TRANSCRIÇÃO LITERAL DAS NOTAS TAQUIGRÁFICAS DA OITIVA DO DEPOENTE
DEPUTADO ROBERTO JEFFERSON
(30/06/2005)

SENADO FEDERAL

COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DOS CORREIOS

OITAVA REUNIÃO DA COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 52ª LEGISLATURA, CRIADA ATRAVÉS DO REQUERIMENTO Nº3/2005 DO CONGRESSO NACIONAL COM A FINALIDADE DE INVESTIGAR AS CAUSAS E CONSEQÜÊNCIAS DE DENÚNCIAS E ATOS DELITUOSOS PRATICADOS POR AGENTES PÚBLICOS DOS CORREIOS, EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELÉGRAFOS REALIZADA NO DIA 30 DE JUNHO DE 2005 ÀS 14:30 HORAS.

SEGUE ABAIXO TRANSCRIÇÃO LITERAL:

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Gostaria de registrar o encerramento da 7ª Reunião, a anterior, dispensar os dois ex-diretores dos Correios e remarcar a oitiva dos dois diretores.

Com as bênçãos de Deus, havendo número regimental, declaro aberta a 8ª Reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, criada pelo Requerimento nº 3, de 2005, do Congresso Nacional, para investigar as causas e conseqüências de denúncias e atos delituosos praticados por agentes públicos nos Correios (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos).

Esclareço que a pauta desta reunião destina-se à oitiva do Sr. Deputado Roberto Jefferson, que já está aqui ao meu lado.

Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Presidente, Srs. Senadores, Srªs Senadoras, Srs. Deputados, Srªs Deputadas, cidadão do Brasil que me ouve, cidadã do Brasil que me ouve, inicialmente, peço licença para dizer a V. Exªs que, apesar de estarmos num teatro de lutas, num teatro de idéias, num teatro político, não vim aqui desempenhar nenhum papel de artista. E, se me julgam assim, queria pedir desculpas por tentar fazer as colocações que faço na condição de pessoa física, de homem, deixando de lado qualquer pendor, qualquer veia vocacional, profissional ou artística que eu possa ter ou que tenham cada um dos senhores e das senhoras.

Participei no passado de uma CPI, a CPI do PC, como advogado. Exerci um papel de advogado naquele momento. Tentei fazer naquela CPI o que vi ontem aqui por parte de alguns membros de partidos políticos: impedir que as investigações avançassem. Também procurei evitar que os fantasmas do PC Farias pudessem viver à luz do dia. E, nessa inversão de papéis que vivo hoje, vejo que muitos que ontem exorcizavam aqueles fantasmas agora se abraçam com eles. Só que eles não são mais os fantasmas do PC, são os fantasmas do Delúbio e do Marcos Valério.

O curioso é como a vida nos prega lições. O curioso é como as peças e os atores se modificam. É uma espécie de roda da vida, Sr. Presidente, uma espécie de roda da fortuna, de Carmina Burana, que Carl Orff escreveu. Ora nós estamos em cima, com a fortuna; ora, embaixo, com “desinfortúnio”; ora com alegria, em cima; ora a tristeza. E é isso que vim colocar aos senhores aqui. Aqueles que já viveram a glória em momentos passados vivem, no presente, o opróbrio que vivi naquela hora. Não é fácil tentarmos impedir que as contas dos fantasmas sejam vasculhadas. Aqueles que foram exorcistas ontem se abraçam com os fantasmas hoje.

Sr. Presidente, assisti ontem a uma queda de braços de quase nove horas na Comissão para se quebrarem ou não as contas do Sr. Marcos Valério, de Belo Horizonte, aquele moço carequinha, e percebi que um partido queria impedir, de toda maneira, que ele fosse investigado, um partido que até ontem fazia da acusação a sua afirmação de luta, do libelo pessoal contra pessoas a escada para subir, do cadáver de homens troféus a ostentar à opinião pública. Duro é quando esses cadáveres começam a repousar no nosso colo e os fantasmas que eles representam, a assombrar nossas bandeiras, nossas lutas e assustar os nossos discursos.

A CPI que ora empalmamos, Srs. Congressistas, tem origem numa fita que agentes, a mando da Abin, porque o braço sujo da Abin é aquela gente tipo Molina, que não é comandante. Aquilo é uma falsidade ideológica dele. Ele não é da Marinha. Já recebi da Marinha vários documentos mostrando que ele não é comandante. E aquela súcia de asseclas dele desempenha o papel sujo daquela que é filhote do SNI, a polícia de Estado, a agência política que age em favor do Governo e não em favor da sociedade.

Há seis meses, e a imprensa dá notícia disso, o Estadão e O Globo já noticiaram: a Abin infiltrar agentes lá, nos Correios, para descobrir irregularidades licitatórias em contratos. A competência é tão grande que a Abin conseguiu que os seus agentes filmassem um “petequeiro”, um leviano apanhando R$3mil num movimento de contratos de bilhões, mas a Abin foi incapaz de dizer ao Governo, à Casa Civil, ao Presidente da República, ao chefe da segurança institucional do Brasil que o Sr. Marcos Valério, versão moderna embacaqueada do Sr. PC Farias, sacava um milhão por dia nas contas do Banco Rural, ou sacava em Minas Gerais, ou aqui no prédio do Brasília Shopping, no nono andar, onde muitos assessores dos que recebem “mensalão” e que estão registrados na portaria subiam até o escritório do banco para receber lá 30, 40, às vezes 20, e até R$60 mil. O Brasil gasta uma fortuna com a Abin. Ela descobriu, através dos seus agentes, liderados pelo falso comandante que um “petequeiro” leviano usava nome de gente séria para pegar R$3 mil, R$2 mil. Só a TV Globo não sabe que ele é chefe de departamento. Até hoje eu vejo a TV Globo colocar no ar: ex-diretor dos Correios... Porque a coisa é tão pequena que, se dermos a dimensão da pequenez dela, apequenamos os nossos trabalhos: uma CPI de Srs. Senadores, de Srªs Senadoras, de Srs. Deputados, de Srªs Deputadas, para apurar R$3 mil que a Abin conseguiu descobrir do Sr. Maurício Marinho. Até foi bom para dar pompa e circunstância o “ex-diretor dos...”. Vejo aquele moço de cabecinha assim, com um cabelinho assim meio branco, o Sr. Boner, dizendo “o ex-Diretor....”. Não é, não. É chefe de departamento; é quarto escalão dos Correios.

Eu vi ontem que a Receita Federal multou em R$63 milhões as empresas do Sr. Marcos Valério, porque a movimentação financeira é incompatível com o dinheiro declarado. A Receita já começou a agir com toda a firmeza.

Mas volto à fita, à fita de DVD que dá origem a este encontro fraterno que estamos vivendo aqui; uma fita que a revista Veja recebeu, editou e deu parte, tentando proteger gente que realmente aparecia de maneira assim muito clara naquelas gravações que fizeram aqueles moços, a mando da nossa grande agência de inteligência do Brasil. A fita é ilegal.

Como diz a legislação americana, a prova é envenenada, podre, porque fruto de árvore envenenada e podre. Quatro homens foram presos pelo crime de violação de sigilo do Sr. Marinho, o que anula completamente aquela prova, mas isso prova legal. A CPI não caminha sempre na vertente da legalidade. Ela busca fazê-lo. Ela tem como motor, como móvel, como objetivo a discussão e o debate político das práticas de crime diante do qual a sociedade se assusta e fica perplexa. E é esse motor que tem levado adiante esta nossa CPI. Apesar de sabermos que legalmente a prova é injurídica, é ilegal, temos uma sociedade toda que nos cobra, ali atrás, nas costas dos Senadores, das Senadoras, dos Deputados e das Deputadas, o esclarecimento dessas coisas.

Se PC “faria” – e fez –, hoje, Delúbio e Marcos Valério fazem e outros que virão continuarão a fazer se não mudarmos essas práticas de financiamento eleitoral.

O povo cansou dos políticos. No processo do Presidente Collor – vejo ali atrás velhos jornalistas que estão ficando de cabeça branca, como eu, que me acompanharam naquela fase, há treze anos, no passado –, eu não brilhei como político. Como político, fui um fracasso, porque fiquei contra a onda de opinião. Eu tive rútilo como advogado. Político estou; advogado eu sou. Amanhã posso deixar de ser, até por vontade dos senhores, Deputado Federal aqui nesta Casa, no Congresso Nacional. Mas advogado serei até o momento em que nosso Deus me chamar a seu convívio – se Ele achar que eu mereço, Sr. Presidente; se Ele achar que eu mereço. Sou advogado. Lá eu não brilhei como político, porque esposei o que eu entendia ser a razão contra toda a onda de opinião. Cento e três processos cuja defesa ajudei a escrever, cento e três absolvições.

Hoje, aqui, o meu papel também não é de político, mas também não é de advogado, porque advogado em causa própria é péssimo e eu não saberia fazer esse exercício. Tem aqui os dois advogados ao meu lado, o Dr. Luiz Francisco Barbosa e o Dr. Itapuã Prestes de Messias, que farão isso por mim. Mas eu também não sou o político Roberto Jefferson. E não sou o político porque não vim aqui pedir aos senhores que me absolvam. Não vim aqui mendigar em favor do meu mandato. Já passei dele. Não vim aqui perorar pelo Deputado. Absolutamente. Absolutamente!

Enfrento uma luta aqui como cidadão, como homem, como chefe de família, como pai, como avô, que sai daqui do Congresso Nacional da maneira que entrou: pela porta da frente. Ninguém vai me botar de joelhos e de rabo entre as pernas. Ninguém. Ninguém vai me acanalhar. Ninguém.

Não sou ator. Não faço aqui o papel do herói, porque não sou. Não sou melhor do que nenhum dos senhores; não sou melhor do que nenhuma das senhoras. Sou igual. Não faço o papel de vilão, porque não sou. E os senhores e as senhoras não são melhores do que eu.

Sou um homem, com erros e acertos; defeitos e virtudes. E vou sair daqui de cabeça erguida. Lendo Mateus eu vi lá escrito: “Não temais aquele que pode matar o corpo, temei o que pode matar a sua alma e o seu espírito”. Um homem que não tem honra não tem alma. O homem desonrado é um zumbi, não tem espírito.

O mandato eu sublimei, mas não faço concessões à honra. Perfeito? Não sou. Passei, como Presidente do PTB, na construção do meu Partido, aliás de braços dados e esposado com outros presidentes, pelo afrouxamento das regras da eleição e do financiamento das campanhas.

Eu trouxe aqui, Srs. Senadores e Srs. Deputados, porque peguei na Justiça Eleitoral, todas as prestações de contas, a minha e a dos senhores; na Justiça Eleitoral. Aí é o princípio da mentira que a gente vive aqui. Não há, povo do Brasil, cidadã do Brasil, cidadão do Brasil, eleição de deputado federal que custe menos de um milhão, ou de um milhão e meio de reais. Mas a média, aqui na CPI e da Câmara dos Deputados, a prestação de contas é de R$100 mil.

Não há eleição de Senador da República que custe menos de dois milhões, R$3 milhões, mas a prestação de contas que exibo...

O SR. (Orador não identificado) – Por favor. Por favor, Senador Saturnino?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu vou exibir a V. Exª em seguida. V. Exª terá tempo de protestar. Aliás, todo tempo do mundo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral – PT-MS) – Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não há eleição de Senador que custe menos de dois milhões, R$3 milhões. Eu quero mostrar a V. Exªs e ao povo do Brasil. Porque esse julgamento aqui do Plenário não me preocupa, Senador. Não é pra vocês que eu tou falando. Nenhuma preocupação. É com o povo que me vê lá fora.

Não há uma eleição de Senador com menos de dois milhões, R$3 milhões e a prestação de contas, a média é duzentos e cinqüenta mil. Esse processo começa na mentira e deságua no PC Farias, deságua nos outros tesoureiros de campanha, agora no Sr. Delúbio, agora no Sr. Marcos Valério. Esse afrouxamento é que tem levado ao enfraquecimento da Câmara dos Deputados, do Governo Federal e dos Governos dos Estados.

Fui ao Rio de Janeiro ver a prestação de contas  do meu candidato a prefeito e comparei a prestação de contas da candidatura dele com a do ex-candidato José Genoíno para governador de São Paulo. É de deixar a gente perplexo. Ou alguém tem dúvida de que a campanha mais rica de 2002 foi a campanha do PT? A mais milionária, a mais poderosa em todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, de Leste a Oeste.

E as declarações à Justiça Eleitoral não traduzem a realidade; nem a minha, porque a minha é igual à dos senhores, não é diferente. E onde enfrentamos esse problema, Deputado Onyx? Eu assistia sábado ao Jornal Nacional e, de repente, entrou uma matéria mostrando que o Coaf, por meio do Ministério Público Federal e a revista IstoÉ, desvendou as contas do Sr. Marcos Valério. Aí revestiu a realidade a prova que tanto foi cobrada. No início me cobravam: “Provas, provas, provas”! A realidade foi vestida, vestiu o discurso que fiz, as informações que dei.

Agora me colocam com a pecha de artista. Tenho ouvido: “Vamos desqualificar o Roberto porque ele é um artista”. Mas, a verdade, contra ela ninguém se ergue. De repente o carequinha deixou de fora o que o PC Farias fez no passado, o rabo. E a Coaf mostrou os saques dele. Tem que procurar o Banco do Brasil também, tem que procurar o Banco do Brasil porque me recordo que dos recursos que recebi do PT, encaminhados pelo Presidente José Genoíno e Delúbio, que vieram do Banco Rural, cerca de 60% das notas tinham a etiqueta do Banco do Brasil. Até agora só Banco Rural, de Minas, e esse escritório aqui em Brasília. Vocês vão descobrir quem foi lá para buscar recursos.

A realidade vestiu as minhas palavras. Hoje, tenho informações que passo a esta CPI, de novo, uma decisão de Governo desmonta uma estrutura de financiamento de Partidos na empresa Furnas. Os três diretores, a jornalista Renata Lo Prete em entrevista comigo divulgada hoje na Folha de S.Paulo publica que já foram exonerados agora à tarde.

Eu vim dizer aos meus iguais, às minhas iguais, que quero contribuir para que esse assunto possa ser discutido e debatido. Estamos às vésperas de reformas. Tenho ouvido falar em financiamento público de campanha. Digo ao meu Partido, de que me afastei como Presidente: é um escândalo o financiamento público, é um escândalo. Hoje, um bilhão, pelos R$2,00 por voto que estamos vendo serem colocados a partir de agora no Orçamento da União. Mas, lembrem-se, o senhor e a senhora que estão em casa, que quem faz o Orçamento é o Congresso Nacional. Um bilhão hoje com o voto a R$2,00. Amanhã, dois bilhões com o voto a R$4,00. Depois de amanhã, 3 bilhões vai custar a eleição com o voto a R$6,00, porque quem faz o Orçamento somos nós, os que vamos nos beneficiar do financiamento público.

Aí volto lá ao William Bonner, no sábado; ele fez, vestiu o fato, falou longamente com o Sr. Marcos Valério – para não fechar dando razão ao Roberto Jefferson, aquele velho troglodita, o general da tropa de choque do Collor, que não pode virar, está amarrado a um passado, não consegue avançar – entendo esse preconceito. Aí diz assim: “O Henrique Brandão, que mantém relações com o IRB, negócios com o IRB, é amigo de Roberto Jefferson – graças a Deus –, há trinta anos, deu R$ 90 mil à campanha de Cristiane Brasil, vereadora no Rio, filha do Deputado Roberto Jefferson. Sou empresário, estou em casa vendo televisão, não dou um centavo por dentro para candidato nenhum na próxima eleição. Quem se arrisca a dar é escrachado pela imprensa ou teme a vingança do partido adversário”.

A democracia do mundo precisa de dinheiro para ser feita. A democracia precisa de dinheiro para financiar a política. Nós não podemos é inverter, é permitir que a política financie dinheiro ou faça dinheiro. Na América, quem dá o cheque maior para candidatura presidencial assenta ao lado do presidente e tira uma foto com ele. É uma honra. Não é que aquele moço esteja comprando o governante. Não, ele está apostando no regime democrático. Aqui, no Brasil, há um preconceito da mídia, porque toda a doação de empresário a partido político é criminosa. Virgem aqui só o Pisol, até a próxima eleição, que se não sucumbirá ante o caixa dois, porque senão não vai fazer campanha. E nós tínhamos que permitir que isso fosse aberto, que o empresário que desse fosse respeitado, não fosse escrachado na mídia, como se doar a um partido fosse comprar consciência parlamentar e não um gesto grandioso de se apostar num regime democrático, na democracia política. Isso nós precisamos conversar de verdade aqui, na Câmara dos Deputados.

A mim, Roberto Jefferson, não alegra, não gera felicidade, não dá alegria olhar o Partido, que, durante 25 anos – esse ano é ano de seu aniversário, de suas bodas de prata –, que empunhou essa bandeira da ética, da moralidade, rasgou a bandeira. A mim, isso não traz felicidade, porque chafurdou no mesmo esquema de financiamento político e partidário, se sujou, se sujou como os outros do passado, nos quais atirou pedra. E para que isso não se repita, para que nós não fiquemos com a frustração de ver o partido obreiro macular o seu ideal de luta, o seu passado de lutas, temos de enfrentar essa corrupção que está na raiz do financiamento eleitoral. Esses fantasmas que ficam rondando o poder sempre são os fantasmas do financiamento eleitoral: Delúbio, PC Farias, Marcos Valério. É sempre a mesma gente. É sempre a mesma prática, porque a legislação eleitoral que nós temos ainda é a de Castelo Branco. Ela não é clara, ela não permite o financiamento político que proteja o doador para que ele não seja escrachado como se tivesse querendo comprar os Deputados. Vi todos os partidos aqui representados, até com doações de banco, de grandes empresas nacionais. E não vejo na luta até dos obreiros, que têm um grande financiamento de banco em suas contas, nenhum comprometimento com esse sistema financeiro traindo a luta dos sem-terra ou dos trabalhadores. Os formadores de opinião na mídia geram essa suspeição contra o financiamento privado das campanhas políticas particulares, mas esse é o único caminho.

Eu não quero vestir amanhã uma camiseta “Roberto Jefferson, Deputado Federal”, sabendo que a camiseta que coloco no meu corpo tira do velho no hospital o remédio de que ele precisa. Eu não quero botar uma corneta de som no meu carro, Sr. Presidente, Sr. Relator, sabendo que vou tomar de uma criança a vaga na escola. Eu não quero estender uma faixa,um outdoor, sabendo que o dinheiro público que vai para a minha campanha vai tomar o prato de comida do pobre que não tem. Se fôssemos um país rico, tudo bem. Se viesse o financiamento público para impedir o caixa dois, tudo bem. Ele não vem. Ele vai somar crimes. O crime do dinheiro do imposto. Roubar do pobre em favor do Governador, do Senador, do Deputado, do Vereador e do Prefeito e o crime do caixa dois, que vai continuar a existir.

Sr. Presidente, Srs. Congressistas, o PTB quer enfrentar a reforma política. O que espera de nós o povo que nos vê ao vivo aqui? Na raiz do “mensalão”, tenho certeza, está o troca-troca de legenda, de partido. Até de “luvas” de R$1 milhão e financiamento de R$30 mil de taxa de manutenção nós já temos denúncia aqui na Casa. Uma Deputada vem e diz: “A proposta a mim é R$1 milhão e R$30 mil por mês”. Por quê? Para que ela deixasse a legenda original dela e fosse para outro partido.

O que sonha o povo de nós? Primeiro, fidelidade partidária. Eu tenho seis mandatos consecutivos como Deputado Federal, pelo meu Estado do Rio, no PTB, pelo PTB. Tive dois Partidos na vida: o MDB, quando era menino, militante, e, depois, o PTB, que ajudei a fundar com Ivete Vargas lá no meu Estado, na minha cidade de Petrópolis, e depois na cidade de Três Rios, na cidade de Sapucaia, de Teresópolis, na minha região serrana. Fui eleito em 1982, pelo PTB, Deputado Federal e depois, cinco vezes consecutivas, reeleito pelo PTB.

O que espera o povo de nós? Que nós estabeleçamos regras rígidas para acabar com os Deputados que trocam de partido como se trocassem de camisa. Isso é uma vergonha!

O que espera o povo de nós? Que nós acabemos com as legendas nanicas e os partidos de aluguel. Essa cláusula de barreira que está posta hoje, na legislação atual, de 5% dos eleitores nacionais em nove Estados, reduz, na próxima eleição, o quadro partidário para, no máximo, cinco partidos aqui na Casa: um de esquerda, um de centro-esquerda, um de centro, um de centro-direita e um de direita.

Mas a proposta que o Governo manda para cá – e estou vendo, na relatoria, que vai a plenário – reduz de 5% para 2% a cláusula de barreira. Ou seja, hoje, de trinta partidos, vamos pular para 60, para atrapalhar a novela da senhora, o jornal que a senhora gosta de ver na televisão. Nós, com o discurso da moralidade, estamos rasgando a moralidade. Nós, com o discurso da reforma salvadora da classe política, estamos agravando a relação partidária aqui no Congresso Nacional, porque a lei já estabelece 5%; se reduzirmos para 2%, vamos piorar, e muito, a situação político-partidária do Brasil.

O PTB tem outras propostas, como, por exemplo, o vice – vice-Prefeito, vice-Governador, vice-Presidente – é o coisa nenhuma na expectativa de ser alguma coisa algum dia. É o conspirador do dia-a-dia, que quer sempre o lugar daquele que ocupa o cargo de Prefeito, de Governador ou de Presidente. Para que vice? Com aquela estrutura de mordomia, de palácio, de segurança... Para que vice? Hoje, tudo se faz pelo computador. Isso se justificava na época do Império, em que o Imperador saia daqui para Portugal de navio e levava vinte dias no mar. Não tinha um telégrafo, não tinha um fax. Hoje vai de avião. Fala no avião o tempo todo com o chefe da Casa Civil ou com a chefe da Casa Civil. Para que vice?

Nós temos que reduzir, na Câmara dos Deputados, pelo menos três deputados federais por bancada. Tirar um Senado de lá – um Senado com as despesas que o Senado tem. Se nós reduzíssemos três senadores por Estado, nós tiraríamos um Senado... três deputados por Estado, nós tiraríamos um Senado de dentro da Câmara dos Deputados. Ou seja, 81 deputados federais a menos. Nós precisamos acabar com três senadores aqui, no Senado da República, por Estado.

Só no Brasil! Não existe isso em lugar nenhum do mundo. Isso foi uma cria da ditadura para tentar manter no Colégio Eleitoral a vitória dos militares. Eu me lembro daquele Deputado gaúcho, gordo, o Uequed, Jorge Uequed. Ele começava uma sessão do Congresso dizendo assim: “Srs. Senadores, Srs. Deputados, Srªs Deputadas, Srs. Senadores eleitos pelo voto do povo, demais funcionários desta Casa”, se referindo aos Senadores do voto indireto, os da nomeação. Eu me recordo disso, eu era Deputado.

E, por fim, Srªs e Srs. Senadores, para me colocar à disposição de V. Exªs. O meu Partido também esposa a tese de despartidarização da máquina do Estado, a redução desses cargos de confiança. Hoje são 25 mil. Vamos reduzir para prestigiar e fortalecer o servidor público na sua carreira. A ascensão será por mérito, será meritória, e não partidária. O PTB esposa a tese. E, para fechar, Srs. Senadores, Srªs Senadoras, Srs. Deputados, acabar com a suplência de senador, que é outra coisa que o Brasil não compreende. Uma coisa antiga, superada. Normalmente, o suplente é o financiador e gera sempre tensões ruins. Quer ocupar o lugar, fica suscitando conversas, sempre arruma uma encrenca o suplente. E nós queríamos ver se, superando essa conversa de suplente de senador, poderíamos fazer o seguinte: o senador se retira para governar o Estado, se licencia para ser ministro do Governo, assume o segundo mais votado do Estado. Assim, a expressão do voto do povo.

Então, são propostas que o PTB traz ao debate, porque esta Comissão não vai ficar – eu tenho certeza disso – apenas no debate pequeno dos três mil reais, que um “petequero” leviano que usa o nome alheio, e que foi gravado pela Abin, que não viu Marcos Valério, que não soube do Banco Rural, que não soube das movimentações do Banco do Brasil, que não sabia das atividades do Sr. Silvinho Pereira nem do Sr. Delúbio; sabia que tinha lá um cara que pegava três mil reais, chefe de departamento do quarto escalão – grande descoberta da Abin! Grande descoberta! No próximo Orçamento, quero votar contra recursos para a Abin, porque já vi que é apenas uma polícia política usada para constranger os que se opõem, em certo momento, a certas figuras do Governo. Não é o Governo em si.

Agradecer a paciência que os senhores tiveram comigo, a gentileza de me ouvir e eu me coloco, Sr. Presidente, Sr. Relator, à disposição de V. Exªs para os questionamentos que poderei escutar de cada um dos senhores.

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Roberto Jefferson.

Com a palavra o Relator, Deputado Osmar Serraglio.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, Sr. Deputado Roberto Jefferson, vou começar de uma forma talvez apequenada, mas por obrigação de ofício.

Eu tenho convicção absoluta de que o nosso inteligente depoente acredita numa máxima de um filósofo moderno de muita expressão, Bertrand Russell, que afirmava que ele não daria – vejam, do alto da sua inteligência, a modéstia – a sua vida por suas idéias, porque ele poderia estar equivocado.

Tenho absoluta convicção de que o nosso depoente comunga dessa mesma concepção. Ele tem uma idéia, que pode ser a verdadeira: a de que foi vítima de um complô de uma agência de inteligência e, daí, estaríamos num emaranhado, num imbróglio que envolve até, talvez, essa decantada crise política em que nos embrenhamos nesses últimos tempos. Mas, repetindo, como talvez essa concepção possa não ser a definitiva, essa vertente, essa alternativa... esta é uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e, por sinal, quem estudar a teoria, a origem das Comissões Parlamentares de Inquérito, vai observar que, mais do que descobrir as mazelas, e é preciso que se as descubram, a razão de ser é buscar que elas não se repitam. Nesse aspecto, o depoente nos trouxe contribuições muito importantes de quem conviveu e convive com as dificuldades que nós todos, aqui, nos defrontamos com essa construção, com essa estrutura, com essa engenharia política que conduz as nossas atividades, tanto eleitorais quanto internas, enquanto representantes do povo.

Mas nós temos outras versões e, repito, esta é um CPMI. Aliás, uma versão primeira de S. Exª, o Deputado Roberto Jefferson, que também viu na possibilidade de um empresário de somenos que, em atrito com alguém que o obstaculizava nas pretensões internas, na sua busca de fornecimento aos Correios, estaria direcionando toda a sua ira... e, aliás, é o que ele confessa e, portanto, é uma versão. A versão de Arthur Wascheck é uma versão que a Comissão precisa investigar e ela se limita a uma empresa insatisfeita, direcionada a um funcionário de quarto escalão.

Mas no discurso, S. Exª também, no plenário, fez referência à possibilidade – possibilidade – de que houvesse grandes empresas em conflito. Até fez referência a contrato, na época, de 35 milhões. É uma versão possível.

Nós podemos ter, a par disso... e aí pegamos a degravação e constatamos que, de certo modo, ressuma das manifestações do próprio Marinho um desentendimento, talvez uma briga de poder – aliás, também remarcada até por informações que o próprio depoente também nos trouxe no sentido de que 70% praticamente das licitações estão concentradas numa diretoria. Então, pode ser que estejamos com a possibilidade de que tudo que aconteceu, a origem, ser um conflito de diretores por espaço. Conflito de partidos – também já se aventou –, que se espraiava, se instrumentalizava internamente nas empresas estatais, disputando espaços. Qual a versão verdadeira? Cada um de nós, cada um que compareceu aqui deu uma versão. E uma delas – e pode ser essa a de S. Exª – pode ser a que conduziu a que nós nos agregássemos e nos esforçássemos juntos, neste plenário, para que conseguíssemos aportar a uma solução que, repito, apesar de todo esse desenho, essa vitrine que nos envergonha, nos ensinou muitas coisas.

Sou professor de universidade, dessa área de direito administrativo, e, em poucos dias, me espantei com muita coisa que acontecia numa empresa do nível dos Correios. E aqui está o meu companheiro, professor da mesma cadeira, o Deputado José Eduardo Cardozo.

Vimos aqui empresas que são virtuais, que vendem de tudo e que não têm nada. Quando se verifica a lei que disciplina isso, a Lei nº 866, tão exigente para não se colocar o órgão público numa aventura de contratar com alguém que amanhã não tenha como garantir o que ofereceu. E, aliás, o Sr. Arthur Wascheck trouxe até informações nesse sentido, de que estava vendendo coisas importadas e que estava tendo dificuldades – capas de chuva e tal. Vimos isso. Nunca imaginei que isso ocorresse. Em Brasília temos empresas virtuais.

Vimos também – eu desconhecia isso também – que há uma prática de se conversar, precedentemente à elaboração do edital, com os interessados para se detalhar o que possa amarrar; não digo que o seja, mas que permite que o seja, de forma que o edital, quando trazido a lume, já venha direcionado. E não adianta nada alguém examinar o procedimento licitatório, porque ele já nasceu ocultando os fato.

Enfim, vimos hoje a referência à pesquisa de preços. E, quando olhamos os contratos, o que vemos? Nas licitações, antes de se emitir um edital, para se dar um parâmetro àqueles que pretendam participar da licitação, a empresa estabelece um valor referencial. E o que assistimos? Repetidas vezes, relativamente ao valor referencial, as propostas vencedoras correspondiam a até 50% do valor. Que pesquisa de mercado é essa? É direcionada também? E as revogações? Não tenho essa confirmação, mas alguém, em algum lugar, afirmou, ou está registrado em algum documento ou algum depoente reportou que há mais de 140 revogações. Revogações?

O SR. PRESIDENTE  (Delcídio Amaral. PT-MS) – Peço silêncio, por favor, para darmos andamento aos trabalhos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Revogações, quem conhece, repito, se há um princípio geral que autoriza, que rege o direito administrativo, da revogabilidade dos atos administrativos, hoje avançamos muito, e aquilo que era tão generalizado, hoje é tão afunilado que a revogação exige um fato novo. Não é a discricionariedade inicial que desencadeia a competência para editar o ato? E vai permanecer até o momento em que ele é posto em concreto. Então, vamos examinar se essas revogações – por isso, estamos aqui juntos – foram, de fato, a título de interesse público ou se visavam a dificultar aqueles que, vencedores nas licitações, eram posteriormente alijados, afastados. De forma que só essas lições dos primeiros dias já vão ensinar, com certeza, a esta Comissão a diligenciar no sentido de que nossa legislação se aperfeiçoe, pelo menos no trato desses assuntos.

Agora, caio no mundo real da nossa investigação e volto a dizer que precisamos nos apequenar, porque também existem versões apequenadas. E Deus queira que cheguemos à conclusão de que, a despeito de tudo o mais que deve ser corrigido, na verdade, a República não foi manipulada, de sorte a colocar um cadáver nos braços do nosso depoente.

Ilustre Deputado Roberto Jefferson, V. Exª insiste em dizer que se trata de uma orquestração da Abin. Dessa forma, gostaríamos que V. Exª nos desse mais elementos para que pudéssemos aferir e avaliar, avançando, enfim, nessa nossa investigação.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Relator, a matéria publicada na revista Veja foi publicada no site no dia 14 de maio de 2005. Nós acessamos o site da revista, e lá só aparecia o Marinho. A fita tem 1 hora e 54 minutos. Só o Marinho, petequeiro, pegando lá R$3 mil. Volto a advertir a Rede Globo, para que ela não erre mais: ele é chefe de departamento; não é diretor. Não errem mais nisso, porque é ruim. Pegando R$3 mil, de peteca.

Passei a fita, olhei, vim embora para Brasília. Liguei para o Antônio Osório, diretor dos Correios, que esteve hoje aqui pela manhã, meu amigo, que honra o Partido, homem digno, correto. Eu assinei sua indicação e o faria novamente. E, pelo meu companheiro, Roberto Salmeron, ex-Presidente da Eletronorte, há 20 anos filiado ao PTB, um dos melhores quadros que temos no Partido. Perguntei-lhes: vocês viram a fita? “Não.” Então, eu vou para Brasília... Disse-me o Salmeron: “eu recebi aqui através de um motoboy”. Falei: então, vou para sua casa, vou almoçar com você. Quero ver. Antônio Osório, vamos nos encontrar lá.

Passei no meu apartamento, tinha chegado, em um envelope amarelo, a fita, que mandei reproduzir em 600 cópias e dei a toda a imprensa e a todo o Congresso Nacional. Assisti durante 1 hora e 54 minutos àquela fita. Comparei com o que havia no site da Veja e com a matéria da Veja. A Veja chegou ao cúmulo de tentar conspurcar a imagem virtual do diretor que ocuparia o cargo do Sr. Eduardo na diretoria de informática. Coloca lá: o Sr. Ezequiel, indicado do Senador Fernando Bezerra... Os outros estão certinhos. Roberto Jefferson indicou Antônio Osório; Michel Temer indicou o Sr. João Bezerra – vem assim, na seqüência. Aí, vem assim: o Senador Fernando Bezerra indicou Ezequiel... Falei: espera aí. Não é isso. É o Silvinho Pereira, com quem se negociava no PTB, para substituir o Sr. Eduardo, diretor de informática. Eles esconderam o real e puseram o virtual, que nunca foi nomeado. Eu falei: tem dedo do Governo nessa matéria. Aí, lendo depois o jornal O Estado de S.Paulo... No dia 21 de maio, o Estadão diz que a Abin já possuía a fita há 20 dias, antes de ela ser publicada. O jornal O Globo do dia 11 de junho diz que a Abin já estava com agentes infiltrados há muitos meses nos Correios: “Abin infiltrara agentes na ECT” – sábado, 11/6.

Qual foi a minha leitura? Depois que eu disse ao Presidente Lula sobre o mensalão, caí na desgraça. Tentei tirar o meu PTB do mensalão desde agosto de 2003. Ficava este jogo: “Vai ser nomeado diretor da empresa, não vai ser nomeado diretor da empresa”. Passavam-se os dias e nunca o PTB tinha acesso ao poder, nunca o poder era repartido conosco.

O mensalão funcionava para dois outros partidos que compõem a base governista. E não são todos os deputados, quero deixar isso claro, não estou generalizando: nem todos os deputados desses partidos recebem o mensalão. Muitos recebem, mas nem todos recebem.

Percebi que a tentativa era sempre nos levar para o mensalão – a conversa que tive com o Martinez, que ele recebeu do Delúbio; a conversa do Delúbio comigo; a conversa do Pedro Henry; a conversa do Bispo Rodrigues, que agora não é mais bispo, é simplesmente Carlos Rodrigues; com o José Múcio, ele o Pedro Henry e o Valdemar Costa Neto.

Vocês vão dizer: “Roberto, o Múcio não está afirmando isso”. Ele não é obrigado a comprar minhas lutas, não é obrigado. Ele quer preservar relações que eu já rompi, mas essa conversa vem lá de trás – que nós aderíssemos ao mensalão. Eu não aderi; o PTB não aderiu. Levei isso ao Ministro Walfrido, disse-lhe: “Walfrido, tem essa proposta de desencravar unha todo mês. Você quer essa proposta?” “Eu não tenho como olhar nos olhos do Presidente se isso acontecer”.

Numa conversa informal com a minha Bancada, no princípio da legislatura passada, disse: “Gente, vocês estão falando desse mensalão...” Isso era voz corrente, desconfie de quem não ouviu falar no mensalão: ou se omite por medo de enfrentar o que estou enfrentando aqui, ou recebe. Não tem saída. Isso é conversa comezinha na Casa; o mensalão é comezinho. Até quando daquela sindicância que o João Paulo mandou fazer, que abriu às 10 horas e fechou às 10 horas e 40 minutos, uma sindicância de brincadeira só para constranger o Jornal do Brasil, já se sabia que havia o mensalão. Aliás, o Governador de Goiás já vinha dizendo isso desde maio do ano passado.

Como eu não aderi ao mensalão e choquei o Presidente Lula quando ele soube, percebi nitidamente que o meu Partido caiu em desgraça. O meu Partido caiu em desgraça: fomos colocados, aos olhos da opinião pública, como responsáveis por uma corrupção que o PTB não praticou. Então, essa é a convicção que eu tenho, é intuitiva.

No dia 17 de maio, Sr. Relator, o Presidente da Câmara, o Deputado Severino Cavalcanti, me permitiu usar a tribuna da Casa para que pudesse me defender das acusações que a revista fazia. No sábado, a revista traz acusações em relação ao IRB, que não são verdadeiras, e elenca um outro grupo de informações que caminham na verossimilhança, que é pior que a mentira. Pessoas de alguma relação comigo, mas que jamais participaram de qualquer ação em favor do PTB ou pelo PTB, são alinhadas e colocadas num grande esquema do Presidente do PTB, Roberto Jefferson, desconstruindo a minha imagem. No sábado, dia 21 de maio, O Estado de S. Paulo diz: “A Abin já sabia há mais de quinze dias e possuía a fita”.

Na terça-feira, dia 24 de maio, convoquei a Executiva Nacional do meu Partido. Cheguei a Brasília no domingo, dia 22. Na noite do dia 23, na minha casa, eu estava sentado na sala, eu, o Deputado Fleury, que se recupera de uma cirurgia de três hérnias – saúde, Fleury, Deus o abençoe; está em casa, fez três hérnias grandes esta semana –, e o Deputado José Múcio. Estávamos conversando sobre essa crise que se abatia sobre o PTB – na segunda-feira à noite.

Foi convocada uma reunião para a terça-feira para que todos os companheiros do PTB assinassem a CPI, como eu assinara no dia 17, quando saí da tribuna. De repente, me vira o Fleury e diz assim: “Robertão, aqui embaixo estão cinco Ministros – Paulo Bernardo, Ciro Gomes, José Dirceu, Aldo Rebelo – e querem subir para falar com você”. Eu disse: eu não vou falar não, porque o Governo está jogando contra nós. Não vamos fazer isso. Não vou retirar assinatura. Vamos, amanhã, fazer uma reunião da Executiva com as assinaturas. E estou sentindo a tensão porque metade do meu Partido é governista e a outra metade quer sair. O PTB está assim como o PMDB: metade dentro, metade fora. E metade quer sair.

No dia seguinte, me liga o Múcio às 10 horas da manhã. Eu tinha sentado, lido a mídia e me preparado para a reunião, quando o Múcio me diz: “Eu preciso falar com você”. Eu disse: eu vou tomar banho e em meia hora você chega aqui. Quando chego na sala, às 10h30, 11 horas, estão sentados: os Ministros José Dirceu e Aldo Rebelo, que falam: “Roberto, você não vai assinar essa CPI, você não pode fazer isso com a gente. Essa CPI é contra o Governo. Essa CPI é para paralisar o Governo. Essa CPI é para atingir o Governo do Presidente Lula e vai-nos atingir”. Eu falei: não tenho dúvida, Zé, porque eu sou escada, sou ponte. O alvo é você, o alvo é o Delúbio, o alvo é o Silvinho Pereira. A CPI vai atingir vocês, mas não posso sair disso sem alma, não vou virar zumbi. Está atingindo a minha honra pessoal.

Nesse ínterim, chega o Dr. Itapuã a minha casa, levando já um boletim da Polícia Federal, onde o Marinho, Maurício Marinho, dissera que não conhece o Roberto Jefferson a não ser de contatos superficiais; que não foi o Deputado Roberto Jefferson que o nomeou para os Correios, foi outro Deputado; que é homem e assumiu de público isso. Foi para a tribuna e disse que foi ele e que ele usou levianamente o meu nome para receber aqueles R$3 mil que o flagrante ilegal, feitos por agentes ligados à Abin, mostrou por meio da revista Veja.

De posse disso, eu, o Deputado Múcio, o Ministro Aldo e o Ministro José Dirceu, àquela época, começamos a conversar e eu disse: não tenho problema de recuar. Não tenho nenhum problema em recuar. Tiro a assinatura, mas você tem que me dar uma saída honrosa. Estou sendo linchado nisso. Quero que você me ajude na Veja. Ele disse: “Na Veja, eu não posso”. No Globo? Ele falou: “Vou tentar”. Não quero usar expressões aqui, pois a minha assessoria de imprensa fica toda hora me chamando a atenção, dizendo que não devo usar aquelas expressões que usei... Mas aquela história que vocês já conhecem e que repito, mas não quero mais colocar de público aqui.

Você tem como me ajudar? “Vou tentar te ajudar, Roberto”. Falei: então, tá bem. Vou atravessar a rua e digo à imprensa que tiro a assinatura. Foi o meu maior erro, Senador César Borges. Cheguei no Partido, reuni e falei: tiro a assinatura e peço aos companheiros que retirem. Estava toda a imprensa lá.

A partir daí, foi um linchamento que não parou mais. Retirei a assinatura no dia 25 de maio. Na sexta-feira, dia 3 de junho, começo a ver os saques, começo a acompanhar... começo a ver o meio eletrônico, e estou vendo em todas as agências – Estado, Folha, O Globo – S. Exª o Ministro da Justiça dizendo que faria um comunicado à Nação na segunda-feira, 6 de junho, desmontando o esquema da corrupção, que estava na Eletronorte, nos Correios e no IRB.

Falei: é no colo do PTB. Eu cometi um erro: tirei a assinatura, a mídia já está envenenada, já envenenou o PTB e a mim, tem que ter sangue para chacal, e vai o PTB. E o que vamos fazer? Enterrar a CPI e vamos ser destruídos no Partido, e eu, pessoalmente. Aí liguei para o Walfrido e falei: Walfrido – ele estava na cidade de Ouro Preto, estava rouco –, o Ministro da Justiça vai atirar no PTB na segunda-feira. Ele, rouco, falou: “Vou falar com ele; ele não pode fazer isso...” Eu falei: mas é o que está claramente para mim, Walfrido. O Walfrido não me deu mais retorno.

No dia 4, sábado, a mãe dos meus filhos e avó dos meus netos, a Ecila, me liga do Rio, às 2 horas da tarde. Ela tinha comprado O Globo, porque O Globo de domingo sai no sábado às 2 horas da tarde. Ela falou: “Você já leu? Você já sabe de O Globo?” Eu falei: “Eu não”. Ela disse: “Está destruindo você”. Estavam mentindo e mentindo gravemente, atribuindo a mim coisas que jamais fiz: Buião, Saião, do INSS, gente que nunca vi na minha vida. Compareci a eventos da Anfip – Associação Nacional de Fiscais da Previdência, porque presidi, por duas vezes, a Comissão de Seguridade e Família, da Câmara dos Deputados. E, num jantar, onde essas pessoas estavam presentes, O Globo disse que eu tinha relação com Buião, Saião, João, os caras que tinham fraudado a Previdência Social. Uma matéria desconstrutiva em cima de mim, violenta.

Mais tarde, acesso o site da revista Época, e a desconstrução é familiar. Colocam a mãe de meus filhos e avó de meus netos de baby-doll na revista, abrem a porta do banheiro e colocam-me sentado na privada, e um amigo meu, meu irmão preto, o Durval, como laranja de uma rádio que arranjei para um cara, há vinte anos, no Governo do Presidente Sarney, à época Ministro das Telecomunicações, Antonio Carlos Magalhães, para umas pessoas. Isso porque antigamente era assim: você influía. Hoje, os critérios são diferentes. Mas antigamente você influía para que essas rádios fossem liberadas, e eu influí em favor de grupos do interior do Estado do Rio de Janeiro. E, para proteger o Durval, que era pobrezinho, coloquei ele no contrato social de duas rádios, que devem dar R$500,00 a R$600,00 reais por mês de renda. E a revista diz que ele é o laranja do Roberto Jefferson. A Época, O Globo, desconstrutiva dessa maneira, e esta semana a Comissão de Justiça vai votar o fim da CPI, é nítido que vão colocar isso no colo do PTB.

Então, percebi, pelas informações que vazavam, por exemplo, Roberto Maia, que é um homem de bem, sei que é, um homem sério, numa interpretação de decisão que tomou, ele é colocado como sendo indicação minha sem ser. Ele foi indicado por um Deputado que saiu do PTB, o Luís Piauhylino. Eu, como Presidente, tinha a célula. Essas indicações são assim: o Deputado manda ao Presidente, que chancela e manda para a Casa Civil. Assinam o Líder e o Presidente e vai para a Casa Civil.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Tem uma pessoa passando mal. Por favor, o Serviço Médico do Senado.

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, aproveito para me dirigir a V. Exª, enquanto o Serviço Médico atende a pessoa que necessita de atendimento.

Respeitando o direito do investigado de usar da palavra, o Brasil evidentemente quer ouvi-lo, mas tenho certeza de que o Brasil também quer nos ouvir, aqueles que vão questioná-lo. Se a cada pergunta, o Deputado tiver 10 ou 15 minutos, como está tendo agora, e basicamente repetindo tudo o que falou no Conselho de Ética, não teremos possibilidade de inquiri-lo como gostaríamos.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Sr. Presidente, o tempo é do próprio depoente. O tempo só é cortado contra nós, que indagamos. O depoente tem o tempo que julgar necessário.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com certeza, Deputada Juíza Denise Frossard, vamos encerrar a fase das perguntas do Relator ao Deputado Roberto Jefferson e, depois, seguiremos a lista de inscritos. Eu serei absolutamente severo no tempo. Os Parlamentares terão 10 minutos cada um, e quando faltar um minuto iremos interromper.

Tem a palavra pela ordem a Senadora Ideli Salvatti.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, estou atentamente ouvindo as respostas do Deputado Roberto Jefferson, mas ainda não consegui encontrar nenhuma resposta efetiva à pergunta feita pelo Relator.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) Sr.Presidente, não cabe a pergunta feita pela ordem pela Senadora Ideli Salvatti. Não concordo com o que está sendo feito, porque o depoente está com a palavra e, devido a um acidente, foi retirada a palavra do depoente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado ACM Neto, vamos prosseguir.

Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Presidente, vou encerrar brevemente.

No dia 7 de junho, O Globo diz que a Abin infiltrara, há seis meses já, um agente na Empresa de Correios e Telégrafos.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No dia 14, vou à Comissão de Ética. Estou realmente repetindo o que falei, mas esqueci de falar uma coisa importante. Quando, nesse dia...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Insisto: por favor, silêncio!

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Quando percebi, Presidente, esse noticiário no dia 5, falei: é a hora de eu enfrentar isso; tenho de romper, não tenho de negociar, apesar de, na véspera, na sexta-feira, eu ter recebido o Líder do Governo na Câmara, Deputado Chinaglia, que me propusera, não em nome do Governo – ele foi muito enfático nisso –, mas em seu nome pessoal, que eu assumisse tudo, para que pudéssemos encerrar esta CPI: uma investigação rápida acabaria com a crise política. Eu disse que não confiava no Governo e no PT, para poder fazer esse acordo, mesmo porque eu não tinha nada a ver com isso. No dia 14/06 fui depor na Comissão de Ética, dia do meu aniversário. Aliás, dizem que o inferno astral e zodiacal do homem começa um mês antes do seu aniversário: começou em 14 de maio, e, em 14 de junho, eu estava depondo na Comissão de Ética.

Nesse dia, a Juíza da 10ª Vara Federal de Brasília, Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. Senadores, Srs. Deputados, manda invadir duas residências em Petrópolis, de forma leviana. Que ela esteja me ouvindo, para eu repetir isso para ela ouvir: leviana, solerte. Primeiro, invade a casa de um menino que mora no Valparaíso, chamado Marcos Silva Vasconcelos, que trabalha no Rio com a esposa, em frente à Beneficência Portuguesa, ao lado do metrô. Arrombaram a porta, levaram tudo. Só que esse rapaz não é o meu genro. Meu genro mora no Retiro, do outro lado da cidade. No dia em que eu estava depondo, a ordem judicial tão leviana não sabia onde era a casa de minha filha – tão leviana, tão açodada, tão solerte, tão desonesta, tão comprometida com o Governo, como estava o inquérito da Polícia Federal e o civil do Ministério Público.

Uma hora da tarde, recebo uma ligação da mãe de meus filhos. Fabiana estava em casa, ela... Os marginais: minha filha de 28 anos, meu neto de um ano de idade, o Bernardo, o caseiro, a empregada. Seis homens de colete e metralhadora da Polícia Federal, mais um Procurador e um Delegado arrombaram o portão e invadiram a casa – helicópteros, um cerco de helicópteros – da minha filha, na hora em que eu ia sentar para depor.

Foi bom, que me deu equilíbrio para fazer o que fiz e definir o caminho que tinha que tomar. Foi bom. Foi melhor para mim. Ficou claro. Tomei o caminho que tinha que tomar. Eu estava indo assim meio... vou ou não vou tão fundo? Não volto mais. Tem coisa que não pode... Um homem não faz concessão com a honra; pessoal ou familiar, não dá para fazer. Foi bom. Quero agradecer a atitude leviana da Justiça da 10ª Vara Federal de Brasília, que me deu força para fazer, enquanto eles estavam dentro da casa da minha filha e de meus netos pequeninos, aquilo que fiz na Comissão de Ética. Muito obrigado à senhora. Eu esqueci de lhe agradecer, como agradeci a Valdemar Costa Neto naquele dia.

Saíram de lá às 19 horas. Passou. Mas me deu plena convicção, Sr. Presidente, Sr. Relator, da mão do Governo tentando colocar só o PTB nisso e tirar o outro Partido, que é o principal e que está envolvido nisso até os cabelos. E vi que funcionou a inteligência do Governo não em favor da sociedade, não em favor do Governo, mas para bater naquele que ousou contar um esquema que para mim é claro que foi montado pela cúpula do PT. Não quero acusar o PT integralmente. É a cúpula: o Presidente do PT, José Dirceu; o Vice, José Genoino; o Delúbio; o Silvinho Pereira. Isso é uma inteligência. É mais fácil alugar o Deputado, do que dividir um compromisso político. É mais fácil o exército mercenário mensalão, do que distribuir cargos e dividir poder. É claro que é uma jogada socialista para pagar à burguesia corrupta, só que eles não me conheciam e pensavam que o PTB ia fazer esse mesmo jogo, ia aderir a essas mesmas práticas.

É isso tudo, Sr. Relator, e peço desculpas; na próxima, vou procurar ser bem sintético; não quero mais incomodar a Senadora Ideli, apesar de não estar preocupado com o julgamento que ela faça de mim; não é para ela que falo, falo para o povo que me vê; disso eu já passei, não é para ela que estou preocupado em falar, porque ela não é melhor do que eu, nem V. Exª é. Os que aqui se arrostam juízes, vou questionar um por um. Vamos ver se as práticas são diferentes daqueles que vão querer levantar a voz contra mim.

Muito obrigado, Sr. Presidente. Muito obrigado, Sr. Relator.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Relator Osmar Serraglio.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Para não fugir da matéria da Abin, V. Exª acha que é um raciocínio equivocado ou é possível que tenha havido um primeiro momento em que, de fato, houve uma integração de personagens pequenos, e um segundo momento, em que apareceu envolvido um líder, ou algo assemelhado – ainda hipótese –, e então seria admissível esse seu raciocínio de que teria havido uma interferência da Inteligência? Ou acha que a Inteligência é desde o primeiro momento?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Relator, o Marinho foi filmado, pelo que vi aqui, no dia 14 de abril, naquela fita de 1h54min que distribuí...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Dia 12 de abril, mas tudo bem.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No dia 12 ou 14, me perdoe, no dia 12 de abril. Falei ao Presidente Lula no final de janeiro sobre o mensalão, quando ele teve aquela reação que contei ao Brasil. E eu, vendo aquelas fitas, a indução era contra o PTB. “E o Roberto Jefferson, e o Roberto Jefferson, e o Roberto Jefferson?! Meu amigão, é doidão, é doidão!” Não me conhece! Não me conhece. Não me conhece... Não entendo o riso de escárnio. Posso ter sido, no passado, um cara assim mais atirado, mas procuro pautar a minha conduta com muito equilíbrio e muita serenidade, Sr. Presidente. Não me conhece, não tinha convivência comigo. Me vendeu, infelizmente me vendeu!

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Nós tivemos um depoente que deu uma versão um pouco diferente em relação àquele momento em que V. Exª foi abordado, acho que no seu gabinete, quando lhe levou a notícia da existência da gravação.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O Molina, que não é comandante.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Ela foi amistosa ou ela foi de cunho de achaque?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Os senhores entrevistaram aqui o Molina, não entrevistaram?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Entrevistamos.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Ele é até uma figura frágil, não é uma figura assim truculenta. Eu o conheci em Belém do Pará, numa sexta-feira, 4 de março, num evento do Ministério do Turismo, com o prefeito Duciomar, de combate ao turismo sexual de menor. Ele veio falar comigo. Sentou-se, à noite, para jantar comigo e começou a dizer que uma empresa, que ele representava nos Correios, estava tendo os interesses contrariados na Diretoria do Dr. Antônio Osório, de Administração. E que ele queria uma solução que seria boa para todos. Eu falei: espera aí, Dr. Molina, só um momentinho, Comandante - eu achei que ele era comandante; naquela época, eu o chamei de comandante. O que o senhor está me propondo aqui é negócio, e eu não gosto de tratar negócio com ninguém. Eu sou político, sou Deputado Federal e presidente de Partido. Não converso negócio com o senhor. Se o senhor está tendo problema, eu ligo para o Dr. Antônio Osório, e o senhor vai lá e acerta com o Dr. Antônio Osório, que é o diretor da empresa.

Ele tentou falar comigo, Sr. Relator - quero lhe passar aqui o relatório disso -, várias vezes. Eu tenho uma folha dobrada aqui em que está escrito Molina; está aqui debaixo. Várias vezes ele tentou falar comigo. Eu quero lhe passar esse relatório da agenda do meu gabinete. Ele me ligou:

- 10 de março, quinta-feira, duas vezes;

- 15 de março, terça-feira, duas vezes;

- 5 de abril, terça-feira, duas vezes; ligou duas vezes, e eu atendi na ligação de 19h17;

- 6 de abril, ligou de novo, e eu não falei;

- aí, no dia 27 de abril, quarta-feira, 18h05, o Senador Suassuna me ligou várias vezes, pedindo para atendê-lo;

-                              no dia 28 de abril, de novo; e estou dizendo: “Senador, deixa isso para frente, já vou atender”; e me ligou de novo; pediu que eu falasse com ele às 9h35min, às 9h48min, às 10h16min; o Senador Suassuna me ligou: “Roberto, atende. É companheiro meu de farda” - eu nem sabia que o Senador Suassuna teria sido militar. Falei: “Eu atendo”.

Marquei com ele no meu gabinete, 3 de maio.

Recebi o Sr. Molina em 3 de maio, por volta das 17 horas. Ele se sentou à minha frente e veio com a mesma conversa lá de Belém, só não falou o nome do Fortuna. Porque, em Belém, ele me falou em Fortuna; nessa vez em que esteve comigo, em 3 de maio, terça-feira, não falou mais em Fortuna. E disse que estava sendo prejudicado, que uma empresa que ele representava estava sendo prejudicada e que ele queria acertar, que era bom para todos. Digo...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Ele chegou a nominar a empresa?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, não nominou a empresa.

Digo: “Amigo, nossa conversa está encerrada. O senhor pode se retirar. Não tenho mais nada a tratar. Essa conversa o senhor já falou comigo em Belém”. Ele falou: “Mas tem uma segunda coisa, Deputado”. Eu digo: “O que que é?” “Essa empresa tem uma fita do Sr. Marinho pegando dinheiro em seu nome e em nome do PTB e quer negociar com o senhor.” Eu falei: “Já não negocio com empresa de maneira direita e correta, ainda mais assim, com essa conversa, meu irmão! Você faz um bom uso da fita e, por favor, se retire daqui”.

Mas ele não chegou a chantagear, a me ameaçar, nem eu dei dimensão de ameaça, porque não acreditei. Eu achei tão frágil a conversa dele, assim tão... Não botei fé. Mandei ele embora, e ele foi embora. E, depois, aconteceu o que aconteceu.

No dia 11 de maio, quarta-feira, às 14h50min, Molina ligou no gabinete, dizendo que queria o e-mail do Deputado, porque não queria passar para o e-mail do gabinete, que era assunto pessoal do Deputado. “Eu quero passar a V. Exª esse relatório de meu gabinete.” Ele queria me passar já alguma coisa da fita que a revista Veja publicou no dia 14 no site e no dia 15 nas bancas.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Além dessa referência que Molina...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O senhor quer que eu assine?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Embora V. Exª já tenha declinado no próprio microfone...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu assino aqui.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – V. Exª se reportou a que Molina teria mencionado Fortuna. O que evoca Fortuna nas suas lembranças?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Na primeira reunião em Belém, ele disse que tinha um amigo, Coronel Fortuna, que tinha interesses nos Correios com ele. Em Belém, ele falou isso na conversa comigo, sentado no restaurante do hotel. E que queriam conversar comigo, que seria uma coisa boa para todo mundo...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Essa foi a única vez que...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Foi a única vez... Ele esteve pessoalmente comigo duas vezes, lá em Belém e, depois, aqui, no meu gabinete.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – E V. Exª não teve mais informações outras a respeito desse Fortuna, se ele teria cruzado alguma vez...?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Tive depois. Recebi informações do Sr. Fortuna depois. O Sr. Fortuna é amigo do Deputado que indicou o Dr. Maurício Marinho para a função que ele ocupa de chefia de departamento nos Correios. O nome saiu dele. E, pelo que me informou o Antônio Osório, pelo que me informou, naquela época, o Godoy, que são companheiros do PTB, ele havia tido um entrevero com o Marinho e ameaçado o Marinho: “Você está me prejudicando, e eu vou te derrubar dessa cadeira! Vou acabar com a tua carreira”.

Mas isso eu ouvi falar depois, Sr. Relator. Não conheci o Sr. Fortuna antes.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – V. Exª fez referência a duas empresas: a Novadata e a Skymaster. Poderia esclarecer um pouco o conhecimento que V. Exª tem sobre eventuais equívocos ou vícios nos contratos, na execução?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Superfaturamento. A Skymaster, não. Ela domina todas as licitações da área de informática. Não tenho informação... A Novadata...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Quem teria dado a V. Exª essas informações?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Esse grupo do PTB dos Correios. Quando nós sentamos... Onde tem problema aí? Antônio Osório, onde é que tem problema? Ele falou: “Olha, quem domina aqui a área toda de informática é a Novadata, ligada ao grupo do Silvinho Pereira”. Não me disse que havia superfaturamento. Mas, no que toca ao Correio Aéreo Noturno – inclusive, tem outras empresas, Total e uma outra do Nordeste, que não sei o nome –, há superfaturamento grave! Aviões que são para dezoito toneladas vão com quatro toneladas de carga, e o Correio paga as dezoito, porque ele voa... O contrato é pela capacidade, não é pela carga que ele leva. O contrato está com o dólar equivalente a R$3,00. Baixou, o contrato tinha que baixar para R$2,40. Continua pagando a R$3,00. Então, eu soube dessa informação e coloquei publicamente nos meus discursos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Segundo essa informação, eles lhe detalharam quem é que tinha o poder de assim proceder?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Na diretoria da Skymaster, tinha o Madureira; e, na diretoria onde estavam os negócios da Novadata, o Sr. Eduardo.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Ou seja, segundo esse seu informante, essas pessoas estavam praticando...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Meus informantes são os companheiros meus, o Antonio Osório, que é do...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Segundo o Antonio Osório... E quem mais?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O Godoy.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – O Godoy, Fernando Godoy?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Fernando Godoy, que é companheiro do PTB do Distrito Federal.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Segundo eles, a informação que eles lhe deram é que essas pessoas estavam praticando os atos...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim, na hora em que nós vimos tudo, onde tem problema? O problema está aqui. Quem domina 70% de tudo o que acontece aqui na área da informática é a Novadata. Inclusive a briga dessa pequena empresa que faz a gravação a mando, é porque ela perdeu uma concorrência para a Novadata. Foi a informação que eu... HHP ou HPP.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – HHP.

Também em uma passagem V. Exª fez referência a que apenas a diretoria administrativa estava sendo investigada pelo Ministério Público, pela Controladoria, pela Polícia Federal. Efetivamente, ficou visível isso?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Para mim, ficou. Agora, depois que as coisas começaram a caminhar, depois que, no jornal Folha de S.Paulo, aquela entrevista com a jornalista Renata Lo Prete saiu – a primeira, no dia 06 – é que a Polícia Federal começou a perseguir as provas daquilo que eu contei naquelas informações. Mas eles já sabiam. Procuraram colocar só em cima do PTB. Invadiram a casa do Salmeron, a casa da minha filha e do meu genro. A juíza da 10ª Vara Federal, tão leviana a atitude dela! Nós já pedimos cópia do despacho, e ela não entrega, para ver em quê ela fundamenta.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Isso V. Exª afirmou lá atrás. Ainda hoje não?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Até hoje não temos a cópia do despacho. Eu pediria à CPI que tivesse essas... Porque todo despacho dela é Segredo de Justiça, e as pessoas são escrachadas. O despacho de S.Exª togada é Segredo de Justiça, mas as pessoas são escrachadas de público, algemadas, as casas invadidas. Ela mandou invadir o escritório do Henrique Brandão no Rio, Assurê – que é a maior corretora privada do Brasil –, a casa dele no Rio e em Teresópolis, quando se trata de IRB com jurisdição na cidade do Rio de Janeiro, Justiça Federal do Rio de Janeiro. Não é Correio, jurisdição Brasília. Mas ela mandou fazer por aqui. Tudo foi feito rapidamente para colocar... tentar descobrir alguma coisa contra o PTB, botar no colo do PTB e encerrar a investigação, como se o PTB fosse o responsável pela corrupção da República. Nitidamente, eu vi isso, Sr. Relator.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – V. Exª fez referência a que teria recebido uma fita no seu apartamento. Quem entregou no seu apartamento?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Um motoboy. Deixou-me receber junto com a minha correspondência. Quando cheguei em casa, no domingo... domingo... que saiu a fita foi sábado... No domingo dia 15, eu recebi na minha correspondência, junto com meus jornais, com as minhas revistas, um envelope pardo, e tinha uma fita para mim. Eu não sei se eu deixei com o Salmeron ou mandei a do Salmeron para o General Chefe da Casa de Segurança Institucional. Porque ou eu mandei copiar a fita do Salmeron, que recebeu também...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Essa era uma pergunta. Então, o Salmeron também recebeu...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Recebeu.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Sabe a origem da que chegou, enfim?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Chegou por um motoboy, que colocou na caixa de correio na casa dele.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Mais ou menos no mesmo dia ou muito próximo...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu não fiz essa pergunta ao Dr. Salmeron, mas quero crer que no mesmo fim de semana que eu, sexta-feira, sábado...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – V. Exª fez referência a que muita gente estaria entrando em contato com o Deputado para anunciar outros casos de corrupção nos Correios. Foi abordado ou por pessoas ou por correspondência?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Essas coisas vêm. Eu, por exemplo, recebi... Empreste-me aqui, por gentileza? Hoje, em meu gabinete... Agora, a gente tem que peneirar. Eu recebi o contrato da Sky Master e passei para frente; acabou na imprensa. Eu recebi hoje, de um moço chamado Ricardo, um e-mail, dirigido ao Deputado Roberto Jefferson: a SMP&B Comunicação Ltda., do Sr. Marcos Valério, tem dois registros no CNPJ; a mesma empresa com dois registros, todos os dois com o final 1 (um), que significa “matriz”. Um, de 02/12/1998, ativo até 16/10/2004 – e tenho aqui o número; outro, de 10/07/1996, ativo até 23/04. As certidões foram emitidas em 28/06/2005. Estão aqui, e quero passar às mãos de V. Exªs. Em todos os dois, o número da inscrição é 0001. O endereço muda: um, município Rio Acima; outro, município Belo Horizonte.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Só uma curiosidade. Talvez V. Exª possa até confrontar já, porque parece que ela tem três denominações diferentes com um segmento um pouco diferente: há a SMP&B Comunicação, a SMP&B Publicidade e SMP&B outra coisa.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Aqui temos SMP&B Comunicação Ltda., agência de publicidade e propaganda; e SMP&B Comunicação Ltda., agência de publicidade e propaganda. Ou seja: é a mesma coisa. E vou assinar para deixar com V. Exª, porque recebi... E tenho recebido coisas assim. Há coisas que eu filtro.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – O Presidente já anda me censurando porque sei que muito do que ainda posso perguntar, com certeza, ainda virá à baila; mas, enfim, muito rapidamente, se me permitirem, gostaria de indagar: V. Exª conhece ou ouviu falar de José Gerardo Ponte Pierre?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nunca ouvi falar.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Não tem nada a ver com o PTB? É filiado ao PTB?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nunca ouvi falar.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Sobre o Alemão?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nunca ouvi falar. Quer dizer: estou lendo, vejo a CPI, leio os depoimentos da Polícia Federal, mas nunca antes ouvir falar.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Fernando Godói é indicado do PTB nos Correios?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – É companheiro do PTB há quarto anos aqui no Distrito Federal; é membro da Executiva Nacional do partido.

Antônio Ozório é meu amigo há 23 anos. Coloco a mão no fogo por ele, Sr. Presidente. Fui eu que indiquei. É um homem de bem.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Que não signifique que nós não pudéssemos avançar. Tenho procurado corresponder às expectativas do nosso Plenário, dando oportunidade a que muitas das perguntas que ainda estão por ser realizadas que os parlamentares as possam traduzir, ainda porque nós podemos, a qualquer momento, interferir e, ao final, solucionar as dúvidas que eventualmente temos.

Dirigindo-me à opinião pública, apenas esclareço um aspecto técnico. Provavelmente gostariam que eu tivesse abordado o assunto do mensalão. Como sou Relator de uma CPMI que tem, ainda, por enquanto, fatos determinados e podendo sobrevir a instalação de uma outra CPMI, cuja abrangência pode vir a ser delimitada, tecnicamente me abstive de qualquer questionamento, o que, para encerrar, esclareço que não significa que tenhamos receio de adentrar no tema, mais à frente, se essa competência nos for atribuída.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Muito menos porque haverá limitações...

O SR. ASDRÚBAL BENTES (PMDB-PA) – Sr. Presidente, pela ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MT) – Pois não, Deputado Asdrúbal Bentes.

O SR. ASDRÚBAL BENTES (PMDB-PA) – Indago de V. Exª qual será o tempo destinado aos Parlamentares aqui presentes.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MT) – Deputado Asdrúbal Bentes, concederemos, inapelavelmente, dez minutos.

O SR. ASDRÚBAL BENTES (PMDB-PA) – Mas quero saber, Sr. Presidente: esses dez minutos são para as nossas indagações e respostas do Deputado inquirido ou apenas paras as nossas indagações?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MT) – Não; são dez minutos para as indagações. Todavia, peço aos Srs. Parlamentares que façam as sua indagações num tempo menor do que esse, porque temos 31 Parlamentares inscritos e vamos controlar o tempo rigorosamente.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB-SP) – Sr. Presidente, pela ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. Bloco/PT-MS) – Concedo a palavra ao Deputado Carlos Sampaio.

Por favor, peço silêncio a todos.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB-SP) – Nesta semana, quando da indagação minha e também do Deputado ACM Neto ao Sr. Joel, autor da gravação, perguntamos a ele se haveria a primeira fita, e até solicitei a V. Exª que requisitasse a tal primeira fita de gravação, na qual se poderia estar tratando de um assunto que daria a todos os membros desta CPMI a informação correta sobre o que pretendia o Sr. Arthur com aquela gravação.

Chegou às minhas mãos, na data de ontem, o teor integral, e agora já possível de ser aberto por esta CPMI, da primeira conversa mantida entre o Sr. Maurício Marinho e o Sr. Joel. Nessa fita, fica claro o interesse não só de envolver diretamente o PTB com questionamentos sobre quem era quem dentro do PTB, como interesses comerciais que poderiam estar por trás ou, talvez, interesses aqui declinados pelo Deputado Roberto Jefferson relacionados à Abin.

Reputo muito importante essa fita e acho que todos os membros desta CPMI devem ter ciência do seu teor. Passo-a à mão de V. Exª, pedindo que cada um dos membros tenha uma cópia.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Será reproduzida. 

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Presidente, peço uma cópia.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Pois não, Deputado Roberto Jefferson, será providenciada também.

Passo a palavra ao primeiro orador inscrito, Senador Alvaro Dias, por dez minutos. Pediria aos Parlamentares que pudéssemos reduzir esse tempo, por favor.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Sr. Presidente, desculpe-me Senador, mas tínhamos uma ordem, e não era o Senador...

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Falo por cessão do Senador Demóstenes Torres.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Por cessão do Senador Demóstenes Torres, que precisou viajar para Goiânia, com urgência.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Mas Presidente, eu gostaria que  V. Exª...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Será seguida a listagem, a ordem de inscrição, meu caro Deputado Onyx.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Mas o Senador Demóstenes era o quarto?

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Não, o primeiro.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – O Deputado Murilo fez a cessão para ele?

Obrigado, Presidente. Está encerrada minha questão.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, esse tempo será descontado de V. Exª.

Concedo a palavra ao Senador Alvaro Dias.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Congressistas, pretendo ser rápido. O Deputado Roberto Jefferson é um homem corajoso, sempre foi e tem sido, e, certamente com arte, a verdade alcança ainda mais, atinge uma profundidade superior.

Reanimado com essa expectativa, com essa perspectiva, quero expor o que penso e ouvir sua análise sobre o que esse momento significa como explosão de um escândalo. Vejo a arquitetura de um projeto de poder. Na arquitetura desse projeto de poder, vários componentes de comunicação, administração, relação com a sociedade, entidades, partidos, com o Congresso. Mas vamos apenas nos restringir a esse componente que é deploravelmente o mais sujo nisso que imagino um projeto de poder arquitetado por algumas lideranças políticas que assumiram o poder há dois anos e meio.

Essa parte de captação de recursos para a sustentação material desse projeto de poder é, sem dúvida, a parte suja dessa arquitetura, que começa com esse modelo espúrio de relacionamento do Poder Executivo com parte do Congresso Nacional, invadindo especialmente os partidos da base aliada com a barganha que se estabeleceu.

O partido evidentemente estabelece uma competição em relação aos cargos mais apetitosos, porque movimentam maior soma de recursos públicos. O partido nomeia, e o nomeado é encarregado de mensalmente captar recursos supostamente para manutenção da estrutura partidária. E é evidente que, para alguns, o fim justifica os meios. O fim é um projeto arquitetado; os meios escusos da cooptação de Parlamentares de partidos, através da captação de recursos que tem uma fonte específica aqui, que discutimos Correios, mas, não é única. E evidentemente a barganha, ao final, no chamado “Mensalão”.

Gostaria, farei outras indagações, quero fazer, Sr. Presidente, rapidamente todas elas, porque confio na memória do depoente, Deputado Roberto Jefferson, que tem uma memória indiscutível. E destacando apenas a importância da contribuição que ele pode oferecer nesse momento a essa CPMI e ao país. Talvez a contribuição mais importante pode advir exatamente do Deputado Roberto Jefferson.

Nesse loteamento do Governo, como parte dessa arquitetura de um projeto de poder, há a nomeação para cargos centrais, para diretorias. Hoje, V. Exª quase não citou o nome do Ministro José Dirceu. Mas, quem batia o martelo por último para essa nomeação? Quem dava a última palavra. V. Exª fez referência ao Sr. Sílvio Pereira, mas, tem outros nomes como: Waldomiro Diniz, que era assessor e chefe da Assessoria Parlamentar da Presidência da República; Marcelo Sereno; Sílvio Pereira; Delúbio Soares; etc.

Então, gostaríamos que ficasse claro quais são os responsáveis finais pelas nomeações, pelo atendimento aos Partidos da Base Aliada.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) O ex-Ministro José Dirceu e o Sr. Sílvio Pereira.

V. Exª, Senador, inclusive vai ver na Revista Veja, que foi publicada.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Se preferir, Deputado, farei todas as perguntas, aí V. Exª responderia ao final.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No dia 28 de maio, que o próprio Líder de Governo, meu companheiro de Partido, Fernando Bezerra, coloca claramente que a negociação para nomear o Diretor de Informática nos Correios, o Ezequiel, passava pelo Sr. Sílvio Pereira. Ele coloca isso na entrevista. E era assim que funcionava. Toda estrutura era montada com o Sr. Sílvio Pereira e quem batia o martelo era o Ministro José Dirceu. Foi assim em todos os cargos que o PTB nomeou.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Ok. Gostaria de saber se é real que o PT concordava com a indicação do PTB, por exemplo, no caso dos Correios, mas, calçava, abaixo do ocupante do cargo maior, com integrantes do próprio PT.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim. E o Sr. Sílvio Pereira dizia que era o jeito do PT governar. Dava a cabeça e tomava o corpo. A expressão que sempre usei: dava a cabeça e tomava o corpo.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Nessa questão de nomeações e V. Exª participou diretamente, não só em nome do PTB, no episódio Correios, mas, também Furnas. Gostaríamos que...