genro do Deputado Roberto Jefferson sobre os assuntos do partido e que, às vezes, com o filho também ele tinha contato. Que tinha ido já aos Correios, enfim.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª faz referência que teria recebido diversos favores do Arthur. Poderia esclarecer o que significaria isso?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, favores. Na realidade, favores de amigo. O Arthur é meu amigo, bom amigo, excelente amigo, na realidade. Já o conheço há bastante tempo. E, lógico, passei situações difíceis na minha vida.

Quando saí da secretaria, voltei para Curitiba, fiquei uns dois anos e meio, três anos aqui e, quando voltei para Curitiba, tinha que praticamente começar tudo de novo. O senhor sabe, depois que o senhor sai de um cargo público, ninguém mais lhe conhece. Perde-se o interesse. E voltei para Curitiba para recomeçar, na realidade. Então, comecei atrás de consultorias, comecei até a tentar advogar novamente, enfim. E o Arthur, por algumas vezes...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª alguma vez, anteriormente a isso, prestou algum serviço a ele quase que no mesmo sentido de investigação em algum lugar?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim. Ele me pediu, uma ocasião, para ver sobre uma licitação em São Paulo, que estava ocorrendo sobre uniformes escolares, e era compra de um milhão de uniformes escolares em São Paulo, e ele me falou que tinha vontade de participar com alguns clientes nessa licitação, alguns representados, alguma coisa assim, e me mandou uma farta documentação. Ele disse: “Olha, Joel, está havendo problema nessa licitação aí. Vê o que você consegue fazer para ou travar ou possibilitar que a gente entre”. Eu disse: “Mas não entendo muito disso, Arthur”. Ele disse: “Não, vou te mandar o material porque inclusive teve uma publicação num jornal em São Paulo dizendo quem iam ser os ganhadores dessa licitação, antes de haver esse julgamento. Vou te mandar a cópia disso também”.

Aí ele me mandou uma cópia. Realmente era um anúncio de jornal onde dizia quem iam ser os ganhadores de uma licitação que ocorreu semanas depois, alguma coisa assim. Então, lógico, mostrava claramente que havia alguma ilicitude. Como é que você vai saber antecipadamente quem vai ganhar uma licitação? E me mandou uma documentação também dessas empresas, que eram a Du Pont, Rhodia, Alpargatas – que eu lembre, essas três. Ele anunciou mais uma ou duas que iam participar também. Mandou-me a documentação de que essas mesmas empresas haviam participado no GDF, numa licitação de uniformes também, em tecido de poliamida na confecção dos uniformes – e aí já é um pouco mais técnico, que não entendo bem, mas vou procurar explicar –, mostrando, em alguns comparativos, que havia tido superfaturamento aqui no GDF com essas empresas.

Bem, não entendo muito disso, até porque, com licitação, a única vez que eu tive contato com licitação foi na CPS em que o Secretário pediu para eu integrar uma comissão de licitação juntamente com várias pessoas que ele nomeou, porque estava tendo problemas nessa comissão de licitação face a uma delação que houve – que eu até confundi, quando falei que eu conhecia o Arthur por conta dessa delação. Não foi o Arthur que delatou. Quem delatou foi uma pessoa que mandou uma fita para lá para o Abdala na época – Abdala era o Diretor de Operações e eu era o Diretor-Adjunto.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Do MEC?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Da CPS, da Secretaria. É do MEC. E mandaram uma fita anônima para lá e depois se descobriu que era um senhor de nome Razeira que mandou essa fita. Digo isso porque eu tinha na minha cabeça que quem tinha delatado isso tinha sido o Arthur, em razão da nossa amizade. Só explicando. Fui me informar. Quando ouvi o depoimento dele aqui junto a vocês, bateu-me a dúvida, fui falar com o Abdala, que foi meu diretor, mora em Curitiba. Eu disse: “Abdala, como foi esse negócio dessa licitação do Arnaldo”...

O SR. (orador não identificado) – Por favor, Presidente, peça para elevar o som um pouco.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Fale um pouquinho mais alto, por gentileza.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Eu sugeriria, Sr. Joel, falar um pouco mais alto. A equipe técnica vai aumentar o som também, mas é muito importante que V. Sª fale mais alto, fale firme, até para deixar bem claro. Isso é importante inclusive para V. Sª. 

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não tenho dúvida disso.

O SR. (orador não identificado) – Sr. Presidente, eu queria solicitar a V. Exª que também pedisse ao auditório para fazer mais silêncio. Está havendo muito ruído, o depoente já fala muito baixo, não ouvimos nada.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS)– Eu pediria apenas, porque o depoente fala num tom de voz um pouco mais baixo, a V. Exªs que tivéssemos um pouco de paciência para ouvir esse depoimento importante para a CPMI.

O SR. LEONEL PAVAN (PSDB – SC) – Pela ordem, Sr. Presidente.

Sr. Presidente, é claro que V. Exª está pedindo seguidamente que o depoente pudesse falar mais alto. Mas é bom dizer ao depoente que agora a porca vai torcer o rabo, é diferente porque as perguntas que serão feitas certamente não serão em cima daquelas coisinhas que V. Sª explicou. Dá impressão de um carro afogado, que não sai do lugar. Está com medo de alguma coisa. É importante que V. Sª seja bem claro, para que todos possamos ouvir. De repente, não há necessidade de lhe fazer perguntas. Por isso, falar objetivamente, firme, para que possamos ter esclarecimentos, senão vamos ficar aqui até acabar o dia e será cansativo para ti e para todos nós. Não será bom certamente para você, se você não for bem claro nas suas explicações, até porque você colocou que tem 30 anos de marketing. Veja se usa um pouco de sua experiência e seja mais claro com aqueles que aqui estão.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador Pavan, com certeza, vamos continuar com a inquirição do Relator, Deputado Osmar Serraglio, para depois passar a palavra aos próximos parlamentares.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Em que momento V. Sª conheceu Molina?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Molina, eu conheci numa churrascada na casa do Arthur, acho que foi no ano passado. E depois só vim tomar contato com ele no Rio de Janeiro, quando o Arthur marcou para ir até lá e conversarmos. Isso foi a umas três, quatro semanas atrás – não chega quatro semanas atrás.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Atrás em relação à gravação ou atrás agora?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, atrás agora. Foi bem recente.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Após a gravação?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, bem após a gravação. Ele me ligou e disse que queria desculpar-se comigo, me olhar no olho e explicar o que estava acontecendo em razão de tudo isso.

Eu disse: olha, Arthur, eu estou assustado com tudo isso que você mesmo havia me falado que não iria vazar, etc e tal.

Bom, fui até o Rio de Janeiro, encontrei com o Arthur e o Sr. Molina. Foi quando eu soube que o Molina tinha tido esse episodio com o Dr. Roberto Jefferson. Eu já tinha lido na imprensa antes. Não entendi a ligação dele com o tal de (inaudível).

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR)Qual o episódio com Roberto Jefferson?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Esse episódio de ele ir avisar ao Deputado Roberto Jefferson que ia haver problema no Correio, porque isso foi o Molina que me relatou lá no Rio de Janeiro. E eu realmente não estava entendendo, porque quando eu fui embora para cá, Sr. Relator, perdão, para Curitiba, não tomei mais contato mesmo. Só fui tomar contato quando houve a divulgação pela imprensa e começou aquela situação constrangedora, de você dizer: poxa, será que... Eu sabia que iam me localizar, porque eu deixei todos os meus documentos. Eles só podiam me localizar. Jamais eu ia esperar que fossem me prender. Isso para mim foi muito difícil.

Mas as duas vezes em que eu encontrei com o Molina – foi essa a pergunta, me desculpe a divagação – foram essas. Eu conheci ele nessa churrascada, no ano passado, com certeza.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) Qual era a participação do Molina nessa conversa, nessa formação desse grupo? Qual é a razão de ser de o Molina estar por dentro da sua operação?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não tenho a menor idéia. Realmente, não tenho a menor idéia, porque a minha participação concluiu-se no momento em que eu entreguei aquela pasta para o Jairo, no Hotel Parthenon. Depois dali...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Mas mesmo na reunião no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, que já é um local distante do Arthur...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O que ele me falou e explicou foi que, efetivamente, tinha ido ao Deputado Roberto Jefferson. O Arthur também me explicou que, como o Molina conhecia o Deputado Roberto Jefferson, achou melhor que ele fosse o porta-voz para avisar que estavam citando o nome dele na determinada fita, que isso podia comprometê-lo. Enfim, foi isso que eles me contaram. Agora, além disso...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Nunca percebeu a razão de ser da presença do Molina no grupo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, o Molina é amigo do Arthur, sempre foi amigo dele. Ele sempre me falou do Molina e tal.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Quando V. Sª foi detido pela Polícia Federal, o Molina lhe pediu que não noticiasse o fato do encontro no Hotel Glória. É verdadeiro isso?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É verdadeiro.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Não lhe disse qual a razão que queria ocultar esse encontro?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Porque ele estava receoso com  os efeitos disso, então que era melhor que não citasse, porque podiam interpretar de uma forma diferente.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Mesmo depois dessa solicitação dele, não conseguiu esclarecimentos sobre o porquê da pretensão dele de que isso não viesse à tona, esse encontro.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não. Inclusive, ele me falou, na oportunidade, em outra ocasião: “Olha, Joel, seria bom se você, para se comunicar com o Arthur, daqui para a frente, você mudasse os seus chips”. Eu disse: “Mas, gente, eu não devo nada. Eu não vou mudar nada. Eu quero levar uma vida normal. A hora que eles vierem para mim e disserem para eu ir depor, eu vou. Eu vou e conto o que houve, porque a minha participação foi essa”. Não vou... Tanto, que eu não mudei número de telefone nenhum, não peguei chip novo nenhum. É tudo no meu nome. Eu não tomei atitude nenhuma, e nem haveria por que fazer isso, né?

Eu fiquei aguardando, sim, que fossem me intimar para depor. Lógico: você fica com muito medo, com muito receio, porque você vê todo aquele alarde nos jornais, em televisão, aquela coisa toda. O tamanho que isso tomou assusta qualquer um.

Quando a Polícia Federal chegou à minha casa... Primeiro, foram na casa da minha esposa – nós, como eu falei, somos recém-separados. Estou morando junto com meu irmão, alugamos uma casa juntos. A Polícia Federal chegou na casa da minha esposa, a minha esposa me ligou e disse: “Joel, tem uns homens de preto aqui. Acho que são da Receita Federal”. Eu falei: “Não, Denise, eu acho que eu já sei o que é. Você dá o endereço para eles, que eles vêm aqui, que eu acho que eles querem me intimar para depor nesse negócio aí, dos Correios”.

Aí ela deu o meu endereço certinho, e eles foram até lá. Chegaram em cinco, fortemente armados, todos de preto mesmo, muito educados – quanto a isso, principalmente um delegado de nome Eduardo foi educadíssimo. Me deram voz de prisão, disseram: “O senhor está preso. O senhor permite que reviste a sua casa?” Disse: “Bom, podem revistar”.

Pegaram meus vizinhos todos, levaram para dentro da minha casa para servir de testemunhas e revistaram tudo, reviraram tudo, pegaram micro, arquivos, tudo o que eu tinha ali de documentos. E pegaram tudo mesmo, porque eu nunca escondi nada, nem deletei nada, não há razão para isso. Eles vão ver que não há razão para isso.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Quando V. Sª foi, a primeira vez... No primeiro contato, antes de iniciar a seqüência de gravações, naquele primeiro momento, quem sabia dessa operação? Com que pessoas havia conversado que participavam, de alguma forma, para contribuir e auxiliar que essa operação fosse bem-sucedida?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Olha, que eu tenha conhecimento, o Arthur sabia e o Jairo já sabia que ia ser feita essa gravação. Eu pedi a ele para ir aos Correios essa primeira vez, para conhecer o Maurício Marinho e não errar. Vai que você vai filmar uma pessoa que, realmente, não... Filmar é um negócio sério; você vai produzir prova em cima de uma pessoa que, de repente, não é bem aquilo. A impressão difere de pessoa para pessoa. Eu tinha que tomar a minha impressão.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Àquela altura, não havia ainda conversado com o Molina?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, eu só fui conversar com ele...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Conhece o Fortuna?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Nunca ouvi falar no Fortuna e não entendi até agora também a participação dele.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Uma dessas pessoas que participaram da gravação tinha um sinal no rosto?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sinal?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Uma mancha no rosto?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Na minha lembrança, não.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Na gravação, na última, na mais importante delas?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Não. O Marinho se reportou ao João Carlos como tendo um sinal, uma verrugazinha. O João Carlos estava de cavanhaque, na época ele estava usando cavanhaque, é calvo. O Marinho não lembrou se ele era calvo e...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Como era o nome dessa pessoa que V. Sª está descrevendo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O João Carlos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – João Carlos?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É, que estava junto comigo na última gravação. Éramos só nós dois.

Ah, sim, eu lembrei! Dá para falar?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Pode e deve.

 

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

 

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu lembrei um aspecto. Nessa última gravação, inclusive, teve uma hora em que a secretária entrou na sala. Nós vimos pelo vidro – ali da salinha dele que tem uns vidros –, nós vimos um vulto chegando. A secretária entrou na sala dele e disse: “O Sr. Pereira” – ou Pedreira – “está aí e quer falar com o senhor”. É Pedreira, não é?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – A testemunha é V. Sª.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, eu não me lembro do nome. Mas, na fita, eu acho que consta isso. Acho que é Pedreira.

Aí, o Marinho comentou: “Não, é um que foi candidato à Presidência da República, e que havia uns problemas aí. Mas ele que trate lá em cima isso, porque eu não vou ter tempo para ele agora”. Falou isso para a secretária.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Eu só pediria, Sr. Joel, que o senhor falasse mais alto. O senhor está falando tão baixo que não estão conseguindo gravar lá.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Nossa! Desculpe.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Então, por favor, eu insisto, até para não ser indelicado com o senhor.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, eu entendi.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Mas eu pediria ao senhor que aumentasse o tom de voz porque já está havendo problemas na gravação lá.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Aliás, aqui, próximo tanto quanto estou, quase não consigo ouvi-lo.

O SR.JOEL SANTOS FILHO – Me perdoem.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ainda em relação a essas pessoas, essa a que V. Sª fez referência chegou a adentrar a sala?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Não chegou a adentrar a sala. Está bom assim?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Agora está bom.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não chegou a adentrar a sala, não senhor. Ele bravateou em cima. Ele disse que ela fosse tratar dos assuntos dela nos andares de cima, que ele conhecia o Presidente e os Diretores. Então, que ele não tinha tempo para ele agora. Foi isso o que ele falou na hora em que a pessoa se fez anunciar.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª tem uma empresa que se chama AMS?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. O nome da minha empresa é Mix Pesquisa e Consultoria, e encontra-se desativada já há uns dois anos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Eu queria insistir nesse detalhe das pessoas. Estavam V. Sª, o João... V. Sª estava de bigode, de barba?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Como eu me encontro.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – O João e o Jairo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, o Jairo não foi. Era para ele ter ido. Eu havia dito para ele: “Jairo, você vai junto com a gente para fazer a filmagem. Eu não sei lidar direito com isso”. O meu medo, Relator, era de que não gravasse, mais uma vez. Então, eu tinha pedido ao Jairo que fosse junto.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – É que há uma pessoa descrita que não coincide com essas pessoas que estão...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Fomos só nós dois. Isso, com certeza absoluta. Só eu, o Sr. João Carlos e o Sr. Marinho, logicamente, que estávamos presentes na sala.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª não tem conhecimentos de informática?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Muito básico, não é?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – O Maurício Marinho não fez referência que era muito... que a área de informática não competia a ele? Que há uma diretoria específica e um quadro diferenciado para...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ele fez referência que não era da diretoria dele, mas que tudo se resolvia ali. Inclusive a área de informática.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Como V. Sª soube que o Deputado Roberto Jefferson esteve em um casamento no Paraná?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu li em um jornal, a Gazeta do Povo. No Paraná, foi noticiado antes de eu vir para Brasília. Eu sabia que vinha falar com o Sr.Maurício Marinho. E, lógico, lá foi noticiado que ele esteve em um casamento do filho ou da filha do Deputado Martinez, alguma coisa assim. Como ele já havia me falado no nome do Deputado Roberto Jefferson, eu guardei isso para ter como assunto, como motivo de assunto, como motivação de assunto, alguma coisa assim.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – O Arthur fez referência, alguma vez, do porque da animosidade dele em relação ao Maurício Marinho?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Que ele não conseguia... Fez, fez referência de que ele não conseguia entrar mais nos Correios em função dessa blindagem que ele fez, porque tinha empresas que ele estava favorecendo, e ele não estava conseguindo entrar dentro do Correio, que o Marinho era corrupto, que ele já tinha ouvido nos corredores que não era pessoa correta etc, etc.

Eu disse: “Joel...”

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Quem não era pessoa correta?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O Marinho. Eu disse: “Joel, é fundamental constituir essa prova para o Osório. O Osório só acredita vendo. Ele não vai acreditar se alguém for lá falar para ele. Tem que ser vendo”. Ele disse: “Está bom, então...”

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – O Arthur é fornecedor do quê? A empresa dele...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Até onde eu sei, de botas, uniformes, que ele fornece. Para os Correios, parece que ele já forneceu cofres, forneceu envelope de Sedex, não é? Mas os produtos com que ele trabalha basicamente são esses.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele lhe falou que estava sendo perseguido pelo Maurício Marinho em razão de uma multa imposta em fornecimento de cofres?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não. Isso não foi aludido. Está dando para escutar ou voltei a falar baixo?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – V. Sª tem que continuar falando alto. Isso é importante para a gravação e para todos ouvirem.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª conhece alguém da Diretora da Siemens?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Da onde?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Da Siemens.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Siemens? Não.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Nessa operação, não teve nenhum contato com ninguém dessa empresa?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Nunca tive.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Quando faz referência a um espanhol, quem seria esse espanhol? Conhece alguém?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu faço referência?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – É.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O senhor teria condições de me lembrar porque eu não lembro.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Em seguida, veremos. Conhece o Sr. João Carlos Mancuso, que esteve com V. Sª?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, conheço.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele não tem uma pinta no rosto?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Que eu lembre, não.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª está suspenso na OAB?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, de forma alguma. Eu deixei de pagar a OAB, mas punição disciplinar não tenho nenhuma. Eu explico: quando parei de advogar e vim para Brasília, a OAB realizou algumas votações. Não votei, e gerou multa etc. Eu tinha meu escritório de advocacia, que funcionava em Curitiba, mas, pelo exercício do cargo público, não estava mais advogando. Então, eu falei para o João, que trabalhava comigo lá – não é o João Mancuso, é o João Habib: “João, providencie para mim, por favor, a interrupção do pagamento da anuidade da OAB, uma vez que estou por aqui e não sei por quanto tempo ficarei em Brasília. Teve essa votação, já teve multa e eu me esqueci de votar. Então, provavelmente, terão outras”. Ele disse: “Ah, está bom! Eu providencio”. E o tempo passou. Quando voltei para Curitiba, essa multa já se encontrava bem alta porque ele havia se esquecido de providenciar isso. O valor da época, quando saí da secretaria, como não saí com dinheiro da secretaria, não pude pagar. Isso foi crescendo. Mas punição disciplinar nunca tive. Nunca tive.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – A interlocução que V. Sª teve foi a seguinte: estavam conversando sobre a possibilidade de o Maurício Marinho abrir espaços dentro dos Correios. V. Sª questiona: “Através de você, a gente consegue?” Marinho: “Eu posso abrir, eu abro em várias empresas. Tem Presidente da Eletronorte, Diretor Nacional de lá, tem Infraero, tem Petrobras, tem Eletrobras, tem umas oito empresas”. Sua pergunta: “Como é sua ação na Paraíba?” E daí não se ouve muito. Continua o Marinho: “É muito grande”.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Na Paraíba?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – E aí vem V. Sª: “Agora, conversemos sobre o espanhol”.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Na Paraíba, Sr. Relator? Perguntei como era a ação dele na Paraíba?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – É. Na gravação, está identificado como sendo o senhor ou talvez o seu colega. Foi abordado isso? Ele responde: “É ele, o Salmeron, foi Vice-Presidente dos Correios”.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Realmente não me lembro nem de eu ter falado e nem do meu colega. Eu lembro que ele falou no Salmeron, que, se a gente precisasse de alguma ajuda, inclusive na Eletronorte, para esse espectro de produtos que a gente tinha, ele tinha um amigo deles, que era do Partido também, que é o Salmeron, que ele poderia me apresentar e me conduzir a ele. Isso eu tenho certeza de que ele me falou. Mas me desculpe, sinceramente, eu não me recordo de ter enunciado Paraíba ou...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Sr. Presidente, por hora, esta Relatoria se dá por satisfeita, até porque poderá intervir a qualquer momento, oportunizando os ilustres Parlamentares, que aguardaram até agora para formular seus questionamentos. Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra, o Deputado Eduardo Paes.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, vou tentar falar um pouco mais alto para que mudemos um pouco o tom dos depoimentos aqui.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Confesso-lhe, Deputado Eduardo Paes, que esse tom de voz deu uma revigorada aqui em toda a Comissão, inclusive na Mesa Diretora.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Agradeço a V. Exª.

Sr. Presidente, antes de argüir o depoente, eu acho que esta Comissão tem que pensar e refletir seriamente sobre a questão da condição dos depoentes, investigado ou testemunha, porque está claro aqui para todos os atores que assistem ao depoimento de V. Sª, Dr. Joel Santos Filho, que se V. Sª tivesse aqui prestado juramento estaria entrando em confusões um pouco maiores do que as confusões em que já se meteu.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Mas eu posso prestar juramento, independentemente da Comissão.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Dr. Joel, o senhor aguarde que eu lhe farei as indagações que eu achar pertinente. Eu estou me dirigindo ao Presidente da Comissão.

O que se nota nos depoimentos que V. Sª prestou na Polícia Federal e a partir também do depoimento do Dr. Arthur Wascheck nesta Comissão é que ambos têm uma relação muito próxima. Essa relação, me parece, vem desde 1992, quando o Dr. Wascheck lhe conhece, apresentando uma denúncia e um certame licitatório no Ministério da Educação e V. Sª é, então, a pessoa com quem ele mantém contato. Estou correto?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O senhor pode formular a pergunta.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Não consegui ouvi-lo, Dr. Joel! O senhor fale alto para que possamos ouvi-lo.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O senhor pode continuar a formular a pergunta. Não, não está correto!

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Perdão!

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não está correto.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – O senhor conheceu o Dr. Wascheck quando?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu conheci o Arthur em 92, o senhor está correto, quando tomei o exercício de cargo na Secretaria de Projetos Educacionais Especiais. Eu relatei, na Polícia Federal, em Curitiba, eu estava, inclusive, muito assustado, sem advogado, pra lhe falar bem a verdade, eu não lembro nem o que eu depus.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Eu vou lembrar o que V. Sª disse na Polícia Federal.

Que conhece o Arthur Wascheck Neto, desde o ano de 92, quando era coordenador do MEC. Conheceu o Arthur, pois o mesmo participava de licitações na Secretaria de Projetos Educacionais Especiais. Que Arthur, nessa época, delatou um esquema de propina na Cepesp, tendo sido encarregado, V. Sª, pelo Secretário Cleto de Assis, para integrar a Comissão de Licitação. Que foi orientado a observar a atuação do Presidente da Comissão de Licitação, que estava sob suspeita, de nome Arnaldo. Isso foi o que V. Sª declarou na Polícia Federal. Foi nesse momento, já numa denúncia que o Sr. Wascheck apresentava, que V. Sª conheceu o Dr. Wascheck.

V. Sª confirma o depoimento aqui à Polícia Federal? V. Sª também esqueceu disso?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não, não confirmo.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Por que V. Sª disse isso na Polícia Federal, então?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Porque, na realidade, eu não lembrei, exatamente. Eu fui checar isso com o Abdala, se realmente tinha sido o Arthur que fez essa delação. O Abdala me confirmou que não foi.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – V. Sª é muito próximo ao Dr. Arthur Wascheck. Está correto?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu sou.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Há muito tempo. Em geral, as pessoas, quando são próximas, se lembram quando se conheceram. V. Sª está me dizendo que o momento que o senhor relata que conheceu o Dr. Arthur Wascheck que o senhor diz na Polícia Federal não é esse mesmo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu gostaria de explicar. Eu estava lhe explicando.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Aguardo a sua explicação.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Muito obrigado. Então, em 92, conheci. Houve uma delação, houve uma pessoa que delatou o esquema de corrupção que estava tendo naquela comissão de licitação. Essa pessoa com que eu me informei agora, após o depoimento do Arthur, que me deu a dúvida: será que foi o Arthur mesmo que delatou? Na realidade, eu conheci o Arthur e simpatizei com ele porque, após esse aspecto da fita que entregaram anonimamente na Secretaria, em que o Secretário na época era Cleto de Assis, nomeou eu e mais quatro ou cinco pessoas para integrar temporariamente uma comissão de licitação, onde ele afastou esse Arnaldo e o Bira, que era outra pessoa envolvida. A Secretaria, naquele tempo, não vinha muito dinheiro para pagar a conta dos fornecedores, entende? Então, quando vinha, era aquela corrida. Todos os fornecedores corriam, porque tinha empresa que estava quebrando. Eles falavam, etc e tal.

O pagamento. Não era eu o ordenador do pagamento. Eu nunca fiz pagamentos. O meu diretor enviava para o Financeiro. Então, nós pedimos, na época, eu e o Abdala... O Abdala reuniu todos os fornecedores, inclusive o Arthur, e disse: “Olha, vocês apresentem os processos de vocês que estão em ordem, com a documentação em ordem, etc e tal, para que a gente efetive alguns pagamentos”. E a maior parte desses fornecedores apresentou processos faltando documentos etc e tal. O Arthur e mais uns três ou quatro fornecedores apresentaram a documentação toda em ordem. Então, para eles foi efetivado o pagamento. Volto a dizer: não fui eu que efetivei o pagamento, porque eu não tinha essa condição. E daí para a frente é que nós firmamos amizade.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) Perfeito. Só para lhe afirmar, o Dr. Arthur confirmou aqui, em seu depoimento, que havia apresentado essa denúncia. Mas não é só. Depois de alguns anos, em 2002, salvo engano meu, o senhor diz que mais uma vez o senhor se envolve – parece que V. Sª já respondeu isso aqui hoje –, o senhor mais uma vez vai atender e fazer um serviço especial para o seu amigo Arthur Wascheck em relação a uma licitação em São Paulo. Eu vou lhe poupar de responder. V Sª confirmou com a cabeça que participou de um problema que também o Sr. Arthur tinha em uma licitação em São Paulo. E aí, mais uma vez, pelo menos esse é o terceiro caso conhecido, o Dr. Arthur, quando tem um problema com licitações da Empresa de Correios e Telégrafos, mais uma vez, convoca V. Sª.

Queria indagar-lhe se V. Sª é uma espécie de “homem do jogo sujo” para o Dr. Wascheck. Quando ele tem problema de licitações, quando ele desconfia da idoneidade de certas licitações... Que tipo de papel? Porque é muita coincidência, em três ocasiões diferentes, por depoimento de V. Sª – pode ser que tenha havido outras situações –, V. Sª tem um amigo em apuros com licitações do setor público e pelo menos em uma delas vai fazer gravações clandestinas. Que tipo de ligação é essa que o senhor mantém com o Dr. Arthur Wascheck?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – A relação é puramente de amizade. Ele é meu amigo, realmente é meu amigo. Eu não vejo nenhum serviço sujo, Deputado, com a devida desculpa, na minha ótica de ver. O senhor tem todo o direito de achar, mas eu nunca fiz serviço sujo nenhum nem tenho a intenção de fazer. Acho que esse aspecto da gravação dos Correios foi realmente um deslize, não esperávamos que resultasse em tudo isso. Estou arrependido, porque parece que todas as vezes que... Eu aprendi a lição, realmente aprendi a lição.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) O Arthur, quando lhe chama para esse último trabalho, disse que ele tinha empresas conhecidas que estavam tendo problemas nos Correios.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu gostaria só de complementar um pouco mais esse episódio de São Paulo, se o senhor me permitir.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) Não, não é necessário para mim. Eu simplesmente relatei um depoimento de V. Sª, que V. Sª disse à Polícia Federal que teria conhecido ele em uma denúncia no Ministério de Educação, depois trabalhado com ele em uma denúncia na Prefeitura de São Paulo, e, agora, nesse caso. Isso é uma afirmação. Eu não estou lhe indagando. Eu estou fazendo uma afirmação.

Eu agora já estou lhe fazendo uma outra indagação.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Pois não.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) O Arthur disse a V. Sª, quando lhe chama para fazer a gravação do Sr. Maurício Marinho, que tinha empresas que ele conhecia que estavam com problemas com a Empresa de Correios. Ele chegou a dizer quais eram essas empresas conhecidas?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Pode repetir? Ele chegou a me dizer que tinha empresas...?

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) O Sr. Arthur, quando lhe chama para fazer a gravação do Sr. Marinho, para pegar o Sr. Marinho, ele disse para o senhor que tinha empresas que ele conhecia que estavam tendo problemas com esse cidadão, com o Sr. Marinho.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Ele chegou a lhe dizer quais empresas eram essas?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ele me falou exatamente nesses termos: “Joel, tem empresas...”

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Sr. Presidente, eu não consigo ouvir o depoente se o Plenário não ajudar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Por favor, Deputado Eduardo Paes.

Sr. Joel.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O que ele me falou exatamente foi exatamente como o senhor enunciou. “Sr. Joel, tem empresas que a gente ouve falar, tem empresas que estão causando problemas nessa área; que o Marinho está causando problemas nessa área para algumas empresas. Olha, eu tenho interesse em participar de licitações lá, mas não tá dando. Não tá dando porque ele é um entrave.”

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – O senhor disse em seu depoimento que “Arthur falou que representava empresas que estavam tendo problemas.” Ele não lhe disse quais empresas eram essas?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não, não.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Mas também, no depoimento, o senhor não afirma que ele teria feito referência a problema das empresas dele, a interesses pessoais dele. Eu leio aqui. V. Sª disse que foi ajudar um amigo.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Esse amigo, quando lhe chama, ele não afirma ou não lhe diz que estava, ele, tendo problemas. Ele disse que outras empresas estavam tendo problemas. V. Sª, portanto, estava ajudando os amigos do seu amigo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Eu entendi. Ele disse que outras empresas estavam tendo problemas, que ele estava tendo problemas também para participar das licitações do Correio. Isso ele afirmou para mim. É lógico. Se ele estava tendo problemas, eu vou socorrer o amigo.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – V. Sª afirma no seu depoimento à Polícia Federal que o Arthur não mencionou nenhum contrato específico dele nos Correios ou licitação que quisesse participar que ele estivesse tendo problemas. V. Sª só faz referência às empresas.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Isso.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Portanto, V. Sª também estava lá a pedido do Sr. Arthur, para tratar de problemas de outras empresas. O senhor, com essa relação, toda vez que o senhor vem a Brasília, o senhor afirma no seu depoimento e o próprio Dr. Arthur confirmou isso aqui, o senhor permanece, fica na casa, se hospeda na casa do Dr. Wascheck, correto?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Na maioria das vezes.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Esse tipo de relacionamento permite, nesse tipo de contato, que o senhor saiba um pouco quais são os relacionamentos pessoais que mantém o Dr. Wascheck ou o relacionamento profissional. O senhor tem notícia de figuras importantes da República que o Sr. Wascheck conheça? De contatos que ele tenha? Nunca viu ele falando com nenhum ministro, nenhum Secretário-Geral de ministério, nenhuma autoridade de primeiro escalão?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Nunca vi ele falando e nunca presenciei também na casa dele, porque, nas vezes em que eu fico na casa dele, ele tem contato com mãe, às vezes, com a irmã, com a empregada. Ele viaja muito. Agora, não por isso logicamente. A gente sempre conversa. Vamos em bar, saímos. Sempre quando venho para cá, eu venho para fazer alguma coisa diferente. Eu não sou funcionário do Arthur, eu não sou agregado da empresa dele, nem nada.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Qual é a sua relação com essa empresa Idasa? Que tipo de serviço o senhor faz para essa empresa?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – A Idasa?

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – A idasa.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – A Idasa é uma distribuidora de petróleo, que eu dei consultoria para eles?

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Que tipo de consultoria?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Já vou lhe explicar. Eu dei consultoria interna, na parte de O&M, de entrevistar os funcionários, de colocar algumas rotinas internas em andamento. E eles me pediram, por não terem conhecimento nenhum em Brasília, se eu poderia ver a possibilidade de instalar uma filial deles, que eles queriam começar a explorar o mercado de Brasília. Então, eu vim para cá várias vezes para ver o local, para contatar uma secretária, para alugar uma sala comercial, para tentar conseguir uma base secundária. Foi até feito um contratinho com a base secundária de Ceilândia.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Perfeito. O senhor disse aqui – somente para concluir, Sr. Presidente –, agora no seu depoimento que o senhor não tinha muito conhecimento de processo licitatório, que o Dr. Maurício Marinho, quando falava na fita, o senhor tinha dificuldade. O senhor é específico na área de informática, mas o senhor disse aqui que não entendia muito de processo licitatório.

O senhor já participou dessa Comissão de Licitação em 1992, ou seja, há treze anos, quando o senhor fazia parte de uma comissão de licitação; depois, assessorou de novo o Sr. Wascheck em um problema de licitação em São Paulo. Segundo o Dr. Wascheck, o senhor estaria até participando lá também do processo licitatório. E, mais uma vez, o senhor participa de uma investigação e faz mais um favor para o seu amigo em um processo licitatório.

É só para deixar claro aqui, Sr. Presidente, que, pelo próprio depoimento, Deputado Relator Osmar, do Sr. Joel Santos Filho à Polícia Federal e pelas afirmações aqui hoje, há uma contradição enorme. O Dr. Joel, pelo que parece ser, é um profundo conhecedor de procedimento licitatório e aparenta trabalhar nessas questões o tempo todo com o Dr. Arthur Wascheck. Atendendo aos interesses de quem é que nos resta descobrir, Sr. Presidente.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu posso responder?

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Não fiz nenhuma indagação.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Mas isso que o senhor fez foi uma assertiva, e não é verdade.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Perfeito, se V. Sª desejar contestar...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu gostaria.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – ... a minha assertiva, V. Sª pode contestar a minha assertiva, mas eu não fiz nenhum tipo de indagação a V. Sª.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não tenho o desejo de contestar sua assertiva porque é uma opinião sua, e opinião a gente respeita. O que eu quero dizer é o seguinte: eu não preciso de conhecimento licitatório para levar uma pasta, conduzir uma pasta e ficar lá, quase duas horas, com o braço em cima, filmando alguém, escutando o que praticamente ele falou o tempo todo...

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Mas para participar, para ser membro de uma comissão de licitação em 1992, V. Sª tinha que conhecer procedimento licitatório.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu fui membro... Você conhece alguma coisa do que você estuda na faculdade. Agora, vivência em comissão de licitação eu nunca tive, e na época...

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Mas V. Sª afirma, no seu depoimento à Polícia Federal, que, em 1992, o senhor foi convidado pelo secretário Cleto de Assis para integrar a comissão de licitação.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Junto com mais quatro pessoas que também entendiam de licitação.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Que também entendiam, como o senhor disse. O senhor também entendia de licitação.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, mas eu entendia da parte doutrinária, daquilo que você estuda na faculdade.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Sr. Presidente, o tempo todo o depoente... Por isso é que eu chamo a atenção...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – E o de São Paulo...

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – Um minuto, por favor.

Eu fiz questão aqui, Sr. Presidente, de fazer, nessa questão da licitação, um comentário da incoerência das afirmações feitas pelo depoente ao longo de todo o depoimento, o tipo adotado pelo depoente, porque é uma reflexão que nós precisamos fazer, de que forma essas figuras vão vir depor aqui, ou como indiciados ou como testemunhas. Porque não é admissível que tantas incoerências surjam no meio de um depoimento, que tantas mentiras saiam no meio de um depoimento e que nós estejamos aqui...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não minto, Deputado. Eu não estou mentindo.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB – RJ) – V. Sª, por favor, me aguarde. E que nós tenhamos que ficar aqui, enfim, como se bobos fôssemos.

Portanto, Sr. Presidente, eu encerro minha argüição aqui.

O SR. CARLOS ABICALIL (PT – MT) – Pela ordem, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra, o Deputado Carlos Abicalil.

O SR. CARLOS ABICALIL (PT – MT) – V. Exª havia feito referência, se eu não estou enganado, a 28 inscritos e inscritas. Então, para que não haja prejuízo do interesse e da vontade de todos nós, que queremos inquirir o investigado hoje, eu gostaria que, desde o início, o senhor já disciplinasse de que maneira se dará a participação do plenário, sob pena de nós termos, para aqueles que estão lá pela quinta, sexta, vigésima posição, prejuízo até do uso do tempo, em função de que isso se estenderá, evidentemente, em função da curiosidade que cada um tenha.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Correto, Deputado Carlos Abicalil. Eu queria ponderar com V. Exªs porque muita gente reclama da hora do almoço. Então, eu queria sugerir que, daqui para frente, nós cumpríssemos aquele tempo que foi dado na última reunião da nossa Comissão, a que nós destinaríamos dez minutos. A minha sugestão é que às 13 horas e 30 minutos nós suspendêssemos esta reunião para retornar às 14 horas e 30 minutos, até porque nós vamos muito longe hoje. Eu acho que seria sensato suspender por pelo menos uma e meia, para que o pessoal possa almoçar, e depois toquemos direto, até o final dos trabalhos.

Então, eu gostaria de ponderar que, a partir de agora, procurássemos cumprir esses dez minutos regulamentares, porque eu acho que é muito importante disciplinar o tempo, senão nós não sairemos do primeiro depoente nos trabalhos de hoje. Começando pelo Senador César Borges.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Pela ordem, Sr. Presidente, antes do Senador César Borges. Realmente, o trabalho vai até muito tarde, porque certamente vai ter Ordem do Dia, e, havendo Ordem do Dia, não poderemos estar nós aqui, trabalhando na Comissão.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Registrado, Senadora Heloisa Helena.

Com a palavra, por dez minutos, o Senador César Borges, ao qual eu peço a compreensão.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Obrigado, Sr. Presidente. Eu quero começar lamentando que, sempre quando chega a minha vez, V. Exª limita o tempo. Eu sei que não é nada de pessoal, é uma coincidência lamentável.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador, é a objetividade de V. Exª que me estimula a marcar esse tempo de dez minutos.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Eu sei que não é intencional, mas veja V. Exª como eu sou premiado: na última reunião, V. Exª teve que me dar o tempo no final, porque houve o relaxamento do tempo no final da reunião, e V. Exª, de forma magnânima, me deu esse tempo. Então, caso me limite agora terá que me dar o tempo posteriormente no final da reunião, Sr. Presidente.

Mas, Sr. Presidente, volto à questão de ordem, à palavra pela ordem que fiz inicialmente. Considero totalmente inócuo este tipo de oitiva que estamos tendo hoje aqui para os trabalhos desta Comissão; acho isso diversionismo. Não estamos indo para o âmago da questão. Acho que a arapongagem é uma questão ultrapassada, não diz respeito aos problemas que existem dentro dos contratos dos Correios, à utilização de recursos públicos que foram para empresas de publicidade fazerem caixa para a compra de consciência de Deputados. Estamos aqui inquirindo o Sr. Joel Santos Filho. Das duas, uma: ou ele disfarça muito bem ou ele é uma pessoa que está aqui acuada e que mal consegue articular os seus raciocínios e sua própria palavra. Essa é a realidade. Então, estamos aqui no exercício da tentativa de extrair algo, mas que dificilmente vai ser esclarecedor para o Relator ou para qualquer um de nós.

Então, fica consignado isso, Sr. Presidente.

Agora, como eu não poderia deixar de fazer, já que, pelo depoimento que foi feito na Polícia Federal, alguns questionamentos também me trouxeram dúvidas, gostaria de indagar o Sr. Joel Santos Filho. Ele afirmou aqui que, quando ele conheceu o Sr. Jairo, ele já tinha, o Sr. Jairo, feito serviços. Saberia ele dizer que serviços foram esses que o Jairo já teria feito anteriormente, que o credenciava na sua amizade com o Sr. Arthur Wascheck, para que ele pudesse fazer esse trabalho de arapongagem como está dito aqui pelas suas palavras – que o Jairo era um araponga que havia sido indicado por um amigo cujo nome não se lembra?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Até esse termo araponga, eu fiquei conhecendo pela imprensa e me chamaram várias vezes de araponga.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Mas o senhor disse aqui no seu depoimento, falou em araponga.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, sim, eu fiquei conhecendo pela imprensa esse termo de araponga.

Mas, Senador, respondendo a sua pergunta: na realidade, ele não me falou que serviços, nunca me falou. Ele me falou que já tinha feito diversos serviços nesse sentido, que já tinha experiência nisso, razão pela qual ele ia me ensinar como operar aquela pasta. Até me deu algumas dicas de como eu deveria me portar diante do Sr. Marinho nesse dia. Ele me disse que eu deveria ficar prestando atenção no que ele falava, para pegar os ganchos justamente para fazer com que ele desenvolvesse os assuntos.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Muito bem. Não tenho muita expectativa de que ele vai  esclarecer a resposta, estou fazendo por um dever de ofício as perguntas, como, acho, fez o Sr. Relator. Então, vou fazer uma outra pergunta: o Sr. Maurício Marinho disse que foi iludido na sua boa-fé. Efetivamente, seria pelo senhor e pelo senhor que o acompanhou, o Mancuso. Muito bem. Ele disse que, na verdade, estava dentro de uma tratativa para que ele fosse contratado, após a sua aposentadoria, para uma consultoria e que, por isso, ele tentou mostrar capacidade de articulação, de conhecimento e de tráfico de influências dentro dos Correios. É realmente isso? V. Sª conseguiu ou tentou fazer esse tipo de lavagem cerebral, como ele disse que foi feito? Ou ele simplesmente se abriu e foi sincero, e a impressão que passou é que ele disse a pura verdade das suas influências dentro dos contratos dos Correios?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – A impressão que ele me passou é de que ele tinha segurança absoluta do que estava falando. A impressão que ele me passou é que, efetivamente, ele conhecia o assunto ipsis litteris, ele conhecia realmente o assunto. Agora, quanto à consultoria, deve ter sido alguma divagação dele pelo interesse talvez que nós tenhamos causado com aquela conversa toda de empresa multinacional.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Não foi falado em contratação?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Em nenhum momento, em nenhum momento.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – E os R$15 mil, que está aqui no seu depoimento, dos quais foi paga a parcela dos R$3 mil que ele embolsou, era em função exatamente de quê? Por que esse pagamento?

O SR. JOEL SANTOS FILHO  Eu havia falado pelo telefone para ele que, como tinha um dos diretores da empresa, que era o Mancuso, em Brasília, que iria embora no dia seguinte, que eu havia gestionado junto a esse diretor que faria um adiantamento de R$15 mil para ele, sugerindo a ele que...

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Adiantamento para quê?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Para eventuais despesas que ele fosse ter na captação de informações e passar para a gente essas informações, para que a gente pudesse participar efetivamente, para que a gente pudesse ganhar efetivamente alguma licitação dentro dos Correios.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Quem pagou, então? Foi V. Sª quem pagou os R$3 mil?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Os R$3 mil.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – O senhor considera o Sr. Maurício Marinho uma pessoa venal, que estava dentro dos Correios plantado para fazer falcatruas?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Se eu não tivesse essa idéia, eu não teria feito as gravações.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Então, isso o senhor afirma taxativamente?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Taxativamente.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – O senhor tem no Sr. Maurício Marinho essa figura?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não faria as gravações mesmo, Senador.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Não há nenhuma dúvida sobre a inocência dele? Ele é, efetivamente, um marginal propriamente dito?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não digo marginal, mas foi a impressão que ele me passou de venal mesmo, de intencionado em fazer coisas ilícitas. Marginal eu acho pesado.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Muito bem!

A última pergunta, Sr. Presidente, o Relator, de certa forma, já se preocupou com ela. Trata-se do envolvimento do Molina na questão. O Molina, pelo que sabemos, é alguém que tem inclusive contatos dentro do Congresso Nacional, porque V. Sª cita que, depois de alguns contatos com o Molina, que o senhor já conhecia de época anterior, da própria casa do Arthur Wascheck, o senhor cita, textualmente, que “perguntou ao Molina qual o motivo do seu nome ter sido envolvido nesses fatos, tendo este respondido que foi ao gabinete do Deputado Federal Roberto Jefferson, juntamente com o assessor de um Senador, cujo nome não se recorda; que agora se lembra que o tal Senador é o Ney Suassuna; que não se recorda do nome do assessor do Senador; que Molina contou que falou para o Roberto Jefferson que iria explodir uma bomba nos Correios”.

Como é que o senhor vê, exatamente, essa ligação do Sr. Molina com o Arthur Wascheck, com V. Sª, com o Senador, para levar ao Deputado Roberto Jefferson, como se fosse um achaque ou uma chantagem, a questão da gravação da fita feita por V. Sª?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Como eu falei, Senador César Borges, a minha participação no que se refere a esse triste episódio da fita acabou no momento em que eu entreguei para o Jairo essa fita no Hotel Parthenon.

Agora, o Arthur sempre me relatou que era amigo do Molina. Eu conheci o Molina nessa churrascada na casa do Arthur. Inclusive, o Arthur não se encontrava, estava chegando de viagem naquele dia, e o pessoal estava lá, esperando ele chegar e tal. Aí o Molina chegou. Chegou e me foi apresentado como Molina, não é? “Esse é o Molina, amigo do Arthur”. Foi nessa ocasião que eu o conheci. Depois disso... Ah! ele me deu um cartão da Fundação...

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Mas ele é amigo do Arthur? Tem realmente ligação forte com o Arthur?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O Arthur sempre me falou que era amigo dele. “Não, o Molina é amigo meu”, “O Molina é muito amigo meu”, “O Molina entende de vinho”, porque o Molina isso, porque o Molina aquilo. E o Molina é uma pessoa, depois que o conheci na Polícia Federal, ele ficou junto comigo lá, é uma pessoa falante, é uma pessoa bem falante.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Nessas falas, ele, em algum momento, falou que poderia ter uma ligação direta com a Abin ou que estivesse a serviço da Abin ou da Casa Civil para realizar esse tipo de serviço de “arapongagem”?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, a história que ele sempre sustentou foi essa de que ele foi tão-somente avisar ao Deputado Roberto Jefferson que iria ocorrer esse fato dentro dos Correios e alertar o Deputado Roberto Jefferson. Essa é a história que ele sempre sustentou.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Como é que V. Sª conhecia esses detalhes de que ele procurou o Senador Ney Suassuna?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ele me contou isso no Rio de Janeiro, daí por que eu falei para ele: “Eu queria entender qual é a tua participação e a do Fortuna nisso”, porque eu não conhecia o Fortuna, nunca tinha ouvido falar até então. E ele disse: “Olha, o Fortuna, eu não conheço também, não sei como é que entrou. Agora, eu, porque o Arthur tinha me pedido para ir até o Deputado Roberto Jefferson avisá-lo disso, que isso estava acontecendo, que ia acontecer no...”.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – E V. Sª confirma que, na cela da Polícia Federal, ele lhe pediu, textualmente, que não revelasse esse diálogo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É, ele disse que estava com receio de que interpretassem de outra forma isso. Então, ele disse “Olhe, Joel, você procure não revelar esse episódio do Rio de Janeiro”. Eu disse: “Mas não tem problema nenhum, na realidade”.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Não revelasse o quê, exatamente?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O encontro que nós tivemos no Rio de Janeiro, porque esse encontro do Rio de Janeiro...

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Mas também dessa ação dele junto ao Deputado Roberto Jefferson?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Quanto a isso, não. Ele me falou sobre o encontro. Não me preveniu para falar do Roberto Jefferson. Falou-me sobre o encontro, que era preferível que eu não citasse esse encontro do Rio de Janeiro, porque podiam interpretar de forma diversa, mas eu falei porque, realmente, não vi nada de mal nesse encontro. O Arthur até se emocionou, desculpou-se comigo nesse encontro. Disse: “olha, Joel, pelo amor de Deus, desculpe-me, não era para vazar”, etc, etc e tal. Então, realmente, não vi por que omitir isso.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Sr. Presidente, acho que mantive o tempo. Tenho um crédito para o final da reunião. Agradeço muito a V. Exª.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – O crédito será considerado, meu caro Senador César Borges.

Com a palavra o Deputado ACM Neto.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Sr. Presidente, agradeço.

Sr. Relator, Srªs e Srs. Senadores, Srªs e Srs. Deputados, Sr. Joel Santos Filho, eu quase que concordaria integralmente com o protesto realizado pelo Senador César Borges no sentido de que não deveríamos estar, prioritariamente, debruçados na oitiva das pessoas que foram mais diretamente responsáveis pela realização da gravação do Sr. Maurício Marinho. Digo que concordaria quase totalmente porque, talvez, de forma pouco apercebida, pouco cuidadosa, o Sr. Joel nos fez uma revelação muito importante.

Gostaria de chamar a atenção para a revelação que fez o Sr. Joel, porque já presumíamos que o que motivou o Sr. Wascheck a determinar a gravação não foi apenas o interesse dele de delatar o Dr. Maurício Marinho ao diretor Antônio Osório. Isso nós já presumíamos, porque, se o interesse dele fosse esse, ele não precisaria fazer a gravação, não precisaria se utilizar da arapongagem. Ele poderia procurar diretamente o Sr. Antônio Osório com quem ele disse que tinha relação. Muito bem.

O Sr. Joel fez as duas primeiras gravações e as entregou ao Sr. Wascheck. E o Sr. Joel nos afirmou aqui que, na opinião dele, a gravação era satisfatória para caracterizar o Sr. Maurício Marinho como um chefe de departamento incorreto, como alguém que não honrava a administração pública, como alguém, portanto, passível de ser demitido por desvio de conduta.

O senhor disse isso aqui, que a primeira gravação era suficiente para caracterizar a conduta ilícita do Sr. Maurício Marinho.

Entregou ao Sr. Wascheck, só que o Sr. Wascheck não se deu por satisfeito. Não era suficiente, não estava bom. Aí o amigo do Sr. Joel, o Dr. Arthur Wascheck, amigo pessoal – portanto, pessoas que desfrutavam de uma relação de confiança –, solicita ao Sr. Joel que recorra a alguém da área de informática. Aqui, para mim, está a principal revelação do Sr. Joel. Ele não foi buscar o Sr. Mancuso por acaso. Ele não foi tirar o Sr. Mancuso de Curitiba por acaso. Ele foi procurar o Sr. Mancuso porque o Sr. Mancuso era entendido da área de informática, e tudo o que o Sr. Joel fez, nesse episódio, foi a pedido e por ordem do Sr. Arthur Wascheck.

Então, o Sr. Arthur Wascheck não estava satisfeito com o material que tinha, que era suficiente para incriminar o Maurício Marinho, e pediu ao amigo dele, Joel Santos Filho, que recorresse a um técnico da área de informática para, então, fazer uma gravação mais extensa, uma gravação mais completa.

Indaguei aqui, por vezes e mais vezes, ao Sr. Wascheck se ele não teria nenhum interesse na área de informática. Ele disse peremptoriamente que não, mas está agora comprovado que o interesse do Sr. Arthur Wascheck estava totalmente direcionado para a área de informática. Caso contrário, o Sr. Joel, amigo dele, não ia levar um técnico de informática, que levou mais de uma hora da gravação – do todo de 1 hora e 54 minutos – falando da área de informática e provocando questionamentos ao Sr. Maurício Marinho na área de informática. Então, eu queria que o senhor falasse a verdade, seria muito importante, é a primeira pergunta que eu lhe faço. O Sr. Arthur Wascheck revelou ao senhor ou não os interesses dele de obter informações do Sr. Maurício Marinho sobre procedimentos na área de informática dos Correios?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não especificamente. Na área de informática, não. O que ele falou para mim era do interesse dele em participar de licitações, o que estava difícil. Essa foi a explicação dele para mim.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – E por que o senhor recorreu ao Sr. Mancuso, técnico da área de informática?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Porque desde a primeira conversa com o Sr. Maurício Marinho, mesmo a primeira em que eu não fui gravá-lo, ele mesmo falou, exemplificou com a área de informática, quando ele falou na Novadata, a primeira vez que nós conversamos. Eu imaginei que ele se centralizaria aí. E quando ele me entregou documento, que também era de uma licitação que iria haver e era sobre informática, eu disse: bom, eu acho que a coisa é por aí. Quando eu pedi ao Mancuso para vir, eu pedi a ele porque, claro, ele entende de informática, ele dá aula disso, ele dá treinamento...

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Sim, por que uma pessoa que entende de informática para colaborar com o senhor?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Até porque o Marinho tinha dito que iria chamar, na próxima conversa, uma assessor dele, não me lembro o nome... Eduardo, alguma coisa assim, que era o técnico dele de informática, sabe? Aí eu disse: então, o negócio é informática.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Na opinião do senhor, qual é de fato o interesse que motivou o Sr. Wascheck a lhe pedir uma segunda gravação, sendo que a primeira, segundo opinião do senhor, era suficiente para incriminar o Sr. Maurício Marinho?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu achei que era mesmo. A primeira eu achei que era suficiente.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Muito bem. Então, por que o Sr. Wascheck lhe pediu mais uma gravação?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Primeiro, eu nunca entreguei a fita para o Arthur, sempre foi entregue para o Jairo. Eu saía da gravação, telefonava para o Jairo, ele ia buscar e para outras gravações ele ia levar a dita pasta. Porque ele é que manuseava essa fita, na realidade, e depois entregava para o Arthur. E quando ele entregou para o Arthur essa segunda fita, que anteriormente ele tinha dito até que não tinha ficado boa, eu me apavorei: “Pô, mas como que eu fui errar duas vezes? Será que apertar aqueles botõezinhos...” Nessa segunda vez, ele tinha dito que também não tinha gravado.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Não, o senhor me disse, e também falou para toda esta Comissão, que o Dr. Wascheck achou que deveria ser feita uma nova gravação. Ele não ficou satisfeito. Apesar de o senhor ter dialogado com ele...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, isso ele falou, ele falou para mim. Ele disse assim: Joel...

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Então, por que ele não ficou satisfeito? É isso que eu queria saber, o senhor não é amigo dele?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, isso ele falou para mim, como eu declarei. Ele disse assim: Joel, ficou inócua, não tem nada que incrimine o Maurício Marinho nesta gravação. Ficou inócua. Eu disse: “Não é não, eu lembro que ele falou bastante coisa. Lembro que ele falou dos diretores, eu lembro que ele falou de como eram feitas...” Porque basicamente, Deputado, o que ele falou em quase todas as conversas seguiu o mesmo rito, o que me leva a crer que era efetivamente verdade o que ele estava falando, porque ele repetiu. Tanto que a minha preocupação na última gravação foi a de fazê-lo repetir tudo de novo. Meu Deus, como eu vou fazer o cara repetir tudo de novo?

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Mas, se o senhor quisesse fazê-lo repetir tudo de novo, o senhor não teria convocado o Dr. Mancuso, seu amigo e profissional da área de informática?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu convoquei o Mancuso porque ele entende de informática, mas o objetivo...

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Então, o senhor tinha algum interesse em extrair informações do Dr. Marinho sobre a área de informática?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, era só para o caso...

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Não? E por que leva um técnico da área de informática?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Era só para o caso de o Marinho, como ele tinha falado que esse Eduardo era o entendido dele na área de informática, querer saber alguma coisa daquela nossa empresa que simulamos e tal. Eu digo: então, para não dar furo, o Mancuso vai junto porque da área de informática ele sabe responder. Eu não.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Sr. Presidente, parece-me que está claro que se formou em todo esse episódio uma verdadeira quadrilha, envolvendo uma série de agentes, agentes que têm uma capacidade de simulação enorme, porque se envolvem em todo esse episódio e chegam aqui, esquecem daquilo que fizeram, esquecem daquilo que disseram e, infelizmente, tentam comprometer as investigações. Mas isso não acontecerá, porque para mim está claro. Tudo o que aconteceu não se desenvolveu nas áreas de interesse do Sr. Arthur Wascheck: compra de uniformes, de botas, de botinhas e outras coisas mais. Nada disso. Está tudo deslocado, desviado para a Diretoria de Informática. Tudo se deu em torno disso.

E há uma figura que não foi chamada hoje, que é o Sr. Fortuna, que é representante de uma série de empresas de informática e atuou nos Correios por muito tempo, advogando os interesses de uma série de empresas de informática. O Dr. Fortuna está diretamente relacionado ao Sr. Molina, ao Sr. Wascheck e ao próprio Deputado Roberto Jefferson.

Agora, o que deixa isso tudo muito claro?

(O Sr.Presidente faz soar a campainha.)

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – Que havia uma máfia; interesses de toda parte. Começou a haver uma disputa interna entre as pessoas interessadas que motivou essa gravação. Depois, obviamente, muitas coisas fugiram do controle das pessoas que executaram a gravação. Agora está claro. Está claro. Foi uma máfia montada nos Correios para procurar beneficiar empresas que tinham interesses diretos no setor de informática. Isso ficou claro pela motivação da gravação do Sr. Arthur Wascheck, que não foi denunciar o Sr. Maurício Marinho nada; foi desviar o foco para ter informações importantes da área de informática e defender interesses comerciais.

Eu queria fazer uma última pergunta, Sr. Presidente: por que o senhor faz a seguinte questão ao Sr. Marinho: “Deixa eu perguntar uma coisa: como você está em relação à Novadata”? Qual era o interesse, portanto, eu pergunto, do Sr. Wascheck em relação à Novadata? Porque o senhor pergunta ao Dr. Maurício Marinho na fita – eu assisti à fita integralmente, certo? –, o senhor pergunta: “Deixa eu perguntar uma coisa: como você está em relação à Novadata”? Pergunta do senhor para o Sr. Maurício Marinho. Se não houvesse uma instrução do Sr. Arthur Wascheck para que o Sr. Joel fizesse essa pergunta, certamente ele não a faria, porque ali ele estava a serviço do Sr. Wascheck. Então pergunto: por que esse questionamento que o senhor fez ao Sr. Maurício Marinho? Foi ou não foi o Arthur Wascheck que o orientou a fazer esse questionamento ao Sr. Marinho? Por que a empresa Novadata foi citada? Por que não outras empresas, tendo em vista que várias empresas prestam serviços de informática aos Correios?

Assim encerro, Sr. Presidente.

O SR. JOES SANTOS FILHO – Porque o próprio Sr. Marinho, já desde a primeira conversa que eu tive com ele, ele mesmo citou a Novadata. Foi o gancho que eu peguei. Eu achei que o interesse era por ali. Achei que o caminho era por ali. Nada mais além disso.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado ACM Neto.

Para encerrar esta sessão matutina, passo a palavra para o Deputado Carlos Sampaio. V. Exª terá dez minutos, caro Deputado. Então, vamos parar. Retornaremos às 14h30min para continuar a reunião.

Com a palavra, o Deputado Carlos Sampaio.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Sr. Presidente, cumprimentando V. Exª, aproveito para cumprimentar a todos os Parlamentares presentes.

Sr. Presidente, falou-se muito de uma primeira fita e eu faria uma indagação que é fundamental para que eu prossiga nas minhas indagações: em algum momento foi requerida essa primeira fita ao Sr. Arthur Wascheck?

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Com a palavra o Relator.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Há uma passagem, quando interrogado sobre isso, que a Polícia Federal pretendia a requisição, a busca dessa fita. Mas a pessoa que detinha a fita informou que ela havia sido destruída.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – A pessoa que detinha? Quem seria, Sr. Relator?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Em seguida eu lhe passo o nome dela.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Pois não. Estou falando isso, Sr. Presidente, porque quer me parecer que a primeira gravação foi mais importante que a segunda. Na primeira gravação, não se obtiveram os elementos necessários...

(O Sr.Presidente faz soar a campainha.)

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Na primeira gravação, não se obtiveram os elementos necessários para se incriminar o Sr. Maurício Marinho, mas certamente foi nessa primeira reunião, cuja gravação extraviou-se...

Pois não, Sr. Relator?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Só para esclarecer, está no depoimento do Arthur Wascheck.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Mas eu digo assim: quem estava com a fita que ele disse que foi extraviada?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ele próprio. Ele diz que recebeu duas gravações de Jairo em tempos distintos; que descartou a primeira gravação, pois não era boa.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Esse descartar não quer dizer que ele se desfez da fita?

Eu pediria, então, à Presidência que pudesse tentar recuperá-la, porque – insisto –, se não foi aproveitável para ele, pode ser a fita mais aproveitável para esta CPMI.

Por que digo isso? Porque, até o presente momento, não entendi a relação inaugural estabelecida entre o Sr. Joel e o Sr. Maurício Marinho. A conversa que ele teve na segunda gravação foi a de quem já tinha antes adentrado nos detalhes de como seria próxima a conversa; caso contrário, ele não teria tanta intimidade, a ponto de colocar em seu depoimento – como o colocou e aqui reafirmou – que estaria indo lá para uma nova reunião e que, naquela oportunidade, levaria um agrado ao Sr. Maurício Marinho.

Disse aqui o Sr. Joel que o “contrato” estabelecido entre ele e o Sr. Joel foi de R$15 mil e que, naquele primeiro momento, levou R$3 mil. Então, a primeira pergunta que faço ao Sr. Joel é a seguinte: nesse primeiro contato que o senhor teve, quando se estabelece um preço de R$15 mil, e o senhor paga, no segundo encontro, R$3 mil – insisto na pergunta feita pelo Senador César Borges –, o senhor não compreendeu ou não é crível que ele tivesse compreendido que o senhor estava querendo dele uma consultoria, ou não?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Deixei bem claro para ele. A minha sugestão, na realidade, foi de que eu levaria esse agrado – e foi a palavra que usei, mesmo por telefone – de três mil, de um total de quinze mil, para eventuais despesas que ele fosse ter em conseguir as informações que nós, Alcom, iríamos precisar para ganhar uma licitação, qualquer que fosse, dentro daquela gama de produtos que eu havia enumerado para ele.

Na realidade, foi com esse intuito.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – O senhor coloca, na verdade, que a motivação seria o fato de que a Alcom gostaria de estar dentro. Isso no seu depoimento. Estar dentro significa, na verdade, ganhar? Significa participar? Digo isso, porque me parece que R$3 mil não seria algo aceitável como uma corrupção passiva, a ponto de justificar o fato de se ganhar uma licitação desse tamanho.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não... Veja bem, Deputado Carlos Sampaio. Como o Arthur me havia antecipado cinco mil de valor, e eu tinha que dar mil para o Mancuso e ainda custear as minhas despesas, digo: “Bom, é três mil”. Então, para não parecer muito pouco para o Dr. Maurício Marinho, o que eu faria? Digo: “Olha, é três mil, de um total de quinze mil, para que você consiga as informações para a gente.”

Quanto ao fato de a empresa Alcom participar, fui bem taxativo com ele nas conversas: “Nós queremos o Dr. Maurício, efetivamente, ganhar uma das licitações que esteja dentro do nosso espectro de produtos. Nós queremos ganhar, porque os Correios desfrutam de um conceito de quase 100% de aceitação nacional; interessa-nos essa tarja, essa marca dos Correios...”

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Isso na primeira conversa?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É. Na primeira e nas outras também foi explicado isso.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Na segunda, confesso. E aqui reitero o pedido, Sr. Presidente, da importância de se encaminhar para a perícia do Dr. Ricardo Molina – que nada tem a ver com o Molina aqui, objeto da investigação – porque muitas partes da fitas são ininteligíveis. É muito importante que tenhamos uma degravação adequada. E esse Requerimento nº 03 foi deferido. Se tivéssemos, hoje, essa degravação em mãos, já poderíamos saber o que, de fato, significavam muitos desses termos ininteligíveis.

Digo isso porque me quer parecer, Sr. Joel, com toda a sinceridade, que o senhor não participou, enquanto alguém que teria ganhos, nesse evento, nesse episódio do Maurício Marinho, mas me parece o senhor foi um instrumento. É o que me parece.

Digo isso porque, em um primeiro momento, o senhor disse que ele o contratou porque haveria ali solicitação de propina. Mais para frente, em seu depoimento, o senhor diz exatamente esta frase: “Arthur solicitou o meu trabalho e me falou que quem estava dificultando as coisas nos Correios era o Sr. Maurício Marinho”. Parece-me que a expressão “quem estaria dificultando as coisas” leva à conclusão de que eles teriam tentado algo que o Maurício Marinho estaria dificultando. O senhor pensa como eu?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, porque na oportunidade... Deixa-lhe explicar: você tem um amigo, você deve alguns favores a ele...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Se me permite, Joel, apenas para nós ficarmos bastante na objetividade da pergunta.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não foi minha impressão.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – V. Sª disse textualmente, no seu depoimento à Polícia Federal: “Ele me chamou e disse: quem estava dificultando as coisas nos Correios era o Maurício Marinho”.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, foi isso mesmo.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Isso não me parece uma frase de quem queira, de uma forma bastante nobre, mostrar ao Brasil que existe corrupção. Parece-me uma frase de quem estava querendo ingressar no sistema de licitação dos Correios e estava tento dificuldades.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim, me parece que há um interesse comercial; leva a crer que há um interesse comercial.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Então, nós chegamos à mesma conclusão: há um interesse comercial.

A segunda conclusão a que chego, colocada aqui pelo Deputado ACM Neto, é de que, de fato, esse interesse era na área de informática. E, para mim, fica bastante claro. Ao responder uma indagação do Deputado ACM Neto, sobre o porquê V. Sª teria ido buscar alguém da área de informática, V. Sª disse: “Não, foi porque ele mesmo, Maurício Marinho, me disse que, na próxima reunião, levaria um tal de Eduardo para falar de informática”.

Aí, eu lhe pergunto: se, na primeira conversa, que foi aquela que não serviu, cuja fita foi descartada, V. Sª não tivesse tocado no termo diretamente “diretoria de informática”, por que ele teria lhe dito, nessa segunda gravação que V. Sª fez – e essa foi boa –, que levaria um tal de Eduardo que entende de informática?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Veja, essa alusão à Novadata ele já fez desde a primeira vez, que inclusive não foi nem gravada...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Eu não me refiro à Novadata; eu me refiro à frase que V. Sª disse que ele lhe disse na segunda gravação. V. Sª disse que, na primeira gravação, ele lhe disse o seguinte: “Eu vou levar na próxima reunião o Eduardo, que é da área de informática”.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Que era o assessor dele...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – V. Sª afirmou isso hoje aqui?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Ele levaria para a segunda reunião? Com que propósito levaria ele para a segunda reunião o Eduardo, que é da área de informática, se, na primeira reunião, cuja gravação foi descartada, V. Sª não tivesse dito do interesse direto na área de informática?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não; na segunda gravação, ele relatou esse assunto de informática com vários exemplos. Então, eu achei que a condução dele era para a área de informática.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Vou repetir a pergunta porque talvez eu não esteja me fazendo entender.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Por favor.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – V. Sª disse ao Deputado ACM Neto, agora, que só levou alguém que era um expert em informática por sugestão do Sr. Arthur; que V. Sª só levou alguém para essa segunda reunião porque, na primeira reunião, o Sr. Maurício Marinho havia-lhe dito que levaria um técnico na área de informática, cujo nome V. Sª acha que é Eduardo. Estou certo na minha afirmação?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Por que alguém, numa primeira reunião, diz que vai levar para a segunda reunião alguém que é um expert em informática se, na primeira reunião, V. Sª não tocou no assunto específico de informática?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, mas foi tocado no assunto de informática nessa gravação...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Primeira.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – (...) em que o Jairo disse que efetivamente não tinha ficado boa, que não tinha acontecido, na realidade, essa gravação. Tocou-se no assunto de informática quando da primeira conversa com ele; tocou-se no assunto de informática...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – A que título foi essa conversa na primeira reunião? Porque ele não disse que levaria técnicos para a segunda reunião das várias diretorias. Ele disse a V. Sª que levaria um técnico de informática, chamado Eduardo, para a segunda reunião.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Para conversar com o técnico...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Então eu lhe pergunto: a que título foi conversado sobre o tema “diretoria de informática” na primeira reunião?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O título foi em função das alusões dele quanto à Novadata. Somente isso, Deputado Carlos Sampaio. Quando ele começou a exemplificar como aconteceu o negócio da Novadata... Isso ele explicou em várias reuniões, em duas ou três das vezes em que nós conversamos.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Sr. Presidente, eu não vou insistir nessa pergunta porque me parece que ele está fugindo dela.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, absolutamente. Por favor.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Sr. Joel, se V. Sª me disse que, para uma segunda reunião, ele disse que vai levar um técnico específico de informática é porque, nessa segunda reunião, V. Sª queria detalhes sobre a área de informática. Se V. Sª queria detalhes da área de informática, é porque o Sr. Arthur, minimamente, deve ter dito a V. Sª: “Me interessa mais conversar sobre esse tema, porque esse é o tema que me interessa”. Eu não estou lhe dizendo que V. Sª participou disso. Na minha opinião, V. Sª foi um instrumento disso; mas, que foi um instrumento disso, foi. É a minha conclusão.

Vou passar para uma outra pergunta. V. Sª disse que conheceu o Sr. Molina logo depois do episódio da Veja.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, eu já o conhecia antes da casa do Arthur, como eu falei, em uma churrascada que houve, em um churrasco, né, não é churrascada, à noite, que houve na casa dele.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – E, nesse dia, o senhor ficou... passou a ter com ele um contato de intimidade a ponto de conversar como amigo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, uma conversa com o Molina, uma vez apresentado, ele me perguntou o que eu fazia. À época, eu falei que trabalhava com consultoria, com técnicos da USP, não é?, que tinha feito algumas consultorias. A gente conversou, e ele disse: “Ah, eu também sou Consultor da Fundação Getúlio Vargas. A hora em que você precisar de alguma coisa, tiver algum projeto...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Já entendi. Eu digo o porquê da minha pergunta. O senhor afirmou “que Arthur estava...” – vou ler o seu depoimento –: “Que Arthur estava no Rio de Janeiro quando dessa ligação...” – quando ele ligou para o senhor depois da revista Veja –; “que Arthur lhe disse que tomasse cuidado, que estava muito preocupado com o depoente...” – com o senhor –; “que precisava falar, pessoalmente, com o depoente” – que é o senhor –; “que o depoente deveria pegar um vôo para o Rio de Janeiro, a fim de que se encontrasse pessoalmente com ele, Arthur.” Daí, o senhor conclui: “Que, na ligação feita por Arthur, Molina tomou o telefone e falou para o depoente que tomasse alguns cuidados, tais como: trocar o chip do aparelho celular por outro, em nome de terceiros, não usasse Internet, dentre várias outras precauções”.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Exatamente.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Parece-me que uma relação superficial do senhor com o Sr. Molina não se coaduna com a de alguém pegar o telefone da mão do Arthur e falar: “Olha, Joel, toma cuidado também com isso, com isso e com aquilo”.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Foi o que ele falou mesmo, na realidade.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Agora, é uma preocupação bastante exacerbada para quem sequer o conhecia minimamente.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – E, no Rio de Janeiro, novamente, ele fez as mesmas, é...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – As mesmas colocações.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – As mesmas colocações.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – O Sr. Molina, amigo íntimo do Dr. Arthur, bastante preocupado com o senhor.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É, ele, ele, ele, na realidade, me fez essas... me deu esses cuidados porque o pessoal estava investigando. Então, eu dizia...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Mas ele não queria o quê? Que o senhor sofresse alguma...?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É. O Arthur estava preocupado comigo, porque a polícia estava investigando, porque podiam pensar diferente, então...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Não, estou perguntando o seguinte: a preocupação do Molina em lhe dar tantas sugestões, tantas formas procedimentais para o senhor não ser pego, era para proteger o senhor, ou o senhor acha que era mais para proteger o Arthur, amigo pessoal dele?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, os dois, né? Eu acredito que os dois. Eu não tomei cuidado nenhum, lhe sou bem franco, porque não havia por que tomar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Carlos Sampaio, só gostaria que encaminhássemos as conclusões.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Uma última pergunta.

O senhor afirma, em seu depoimento “que Molina contou, que falou para Roberto Jefferson, de que – como foi dito aqui – iria explodir uma bomba nos Correios; que, desde que a Veja publicou a matéria relativa às gravações, Maurício Marinho recebeu cerca de três ou quatro ligações telefônicas de Arthur para tratar de assunto em questão”.

O senhor sabe, na intimidade que tinha com o Sr. Arthur, se o Sr. Molina poderia ter também esse interesse nos Correios, assim como o Sr. Arthur, ou se estava a serviço dele? Porque, pelo depoimento do Sr. Molina, ele não demonstra ter uma ligação muito forte com o Deputado Roberto Jefferson a ponto de olhar uma coisa – uma gravação – feita pelo senhor, na qual ele e outro interessado, o Arthur, tinham conhecimento; ir até o Deputado Roberto Jefferson para dizer-lhe: “Olha, vai estourar uma bomba!” O intuito disso foi preservar o Deputado Roberto Jefferson, com quem ele não tinha intimidade, ou seria realmente, talvez, uma extorsão para poder garantir benesses no processo licitatório, que estava acontecendo nos Correios?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não tenho idéia, na realidade, de qual é intenção, ou era a intenção do Sr. Molina.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Mas o senhor afirmou aqui que ele foi até ao Deputado Roberto Jefferson dizendo que iria estourar uma bomba?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É. Isso foi o que ele me contou.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Certamente, preocupado com o Deputado Roberto Jefferson...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Isso foi o que ele me contou.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) –... com quem ele sequer tinha intimidade.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O que ele relatou.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB – SP) – Estou satisfeito.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Carlos Sampaio.

Quero informar às Srªs e aos Srs. Parlamentares que, em alguns instantes, a lista de inscrição para o depoimento do Sr. Molina estará na mesa.

Vamos suspender a reunião, e às 14h30min retomaremos o depoimento do Sr. Joel.

Muito obrigado.

Está suspensa a reunião.

(Suspende-se a reunião às 13h46min.)


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Daremos continuidade à oitiva do Sr. Joel dos Santos Filho, o qual convido para retornar aqui à Mesa Diretora. Vou seguir a lista de inscritos.

Em razão das ausências verificadas, eu já vou adiantando os trabalhos. Passarei a palavra ao Deputado Federal Jamil Murad e, depois, ao Deputado Alvaro Dias, que já estão aqui presentes. O Senador Ney Suassuna está inscrito na outra lista, não é, meu caro Senador? Eu pediria ao Deputado Jamil Murad os dez minutos regulamentares em razão do número de Parlamentares inscritos para inquirir o Sr. Joel.

Com a palavra, o Deputado Jamil Murad.

O SR. JAMIL MURAD (PT – SP) – Só um instante, porque havia dois na minha frente, e eu estou pegando as minhas anotações aqui.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – V. Exª gostaria de falar depois do Deputado Alvaro Dias, Deputado Jamil Murad, ou já está preparado para fazer a inquirição?

O SR. JAMIL MURAD (PT – SP) – Você está na minha frente. Quer falar?

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Não estou, não. Aliás quase que...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – É porque chamei os que estavam presentes.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Não, eu não.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Mas V. Exª, Senadora Heloisa Helena... Eu vou chamá-la porque, na seqüência aqui, V. Exª...

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Não há outros na frente, Presidente?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não, não, nenhum Parlamentar na frente de V. Exª.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Que milagre, porque, de repente, ficaram três na minha frente. Tudo bem, eu posso começar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Então, com a palavra a Senadora Heloisa Helena, o Deputado Jamil Murad e o Deputado Alvaro Dias.

Com a palavra a Senadora Heloisa Helena. V. Exª tem dez minutos, Senadora Heloisa Helena.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Sr. Presidente, Srs. Senadores e Sr. Joel, vários outros Parlamentares tiveram a oportunidade também de fazer alguns questionamentos que também coincidem com a minha análise em relação ao que pôde ser visto tanto no depoimento de V. Sª na Polícia Federal como em relação à degravação da conversa que V. Sªs gravaram clandestinamente. A outra fita – eu até discutia no intervalo com o Relator – eu até solicito a V. Exª que a solicite aos advogados do Dr. Marinho para que a disponibilizem, até porque a própria Folha de S.Paulo já tinha feito uma divulgação tratando dessa outra fita que não é a que foi apresentada pelas revistas e a que tivemos a oportunidade de assistir. Então, espero que V. Exª possa solicitar ao advogado do Dr. Marinho a primeira fita. Não, Marinho.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – A primeira fita, Senadora?

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol - AL) – Sim, porque eles não disseram que gravaram 3 fitas.

O SR. JOEL DOS SANTOS FILHO(Fora do microfone.)

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Não, mas eles têm acesso a essa fita.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Os advogados do Sr. Marinho?

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Eles tiveram acesso a essa fita, aliás, não só eles, é por isso que é estranhíssimo quando diz que a fita sumiu, porque a Folha de S.Paulo teve acesso à fita, divulgou a fita, não apenas essa grande que todos nós tivemos a possibilidade de tomar conhecimento.

Tive o cuidado de analisar todos os depoimentos, de ver a transcrição da gravação clandestina, tudo, e também acompanhar com muita atenção os depoimentos dos dois empresários que aqui estiveram onde V. Sªs supostamente estariam prestando um serviço, que eu caracterizo como serviço sujo, eu sei que V. Sª não gosta desse termo, mas é porque eu tenho pavor desse tipo de coisa, parece sabotagem, chantagem. Eu realmente tenho pavor desse tipo de coisa. Então, esse serviço. Entretanto, toda a documentação, eu sei que outros Parlamentares já falaram sobre isso também, toda a documentação, os senhores, em nenhum momento, em nenhum momento, tratam das “mercadorias” que, supostamente, seriam fornecidas pelo Dr. Arthur, V. Sªs só tratam de tecnologia e de disputa de gangues partidárias. Isso é absolutamente claro. Eu posso... se o senhor não lembrar, eu tenho todos os pronunciamentos gravados. Todos. Os senhores ficaram o tempo todo dizendo assim: o que eu acho importante você saber – eu acho que conversava com outro – o que se identificava como Vítor é quem era o João Carlos? O que se identificava como Vítor. Aí, vocês diziam assim – dirigindo-se ao Marinho: É aqui, o canal é aqui mesmo. Já veio de dentro do partido daquele meu conhecido, você tem lá, o pessoal que nós temos já informou também. Então, o que acontece, se houver um acerto financeiro com ele? Ele distribui, acabou a dor de cabeça. E depois, ou o senhor, ou o outro diz: olha, pessoal – eu não quero chegar aqui, checar e dizer, olha, pessoal, é o seguinte: Agora, vou ter que mandar dinheiro para o partido. Quando o senhor dizia: já veio de dentro do partido daquele meu conhecido que você tem lá, quem é essa pessoa do partido que o senhor conhece ou o outro que estava com o senhor? Quando o senhor foi procurar o Sr. Marinho, o senhor falou em nome de alguém, de algum partido, de alguma pessoa ou apenas usando o estratagema que vocês disseram que chegaram lá falando de uma suposta firma, empresa multinacional ou qualquer outra coisa? E quem é essa pessoa que vocês diziam aqui que conheciam de dentro do partido, daquele meu conhecido, você tem lá, o pessoal que nós temos que já informou também? E, aí, tem uma coisa muito esquisita porque a grande maioria das vezes que tratam do Deputado Roberto Jefferson são os senhores que tratam, em todos os momentos onde o Marinho faz alguma sinalização quem complementa com a palavra Roberto Jefferson são sempre vocês. Ele, às vezes, nem está falando do Deputado Roberto Jefferson, vocês entram: até o Roberto Jefferson, se for preciso. A divisão já está definida. Depois, vocês voltam. Sempre que se fala do Deputado Roberto Jefferson ou da suposta, que eu identifico como gangues, uma briga de gangues partidárias, PT, PTB e PMDB, porque sempre fica se tratando disso, e quando se fala da possibilidade de trocar pelo PMDB, e os senhores, não sei se o senhor ou o que estava com o senhor fazendo a gravação clandestina, um dos dois fala sempre sobre isso. Melhorar em que sentido, se sair o PMDB? É bom deixar isso bem claro: os senhores sabiam muitos detalhes. Quando o senhor disse que não sabia detalhe sobre a tecnologia e o seu amigo era apenas um conhecedor, me desculpe, fica difícil de acreditar, porque vocês sabiam detalhes sobre a Novadata, detalhe sobre a Scopus, detalhe sobre a Bematech, de Curitiba, tudo, todos os procedimentos antigos e novos, de licitações antigas e de licitações em andamento, na área de tecnologia, os senhores conheciam todas. E essas não tem nada a ver com as ações comerciais do Dr. Werneck.

Outra coisa, depois os senhores voltam para o Deputado Roberto Jefferson: “Mas é o próprio?” Ele diz: “O próprio.” Aí um de vocês: “Roberto Jefferson? E vocês introduzem ou você fala direto com o genro dele? Como é que você fala?”

Depois os senhores é que ficam o tempo todo falando do Roberto Jefferson, dizendo: “E esses acertos financeiros é com o genro do Deputado Roberto Jefferson?” E volta, deixa eu objetivar um pouquinho mais essa conversa aqui, todas as vezes que tratava do PTB. Inclusive, os senhores conheciam detalhes sobre a troca que supostamente deveria haver, indo o Sr. Ezequiel, também indicado pelo PTB, para substituir o indicado pelo PT. Aí os senhores dizem que tinham quase certeza de que... Sim, ainda vou voltar para a área de licitação antes de entrar no PMDB, na indicação que os senhores perguntam, dizendo que tinham certeza de que quem ia ganhar o cargo era o PMDB.

“Para efeito dessa licitação, o que vai acontecer na área de informática? Como é que nós podemos objetivar esses acertos?” Depois, “E a Novadata?” “Veio, acertou direto com a Diretoria.” E começam a entrar em detalhe sobre a Novadata, sobre informações confidenciais, sobre os casos específicos de informática, porque a situação dentro da inflação é crítica, a atualização de peças de computadores, os insumos, enfim, é tudo muito rápido. Voltam a falar da área de informática e, num único momento em que tentam falar de uniforme, V. Sªs que retomam a área de uniformes, aí V. Sªs saem rapidamente: “Marinho, na área de informática...” Aí começam a falar da área de informática mais vezes. Aí voltam, falando de procedimentos que tinham acontecido: Itautec, Microtec, Del, falando muitas, muitas, muitas e muitas vezes.

E depois os senhores mostram um profundo conhecimento de algo que eu caracterizo – e V. Sª pode entender o contrário – de uma verdadeira gangue de partidos instalados dentro dos Correios. E a prova é que os senhores – para você ver que não era um debate comercial sobre quem ia ganhar ou se o Dr. Arthur ia ter a capinha de chuva, a bota camuflada – dizem: “Deixa eu te falar uma coisa: sabe, teve uma época que eu cheguei a pensar que o Robson ia assumir a Tecnologia. Ele está dentro do acerto do trem, não é? Do mesmo time?” Quando ele diz “é, ele é do PMDB, está fechado”, aí um de vocês responde: “Manozinho, into beleza!” Para dizer que está uma beleza.

Aí começa perguntando sobre a Paraíba. É porque está aqui. Começam a falar sobre a Paraíba, qual é a ação na Paraíba. Depois entra aquilo que o Relator iniciou e que V. Sª não completou sobre o espanhol, que os senhores estavam querendo ter conhecimentos precisos sobre os processos de licitação na Eletronorte. E aí, depois, os senhores entram perguntando também se já estava acertado com o PMDB, porque o Robson é um extra do PMDB. Está aqui.

Então, queria que V. Sª nos explicasse um pouco sobre algumas dessas. Era blefe dizer que a multinacional tinha bala na agulha para apresentar o menor preço no mercado? Que apoiaria os partidos políticos que aprovassem os seus projetos?

Outra coisa, quem passou para o senhor tantas informações da área de tecnologia, referentes a contratos antigos, a contratos novos e a processos em andamento? Quem passou para V. Sª tantas informações? Porque um dos dois tinha. Se o Sr. João Carlos foi pego quase que no meio da rua... Aliás, eu espero que ele não trabalhe oito horas por dia, porque senão vão ser mais de R$20 mil de aula de informática por mês. Então, , quem passou tantas informações, na área de tecnologia, referentes a contratos passados e a processos em andamento? O senhor tem conhecimento de outros dossiês sobre outros funcionários da Empresa de Correios e Telégrafos? O senhor já ouviu falar ou já entrou em contato com o Sr. Eduardo Medeiros, Adauto Tameirão, Edilberto Petry ou Júlio Imoto?

É isso. Responda-me a essas perguntas nessa primeira etapa, por favor, Sr. Joel.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Primeiramente, o que eu conseguir... Se V. Exª puder ir me lembrando de algumas perguntas...

No que se refere ao Robinson Koury, que a senhora citou, esse foi um nome que... Quando falei com um amigo meu, em um almoço de Rotary...

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Que amigo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – O Luiz Cecílio é um funcionário dos Correios que eu conheci no Rotary. Perguntei-lhe quem eram os diretores do Rotary Vinte e Um de Abril e quem eram os diretores dos Correios. Ele disse-me: “Tem o Fulano, tem o Sicrano, tem o Robinson, tem isso, tem aquilo”. Mas quais são as áreas deles?

Na realidade, Senadora, eu estava coligindo, coletando algumas informações, uma vez que eu não conhecia nada dos Correios. Então, é lógico, eu anotei esses nomes para poder enunciá-los na frente do Marinho, para poder criar alguma credibilidade. Eu falei do Robinson Koury, e foi aí que ele falou em resposta: “Não, não vai ser o Robinson. Vai ser o Ezequiel, indicado por Fulano, etc., etc. e tal”. Essa foi a citação do Robinson Koury. Eu não o conheço. Realmente, eu não o conheço. Aliás, eu não conheço nenhum dos diretores do Correio.

Com relação ao Deputado Roberto Jefferson, fiz várias citações que a senhora mencionou. Realmente, eu as fiz. Eu as fiz em função de que, se o objetivo era coletar prova material da atuação do Sr. Maurício Marinho ali, onde ele dizia, veementemente, que era com ele o esquema, que era ele que comandava, eu fui explorando o que me era possível explorar. Ele havia falado já no Roberto Jefferson, e eu explorei isso as vezes que pude explorar.

Quanto ao espanhol que a senhora falou, esse realmente eu não me recordo. Gostaria que a senhora... O espanhol de que a senhora fala é o Salmeron?

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Exatamente.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ah, tá.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Mas quem pergunta “vamos falar sobre o espanhol” é um de vocês dois.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Porque ele havia citado o Salmeron em uma dessas interlocuções, em que ele disse: “Se você quiser, inclusive, negociar na Eletronorte, tem o Salmeron lá, que é muito amigo meu e que eu conheço já de tempo. Eu posso encaminhá-los..” Essa coisa toda.

O espanhol é o Salmeron, então. Ele citou várias vezes o Salmeron. E uma dessas vezes em que ele citou foi exatamente para dizer que nos conduziria à Eletronorte, que nos apresentaria a ele para futuros negócios, se a gente quisesse, que era muito amigo dele.

A SRª HELOISA HELENA (P-SOL - AL) – Mas os senhores já conheciam o Salmeron? Sabiam até que ele era espanhol? Como é que souberam, se ele não falou sobre isso?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Nunca, nunca, nunca. Nunca conheci o Salmeron. E também não tenho como lhe responder sobre o espanhol, porque não me recordo se foi o Marinho que falou em uma das fitas ou não.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Não, são vocês. Está aqui muito claro. São vocês. É ele que depois responde que é o Salmeron.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ou foi alguma dedução do João Carlos. Mas eu não me recordo de ele ter falado isso.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Quer dizer que o senhor está afirmando aqui que nem o senhor nem o Sr. João Carlos tiveram informações privilegiadas ou tiveram informações pelo Sr. Arthur, pelo Sr. Molina ou por qualquer outra pessoa sobre os processos de licitação antigos ou em andamento?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Esses processos de licitação que a senhora citou além da Novadata, que foi o único nome, a única menção que eu tive como guia, as outras menções todas foi o Marinho que citou. Seria importante conseguir essa segunda fita. Provavelmente, isso está nela.

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – É porque são os senhores que estão citando. Eu até fiz questão de voltar para o vídeo, lá no computador, para identificar quem é que estava falando sobre isso, dando detalhes. É claro que o Sr. Marinho dava muitos detalhes, mas, mesmo naquilo que ele não verbalizava, vocês introduziam sempre detalhes, considerações relevantes sobre licitações antigas ou processos em andamento, como se alguém tivesse informado a V. Sªs detalhes sobre a área da tecnologia – era sempre sobre isso que vocês falavam – e sobre a área de operações.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – As citações, eu lhe asseguro, foram a partir do Sr. Marinho. Esses nomes que a senhora enunciou, além da Novadata, todos eles, foi ele quem falou, na realidade. Lógico, você vai pegando esse gancho; vai tentando explorar a situação, porque, na medida em que ele ia falando os nomes, eu ou o João Carlos íamos tentando explorar isso para ver se ele falava mais, se surgia alguma coisa. Enfim...

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – É, mais só se foi em outra fita.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora Heloisa Helena, peço a V. Exª que observe o tempo, porque nós já...

A SRª HELOISA HELENA (P-Sol – AL) – Concluo. Estou concluindo, Senador Delcídio Amaral. Só espero que V. Exª seja tão rigoroso, como está sendo com o tempo, ao exigir do Governo Federal, da Polícia Federal, da Corregedoria ou de quem quer que sejam todos os dados relevantes para que nós possamos instrumentalizar o nosso trabalho, porque já são 15h16min e não chegou absolutamente nada sobre o processo de instrução em que vamos trabalhar amanhã. Tudo bem que alguém poderá dizer: não tem problema, porque se os diretores, por acaso, fizerem uma declaração, verbalizarem algo que depois, ao analisar os dados e o processo de instrução, possamos identificar se eles estão mentindo, faltando com a verdade, alterando ou manipulando dados, isso é possível fazer. Quero solicitar a V. Exª o mesmo empenho, porque daqui a pouco vai ficar muito feio, muito esquisito, porque daqui a pouco seremos nós a ir à Polícia Federal ou ao Ministério Público, isoladamente, solicitar documentos, como temos o direito de fazer.

Só para deixar claro que continuo, infelizmente... Fico até sempre querendo me convencer... Estou querendo ter a maior paz de espírito, até porque Brasília está tomada de ipês rosa, está muito linda, mas não tenho condição. Além de esse ser um tema que me irrita profundamente... Sr. Joel, sei que, muitas vezes, quando as pessoas sentam aí, alguns que aqui embaixo sentam até se aproveitam da soberba e dos cargos para fazer provocação, o que não é o meu estilo, mas esse negócio de sabotagem, gravação clandestina, chantagem, isso é uma coisa, realmente, que a sociedade não aceita. E o que é mais grave é que, em todos os momentos, ficamos aqui identificando que tudo isso, que todas as informações que V. Sªs nos dão não têm coerência com aquilo que V. Sªs estão falando aqui, infelizmente. V. Sªs diziam que estavam prestando um serviço – na minha avaliação, como na de muitos outros, um serviço sujo – para determinado fornecedor. Nenhuma das conversas aqui trata daquilo que efetivamente teria uma relação com a área a que vocês estariam prestando serviço – é só tecnologia ou problema de partidos. É por isso que fica muito suspeito. V. Sªs passam todo o tempo falando do PMDB, do PTB, do PT, do Deputado Roberto Jefferson e da área de tecnologia e depois dizem que alugaram uma maleta para resolver problemas comerciais? Fica realmente muito difícil acreditar no depoimento de V. Sª.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado Jamil Murad.

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Sr. Presidente, queria passar imediatamente a fazer as perguntas ao interrogado, Joel Santos Filho.

Joel Santos Filho disse, no depoimento à Polícia Federal, que conhecia o Sr. Arthur Wascheck desde 1992, quando ele, Joel, que está aqui como interrogado, como investigado, era coordenador do MEC. E, nessa época, o Sr. Arthur Wascheck, que se apresentou aqui como empresário, já estava preocupado com propina, e V. Sª, Joel, se associou ao Wascheck  em investigações de propina. Quer dizer, em outras palavras, é um grupo que pelo menos há treze anos está associado ao submundo das licitações. Treze anos. E o Joel diz que recebeu carta branca de Arthur Wascheck mostrando a intimidade entre eles, o jogo de interesses entre eles para investigar licitações de compras de uniformes em São Paulo. E contratou o vereador de oposição, apresentado por alguém da USP.

Segundo seu depoimento na Polícia Federal, você contratou alguém da USP porque você achava que deveria contatar um vereador de oposição para detonar a licitação de uniforme. E quem ele procurou? O Sr. Marcos Zerbini, do PSDB de São Paulo, vereador de São Paulo, do PSDB. E falou que esteve em contato com outros políticos em São Paulo. A minha pergunta, está no seu depoimento na Polícia Federal, não adianta fazer sinalização que não, porque está aqui registrado, quero saber quem são esses outros políticos de São Paulo. Sou Deputado Federal de São Paulo, moro na Cidade de São Paulo e um já identificamos é o vereador Marcos Zerbini, do PSDB de São Paulo. Você falou que contatou outros políticos de São Paulo.

Bom, depois, no seu depoimento à Polícia Federal, sobre esse episódio atual, dos Correios, ele disse que o Arthur Wascheck deu carta branca para ele comprovar, registrar as irregularidades de Maurício Marinho. Muito bem, posteriormente, vocês estiveram reunidos, você esteve trabalhando nessa questão dos Correios com um agente chamado Jairo Martins, que foi cabo da Polícia Militar do Distrito Federal, foi soldado da PM do Distrito Federal, desde 89, em 93 foi da ABIN e trabalhou na ABIN até 2001. Depois teria vindo à Câmara de Deputados e saído e voltado à Polícia Militar em 2003, ou seja, o Sr. Jairo Martins que trabalhou com você nessa gravação em relação ao Sr. Maurício Marinho. Só que esse Jairo Martins é o mesmo contratado pelo Carlinhos Cachoeira para gravar aquelas irregularidades do Deputado recentemente cassado, chamado André Luiz.

Queria, inclusive, nesse caso, o Sr. Jairo Martins fala que ele já contatou logo o Sr. Policarpo; o Sr. Wascheck falou: será que tem algum jornal, isso daria imprensa. O Sr. Jairo Martins falou: dá imprensa e aí o próprio Jairo Martins que é o seu comparsa nesse jogo falou: dá imprensa e aí contatou o jornalista  Policarpo da revista Veja e mostrou o DVD logo no dia seguinte, mostrando que o interesse, no meu entendimento, não era apenas comercial ou da bandidagem, mas tinha o interesse político nesse processo. E essa organização – que eu não ainda não descobri o nome, mas que é o Arthur Wascheck, o Joel, o Molina, o Jairo Martins – é contratada em determinados momentos para fazer um determinado jogo sujo. Então, eles têm algum proveito comercial nisso, mas o principal é que eles são especializados em gravação secreta etc. e que serve para uma determinada finalidade política.

Depois ele entregou a última fita de DVD também para o Sr. Policarpo, que era jornalista da revista Veja.

Eu queria saber esclarecimento seu – e esta é a oportunidade. Se você não ajudar a esclarecer, para o bem público, você vai ser condenado e vai sofrer as penas de membro de um grupo de criminosos contra o patrimônio público, criminosos contra as instituições. E você daria seqüência ao acobertamento disso.

Então, era isso. Desde 92, com Arthur Wascheck, foi investigar licitação de compra de uniforme em São Paulo e contatou um político do PSDB chamado Marcos Zerbini, que é vereador na cidade. Quero saber quais foram os outros políticos contatados e o que você sabe dessa investigação que o Carlinhos Cachoeira contratou junto ao Jairo Martins para investigar e que acabou resultando na cassação do André Luís. Se você participou também desse processo, já que não aparece o seu nome ali.

O SR. JOEL SANTOS FILHO ­– Deputado, objetivamente, quanto a Cepesp, eu já retifiquei de início. Na realidade, não foi o Arthur que delatou o esquema de corrupção na Cepesp, como eu pensava a princípio e declarei na Polícia Federal, até sob alguma pressão, porque foi para mim uma surpresa a prisão.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Você elogiou a Polícia Federal e disse que não foi pressionado. Está escrito, você assinou e, inclusive, você declarou hoje aqui.

 O SR. JOEL SANTOS FILHO ­– Elogiei e ratifico o elogio quanto à Polícia Federal. Eles me trataram bem. Agora, eu fiquei assustado, realmente. Eu nunca fui preso, Deputado. Nunca fui preso. Só pensava na minha família naquele momento, por favor.

Agora, respondendo a sua pergunta do Arthur. Então, eu tomei o cuidado, quando vi o depoimento do Arthur, de perguntar para o meu chefe, na época, que era o Professor Abdala se, realmente, tinha sido o Arthur que disparou o esquema. Ele disse: não, Joel, não foi o Arthur. Foi o Razeira, que ele me falou, que entregou a fita aqui. O Arthur veio várias vezes comentar sobre isso, como todos os fornecedores.

Os pagamentos que eu indiquei para fazer para a empresa do Arthur, na realidade, foi um procedimento da própria secretaria, Deputado. Eles apresentaram os processos de que eles haviam fornecido. Nós examinamos a documentação. Não fui só eu; foi o pessoal todo de um departamento que analisa, isso é passado para o diretor, que manda para o financeiro, que paga, que é o ordenador de despesas.

Eu não vejo atitude ilícita nenhuma aí nem de quem é ré que entregou essa fita, porque estava delatando o esquema de corrupção na Cepesp.

Quanto a São Paulo, a mesma coisa. O que fiz em São Paulo? Eu não conheço outros políticos em São Paulo. Nem o Sr. Marcos Zerbini eu conhecia. Eu falei com um amigo meu da...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Qual o nome da pessoa da USP que te apresentou?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu declarei, Paulo Hernandes. O Paulo disse: olha, Joel, tem um vereador, que é o Marcos Zerbini, mas ele também não o conhecia. E disse: eu vou ver um amigo meu que conhece e vou dar o telefone dele. Você entra em contato com ele.

E foi assim que aconteceu. Peguei, entrei em contato com ele, ele marcou comigo um local para almoçar. Eu mostrei e disse: olha, vereador, eu tenho essa documentação aqui, que um amigo meu mandou de Brasília, dizendo que houve superfaturamento lá em Brasília e tal. O modus operandi desse pessoal é o mesmo. Qual que era o interesse do Arthur em São Paulo? Ele queria participar da licitação de uniformes em São Paulo, com algumas empresas dele, sei lá, com alguns representados dele. Então, ele queria, efetivamente, travar essa licitação, para que pudesse entrar nessa licitação.

Bom, como minha atividade parava aí, o que eu podia fazer diante disso? Que poder eu tinha para parar uma licitação que estava em andamento, para parar uma licitação em que tinham declarado antes que os ganhadores seriam Rhodia, Du Pont e não sei o quê e mais uma empresa, a Alpargatas? Eu achei que o Vereador teria poder para isso. Entreguei para ele e fui embora. Na realidade, o que eu fiz foi isso.

Quem delatou o esquema da Prefeitura de São Paulo, dos uniformes, não fui eu não, foi o Vereador, com a documentação que eu forneci para ele. Foi somente, tão-somente isso. Tem um inquérito em São Paulo, os senhores podem requisitar, está tudo lá. Foi tão-somente isso. Existe toda uma documentação farta em São Paulo.

E a notícia que eu tive depois, através do próprio Arthur, foi que não adiantou nada, porque, na verdade, a Prefeitura de São Paulo continuou a comprar, etc e tal. Eu não sei. O que eu posso lhe falar é isso.

Quanto ao Jairo, eu não conheço o Jairo. Conheci o Jairo... Agora eu conheço, é lógico.

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Quais outros políticos de São Paulo?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Nenhum.

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Porque você declara aqui na Polícia Federal, está aqui...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Jamil, eu só pediria para V. Exª acelerar no tempo, para concluir, em função de que há outros oradores, outros parlamentares inscritos.

O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Mas é importante isso, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Ok. Mas conclua, Deputado.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não declaro aqui, Deputado. Se V. Exª puder me mostrar, se V. Exª puder me indicar... Eu não declaro que conheço outros políticos em São Paulo. Declaro que entreguei para o Vereador Marcos Zerbini, cujo Partido eu não me recordava até o senhor esclarecer que é o PSDB.

Quanto ao Jairo, concluindo, lembrei-me: conheci o Jairo pela apresentação que o Arthur me fez no escritório dele. A primeira vez, ainda pedi ao Jairo que não houvesse divulgação. Depois, novamente, encontramo-nos num restaurante aqui de Brasília que se chama Intervalo. Mesma coisa: no restaurante Intervalo, o Arthur pediu encarecidamente para esse Sr. Jairo, para esse rapaz, o Jairo, que não houvesse divulgação. E ele disse: não, Sr. Arthur, eu sou profissional nisso, estou acostumado a fazer isso, ninguém vai divulgar nada. Pronto. Esse é o meu conhecimento do Jairo.

O Molina eu conheço do churrasco na casa do Arthur, e depois vim tomar pé com ele no Rio de Janeiro e, conseqüentemente, depois, na Polícia Federal, lamentavelmente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Jamil Murad.

O próximo inscrito é o Deputado Arnaldo Faria de Sá.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, Sr. Relator, Sr. Joel, quero informar ao Sr. Joel que vou fazer um requerimento para que ele venha depor como testemunha.

Temos percebido, várias vezes, Sr. Joel, que V. Sª tem se colocado de forma evasiva, tem procurado fugir das respostas, e, como testemunha, o senhor não poderá fazer isso. Então, o senhor fique, desde já, ciente de que vou tomar essa providência.

Seu advogado que está aqui presente é o Dr. José Hamilton Araújo Dias? (Pausa.) É o mesmo que esteve com o senhor na Polícia Federal? (Pausa.)

Na Polícia Federal, o senhor ficou detido juntamente com as outras pessoas desse caso, na mesma cela? Então, vocês tiveram oportunidade de conversar antes de depor? (Pausa.)

Sr. Relator, V. Exª percebeu o quão grave é isso aí? As pessoas ficaram na cela, juntas, antes de depor. Elas tiveram toda a oportunidade de tramar o que iriam dizer ou não dizer. E o Joel, inclusive, disse aqui que o Molina pediu para ele não falar esta ou aquela coisa.

Quais outras coisas uns pediram para os outros não falarem e o que combinaram? É uma coisa extremamente absurda! Eu queria chamar a atenção para isso, e é por isso, Sr. Relator, que vou fazer questão de convocar essas pessoas como testemunhas. Sob juramento, vamos poder esclarecer coisas que lamentavelmente estão sendo omitidas. Estão nos fazendo de bobos o tempo todo aqui, fugindo de respostas, dando evasivas.

O Deputado Jamil, agora há pouco, leu um trecho de um depoimento dele e ele disse que não disse isso. Eu fui dar uma olhada aqui, e o Jamil tem razão. Está aqui: “Tal publicidade causou o cancelamento (trecho ininteligível) que, por esse levantamento feito em São Paulo e contatos realizados com políticos locais, recebeu de Arthur R$5 mil.” Está aqui, Jamil, você tem razão: “com políticos locais”. E ele diz que não tem político nenhum.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não... Político...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Ou ele mentiu na Polícia Federal ou ele está mentindo aqui, agora. Não tem lógica.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Agora eu vi. Não, não... Políticos locais, me referindo ao Vereador do Partido. Com políticos locais. Mas...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Um político ou políticos?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Olha, Deputado, é um erro de linguagem, ou na hora que o escrivão fez ou na hora que eu declarei. Eu estava nervoso. Mas eu me referi aqui, quando falo de políticos locais, eu me referi ao Vereador. Eu não entrei em contato com mais ninguém. Ninguém em São Paulo além desse Vereador, que foi o primeiro que me indicaram.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Eu vou ler para o senhor: “Que, por esses levantamentos feitos em São Paulo...”

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu li, eu li.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – “...em contatos realizados com políticos” – no plural – “locais, recebeu de Arthur R$5 mil.”

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu li aqui, achei localizei aqui, mas eu estou lhe dizendo, eu estou me reportando ao político Marcos Zerbini, porque ele estava junto com um outro assessor dele. Tem, deve ter o nome dele na minha agenda que foi presa. Com certeza tem. Foi ele e mais um assessor de gabinete... De chefe de gabinete dele. Então... E até falo políticos locais, mas exatamente – foram dois –, mas exatamente era me reportando ao Vereador Marcos Zerbini.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Agora, o senhor se vangloria de que o seu trabalho suspendeu a licitação que o Deputado Jamil Murad fala. O senhor reafirma isso?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Como?

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O senhor se vangloria de que o levantamento que o senhor fez suspendeu a licitação que estava ocorrendo em São Paulo.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não me vanglorio disso. Eu falo que o meu trabalho ocasionou a suspensão de licitação, mas temporário também, porque ela depois ela continuou do mesmo jeito, Deputado. O senhor pode pedir essa informação. Ela acabou ocorrendo, quer dizer, de nada adiantou o meu trabalho.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP)– Parece que o seu trabalho nunca adianta de nada, né?!

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Parece.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O senhor sabia que estava fazendo um trabalho sujo para o Sr. Arthur?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Mas o senhor acha... O senhor me perdoe, eu entregar uma documentação de uma licitação que vai haver numa cidade em que...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Não. Não. Eu já estou em outro, já estou em outro...

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não vejo como trabalho sujo isso.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Já estou em outro momento. O trabalho que o senhor fez para o Arthur aqui nos Correios era um trabalho sujo.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu fiz por amizade ao Arthur o trabalho. Puramente amizade.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Um trabalho sujo.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não considero como trabalho sujo.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Uma gravação clandestina?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É de alguém que confessou aqui, exatamente para o Brasil inteiro, que o que ele fez é aquilo. Alguém que confessou aqui para o Brasil inteiro, que disse a todo o País que ele agia exatamente daquela forma.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O senhor é policial?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Não sou policial...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O senhor é do Ministério Público?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Também não.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Não é função do senhor.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não esperava que o que ele fosse falar fosse aquilo. Eu só fiz pela amizade. Quando o teor das declarações se revelou daquela forma, Deputado...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O senhor disse que teve uma gravação anterior que não foi confirmada. Depois o senhor teve que fazer uma nova gravação. Na gravação anterior também o senhor deu R$3 mil para ele?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, não, não. Foi só nessa última, porque não havia motivação para eu voltar lá.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Então espera um pouquinho. Espera um pouquinho. Se o senhor... Se a gravação anterior tivesse sido válida – e o senhor não tinha dado os R$3 mil –, se não tivesse sido necessária a outra gravação, não teriam os R$3 mil, então?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Eu só dei os R$3 mil nessa última gravação por achar que eu não tinha motivo mais para ir lá para ele falar as mesmas coisas.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O senhor não entendeu ou não está querendo entender.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Pois não.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Se a gravação anterior tivesse sido concluída, o senhor não precisaria ter feito a próxima. Se, na anterior, o senhor não deu os R$3 mil, então, não teria os R$3 mil, porque só na seguinte é que teve os R$3 mil?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. A idéia minha dos R$3 mil foi tão-somente para a última gravação.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Então eu lhe pergunto: se a gravação anterior tivesse sido positiva não teria a história dos R$3 mil?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não teria. Realmente não teria.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Absurdo, Sr. Relator! Alguma história aí não está batendo.

O senhor sabia que o Jairo já tinha trabalhado na Abin?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Desconhecia.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – O João Carlos sabia disso?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Também, muito menos. De jeito nenhum.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – E por que, no dia em que vocês estavam saindo da gravação – e o Jairo estava com o senhor... Em uma das gravações, o Jairo estava com o senhor?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não. Era para ele ter ido, ele acabou não indo, deu uma desculpa que tinha um serviço para fazer fora e ele não ia poder ir.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Não, ele foi. Você sabe o que aconteceu?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Na última gravação...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Ele foi. Ele foi, o senhor sabe o que aconteceu?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Ele não foi.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Ele foi, estou afirmando. Ele foi. Eu estou afirmando.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Não, ele não foi.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Ele foi. Eu estou afirmando! Ele foi. Acontece que, quando ele estava subindo nos Correios, para encontrar com o senhor e com o João Carlos, cruzou com o alemão, que é outro agente da Abin, e aí quando perceberam os dois, ele deixou de dar seqüência àquela combinação que tinha com o senhor.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Deputado, no dia...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Eu estou afirmando para o senhor. O Jairo ia com o senhor.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É um direito seu.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – E, no dia em que o Jairo estava se encaminhando, para, junto com o senhor e com o João Carlos, fazer esse jogo sujo, ele cruzou com o alemão, que é um outro agente da Abin, que estava lá nos Correios, e, por causa disso, o Jairo abortou a companhia de vocês. Eu estou lhe afirmando.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – É um direito seu. Eu não vi, não presenciei. O que aconteceu no dia da gravação? Ele me entregou a pasta, veio numa caminhonete branca, me entregou essa pasta; eu peguei a pasta, liguei o equipamento e fui gravar.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Mas vocês haviam combinado que ele iria com o senhor? Antes?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Estava combinado de ele ir junto.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Escutou, Senador?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – E ele disse que não ia poder ir.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Estava combinado de ir junto.

Não é que ele não podia ir, não, é que aí, o alemão, que é agente da Abin, que estava lá no Correio, percebeu e abortou toda a participação dele, Jairo, mas a maleta ele lhe entregou.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Me entregou.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – E lhe entregou pela terceira vez, não é?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Hum, hum.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Pela terceira vez?

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Sim.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Três vezes o senhor gravou? (Pausa.)

Então, Sr. Presidente, Sr. Relator, vou apresentar um requerimento, convocando o Sr. Joel Santos Filho como testemunha, para ver se ele vai mentir, como mentiu hoje.

O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não menti, Deputado.

O SR. PRESIDENTE (Maguito Vilela. PMDB – GO) – V. Exª concluiu?

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Concluí.

O SR. PRESIDENTE (Maguito Vilela. PMDB – GO) – Com a palavra, o Deputado Alvaro Dias.

O SR. ALVARO DIAS (PDT – RN) – Sr. Presidente, Srs. Congressistas, mantenho, depois do que ouvi hoje, a mesma posição que me levou a suscitar uma questão de ordem sobre a necessidade de estabelecermos prioridades.

Nós temos um farto material para investigação, gente importante para depor nesta Comissão Parlamentar de Inquérito e, se tentarmos abraçar o mundo, não vamos chegar a lugar algum. Precisamos focalizar bem as prioridades.

Este depoimento de hoje, certamente, pouco vai acrescentar, até porque o Sr. Joel não é o alvo desta CPMI. Ele comparece não como investigado, a meu ver, e, sim, como testemunha, porque fez a gravação e pode, se desejar, contribuir mais ou menos, com os esclarecimentos que aqui presta. Mas certamente teríamos resultados mais expressivos, se realizá