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O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB–PR) –
Declaro aberta a primeira reunião da Sub-relatoria da DNA/SMP&B e fontes
financeiras, da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, criada através do
Requerimento nº 3, de 2005, para investigar as causas e conseqüências de
denúncias e atos delituosos praticados por agentes públicos nos Correios –
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
Esclareço que a pauta desta reunião destina-se à oitiva da
Srª Kátia Rabelo, Presidente do Banco Rural, que já se encontra à mesa, havendo
já, com concordância também da sub-relatoria, a participação da Srª Ayana
Tenório Torres de Jesus, vice-presidente de suporte operacional do Banco Rural.
Também registro a presença do professor, ex-ministro, José Carlos Dias,
advogado da Drª Kátia. Ambos já assinaram o termo de compromisso na condição
testemunha.
Esclareço que estamos fazendo essa reunião da sub-relatoria
nesta sala, para efeito de registro, devido à publicidade, porque uma outra
subcomissão, também desta CPMI, está nesse momento tomando outros depoimentos.
Acredito que será também muito objetivo. Nós temos aqui depois um rol de
questionamentos, em função das investigações.
Concedo a palavra à Drª Kátia Rabelo.
A SRª KÁTIA RABELO – Muito obrigada, Deputado. Boa
tarde a todos.
Neste momento tão conturbado da vida de nosso País, gostaria
de contextualizar o papel do Banco Rural, analisar suas conseqüências e
apresentar as decisões tomadas pelos acionistas frente aos acontecimentos.
O Banco Rural tem 75 agências, mais de dois mil funcionários
e trinta mil clientes. Em sua maior parte, esses clientes são pequenas e médias
empresas, com pouca sofisticação e difícil acesso ao crédito. Foi nesse nicho
que o Rural se estabeleceu e cresceu.
O principal idealizador desse modelo chamava-se José Augusto
Dumont. A pessoa que ele atribuiu poderes para realizá-lo foi Júnia Rabelo,
minha irmão. Juntos, durante dez anos, eles comandaram a transformação de um
pequeno banco em um grande conglomerado financeiro.
Peço a V. Exªs paciência para conhecerem um pouco da minha
história pessoal: Dos doze aos vinte anos de idade, mantive dois interesses aos
quais me dediquei: o estudo da dança e o curso de ciências biológicas. Com
apenas vinte anos fundei uma escola e um grupo de dança, O Primeiro Ato.
A certa altura, a minha irmã Júnia me convidou para
trabalhar no banco, assumindo a pequena área de comunicação. Gostava de
trabalhar com Júnia, nossa relação era baseada no respeito, no carinho e na
admiração mútua.
Em 26 de fevereiro de 1999, às doze e trinta, recebi a
notícia do acidente da morte de minha irmã. Após o choque inicial, assumi a
missão de substituí-la no banco e a responsabilidade por duas meninas, suas
filhas. Coloquei-me ao lado do José Augusto Dumont, referendando a confiança
que Júnia depositava nele. Entendi que a minha função era ser a interface entre
o acionista controlador – meu pai- e os executivos do banco.
Júnia era uma mulher muito forte. Com a sua morte, jogos de
poder se deflagraram internamente, e atuei para manter a unidade do grupo.
O estilo de gestão do José Augusto Dumont era informal, não
hierárquico, pessoal e centralizado nele mesmo. A melhor descrição que ouvi a
seu respeito foi feita pela sua secretária: “Meu chefe é um otimista; às vezes
corre muitos riscos por conta dessa característica.”
Realmente o Zé, como era chamado na intimidade, tinha um dom
único para lidar com pessoas e situações controvertidas. E fez isso, por
diversas vezes, com clientes e funcionários do banco. Ele sempre dava mais uma
chance. Essa conduta colocou o banco em grandes dificuldades muitas vezes e, em
outras tantas, foi o caminho para sair delas.
Apesar de toda confiança e autonomia que o José Augusto
tinha para lidar com o banco, uma questão me preocupava: o futuro. Dessa
preocupação, surgiu o documento Rural nos Próximos Dez Anos, formulado em
janeiro de 2003 e realizado pela renomada consultoria Amaná-Key. Nesse
documento, identificamos os pontos fortes e fracos na gestão do nosso negócio.
O banco havia crescido depressa demais e já não era possível
administrá-lo de maneira informal. Nossos maiores desafios eram desenvolver
sistemas de controle sem perder a agilidade e desenvolver pessoas.
Dizem que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas, no
Rural, ele caiu. No dia 4 de abril de 2004, outro acidente fatal atingiu o
então Vice-Presidente José Augusto Dumont e deixou a minha vida e a do banco
novamente de pernas para o ar.
Fomos em frente. Sabíamos que precisávamos mudar.
Contratamos as consultorias Mckinsey e Accenture para desenvolver um projeto
que extraísse o máximo da nossa potencialidade. O primeiro semestre de 2004
terminou, apesar de todo o trauma, com um lucro de R$60 milhões. O segundo
semestre ia bem quando veio a intervenção no Banco Santos. Assim como outros
bancos de menor porte, o Banco Rural perdeu depósitos. Sobrevivemos, porém
fomos forçados a reduzir despesas, fechando agências e demitindo pessoas.
Em 7 de janeiro de 2005, o Banco Rural e minha família
sofreram mais uma dura perda: a do fundador, acionista-controlador, Presidente
do Conselho, Sabino Rabelo, meu pai.
Para mim, mais uma vez, não houve espaço para luto. A
redução de ativos causada pela crise do Banco Santos colocou em evidência
alguns créditos que chamavam pouca atenção no passado. Um deles era o
empréstimo para a agência de publicidade SMP&B. Iniciamos a discussão
desses créditos com o Banco Central e, paralelamente, buscamos negociar o seu
recebimento. É importante ressaltar que era José Augusto o negociador direto
desse e de vários outros grandes créditos do banco.
Enfim, no dia 13 de junho, explodiu a crise que abala a
política no País. Descobrimos que, além de uma dívida que não conseguíamos
receber, tínhamos mais um problema: nosso cliente usava o Banco para efetuar
pagamentos a Parlamentares. Quero deixar claro que não temos participação nessa
história. O Banco foi usado, nada além disto. Prova do que digo é que todos os
passos dessas transações estão registrados nos controles internos, nas fitas de
caixa e até no Coaf. É absurdo imaginar que o Banco, se cúmplice de um esquema
de corrupção, tratasse de produzir as provas do delito, enviando todos os dados
a autoridades fiscalizadoras.
A triste verdade é que o Banco Rural viu, em poucos meses,
sua imagem ser duramente arranhada. No intuito de reconstruí-la, o acionista
adotou uma medida jamais vista no Brasil: incluiu em seu balanço todas as
recomendações do Banco Central no que diz respeito a créditos duvidosos, o que
implica em reconhecer R$130 milhões de prejuízo com conseqüente redução de
patrimônio. Essa conduta é a prova do nosso compromisso com a verdade, atitude
corajosa jamais vista neste mercado, que apresenta um rompimento com o passado
e começa uma nova história para o Banco Rural.
Como Presidente Executiva deste Banco desde 2001, quero
deixar claro que não pretendo fugir às minhas responsabilidades e que decidi
olhar à frente, auxiliada por profissionais de primeira grandeza. Hoje temos a
felicidade de contar com a ajuda dos consultores: Luiz Nelson de Carvalho,
Gustavo Loyola e Paolo Zaghen. Tais nomes dispensam apresentações. Tendo tido
acesso a todas as informações do sistema financeiro rural, aceitaram o desafio
de orientar os caminhos a serem trilhados por este novo banco que ora surge.
O compromisso dos acionistas com esses
consultores é o de seguir toda e qualquer recomendação que apresentarem. Ainda
para este semestre, preparamos uma profunda reestruturação que reverá a malha
de agências do Banco e reduzirá as despesas para nos adequarmos à nova realidade.
Agradeço a
confiança dos clientes e colegas do Banco Rural e de todos aqueles que
estiveram e permanecem do meu lado.
Muito obrigada.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PMDB – PR) – Passo
ao questionamento. Fica a seu critério, Drª Ayana Tenório Torres para os
esclarecimentos ou até com a contribuição do Dr. Reginaldo que tem ficado
auxiliando nos trabalhos da CPMI.
Estabeleci o roteiro, Drª Kátia Rabelo, em função de todas
as dúvidas que surgiram ao longo das investigações.
Passo ao questionamento:
Entre as atribuições do Banco ou da direção do Banco deve
constar a definição das diretrizes estratégicas. A Resolução nº 2554, do Banco
Central, determina que as instituições financeiras implantem controles internos
para as atividades por ela desenvolvidas, bem como define como responsabilidade
da diretoria dos bancos a adoção das medidas necessárias ao atingimento dos
objetivos da citada resolução.
Em razão do exposto, pergunta-se: há órgão
da auditoria interna no Banco Rural? Como foi a atuação desse órgão, se existe,
entre os anos de 2000 a 2005? V. Sª poderia apresentar ou enviar posteriormente
a esta Comissão os relatórios elaborados por essa unidade de controle?
A SRª KÁTIA RABELO – Vou pedir licença para passar a
palavra à Drª Ayana Tenório Torres.
Primeiro, queria explicar a presença da Drª Ayana aqui. Ela
é Vice-Presidente do Banco, há pouco mais de um ano, na área de suporte
operacional. E, portanto, foi a pessoa
responsável por todo o levantamento de informações feito nesse período, desde
que esse caso veio à tona.
Realmente, a Ayana tem um domínio muito grande, portanto,
técnica e hierarquicamente, essa área de controle interno está sob a autoridade
dela.
Então, ela, junto com toda equipe,
desenvolveu um trabalho bastante profundo e extenso a esse respeito. Peço a Drª
Ayana tente responder à pergunta.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – A empresa, na realidade,
tem toda uma estrutura que acompanha a questão da legislação, até porque são
prestadas todas as informações aos órgãos o tempo inteiro, Banco Central. E a
maior prova disso é o fato de que o Coaf é um órgão que, entre outras áreas do
Banco Central, nos fiscaliza e nos acompanha.
A grande prova do próprio sistema e do funcionamento de
sistemas como esse dentro da empresa é que todas as informações referentes a
saques estão devidamente homologadas junto ao Coaf, que é um órgão do Banco
Central.
Com relação a todos os sistemas, não só temos uma área de
auditoria, que tem um papel de acompanhar efetivamente toda operação, tanto
interna quanto externa da companhia, como uma área de complaince, que tem
o papel de acompanhar as regras extremamente definidas que dizem respeito a
qualquer procedimento ilegal ou legal dentro do Banco.
Existem os dois departamentos e,
estrategicamente, é uma das coisas com as quais temos um cuidado muito grande
e, nesse caso, inclusive, se comprovou que estávamos efetivamente atuando.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PMDB – PR) – No
caso do Coaf, a partir de 2003.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – O Coaf tem uma
legislação a partir de 2003, mas a regra com relação a saques acima de R$10
mil, inclusive em espécie, não é de 2003, mas de período anterior.
Teoricamente não só isso, mas regularmente sofremos inspeção
dos próprios órgãos do Banco Central com relação à checagem das áreas de
controle, como funcionam, e tudo isso vem sendo desenvolvido com muita força.
Uma das coisas que temos feito pesadamente
nos últimos anos, e no último ano em especial, é a questão de tecnologia, que é
fundamental dentro dessas áreas. Então, mais do que nunca, essas áreas têm tido
investimentos agressivos no intuito de garantir cada vez mais. Mas,
indiscutivelmente, tem todo um sistema de acompanhamento e gestão que está
vinculado a essa questão, não só pela questão regulamentar, mas pela questão
inclusive do próprio negócio que exige que se tenham acompanhamentos para
evitar problemas no próprio negócio.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PMDB-PR) – Seria possível o
envio desses relatórios?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Não tem
dificuldades, enviaremos.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PMDB-PR) – Nessa
linha também, pergunto sobre a existência de auditorias externas realizadas no
Banco Rural, entre os anos 2000 e 2005, e se seria possível também o
recebimento das auditorias, independente de qualquer trabalho do Banco Central.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Sem problema nenhum.
Hoje, a nossa auditoria oficial é a Lloyd, que anualmente ou a cada trimestre
faz as averiguações devidas e que a cada colocação de balanço tem que estar
demonstrando a questão efetiva do Banco. Será mandado com a maior brevidade
possível.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PMDB – PR) – Em
depoimento prestado na CPI, a Srª Renilda, esposa do Sr. Marcos Valério, narrou
que o ex-Ministro José Dirceu realizou reunião com a direção do Banco Rural, em
2004, no Hotel Ouro Minas, em Belo Horizonte, com o objetivo de acertar com o
Banco como se daria o pagamento dos empréstimos feitos por Marcos Valério junto
ao Banco Rural. A pergunta é: essa reunião ocorreu? V. Sª, Presidente, ou o
vice-Presidente, participou dessa reunião ou quem participou? E se,
efetivamente, existe esse tema tratado, conforme relatado?
A SRª KÁTIA RABELO – A reunião aconteceu, na verdade,
não foi uma reunião, foi um jantar, estávamos presentes eu, um outro diretor do
banco e o Ministro, e nós não tratamos do assunto da dívida do Sr. Marcos
Valério.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – O
Banco Rural tem uma participação no Banco Mercantil de Pernambuco em processo
de liquidação extrajudicial, sendo 22% de propriedade do Banco Rural. O Sr.
Marcos Valério intermediou ou intermediava interesses do Banco Rural junto ao
Governo Federal, particularmente a cerca do processo de liquidação
extrajudicial do Banco Mercantil de Pernambuco?
A SRª KÁTIA RABELO – À primeira pergunta a resposta
é sim, o Banco Rural possui cerca de 22% das ações do Banco que está ainda sob
intervenção, da parte do Banco Mercantil de Pernambuco que ainda se encontra
sob intervenção do Banco Central.
Qual foi a outra pergunta?
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Com
relação à intermediação de interesses por parte do Sr. Marcos Valério.
A SRª KÁTIA RABELO – Sim. O Sr. Marcos Valério foi um
facilitador para a interlocução do Banco Rural junto a várias pessoas no
tratamento dessa questão.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – A
senhora poderia nominar quais essas pessoas do Governo?
A SRª KÁTIA RABELO – Perfeitamente. Uma das pessoas
com a qual nós tratamos desse assunto foi o Ministro José Dirceu. Nós
posicionamos – na verdade, eu, pessoalmente, posicionei – o Ministro de qual
seria a situação dessa massa liquidanda, com as minhas limitações técnicas e
dando uma posição um pouco superficial até, mas demonstrando qual seria a nossa
visão da situação dessa massa e de quais seriam as possibilidades, tanto para o
acionista controlador como para o minoritário, no caso, o Banco Rural, quanto
para, no caso, o Banco Central, que seria a outra parte. Nós posicionamos o
Ministro dessa condição de como essas coisas estavam caminhando.
O Ministro José Dirceu foi a única pessoa com a qual eu
conversei sobre esse assunto dentro do Governo.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – E
avançou a negociação, após essa conversa?
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade, não existiu, em
nenhum momento, uma negociação; o que existiu foi um posicionamento, porque
existem ações movidas pelo acionista controlador correndo na justiça e existem
pareceres internos do Banco Central, vamos dizer, referentes a essas ações.
Então, o que nós fizemos nos nossos encontros foi posicionar como estava o
andamento dessas ações, como estava o andamento, vamos dizer, por parte da
visão que o Banco Central vinha nos referenciando nesse sentido. Não houve, de
fato, uma negociação da solução do assunto, nós não chegamos a esse ponto de
conversa.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – E o Ministro
José Dirceu chegou, eventualmente, a intermediar ou marcar alguma reunião no
Banco Central, com o Presidente do Banco Central ou com o diretor da área de
fiscalização?
A SRª KÁTIA RABELO – Não, em nenhum momento.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – E o
Marcos Valério também não? Não marcou nenhuma reunião?
A SRª KÁTIA RABELO – Não que seja do meu
conhecimento.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Foi
noticiado no relatório da CPMI do Banestado... Não, antes, o que V. Sª teria a esclarecer
em relação a notícias também veiculadas de que o Banco Rural utilizaria títulos
indexados ao dólar para quitar dívidas do Banco Mercantil de Pernambuco junto
ao Banco Central? Só para registro, os títulos do Mercantil valem cerca de 900
milhões no mercado, e o Banco Mercantil estima que sua dívida com o BC e outros
credores monta a 250 milhões. O BC contesta esses valores. Segundo notícias
veiculadas, o Diretor de Liquidação, Dr. Gustavo Vale, estima que a dívida seja
superior a R$2 bilhões. O impasse estaria no índice a ser utilizado para a
correção, como quer o Mercantil, o Selic, como deseja o Banco Central. Ou seja,
teve alguma ação nesse sentido?
A SRª
KÁTIA RABELO – Peço desculpas por não ser a pessoa talvez ideal
tecnicamente para explicar essa... vamos dizer, é um assunto bastante complexo,
tenho visto pessoas que conhecem profundamente e que têm se debruçado sobre
esse assunto debaterem o assunto várias vezes, porque ele dá margem a várias
interpretação. E, naturalmente, a interpretação do Banco Central ou de pessoas
ou de diretores do Banco Central é uma, não necessariamente entre eles a mesma.
Na
verdade, o Banco Rural comprou o Banco Mercantil de Pernambuco em 1995. Desde
então, temos acompanhado, vamos dizer, esse processo. E a intenção do Banco
Rural foi a de resolver, ou seja, de levantar essa liquidação e a forma de
fazê-lo, ao longo desse tempo, foram aventadas diversas formas, por parte do
Banco Central inclusive e de pessoas do Banco Central que por lá passaram, em
governos anteriores, inclusive, porque esse caso já vem de outros governos, não
é?
Então, na
verdade, o que existe é uma massa de papéis que está em poder do Banco Central;
esses papéis valorizaram muito. Então, existe essa questão dos juros, se os
juros são devidos, qual o contrato, enfim, a ser seguido, quais os juros a
serem seguidos em determinado período e essa é uma discussão que está na
Justiça.
Então, o
pleito do Banco Rural, no caso, é que se levantasse a liquidação e fosse feito
qualquer tipo de acordo, no sentido de que o acionista controlador abrisse mão
das ações que ele tem na Justiça e que, se ele tiver sucesso, poderá ter um
custo muito alto para a União, para o Banco Central – não sei exatamente como
funciona isso –, mas que fosse feito um acordo e que esses papéis fossem
devolvidos ao acionista controlador e que, dessa forma, o acionista pagaria os
juros.
O Banco
Rural viria sempre a reboque até por que ele não tem o poder de decisão nesse
caso por ser acionista minoritário.
O SR.
PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Mas, de qualquer maneira, houve
ajudar financeira do Proer, era de conhecimento do Banco Rural essa ajuda e é
conhecimento também que, apesar dessa situação, a eventual negociação dos
títulos do Banco Mercantil de Pernambuco podem vir trazer lucros ao Banco Rural? Trabalha-se com esse cenário?
A SRª
KÁTIA RABELO – São dois cenários bem diferentes: um cenário foi a compra
do Mercantil, da dita parte boa, que foram as agências, o Banco Rural assumiu
os passivos trabalhistas, parece-me até a um certo valor, não conheço muito
bem, porque eu não tinha a função de Presidente à época. Na verdade, eu tinha
acabado de entrar no Banco. Mas esse momento de adquirir essa parte do Banco é
um. E depois, com o correr do tempo, o Banco Rural foi adquirindo essas ações,
entendendo que esse lastro de posse no Banco Central, no futuro, poderia ter
algum valor.
Então,
entendemos que pode ser, sim, um bom negócio para o Banco Rural se essa
liquidação for levantada e se esses títulos voltarem, ou seja, passarem a ser
posse dos acionistas, não é?
O SR.
PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Isso está formalizado no Banco
Central? Há esse trabalho junto ao Banco Central para a solução ou não?
A SRª KÁTIA RABELO – Isso vem sendo, já foi
formalizado várias vezes, em várias propostas. Inclusive, houve, em um momento,
uma proposta de leilão, esse leilão chegou a ser editado – é difícil lembrar as
datas, não me lembro exatamente a data –, mas eu sei que houve uma proposta de
leilão, chegou a ser publicado e, finalmente, o leilão não ocorreu. Então, de
fato, esse assunto tem tramitado. Parece-me que houve uma reunião, inclusive,
de Diretoria, em que esse assunto foi colocado. E, desde então, a posição do
acionista tem sido a de tentar na Justiça provar a sua razão, enfim, aquilo que
ele acha que é o justo e o Banco Central na sua defesa. E, correndo em paralelo
a essas ações na justiça, há a tentativa de um acordo, até porque, o acionista
controlador, que é o Dr. Armando Monteiro, um senhor de idade muito avançada,
tinha um interesse muito grande de ver essa situação resolvida, quer dizer, de
poder ver a solução acontecer. Então, ele estava, e acredito que continue muito
interessado num acordo que a gente imagina que pode ser bom para ambas as
partes.
Acredito que isso esteja formalizado no Banco Central, por
diversas vezes, e já por um longo tempo. Pelo menos, imagino, desde 1996, 1997
– quase dez anos.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Com relação ao Banco Econômico, existe alguma relação de ordem comercial? Qual
a relação com o Dr. Ângelo Calmon de Sá, o controlador do Banco Econômico?
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade, fiz uma visita ao
Dr. Ângelo, há pouco tempo. Tive o prazer de estar com ele, porque o grupo
ligado à família dele tem aplicações no Banco Rural; fui lá como banqueira para
agradecer a um aplicador. Não tenho... Nem eu nem nenhum diretor sob minha
ordem jamais conversou sobre o Banco Econômico.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Alguma relação com o Banco Milênio, de Portugal?
A SRª KÁTIA RABELO – Não conheço esse banco.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Foi noticiado no relatório da CPMI do Banestado que o Deputado José Mentor
teria retirado informações graves, segundo essa informação, em relação ao
envolvimento do Banco Rural no caso objeto daquela CPMI. O banco que V. Sª
preside tem alguma relação com membros deste Parlamento? Tem notícias de alguma
denúncia envolvendo membros desse parlamento e o Banco Rural?
A SRª KÁTIA RABELO – As notícias que tenho são as
veiculadas pela imprensa. Internamente, no banco, não tenho nenhuma notícia
desse tipo.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Foram feitas negociações com o Deputado José Mentor durante a CPI do Banestado?
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Teve algum negócio jurídico com o Deputado José Mentor ou com o escritório do
qual ele participa?
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
A senhora confirma que o Banco Rural pagou à empresa Tolentino & Melo
R$654.762,00?
A SRª KÁTIA RABELO – Não tenho esse dado de cabeça,
mas acho que é possível que tenha sido. Você tem?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Existe um pagamento, que
foi feito – deixe-me pegar a data correta – em janeiro de 2004, no valor de
R$654.762,00, por um serviço pelo escritório. O escritório do Tolentino é um
escritório direcionado a questões tributárias. Inclusive, ele tem um sócio, que
é um especialista nessa área, especificamente, e ele prestou um serviço à gente
nesse período, onde foi pago esse serviço efetivamente a ele.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Na área?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES –
Tributária.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Há um
registro de que foram dois momentos, duas consultorias.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – R$654.115,00. Uma em
janeiro e... Deixa só eu pegar as datas corretas para a gente não ter dúvida.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
A senhora tem os contratos ou as consultorias?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Aqui não, mas posso
mandar o que eu tiver, referente a essa documentação, para vocês sem problema
nenhum. Deixa só eu confirmar as datas. Rogério Tolentino, uma de 10 de
fevereiro de 2004, no valor de R$650.762,00, e 12 de junho de 2005, no valor de
R$115.000,00. Na realidade, é um escritório com serviços tributários e o sócio
dele é uma pessoa chamada José Roberto Melo, que tem uma experiência bastante
profunda nessa área. Então, ele nos prestou serviços e tem, efetivamente, essas
duas notas fiscais de prestação de serviços dentro da empresa.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
V. Sª conhece o Sr. Glênio Guedes, que é procurador do Banco Central, que
recebeu aproximadamente R$900.000,00 oriundos das contas de Marcos Valério?
Segundo a denúncia, ele teria sido o responsável por arquivar processos
referentes ao Banco Rural na sua área de atuação.
A SRª KÁTIA RABELO – Não conheço essa pessoa. Ouvi,
li, parece-me, na imprensa sobre esse assunto e, pelo que li, sei que ele é
Procurador da Fazenda. Foi isso que eu li. Teria uma ação junto ao chamado
Conselhinho, inclusive tem uma matéria do Valor que fala sobre a questão
dos votos favoráveis ou desfavoráveis e vi também na imprensa que existiria um
pagamento das empresas, não sei se pessoal, do Marcos Valério para ele. É o
conhecimento que tenho sobre esse assunto.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Teria alguma informação de que havia algum processo ou alguns processos
referentes ao Banco Rural, que estavam sob a relatoria dele?
A SRª KÁTIA RABELO – Não, eu tenho conhecimento de
alguns processos administrativos que foram oriundos do Banco Central e, pelo
que eu consigo entender, esses processos, uma vez julgados no Banco Central,
existe um recurso chamado Conselho, que é composto por membros de entidades
públicas e privadas. Sei que houve alguns vários julgamentos de processos do
Banco Rural nesse conselho e sei que houve penas variadas. Eu sei que o Banco
Rural foi condenado em algumas, não é um assunto que eu tenho de cabeça o
resultado de cada um deles, mas eu posso levantar e enviar.
Agora, eu desconheço qualquer participação dessa pessoa
nesses nossos processos. As pessoas que eu sei que atuavam nesse processo eu
conheci num caso uma advogada, a nossa advogada a Drª Ariadna, e sei que teve
um diretor nosso que fez a defesa oral. Parece-me que a apresentação da defesa
é feita de forma oral, não sei se sempre, mas me parece que essa defesa já foi
feita uma vez por um diretor do Banco.
É isso que eu sei sobre o assunto Conselhinho e esse
assunto.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Reitero essa solicitação, até para, porque nós solicitamos ao Banco Central com
relação a todos os julgamentos, particularmente os que envolvam a presença
desse Procurador, Dr. Glênio.
A SRª KÁTIA RABELO – Perfeito, isso nós podemos
enviar a cópia, quer dizer... não sei se a gente tem a cópia dos processos, mas
enfim... temos, né? Dos processos administrativos e do que estiver em poder do
banco relativo a esses julgamentos.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – V. Sª ou o Banco possui alguma relação com a
Corretora Bônus Banval?
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Com a
RS Empreendimentos, que recebeu recursos da citada corretora?
A SRª KÁTIA RABELO – RS Empreendimentos?
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E Participações.
A SRª KÁTIA RABELO – E Participações. É isso, Ayana?
É porque existem várias empresas com o mesmo nome de RS, então eu nunca sei de
quem se está falando. Eu vou dizer qual a RS que eu conheço e de que nós, o
Banco Rural, é sócio, tá? Nós somos sócios de uma empresa que trabalha com
crédito consignado que se chama RS, essa empresa na verdade foi criada a partir
da compra de uma empresa que tinha sede no Rio de Janeiro, chamava-se GNPP, é
uma sociedade entre o Grupo Rural e o Grupo Séculus. Então é a empresa RS que
eu conheço. Da qual o Banco Rural é sócio.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
O Banco Rural, não a senhora pessoa física?
A SRª KÁTIA RABELO – O Banco Rural, eu não, eu não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E é sócio dessa empresa o Sr. Haroldo Bicalho?
A SRª KÁTIA RABELO – O Sr. Haroldo Bicalho foi sócio
dessa empresa.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – A senhora não lembra as datas de entrada e
saída?
A SRª KÁTIA RABELO – Não, não lembro, até porque o
Sr. Haroldo é um relacionamento, quer dizer, ele entrou para a sociedade
através do relacionamento dele com o Grupo Séculus, e saiu também da mesma
forma. Nós não tivemos participação nesses acordos de entrada e saída do Sr.
Haroldo.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Essa
empresa, esse Grupo Séculus, a senhora poderia dar mais alguma informação sobre
esse grupo?
A SRª KÁTIA RABELO – O Grupo Séculus trabalha com
relógios, com jóias, e a informação mais importante que eu tenho da área de
atuação.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
No Rio de Janeiro?
A SRª KÁTIA RABELO – Não, não, em Belo Horizonte. A confusão é
porque essa empresa, a RS, veio de uma empresa que tinha sede no Rio de
Janeiro, que se chamava GNPP e a gestão da RS esteve, desde então, a cargo do
grupo Séculus.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Mas o
grupo Séculus nunca trabalhou com crédito ou no mercado financeiro.
A SRª KÁTIA RABELO – Recentemente, me parece que eles
compraram um banco.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
A senhora não lembra o nome.
A SRª KÁTIA
RABELO – Banco Emblema.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Emblema.
V. Sª conhece Antonio Oliveira Claramunt, Toninho da
Barcelona.
A SRª KÁTIA RABELO – Não. Desculpe.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Segundo investigações desta Comissão ele recebia recursos da MTB e repassava a
Bonus Banval*.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu não conheço essa pessoa.
Obviamente que eu li nos jornais sobre ele, mas eu não o conheço.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Qual o destino dos recursos recebidos pela RS Empreendimentos da Barcelona Tour
e da 2S Participações, por intermédio da Bonus Banval?
A SRª KÁTIA RABELO – Acredito que essa empresa não
seja a empresa da qual a gente é sócio. Então, não tenho a menor idéia.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Porque a informação que nós temos dessa RS também de Belo Horizonte e que teria
recebido recursos através dessa empresa Barcelona Tour e da 2S Participações, e
com essa relação, via Bônus-Banval.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu não tenho conhecimento dessa
informação, Deputado.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Essa empresa também, a ES Empreendimentos e Participações, contratou também o
escritório Tolentino e Melo, em 2004, para consultoria tributária?
A SRª KÁTIA RABELO – Não saberia dizer.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
A senhora poderia eventualmente...
A SRª KÁTIA RABELO – Se essa empresa for a mesma da
qual nós estamos falando, com certeza, eu consigo esse documento.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Eu pergunto se tem, enfim, alguma relação e algum esclarecimento sobre algumas
empresas. Primeiro, a Rural International Bank e Banco Rural Europa.
A SRª KÁTIA RABELO – Sim, Rural International Bank e
Rural Europa são duas subsidiárias do Banco Rural. O Banco Rural Europa é um
banco europeu, regido pelas leis da Comunidade Européia, fiscalizado pelo Banco
Central Português. Uma fiscalização consolidada com o Banco Central do Brasil e
é um banco de 20 milhões de patrimônio.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
O Rural International...
A SRª KÁTIA RABELO – O Rural International Bank é um
banco sediado em Nassau, e não tenho os números de cabeça, porque tenho
dificuldade de guardar, mas eu posso também levantar. E também auditado pela
mesma auditoria que nos audita aqui, que é a Deloitte, e também fiscalizado
pelas autoridades do Banco Central das Bahamas.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Com o Trade Link Bank?
A SRª KÁTIA RABELO – Temos uma relação comercial de
longa data com o Trade Link Bank.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Mas há sociedade do Rural com essa empresa?
A SRª KÁTIA RABELO --Não há sociedade do Rural com o
Trade Link Bank.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – E a
relação comercial é de que natureza?
A SRª KÁTIA RABELO – O Trade Link Bank, assim como
vários outros bancos estrangeiros, empresta dinheiro para o Rural, financia
operações de comércio exterior, principalmente operações de exportação.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Vou mencionar algumas aqui: SMP&B Bank Corporation?
A SRª KÁTIA RABELO – Vou repetir para ver se entendi
bem.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
SMP&B.
A SRª KÁTIA RABELO – Bank Corporation? Nunca ouvi
falar.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
SM Import e SM Comex?
A SRª KÁTIA RABELO – Também nunca ouvi falar. Só
queria frisar que eu não conheço, naturalmente, o nome de todos os clientes do
banco. Então, pode existir algum cliente que é exportador e que tenha esse
nome, que realmente eu não conheço. Não tenho, enfim, o nome de todos os
clientes do banco de cabeça.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Só para dar clareza, essas empresas, em algum momento, apareceram com conexão
não com importação e exportação, mas com relação à remessa de recursos para o
exterior nessas operações que estão sendo investigadas pela CPMI.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu não conheço essas empresas.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Radial Enterprise?
A SRª KÁTIA RABELO – Radial Enterprise... aí tem
outro problema de coincidência de nomes. Existe uma empresa que pertence ao
nosso grupo que se chama Radial Participações, eu não vou saber dizer. Não é
isso? É Radial Participações, porque o banco, dentro do seu estatuto, não pode
ter imóveis, então os imóveis que seriam, no caso, em nome do banco ficam em
nome dessa empresa. Essa Radial Enterprise, eu não conheço, não temos nenhuma
relação.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Kanton Business Corporation?
A SRª KÁTIA RABELO – Não conheço.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – RS
Administração e Construções? Pode ser uma confusão nos nomes.
A SRª KÁTIA RABELO – Também não conheço.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – O
banco tem alguma relação com Antônio Kalil Cury?
A SRª KÁTIA RABELO – Não conheço... Não me lembro do
nome dessa pessoa.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Jader
Kalid Antônio?
A SRª KÁTIA RABELO – Conheço esse nome e sei que é
uma pessoa conhecida em Belo Horizonte. Relacionamento social com pessoas do
banco. Parece-me que ele é advogado em Belo Horizonte. Já ouvi falar outras
denúncias contra ele na imprensa, mas a informação que eu tinha sobre ele é que
ele seria advogado.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – O
Banco Rural fez pagamentos para alguém no exterior, a pedido do PT?
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Fez
algum pagamento no exterior a pedido de Marcos Valério?
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Algum
pagamento no exterior a pedido de Duda Mendonça?
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Por
que aparecem, na remessa de recursos para a Conta Dusseldorf, num determinado
momento, operações via Banco Rural Europa? São operações absolutamente
distintas do Banco Rural Brasil?
A SRª KÁTIA RABELO – O Banco Rural pode afirmar e eu
afirmo que o Banco Rural não fez nenhum pagamento para a Conta Dusseldorf, ou
seja, não saiu nenhum dinheiro do Banco Rural para essa conta. Agora, algum
cliente do Banco Rural Europa pode ter, sim, enviado dinheiro para essa conta.
Essa informação é sigilo bancário lá. Para eu tornar pública essa informação,
teríamos de quebrar o sigilo lá.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Qual
a razão do empréstimo ao PT? Quem solicitou esse empréstimo?
A SRª KÁTIA RABELO – Eu tive conhecimento desse
empréstimo ao PT depois que ele já tinha sido feito. A pessoa que...
(Tumulto no plenário da Comissão.)
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Qual
a data em que a senhora tomou conhecimento? Lembra?
A SRª KÁTIA RABELO – Eu só não sei o que eu devo
fazer...
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Não
tem problema. Foi uma observação da Senadora. Qual a data em que a senhora teve
conhecimento do empréstimo? Não a data do empréstimo.
A SRª KÁTIA RABELO – Não me recordo da data
precisamente, não.
(Tumulto no plenário da Comissão.)
O empréstimo é de quando, Ayana?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – O
empréstimo é de 12 de agosto de 2003.
A SRª KÁTIA RABELO – O que eu queria dizer a
respeito, que acho importante, é que o valor era um valor consideravelmente
pequeno em relação aos ativos do banco na época. Então, não seria – vamos dizer
– importante eu saber desse empréstimo. Foi tratado como um cliente como outro
qualquer.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – O
banco já tinha emprestado dinheiro alguma vez para o PT?
A SRª KÁTIA RABELO – Não que eu saiba.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Emprestado para algum Partido político?
A SRª KÁTIA RABELO – Não tenho conhecimento.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Por
que lhe chamou atenção esse empréstimo?
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade, ele não me chamou
atenção, porque eu fiquei sabendo depois, num comentário en passant do
José Augusto comigo, se haveria algum problema pelo fato de ser um Partido
político. Achei que não deveria ver nenhum problema.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Quem
solicitou o empréstimo em nome do PT?
A SRª KÁTIA RABELO – Eu corro o risco de não estar
sendo... Não tenho segurança nessa resposta, porque eu não participei. Foi o Zé
Augusto que fez esse empréstimo. Mas imagino que tenha sido o Delúbio, mas
estou fazendo inferência, uma coisa que eu gostaria de não fazer.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – A
senhora o conhece?
A SRª KÁTIA RABELO – Conheço.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Esteve com ele nesse período ou não?
A SRª KÁTIA RABELO – Eu estive com ele em 2004.
Estive com ele no enterro do Zé Augusto e estive com ele, depois, mais uma vez.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Como
foi o primeiro contato? Ele se apresentou à instituição ou ele foi levado por
alguém?
A SRª KÁTIA RABELO – Ele foi levado pelo Marcos
Valério.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – O
Marcos Valério já tinha relações anteriores com a empresa?
A SRª KÁTIA RABELO – Sim.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Quais
as garantias que foram dadas a esse contrato?
A SRª KÁTIA RABELO – O contrato do PT?
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Do
PT.
A SRª KÁTIA RABELO – Pode ver, Ayana?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Um aval, onde os avalistas do contrato
primário eram o Delúbio, o José Genoino e, no primeiro contrato, o Marcos
Valério. Logo depois, houve uma reforma no contrato e passou a ser Delúbio
Soares e o Genoíno. Queria só fazer uma correção: a data do primeiro contrato é
14 de maio de 2003. Só que como a gente trabalha numa modelagem onde os contratos
têm prazos curtos, eles giram a prazos curtos, então, a data do primeiro
vencimento desse contrato foi 12 de agosto de 2003. Por isso que está com essa
data de 12 agosto.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – E
esses avais são comuns?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – São comuns. É uma das
formas de dar empréstimo entre o banco é através de avalistas ou carta de
crédito, aí vai, de acordo com a operação.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Mas
pelos bens dos avalistas, conforme a quebra do sigilo fiscal que temos, é
suficiente para a garantia de um contrato dessa natureza?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Deixa eu só aprofundar
um pouco, Gustavo, um pouquinho só.
Nesse empréstimo especificamente foi efetivamente só o aval,
o aval dos dois, na realidade são três: o Marcos Valério, o Genoíno e o próprio
Delúbio, que estavam entrando como avalistas da operação.
A SRª KÁTIA RABELO – Acho importante, se V. Exª
permitir, que as empresas do Sr. Marcos Valério tinham uma movimentação
expressiva e tinham realmente condições financeiras de, ele como avalista, como
sócio dessas empresas, tinha condições financeiras de arcar com esse aval.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Mas
depois ele foi retirado do aval, não é?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Houve uma renovação e
ele saiu do aval. Acho que, nesse ponto que a Kátia está colocando, é até muito
importante a gente colocar a questão da SMP&B, não só a SMP&B, mas o
grupo SMP&B – porque, na realidade, são seis empresas que estão relacionadas.
Para se ter uma idéia, os dados que estão disponibilizados em nível de
informação hoje aqui com a CPMI, durante o período de 2000 até 2005, houve
movimentações da ordem de R$ 500 milhões nas contas do cliente SMP&B, mais
DNA, mais Grafitti, que é um grupo de empresas.
Então, é muito engraçado, porque quando a gente está fazendo
a avaliação dessa corporação e dessa história toda, a gente consegue separar
muito bem a questão política da questão empresarial. Porque essa empresa
começou conosco há mais de dez anos e tem uma história de vida conosco que é
extremamente sólida. E isso justificou, na realidade, para nós que estávamos
administrando efetivamente a empresa, de enxergar esse cliente como um cliente
e acompanhá-lo e prestar serviços que estão relacionados a esse aspecto.
Então, o fato de o Marcos Valério entrar de alguma forma
como avalista junto com dois outros representantes, no caso desse contrato,
teve validade efetivamente de aval, aval como garantidor da operação de três
milhões. Três milhões é uma operação, teoricamente, para a gente, em termos de
volumes, à época, que não representa uma operação significativa.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Mas, nesse momento, o Marcos Valério, quer dizer, já apresentou o Delúbio e foi
já a partir desse momento que ele se dispôs a fazer esse papel de facilitador
junto ao Governo Federal?
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade o Marcos Valério
teve uma relação com o José Augusto Dumont anterior a essa data. Ele já era
cliente do banco e os dois tinham uma proximidade muito grande, tinham
negócios, enfim, o José Augusto fazia empréstimos já para ele, pessoa física,
parece-me que antes disso. Na verdade a SMP&B já era cliente há alguns
anos, anteriormente. Então, nessa época, parece que ele começou a ter um contato
com Delúbio, não sei se ele já tinha contato antes, e de fato ele se tornou
esse facilitador numa interlocução.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Qual o saldo devedor hoje desse empréstimo? Ele está sendo executado?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – O contrato do PT, na
realidade, está vencendo no dia 12 de setembro de 2005. Então, nesse momento,
não existe... desculpe... Ah, venceu ontem, ok? Então, 12 de setembro de 2005.
Normalmente, pelos procedimentos nossos, a gente tem 30 dias para entrar em
procedimento de execução, ok?
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– E o saldo devedor?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – E o
saldo devedor: 6 milhões, 563, 904.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Quinhentos...?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – 563,
904.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Com relação aos empréstimos do Sr. Marcos Valério, quer dizer, no período de
2003 a 2004, foram quantos empréstimos realizados?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Ok.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Do Banco Rural às empresas dele?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Tenho
aqui, na realidade, um histórico da empresa inteira durante todo o período em
que ele era cliente nosso e que, ao todo, entre cartas de fiança, empréstimos,
mútuos, contas garantidas, num vulto do que eu acabei de colocar com relação ao
cliente, ao todo, em torno de 19 empréstimos.
Hoje, efetivamente, temos quatro contratos que estão em
processo de execução.
Você quer saber exatamente...
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Depois, se puder os identificar...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Posso,
posso identificar. Há dois deles que são os mais efetivos: o empréstimo da
SMP&B, um empréstimo no valor de 19 milhões, que foi tomado no dia 26 de
maio de 2003, em que o último valor é de 38 milhões, 491 mil, o valor ajuizado.
Então, esse é o valor que está efetivamente na ação. É um
processo em que, nesse caso, as taxas são normais. Todos os contratos da
SMP&B têm taxas normais. Esse, por acaso, é CDI mais 12%. E esse contrato,
especificamente, tem três tipos de garantias que estão vinculadas a ele
diretamente. O Cristiano, o Ramon e o próprio Marcos Valério são avalistas,
como modelagem normal nossa.
Existe um termo garantidor da DNA como devedor solidário –
inclusive, nesse caso, se co-responsabilizando, no caso de ser devedor
solidário; existe um domicílio bancário do Banco do Brasil se comprometendo a
pagar o que devia à DNA, via Banco Rural. É uma forma que a gente teria, além
do contrato que a gente tem como garantia, que é o contrato junto ao Banco do
Brasil, que também foi anexado.
Para a gente, essas três garantias – que são os três
avalistas, mais o termo garantidor, mais o domicílio bancário –, são formas de
a gente efetivamente servir de aval dentro desse procedimento.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Só uma pergunta: esse é um dos contratos que ele alega que foi contraído
junto ao Banco Rural para repasse às pessoas indicadas pelo Delúbio?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Esse...
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– O Banco Rural tinha conhecimento disso?
A SRª KÁTIA RABELO – Esse é um empréstimo que foi
tomado junto à SMP&B.
Kátia, você quer completar?
A SRª KÁTIA RABELO – Quero.
É difícil responder. O Banco Rural tinha conhecimento. Toda
vez que a gente tenta falar disso, fica muito difícil, porque, na verdade, é
uma entidade. Nós temos que falar das pessoas.
Eu tive conhecimento de que o Sr. Marcos Valério teria
disponibilizado esses recursos, de acordo com as orientações do Sr. Delúbio,
depois da morte do Dr. José Augusto Dumont.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– E seria com relação só a um empréstimo?
O SRª KÁTIA RABELO – Não. Aos dois
empréstimos, porque – Ayana me ajuda! – são dois empréstimos...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – São dois empréstimos.
A SRª KÁTIA RABELO – Um é SMP&B e
outro é Graffiti.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Isso.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Eu só ia pedir uma gentileza. Antes de falarmos no outro...
A SRª KÁTIA RABELO – Pois não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Nessa garantia do Banco do Brasil, houve uma autorização expressa do
Banco do Brasil para a utilização desse contrato?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – O que
tenho efetivamente é uma autorização de domicílio bancário, em que o Banco do
Brasil se compromete a pagamentos da DNA serem feitos no Banco Rural. E, no
contrato, existe ele como anexado, mas existe uma cláusula, de fato, no
contrato que não nos autoriza a usar isso como garantia efetiva.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– E isso fere alguma norma bancária?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Não fere
nenhuma norma bancária, não existe nenhuma ilegalidade, porque as outras
garantias que tenho... E acho que, mais importante do que isso, Deputado, é
caracterizar que esse cliente tem história junto ao banco extremamente sólida.
Quer dizer, a relação com a empresa SMP&B e com todas as suas coligadas não
é uma relação que começou em 2000, mas uma relação que tem em torno de dez anos
dentro da companhia.
Então, é muito engraçado, porque a gente consegue separar
fortemente essa questão do processo efetivo que a gente está discutindo desse
cliente que tem uma história efetivamente muito sólida junto ao banco.
Quando ele nos solicitou o dinheiro, nós fizemos alguns
estudos. Então, só para se ter uma idéia dos montantes que a gente está
falando: desses 525 milhões, que é um número que a gente fala dos cinco anos de
convivência das diversas empresas – então, são seis empresas que nós, aqui,
estamos tratando, efetivamente, vinculadas ao Sr. Marcos Valério – só 36
milhões dizem respeito a origens de empréstimo.
Então, um empréstimo para uma empresa que tem uma história
efetiva conosco de crédito e de transações, de uma forma muito mais ampla, como
ele tinha e como nós víamos, a título de cliente, esse valor de 19 milhões, que
estava sendo concedido, não é uma coisa que fugia aos padrões normais de uma
operação de crédito com um cliente natural.
Acho que esse é um ponto importante que observamos na
perspectiva de cliente, porque acho que é muito importante a gente separar os
clientes, porque, na realidade, estamos falando da SMP&B, da DNA, da
Graffiti e das outras empresas que, de alguma forma, estavam vinculadas a essa
corporação.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Existe algum processo administrativo do Banco Central em função desse contrato
de empréstimo?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Não
existe nenhuma ação.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E com relação ao outro contrato?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – O outro
contrato... É uma parte só. Esse contrato, na realidade, agora inclusive
fizemos o provisionamento dele, após todo o fato, mas nada que chamasse a
atenção como uma operação fora dos padrões.
A gente sempre fala de padrões normais. Quando falamos de
padrões normais, isso é característica cotidiana. Acho que é importante
separar, porque esse termo é muito técnico. Quando a gente fala em “operações
normais”, é qualquer operação em que existe um comportamento que não foge aos
padrões e que, de alguma forma, chame a nossa atenção.
Então, não só essa operação, mas essa outra, da Graffiti, é
uma operação que, neste momento, devido a toda essa discussão geral, foi
provisionada. É um dos créditos que, agora, foi supervisionado, neste momento,
na apresentação dos resultados do balanço.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E foi publicado?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Foi
publicado. A Graffiti e o valor do empréstimo. Acho que esses dois são os mais
importantes: o empréstimo da SMP&B, de 26 de maio de 2003, no valor de 19
milhões, que, hoje, são 38 milhões, 491.
Esse é o valor ajuizado. Então, está lá como processo. E a
Graffiti, em que o valor é de 10 milhões, na origem, e a data do empréstimo é
12 de setembro de 2003. No dia 16 de agosto de 2005, que é quando foi ajuizado,
é de 17 milhões, 409.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E esses contratos, durante a execução, foram renegociados ou não?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Eles
sofreram renegociações, em algumas situações, e houve renovações que fazem parte
da história normal dessas operações.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Até seria possível, depois, talvez, o Reginaldo identificar, naquelas relações
que nós temos, quais são os empréstimos que se referem à renovação ou...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Existe
uma relação, que é esta que tenho aqui, que está disponibilizada e que foi
encaminhada para os senhores. Todos os empréstimos estão colocados, inclusive
com as garantias.
Esse documento tem a cédula, o tomador, o CPF, o avalista, a
garantia, o tipo de liquidação – se está liquidado ou se está renovado. Tem
toda uma especificação extremamente detalhada de todos os empréstimos. E o mais
importante: essa relação não tem só esses contratos, mas ela tem, inclusive,
todas as operações que, de alguma forma, o Marcos Valério entrou como avalista,
como aval. Há outras em que ele é, na realidade, avalista, mas não
necessariamente...
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E, considerando esse histórico dele, outras vezes ele deixou também de pagar
empréstimos bancários ou não?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES –
Deputado, está aqui: 19 milhões, 034 mil, 296; valor ajuizado: 38 milhões, 491
mil. 22 de junho de 2005.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Esse é o primeiro?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Esse é o
primeiro: 19 milhões; e o segundo, 10 milhões.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E, considerando o histórico dele, quer dizer, em algum momento, ele deixou de
pagar outros empréstimos?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Não,
não. Ele tem um comportamento em que ele liquida, ele paga.
Então, você vai ver vários outros que estão aqui que tem
liquidação. Você vai entrando na operação dele e verifica que ele, então, tem
empréstimos liquidados. Historicamente, ele tem questões de renovação e
questões de liquidação.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E já foram ajuizadas outras ações de cobrança contra ele?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Temos,
hoje, ajuizado com ele, esses três – acho que são três que temos ajuizado hoje:
um é da SMP&B, um da Graffiti e um dele, pessoa física, inclusive, que
também está sendo ajuizado neste momento. Existe uma negociação estratégica que
também foi ajuizada. São quatro que, neste momento, são ajuizados. E existe um
contrato em que foi feita uma negociação junto à DNA, que é um outro contrato.
Há uma ação judicial, inclusive com negociação vinculada.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
E ele, depois, recebeu novos empréstimos?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Ele tem
história, como cliente; e não é ele, mas as empresas dele. Acho muito
importante a gente separar. Existe ele, como cliente e pessoa física, e existe
ele como o dono das empresas, em que ele entra como avalista ou como aval, que
é a característica...
A SRª KÁTIA RABELO – Como sócio ou como avalista.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Ou como sócio, ou como
avalista.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – E há
expectativa de o banco receber esses recursos?
O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Sr. Presidente, me
permita só...
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Por
favor, Senador César Borges.
O SR. CÉSAR
BORGES (PFL – BA) – ...insistir
nessa pergunta de V. Exª: há outras ações que foram ajuizadas, no passado, com
relação às empresas? Um grupo, SMP&B, DNA etc. do Sr. Marcos Valério? Quer
dizer, é uma tradição, uma operação dele com o banco também, na sua ficha junto
com o banco de negócios, ter outras ações ajuizadas?
Foi o que o Presidente perguntou e não foi respondido com
clareza.
Obrigado, Sr. Presidente. Desculpe-me!
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Senador, aqui, tenho
19 créditos que foram concedidos a Marcos Valério. E o mais interessante: das
seis empresas dele – só as empresas; aí não estou incluindo ele, como cliente,
ou os sócios dele, como clientes, ou qualquer relação que ele tenha a mais –,
são dezenove empréstimos que foram feitos ou fianças, ou cartas de crédito, ou
contas garantidas, que possam ter sido concedidos a ele, como empresa, e,
desses, só tenho cinco, hoje, que estão em processo. Então, todos os outros...
E temos um caso, que é o da DNA, cuja documentação,
inclusive, também foi disponibilizada aos senhores, porque foi solicitada. É um
processo anterior, um crédito concedido. Esse, inclusive, foi negociado na
Justiça.
Mas o importante colocar é o seguinte: temos 19, ao todo, na
história dele – das quatro empresas somente, é importante colocar isso. E,
desses 19, em que a DNA é uma das empresas que está aqui, dentro da minha
lista, temos um caso com eles, que é o processo de 1998, com o qual houve uma
negociação judicial que finalizou o caso.
Dos 19, um foi ajuizado, e, agora, tenho mais quatro numa
situação específica.
A nossa crença – Kátia, por favor, complemente – é que ele,
como cliente, pagaria. Essa é a nossa crença e era assim que a gente discutia.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Sr. Presidente,
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Sim, Senador Rodolpho
Tourinho, por favor.
O SR. RODOLPHO
TOURINHO (PFL – BA) – Estou com uma dúvida em relação à pergunta
colocada pelo Senador César Borges. Só para haver muita clareza, porque acho
que é muito importante: essa questão de terem sido concedidos empréstimos,
quando já se tinha uma ação executiva em andamento. A senhora confirma isso?
A SRª AYANA
TENÓRIO TORRES – Sim.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) –
É de 1998 essa ação?
A SRª AYANA
TENÓRIO TORRES – Essa é uma ação de 98 que foi finalizada em 2003.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – E, mesmo com essa ação em andamento,
depois foram concedidos empréstimos com garantias frágeis, no meu entendimento?
A SRª AYANA
TENÓRIO TORRES – Eu queria voltar, mais uma vez. Acho que é complicado, mas
é importante a gente frisar isso.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) –
Não, não é complicado, não. Eu só queria que a senhora confirmasse ou não.
A SRª AYANA
TENÓRIO TORRES – Com o maior prazer.
De 2000 a
2005, a gente está falando em movimentação em torno de 525 milhões, já, de
alguma forma, excluindo as renovações. A gente teve até o cuidado de tirar
aquilo que parecia não dinheiro novo, mas dinheiros reais. Isso é uma coisa
importante. A gente tem tido muito cuidado para ser muito pragmático.
Nós somos
surpreendidos, de alguma forma, com essa coisa toda, porque essa entidade, essa
SMP&B era vista como uma cliente.
Então,
como cliente... É interessante! A gente tem uma empresa que tem 525 milhões em
movimentações; 250 milhões só de teds e docs, vindas de grandes corporações,
que entravam, de alguma forma, na história dessa empresa. Duzentos e cinqüenta
milhões de docs e teds que vinham de outras corporações; na realidade, dinheiro
que vinha diretamente do mercado por meio de docs e teds. Na realidade, essas
formas são oficiais de transferência de dinheiro.
Então,
esse cliente, como cliente, não tem características que chegassem a você botar
uma luz vermelha para acompanhá-lo de uma forma técnica, OK? De uma forma
técnica.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Mas há expectativa de recebimento
desse recurso?
A SRª AYANA
TENÓRIO TORRES – Há expectativa.
Você quer
completar, Kátia?
A SRª
KÁTIA RABELO – Quero.
Eu acho que o Banco Rural trabalha, e cresceu, e se
posicionou no mercado dentro de uma modelagem em que existe um relacionamento
muito próximo com o cliente. Então, às vezes, o cliente passa por uma situação
de dificuldade, você faz um acordo com o cliente, e esse cliente, por algum
motivo do negócio dele, a empresa dele volta a crescer, a empresa dele passa a
ter condições de pagar. E o fato de você ter tido que fazer um acordo com ele
no passado não impede que você volte a trabalhar com ele no futuro, desde que a
empresa – o cliente, que a gente chama de empresa – tenha demonstrado
capacidade financeira de arcar com aquele débito.
Então, a percepção é de que essas empresas tinham capacidade
– acho que qualquer pessoa que analisar a movimentação financeira das empresas
vai concordar que as empresas tinham, sim, capacidade financeira de arcar com o
débito.
Agora, concordo com o fato de que as garantias eram frágeis.
Aí acho que entra muito do estilo do José Augusto de administrar. Havia muito
aquela coisa da confiança na pessoa, enfim, era o estilo dele administrar.
Como eu disse no meu texto, acho que, muitas vezes, o Banco
Rural recebeu de vários devedores sem, talvez, uma garantia ou um contrato; uma
formalização às vezes frágil, mas em função de um relacionamento em que o Banco
tinha sido parceiro no passado e, naquele momento, às vezes o cliente preferiu
pagar o Banco do que um outro credor em função de um relacionamento.
Então, isso é uma característica do Banco Rural até então.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Sr.
Presidente...
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Pois
não, Senador.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Queria confirmar, por favor. Eu queria
voltar porque não entendi.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Pois
não.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Essa questão
desse empréstimo de 98, ele continua em execução?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Não,
não, ele foi fechado, foi feita uma negociação.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Qual é o
valor que seria?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Em 2003,
ele era um valor de 9 milhões, na origem.
Na realidade, não houve um sigilo quebrado, referentemente a
98 a 2000. Esse processo está na mão da CPMI. Todo o processo foi entregue como
prova documental e, dentro desse período todo, ao final, houve o fechamento da
negociação no valor de 2 milhões.
No entanto, houve diversas outras. Como é um contrato de
longo prazo em que foram feitos...Porque é assim: no contrato da DNA, tivemos o
problema com ele. Foi havendo várias negociações e, durante as negociações,
eles iam pagando parte desse dinheiro.
Então, existem pagamentos que foram feitos na época, durante
o período de negociação. Isso está tudo descrito na documentação. Ao todo,
recebemos 7 milhões e alguma coisa efetivamente, desse valor de 9, e há taxas
que eram bastante expressivas naquele momento, em torno de 59% ao ano.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Então, houve aí, no
caso, uma perda?
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Houve uma perda.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Com clientes. Houve uma perda e foi
preciso recorrer à Justiça para se buscar... Mesmo assim, vocês emprestaram
valores de 19 milhões, valores de origem, mais 10. Cerca de 30 milhões.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Eu queria só voltar: de 2000 a 2002, circularam, a
crédito, nas contas das empresas de Marcos Valério, em torno de R$180 milhões.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – A senhora há de convir que circulação
de dinheiro, de TED, como a senhora se referiu, não é medida para concessão de
crédito, não é?
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – É, mas, na realidade, existe...
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – São medidas para avaliação do que passa
na conta.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Na realidade, a história bancária de um cliente
acontece pela forma como ele se comporta ao longo do tempo.
Então, em
2003, quando foi feito o acordo, eu não tinha uma ação pontual, de 1998, que
estava sendo feito um acordo em 2003.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Eu só não concordo...
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES DE JESUS – Mas um cliente que
tem...Respeito, por favor.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – ... quando V. Sª coloca que, em função
dessa movimentação... Movimentação em caixa não quer dizer absolutamente nada
para concessão de crédito. Para concessão de crédito, sim, o que interessa é a
história passada, que não era boa. Vocês perderam dinheiro para esse cliente.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Na nossa administração, na questão de
relacionamento com o cliente, vários aspectos são levados em consideração.
Eu
concordo, efetivamente, que o fato de o dinheiro passar na conta não significa
necessariamente um bom cliente, mas, sem dúvida nenhuma, o fato de ele ter
empresas de porte que, de alguma forma, dá fidedignidade àquela empresa e que
ele tinha uma história, uma empresa que tinha um acesso ao mercado efetivo, que
recebia premiações, que era a nossa agência há mais de oito anos, quer dizer,
tem toda uma relação que não é uma relação só de cliente, mas uma relação
também de um prestador de serviço, que tinha uma história junto a gente.
Então, a
separação acho que a gente faz por aí.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Deixa eu terminar só...
O SR.
PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Só vou fazer, depois, duas
perguntas rápidas, e já vou respeitar a inscrição, para evitar que...
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Não, só para encerrar, é o fato de o
Banco Central não ter pegado isso, porque ele deveria pegar esse outro
empréstimo de 19 e o de 10, ele já deveria ter ido em cima. É só isso.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Até
nós solicitamos ao Banco Central umas informações com relação a eventuais
processos nesse período, mas são duas bem objetivas, só para terminar, Drª
Kátia Voltando à questão da condição do Sr. Marcos Valério como facilitador:
além do contato com o Ministro José Dirceu, ele apresentou para outras pessoas
do Governo, defendeu ou prometeu defender alguns interesses do Banco Rural
junto ao Governo?
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– O empréstimo concedido para a Srª Maria Ângela Saragoza, que é a segunda
esposa do ex-Ministro José Dirceu, para aquisição do apartamento, foi
coincidência ou foi uma operação normal de crédito?
A SRª KÁTIA RABELO – A operação é absolutamente
normal. Inclusive, tenho os dados. A Ayana está com todos os dados dela, vem
sendo paga regularmente. É uma operação normal.
Agora, acho importante dizer que não posso afirmar, porque,
mais uma vez, vou ter que imaginar. Não faz parte do nicho do banco crédito
imobiliário. Então, imagino que talvez tenha sido um pedido do Zé Augusto.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– A senhora saberia ou teria idéia de quem pediu a ele?
A SRª KÁTIA RABELO – Vou ter que imaginar de novo,
tá? Imagino que o Marcos possa ter pedido. Não sei. Não acredito que o Zé
Augusto não tinha relacionamento com o Ministro José Dirceu para ele fazer um
pedido desses. Qualquer outra pessoa pode ter intermediado isso. Não é o foco
do banco, mas é uma operação absolutamente normal. Alguém deve ter sido o
intermediário desse empréstimo, que é normal.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Vou parar a minha intervenção aqui. Vou abrir a lista.
Pela ordem, concedo a palavra à Senadora Heloísa Helena.
Eu só pediria à senhora que, depois, nos deixasse esse
texto.
A SRª KÁTIA RABELO – Sim.
O SR. POMPEO DE
MATTOS (PDT – RS) – Por favor,
identifique a lista para nós para fazermos a leitura e nos prepararmos, pelo
menos psicologicamente.
O SR.
PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Senadora Heloísa Helena,
Senadora Ideli Salvatti, Deputado Pompeo de Mattos, Deputado César Borges,
Deputado ACM Neto, Deputado Murilo Zauith e o Senador Rodolpho Tourinho.
Increvo-lhe agora.
O SR.
POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Muito obrigado, Sr. Presidente.
O SR.
PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Senadora, V. Exª tem a
palavra.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Primeiro, cumprimento o Dr. Carlos Dias, a Srª Ayana e a Srª Kátia.
Como temos dificuldade de estabelecer a
onipresença, e há duas ou três CPIs funcionando também, e não estava anotado na
Ata, qual foi exatamente a data, o mês – um mínimo de precisão possível – em
que a Drª Ayana chega ao Banco Rural?
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – 12 de abril de 2004.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL –
AL) – 12 de abril de 2004.
A SRª
AYIANA TENÓRIO TORRES – Isso.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL –
AL) – E a Drª Kátia?
A SRª
KÁTIA RABELO – Eu não tenho de cabeça. Assumi a Presidência do Conselho
do Banco em 1999; deve ter sido em março, porque a minha irmã morreu em
fevereiro, no dia 26.
Fiquei um
tempo na Presidência do Conselho. Depois, fui para a Presidência Executiva,
parece-me que em 2001 – acho que foi em setembro, mas posso levantar esses
dados, se for importante.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL –
AL) – Está excelente. Se não foi essa data, poderá ser disponibilizado depois.
Drª Kátia,
todos nós da CPMI temos tentado fazer o exercício de nos relacionarmos,
especialmente diante de um momento complicado como este em que se encontra a
Nação brasileira. Sempre partimos do pressuposto de que os depoentes que aí
estão podem ser pessoas inocentes, que nada têm a ver com todo o banditismo
político e o grande esquema de corrupção de monstruosas ramificações, que é a
razão de existir desta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito.
Entretanto,
tenho certeza de que, se V. Sªs estivessem nos nossos lugares e estivessem
analisando toda a complexidade política, porque não é uma complexidade técnica,
há um esquema montado politicamente, e, para nós, fica mais difícil ainda
quando, digamos, se atribui, de alguma forma, a metodologia de relação do Banco
com o cliente a uma pessoa que aqui já não mais está – uma pessoa que morreu –,
então, fica muito difícil identificar qual o procedimento que essa
personalidade fazia frente aos seus clientes.
Mas a situação é muito grave, Drª Kátia. Aí, sinceramente,
fico fazendo um exercício para tentar descolar V. Sª do conhecimento dessa
operação tão grande que foi estabelecida no Banco Rural. Por quê? Porque eu não
consigo ser convencida sobre a história do passado, dos 500 milhões de
movimentação até especialmente numa empresa de publicidade, em que o órgão
público pode depositar R$100 mil e que, desses R$100 mil, R$95 mil são
retirados para pagar rádio, televisão, empresas – se é que foram pagos. Se não
o foi, ninguém sabe.
Veja onde o Banco Rural está inserido nesse gigantesco
esquema de corrupção, que é a razão de existir desta Comissão Parlamentar de
Inquérito. O que a CPMI analisou?
Primeiro, o Banco Rural aparece em uma situação muito,
muito, muito ruim, porque está envolvido em associação com doleiros, em remessa
de dólar para o exterior – que vai ou não para a conta de Duda Mendonça –, em
crimes contra a Administração Pública, em intermediação de interesse privado,
em exploração de prestígio, em tráfico de influência, em corrupção ativa e passiva.
Em um dos contratos feitos pelo Sr. Marcos Valério para
supostamente emprestar ao PT, ele introduziu, como garantia, a cópia de um
contrato dos Correios, no qual ele – o Sr. Marcos Valério – encaminha ao gestor
administrativo do contrato uma autorização para que o recurso desse contrato
com os Correios fosse depositado no Banco Rural. O recurso nunca foi depositado
no Banco Rural. O gestor administrativo depositou em outro banco, e o Banco
Rural, que tinha, como garantia de um desses contratos, o contrato dos
Correios, acabou também não fazendo absolutamente nada. Absolutamente nada!
O esquema montado é tão desprezível, que fazemos esforço
gigantesco para acreditar que tudo se tratava da modelagem do banco, do
relacionamento muito próximo do cliente, de que o banco entendesse a capacidade
financeira do cliente em arcar com o seu débito.
Sem nenhum preconceito com as instituições de crédito –
embora saibam todos exatamente o que penso delas no mundo capitalista –, sem
nenhum preconceito, não é possível mesmo imaginar modelagem com algum tipo de
cliente, com muito vinculação política. É como se fosse caridade ou
filantropia.
O pior é que a análise dos faxes que saíam das agências do
Banco Rural era tão sórdida, Srª Kátia! Lindo dia, Fulano de tal providencia um
carro-forte, e o pessoal da DNA ou de não sei quem vai lá. Quando chegavam ao
banco, a senha era “vim buscar a encomenda”. Uma vez, um veio buscar a
encomenda de 50 e saiu com 200. É uma coisa muito estranha! Junto com tudo
isso, havia toda uma rede de corrupção montada. Depois, há os indícios
relevantes apresentados pela imprensa no procedimento investigatório de que o
Banco Rural supostamente teria sido poupado pelo Sr. Mentor, na CPMI do
Banestado. Outras discussões são feitas, como a de que, supostamente, várias
outras contas teriam sido abertas no Banco Rural para, de alguma forma, acabar
possibilitando irrigar o esquema de mensalão que foi estabelecido.
O Sr.
Marcos Valério, de alguma forma, só pagava em dinheiro os empréstimos passados
ou pagava em serviços? Ele já pagou em serviços de publicidade para não pagar
exatamente em dinheiro? É muito difícil! Sinceramente, fica muito difícil
acreditar. Fica, realmente, muito difícil acreditar que o Banco Rural, não sei
exatamente quem, que ninguém soubesse de nada, não acompanhasse, de alguma
forma, a chamada saúde financeira da empresa, algo que possibilitasse a
história sólida do banco. Fica muito difícil.
Então, eu
queria que a senhora se posicionasse, aqui, como um Parlamentar que tem a
obrigação constitucional de fiscalizar os atos do Executivo, no caso
específico, ou as relações promíscuas estabelecidas com gangues partidárias,
com empresários apaniguados da estrutura do poder ou com instituições de
crédito. Se a posição estivesse invertida, como a senhora analisaria, segundo
as informações que estão disponibilizadas de alguma forma? Porque é evidente
que a senhora deve ter, até por uma questão de mecanismo de proteção da
instituição que representa, analisado tudo o que está sendo publicado, os indícios
relevantes que têm sido apresentados à opinião pública, porque não são mais
denúncias apenas, são indícios relevantes de crimes contra a administração
pública e uma articulação do Banco Rural para viabilizar coisas extremamente
desprezíveis, que eu nem gostaria mais de repetir, porque era uma coisa
realmente assombrosa. É, realmente, assombrosa.
Então, me
diga, Srª Kátia, outros detalhes que a senhora lembrar, outros detalhes. Como é
que a senhora soube? A senhora disse que soube do empréstimo depois da morte do
Sr. José Augusto*. Então, eu queria que a senhora pudesse detalhar para a gente
como é que foi isso. A senhora estava lá como uma empresária, como disse
anteriormente, mais dedicada à área da música, a outras áreas, mas como a
senhora, de alguma forma, acompanhava o funcionamento do banco? Como a senhora
analisava o Marcos Valério na relação com o banco? Exatamente quem contou, como
a senhora disse, se se preocupou ou não, na relação Marcos Valério, PT,
Delúbio, ou quem quer que seja? Se a senhora, por algum momento, ficou mais
tranqüila por achar que era uma relação com um Partido importante, o Partido da
estrutura de Governo ou não. Detalhe um pouco para nós essa – eu não queria
dizer o modus operandi – vivência de V. Sª no banco.
A SRª
KÁTIA RABELO – V. Exª me desculpa, eu estou com muita dificuldade de
ter... V. Exª fez muitas perguntas. Eu não sei... Eu queria ser objetiva,
porque...
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Mas tente. Eu sei, porque infelizmente
tem um horário ali e a gente fica olhando. Mas...
A SRª
KÁTIA RABELO – Pois é. Eu não sei o que é que eu respondo, né, assim...
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Mas comece a responder alguma coisa,
Srª Kátia.
A SRª
KÁTIA RABELO – Eu preciso saber o quê. Se a senhora puder ser um pouco
mais objetiva, por favor.
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Primeiro: se a senhora estivesse no
meu lugar, como a senhora estaria se sentindo? A senhora acharia que o Banco
Rural tinha feito o quê? Caridade? Ou era modelagem da relação, mesmo? Ou a
senhora estaria profundamente desconfiada da participação dessa instituição de
crédito num esquema gigantesco de corrupção? E, depois, detalhe um pouco sobre
como era o dia-a-dia de V. Sª, porque nós estamos fazendo um esforço
gigantesco, Srª Kátia, para tentar separar aqueles que podem ser acusados
injustamente e aqueles que, de fato, têm relação com o esquema de banditismo
político, que tem muitos setores econômicos e partidários envolvidos também, e
a gente fica fazendo um esforço muito grande.
Tenha certeza, Srª Kátia, que o nosso problema maior é
porque, às vezes, alguns sentam na tribuna da Comissão Parlamentar de
Inquérito, nos dão algumas informações, ou de forma lacônica, ou mais
detalhadas, mais ou menos sofisticadas, e depois a realidade é implacável e uma
quebra de sigilo se encarrega de desmontar tudo o que a pessoa disse. Então,
isso, por mais que a gente queira ter paciência, que é nossa obrigação também
tê-la, a gente vai ficando com dificuldade, porque a gente tenta acreditar no
depoimento de alguém e, depois, a realidade implacável, com as quebras de
sigilo, vai mostrando o contrário.
Então, que a senhora se posicione em relação a este momento,
ou se estivesse aqui ou como cidadã – como cidadã. Como a gente diz muito, as
mulheres e homens de bem e de paz insistem, mesmo que a realidade diga não, em
educar os seus filhos que é proibido roubar. Ou se estivesse como Parlamentar.
Ou diga para a gente como era a vivência no banco, porque precisamos saber.
A SRª KÁTIA RABELO – Perfeitamente. Vou tentar ser o
mais objetiva possível. A senhora falou em esforço grandioso. Tenho feito,
Senadora, um esforço grandioso na minha vida, nos últimos seis anos, à frente
do Banco Rural.
Como relatei aqui, perdi a minha irmã, que era presidente do
banco. Na época, nem diretora eu era, eu era superintendente de um pequeno
departamento de comunicação. Eu tinha, a minha vida inteira, me dedicado à
dança e eu vi, no momento da morte da minha irmã, uma missão. E essa missão que
eu vi não era com o dinheiro, para fazer os acionistas do Banco Rural ficarem
mais ricos, porque eu achava que, realmente, não era uma razão suficiente para
o sacrifício que foi e que é. Eu decidi me manter na presidência e assumir esse
lugar pelas pessoas do Banco Rural, porque o Banco Rural, Senadora, é uma
instituição financeira, mas é uma empresa formada por pessoas dignas, honestas,
extremamente trabalhadoras.
Eu peço desculpas se eu me exaltar, mas quando eu começo a
pensar nessas pessoas e no prejuízo que essas pessoas têm tido, fico
realmente... é difícil manter a calma. Do mesmo jeito que V. Exª está dizendo
que é difícil a paciência, tem hora que tem que ser, realmente, muita.
E quero dizer, correndo o risco de ser até culpabilizada de
alguma coisa - mas não importa, estou sendo muito sincera -, eu quero dizer a
V. Exª que acho realmente muito difícil para V. Exªs, para as pessoas em geral
e até para pessoas do meu relacionamento acreditar que nós não sabíamos o que
estava ocorrendo. É difícil, sim, e é por isso que estou muito feliz. Por um
lado, é muito difícil estar aqui, mas por um lado, estou muito feliz de poder
contar com a Drª Ayana. Eu brinco às vezes com ela, que ela não tem nada a ver
com isso, que tem um ano de banco, mas ela é uma pessoa que tem uma visão
lógica, que consegue fazer o trato da informação para nos ajudar a entender o
que aconteceu, porque fomos pegos de surpresa e à medida em que as notícias iam
caindo em cima de nós é que íamos correndo atrás de tentar entender o que
estava acontecendo.
Vou tentar. Já vou tentar admitindo que, de fato, é muito
difícil.
O primeiro ponto é: existem situações que são estanques,
elas não comunicam entre si, que é a situação do empréstimo, essa relação do
empréstimo, com essa pessoa, essa empresa que precisa de crédito e que tem uma
capacidade financeira, e que existe ali um relacionamento, e você acredita que
o cara, de fato, vai honrar esse empréstimo, ele está precisando e tal, e de
outro lado, o movimento do cliente enquanto cliente, no movimento diário da
empresa dele. Então, de fato a gente não enxergava os dois lados, a maneira que
foi feito.
Eu só queria fazer alguns comentários sobre
a fala da senhora: eu não sei de nenhum contrato dos Correios. Existe?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – É Banco do Brasil. O
contrato é o contrato do Banco do Brasil.
A SRª KÁTIA RABELO – É o contrato do Banco do
Brasil. Eu não sei nada de Correios, não sei nem o meu CEP.
Então, a maneira que era feito, era feito de uma forma que
eu, quando digo eu, a minha área interna responsável de acompanhar os saques, o
que a área percebia? Uma empresa que tinha capacidade, porque a principal
preocupação em relação à lavagem de dinheiro, a essa questão da idoneidade,
enfim, do recurso é a origem do recurso. Inclusive, foi muito curioso, porque
no dia em que saiu, em que vazou aquela matéria da ISTOÉ, que era o
relatório do Coaf, que o único que vazou foi o do Banco Rural, porque era o
único que existia, porque o Banco Rural foi o único que informou diariamente
essas movimentações, como manda a norma. Então, o Coaf e o Banco Central já
possuíam esse relatório há dois anos e o Coaf entendeu, Senadora, que aquela
movimentação era normal, como disse a Drª Ayana, por quê? Porque ela tinha um
padrão. Então, ela obedecia a esse padrão, esse padrão obedecia à capacidade
financeira. Os clientes que a agência tinha, ou seja, que essa empresa tinha
eram clientes sobre os quais não pairava nenhuma suspeita. Então, estávamos
muito tranqüilos quanto à origem do dinheiro.
Na verdade, o que a gente via? A gente via o saque, porque
eu não entendo muito, mas eu estudei um pouco para tentar entender o que estava
acontecendo, o saque era registrado na agência em Belo Horizonte e aí era feita
uma documentação entre as agências, mandando entregar o dinheiro. Na verdade,
existem duas formas que esse dinheiro...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Kátia, eu poderia
apresentar, se você quiser.
A SRª KÁTIA RABELO – Você quer apresentar?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Quero,
acho que vale a pena.
A SRª KÁTIA RABELO – Nós já fizemos essa
apresentação, já, para algumas pessoas, enfim, outras entidades que
questionaram o banco com essa justíssima, enfim, perplexidade.
Eu queria dizer a V. Exª, V. Exª está-me pedindo para eu me
colocar no seu lugar – nossa, é muito difícil. V. Exª imagine a minha
perplexidade quando eu ouvi alguém falando na televisão: “Ah, os Parlamentares
vão lá na agência de Brasília receber dinheiro.” Não me lembro de quem estava
do meu lado, eu olhei: “O que é isso? Esse cara está louco”. Daí a um dia, ou
sei lá, eu descobri que isso acontecia. E descobri mais: descobri que o
registro do recebimento desse dinheiro, Senadoras, era feito de uma forma que
não tem jeito de apagar. Esta Comissão tem toda essa documentação. É muito
fácil perceber isso, porque ele vem desde o fax, o sistema, a fita de caixa,
o livro contábil, toda uma série de documentos onde o nome da pessoa aparece,
em toda essa série de documentos, até chegar ao cúmulo do recibo, com o xerox
da carteira de identidade.
Então, eu fico imaginando, também me colocando, como V. Exª
disse, no lugar de um caixa ou de um gerente de agência, onde entra um
Parlamentar – que ele saiba ou não que aquela pessoa é Parlamentar. Eu, por
exemplo, não conheço as pessoas. E pessoa vem, ela entra, todos os documentos
contábeis do banco estão lá registrados no nome da pessoa, ela vem, recebe o
dinheiro, assina um recibo, tira o xerox da carteira de identidade e fica
supertranqüila com isso.
Então, para mim, também é muito difícil imaginar que essas
pessoas imaginassem que estavam fazendo parte de um megaesquema tenebroso de
corrupção, quando as pessoas que recebiam esse dinheiro iam lá, da maneira mais
normal do mundo, assinavam recibo, tiravam xerox da carteira de identidade. E o
banco fazia isso de uma forma... É o crime mais imperfeito da história da humanidade,
porque tudo é registrado e enviado para o órgão fiscalizador, que é o Banco
Central, e para o Coaf, o qual também não percebeu nenhuma anormalidade.
De fato, depois posso discorrer sobre isso aqui ou em
qualquer situação que V. Exª desejar, apesar de todos esses cuidados, isso
aconteceu. As medidas que vão ser tomadas, daqui para a frente, eu posso
discorrer, se alguém se interessar. Mas a verdade, foi isso que aconteceu,
dentro do Banco Rural. A Ayana tem um estudo que ela fez dos vários procedimentos
de saque e as transferências, como o dinheiro ia. Se for do interesse de V.
Exªs, pode ser bastante esclarecedora...
A SRª HELOISA HELENA (P-SOL – AL) – Como eu vou ter de
me reinscrever, Sr. Presidente, por causa do meu... É só para dizer para a Drª
Ayanna que não tem nada a ver o que eu perguntei há pouco com o Banco do
Brasil. Não tem nada a ver. A senhora disse “ao contrário do Banco do Brasil”.
É contrato com banco privado... Correios.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Bem a informação que eu
tenho aqui, eu posso confirmá-la, efetivamente só para a ratificação da
informação real, eu não estou com a apólice do contrato na minha mão, Senadora.
É que o contrato que está como garantia dessa operação de 19
milhões da SMP&B...
A SRª HELOISA HELENA (P-SOL – AL) – Não é essa que...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Qual é a
operação? Desculpe...
A SRª HELOISA HELENA (P-SOL – AL) – Não. Todas as
operações que foram feitas das empresas e os empréstimos do Sr. Marcos Valério.
Quais as garantias que foram dadas?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – As que eu estou
tratando efetivamente aqui...
A SRª HELOISA HELENA (P-SOL – AL) – Drª Ayana, eu estou
fazendo um esforço para nem questioná-la, a não ser que a senhora... Esse não é
um debate técnico.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Lógico que não.
A SRª HELOISA HELENA (P-SOL – AL) – Tem toda a
articulação política que montada e quem é honesto intelectualmente sabe que é.
A não ser que a senhora tenha dados a nos fornecer e informar, se a senhora
conhecia, se relacionava com o Sr. Marcos Valério, com o Sr. Delúbio ou com
qualquer uma outra pessoas.
A senhora não se relacionou com nenhuma dessas pessoas?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Senadora, eu
entrei no Banco em abril de 2004...
A SRª HELOISA HELENA (P-SOL – AL) – Então, pronto.
Exatamente por isso que esse não é um debate...
A SRª AYANA
TENÓRIO TORRES – ...e efetivamente as minhas respostas são técnicas
em cima de dados.
A SRª HELOISA HELENA (P-SOL – AL) – ...porque
tecnicamente é impossível dizer que foi uma operação nos moldes do sistema
capitalista. É impossível dizer que essa operação corresponde à lógica e à
racionalidade do sistema capitalista.
Nem vou introduzir o que a Srª Kátia até mesmo disse da
surpresa que ela tinha, imagino a surpresa muito maior, ao identificar para
onde iam os carros fortes que saiam com o dinheiro e a forma como ele é
distribuído, e o que era feito. São coisas tão sujas e desprezíveis que fica
até difícil a gente ficar todo o tempo repetindo.
Quero me reinscrever novamente, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Já
está reincrita, V. Exª, até dei uma tolerância maior pelo número de presentes.
Passo a palavra à Senadora Ideli Salvatti... ou ao Deputado Pompeo de Mattos.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Sr.
Presidente, Srs Parlamentares, D. Kátia, D. Ayana e o causídico que a
acompanha, eu quero fazer primeiro um rápida leitura, até porque tenho um pouco
de experiência vivida no Banco do Brasil. Então, temos um pouco desse traquejo
bancário e uma vivência política até por conta da missão que recebemos, no meu
caso, do povo gaúcho.
Olhando a grosso modo e vendo a indignação da Senadora
Heloísa Helena, a impressão que passou para nós desde o começo, o Banco Rural,
primeiro, que é um Banco de esquema, de um “esquemão” do Marcos Valério.
A partir desse esquema que o Marcos Valério operava
precipuamente com o Banco Rural e se detectou isso, saltou aos olhos e ficamos
todos impressionados.
Fomos atrás de documentos e os documentos que vinham, vinham
incompletos. Um dia tinha uma coisa; noutro, faltava outra. Quando não era o
que tinha, não era o que faltava, era o que não vinha.
Enfim, isso aconteceu a ponto de irritar a CPMI. Sei que uma
vez a senhora teve uma reunião com a cúpula da CPMI – essa foi uma informação
que eu tive. A senhora teve uma conversa com o Senador Delcídio... Enfim,
alguém do banco veio para ter uma conversa...
A SRª KÁTIA RABELO – Eu não.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Se não a
senhora, mas teve um grupo que veio do Banco até para aparar as arestas. Eu
inclusive fui um dos que solicitei, como bancário: chame o pessoal do Banco. Há
coisas aqui... Eu vi que havia coisas que o próprio pessoal da CPMI não
entendia, em função da burocracia bancária.
Eu disse: vamos estreitar, porque o Banco vai ter de nos
fornecer de um ou de outro. E nós não vamos lá pegar na tarraxa, na marra.
Enfim, não é no constrangimento, mas é no convencimento, no argumento, na
discussão.
Eu acho que aquele encontro foi proveitoso porque se avançou
– eu tenho convicção e sei que avançou substancialmente.
Enfim, demonstrava uma coisa de
desorganização, passava essa impressão à CPMI... Na questão específica do
Marcos Valério, do PT, do Delúbio, dava a impressão de que o Banco era uma
espécie de “casa da mãe Joana”. O Marcos Valéria meio que mandava no banco. É
essa a impressão. Havia empréstimos que não pagava, mas no entanto ganhava
outros. Negociava, dava um prejuízo. No Banco do Brasil se você der um prejuízo
seu nome vai para a CL. O nome dele fica no gancho. No caso, o Banco fez o
empréstimo, a negociação, tomou um prejuízo e continuou. Sei, há toda uma
história pela frente, mas a realidade é essa.
Esse contrato com o PT, para mim, não está
bem esclarecido até agora. Gostaria que V. Sª anotasse para depois responder.
Foi feito um contrato de financiamento com o aval de Delúbio, de José Genoíno e
de Marcos Valério. Como é que Marcos Valério, em determinada altura do
campeonato, saiu fora? Qual foi o procedimento técnico para tirar Marcos
Valério? Gostaria de ter essa informação. Tecnicamente, como saiu do
financiamento? Como é que se comprava isso? Inclusive qual foi a explicação
perante o Banco Central?
Dinheiro encomendado, no Banco, por essas vias. Pode até
haver um procedimento, mas não é convencional. Não é um procedimento normal do
banco pagar milhões em cash. Não é um procedimento normal, não adianta.
Sou do Banco do Brasil e não se faz isso. Ainda mais requisitar um carro-forte
para sair do Banco. Não é procedimento legal. Esse procedimento tinha que ligar
as antenas da direção do Banco, do gerente do Banco. O gerente do Banco tinha
que acordar e dizer: onde estamos? Na casa do Alibabá? Abre-te, Sésamo!
Abria-se a tesouraria e o dinheiro caía. Então, mesmo as informações do Coaf.
Chequei e muitos dos saques no Banco Rural não estão no Coaf. Ou foi falha do
Banco Rural em mandar ao Coaf ou foi falha do Coaf em anotar as informações que
o Banco Rural mandou. O Coaf disse que não recebeu as informações. Aliás,
gostaria de fazer esse questionamento a V. Sª.
Enfim, tudo acaba no Banco Rural. O caso de Duda Mendonça,
por exemplo. Arrodeamos, arrodeamos, acabamos no Banco Rural, por via reversa.
Quero saber de V. Sª a respeito do Banco Rural Europa, das empresas de trading
que operavam lá. O que tem o Banco Rural com o Banco Rural Europa? Qual é a
ligação entre um e outro? Gostaria que me explicasse, bem como sua
responsabilidade em relação ao Banco Rural Europa.
A mesma coisa sobre financiamento de apartamento. V. Sª
mesma disse que o Banco Rural não financia apartamentos. Naquele caso, para a
mulher do José Dirceu, nesse caso específico, saiu. Não foi o José Dirceu que
fez, quem morreu é que teria feito, enfim, mas vai nos causando uma impressão
muito forte. Já falei do transporte de dinheiro em carro-forte.
São questões que vou mencionando para V. Sª para que possa
obter uma resposta. Passa-me a impressão de que o Banco Rural é uma espécie de
“casa da mão Joana”.
Uso uma expressão para dizer que coração de
banqueiro...conta-se uma história nos bancos – e a gente que é bancário sabe.
Dizem que houve um tempo em que se comprava um coração – já sobre essa questão
da troca de corações, de transplantes – em lojas. Havia uma loja que vendia
corações. O cidadão chegava, olhava um coração, via a aparência e levava.
Enfim, esse, aquela, quem vendia fazia a propaganda. Diziam: esse aqui é o
coração de um moço, morreu de acidente, tinha 18 anos. Enfim, era até mais caro
o coração de um jovem. O outro coração era de um jovem, atleta, 30 anos, um
maratonista. Apareceu, lá no canto, um coração lindo, vistoso, bonito. O cidadão,
interessado em comprar um bom coração, olhou e disse: e esse aqui, bonito,
vistoso? Quanto é um coração tão bonito quanto esse? Disseram: mas esse é de um
cidadão que morreu com 70 anos. Mas com 70 anos? Como é que pode ter um coração
com uma aparência tão boa! Deve ser o coração de alguém que não teve angústia,
que não teve problema nenhum. A quem pertencia um coração desse? Pertencia ao
dono de um banco.Dizem que os donos de banco não têm coração. Olham a ficha
financeira, não olham a relação pessoal, o entendimento, não olha nos olhos,
não olha o carinho, a amizade. É capitalista. Vi, aqui, que no caso de Marcos
Valério o negócio foi feito pelo coração. Talvez, se entenda por que alguns
morreram do coração. Eram negócios feitos com o coração quando se tinha que
fazer com a razão. Eram operações bancárias, operações matemáticas. E, nesse
aspecto, vejo que, em relação ao Marcos Valério, não havia isso.
Então gostaria que a senhora respondesse a
essa primeira bateria, para eu dar seqüência.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu vou tentar. É difícil gravar, porque são muitas perguntas.
Tecnicamente, a retirada do aval do Marcos
do contrato do PT.
Em primeiro lugar, não sou uma técnica da
área de crédito, como deixei bem claro aqui, mas, de alguma forma, o bom senso
demonstra que, se os dirigentes daquele Partido, que são os principais
responsáveis pelas contas do Partido, estavam avalizando um empréstimo, talvez
o aval do Marcos Valério fosse desnecessário, um excesso que se considerou
dispensável em algum momento.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Desculpe retrucar, mas aí eu me
assusto mais, até porque teria algumas coisas para falar, no final, em favor do
banco, mas a sua resposta me impressiona.
Se o banco exigiu o aval do Marcos Valério para dar o financiamento,
quanto mais para renovar. Se eu pego o
aval de alguém para me emprestar dinheiro e depois, quando chega o vencimento,
ele não me paga e quer renovar, mais do que nunca eu quero me garantir. Se eu já estava “com o pé atrás” para dar o
financiamento, fico com “os dois pés atrás” se tenho que renovar por falta de
pagamento ou pelo pagamento de valor insignificante, como foi o caso.
A SRª KÁTIA RABELO – Talvez seja o desconhecimento mesmo
da modelagem com a qual o banco trabalha.
Recentemente, por ocasião da intervenção que
houve no Banco Santos, como todos os outros bancos médios e pequenos, o Banco
Rural teve uma perda expressiva de passivos – não sei se é do conhecimento de
V. Sªs. Então o banco, para honrar esses passivos, tinha que receber os créditos. E nós conseguimos receber um valor de
créditos num prazo curtíssimo. Por
quê? Porque o prazo das operações do
Banco Rural é tradicionalmente curto. É
a maneira como o banco trabalha. É a
única maneira de um banco do nosso porte sobreviver.
Então, quando V. Exª se refere a refazer a
operação, para o Banco Rural, essa reforma é automática, desde que se considere
que aquele devedor mantenha as condições que possuía no início.
Estou aqui defendendo uma situação e um
empréstimo que foi feito por uma pessoa que trabalhou durante quinze anos no
Banco Rural, que produziu grandes lucros.
Se ele fosse tão bobo assim, não teria gerado os lucros que o Banco
Rural, na verdade, gerou no passado. E
achou que, naquele momento, aquele cliente, o PT, era uma instituição séria o
suficiente para tomar emprestados R$3 milhões com o aval de seus dois
dirigentes e responsáveis.
Continuo acreditando que o PT, até onde
entendo, vai honrar esse empréstimo que foi feito ao Partido, com o aval de
seus dirigentes. Eu realmente acho... Enfim, é como vejo essa situação.
A relação entre o Banco Rural e o Banco
Rural Europa... Talvez o senhor não estivesse atento no momento em que falei
sobre o Banco Rural Europa, porque já respondi ao Deputado.
O Banco Rural Europa pertence 100% ao Banco
Rural. É uma subsidiária, é um banco europeu, regido pelas leis da Comunidade
Européia, fiscalizado pelo Banco Central, em fiscalização consolidada com o
Banco Central do Brasil, e auditado por um auditor independente.
Em relação a qualquer consideração sobre a
idoneidade moral ou os controles do banco, é muito importante e acho que é de
extremo valor ser considerado que existem vários órgãos de muita seriedade que
fiscalizam as instituições financeiras neste País. O Banco Central fiscaliza o Banco Rural, que tem um auditor
independente, a Deloitte, que o fiscaliza. O Banco Rural informou, sim, ao
Coaf, talvez essa divergência de entendimento seja no valor, porque existe um
valor que é obrigado a ser informado.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – É de cem mil.
A SRª KÁTIA RABELO – Pode explicar, Ayana, por favor.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – É de cem mil reais, ou
individualmente ou coletivamente, o somatório dele.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Mas existe a
necessidade do registro em dinheiro de dez mil. Não é isso?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Exatamente.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – É, mas
aí já é outro procedimento. São dois procedimentos: dez mil é um procedimento e
cem mil, uma informação direta.
A SRª KÁTIA RABELO – Todos esses foram observados.
Não temos até o momento nenhum questionamento do Banco Central sobre a forma ou
sobre os nossos procedimentos nesse correr desses dois anos, porque o Coaf, a
norma manda você informar até às 16h. Então a Coaf recebeu essa informação ao
curso de dois anos e o Coaf não viu nada de estranho na movimentação dessa
empresa, da mesma maneira que nós não vimos.
Então, o que acho importante dizer é que não apenas a
diretoria do Banco Rural ou pessoas, enfim, não quero me estender, mas, enfim,
não apenas o Banco Rural nas suas diversas instâncias não percebeu que existia
alguma coisa tenebrosa acontecendo, como todos os órgãos fiscalizadores, os
auditores independentes e as pessoas que têm essa qualificação também não o
perceberam. É isso a única coisa que posso dizer.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Está bom.
Deixa eu colocar mais algumas questões,
aliás, primeiro, fazendo um comentário.
Eu acho curiosa essa questão do PT, volto a insistir, porque
agora a senhora ficou com uma garantia do empréstimo, que, com juro e correção
monetária, chega a quase sete milhões de reais... Têm garantia para pagar o
Delúbio Soares, morto financeiramente, e o Sr. José Genoíno, que agora ganhou
uma aposentadoria do seis mil, pegou o boné e foi embora. Sabe quando a senhora
vai receber esse dinheiro, se depender do Delúbio e do Genoíno, dessas
garantias que o Banco diz que tem, “o dia em que o Sargento Garcia prender o
Zorro”. Não vai receber nunca, a não ser que o PT, pelo PT... Porque o PT vai
ter que fazer um sorteio do que pagar. Não é? Porque não tem como pagar tudo. É
coberta curta: se tapar os pés falta para a cabeça. Se ele resolver pagar uma,
vai faltar para outra. Não tem dinheiro. É uma coisa impressionante. Enfim, mas
o banco é seu, o prejuízo não é meu. O Banco é particular, mas é bom a senhora
se antenar com as suas gerencias para ver esse procedimento, porque, na medida
em que o Marcos Valério saiu do processo...
Aliás, eu quero fazer uma outra pergunta para a senhora a
respeito do próprio Sr. Marcos Valério. Eu vi operações do Marcos Valério onde
ele dava como garantia dinheiros aplicados no próprio Banco. Ou seja, ele tinha
CDBs aplicados no Banco e fazia um financiamento no mesmo valor do CDB. Isso
aconteceu no Banco? Depois a senhora me responda se aconteceu. Eu já vi
operações em bancos onde ele apresentava, fazia um financiamento de dez milhões
e dava como garantia um CDB de dez milhões que já tinha no Banco. Aliás, uma
curiosidade muito grande - não é? - alguém pedir um financiamento de dez
milhões tendo dez milhões disponíveis na conta. É claro que é para lavar
dinheiro. É claro que é para fazer esquema, para dar origem para o dinheiro que
não tem origem. Esse é um procedimento conhecido nos bancos.
Uma outra informação, às vezes, até para contrapor a
seriedade do Banco Central, às vezes sim, às vezes não, que o diga o Banco
Santos e os aplicadores do Banco Santos, o Banco Central só viu o Banco Santos
depois que o Banco Santos desapareceu, antes ele não enxergou o Banco Santos.
Garantia do Delúbio...
O SR. PRESIDENTE (Gustavo
Fruet. PSDB – PA) –
Só trinta segundos, Sr. Deputado.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Sr.
Presidente, eu quero me reinscrever, porque são tantas as perguntas, e eu acho
que é importante nós aprofundarmos este tema, porque, ainda que alguém transite
na conta bancária, sei lá, 550 milhões para fazer um refinanciamento, tem que
ser revestido de garantia, e nesse caso do PT é um flagrante negócio de
padrinho. Se confiou muito mais no Governo. Foi muito mais para beneficiar o
Governo. Ah, o PT, o Partido do Governo, vamos fazer de qualquer jeito, vamos
favorecer. Se depender de operação bancária, se tem um jeito de como não deve
ser feito uma operação bancária, deve ser desse jeito, porque é um negócio mal
feito.
E eu concluo, Sr. Presidente, digamos assim, meio às
avessas, elogiando o Banco. Ocorre que o Banco Rural, nesse aspecto, atuou de
forma tão improvisada e tão espontânea, em um improviso espontâneo que acabou
pegando todo o mundo. A espontaneidade acabou pegando porque esse negócio de
chegar no banco e pegar dinheiro no caixa, valor em espécie, pegar na
tesouraria, de chamar o carro-forte, enfim, de transferir por papel, emite o
documento num banco e saca no outro, isso exatamente permitiu que eles
deixassem o DNA lá – não a empresa, mas o DNA da impressão digital e que foi
por conta disso que a CPMI acabou, por esses caminhos às avessas, que eu chamo
de não-convencional, acabou pegando todos esses.
Então o banco acabou prestando de forma indireta um serviço
para a CPMI, mas com certeza esse não é o modelo de um banco funcionar,
entregando dinheiro na tesouraria por recado, por bilhete, enfim, por quem
indica, por telefone, por senha, como disse a secretária do Marcos Valério,
pela roupa da pessoa, a pessoa com a camisa vermelha, uma blusa azul chega lá
no banco e por conta disso saca o dinheiro. Identifica-se depois, é verdade,
identifica-se, mas a primeira identificação... Alguns iam buscar encomenda, mas
até deixaram o documento lá, a assinatura, mas, via de regra, era indicado pela
cor da roupa com que chegava lá. Isso não é um procedimento do banco. Só
lamento, mas preciso dizer isso. Embora tenha acabado, por via indireta,
contribuído para que nós descobríssemos tudo isso aí.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Obrigado,
Deputado.
A senhora quer se manifestar?
A SRª KÁTIA RABELO – Eu não consigo saber qual foi a
pergunta.
Não é para responder?
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Passo então a palavra à Senadora Ideli Salvatti.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – A senhora não
me respondeu a pergunta, se tinha aplicação do Marcos Valério para cobrir.
A SRª KÁTIA RABELO – Ah, sim, é verdade. Você tem
essa informação, Ayanna?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Tem uma carta de fiança
da DNA, por exemplo, que dá garantia aos empréstimos da SMP&B, mas na
realidade é uma empresa que dá garantia, com uma determinada aplicação, a uma
outra que esteja do outro lado.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Então eu só
quero consolidar – desculpe, Sr. Presidente, mas só para clarearmos, senão não
fica claro, essa é uma linguagem bancária que eu entendi bem. Significa dizer
que a DNA, a empresa DNA, que é, em última análise, do Sr. Marcos Valério,
tinha uma aplicação no banco, é isso?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – A DNA é uma empresa que
tem determinados sócios que são diferentes, em alguns casos...
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Entre eles o
Marcos Valério.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – ...em alguns casos, da
SMP&B. Então, eu tenho uma operação, uma carta de fiança, que está na
documentação, inclusive, oficializada, onde a DNA coloca um dinheiro à
disposição, que é uma aplicação efetiva, como garantia de uma operação da
SMP&B.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Eu quero
traduzir na linguagem popular para ficar gravado, Sr. Presidente, permita-me.
Significa dizer que a DNA, que tem como um dos sócios o
Marcos Valério...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Um dos sócios.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – ...que é o que
manipula tudo, efetivamente, tinha uma aplicação de quantos milhões? Não
lembra?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Quatro milhões.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Quatro
milhões. Tinha uma aplicação de quatro milhões no banco, ou seja, tinha
dinheiro aplicado no banco, quatro milhões a juros, sei lá, de nem 1% ao mês. É
isso?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – É importante colocar que
são empresas completamente diferentes com operações separadas.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Eu sei, isso a
senhora já disse. Eu estou traduzindo. Não é essa a preocupação.
Aí então o Marcos Valério, através de uma das suas empresas
em sociedade, tinha lá quatro milhões aplicados com juro de 1% ao mês, nem
isso.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – É uma
carta de fiança.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Não, o
dinheiro estava aplicado.
Aí ele pegou esse dinheiro e deu, através de uma carta de
fiança, em garantia para um financiamento no mesmo banco. Ou seja, se ele
quisesse esses quatro milhões ele poderia tirar esses quatro milhões e dar para
o PT. “Não, está aqui, sai da minha conta, sai da conta da SMP&B”. Não, ele
deu em garantia para o banco, pagando quanto para o banco por mês? Três, quatro
por cento de juros. Bota operação. Quem é que, tendo quatro milhões no banco a
juro de 1% ao mês, tira um empréstimo no mesmo banco daquele valor com o juro
de 4%, 5%? E não é só no seu banco, isso não é só no Banco, não é um privilégio
do Banco Rural*. Em outros bancos ele fez isso também. Eu vi, constatei e só
queria confirmar. E aí tem também.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu queria... Desculpe, não sei
se posso falar.
Eu só queria reiterar que não houve lavagem de dinheiro
dentro do Banco Rural. Todo o estudo que nós fizemos da movimentação das contas
das empresas do Marcos Valério têm origem conhecida. Essa origem são os
clientes, as empresas que colocavam dinheiro, com movimentação de uma empresa
para outra, e os empréstimos bancários, e isso tudo bate com as saídas. Então a
ilicitude desse recurso, a razão pela qual essas empresas depositavam dinheiro
nas empresas do Marcos Valério, eu não posso dizer nada sobre isso. O que eu
posso afirmar, com toda certeza, é que todo dinheiro que entrou no Banco Rural
tinha origem conhecida e nós não identificamos nenhum recurso sem origem
conhecida dentro das empresas.
Você quer completar, Ayana?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Não, eu
acho que é exatamente isso, Kátia.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB - PR)
– Concedo a palavra à Senadora Ideli Salvatti.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Sr. Presidente, quero
cumprimentar a Srª Kátia, a Srª Ayana e o Dr. José Carlos Dias, e quero fazer
várias perguntas. A primeira delas é que, na documentação que veio do Banco
Rural, foi possível identificar aquele sistema onde aparecia quem sacava em
dinheiro, em espécie, na boca do caixa. Foi exatamente por conta dessa
identificação que se conseguiu fazer as vinculações partidárias ou com pessoas
ligadas a empresas que estão sendo agora investigadas em termos de remessas
para o exterior, como a Garanhuns, Bônus-Banval.
Esse procedimento, como a Srª Kátia colocou, era um
procedimento, que, para quem estava procedendo algo não muito lícito, em tese,
deixava a digital. Mas é interessante que essa digital ficou em alguns
documentos. Em outros, não. Então, eu queria entender por que em alguns tem
digital e em outros não tem. Apesar de todos os procedimentos, de ter ficado
equipe do Banco Rural aqui dentro, de ter ido equipe da CPI ao Banco Rural, nós
continuamos, ainda, com um volume significativo de saques em dinheiro, na boca
do caixa, sem identificação.
Então, era um procedimento para alguns casos, mas para
outros, não. E não são valores pequenos. Não vale nem o argumento de que é uma
regra do Banco Central, mais rígida, a partir de 2003. Não é nem isso, porque
só no ano de 2003, de saques a boca do caixa, significativos, a amostragem
feita pela nossa assessoria, temos mais de 3 milhões - 3,220 milhões. Tem
cheque de 300 mil, tem cheque de 200 mil – saque na boca do caixa de 200, 300,
250, de todo tipo de valor. No ano de 2004, também, tem quase meio milhão. E
tem ainda no ano de 2005. Então, eu queria saber por que esse procedimento, a
gente não consegue... E era obrigatório
identificar quem saca.
Isso aqui é uma amostragem. Amostragem. Isso aqui pode ser,
inclusive, muito maior, porque a assessoria pegou apenas saques mais
expressivos. Então, essa, para nós, continua sendo uma coisa absolutamente
preponderante, quer dizer, para nós é fundamental identificar isso, porque,
inclusive, nós continuamos dizendo, e eu quero repetir isso aqui, que a
impressão que dá é que veio identificada uma determinada parte, que interessava
identificar, e outra não. Então, essa é uma pergunta.
A outra pergunta é na mesma linha. A assessoria tem um, das,
três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, 10, 11 páginas, com espaçamento
bem... de favorecidos ou depositantes que não têm identificação. Não se
consegue identificar quem depositou ou quem recebeu. E começa desde valores de
3,358 milhões, por ordem decrescente, que assessoria fez, e vai até 30 mil.
Inclusive, há vários lotes que chamam mais a atenção porque são valores
repetidos oito, 10, 12, 15 vezes, alguns bem redondinhos, de 100 mil, 200 mil,
150 mil, mas outros quebradinhos. É interessante: 111.685,02. Aparece várias
vezes. Então, isso, para nós, também é de fundamental importância identificar.
Isso aqui é na quebra de sigilo de 2000 para cá. Neste levantamento não tenho
as datas para identificar quanto é por ano. Nesta amostragem que a assessoria
fez tem valores significativos de R$1.390.000,00 no ano de 2000; R$4.961.000,00
no ano de 2001; R$1.700.000,00 no ano de 2002; R$3.220.000,00 no ano de 2003;
R$471.000,00 no ano de 2004 e R$86.000,00 no ano de 2005. Então, para mim, é de
fundamental importância que possamos identificar senão a quebra do sigilo
bancário do Rural continua sendo absolutamente insuficiente para podermos fazer
todo o trabalho.
A SRª KÁTIA RABELO – Vou ter muito prazer em
responder essa pergunta sua. Quando nós identificamos o que estava ocorrendo,
quer dizer, para o que o Banco estava sendo usado começamos a fazer um
levantamento de documentos. Na verdade, ao levantar esses documentos nós
identificamos que não só tinha, não era só o sistema do fax, existia um e.mail,
que não era só um e.mail eram vários. Essa operação, essa digital era deixada
em vários documentos e não somente em um. Ela culminava lá num xerox da
carteira de identidade com um recibo, mas ela estava documentada nominalmente
em uma série de transações e inclusive no sistema, que é uma coisa impossível
de rasurar o sistema sem que isso apareça depois, sem que sobreviva a uma análise
mínima.
Queria tocar num ponto que é fundamental para o Banco Rural
que foi a entrega de documentos. Quando vimos o que tínhamos em mãos ficamos em
pânico porque vimos que aquilo ali era uma bomba que estava na mão da gente e
vimos que essa bomba era virtualmente, estava ali, estava de um jeito que não
tinha o que fazer, não tinha como mexer. Enfim, a nossa decisão foi de
organizar essa documentação e vamos entregar tudo. Tinha lá uma lista de nomes
e sabíamos que isso ia causar o que está causando mas a nossa decisão foi de
entregar tudo.
Começamos a separar esses documentos porque a documentação
de uma agência é de vários clientes e tínhamos que separar a documentação
referente a esse cliente para não correr o risco - e isso seria um horror para
o Banco - que a movimentação, que o documento de outros clientes entrassem no
bolo. Então, começamos a separar essa documentação e, de fato, começamos a
estudar e depois vou pedir Ayana - e sei que você vai falar melhor do que eu
mas porque para mim isso é muito importante.
Marcou-se a data e lembro-me bem que o Presidente do Banco
Central foi à imprensa e fez algum tipo de ameaça. Então, o Reginaldo, que está
aqui à mesa disse para nós que é humanamente impossível entregar isso que está
sendo pedido nesse prazo.
A Drª Ayana, que veio de Caruaru – e lá parece que o pessoal
não acha nada impossível – arregimentou 50 pessoas dentro do grupo, fez um
mutirão e ficaram trabalhando o fim de semana inteiro para conseguir, de fato,
entregar toda aquela documentação, que foi sim entregue em dia e até hoje não
temos nenhum caso registrado de alguma documentação que tenha faltado. Estou
falando besteira?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Não,
Kátia. Na realidade, tivemos quase 40 solicitações. Estive com a Ideli e
falamos sobre isso e hoje não existe débito de absolutamente nada que foi
solicitado, quer dizer, todas as solicitações foram devidamente entregues.
A SRª KÁTIA RABELO – Porque às vezes o que acontecia
é que se pedia uma coisa e era entregue aquela coisa. O que começou a
acontecer? Começamos a ver na imprensa e por parte dos Parlamentares um clamor
de que o Banco Rural estaria escondendo documentos, mas sabíamos que não
estávamos escondendo documentos, porque sabíamos, havíamos entregue e tudo. E
mais, num dia próximo ao dia da entrega do documento... Ayanna, você se lembra
do dia em que foi a polícia federal lá no Banco?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Não, a
data não.
A SRª KÁTIA RABELO – Num dia próximo ao dia da
entrega, tivemos a visita da polícia federal de uma forma até elegante, mas
bastante firme. E a polícia federal veio... eles tinham entrevistado, não é
entrevistado que se chama não, é... convocado para depor, sei lá, um
ex-tesoureiro, e essa pessoa sabia cada passo do processo. Então, o delegado
chegou com o pedido exatamente de cada passo, de cada documento. Ele sabia
muito bem, porque ele era tesoureiro. Então, a polícia chegou com esse pedido.
Então, pedimos ao delegado que tivesse a fineza de nos esperar tirar xérox.
Tiramos xérox da documentação, porque a gente tivesse também uma segurança do
Banco de que esses documentos existiam de fato lá dentro do Banco, e, graças a
Deus, eles estão lá...
O SR. (Orador não identificado) – Dia 10
de agosto.
A SRª KÁTIA RABELO – Dez de agosto, o dia que a
polícia foi. E aí a gente entregou 11, 12. Uma coisa assim. E aí, enfim, quando
houve essa entrega, nossos advogados acompanharam tudo direitinho lá no juiz,
acabou indo para o Supremo. E começou a falar assim: o material que está no
Supremo é nitroglicerina pura. A gente falava assim: Meu Deus do céu, mas o que
foi para a CPMI é mais. Por quê? Porque a CPMI pediu mais.
Nós temos aqui o documento. Acho que não vem ao caso. Enfim,
os documentos que estavam de posse da CPMI eram muito mais profundos, porque
CPMI pediu mais coisa do que o juiz, que veio através do pedido. Então, depois
veio a notícia: a pólvora pura virou traque. Claro, porque aqui tinha muito
mais coisa, tinha muito mais documento do que lá. Mas o fato é que esse clamor
constante de que o Banco estaria protegendo, o Banco... Fico imaginando que as
pessoas devem pensar: Já sei, escolheu esses aqui para Cristo e jogou aos
leões, às feras. E protegeu os seus amigos, seja lá o que for. Então, queria
dizer que todos os documentos foram entregues. Não existe assim... pode ter
havido erro numa folha. Não existiu nenhum documento de nenhuma pessoa que não
tenha sido entregue. Todos os documentos foram entregues. O que acontece é que
existia da parte do cliente uma forma, um procedimento que ele muda, num
determinado momento, esse procedimento. Então, o procedimento atendia sim às
normas do Banco Central e a toda a legalidade. Tanto que em outros bancos foi
feito dessa forma, e que eu saiba não existe nenhum questionamento sobre isso.
Apenas parece que no Banco Rural, em algum momento, existiu um excesso de zelo
de registrar todo esse nome, todos os nomes dessas pessoas, talvez para
garantir que realmente as pessoas estivessem recebendo. Não sei explicar por
que houve essa mudança. Mas em algum momento houve essa mudança e isso é a
única explicação que temos para dar para o fato de os outros documentos não
terem. Agora, quero deixar... frisar um ponto: não era obrigatório fazer isso.
Todas as outras entregas foram feitas de acordo com as normas do Banco Central
e de acordo com a lei. Essa história de blusa amarela, isso jamais aconteceu no
Banco Rural dessa forma. Toda entrega de dinheiro dentro do Banco Rural foi
devidamente documentada. Isso é o que tenho a dizer.
Gostaria, Ayana, se puder tecnicamente complementar com mais
segurança.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Eu
queria fazer na realidade uma colocação sobre três aspectos, Senadora. E, por
favor, fique à vontade para... Queria falar um pouco da lógica de como era
feito o processo do saque e a diferença entre uma e outra. Acho que é uma coisa
importante.
Depois queria falar um pouco sobre disponibilidade de
documentação, o que aconteceu, inclusive a questão da fraude que foi colocada
em algum momento com relação aos arquivos do Banco; e, ao final, a ida do grupo
até o Banco, que aconteceu na semana passada. Ficaram conosco a sexta e o
sábado e voltaram no domingo, e não estão finalizados, inclusive, ainda os
trabalhos.
Na realidade, nós dividimos o procedimento com relação a
saques em dois momentos: um período que é até 2003, meados de 2003, e um
período que é de 2003 para frente. Como acontecia no primeiro período, que é
importante colocarmos? Normalmente, os saques ocorriam em Belo Horizonte, que
era a sede das empresas a que nos referimos. Então, não existia, como prática
normal, a movimentação que chamamos de interagências, que era de alguma forma a
transferência do dinheiro a ser pago em uma outra localidade.
O que acontecia? Normalmente, alguém da SMP&B ia até a
agência, preenchia toda documentação obrigatória, segundo as regras do Banco
Central, documentação de espécie e toda legalização de uma forma geral. A
autorização estava assinada devidamente pelos diretores da empresa. Aquele
saque era procedido. Ele pegavam e levavam o dinheiro. Então, não existia, na
realidade, nenhuma documentação específica com relação a entregas, casos
raríssimos que eu não tenho de cabeça, mas eu acho que devem ter dois ou três
casos – por favor, me corrija – nesse período anterior a 2003. Pode ser que eu
esteja errada com relação aos números, mas não há nada significativo referente
a esse período.
Então, o fato, na realidade, acontecia na própria agência
onde a conta existia e era uma pessoa da própria SMP&B que fazia o saque do
dinheiro. Teoricamente, não necessitaria de ninguém assinar, porque, quando a
própria pessoa estava procedendo ao saque, ela levava.
O
que acontecia esporadicamente? Acho que também há alguns casos desse jeito. Por
exemplo, tem um caso na Agência São Paulo, de que eu me lembro claramente e é
um dos exemplos que temos aqui, onde... Como se procedia? Não existia aquele
negócio dos fax’s naquele momento. Então, a pessoa se apresentava na
agência de São Paulo, uma pessoa da SMP&B – era assim que se operava em 99%
dos casos, posso estar enganada sobre um caso ou outro – e desse cheque, já
assinado, endossado e com toda documentação legalizada, era passada uma cópia
para Belo Horizonte, para o gerente da agência, que olhava o cheque, conferia a
assinatura, checava. Sabia-se quem era a pessoa, era da própria SMP&B que ia
ali, procedia ao saque e, então, finalizava a operação. Então, até 2003, tudo
funcionava normalmente desta forma. Então, não havia nada que tivesse a ser
assinado, ou qualquer questão vinculada a isso.
A falta de documentos que sentimos dessa diferença
de período, Senadora, é justamente a falta do vínculo ao procedimento, onde a
própria empresa fazia os saques. E a partir daí a ação dela era a de um cliente
que estava com dinheiro na mão dela. Então, esse é um momento que temos.
Em 2003, não sabemos exatamente o que houve. É importante
colocar esse aspecto. Mas foi justamente quando o Coaf começou a exigir a
identificação a partir das 16 h. Então, há um fato relevante: começa um nível
de exigência maior com relação a essas questões todas. E acho que eles começam
a fazer saques com o nome de outras pessoas. Nos parece que Zé Augusto, atento
a essa questão dessa mudança no comportamento e talvez até por causa do Coaf
mesmo, é pura inferência, pura inferência, porque a gente só está analisando –
é assim, a gente está analisando um fato pra trás... Então, a única coisa que
você tem de fato é o que está registrado. Surge uma orientação dada por José
Augusto Dumont para as agências de fazer um procedimento diferente. E o que é
que muda no procedimento? Todas as vezes que alguém for fazer um saque, começar
a documentar.
Tem algumas exceções? Continua tendo. Quando a própria
SMP&B, nas pessoas dos seus representantes, autorizados a assinar,
autorizados a fazer, chegavam no banco e se apresentavam, necessariamente não
precisava comprovar, porque a pessoa estava ali, presente, mostrando um
documento, com identidade na mão, automaticamente a operação finalizava desse
jeito. Mas se viesse uma outra pessoa fazer, o que é que acontecia? Aquela
série de e-mails e de fax’s e as documentações que começam a surgir a
partir daí. A SMP&B avisava que tinha um saque que ia ser procedido, dizia
quem era a pessoa que ia fazer o saque, essa pessoa comparecia à agência,
completamente documentada, efetivando esse saque, e a partir daí eu tinha isso
documentado: que a pessoa foi lá, autorizada, com autorização da empresa, com
os documentos legais, com um cheque que me autorizava a fazer.
Então, esse era um procedimento dentro da própria agência e
aí começam a surgir algumas pessoas que sacam em BH e que têm também
documentações de e-mails e de documentação referente à identidade ou CPF dessas
pessoas dentro da agência.
O que começou a surgir de diferente? Começa a surgir de
diferente o fato de surgirem outras agências: surge a agência de São Paulo,
surge a agência de Brasília. E, aí, começa o processo que são a questão do que
a gente chama de interagência.
A interagência, como é que se procedia,
Senadora? Existe um saque oficial, em BH – então, todo o procedimento legal que
está vinculado ao Banco Central era feito corretamente dentro da agência,
conforme as regras e a lei -, e eles diziam o seguinte: “Olha, eu gostaria, no
entanto, que esse dinheiro fosse pago a fulano de tal, em tal canto”. Então,
todos os procedimentos eram feitos: informação ao Banco Central da
disponibilidade de dinheiro, a solicitação da disponibilidade de dinheiro, a
fita-caixa, a movimentação. Quer dizer, tudo que se procederia numa situação
para qualquer cliente era feito e está completamente documentado. A pessoa ia até
a agência e ela retirava isso, apresentando as documentações e colocando essas
documentações, inclusive deixando anexadas.
A colocação de que 100% da documentação está aí - eu
coloquei isso para a Senadora, na semana passada: tudo o que nós temos no Banco
Rural foi disponibilizado à CPMI.
Eu acho, assim, uma coisa que ficou muito clara para a gente
era que existia, de fato, uma coisa que “fugiu” ao controle da gente,
gerencialmente, que, quando foi percebido, até pela própria história do Banco
ou de qualquer outra questão, que não haveria outra forma de a gente conseguir
tratar uma situação como essa, que era uma situação crítica e de crise, que não
com a verdade. Então, a decisão que se tomou era que tudo que a gente tivesse
dentro da empresa seria disponibilizado.
O que acontece esporadicamente? Acontece, esporadicamente,
de não haver uma documentação, por exemplo, da pessoa que sacou na ponta. Por
quê? Porque, como isso não era um procedimento legal, vinculado à legislação ou
ao que quer que seja, e muito mais, a nosso ver, olhando para trás, um cuidado
do vice-presidente de então de não correr risco de o dinheiro ser entregue e o
próprio cliente vir a reclamar dessa questão, da forma como estava sendo feita,
de controles que começaram a ser feitos na paralela.
E a coisa mais impressionante que acho que talvez seja o
grande ponto que a Kátia chegou a colocar: eu tenho um processo onde está
completamente documentado, totalmente documentado. E, assim, documentado a um
ponto que assusta a quem olha e fala assim: “Mas por que tem isso? Por que não
tem aquilo? O que está faltando?”
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – (Fora do microfone. Inaudível.)
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Por favor! Por favor!
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Subscreve, Senadora?
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Sr. Presidente, é só
o seguinte: quanto mais me explicam, mais eu fico..... Porque é o seguinte: há
uma exigência de identificação a partir de R$10 mil de saque em dinheiro, desde
1998. Desde 1998! Portanto não consigo entender que, para alguns casos,
identifica; para outros casos, não identifica.
E veja bem, a pergunta que fiz ainda é mais grave, porque,
além da amostragem que temos, significativa, de quase 12 milhões - apenas de
amostragem - entre 2000 e 2005, há estas páginas todas aqui. Aqui, não se
consegue identificar quem depositou e quem sacou, ou seja, qual foi o caminho
do dinheiro dentro do Banco Rural. Então, é um pouco mais grave ainda, entende,
do meu ponto de vista.
Eu tenho aqui outras perguntas, sobre outras questões. Mas,
Sr. Presidente, já me vou reinscrever para fazer as outras perguntas.
Agora, com relação ao Banco Rural, se não tivermos
esclarecimento sobre por onde andou o dinheiro, essa parte significativa do
dinheiro das contas do Marcos Valério... E veja bem, temos requerimento para
retroceder a 1997. Então, já estamos com toda essa problemática de 2000 a 2005.
Imaginem a hora que tivermos o de 1997 a 2000.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Viu,
Senadora, é que, por tolerância, como eram poucos os inscritos, eu tinha
permitido 15 minutos e tinha dado um prazo de 5 minutos de tolerância.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Não, mas já estou me
reinscrevendo para as outras questões, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Está
certo. Já está reinscrita.
Dr. Reginaldo, gostaria de falar?
Por favor. É só apertar ali, por favor!
O SR. REGINALDO EUSTÁQUIO DA SILVA – Só ia
comentar que há alguma interpretação quanto a depósito, quem depositou, está
certo? Quando é feita a leitura, o senhor já trabalhou em banco, hoje, existe
uma exigência mínima de quais os dados que têm para ficarem guardados numa
fita. Então, nós não guardamos o nome de quem depositou. Isso é norma do Banco
Central. Então, tem os dados que identificam qual o banco em que está sendo
feito o saque através da compensação. E esse é o máximo que temos. Isso é
quanto aos depósitos. Quanto aos saques, muitos saques foram feitos pelo
próprio pessoal da SMP&B, como a Ayana falou. Então, temos um documento assinado
pelo pessoal da SMP&B.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC)
– Mas, não tem assinatura.
O SR. REGINALDO EUSTÁQUIO DA SILVA – Não, mas
a pessoa que recebeu foi a SMP&B.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Mas, é com
isso que não concordamos. O que ocorre? Essa SMP&B não existe. A SMP&B
não saca em Banco. Empresa não saca em Banco. Quem saca é um ser humano, uma
pessoa física, gente. Não é pessoa jurídica, é gente. Então, em nome da pessoa
física, qual foi a pessoa que sacou? É isso que estamos reclamando que o Banco
não tem. Pode ser um cheque da SMP&B, nominal para a SMP&B. Mas, foi lá
o Pompeo de Matos e sacou. Então, tem que dizer que o Pompeo de Matos sacou um
cheque da SMP&B endossado para a SMP&B, mas, a pessoa é física.
O que ocorre: estamos aqui com um drama na Casa. Existem
vários deputados, cujos assessores foram lá e sacaram. Aparece lá dezoito. Só
que tem centenas de operações que foram sacadas do mesmo jeito que não aparece
ninguém. Esses próprios deputados dizem: os nossos apareceram. Mas, e os outros
que não aparecem, porque não aparecem? Por que empresa jurídica não saca em
Banco. Ela não é gente, não é ser humano. Tem que alguém ir lá e, em seu nome,
a seu mando, em poder do documento. E é isso que não se tem prova nenhuma.
Temos dezenas, centenas de documentos – aqui tem um, por exemplo, de R$550 mil
reais. Alguém foi lá na boca do caixa... R$450 mil reais e saiu com um saco de
R$450 mil reais nas costas – parecia um Papai Noel carregando, porque carregar
R$450 mil reais não é fácil. E a gente não sabe quem é o felizardo que levou os
R$450 mil reais. É em nome da SMP&B? É em nome da SMP&B. Mas, foi uma
pessoa que fez isso.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Está
certo. Vou pedir, por favor, para respeitarmos, porque senão estou prejudicando
os demais inscritos.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) –
Desculpe-me, Sr. Presidente, mas acho que contribui.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Não,
a tolerância é importante e foi oportuna.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Poderia só fazer um
fechamento? Senadora, o pessoal do Banco Central esteve lá, o pessoal do TCU
esteve conosco lá, com uma lista inicialmente de 30 pessoas, que foi o nosso
último contato que estávamos aprofundando. A informação que temos é que foi
aprofundado o que estava faltando. Estamos aguardando a volta dessas pessoas
para os esclarecimentos finais do que faltar. A pessoa do TCU levou uma outra
lista lá na hora, que começamos a identificar. E volto a afirmar que estamos
completamente à disposição para esclarecer o que falta, de acordo com aquilo
que a gente efetivamente tem como documentação do Banco ou aquilo que é
exigência.
A SRª HELOISA HELENA (P-SOL – AL) – Qual é a data da
última listagem?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Eles
estiveram conosco sexta e sábado passado. Desculpa, qual a data?
A SRª (Oradora não identificada) – Não,
tudo bem.
A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Sr. Presidente, até
por justiça, é importante registrar que a reunião que tivemos no Banco Central
com a Srª Ayana e mais representantes foi extremamente proveitosa. A equipe que
foi lá também voltou. Mas, continuamos com as lacunas, ou seja, em termos da
investigação continuamos com esses vácuos onde poderemos estar cometendo
grandes injustiças, porque pessoas que poderiam estar comprometidas com o
esquema vão passar imunes, porque não se consegue localizar a identificação.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo
Fruet. PSDB – PR) – Concedo a palavra ao Senador César Borges.
O SR. CÉSAR BORGES (PFL –
BA) – Deputado Gustavo Fruet, Presidente da Sub-relatoria, senhores que nos
honram com a presença hoje aqui, Sr. Presidente, acho que V. Exª já fez uma
inquirição bastante minuciosa, muitas foram ditas, perguntadas, outras
respondidas e outras nem tanto. Também os Senadores que me antecederam, em
particular a Senadora Heloísa Helena, fez considerações aqui bastante
apropriadas com relação a nossa perplexidade.
Vou
procurar, portanto, Sr. Presidente, me ater mais a fatos que ficaram
relativamente para mim ainda obscuro, necessitando de esclarecimentos.
Primeiro,
é o fato de que o Banco Rural considerava a empresa e o grupo de empresas da
SMP&B do Sr. Marcos Valério como sendo de uma relação especial, uma relação
de alta confiança de um cliente preferencial, a ponto de ele ter empréstimos de
altas somas no nome das empresas e também no nome pessoal dele. Não foi dito
aqui, quanto, efetivamente, ele tomou dos bancos, quanto o Sr. Marcos Valério
conseguiu de empréstimo pessoal do Banco Rural.
A SRª
KÁTIA RABELO – Não tenho esta soma de cabeça, não. Você consegue
encontrar isso aí, Ayana? São vários cruzamentos; fizemos alguns que imaginamos
que fossem esclarecedores mas alguns...
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Ao longo dos 5 anos, que é o que a gente focou,
Senador, R$53.881 milhões.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – No pessoal do Marcos Valério?
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Não, não. Das empresas.
A SRª
KÁTIA RABELO – É porque nós não temos... Você tem, Ayana, separado?
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Pessoal de Marcos Valério, R$915 mil, nos 5 anos.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Porque nós conseguimos diagnosticar R$3,5
milhões, depositados nas contas do Marcos Valério. Do Banco Rural para as
contas pessoais do Sr. Marcos Valério.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – O que me consta aqui como documentação... E eu posso
aprofundar mais ainda. Mas este é o número oficial do Banco: R$915 mil.
A SRª
KÁTIA RABELO – Isso é empréstimo.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Tenho informações aqui, da quebra do
sigilo bancário, que chegou a R$3,5 milhões em depósitos do Banco Rural,
instituição bancária, feitos na conta da pessoa física do Sr. Marcos Valério.
A SRª
KÁTIA RABELO – Mas essa... Bom, o que eu imagino é que o depósito...
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Não é empresa; é pessoa física.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Não pode ser volume de movimentação, Senador?
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Não, não pode. A informação que nós
temos aqui... Eu queria confirmação do Banco.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – É... Isso ele teria que... A informação que eu tenho
aqui, dele, efetiva, do Sr. Marcos Valério Fernandes, é de R$915 mil. Ele,
hoje, na realidade, tem um dos empréstimos dele que foi agora... Entrou em
processo judicial, no valor de R$400 mil.
A SRª
KÁTIA RABELO – Desculpa, porque quando fala depósito do Banco Rural,
é uma conta do Banco Rural ou é um cheque do Banco Rural que pode ser de
qualquer outra pessoa depositado na conta do Marcos Valério. Uma transferência,
por exemplo, de uma conta da empresa dele para a conta dele pessoal. É um
depósito do Banco Rural. Acho que é isso que tem que ficar claro. Dinheiro do
Banco Rural e dinheiro do acionista, ele saiu através de empréstimo neste
montante.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Que sai como depósito do Banco Rural para o Sr.
Marcos Valério, no caso de empréstimo.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Empréstimo, sim.
A SRª
KÁTIA RABELO – Não, no caso de empréstimo é diferente. Você pode
explicar, por favor, Reginaldo?
O SR.
REGINALDO EUSTÁQUIO DA SILVA – Quando é depósito, ele pode ser
feito em dinheiro ou em cheques. Quando nós falamos em empréstimos, esses
valores aqui são valores líquidos. Nós somamos todos os empréstimos liberados
da conta dele. Ele não entra com o registro histórico de depósito. Ele é um
líquido de empréstimo. Então, é uma linguagem nossa, técnica, pela expectativa
de uns R$3 milhões, pelos nossos registros. Mas, existe um detalhe, Sr.
Senador. R$915 mil são os valores principais. Esses empréstimos podem ter sido
renovados e, quando há uma renovação, parece que está se emprestando de novo,
ou dinheiro novo, mas, na verdade, há uma rolagem da dívida. Então, a gente tem
que analisar a conta toda de uma forma... Está certo?
A SRª
KÁTIA RABELO – Pode ser um depósito em conta, também.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Eu queria, se possível, que o banco fizesse
esse esclarecimento.
A SRª
KÁTIA RABELO – A gente levanta, sim.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – De qualquer forma, fica muito claro de que o
Sr. Marcos Valério e suas empresas eram clientes do Banco Rural. E foi o Banco
Rural escolhido por ele, o Sr. Marcos Valério, e, também, pelo Sr. Delúbio
Soares como sendo o intermediador de capitação de recursos para o PT, para um
partido político. Eu vi hoje à tarde que não é prática comum do Banco Rural
emprestar a Partidos Políticos, mas emprestou, primeiro, ao PT e depois
emprestou às empresas do Sr. Marcos Valério, que repassou ao PT. Então, eu
pergunto: quanto é o conhecimento de que esses recursos tomados pelo Sr. Marcos
Valério, através de suas empresas que chegam neste total de R$55 milhões, foram
para repassar ao Partido dos Trabalhadores?
A SRª
KÁTIA RABELO – Eu tomei conhecimento desse fato após a morte do
Doutor José Augusto. Eu não vou saber precisar exatamente o dia...
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – O ano?
A SRª
KÁTIA RABELO – Ele morreu dia 4 de abril...
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – De 2003?
A SRª
KÁTIA RABELO – De 2004.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Por que, então, seria escolhido o Banco Rural
para este tipo de operação? Qual interesse estaria vinculado à preferência do
Sr. Marcos Valério e do Sr. Delúbio Soares pelo Banco Rural?
A SRª
KÁTIA RABELO – O Marcos Valério era cliente do Banco Rural há algum
tempo já. E uma das empresas dele era
fornecedora; era a agência de publicidade.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Mas ele era cliente do Banco do Brasil também,
do BMG e provavelmente de outras instituições. Por que o Banco Rural?
A SRª
KÁTIA RABELO – Ele pediu empréstimo também no BMG, como é do
conhecimento de V. Exª com certeza.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Ele concentrou no BMG e no Banco Rural.
A SRª
KÁTIA RABELO – Parece que sim, até onde tenho conhecimento.
Na
verdade, ele tinha movimentação expressiva dentro do Banco Rural; além de ser
nosso cliente, nós éramos clientes da empresa dele também. Existia um
relacionamento antigo com a empresa, não com ele. É importante frisar que ele entra na empresa depois que ela já
era nossa fornecedora de serviços de publicidade. E ele foi realmente a pessoa que fez essa interlocução com o
Governo.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Na história da análise do cliente Marcos
Valério e suas empresas, o banco, porque é obrigação da instituição zelar pelos
valores e pelo interesse dos acionistas, verificando o cadastro e o desempenho,
não verificava que o Sr. Marcos Valério era, na verdade, um aventureiro que
intermediava interesses? E me desculpe,
Srª Kátia, porque estamos aqui procurando entender esse tráfico de
influência. Então eu queria também a
sua confirmação.
Houve
reunião, ou reuniões, entre o Banco Rural e seus dirigentes e o Ministro José
Dirceu?
A SRª
KÁTIA RABELO – Eu já respondi que sim; houve.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Então nós podemos supor que essa intermediação
feita pelo Banco Rural tinha por trás interesses maiores para que o Banco Rural
tivesse o apoio do Governo, para que ele tivesse sucesso nos seus interesses,
por exemplo, de adquirir instituições bancárias outras, como o Banco Mercantil?
A SRª
KÁTIA RABELO – Na verdade, não, porque as datas são totalmente
não-coincidentes. O Banco Rural
adquiriu o Banco Mercantil de Pernambuco em 1995. Nós estamos falando de episódios que aconteceram em 2003 e em
2004. Então são situações que não
coincidem.
O que existiu de fato foi um pedido de empréstimo
do Sr. Marcos Valério, ou seja, ele pediu empréstimo para as empresas dele, que
tinham, sim, capacidade financeira. Qualquer pessoa que olhar a documentação
que está de posse desta CPI...
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Permita-me.
Essa parte, nós já conhecemos.
Eu queria
saber qual foi o assunto tratado com o Ministro Dirceu e qual era o
interesse. Porque também entram aí
outros interesses de instituições financeiras que não têm ainda a sua situação
definida pelo Banco Central. E haveria
interesse do Banco Rural e do próprio Delúbio em encontrar uma solução para
esse tipo de problema.
Então qual
era a motivação? A senhora estava
presente nessa reunião com o Ministro José Dirceu?
A SRª
KÁTIA RABELO – Eu estava presente em uma delas. Na verdade, eu
estava presente em uma reunião e em um jantar. E ele teve também um encontro
com o meu pai antes disso. Meu pai tinha alguns pleitos, ele era um
empresário...
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Ele quem? O Ministro José Dirceu?
A SRª
KÁTIA RABELO – Isso.
Meu pai
era um empresário de idade avançada e tinha o desejo de contribuir com algumas
situações do País. Ele era uma pessoa
que tinha umas idéias meio diferentes e achava que podia conversar com o
Ministro e, enfim, mostrar algumas situações.
Por
exemplo: eu tenho uma carta dele que posso encaminhar depois para esta CPI,
sugerindo uma mudança na regulamentação que diz respeito a loteamentos. Ele era favorável ao aparecimento de
favelas. Não vou me estender, mas,
enfim, ele considerava importante uma interlocução com o governo.
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – E a contribuição dele era a sociedade que ele
queria dar através do Ministro José Dirceu.
Seria isso?
A SRª
KÁTIA RABELO – Isso...
O SR.
CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Não havia interesses comerciais e da própria
instituição?
A SRª
KÁTIA RABELO – Nesse caso, não até porque... Ele sempre trabalhou com loteamento, ele
gostava muito de trabalhar com casas populares – ele tinha esse sonho. Mas vamos deixar isso de lado. Era um dos assuntos.
O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Pois é. A posição da
Senadora Heloísa Helena, que traz certa incredulidade a nós...
A SRª KÁTIA RABELO – O senhor me permite terminar?
O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Pois não. O meu tempo
está se esgotando.
A SRª KÁTIA RABELO – Vou chegar lá.
Eu não sei se o Delúbio voou. Ninguém me pediu autorização.
Nessa época, meu pai era vivo, e a autorização era pedida para ele. Depois,
disseram que tinham marcado com a Secretária do José Augusto. Isso é uma
mentira. A Secretária do José Augusto nunca marcou vôo. Isso era uma coisa que
o meu pai mantinha, era um dos poucos poderes que ele ainda tinha, e ele não
delegava para ninguém. Então, eu não tenho nenhum registro.
O que nós fizemos? Fomos ao hangar e mostramos a foto do
Delúbio para os pilotos. Vocês viram esse senhor voando nos nossos aviões?
Falaram: não. Aí fizemos uma nota na imprensa: “Não, o Delúbio nunca voou”.
Porque, às vezes, é muito difícil a gente afirmar certas coisas. Concordam?
Então, o Delúbio – eu fiz essa checagem – nunca voou nos nossos aviões, porque
meus pilotos... A menos que meus pilotos estejam mentindo. Nós mostramos o
retrato para eles.
O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – A senhora reconheceu
que é possível que ele tenha voado por uma carona.
A SRª KÁTIA RABELO – É. Mas o piloto teria visto,
porque é uma figura... Enfim.
O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Podem não ter se
lembrado?
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) –
Gostaria de fazer uma consulta aos Senadores. O Senador Renan Calheiros vai
iniciar a Ordem do Dia e pediu a suspensão dos trabalhos das Comissões. Temos
com poucos inscritos. Se houver votação, os Senadores serão prejudicados.
O SR. CÉSAR BORGES (PFL – BA) – Sr. Presidente,
encerro aqui.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Passo
a palavra, então, ao Deputado Murilo Zauith e depois ao Senador Rodolpho
Tourinho.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Boa tarde, Sr.
Presidente. Boa tarde a todos os depoentes. Quero iniciar.
A senhora, como Presidente do Banco, sabe que o banco é uma
concessão governamental regida por uma carta patente que o banco possui. Ela
tem de ser regida dentro das normas do Banco Central. E uma das normas que o
Banco Central tem é que a senhora não pode conceder empréstimos sem garantia,
porque põe em risco não só a instituição, mas também os clientes que têm seus
depósitos no banco.
Quando a senhora falou em garantias, em nenhum momento a
senhora falou em garantia real. É norma do banco a nenhum cliente pedir
garantias reais pelo volume de recursos que a senhora tenha emprestado para o
Marcos Valério e para o Partido dos Trabalhadores ou foi um caso específico deles
não ter pedido garantia real? Porque a movimentação financeira das empresas do
Marcos Valério... é uma prestadora de serviço que movimentava muito dinheiro,
mas a garantia... Ele tinha garantias reais disso? A senhora nunca utilizou
essas garantias, do patrimônio, do demonstrativo dessas empresas? Que
patrimônio ela possuía? A senhora não fala nada disso.
A SRª KÁTIA RABELO – Em relação à norma do Banco
Central, da obrigatoriedade de existirem garantias reais em função de colocar
em risco o banco, não sei. Reginaldo, você pode me ajudar nisso?
O SR. REGINALDO EUSTÁQUIO DA SILVA – Eu vou
falar uma coisa por experiência: todo empréstimo é feito com garantias, certo?
E nessa garantia...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Garantias e avais.
O SR. REGINALDO EUSTÁQUIO DA SILVA – E avais.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Garantia real
nenhuma.
O SR. REGINALDO EUSTÁQUIO DA SILVA – É. O
contrato foi apresentado, porque seria aquele do Banco do Brasil. Estou falando
de fatos que realmente não foram reparados na ocasião.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – E não era garantia
real, porque é um contrato, como agora o caso que está havendo com as empresas,
os prestadores de serviço já cancelaram os contratos com os serviços, com as
empresas do Sr. Marcos Valério. A senhora tem idéia de qual foi o seu prejuízo
agora com essa movimentação toda que está havendo com o Banco Rural, com as
empresas, com o Partido? Qual é o seu prejuízo nisso?
A SRª KÁTIA RABELO – Fico triste que o senhor não
tenha acompanhado a publicação do nosso balanço, porque...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Triste, não. Estou
perguntado à senhora...
A SRª KÁTIA RABELO – Fico triste, porque...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – ...estou perguntando
qual vai ser o seu prejuízo com essa movimentação, porque estão começando a
vencer esses empréstimos e não vão ser pagos.
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade, antes de todo esse
escândalo vir à tona, o Banco Central já tinha começado a questionar essas
operações, porque, como eu disse no meu texto inicial, o valor relativo dessas
operações passou a ser importante porque, quando o senhor coloca a questão da
norma e da garantia real e da, vamos dizer, concessão, trata da estabilidade da
saúde financeira do banco, isso, de fato, existe. E como é feita essa análise
pelo Banco Central? Pelo tamanho do banco, ou seja, a capacidade que o banco
tem de honrar aquele risco porque banco trabalha com risco.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Mas não é só o Banco
Central, a senhora publica o seu balanço nos jornais...
A SRª KATIA RABELO – Sim.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – ...para mostrar para
o seu cliente que o seu banco está com uma boa saúde, com solidez...
A SRª KATIA RABELO – Perfeito.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – ...mas, no momento em
que a senhora mostra hoje para o Brasil que o banco fazia esses empréstimos
temerários, a senhora está colocando em risco a sua instituição.
A SRª KATIA RABELO – É. Na verdade, o que existe é
isso: existe uma norma do Banco Central pela qual ele acompanha as grandes
operações, porque essas operações, claro que grandes, eram relativas a quê? Ao
tamanho do banco, à capacidade que o banco teria de enfrentar esse sinistro.
Então, houve um momento em que, pela nossa perda de ativos causada pela
intervenção do Banco Santos, essas operações começaram a chamar a atenção. E,
aí, começa uma discussão com o Banco Central sobre o recebimento dessas
operações. Exatamente no decurso, se V. Exª me permitir terminar, acho que vai
ser interessante.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Não, a senhora já
contou essa história aqui.
A SRª KATIA RABELO – É. Então, no decurso dessa
negociação estourou a crise que estamos vivendo agora e, aí , fomos aprofundar
nesses créditos. A verdade é que muitas garantias reais que V. Exª pode ter,
eventualmente, de um cliente, podem sinistrar. Posso, por exemplo, ter um
cliente plantador de soja e ter uma geada e, simplesmente, o meu cliente perder
a soja dele toda e me dá um prejuízo.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Não dá prejuízo, se
tem uma classe, a senhora me perdoa eu falar isso, mas não acontece, porque o
banco não empresta sem garantia da fazenda, do produtor rural, que toma a
terra, e sou de uma região onde acontece muito isso. A senhora está-se
equivocando...
A SRª KATIA RABELO – Bom...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – ...como Presidente do
Banco, ao falar que o banco empresta dinheiro para o produtor rural sem
garantia rural. Se tem uma coisa que não faz é...
A SRª KATIA RABELO – Eu gostaria de informar...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Agora, eu queria
continuar mais com a idéia, porque temos um tempo aqui e quero segui-lo. Quero
passar a minha preocupação como um correntista do Banco ouvindo toda essa
exposição da senhora.
A SRª KATIA RABELO – O Banco publicou seu balanço...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Não sou correntista do
Banco, mas, pela sua exposição, mostro a preocupação do correntista vendo um
banco sendo colocado dessa forma. E, conversando com alguns especialistas do
sistema financeiro, fazem uma análise de que um banco nunca emprestaria esse
volume de dinheiro, essa renovação sem ter garantia. Existem duas hipóteses
levantadas por ele que um aprofundamento, mas isso demora muitos anos, isso não
se faz em meses, para se garantir esses empréstimos, ou seria uma forma de,
desse contato com o Governo, e ter conseguido a conta de empresas
governamentais, com aplicações num banco, dando cobertura para esses
empréstimos, com spread diferente de juros, de aplicação ou com uma garantia no
exterior. Lá fora, alguém, no exterior, como a senhora tem um banco também na
Europa, alguém está avalizando isso na Europa, garantindo esses empréstimos.
Porque o pessoal com quem conversei acha muito simplista falar que o banco vai
ter o prejuízo porque emprestava dinheiro com aval do Sr. Delúbio e do Sr.
Genoíno. Ninguém acredita no negócio. O que estou passando para a senhora é a
análise que o seu correntista tem, e a população também.
A SRª KATIA RABELO – O senhor terminou?
Eu queria informar que o Banco Rural empresta, sim, dinheiro
para o produtor rural. Existe hoje o CPR, que é a Cédula de Produtor Rural,
onde você tem esse papel como a garantia de uma commodity, às vezes,
até boi no caso, e existe todo um sistema de garantia. Existem outros casos
também de sinistro em bancos, por exemplo, existem vários casos no banco, desde
que eu estou, de empresas...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Posso ajudá-la?
A SRª KÁTIA RABELO – Se o senhor me deixasse
terminar, o senhor me ajudaria muito,
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Não, um aval, a
senhora está falando que empresta o dinheiro para um produtor rural, ele dá
como garantia a safra dele, dá garantia o boi que está no pasto, mas
simplesmente um aval dele não. A senhora está pegando um patrimônio que ele vai
ter ou tem.
A SRª KÁTIA RABELO - Sim, que pode acontecer de ser
perdido.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Mas existe o seguro.
A SRª KÁTIA RABELO – O rebanho dele pode pegar uma
doença e morrer inteirinho. Tem o sinistro e outros casos menos, digamos,
agradáveis. Temos casos no banco, que eu passei, de clientes que trabalhavam
com o banco há mais de dez anos e que, um belo dia, deram cano na praça inteira
e sumiram. Acredito que pessoas que lidem com segmentos de bancos, que
trabalham no sistema financeiro sabem que isso existe. Existe, às vezes,
operamos com um cliente por dez anos, com a garantia real, o Banco trabalha
muito com recebíveis...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Não, mas tudo bem.
A SRª KÁTIA RABELO - ...e você toma esse “cano”.
Eu acho importante frisar que o volume, o tamanho desse
sinistro em relação ao tamanho do banco, isso é que é muito importante quando
analisamos a solidez de um banco.
Então, nesse caso que vivemos, a nossa decisão, a decisão do
acionista nesse momento, como a situação desse cliente, que era um cliente que,
no momento, se apresentava com uma fortíssima capacidade financeira, porque
atendia empresas de primeira linha, porque movimentava grandes somas de
dinheiro, essa situação mudou do dia para a noite, ele começou a perder
contratos, ou seja, ele perdeu essa capacidade.
O acionista do Banco Rural exatamente para prestar para esse
cliente, que confiança no Banco, essa segurança ele assumiu esse prejuízo, ou
seja, jogamos essa dívida inteirinha em provisão, o que significa jogar,
assumir como prejuízo essa dívida, e o acionista foi abatido no seu patrimônio
no valor de 131 milhões. Isso é muito complicado para um Banco.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – A senhora está
colocando como prejuízo para o Banco. Quer dizer, a senhora diz que esse
empréstimo não está calçado.
A SRª KÁTIA RABELO - Não, não, eu não disse isso, é
muito diferente.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Não, estou
perguntando.
A SRª KÁTIA RABELO - Eu disse que foi provisionado.
Vou explicar para o senhor. Quando provisionamos, isso significa que o Banco
deixa de considerar parte do seu patrimônio. Então, o patrimônio do banco hoje
é menor. O acionista hoje tem um banco menor. Isso incide sobre a capacidade de
operar do banco, porque o banco só pode operar...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Tudo bem, só quero
que a senhora ilustre. Vai terminar o meu tempo. A senhora está dizendo que vai
provisionar isso dentro do banco.
A SRª KÁTIA RABELO – Já provisionamos.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Vai aparecer no
balanço?
A SRª KÁTIA RABELO – Já apareceu.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Sim, então já apareceu?
A SRª KÁTIA RABELO – Sim.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Tudo bem. Isso daí
contabilmente vai aparecer. Estou perguntando para a senhora se esse empréstimo
está calçado ou não está calçado, porque daqui uns anos, a senhora vai entrar
na Justiça, daqui uns anos, quando acabar tudo isso, daqui a dois, três, cinco
anos tem um acerto e acaba toda esta conta.
É isso que eu quero que a senhora explique.
A SRª KÁTIA RABELO – O valor está provisionado nesse
momento. Na realidade, na hora em que provisionamos, não consideramos isso nos
valores do banco, mas consideramos isso como capazes de recuperação. Já existe
uma ação judicial, desde o dia 26 de agosto, e começa agora uma discussão
sobre...
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Tudo bem,
contabilmente está tudo certo.
A SRª KÁTIA RABELO – Sim.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Mas eu estou
perguntando: esse empréstimo vai ficar como prejuízo mesmo ou está calçado e só
vai aparecer na contabilidade, para passar esse momento?
A SRª KÁTIA RABELO – Esse empréstimo vai ser cobrado
do seu devedor na Justiça da forma que o banco cobra todos os seus devedores
que não honram os seus compromissos. É isso que eu posso dizer. Posso dizer
também que eu tenho muito pouca esperança de receber a totalidade desse
dinheiro, infelizmente.
O SR. MURILO ZAUITH (PFL – MS) – Então, é só isso, Sr.
Presidente.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR)
– Obrigado, Deputado.
Com a
palavra o Senador Rodolpho Tourinho.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Quero retomar esse ponto colocado
aqui, talvez para clarear um pouco. Quero retomar dois pontos inicialmente.
Esse é o primeiro, depois o outro colocado pela Senadora Ideli.
Perguntaria à senhora, o que o Deputado está
se referindo é o seguinte: qual é a garantia que têm esses empréstimos que
foram lançados em crédito de liqüidação? Porque é isso que pode, no futuro,
retornar depois da execução. Então, quais são as garantias hoje? Qual o valor e
quais são as garantias desse empréstimo?
A SRª
KÁTIA RABELO – Desculpe, eu não entendi a pergunta do senhor. O senhor
quer saber qual a garantia do empréstimo ou qual a garantia de que eles foram
provisionados?
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Não, não. Não, a garantia do
empréstimo hoje, porque ele está provisionado, ele continua como empréstimo.
Ele está lançado...
A SRª
KÁTIA RABELO – Isso.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – ...num crédito de liqüidação, mas ele
tem garantia.
A SRª
KÁTIA RABELO – Isso.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Isso é o que eu quero saber: qual
é o valor deles?
A SRª
KÁTIA RABELO – Ah, certo.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – E que garantias eles contêm hoje?
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Eu vou repetir o que está, hoje, na ação judicial
que nós estamos entrando, oficialmente.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Não, não precisa isso. Diga só.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – Então, é assim: R$38 milhões é o valor do débito.
Nós estamos entrando com uma ação em cima dos avalistas Cristiano Ramon e o
Marcos Valério. Estamos acionando a DNA, a partir também dos bens, como devedor
solidário – é outra ação que a gente está entrando. E estamos, inclusive,
analisando profundamente, agora, essa outra hipótese que é o fato de eu ter, o
Banco do Brasil, colocado a DNA como banco solidário. Na verdade, se compromete...
Domicílio bancário. O domicílio bancário...
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Mas o domicílio bancário não lhe
dá garantia de nada.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – É. O domicílio bancário, eu lhe diria que, na hora
que tinha o débito no passado, esses valores da DNA que entrariam no Banco do
Brasil...
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Se entrasse.
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – ...automaticamente deveriam ter passado pelo Banco
Rural, não é? Então, eu tenho, hoje, brechas.
Poderiam
ter sido retidos se eles tivessem nos repassado no momento devido. Então,
legalmente, tanto a ação da SMP&B quanto a ação da Grafitti, judicialmente,
esses são os argumentos que estão sendo frisados.
O SR.
RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – O da Grafitti são17 milhões?
A SRª
AYANA TENÓRIO TORRES – O da Grafitti são 10 milhões na origem, 17 milhões
finais; 19 milhões a SMP&B, na origem, e 38 no valor de correção.
O SR. RODOLPHO TOURINHO
(PFL – BA) – Então, essa era a
pergunta colocada pelo... O que, para mim, me deixa... Outra vez: são 38
milhões mais 17. São empréstimos com muito pouca garantia, essa é que é a
verdade, porque domicílio é se e quando tiver e passar dinheiro.
Agora, a senhora se
referiu, também, a uma fiança da DNA. Esta fiança estava lastreada em CDB?
A SRª AYANA TENÓRIO
TORRES – Não, não. Na realidade, eu
cometi foi um engano. O Reginaldo chegou a... Na realidade, a carta de fiança,
me desculpe, foi, de fato, falha minha. Reginaldo, você poderia explicar, por
favor, a questão da carta de fiança?
O SR. RODOLPHO TOURINHO
(PFL – BA) – É simples
fiança.
O SR. REGINALDO
EUSTÁQUIO DA SILVA – É uma fiança
que ela tinha com o contrato do Banco do Brasil e o banco não emprestou o
dinheiro para a DNA. Ele foi fiador dela.
O SR. RODOLPHO TOURINHO
(PFL – BA) –É. Então, eu só quero
colocar a fragilidade, outra vez, dessas garantias, porque se encerra o
processo de vencimento, lança em crédito de liquidação e você está - a rigor,
são 38 milhões mais 17, são 55 milhões - baseados em aval de Marcos Valério e
mais nada de DNA nessas relações.
Eu não concordo também.
Acusei antes, aqui, até o próprio Banco Central, nesse momento, porque, na
medida em que essas operações foram refeitas, o Banco Central já devia ter-se
manifestado de alguma forma, porque ele tem que acompanhar, é obrigação dele
acompanhar operações com irregularidades. E reforma de operação é uma
irregularidade, desde que você não agregue novas garantias, que não foi o caso.
Então, foi irregularidade.
Mais uma vez, eu acho que
outra vez a culpa do Banco Central, por mais uma razão, porque o principal
avalista dessas operações é alguém que foi executado pelo banco e que deu
prejuízo ao banco no passado. Então, outra vez, eu acho que é outra
irregularidade dentro desse processo e que acho difícil que o banco, isso já no
meu entendimento, por vontade própria, sem nenhuma outra razão, faça uma
operação de valor, hoje, de R$55 milhões sem nenhuma outra motivação. É difícil
a gente deixar de imaginar ou seja uma motivação política, ou seja até um tipo
de garantia lá fora.
Vocês têm
que entender que nós temos que pensar nisso, mesmo porque em algum momento a
senhora se referiu a que o Banco Rural Europa não fez a transferência, mas que
alguém poderia ter feito. É claro que poderia. Eu não posso deixar de imaginar
que um banco com a experiência do banco que vocês têm não tivesse alguma
cobertura nessa operação. Acho que isso é importante para a gente, para a gente
avaliar. É nossa responsabilidade verificar isso e, sobretudo, também, essa
questão da responsabilidade do Banco Central.
Há outra irregularidade, inclusive já fazendo a ligação com
a outra operação, quando o Marcos Valério sai de avalista na operação em que o
PT – Partido dos Trabalhadores – tomou, e não há a substituição de avalista.
Houve alguma agregação de novas garantias, ou simplesmente livrou o Marcos
Valério disso?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Ele
entra, inicialmente, não era nem assinando no local normal, ele assinou na
frente da proposta, e na segunda proposta, de fato, ele não aparece. Fica o
Genoino e fica o Delúbio, que são, na realidade, os representantes do PT,
oficiais da instituição.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – É estranho
que os senhores tenham concedido esse crédito a mais, assim como é estranho o
Banco Central não ter se manifestado. Teve o avalista, mas retirou o avalista.
Não se pode fazer isso. Quer dizer, a rigor liberou o Marcos Valério da
operação com o PT. Hoje o Marcos Valério não tem nenhuma responsabilidade nesta
operação com o PT.
Discordo também dessa questão da modelagem do Banco, que é
tão tratada aí. A modelagem é uma forma do Banco querer agir ou de agir, mas
não pode contrariar o Banco Central. Então, há toda uma modelagem aqui
apresentada. Por exemplo, não se pode fazer reforma automática. Hoje, a reforma
foi tratada aqui várias vezes, inclusive o Senador César Borges perguntou sobre
o que teria sido depositado na conta de Marcos Valério. Mas reforma não pode
ser tratada como coisa normal. Quero, outra vez, discordar deste funcionamento.
Voltando ao ponto inicial colocado pela Senadora Ideli
Salvatti – pena que S. Exª não esteja presente, porque não tenho a lista –,
quero lembrar, e gostaria que a senhora confirmasse, Drª Ayana, a respeito da
questão de comunicação feita ao Coaf, coisa que deveria ter sido feita. O
Manual de Normas de Instrução do Banco Central, nº 215, no Capítulo V, Item “a’
– só para caracterizar bem –, diz que deve ser comunicada qualquer operação
acima de R$10 mil quando se verificar a possibilidade de crime. Isso é o que
diz a Resolução. Então, quando houver indício de algum crime, tem-se que
comunicar ao Coaf.
Por que vocês comunicaram em alguns casos e em outros casos
não? No caso em que vocês comunicaram, ou registraram, foi por que acharam que
havia indícios, crimes ou o quê? Fica essa pergunta, que é muito incômoda para
vocês.
Quanto a essa questão do indício de crime, o que os bancos
fazem, hoje? Como os bancos não sabem ou é difícil distinguir, nas suas
inúmeras agências, o que é indício de crime, já que ele não pode passar isso de
funcionário a funcionário, eles fazem a comunicação entre agências, ou seja, a
posição correta de um banco, hoje, é comunicar toda e qualquer operação acima
de R$10 mil, coisa que vocês não fazem. Então, eu queria entender um pouco essa
questão do indício de crime, porque deixa no ar uma dúvida muito grande do
porquê são feitos em alguns casos e em outros, não.
Outra coisa – já para ganhar tempo –: sou contra àquilo que
V. Sª colocou que “era funcionário da empresa”. Não tem nada a ver: Ou comunica
tudo, ou comunica quando tem indício de crime. O fato de ser pessoa jurídica,
não tem nada a ver com a história. Tem que fazer.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES DE JESUS – Vou
tentar responder a pergunta de V. Exª. Queria, depois, que o Reginaldo, na
realidade, confirmasse a questão da regra.
O que tenho conhecimento da regra do Banco Central, Coaf, é
que valores acima de R$100 mil têm que ser comunicado no mesmo dia que a
operação foi feita, ou o somatório total daquele dia de movimentação feito na
conta atinja o valor de R$ 100 mil.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Ou acima de
R$10 mil, se houver indício de irregularidade.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES DE JESUS – Isso. No
caso especificado, todas as operações que ficaram com esta característica, elas
foram devidamente informadas ao Coaf. É tanto que existia uma divergência, às
vezes, de número de Coaf, que eram apresentados dos nossos números maiores do
que eram percebidas aqui pelos números. Por quê? Porque, naquele dia, em vez de
ser R$50 mil, uma operação normal, eram três operações de R$50 mil, que faziam
um total de R$150. Então, automaticamente a gente avisava.
Com relação à questão da não informação – aí eu vou falar e,
por favor, o Reginaldo me corrija, porque pode ser uma questão de eu ser leiga
–, a pessoa que ia até a SMP&B era uma das diretoras da SMP&B, e ela
assinava pela empresa. Então, na hora em que ela própria assinava o documento
de transação, em espécie – ela estava presente na frente do caixa – e
apresentava a documentação, efetivamente ela era uma representante oficial
daquela empresa na hora do saque. Então, o que ela tinha de comprovar era que
ela era ela.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – O que acontece
aí é que a gente...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – O Davi,
neste caso, na realidade, na própria documentação, indicava que era ele que ia
receber. E, aí, ele tinha de assinar. Mas a documentação vinha oficial...
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – A senhora veja
o seguinte: estamos com vários critérios. Então, o que acontece hoje? Tem-se,
por amostragem, aquilo que foi dito pela Senadora Ideli Salvatti. Pode-se ter
inúmeras pessoas envolvidas nisso. Essa é a nossa grande preocupação. Pode-se
ter inúmeras pessoas envolvidas e não identificadas, porque uma dessas relações
têm três milhões – a relação que estava aqui, da Senadora Ideli Salvatti –, e
foi feita por amostragem. Pode haver ainda mais do que isso em uma outra
relação, eu não sei exatamente o valor. Ou seja, pessoas podem estar envolvidas
nisso. Isso tem de ser recuperado.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Permita-me,
na minha ignorância, mais uma vez, dizer que um cliente chega ao meu caixa, me
pede um saque de R$100 mil de um dinheiro que está na conta dele, faz o saque e
entrega esse dinheiro a outras pessoas. O banco não pode se responsabilizar por
aquilo que o dono fez dessa forma.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Não, não. É o
primeiro. O primeiro.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – (Inaudível.)
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Beneficiária
original, Senadora, a nossa informação – queria, mais uma vez, que o Reginaldo
ratificasse o que estou colocando, porque ele tem conduzido, inclusive aqui,
com os senhores, toda a averiguação – é que todas as documentações referentes a
saque em espécie, dentro dos procedimentos da legalidade e da obrigatoriedade,
foram feitas. O que acontece, em alguns casos, e acontece de fato, é que quando
o próprio dono do dinheiro, teoricamente representante oficial daquela
instituição, vai até a instituição, saca o dinheiro, pega o dinheiro e entrega
para alguma outra pessoa, quando isso não é obrigatório, como legalidade, o
acompanhamento...
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Não parece ser
esse caso da Senadora Ideli Salvatti. Quero deixar isso claro.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Estamos à
disposição para averiguar.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Quero deixar
essa dúvida, que considero muito séria e muito importante. E quero expor mais
uma: a senhora tem, hoje, o levantamento daquilo que foi enviado para o
exterior em conta CC-5? Vocês usaram isso?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Eu não, eu
não tenho... Essa informação eu não...
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade,...
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Nunca
usaram a CC–5? Deve ter sido o único Banco que não usou isso.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Calma.
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade, essa informação, esse
tipo de movimentação aconteceu há muitos anos, há dez anos, que foi a
movimentação investigada na CPI do Banestado. Realmente, a Ayana dificilmente
poderia saber alguma coisa.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Recentemente
não foi enviado nada? Vocês têm uma subsidiária 100% integral lá fora. Não
fazem depósitos em CC-5?
A SRª KÁTIA RABELO – Você sabe? Essa legislação parece
que mudou muitíssimo.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Não. A CC-5 é
antiga. É bem antiga. É de estranhar. Quero deixar isso como mais uma
interrogação. Há um requerimento meu sobre isto: transferência para o exterior
via CC–5.
A SRª AYANNA TENÓRIO TORRES DE JESUS – Desculpe,
a pergunta do senhor...
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Perguntei
sobre transferências para o exterior via conta CC-5. Se vocês têm uma
subsidiária integral, que é o Banco Rural Europa, e não utilizam da CC-5, não
dá para entender.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Imagino
que, se existe uma lei que permite essa remessa, o Banco Rural...
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – A lei é de
anos e anos...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – O Banco
Rural está trabalhando, com certeza, dentro da lei. É isso o que eu posso, com
toda a certeza, afirmar.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – O meu tempo
acabou. Mas estou pedindo também essa informação. Deixo todas essas dúvidas,
que não são pequenas.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – V. Exª
está falando dessa operação, das empresas que dizem respeito ao que a gente
está discutindo?
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Do Banco
Rural, de transferências para fora.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – De uma
forma ampla?
A SRª KÁTIA RABELO – Qualquer transferência feita pelo
Banco Rural para fora, isso eu não sei se...
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – De transferência
de vocês para vocês lá fora – vocês têm uma subsidiária integral –, ou para trade
link.
A SRª KÁTIA RABELO – Essas transferências são para
clientes, na verdade.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) –
Transferências, são transferências da CC-5?
A SRª HELOÍSA HELENA (P–SOL – AL) – Há alguma para
esses clientes citados, que também sacavam em espécie?
A SRª KÁTIA RABELO – Deixe eu... Não, eu não tenho o
registro disso. Deixe explicar uma coisa para V. Exª: esses bancos, lá fora,
são bancos regidos pela regulamentação lá fora. Então, o movimento dessa
contas...O que estamos fazendo aqui hoje? Estudando toda movimentação da conta
de determinadas empresas, porque houve uma quebra de sigilo. No começo, quando
vazou o relatório da Coaf, e que foi o único banco que vazou esse relatório –
não sei o porquê, mas acredito que era o
único banco que estava enviando essas informações regularmente, então,
este relatório existia e, por isso, ele vazou. E nós ficamos numa situação muito
difícil, porque existia o sigilo, e a imprensa queria os nomes das pessoas e a
gente não podia dar. Então, hoje, estamos numa forma semelhante com relação a
essas movimentações no exterior: existe um sigilo, que nós temos que respeitar;
nós não podemos informar a movimentação dos nossos clientes no exterior.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Não é a movimentação dos
clientes no exterior, porque isso eu sei que não pode. Eu não posso pedir
nenhuma movimentação do Banco Rural Europa, porque ele é regido pela lei da
Comunidade Européia. Mas eu posso pedir – e aí o sigilo quebrado permite – a
movimentação...
A SRª KÁTIA RABELO – A movimentação dessas contas? Não existe;
não existe. Dessas contas...
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – Já pedi por
escrito e acho que fica mais fácil, inclusive, há outras pessoas que vão falar.
A SRª KÁTIA RABELO – Acho que uma movimentação em geral do
Banco Rural para o exterior é uma coisa muito vaga, e acho que é impossível
responder isso, imagino.
O SR. RODOLPHO TOURINHO (PFL – BA) – O sigilo está quebrado para
isso.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Dessas contas, sim.
A SRª KÁTIA RABELO – Dessas empresas. Nós não
podemos quebrar o sigilo do Banco de outros clientes.
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PMDB – PR) –
Obrigado, Senador.
Passo aos reinscritos. Já reinscrevo, a pedido, o Deputado
Antonio Carlos Magalhães Neto.
Concedo a palavra a nobre Senadora Heloísa
Helena, por 10 minutos.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Sr. Presidente,
nesses processos já começo a ficar com dó, com pena dos trabalhadores do Banco:
os mas antigo, os mais novos, que nada têm a ver com as relações políticas
promíscuas que são estabelecidas e que certamente acabarão sendo penalizados.
Vou voltar, não sei se foi a Drª Ayana ou a Drª Kátia ou o
Dr. Reginaldo, não sei quem trabalhou sobre essa questão da identificação dos
beneficiários primeiros em relação ao que aqui foi colocado por vários
Senadores.
A Srª disse: “Acho que o Tribunal de Contas
da União fez, com o apoio técnico do Banco, uma nova listagem para identificar
quem são os beneficiários”. Onde está esta listagem?
A SRª KÁTIA RABELO – Foi um grupo, que foi acertado na
quinta-feira, que não foi da sexta-feira, foi da sexta-feira anterior – é até
bom a data fechar. Estivemos, na quinta-feira, e acertamos a ida de três
entidades lá: uma pessoa do Banco Central, que está aqui dentro da CPMI; uma
pessoa do TCU, que está trabalhando com vocês na CPMI e um pessoal da Polícia
Federal para checar a fraude.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Então, isso daria
conta do preenchimento do chamado o vazio dos beneficiários. Este documento já
está pronto?
A SRª KÁTIA RABELO – Eles trabalharam conosco
sexta-feira e sábado desta semana; ficaram de voltar com mais informações.
Porque eles levaram, inicialmente, Senadora, trinta cheques que eles tinham
alguma dúvida. Nós preparamos os trinta cheques, conversamos, apresentamos toda
a documentação naquela oportunidade, o rapaz do TCU levou uma relação um pouco
maior, porque ele estava incomodado. Estamos à disposição, inclusive, o próprio
Reginaldo está full time nisso. Estamos aguardando agora o retorno para
outros aprofundamentos que eles achem que por acaso a informação não está
devida.
E o pessoal da Polícia Federal que foi checar os nossos
sistemas, porque existia aquela questão que a gente poderia ter fraudado alguma
coisa, estiveram a tarde inteira checando a parte técnica do Banco, a parte de
tecnologia, porque surgiu, em algum momento, que a gente poderia ter mexido no
sistema, e eu estive pessoalmente com eles ao final da tarde. Estamos esperando
o laudo deles, que, pra gente, é bastante importante, até para ratificar o que
a gente vem dizendo: que não existe, efetivamente, nenhuma negativa do Banco de
mostrar as coisas. O que ouvi, da parte deles, é que eles não tinham encontrado
nada. Mas não recebi nada oficialmente ainda.
Imagino que esse pessoal deve estar voltando esta semana
para finalizar, o que é importante. O que disse a Senadora Ideli é que, de
fato, a gente não tem nenhum interesse em negar qualquer informação que
tenhamos. Aquilo que nós, por acaso, não tivermos, aí vai ficar difícil. Por
exemplo, pode estar faltando algum nome daqueles e-mails, o documento
final, porque era uma operação humana que tinham pessoas fazendo e que, de
repente, podem não estar lá. Quer dizer, a gente pode garantir que 100% dos
faxes estão com a identidade e o CPF lá. Os 100% talvez eu não possa garantir,
mas posso garantir que tudo que temos dentro do Banco Rural e que nós tínhamos
na hora em que o caso estourou, foi entregue à CPMI, e está disponível para, a
qualquer momento, voltarmos a averiguar. E este é um fato bastante importante
para nós, Senadora, porque, cada vez que de alguma forma fica claro que a gente
possa estar negando informação, e agente, do lado de lá, está com cinqüenta
pessoas, o tempo inteiro, trabalhando, com o objetivo, de fato, de entender, e
eu, pessoalmente...
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Foi aberto algum
procedimento interno no Banco em relação aos empréstimos que foram feitos sem
aval?
A SRª KÁTIA RABELO – Vai fazer noventa dias. Hoje é
dia 13 de setembro, e esse processo começou no dia 13 de junho. Então, é
engraçado que estamos aqui justamente noventa dias depois disso. Eu posso dizer
que temos trabalhado, em média, 10 a 12 horas por dia, com um grupo bastante
grande, aprofundando e tentando, de fato, entender, da mesma forma que está
sendo feito aqui, as questões das informações.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Drª Kátia, eu
queria que a senhora tentasse disponibilizar com mais precisão, já que está
desde 1999, e, às vezes, a senhora nos demonstra um razoável conhecimento sobre
a dinâmica do sistema financeiro, em outros momentos, a senhora diz que não
consegue identificar absolutamente nada, porque se dedicou ao mundo da música,
das artes, então, fica mais difícil para entendermos isso. Mas, politicamente,
quem a senhora via, qual foi o momento em que V. Sª identificou relações
políticas no Banco, ou se em algum momento ouvia falar de que havia segurança
na estrutura do Banco em função dos empréstimos estarem sendo feitos com
pessoas, de alguma forma, articuladas com a estrutura do Poder, mesmo tendo
dito anteriormente que não ouviu o Ministro José Dirceu ou qualquer uma outra
personalidade, mas a senhora não ouvia falar nada, estava todo mundo muito
seguro de que todas essas operações estavam sendo montadas, e que todas iam ser
pagas, e que não havia nenhum prejuízo para o Banco?
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade, o que pode dar essa
impressão para V. Exª em alguns momentos é que tem alguns assuntos no quais me
aprofundei mais até em função dos acontecimentos, porque, depois que as coisas
vieram à tona, fomos realmente buscar. Por exemplo, questão de garantia de
empréstimos. Eu nunca entrei nisso. Isso não fazia parte das minhas
atribuições. Isso era uma atribuição a partir de um determinado valor relativo
ao meu patrimônio líquido, como eu estava explicando antes, isso só me dizia
respeito no momento em que essa dívida pudesse significar um risco para o
Banco. E eu tinha um CO, como é chamado lá fora, que era um executivo, que era
a pessoa em quem a minha irmã confiava, e que era a pessoa em quem eu confiava,
e que era a pessoa realmente que tinha, vamos dizer, o conhecimento tácito do
crédito, que lidava com o crédito há anos. Então, de fato, tem algumas
informações que só fui me inteirar delas depois, e que, na época, realmente, eu
não tinha...
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Sempre foi natural
no Banco Rural esses saques em volume muito grande? Isso acontece com outros
setores também, ou com prefeituras, ou com empreiteiras? Acontece muito esse
volume muito grande de saque em espécie?
A SRª KÁTIA RABELO – Em primeiro lugar, quero deixar
bem claro que não tínhamos conhecimento disso. Existe uma área específica que
acompanha isso; isso é um acompanhamento técnico que não chegava até o meu
conhecimento, porque essa área técnica não identificou nenhuma anormalidade
àquilo que a Ayana chama de normal, assim como o Coaf também, assim como o
Banco Central, como ninguém identificou nenhuma anormalidade nessa movimentação
de saque. Então, eu, pessoalmente, não tinha conhecimento.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Mas, Drª Kátia,
ninguém...
A SRª KÁTIA RABELO – Qual é a outra pergunta?
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – ...sequer
comentava com a senhora esse tipo de procedimento? A própria...
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – ...utilização da
estrutura física do Banco...
A SRª KÁTIA RABELO – De forma alguma.
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Porque a Srª Simone disse que, inclusive
quando um Parlamentar, não sei quem foi que falou da cor da blusa, não era nem
pela cor da blusa que você sacava, era porque o Sr. Marcos Valério ligava para
a Srª Simone e dizia: “A pessoa que vai pegar o dinheiro, qual é a cor da blusa
que você está?’ Ela dizia: “Estou com uma blusa vermelha”. Aí, alguém chegava
para ela e dizia: “Vim buscar a encomenda”. E ela disse que usava a estrutura
física do Banco.
Então,
quer dizer que a senhora nunca ouviu falar absolutamente nada? Porque veja, Drª
Kátia, se ponha, não é nem no meu lugar, mas no do cidadão, da cidadã comum,
que, como eu gosto de repetir, quer ensinar aos seus filhos que é proibido
roubar, ela sabe como funciona um banco. Ela pode não saber a complexidade
técnica, porque até a senhora, que é a Presidente do Banco, disse que não sabe,
imagine uma cidadã comum! Mas ela sabe que talvez ela jamais chegue ao gerente,
não é? Ela sabe as dificuldades que ela tem na relação com o Banco, ou na
relação com o cheque especial, ou na relação com uma conta. Então, imagina como
é que ela se sente vendo – está certo a senhora dizer que do mesmo jeito a
senhora como a Drª Ayana também disse que não caberia ao Banco fiscalizar o que
as pessoas faziam com o dinheiro sacado; é verdade, se pagavam o “mensalão”,
alugavam hotéis de luxo para promover orgias sexuais ou fazia coisas mais
desprezíveis e deploráveis, é evidente que quem estava lá, entregando o
dinheiro, que era sacado, não sabia, não tinha obrigação de procurar saber. Mas
tinha algo sobre a saúde financeira do Banco. De alguma forma, quando a senhora
disse que viu o Ministro José Dirceu... Eu fico falando do Ministro José Dirceu
não é por nada em relação a ele, até porque eu sei que, por mais que ele possa
ser um adversário político meu, jamais faria nenhum procedimento sem o aval do
Presidente Lula, o aval da cúpula palaciana do PT. Então, quando eu falo sobre
ele é porque ele acabou sendo questionado e a senhora disse que o viu em um
jantar, mas que não sabe se foi tocado absolutamente nada em relação a isso.
Ninguém comentava, politicamente? Eu sei que fica difícil falar sobre pessoas
mortas, é uma coisa até constrangedora para nós, porque tem um pai e uma irmã,
um diretor financeiro do Banco, então, eu sei o que é isso, porque eu também
tenho um irmão que foi assassinado, como era filho de pobre ninguém nunca achou
quem o matou, essas coisas todas. Mas, vamos deixar os mortos descansados. Em
nenhum momento a senhora, como parte da família, em nenhum momento falava sobre
isso: que estava tudo tranqüilo?
A SRª
KÁTIA RABELO – Não.
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Em nenhum momento ninguém comentou com
a senhora, nem um funcionário do Banco, nem um dirigente mais importante do
Banco, nem ninguém da família? Ninguém comentava absolutamente nada sobre a
relação do Banco com o Sr. Marcos Valério? Com o Governo? Com os saques do PT
ou de qualquer um outro partido político, em nenhum momento?
A SRª
KÁTIA RABELO – Sobre saques, em nenhum momento....
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Ou sobre qualquer relação política, D.
Kátia, por Nossa Senhora! Porque a gente...
A SRª
KÁTIA RABELO – A relação política, eu já explicitei aqui qual foi, qual
existiu.
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Sim.
A SRª
KÁTIA RABELO – Existiram três encontros: um, do meu pai, e dois meus com
o Ministro José Dirceu...
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Sim, aí, desculpe-me ficar
perguntando, não eram conversas pessoais, óbvio! Então, eram conversas
institucionais. Eram conversas demoradas?
A SRª
KÁTIA RABELO – Sim.
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Desculpe-me estar perguntando esse
detalhamento, mas é de minha obrigação fazê-lo.
A SRª
KÁTIA RABELO – Para mim não tem problema nenhum responder.
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Eram conversas demoradas? Tratavam
sobre detalhes do Banco? Da globalização? Das instituições de crédito? Dos
juros? Porque precisamos saber. O que estamos investigando é um gigantesco
esquema de corrupção, e colocam o Banco Rural também como parte deste esquema
de corrupção. Então, a senhora tem de nos convencer de que não estavam. Então,
o que efetivamente conversavam? Tratemos da senhora, já que não fica bem tratar
de outras pessoas que aqui já não estão.
A SRª
KÁTIA RABELO – Sim. Eu nunca ouvi nenhuma dessas pessoas comentar sobre
pagamento de Parlamentares fosse esse pagamento feito dentro das agências do
meu Banco ou fora. Essas pessoas fizeram isso sem o meu conhecimento. Isso eu
afirmo...
A SRª
HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Sim. Mas alguém dizia: “Não se
preocupe que os empréstimos, ou com o nome do PT, ou com aval de dirigentes do
PT, ou do Marcos Valério para repassar”. Ninguém dizia à senhora: “Fique
tranqüila”, e nem a senhora estava intranqüila na época?
A SRª
KÁTIA RABELO – Eu estava bastante intranqüila.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Sim. E como a
senhora se posicionava quando estava intranqüila? Falava com quem?
A SRª KÁTIA RABELO – Falava com o Marcos Valério.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – E ele dizia o quê?
A SRª KÁTIA RABELO – Ele dizia que este dinheiro
tinha sido repassado ao PT, que a pessoa que sabia disso era o Delúbio, e que
este dinheiro tinha sido repassado para pagar dívidas do Partido, e que ele
iria nos pagar. Repetia...
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Muitas vezes a
senhora conversou com o Marcos Valério?
A SRª KÁTIA RABELO – Conversei várias vezes com ele,
principalmente depois que o José Augusto morreu, porque eu não podia me dar ao
luxo de, simplesmente, não gostar do Marcos Valério e não conversar com ele,
sendo que ele me devia uma soma considerável.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – E quando a senhora
conversava com algum dirigente do PT: ou o José Dirceu ou o Delúbio?
A SRª KÁTIA RABELO – Eu não conversei.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – A senhora não disse
que conversou?
A SRª KÁTIA RABELO – Com o José Dirceu?
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Conversava sobre o
quê?
A SRª KÁTIA RABELO – O primeiro encontro, que foi no
Palácio, tratamos, basicamente falamos do meu pai – foi muito rápido. Um pouco
nos posicionando sobre o Mercantil de Pernambuco, aquela questão do
levantamento da liquidação.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Lembra-se do ano?
A SRª KÁTIA RABELO – Lembro-me. Outro dia levantaram
até a data, porque parece que, no Palácio, isto é registrado. A informação que
tive foi de que foi no dia 6 de agosto de 2003. Eu estava com o Dr. José
Augusto nessa época, ainda. Achei que estava errado, porque era coincidência
demais, porque o jantar...
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Como a senhora
estava lá com o Sr. José Augusto, que era quem entendia disso, ele comentava
alguma coisa? Desculpe-me, estou terminando.
A SRª KÁTIA RABELO – Foi o primeiro encontro que tive
com o Ministro. Foi bastante formal; ele foi bastante formal e não se falou em
dívidas sequer do PT ou de ninguém. Falou-se do meu pai, dele como empreendedor
e tal. Sabe, essas coisas como “Ah, ele é mineiro; o Ministro é mineiro”, esse
papo, posicionando sobre como estava o andamento da questão do levantamento da
liquidação do Mercantil. No jantar, que foi longo, ficamos possivelmente mais
de duas horas, o Ministro falou bem mais do que eu e o meu colega. Ele
discorreu durante algumas horas, acredito que mais de uma hora, sobre o País, o
que estava sendo feito, as mudanças, a política, a economia, o que ia
acontecer. Eu não vou saber, pois ele falava muito em taxas. A taxa disso
subiu... Desculpem a minha ignorância, é sincero, não tenho muito cabeça para
decorar esses números. Ele falava dos números da economia, se posicionava.
Então, o jantar foi acontecendo e acontecendo e, num determinado momento do
jantar o meu diretor colocou: “Olha, Ministro, nós queríamos aproveitar a
oportunidade para posicioná-lo, mais uma vez sobre como está o andamento lá do
levantamento da liquidação do Mercantil”. E aí nos posicionamentos, conversamos
mais um pouco sobre generalidades, e o jantar acabou.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – E nada com nenhum
dirigente? Mas a senhora já sabia anteriormente que o Marcos Valério repassava
para um Partido e, mesmo assim, a senhora, quando estava com as pessoas deste
Partido, não falava sobre isso?
A SRª KÁTIA RABELO – Não. Nunca toquei no assunto.
Era a única pessoa que eu tinha; nunca toquei no assunto, e ele também não. Com
o Delúbio, sim.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Com o Delúbio a
senhora falava?
A SRª KÁTIA RABELO –
Com o Delúbio, sim
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Quantas vezes
encontrou com ele?
A SRª KÁTIA RABELO – Encontrei com o Delúbio, sei lá,
um par de vezes. Não sei precisar quantas vezes.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Muitas vezes?
A SRª KÁTIA RABELO – Não, poucas vezes.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Desculpe-me,
mas par não é ...
A SRª KÁTIA RABELO – Três ou quatro.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Não quis levantar
nenhuma contradição. É o tipo de linguajar. É a mesma coisa se eu disser com um
jeito meu nordestino de falar. Lá não se diz par. Par é dupla. Então, não é
par, foram algumas vezes.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu pensava que fossem duas.
Depois que me lembrei que o havia encontrado no velório.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Conversas longas?
Questionava sobre isso?
A SRª KÁTIA RABELO – Não. Muito rápido. Ele...
A SRª HELOÍA HELENA (P-SOL – AL) – Onde?
A SRª KÁTIA RABELO – Ele foi uma vez ao Banco.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – No par, nas outras,
era onde?
A SRª KÁTIA RABELO – No velório do José Augusto,
parece-me. Acho que duas vezes no Banco, uma coisa assim. É o que eu me lembro.
Ele afirmava que o dinheiro, de fato, tinha sido usado para dívidas do PT.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Mas, preocupava-lhe
que ele ia receber o dinheiro, ele garantia que ia? Porque a senhora não ia se
preocupar com as dívidas que o PT fez na campanha com dinheiro emprestado. A
senhora queria saber se iam pagar a senhora.
A SRª KÁTIA RABELO – Exatamente. Como era dito que
era para pagar dívidas, eu confesso que moralmente isso não me agredia, sabe,
Senadora? Eu achava que, se o Partido tinha dívidas e precisava de ajuda para
pagá-las, eu não me sentia agredida.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Eu sei, flor, mas
você ia precisar receber o dinheiro.
A SRª KÁTIA RABELO – Claro, e isso estava me
incomodando muito.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – É isso que eu quero
saber, porque a sua solidariedade, a caridade ao PT – desculpe a ironia, é
porque, da minha parte... Eu estou dizendo no que interessa ao banco. Eu quero
saber da senhora como dirigente de um banco. Por mais que a senhora pudesse
ficar sensibilizada e achar que moralmente podia fazer isso, como seria para a
senhora receber? Daqui a pouco, muitos amigos meus vão querer fazer empréstimo
no banco da senhora.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu queria fazer uma distinção
muito clara.
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Sim, então diga da
sua intenção de receber o dinheiro.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu fiquei sabendo que esse
dinheiro emprestado ao Marcos tinha sido usado, repassado pelo PT para pagar
dívidas do PT. Depois que tudo já estava feito. Então, eu tive de administrar
uma situação que já existia. Eu nunca soube de saques e pagamentos para
parlamentares; nunca soube, nunca ouvi falar disso. Eu quero deixar isso muito
claro.
A minha preocupação em receber existiu, sim, em vista de que
eu tive uma situação na minha mão, que caiu no meu colo, negociação da qual eu
não participei, e eu não era a pessoa que negociava com o Marcos Valério.
Existia uma relação pessoal. Então, eu tive que, de fato, estabelecer uma
relação que eu não tinha, no passado, com essa pessoa, uma relação com o Marcos
Valério; e ele repetia, prometia que ia pagar, que ia pagar, às vezes de
maneira... até deixava a entender assim: “Ah, eu vou pagar, mas também vou
ficar de mal”. Assim, sabe?
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – De mal como?
A SRª KÁTIA RABELO – Assim, “também vamos encerrar a
relação com o banco”, vamos supor. Ou “deixo de ser cliente do banco”, vamos
supor, certo?
A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – E ele dizia que ia
pagar como?
A SRª KÁTIA RABELO – Ele não falava como; ele falava
às vezes data, por exemplo: dia tanto do tal, o dinheiro vai estar na conta.
Era assim, sabe? E executar judicialmente um devedor... V. Exª provavelmente
não sabe, mas é muito difícil receber uma dívida judicialmente. É muito
complicado. A empresa dele tinha capacidade de pagar; ele prometia que ia
pagar. Então, nós estávamos ali, naquela tentativa de receber. Era essa a
situação.
Agora, a relação dele com os políticos, eu não compartilhava
dessa relação. V. Exª entende? Eram relações diferentes. Quando eu estava na
presença do Ministro, eu tinha uma relação de banqueira com uma autoridade, com
o “primeiro ministro”. Ele vinha, falava o que achava que deveria ser colocado,
e eu colocava aquilo que...
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Como é mesmo
que a senhora disse? O “primeiro ministro”?
O SR. PRESIDENTE (Gustavo Fruet. PSDB – PR) – Por
favor, então, agradeço à Senadora.
Concedo a palavra ao Deputado ACM Neto.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Agradeço ao Presidente, à Senadora Ideli Salvatti e ao Deputado Pompeo de
Mattos. Srª Kátia, Srª Ayana, eu procurarei ser bastante breve.
Srª Kátia, confesso a V. Sª o seguinte: eu não sei se sinto
pena da senhora ou se sinto repulsa. Se eu partir para sentir pena da senhora,
eu vou ter de me convencer de que a senhora, como proprietária do banco, de
fato, não tinha conhecimento das operações que os seus principais executivos
realizaram; de todo o imbróglio em que eles acabaram envolvendo a instituição
financeira de propriedade de V. Sª.
Caso eu não me convença dessa tese, evidente que eu hei de
sentir repulsa, assim como esta Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso
Nacional e o Brasil, porque o Banco Rural acabou sendo muito mais do que uma
mera instituição financeira utilizada para a montagem desse esquema de
corrupção, do Sr. Marcos Valério com o Partido dos Trabalhadores. Foi, na
verdade, um dos artífices e um dos agentes protagonistas que viabilizou esse
esquema.
Muito bem. Quando o Sr. Delúbio Soares foi ouvido pela CPMI
dos Correios, eu fiz um primeiro questionamento a ele, com base naquilo que
ouvi de técnicos do mercado financeiro, com base naquilo que ouvi de
economistas. E vou repetir a mesma pergunta à senhora. Hoje, acho que fiz a
pergunta à pessoa errada. Talvez ele não fosse o sujeito mais apropriado para
me dar aquela informação, mas a senhora certamente será.
Perguntei a ele e repito: como o Banco Rural, uma
instituição de renome nacional, deu crédito e formatou os empréstimos nos
moldes que fez, seja oficialmente com o Partido dos Trabalhadores, seja,
principalmente, com o maior montante com o Sr. Marcos Valério? Porque as regras
básicas de mercado indicam que não se deve dar empréstimos a hospital, a igreja
e a partido político.
O PT, antes de chegar ao Governo, não havia contraído
empréstimo bancário algum. Não se tem notícias de que essa seja uma prática
habitual por parte dos políticos, não porque eles não queiram, mas porque as
instituições financeiras não aceitam fazer, justamente porque carecem de
garantias. E se, por um lado, a senhora podia desconhecer que o destino final
dos recursos levantados pelo Sr. Marcos Valério era a transferência para
parlamentares e para partidos da base aliada, por outro, não podia desconhecer
o empréstimo oficial dado ao Partido dos Trabalhadores, fugindo, assim, a uma
regra, como disse aqui, habitual do mercado.
Então, a senhora mesma disse que não cuidava dos créditos,
que não era a senhora quem avaliava os créditos. Quem foi a pessoa responsável
dentro do Banco Rural por dar a palavra final de que os créditos deveriam ser
dados ao PT e claro que também ao Sr. Marcos Valério? Que os empréstimos
deveriam ser concedidos?
A SRª KÁTIA RABELO – Nos empréstimos concedidos ao PT,
quem deu a palavra final foi o Sr. Augusto Dumont, e nos empréstimos concedidos
ao Sr. Marcos Valério, na verdade, às empresas do Sr. Marcos Valério, também
foi o Sr. José Augusto Dumont quem deu a palavra final, que era o vice-presidente
na época.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Eu sei.
Então, pressuponho que o Sr. Augusto era uma pessoa que
privava da confiança de V. Sª. V. Sª confiava no Sr. José Augusto, tinha nele
um executivo competente, alguém que, portanto, tinha autonomia para tomar
decisões da ordem que tomou. Estou correto?
A SRª KÁTIA RABELO – É verdade.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Muito bem. Também não gosto de falar daqueles que estão ausentes, mas, na
nossa opinião, era absolutamente impossível que o Sr. José Augusto
desconhecesse o destino desses recursos. Sabe por quê? Do contrário, os
empréstimos não teriam sido concedidos. Se o Sr. José Augusto não soubesse que
os recursos levantados pelas empresas do Marcos Valério tinham como objetivo
principal o abastecimento de partidos da base aliada, os empréstimos não teriam
sido dados, porque careciam de garantias, das garantias tidas como normais pelo
mercado.
E posso concluir, por essa lógica que apresento neste
momento, recorrendo às palavras do Sr. Marcos Valério. O Sr. Marcos Valério
disse, com toda clareza, que, quando ele tomou os empréstimos com o Banco
Rural, o fez com uma garantia: a garantia política, a garantia do conhecimento
do então Ministro Chefe da Casa Civil e todo-poderoso do Governo, o Sr.
Deputado Federal José Dirceu.
É evidente que, se o Marcos Valério se fiou nessa garantia,
o Sr. José Augusto também se fiou nessa garantia. Foi uma garantia de natureza
política. Estou certo ou estou errado?
A SRª KÁTIA RABELO – Não posso afirmar se o senhor
está certo ou está errado.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Mas a senhora não me disse que privava da confiança. Será que o Sr. José
Augusto, queira ou não, era um funcionário de V. Sª, ele iria tomar as decisões
que tomou tendo os riscos que tinha, sem sequer comunicar a V. Sª, sem sequer,
na reunião do conselho do Banco Rural, participar a V. Sª; ou, então, no
convívio social que ele poderia eventualmente desfrutar com V. Sª, ele nunca
fez referência alguma?
A SRª KÁTIA RABELO – Eu preciso fazer um comentário
com o senhor. Eu conheci realmente, e aliás vou aproveitar essa oportunidade,
muito bem o Dr. José Augusto. Foi uma das pessoas mais admiráveis que eu
conheci na minha vida, e eu tinha verdadeira adoração por ele e nutro por ele
ainda hoje um carinho imenso, que eu levo comigo. Queria deixar isso bem claro.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Muito bem.
A SRª KÁTIA RABELO – Zé Augusto tinha uma maneira
muito peculiar, como eu disse aqui na minha abertura, de proceder com relação a
devedores, e uma coisa eu posso afirmar, conhecendo ele como eu conhecia: ele
sabia, porque ele conhecia as movimentações das empresas do Marcos Valério, ele
sabia os clientes que o Marcos Valério tinha e ele, se emprestou dinheiro para
o Marcos Valério, eu tenho certeza, que ele iria cobrar esse dinheiro do Marcos
Valério.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Não tenho dúvida.
A SRª KÁTIA RABELO – Estivesse o Marcos Valério se
fiando em quem fosse.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Dona Kátia, eu não tenho dúvida, mas, na minha opinião,...
A SRª KÁTIA RABELO – Conhecendo o Zé Augusto, eu
tenho certeza que ele iria cobrar do Marcos Valério.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Dona Kátia, eu não tenho dúvida que ele cobraria, porém ele, um
profissional, como a senhora diz, competente, aplicado, de confiança da
senhora, ele não iria conceder esses empréstimos sem que houvesse uma garantia
ao lado, sem que houvesse uma caução, que nós vamos ter que descobrir se houve
ou não, sem que houvesse um outro amparo de fontes onde o Banco de V. Sª
pudesse abastecer os seus cofres, para poder compensar eventuais perdas, mas eu
continuo.
Por que... Onde é que existe a contradição? A senhora mesmo
disse que o Marcos Valério foi visto como um facilitador, não é? Do acesso que
a instituição de V. Sª pretendia ter com o Governo Federal e, em especial, com
a figura do Ministro José Dirceu. A senhora disse aqui, ou então me corrija,
por favor.
A SRª KÁTIA RABELO – Não, na verdade, eu não disse
que nós pretendíamos isso. Isso aconteceu de uma maneira natural.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Despretensiosamente.
A SRª KÁTIA RABELO – É, exatamente.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Com um Ministro de Estado?
A SRª KÁTIA RABELO – Não, não, eu não quero dizer
que foi despretensioso com o Ministro, eu quero dizer é que, como o Marcos
Valério era um prestador de serviço, era da agência de publicidade que atendia
o Banco, era um devedor do Banco, ele tinha contato com o Banco. Então ele
sabia das questões do Banco. Então por exemplo: ele tomou conhecimento da
questão do Mercantil de Pernambuco e ele se ofereceu. Eu acho muito importante
colocar isso, porque foi assim: você procurou o Marcos Valério para ser
lobista? Não. Não fui procurar Marcos Valério em lugar nenhum.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Tudo bem. A senhora pode até não ter procurado, eu acredito que não o
procurou...
A SRª KÁTIA RABELO – Ele se ofereceu para marcar uma
entrevista...
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Ele se ofereceu como um lobista...
A SRª KÁTIA RABELO – Não, para marcar uma
entrevista.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Na concepção...
A SRª KÁTIA RABELO – Não vejo isso como lobista,
não.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Sim, senhora, na concepção mais fiel da palavra. Ele se ofereceu como
alguém que poderia intermediar uma relação do Banco junto ao Governo Federal e
que, para tanto, construiria um acesso ao então Ministro José Dirceu, e o banco
achou que era bom, não é?
Eu não sei se, no lugar da senhora, eu não faria diferente
de, pelo menos, aceitar conversar com o Ministro. Claro que jamais iria colocar
minha instituição a serviço, como a senhora colocou ou como o Sr. José Augusto
colocou, de um esquema tão ardiloso como esse. Agora, o Sr. Marcos Valério foi
utilizado como uma ponte. Isso não há dúvida. E é como lobista mesmo, porque
ele, muito mais do que publicitário, muito mais do que aplicador, muito mais do
que investidor, é lobista. Isso não há dúvida.
Agora, com relação à figura do Sr. Delúbio Soares. Chegaram
algumas informações não oficiais e não comprovadas a alguns membros desta CPI
que dirigentes da instituição financeira de V. Sª, dirigentes do Banco Rural,
haviam, ao longo do ano de 2003 e no início de 2004, até o primeiro semestre,
recolhido um arcabouço consistente de provas que pudessem, em qualquer
eventualidade, comprometer o Sr. Delúbio Soares, até mesmo com a gravação de
reuniões, com a gravação de telefonemas, com a filmagem de encontros.
Eu quero saber se existe alguma fundamentação?
A SRª KÁTIA RABELO – Não.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Não há nada?
A SRª KÁTIA RABELO – Nada, absolutamente nada que
seja do meu conhecimento.
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – Muito bem.
A SRª KÁTIA RABELO – Eu também tomei conhecimento
dessa teoria, os jornalistas nos pressionaram. Nunca ouvi falar disso. Não
sei... Não acredito que José Augusto fizesse uma coisa dessa. Não sei. Não
tenho... Não existe...
O SR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL –
BA) – As minhas últimas perguntas, Sr. Presidente, serão muito rápidas e
objetivas: a senhora falou aqui que mantinha, o Banco Rural mantinha relações
comerciais antigas com o Trade Link. É verdade?
A SRª KÁTIA RABELO – Sim.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Por que, em muitas das matérias já elaboradas nos diversos meios de
comunicação do País, tenta-se construir não apenas a existência de uma relação
comercial, mas até mesmo a existência de uma relação societária entre pessoas
dirigentes do Banco Rural e o Trade Link?
A SRª KÁTIA RABELO – Na verdade, o Trade Link Bank é
um banco que tem relações comerciais, como falei, ele empresta dinheiro para o
Banco Rural e trabalha com o Banco Rural há muitos anos.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Apenas isso?
A SRª KÁTIA RABELO – Apenas isso.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) –
Nunca houve e nem há...
A SRª KÁTIA RABELO – Nunca houve e nem há...
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
–...nenhum membro do Banco Rural que tenha qualquer participação societária no
Trade Link? Isso está fora de cogitação?
A SRª KÁTIA RABELO – Não. Fora de cogitação.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA) – A
última pergunta: A senhora deve saber que quebramos os sigilos bancários de dez
fundos de pensão nas operações por eles realizadas com o Banco Rural e com o
BMG. Portanto, no máximo daqui a uma semana, teremos o espelho completo daquilo
que foram os negócios realizados por esses dez fundos de pensão com o banco de
V. Sª. Então, queria apenas que, se V. Sª pudesse colaborar com esta CPI, se V.
Sª pudesse antecipar daquilo que será trazido de informações à CPI, os
principais negócios feitos pelo Banco Rural com os fundos de pensão, sobretudo
numa análise evolutiva dos investimentos dos fundos de pensão no banco de V.
Sª. Quais foram as principais operações? Em que fundos de pensão elas estavam
concentradas? E como se operaram essas negociações, esses acertos?
A SRª KÁTIA RABELO – Essa questão é bastante técnica.
Eu só queria voltar um pouquinho, antes de respondê-la, quando V. Exª
disse que poderia haver alguma forma de caução desses empréstimos, enfim,
exógena. Só queria voltar a afirmar que esses empréstimos foram feitos às
empresas do Sr. Marcos Valério; eles foram provisionados integralmente, e nós
até hoje – estamos executando – não recebemos, sob nenhuma forma, nenhum
pagamento por esses empréstimos.
Em relação aos fundos, eu não sei negócio de sigilo. Não sei
o que posso falar. Aquele trabalho a gente pode mostrar? Está quebrado? Então,
você pode apresentar, por favor, Ayana?
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Está quebrado,
mas não quer dizer que pode ser liberado. É diferente. Só faço essa advertência
até porque... Sou do Banco do Brasil, da Previ, e revelarem-se números aqui é
ruim para a CPMI e para a senhora.
A SRª KÁTIA RABELO – Ah, tá.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Mas eu acho que pode
falar da relação...
A SRª KÁTIA RABELO – Falar de proporcionalidade.
O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Isso.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Deputado Pompeo, então solicitaria... Quero então recompor a minha pergunta.
Naquilo que a senhora se sentir à vontade para revelar, por favor, revele. Mas,
então, se a Srª Ayana dispuser de algum documento, de algum demonstrativo, que
ela, por favor, possa passar às mãos do nosso Sub-relator e atual Presidente,
Deputado Gustavo Fruet.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Todas as
informações já foram encaminhadas...
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Não, não são as aplicações...
A SRª KÁTIA RABELO – A informação sobre as
aplicações.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Isso.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Com as aplicações
consolidadas.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Isso.
A SRª KÁTIA RABELO – Você pode apresentar?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Acho que
agora não, por causa da questão do sigilo.
A SRª KÁTIA RABELO – Acho que tem uma informação
importante...
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Porque vi que a Srª Ayana possui um documento que deve ser uma síntese das
principais.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – É, na realidade, aquela
síntese.
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– É isso. Acho que essa síntese poderia ser disponibilizada ao Sub-relator.
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – De fato, não sei se,
efetivamente...
A SRª KÁTIA RABELO – É, aí temos de proteger o
cliente.
Queria dizer uma coisa que acho que é muito importante:
fizemos um estudo sobre a relação da proporcionalidade de aplicação desses
fundos no Banco Rural. Não vou especificar os fundos; por isso, acho que não
tem problema nenhum. Essa relação é maior no governo passado do que no atual
Governo...
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL – BA)
– Em valores absolutos ou proporcionalmente?
A SRª KÁTIA RABELO – É proporcionalmente.
Proporcionalmente ao tamanho do banco, ela decresce. Acho que é uma informação
importante.
É isso mesmo, Ayana? Eu disse que, em relação aos depósitos
totais do banco, essa relação diminui ou se mantém praticamente igual?
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – Ela
varia, Kátia, da realidade, historicamente em 2001, 2002 e 2003, até 2004 –
representa quase 4%. E, hoje, devido à questão da queda dos depósitos do banco,
elas são de montante, de aumento de volume, representa 6%. Só que tenho uma
queda hoje, efetiva, no meu...
A SRª KÁTIA RABELO – Não sei se ficou claro: no
passado, essas aplicações...
A SRª AYANA TENÓRIO TORRES – ...no meu... nas
aplicações bastante grande. Então, percentualmente, inclusive, tem uma... (inaudível)
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