TRANSCRIÇÃO LITERAL DAS NOTAS TAQUIGRÁFICAS DA OITIVA DO DEPOENTE
DEPUTADO ROBERTO JEFFERSON
(30/06/2005)

SENADO FEDERAL

COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DOS CORREIOS

OITAVA REUNIÃO DA COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 52ª LEGISLATURA, CRIADA ATRAVÉS DO REQUERIMENTO Nº3/2005 DO CONGRESSO NACIONAL COM A FINALIDADE DE INVESTIGAR AS CAUSAS E CONSEQÜÊNCIAS DE DENÚNCIAS E ATOS DELITUOSOS PRATICADOS POR AGENTES PÚBLICOS DOS CORREIOS, EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELÉGRAFOS REALIZADA NO DIA 30 DE JUNHO DE 2005 ÀS 14:30 HORAS.

SEGUE ABAIXO TRANSCRIÇÃO LITERAL:

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Gostaria de registrar o encerramento da 7ª Reunião, a anterior, dispensar os dois ex-diretores dos Correios e remarcar a oitiva dos dois diretores.

Com as bênçãos de Deus, havendo número regimental, declaro aberta a 8ª Reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, criada pelo Requerimento nº 3, de 2005, do Congresso Nacional, para investigar as causas e conseqüências de denúncias e atos delituosos praticados por agentes públicos nos Correios (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos).

Esclareço que a pauta desta reunião destina-se à oitiva do Sr. Deputado Roberto Jefferson, que já está aqui ao meu lado.

Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Presidente, Srs. Senadores, Srªs Senadoras, Srs. Deputados, Srªs Deputadas, cidadão do Brasil que me ouve, cidadã do Brasil que me ouve, inicialmente, peço licença para dizer a V. Exªs que, apesar de estarmos num teatro de lutas, num teatro de idéias, num teatro político, não vim aqui desempenhar nenhum papel de artista. E, se me julgam assim, queria pedir desculpas por tentar fazer as colocações que faço na condição de pessoa física, de homem, deixando de lado qualquer pendor, qualquer veia vocacional, profissional ou artística que eu possa ter ou que tenham cada um dos senhores e das senhoras.

Participei no passado de uma CPI, a CPI do PC, como advogado. Exerci um papel de advogado naquele momento. Tentei fazer naquela CPI o que vi ontem aqui por parte de alguns membros de partidos políticos: impedir que as investigações avançassem. Também procurei evitar que os fantasmas do PC Farias pudessem viver à luz do dia. E, nessa inversão de papéis que vivo hoje, vejo que muitos que ontem exorcizavam aqueles fantasmas agora se abraçam com eles. Só que eles não são mais os fantasmas do PC, são os fantasmas do Delúbio e do Marcos Valério.

O curioso é como a vida nos prega lições. O curioso é como as peças e os atores se modificam. É uma espécie de roda da vida, Sr. Presidente, uma espécie de roda da fortuna, de Carmina Burana, que Carl Orff escreveu. Ora nós estamos em cima, com a fortuna; ora, embaixo, com “desinfortúnio”; ora com alegria, em cima; ora a tristeza. E é isso que vim colocar aos senhores aqui. Aqueles que já viveram a glória em momentos passados vivem, no presente, o opróbrio que vivi naquela hora. Não é fácil tentarmos impedir que as contas dos fantasmas sejam vasculhadas. Aqueles que foram exorcistas ontem se abraçam com os fantasmas hoje.

Sr. Presidente, assisti ontem a uma queda de braços de quase nove horas na Comissão para se quebrarem ou não as contas do Sr. Marcos Valério, de Belo Horizonte, aquele moço carequinha, e percebi que um partido queria impedir, de toda maneira, que ele fosse investigado, um partido que até ontem fazia da acusação a sua afirmação de luta, do libelo pessoal contra pessoas a escada para subir, do cadáver de homens troféus a ostentar à opinião pública. Duro é quando esses cadáveres começam a repousar no nosso colo e os fantasmas que eles representam, a assombrar nossas bandeiras, nossas lutas e assustar os nossos discursos.

A CPI que ora empalmamos, Srs. Congressistas, tem origem numa fita que agentes, a mando da Abin, porque o braço sujo da Abin é aquela gente tipo Molina, que não é comandante. Aquilo é uma falsidade ideológica dele. Ele não é da Marinha. Já recebi da Marinha vários documentos mostrando que ele não é comandante. E aquela súcia de asseclas dele desempenha o papel sujo daquela que é filhote do SNI, a polícia de Estado, a agência política que age em favor do Governo e não em favor da sociedade.

Há seis meses, e a imprensa dá notícia disso, o Estadão e O Globo já noticiaram: a Abin infiltrar agentes lá, nos Correios, para descobrir irregularidades licitatórias em contratos. A competência é tão grande que a Abin conseguiu que os seus agentes filmassem um “petequeiro”, um leviano apanhando R$3mil num movimento de contratos de bilhões, mas a Abin foi incapaz de dizer ao Governo, à Casa Civil, ao Presidente da República, ao chefe da segurança institucional do Brasil que o Sr. Marcos Valério, versão moderna embacaqueada do Sr. PC Farias, sacava um milhão por dia nas contas do Banco Rural, ou sacava em Minas Gerais, ou aqui no prédio do Brasília Shopping, no nono andar, onde muitos assessores dos que recebem “mensalão” e que estão registrados na portaria subiam até o escritório do banco para receber lá 30, 40, às vezes 20, e até R$60 mil. O Brasil gasta uma fortuna com a Abin. Ela descobriu, através dos seus agentes, liderados pelo falso comandante que um “petequeiro” leviano usava nome de gente séria para pegar R$3 mil, R$2 mil. Só a TV Globo não sabe que ele é chefe de departamento. Até hoje eu vejo a TV Globo colocar no ar: ex-diretor dos Correios... Porque a coisa é tão pequena que, se dermos a dimensão da pequenez dela, apequenamos os nossos trabalhos: uma CPI de Srs. Senadores, de Srªs Senadoras, de Srs. Deputados, de Srªs Deputadas, para apurar R$3 mil que a Abin conseguiu descobrir do Sr. Maurício Marinho. Até foi bom para dar pompa e circunstância o “ex-diretor dos...”. Vejo aquele moço de cabecinha assim, com um cabelinho assim meio branco, o Sr. Boner, dizendo “o ex-Diretor....”. Não é, não. É chefe de departamento; é quarto escalão dos Correios.

Eu vi ontem que a Receita Federal multou em R$63 milhões as empresas do Sr. Marcos Valério, porque a movimentação financeira é incompatível com o dinheiro declarado. A Receita já começou a agir com toda a firmeza.

Mas volto à fita, à fita de DVD que dá origem a este encontro fraterno que estamos vivendo aqui; uma fita que a revista Veja recebeu, editou e deu parte, tentando proteger gente que realmente aparecia de maneira assim muito clara naquelas gravações que fizeram aqueles moços, a mando da nossa grande agência de inteligência do Brasil. A fita é ilegal.

Como diz a legislação americana, a prova é envenenada, podre, porque fruto de árvore envenenada e podre. Quatro homens foram presos pelo crime de violação de sigilo do Sr. Marinho, o que anula completamente aquela prova, mas isso prova legal. A CPI não caminha sempre na vertente da legalidade. Ela busca fazê-lo. Ela tem como motor, como móvel, como objetivo a discussão e o debate político das práticas de crime diante do qual a sociedade se assusta e fica perplexa. E é esse motor que tem levado adiante esta nossa CPI. Apesar de sabermos que legalmente a prova é injurídica, é ilegal, temos uma sociedade toda que nos cobra, ali atrás, nas costas dos Senadores, das Senadoras, dos Deputados e das Deputadas, o esclarecimento dessas coisas.

Se PC “faria” – e fez –, hoje, Delúbio e Marcos Valério fazem e outros que virão continuarão a fazer se não mudarmos essas práticas de financiamento eleitoral.

O povo cansou dos políticos. No processo do Presidente Collor – vejo ali atrás velhos jornalistas que estão ficando de cabeça branca, como eu, que me acompanharam naquela fase, há treze anos, no passado –, eu não brilhei como político. Como político, fui um fracasso, porque fiquei contra a onda de opinião. Eu tive rútilo como advogado. Político estou; advogado eu sou. Amanhã posso deixar de ser, até por vontade dos senhores, Deputado Federal aqui nesta Casa, no Congresso Nacional. Mas advogado serei até o momento em que nosso Deus me chamar a seu convívio – se Ele achar que eu mereço, Sr. Presidente; se Ele achar que eu mereço. Sou advogado. Lá eu não brilhei como político, porque esposei o que eu entendia ser a razão contra toda a onda de opinião. Cento e três processos cuja defesa ajudei a escrever, cento e três absolvições.

Hoje, aqui, o meu papel também não é de político, mas também não é de advogado, porque advogado em causa própria é péssimo e eu não saberia fazer esse exercício. Tem aqui os dois advogados ao meu lado, o Dr. Luiz Francisco Barbosa e o Dr. Itapuã Prestes de Messias, que farão isso por mim. Mas eu também não sou o político Roberto Jefferson. E não sou o político porque não vim aqui pedir aos senhores que me absolvam. Não vim aqui mendigar em favor do meu mandato. Já passei dele. Não vim aqui perorar pelo Deputado. Absolutamente. Absolutamente!

Enfrento uma luta aqui como cidadão, como homem, como chefe de família, como pai, como avô, que sai daqui do Congresso Nacional da maneira que entrou: pela porta da frente. Ninguém vai me botar de joelhos e de rabo entre as pernas. Ninguém. Ninguém vai me acanalhar. Ninguém.

Não sou ator. Não faço aqui o papel do herói, porque não sou. Não sou melhor do que nenhum dos senhores; não sou melhor do que nenhuma das senhoras. Sou igual. Não faço o papel de vilão, porque não sou. E os senhores e as senhoras não são melhores do que eu.

Sou um homem, com erros e acertos; defeitos e virtudes. E vou sair daqui de cabeça erguida. Lendo Mateus eu vi lá escrito: “Não temais aquele que pode matar o corpo, temei o que pode matar a sua alma e o seu espírito”. Um homem que não tem honra não tem alma. O homem desonrado é um zumbi, não tem espírito.

O mandato eu sublimei, mas não faço concessões à honra. Perfeito? Não sou. Passei, como Presidente do PTB, na construção do meu Partido, aliás de braços dados e esposado com outros presidentes, pelo afrouxamento das regras da eleição e do financiamento das campanhas.

Eu trouxe aqui, Srs. Senadores e Srs. Deputados, porque peguei na Justiça Eleitoral, todas as prestações de contas, a minha e a dos senhores; na Justiça Eleitoral. Aí é o princípio da mentira que a gente vive aqui. Não há, povo do Brasil, cidadã do Brasil, cidadão do Brasil, eleição de deputado federal que custe menos de um milhão, ou de um milhão e meio de reais. Mas a média, aqui na CPI e da Câmara dos Deputados, a prestação de contas é de R$100 mil.

Não há eleição de Senador da República que custe menos de dois milhões, R$3 milhões, mas a prestação de contas que exibo...

O SR. (Orador não identificado) – Por favor. Por favor, Senador Saturnino?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu vou exibir a V. Exª em seguida. V. Exª terá tempo de protestar. Aliás, todo tempo do mundo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral – PT-MS) – Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não há eleição de Senador que custe menos de dois milhões, R$3 milhões. Eu quero mostrar a V. Exªs e ao povo do Brasil. Porque esse julgamento aqui do Plenário não me preocupa, Senador. Não é pra vocês que eu tou falando. Nenhuma preocupação. É com o povo que me vê lá fora.

Não há uma eleição de Senador com menos de dois milhões, R$3 milhões e a prestação de contas, a média é duzentos e cinqüenta mil. Esse processo começa na mentira e deságua no PC Farias, deságua nos outros tesoureiros de campanha, agora no Sr. Delúbio, agora no Sr. Marcos Valério. Esse afrouxamento é que tem levado ao enfraquecimento da Câmara dos Deputados, do Governo Federal e dos Governos dos Estados.

Fui ao Rio de Janeiro ver a prestação de contas  do meu candidato a prefeito e comparei a prestação de contas da candidatura dele com a do ex-candidato José Genoíno para governador de São Paulo. É de deixar a gente perplexo. Ou alguém tem dúvida de que a campanha mais rica de 2002 foi a campanha do PT? A mais milionária, a mais poderosa em todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, de Leste a Oeste.

E as declarações à Justiça Eleitoral não traduzem a realidade; nem a minha, porque a minha é igual à dos senhores, não é diferente. E onde enfrentamos esse problema, Deputado Onyx? Eu assistia sábado ao Jornal Nacional e, de repente, entrou uma matéria mostrando que o Coaf, por meio do Ministério Público Federal e a revista IstoÉ, desvendou as contas do Sr. Marcos Valério. Aí revestiu a realidade a prova que tanto foi cobrada. No início me cobravam: “Provas, provas, provas”! A realidade foi vestida, vestiu o discurso que fiz, as informações que dei.

Agora me colocam com a pecha de artista. Tenho ouvido: “Vamos desqualificar o Roberto porque ele é um artista”. Mas, a verdade, contra ela ninguém se ergue. De repente o carequinha deixou de fora o que o PC Farias fez no passado, o rabo. E a Coaf mostrou os saques dele. Tem que procurar o Banco do Brasil também, tem que procurar o Banco do Brasil porque me recordo que dos recursos que recebi do PT, encaminhados pelo Presidente José Genoíno e Delúbio, que vieram do Banco Rural, cerca de 60% das notas tinham a etiqueta do Banco do Brasil. Até agora só Banco Rural, de Minas, e esse escritório aqui em Brasília. Vocês vão descobrir quem foi lá para buscar recursos.

A realidade vestiu as minhas palavras. Hoje, tenho informações que passo a esta CPI, de novo, uma decisão de Governo desmonta uma estrutura de financiamento de Partidos na empresa Furnas. Os três diretores, a jornalista Renata Lo Prete em entrevista comigo divulgada hoje na Folha de S.Paulo publica que já foram exonerados agora à tarde.

Eu vim dizer aos meus iguais, às minhas iguais, que quero contribuir para que esse assunto possa ser discutido e debatido. Estamos às vésperas de reformas. Tenho ouvido falar em financiamento público de campanha. Digo ao meu Partido, de que me afastei como Presidente: é um escândalo o financiamento público, é um escândalo. Hoje, um bilhão, pelos R$2,00 por voto que estamos vendo serem colocados a partir de agora no Orçamento da União. Mas, lembrem-se, o senhor e a senhora que estão em casa, que quem faz o Orçamento é o Congresso Nacional. Um bilhão hoje com o voto a R$2,00. Amanhã, dois bilhões com o voto a R$4,00. Depois de amanhã, 3 bilhões vai custar a eleição com o voto a R$6,00, porque quem faz o Orçamento somos nós, os que vamos nos beneficiar do financiamento público.

Aí volto lá ao William Bonner, no sábado; ele fez, vestiu o fato, falou longamente com o Sr. Marcos Valério – para não fechar dando razão ao Roberto Jefferson, aquele velho troglodita, o general da tropa de choque do Collor, que não pode virar, está amarrado a um passado, não consegue avançar – entendo esse preconceito. Aí diz assim: “O Henrique Brandão, que mantém relações com o IRB, negócios com o IRB, é amigo de Roberto Jefferson – graças a Deus –, há trinta anos, deu R$ 90 mil à campanha de Cristiane Brasil, vereadora no Rio, filha do Deputado Roberto Jefferson. Sou empresário, estou em casa vendo televisão, não dou um centavo por dentro para candidato nenhum na próxima eleição. Quem se arrisca a dar é escrachado pela imprensa ou teme a vingança do partido adversário”.

A democracia do mundo precisa de dinheiro para ser feita. A democracia precisa de dinheiro para financiar a política. Nós não podemos é inverter, é permitir que a política financie dinheiro ou faça dinheiro. Na América, quem dá o cheque maior para candidatura presidencial assenta ao lado do presidente e tira uma foto com ele. É uma honra. Não é que aquele moço esteja comprando o governante. Não, ele está apostando no regime democrático. Aqui, no Brasil, há um preconceito da mídia, porque toda a doação de empresário a partido político é criminosa. Virgem aqui só o Pisol, até a próxima eleição, que se não sucumbirá ante o caixa dois, porque senão não vai fazer campanha. E nós tínhamos que permitir que isso fosse aberto, que o empresário que desse fosse respeitado, não fosse escrachado na mídia, como se doar a um partido fosse comprar consciência parlamentar e não um gesto grandioso de se apostar num regime democrático, na democracia política. Isso nós precisamos conversar de verdade aqui, na Câmara dos Deputados.

A mim, Roberto Jefferson, não alegra, não gera felicidade, não dá alegria olhar o Partido, que, durante 25 anos – esse ano é ano de seu aniversário, de suas bodas de prata –, que empunhou essa bandeira da ética, da moralidade, rasgou a bandeira. A mim, isso não traz felicidade, porque chafurdou no mesmo esquema de financiamento político e partidário, se sujou, se sujou como os outros do passado, nos quais atirou pedra. E para que isso não se repita, para que nós não fiquemos com a frustração de ver o partido obreiro macular o seu ideal de luta, o seu passado de lutas, temos de enfrentar essa corrupção que está na raiz do financiamento eleitoral. Esses fantasmas que ficam rondando o poder sempre são os fantasmas do financiamento eleitoral: Delúbio, PC Farias, Marcos Valério. É sempre a mesma gente. É sempre a mesma prática, porque a legislação eleitoral que nós temos ainda é a de Castelo Branco. Ela não é clara, ela não permite o financiamento político que proteja o doador para que ele não seja escrachado como se tivesse querendo comprar os Deputados. Vi todos os partidos aqui representados, até com doações de banco, de grandes empresas nacionais. E não vejo na luta até dos obreiros, que têm um grande financiamento de banco em suas contas, nenhum comprometimento com esse sistema financeiro traindo a luta dos sem-terra ou dos trabalhadores. Os formadores de opinião na mídia geram essa suspeição contra o financiamento privado das campanhas políticas particulares, mas esse é o único caminho.

Eu não quero vestir amanhã uma camiseta “Roberto Jefferson, Deputado Federal”, sabendo que a camiseta que coloco no meu corpo tira do velho no hospital o remédio de que ele precisa. Eu não quero botar uma corneta de som no meu carro, Sr. Presidente, Sr. Relator, sabendo que vou tomar de uma criança a vaga na escola. Eu não quero estender uma faixa,um outdoor, sabendo que o dinheiro público que vai para a minha campanha vai tomar o prato de comida do pobre que não tem. Se fôssemos um país rico, tudo bem. Se viesse o financiamento público para impedir o caixa dois, tudo bem. Ele não vem. Ele vai somar crimes. O crime do dinheiro do imposto. Roubar do pobre em favor do Governador, do Senador, do Deputado, do Vereador e do Prefeito e o crime do caixa dois, que vai continuar a existir.

Sr. Presidente, Srs. Congressistas, o PTB quer enfrentar a reforma política. O que espera de nós o povo que nos vê ao vivo aqui? Na raiz do “mensalão”, tenho certeza, está o troca-troca de legenda, de partido. Até de “luvas” de R$1 milhão e financiamento de R$30 mil de taxa de manutenção nós já temos denúncia aqui na Casa. Uma Deputada vem e diz: “A proposta a mim é R$1 milhão e R$30 mil por mês”. Por quê? Para que ela deixasse a legenda original dela e fosse para outro partido.

O que sonha o povo de nós? Primeiro, fidelidade partidária. Eu tenho seis mandatos consecutivos como Deputado Federal, pelo meu Estado do Rio, no PTB, pelo PTB. Tive dois Partidos na vida: o MDB, quando era menino, militante, e, depois, o PTB, que ajudei a fundar com Ivete Vargas lá no meu Estado, na minha cidade de Petrópolis, e depois na cidade de Três Rios, na cidade de Sapucaia, de Teresópolis, na minha região serrana. Fui eleito em 1982, pelo PTB, Deputado Federal e depois, cinco vezes consecutivas, reeleito pelo PTB.

O que espera o povo de nós? Que nós estabeleçamos regras rígidas para acabar com os Deputados que trocam de partido como se trocassem de camisa. Isso é uma vergonha!

O que espera o povo de nós? Que nós acabemos com as legendas nanicas e os partidos de aluguel. Essa cláusula de barreira que está posta hoje, na legislação atual, de 5% dos eleitores nacionais em nove Estados, reduz, na próxima eleição, o quadro partidário para, no máximo, cinco partidos aqui na Casa: um de esquerda, um de centro-esquerda, um de centro, um de centro-direita e um de direita.

Mas a proposta que o Governo manda para cá – e estou vendo, na relatoria, que vai a plenário – reduz de 5% para 2% a cláusula de barreira. Ou seja, hoje, de trinta partidos, vamos pular para 60, para atrapalhar a novela da senhora, o jornal que a senhora gosta de ver na televisão. Nós, com o discurso da moralidade, estamos rasgando a moralidade. Nós, com o discurso da reforma salvadora da classe política, estamos agravando a relação partidária aqui no Congresso Nacional, porque a lei já estabelece 5%; se reduzirmos para 2%, vamos piorar, e muito, a situação político-partidária do Brasil.

O PTB tem outras propostas, como, por exemplo, o vice – vice-Prefeito, vice-Governador, vice-Presidente – é o coisa nenhuma na expectativa de ser alguma coisa algum dia. É o conspirador do dia-a-dia, que quer sempre o lugar daquele que ocupa o cargo de Prefeito, de Governador ou de Presidente. Para que vice? Com aquela estrutura de mordomia, de palácio, de segurança... Para que vice? Hoje, tudo se faz pelo computador. Isso se justificava na época do Império, em que o Imperador saia daqui para Portugal de navio e levava vinte dias no mar. Não tinha um telégrafo, não tinha um fax. Hoje vai de avião. Fala no avião o tempo todo com o chefe da Casa Civil ou com a chefe da Casa Civil. Para que vice?

Nós temos que reduzir, na Câmara dos Deputados, pelo menos três deputados federais por bancada. Tirar um Senado de lá – um Senado com as despesas que o Senado tem. Se nós reduzíssemos três senadores por Estado, nós tiraríamos um Senado... três deputados por Estado, nós tiraríamos um Senado de dentro da Câmara dos Deputados. Ou seja, 81 deputados federais a menos. Nós precisamos acabar com três senadores aqui, no Senado da República, por Estado.

Só no Brasil! Não existe isso em lugar nenhum do mundo. Isso foi uma cria da ditadura para tentar manter no Colégio Eleitoral a vitória dos militares. Eu me lembro daquele Deputado gaúcho, gordo, o Uequed, Jorge Uequed. Ele começava uma sessão do Congresso dizendo assim: “Srs. Senadores, Srs. Deputados, Srªs Deputadas, Srs. Senadores eleitos pelo voto do povo, demais funcionários desta Casa”, se referindo aos Senadores do voto indireto, os da nomeação. Eu me recordo disso, eu era Deputado.

E, por fim, Srªs e Srs. Senadores, para me colocar à disposição de V. Exªs. O meu Partido também esposa a tese de despartidarização da máquina do Estado, a redução desses cargos de confiança. Hoje são 25 mil. Vamos reduzir para prestigiar e fortalecer o servidor público na sua carreira. A ascensão será por mérito, será meritória, e não partidária. O PTB esposa a tese. E, para fechar, Srs. Senadores, Srªs Senadoras, Srs. Deputados, acabar com a suplência de senador, que é outra coisa que o Brasil não compreende. Uma coisa antiga, superada. Normalmente, o suplente é o financiador e gera sempre tensões ruins. Quer ocupar o lugar, fica suscitando conversas, sempre arruma uma encrenca o suplente. E nós queríamos ver se, superando essa conversa de suplente de senador, poderíamos fazer o seguinte: o senador se retira para governar o Estado, se licencia para ser ministro do Governo, assume o segundo mais votado do Estado. Assim, a expressão do voto do povo.

Então, são propostas que o PTB traz ao debate, porque esta Comissão não vai ficar – eu tenho certeza disso – apenas no debate pequeno dos três mil reais, que um “petequero” leviano que usa o nome alheio, e que foi gravado pela Abin, que não viu Marcos Valério, que não soube do Banco Rural, que não soube das movimentações do Banco do Brasil, que não sabia das atividades do Sr. Silvinho Pereira nem do Sr. Delúbio; sabia que tinha lá um cara que pegava três mil reais, chefe de departamento do quarto escalão – grande descoberta da Abin! Grande descoberta! No próximo Orçamento, quero votar contra recursos para a Abin, porque já vi que é apenas uma polícia política usada para constranger os que se opõem, em certo momento, a certas figuras do Governo. Não é o Governo em si.

Agradecer a paciência que os senhores tiveram comigo, a gentileza de me ouvir e eu me coloco, Sr. Presidente, Sr. Relator, à disposição de V. Exªs para os questionamentos que poderei escutar de cada um dos senhores.

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Roberto Jefferson.

Com a palavra o Relator, Deputado Osmar Serraglio.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, Sr. Deputado Roberto Jefferson, vou começar de uma forma talvez apequenada, mas por obrigação de ofício.

Eu tenho convicção absoluta de que o nosso inteligente depoente acredita numa máxima de um filósofo moderno de muita expressão, Bertrand Russell, que afirmava que ele não daria – vejam, do alto da sua inteligência, a modéstia – a sua vida por suas idéias, porque ele poderia estar equivocado.

Tenho absoluta convicção de que o nosso depoente comunga dessa mesma concepção. Ele tem uma idéia, que pode ser a verdadeira: a de que foi vítima de um complô de uma agência de inteligência e, daí, estaríamos num emaranhado, num imbróglio que envolve até, talvez, essa decantada crise política em que nos embrenhamos nesses últimos tempos. Mas, repetindo, como talvez essa concepção possa não ser a definitiva, essa vertente, essa alternativa... esta é uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e, por sinal, quem estudar a teoria, a origem das Comissões Parlamentares de Inquérito, vai observar que, mais do que descobrir as mazelas, e é preciso que se as descubram, a razão de ser é buscar que elas não se repitam. Nesse aspecto, o depoente nos trouxe contribuições muito importantes de quem conviveu e convive com as dificuldades que nós todos, aqui, nos defrontamos com essa construção, com essa estrutura, com essa engenharia política que conduz as nossas atividades, tanto eleitorais quanto internas, enquanto representantes do povo.

Mas nós temos outras versões e, repito, esta é um CPMI. Aliás, uma versão primeira de S. Exª, o Deputado Roberto Jefferson, que também viu na possibilidade de um empresário de somenos que, em atrito com alguém que o obstaculizava nas pretensões internas, na sua busca de fornecimento aos Correios, estaria direcionando toda a sua ira... e, aliás, é o que ele confessa e, portanto, é uma versão. A versão de Arthur Wascheck é uma versão que a Comissão precisa investigar e ela se limita a uma empresa insatisfeita, direcionada a um funcionário de quarto escalão.

Mas no discurso, S. Exª também, no plenário, fez referência à possibilidade – possibilidade – de que houvesse grandes empresas em conflito. Até fez referência a contrato, na época, de 35 milhões. É uma versão possível.

Nós podemos ter, a par disso... e aí pegamos a degravação e constatamos que, de certo modo, ressuma das manifestações do próprio Marinho um desentendimento, talvez uma briga de poder – aliás, também remarcada até por informações que o próprio depoente também nos trouxe no sentido de que 70% praticamente das licitações estão concentradas numa diretoria. Então, pode ser que estejamos com a possibilidade de que tudo que aconteceu, a origem, ser um conflito de diretores por espaço. Conflito de partidos – também já se aventou –, que se espraiava, se instrumentalizava internamente nas empresas estatais, disputando espaços. Qual a versão verdadeira? Cada um de nós, cada um que compareceu aqui deu uma versão. E uma delas – e pode ser essa a de S. Exª – pode ser a que conduziu a que nós nos agregássemos e nos esforçássemos juntos, neste plenário, para que conseguíssemos aportar a uma solução que, repito, apesar de todo esse desenho, essa vitrine que nos envergonha, nos ensinou muitas coisas.

Sou professor de universidade, dessa área de direito administrativo, e, em poucos dias, me espantei com muita coisa que acontecia numa empresa do nível dos Correios. E aqui está o meu companheiro, professor da mesma cadeira, o Deputado José Eduardo Cardozo.

Vimos aqui empresas que são virtuais, que vendem de tudo e que não têm nada. Quando se verifica a lei que disciplina isso, a Lei nº 866, tão exigente para não se colocar o órgão público numa aventura de contratar com alguém que amanhã não tenha como garantir o que ofereceu. E, aliás, o Sr. Arthur Wascheck trouxe até informações nesse sentido, de que estava vendendo coisas importadas e que estava tendo dificuldades – capas de chuva e tal. Vimos isso. Nunca imaginei que isso ocorresse. Em Brasília temos empresas virtuais.

Vimos também – eu desconhecia isso também – que há uma prática de se conversar, precedentemente à elaboração do edital, com os interessados para se detalhar o que possa amarrar; não digo que o seja, mas que permite que o seja, de forma que o edital, quando trazido a lume, já venha direcionado. E não adianta nada alguém examinar o procedimento licitatório, porque ele já nasceu ocultando os fato.

Enfim, vimos hoje a referência à pesquisa de preços. E, quando olhamos os contratos, o que vemos? Nas licitações, antes de se emitir um edital, para se dar um parâmetro àqueles que pretendam participar da licitação, a empresa estabelece um valor referencial. E o que assistimos? Repetidas vezes, relativamente ao valor referencial, as propostas vencedoras correspondiam a até 50% do valor. Que pesquisa de mercado é essa? É direcionada também? E as revogações? Não tenho essa confirmação, mas alguém, em algum lugar, afirmou, ou está registrado em algum documento ou algum depoente reportou que há mais de 140 revogações. Revogações?

O SR. PRESIDENTE  (Delcídio Amaral. PT-MS) – Peço silêncio, por favor, para darmos andamento aos trabalhos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Revogações, quem conhece, repito, se há um princípio geral que autoriza, que rege o direito administrativo, da revogabilidade dos atos administrativos, hoje avançamos muito, e aquilo que era tão generalizado, hoje é tão afunilado que a revogação exige um fato novo. Não é a discricionariedade inicial que desencadeia a competência para editar o ato? E vai permanecer até o momento em que ele é posto em concreto. Então, vamos examinar se essas revogações – por isso, estamos aqui juntos – foram, de fato, a título de interesse público ou se visavam a dificultar aqueles que, vencedores nas licitações, eram posteriormente alijados, afastados. De forma que só essas lições dos primeiros dias já vão ensinar, com certeza, a esta Comissão a diligenciar no sentido de que nossa legislação se aperfeiçoe, pelo menos no trato desses assuntos.

Agora, caio no mundo real da nossa investigação e volto a dizer que precisamos nos apequenar, porque também existem versões apequenadas. E Deus queira que cheguemos à conclusão de que, a despeito de tudo o mais que deve ser corrigido, na verdade, a República não foi manipulada, de sorte a colocar um cadáver nos braços do nosso depoente.

Ilustre Deputado Roberto Jefferson, V. Exª insiste em dizer que se trata de uma orquestração da Abin. Dessa forma, gostaríamos que V. Exª nos desse mais elementos para que pudéssemos aferir e avaliar, avançando, enfim, nessa nossa investigação.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Relator, a matéria publicada na revista Veja foi publicada no site no dia 14 de maio de 2005. Nós acessamos o site da revista, e lá só aparecia o Marinho. A fita tem 1 hora e 54 minutos. Só o Marinho, petequeiro, pegando lá R$3 mil. Volto a advertir a Rede Globo, para que ela não erre mais: ele é chefe de departamento; não é diretor. Não errem mais nisso, porque é ruim. Pegando R$3 mil, de peteca.

Passei a fita, olhei, vim embora para Brasília. Liguei para o Antônio Osório, diretor dos Correios, que esteve hoje aqui pela manhã, meu amigo, que honra o Partido, homem digno, correto. Eu assinei sua indicação e o faria novamente. E, pelo meu companheiro, Roberto Salmeron, ex-Presidente da Eletronorte, há 20 anos filiado ao PTB, um dos melhores quadros que temos no Partido. Perguntei-lhes: vocês viram a fita? “Não.” Então, eu vou para Brasília... Disse-me o Salmeron: “eu recebi aqui através de um motoboy”. Falei: então, vou para sua casa, vou almoçar com você. Quero ver. Antônio Osório, vamos nos encontrar lá.

Passei no meu apartamento, tinha chegado, em um envelope amarelo, a fita, que mandei reproduzir em 600 cópias e dei a toda a imprensa e a todo o Congresso Nacional. Assisti durante 1 hora e 54 minutos àquela fita. Comparei com o que havia no site da Veja e com a matéria da Veja. A Veja chegou ao cúmulo de tentar conspurcar a imagem virtual do diretor que ocuparia o cargo do Sr. Eduardo na diretoria de informática. Coloca lá: o Sr. Ezequiel, indicado do Senador Fernando Bezerra... Os outros estão certinhos. Roberto Jefferson indicou Antônio Osório; Michel Temer indicou o Sr. João Bezerra – vem assim, na seqüência. Aí, vem assim: o Senador Fernando Bezerra indicou Ezequiel... Falei: espera aí. Não é isso. É o Silvinho Pereira, com quem se negociava no PTB, para substituir o Sr. Eduardo, diretor de informática. Eles esconderam o real e puseram o virtual, que nunca foi nomeado. Eu falei: tem dedo do Governo nessa matéria. Aí, lendo depois o jornal O Estado de S.Paulo... No dia 21 de maio, o Estadão diz que a Abin já possuía a fita há 20 dias, antes de ela ser publicada. O jornal O Globo do dia 11 de junho diz que a Abin já estava com agentes infiltrados há muitos meses nos Correios: “Abin infiltrara agentes na ECT” – sábado, 11/6.

Qual foi a minha leitura? Depois que eu disse ao Presidente Lula sobre o mensalão, caí na desgraça. Tentei tirar o meu PTB do mensalão desde agosto de 2003. Ficava este jogo: “Vai ser nomeado diretor da empresa, não vai ser nomeado diretor da empresa”. Passavam-se os dias e nunca o PTB tinha acesso ao poder, nunca o poder era repartido conosco.

O mensalão funcionava para dois outros partidos que compõem a base governista. E não são todos os deputados, quero deixar isso claro, não estou generalizando: nem todos os deputados desses partidos recebem o mensalão. Muitos recebem, mas nem todos recebem.

Percebi que a tentativa era sempre nos levar para o mensalão – a conversa que tive com o Martinez, que ele recebeu do Delúbio; a conversa do Delúbio comigo; a conversa do Pedro Henry; a conversa do Bispo Rodrigues, que agora não é mais bispo, é simplesmente Carlos Rodrigues; com o José Múcio, ele o Pedro Henry e o Valdemar Costa Neto.

Vocês vão dizer: “Roberto, o Múcio não está afirmando isso”. Ele não é obrigado a comprar minhas lutas, não é obrigado. Ele quer preservar relações que eu já rompi, mas essa conversa vem lá de trás – que nós aderíssemos ao mensalão. Eu não aderi; o PTB não aderiu. Levei isso ao Ministro Walfrido, disse-lhe: “Walfrido, tem essa proposta de desencravar unha todo mês. Você quer essa proposta?” “Eu não tenho como olhar nos olhos do Presidente se isso acontecer”.

Numa conversa informal com a minha Bancada, no princípio da legislatura passada, disse: “Gente, vocês estão falando desse mensalão...” Isso era voz corrente, desconfie de quem não ouviu falar no mensalão: ou se omite por medo de enfrentar o que estou enfrentando aqui, ou recebe. Não tem saída. Isso é conversa comezinha na Casa; o mensalão é comezinho. Até quando daquela sindicância que o João Paulo mandou fazer, que abriu às 10 horas e fechou às 10 horas e 40 minutos, uma sindicância de brincadeira só para constranger o Jornal do Brasil, já se sabia que havia o mensalão. Aliás, o Governador de Goiás já vinha dizendo isso desde maio do ano passado.

Como eu não aderi ao mensalão e choquei o Presidente Lula quando ele soube, percebi nitidamente que o meu Partido caiu em desgraça. O meu Partido caiu em desgraça: fomos colocados, aos olhos da opinião pública, como responsáveis por uma corrupção que o PTB não praticou. Então, essa é a convicção que eu tenho, é intuitiva.

No dia 17 de maio, Sr. Relator, o Presidente da Câmara, o Deputado Severino Cavalcanti, me permitiu usar a tribuna da Casa para que pudesse me defender das acusações que a revista fazia. No sábado, a revista traz acusações em relação ao IRB, que não são verdadeiras, e elenca um outro grupo de informações que caminham na verossimilhança, que é pior que a mentira. Pessoas de alguma relação comigo, mas que jamais participaram de qualquer ação em favor do PTB ou pelo PTB, são alinhadas e colocadas num grande esquema do Presidente do PTB, Roberto Jefferson, desconstruindo a minha imagem. No sábado, dia 21 de maio, O Estado de S. Paulo diz: “A Abin já sabia há mais de quinze dias e possuía a fita”.

Na terça-feira, dia 24 de maio, convoquei a Executiva Nacional do meu Partido. Cheguei a Brasília no domingo, dia 22. Na noite do dia 23, na minha casa, eu estava sentado na sala, eu, o Deputado Fleury, que se recupera de uma cirurgia de três hérnias – saúde, Fleury, Deus o abençoe; está em casa, fez três hérnias grandes esta semana –, e o Deputado José Múcio. Estávamos conversando sobre essa crise que se abatia sobre o PTB – na segunda-feira à noite.

Foi convocada uma reunião para a terça-feira para que todos os companheiros do PTB assinassem a CPI, como eu assinara no dia 17, quando saí da tribuna. De repente, me vira o Fleury e diz assim: “Robertão, aqui embaixo estão cinco Ministros – Paulo Bernardo, Ciro Gomes, José Dirceu, Aldo Rebelo – e querem subir para falar com você”. Eu disse: eu não vou falar não, porque o Governo está jogando contra nós. Não vamos fazer isso. Não vou retirar assinatura. Vamos, amanhã, fazer uma reunião da Executiva com as assinaturas. E estou sentindo a tensão porque metade do meu Partido é governista e a outra metade quer sair. O PTB está assim como o PMDB: metade dentro, metade fora. E metade quer sair.

No dia seguinte, me liga o Múcio às 10 horas da manhã. Eu tinha sentado, lido a mídia e me preparado para a reunião, quando o Múcio me diz: “Eu preciso falar com você”. Eu disse: eu vou tomar banho e em meia hora você chega aqui. Quando chego na sala, às 10h30, 11 horas, estão sentados: os Ministros José Dirceu e Aldo Rebelo, que falam: “Roberto, você não vai assinar essa CPI, você não pode fazer isso com a gente. Essa CPI é contra o Governo. Essa CPI é para paralisar o Governo. Essa CPI é para atingir o Governo do Presidente Lula e vai-nos atingir”. Eu falei: não tenho dúvida, Zé, porque eu sou escada, sou ponte. O alvo é você, o alvo é o Delúbio, o alvo é o Silvinho Pereira. A CPI vai atingir vocês, mas não posso sair disso sem alma, não vou virar zumbi. Está atingindo a minha honra pessoal.

Nesse ínterim, chega o Dr. Itapuã a minha casa, levando já um boletim da Polícia Federal, onde o Marinho, Maurício Marinho, dissera que não conhece o Roberto Jefferson a não ser de contatos superficiais; que não foi o Deputado Roberto Jefferson que o nomeou para os Correios, foi outro Deputado; que é homem e assumiu de público isso. Foi para a tribuna e disse que foi ele e que ele usou levianamente o meu nome para receber aqueles R$3 mil que o flagrante ilegal, feitos por agentes ligados à Abin, mostrou por meio da revista Veja.

De posse disso, eu, o Deputado Múcio, o Ministro Aldo e o Ministro José Dirceu, àquela época, começamos a conversar e eu disse: não tenho problema de recuar. Não tenho nenhum problema em recuar. Tiro a assinatura, mas você tem que me dar uma saída honrosa. Estou sendo linchado nisso. Quero que você me ajude na Veja. Ele disse: “Na Veja, eu não posso”. No Globo? Ele falou: “Vou tentar”. Não quero usar expressões aqui, pois a minha assessoria de imprensa fica toda hora me chamando a atenção, dizendo que não devo usar aquelas expressões que usei... Mas aquela história que vocês já conhecem e que repito, mas não quero mais colocar de público aqui.

Você tem como me ajudar? “Vou tentar te ajudar, Roberto”. Falei: então, tá bem. Vou atravessar a rua e digo à imprensa que tiro a assinatura. Foi o meu maior erro, Senador César Borges. Cheguei no Partido, reuni e falei: tiro a assinatura e peço aos companheiros que retirem. Estava toda a imprensa lá.

A partir daí, foi um linchamento que não parou mais. Retirei a assinatura no dia 25 de maio. Na sexta-feira, dia 3 de junho, começo a ver os saques, começo a acompanhar... começo a ver o meio eletrônico, e estou vendo em todas as agências – Estado, Folha, O Globo – S. Exª o Ministro da Justiça dizendo que faria um comunicado à Nação na segunda-feira, 6 de junho, desmontando o esquema da corrupção, que estava na Eletronorte, nos Correios e no IRB.

Falei: é no colo do PTB. Eu cometi um erro: tirei a assinatura, a mídia já está envenenada, já envenenou o PTB e a mim, tem que ter sangue para chacal, e vai o PTB. E o que vamos fazer? Enterrar a CPI e vamos ser destruídos no Partido, e eu, pessoalmente. Aí liguei para o Walfrido e falei: Walfrido – ele estava na cidade de Ouro Preto, estava rouco –, o Ministro da Justiça vai atirar no PTB na segunda-feira. Ele, rouco, falou: “Vou falar com ele; ele não pode fazer isso...” Eu falei: mas é o que está claramente para mim, Walfrido. O Walfrido não me deu mais retorno.

No dia 4, sábado, a mãe dos meus filhos e avó dos meus netos, a Ecila, me liga do Rio, às 2 horas da tarde. Ela tinha comprado O Globo, porque O Globo de domingo sai no sábado às 2 horas da tarde. Ela falou: “Você já leu? Você já sabe de O Globo?” Eu falei: “Eu não”. Ela disse: “Está destruindo você”. Estavam mentindo e mentindo gravemente, atribuindo a mim coisas que jamais fiz: Buião, Saião, do INSS, gente que nunca vi na minha vida. Compareci a eventos da Anfip – Associação Nacional de Fiscais da Previdência, porque presidi, por duas vezes, a Comissão de Seguridade e Família, da Câmara dos Deputados. E, num jantar, onde essas pessoas estavam presentes, O Globo disse que eu tinha relação com Buião, Saião, João, os caras que tinham fraudado a Previdência Social. Uma matéria desconstrutiva em cima de mim, violenta.

Mais tarde, acesso o site da revista Época, e a desconstrução é familiar. Colocam a mãe de meus filhos e avó de meus netos de baby-doll na revista, abrem a porta do banheiro e colocam-me sentado na privada, e um amigo meu, meu irmão preto, o Durval, como laranja de uma rádio que arranjei para um cara, há vinte anos, no Governo do Presidente Sarney, à época Ministro das Telecomunicações, Antonio Carlos Magalhães, para umas pessoas. Isso porque antigamente era assim: você influía. Hoje, os critérios são diferentes. Mas antigamente você influía para que essas rádios fossem liberadas, e eu influí em favor de grupos do interior do Estado do Rio de Janeiro. E, para proteger o Durval, que era pobrezinho, coloquei ele no contrato social de duas rádios, que devem dar R$500,00 a R$600,00 reais por mês de renda. E a revista diz que ele é o laranja do Roberto Jefferson. A Época, O Globo, desconstrutiva dessa maneira, e esta semana a Comissão de Justiça vai votar o fim da CPI, é nítido que vão colocar isso no colo do PTB.

Então, percebi, pelas informações que vazavam, por exemplo, Roberto Maia, que é um homem de bem, sei que é, um homem sério, numa interpretação de decisão que tomou, ele é colocado como sendo indicação minha sem ser. Ele foi indicado por um Deputado que saiu do PTB, o Luís Piauhylino. Eu, como Presidente, tinha a célula. Essas indicações são assim: o Deputado manda ao Presidente, que chancela e manda para a Casa Civil. Assinam o Líder e o Presidente e vai para a Casa Civil.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Tem uma pessoa passando mal. Por favor, o Serviço Médico do Senado.

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, aproveito para me dirigir a V. Exª, enquanto o Serviço Médico atende a pessoa que necessita de atendimento.

Respeitando o direito do investigado de usar da palavra, o Brasil evidentemente quer ouvi-lo, mas tenho certeza de que o Brasil também quer nos ouvir, aqueles que vão questioná-lo. Se a cada pergunta, o Deputado tiver 10 ou 15 minutos, como está tendo agora, e basicamente repetindo tudo o que falou no Conselho de Ética, não teremos possibilidade de inquiri-lo como gostaríamos.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Sr. Presidente, o tempo é do próprio depoente. O tempo só é cortado contra nós, que indagamos. O depoente tem o tempo que julgar necessário.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com certeza, Deputada Juíza Denise Frossard, vamos encerrar a fase das perguntas do Relator ao Deputado Roberto Jefferson e, depois, seguiremos a lista de inscritos. Eu serei absolutamente severo no tempo. Os Parlamentares terão 10 minutos cada um, e quando faltar um minuto iremos interromper.

Tem a palavra pela ordem a Senadora Ideli Salvatti.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, estou atentamente ouvindo as respostas do Deputado Roberto Jefferson, mas ainda não consegui encontrar nenhuma resposta efetiva à pergunta feita pelo Relator.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) Sr.Presidente, não cabe a pergunta feita pela ordem pela Senadora Ideli Salvatti. Não concordo com o que está sendo feito, porque o depoente está com a palavra e, devido a um acidente, foi retirada a palavra do depoente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado ACM Neto, vamos prosseguir.

Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Presidente, vou encerrar brevemente.

No dia 7 de junho, O Globo diz que a Abin infiltrara, há seis meses já, um agente na Empresa de Correios e Telégrafos.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No dia 14, vou à Comissão de Ética. Estou realmente repetindo o que falei, mas esqueci de falar uma coisa importante. Quando, nesse dia...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Insisto: por favor, silêncio!

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Quando percebi, Presidente, esse noticiário no dia 5, falei: é a hora de eu enfrentar isso; tenho de romper, não tenho de negociar, apesar de, na véspera, na sexta-feira, eu ter recebido o Líder do Governo na Câmara, Deputado Chinaglia, que me propusera, não em nome do Governo – ele foi muito enfático nisso –, mas em seu nome pessoal, que eu assumisse tudo, para que pudéssemos encerrar esta CPI: uma investigação rápida acabaria com a crise política. Eu disse que não confiava no Governo e no PT, para poder fazer esse acordo, mesmo porque eu não tinha nada a ver com isso. No dia 14/06 fui depor na Comissão de Ética, dia do meu aniversário. Aliás, dizem que o inferno astral e zodiacal do homem começa um mês antes do seu aniversário: começou em 14 de maio, e, em 14 de junho, eu estava depondo na Comissão de Ética.

Nesse dia, a Juíza da 10ª Vara Federal de Brasília, Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. Senadores, Srs. Deputados, manda invadir duas residências em Petrópolis, de forma leviana. Que ela esteja me ouvindo, para eu repetir isso para ela ouvir: leviana, solerte. Primeiro, invade a casa de um menino que mora no Valparaíso, chamado Marcos Silva Vasconcelos, que trabalha no Rio com a esposa, em frente à Beneficência Portuguesa, ao lado do metrô. Arrombaram a porta, levaram tudo. Só que esse rapaz não é o meu genro. Meu genro mora no Retiro, do outro lado da cidade. No dia em que eu estava depondo, a ordem judicial tão leviana não sabia onde era a casa de minha filha – tão leviana, tão açodada, tão solerte, tão desonesta, tão comprometida com o Governo, como estava o inquérito da Polícia Federal e o civil do Ministério Público.

Uma hora da tarde, recebo uma ligação da mãe de meus filhos. Fabiana estava em casa, ela... Os marginais: minha filha de 28 anos, meu neto de um ano de idade, o Bernardo, o caseiro, a empregada. Seis homens de colete e metralhadora da Polícia Federal, mais um Procurador e um Delegado arrombaram o portão e invadiram a casa – helicópteros, um cerco de helicópteros – da minha filha, na hora em que eu ia sentar para depor.

Foi bom, que me deu equilíbrio para fazer o que fiz e definir o caminho que tinha que tomar. Foi bom. Foi melhor para mim. Ficou claro. Tomei o caminho que tinha que tomar. Eu estava indo assim meio... vou ou não vou tão fundo? Não volto mais. Tem coisa que não pode... Um homem não faz concessão com a honra; pessoal ou familiar, não dá para fazer. Foi bom. Quero agradecer a atitude leviana da Justiça da 10ª Vara Federal de Brasília, que me deu força para fazer, enquanto eles estavam dentro da casa da minha filha e de meus netos pequeninos, aquilo que fiz na Comissão de Ética. Muito obrigado à senhora. Eu esqueci de lhe agradecer, como agradeci a Valdemar Costa Neto naquele dia.

Saíram de lá às 19 horas. Passou. Mas me deu plena convicção, Sr. Presidente, Sr. Relator, da mão do Governo tentando colocar só o PTB nisso e tirar o outro Partido, que é o principal e que está envolvido nisso até os cabelos. E vi que funcionou a inteligência do Governo não em favor da sociedade, não em favor do Governo, mas para bater naquele que ousou contar um esquema que para mim é claro que foi montado pela cúpula do PT. Não quero acusar o PT integralmente. É a cúpula: o Presidente do PT, José Dirceu; o Vice, José Genoino; o Delúbio; o Silvinho Pereira. Isso é uma inteligência. É mais fácil alugar o Deputado, do que dividir um compromisso político. É mais fácil o exército mercenário mensalão, do que distribuir cargos e dividir poder. É claro que é uma jogada socialista para pagar à burguesia corrupta, só que eles não me conheciam e pensavam que o PTB ia fazer esse mesmo jogo, ia aderir a essas mesmas práticas.

É isso tudo, Sr. Relator, e peço desculpas; na próxima, vou procurar ser bem sintético; não quero mais incomodar a Senadora Ideli, apesar de não estar preocupado com o julgamento que ela faça de mim; não é para ela que falo, falo para o povo que me vê; disso eu já passei, não é para ela que estou preocupado em falar, porque ela não é melhor do que eu, nem V. Exª é. Os que aqui se arrostam juízes, vou questionar um por um. Vamos ver se as práticas são diferentes daqueles que vão querer levantar a voz contra mim.

Muito obrigado, Sr. Presidente. Muito obrigado, Sr. Relator.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Relator Osmar Serraglio.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Para não fugir da matéria da Abin, V. Exª acha que é um raciocínio equivocado ou é possível que tenha havido um primeiro momento em que, de fato, houve uma integração de personagens pequenos, e um segundo momento, em que apareceu envolvido um líder, ou algo assemelhado – ainda hipótese –, e então seria admissível esse seu raciocínio de que teria havido uma interferência da Inteligência? Ou acha que a Inteligência é desde o primeiro momento?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Relator, o Marinho foi filmado, pelo que vi aqui, no dia 14 de abril, naquela fita de 1h54min que distribuí...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Dia 12 de abril, mas tudo bem.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No dia 12 ou 14, me perdoe, no dia 12 de abril. Falei ao Presidente Lula no final de janeiro sobre o mensalão, quando ele teve aquela reação que contei ao Brasil. E eu, vendo aquelas fitas, a indução era contra o PTB. “E o Roberto Jefferson, e o Roberto Jefferson, e o Roberto Jefferson?! Meu amigão, é doidão, é doidão!” Não me conhece! Não me conhece. Não me conhece... Não entendo o riso de escárnio. Posso ter sido, no passado, um cara assim mais atirado, mas procuro pautar a minha conduta com muito equilíbrio e muita serenidade, Sr. Presidente. Não me conhece, não tinha convivência comigo. Me vendeu, infelizmente me vendeu!

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Nós tivemos um depoente que deu uma versão um pouco diferente em relação àquele momento em que V. Exª foi abordado, acho que no seu gabinete, quando lhe levou a notícia da existência da gravação.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O Molina, que não é comandante.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Ela foi amistosa ou ela foi de cunho de achaque?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Os senhores entrevistaram aqui o Molina, não entrevistaram?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Entrevistamos.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Ele é até uma figura frágil, não é uma figura assim truculenta. Eu o conheci em Belém do Pará, numa sexta-feira, 4 de março, num evento do Ministério do Turismo, com o prefeito Duciomar, de combate ao turismo sexual de menor. Ele veio falar comigo. Sentou-se, à noite, para jantar comigo e começou a dizer que uma empresa, que ele representava nos Correios, estava tendo os interesses contrariados na Diretoria do Dr. Antônio Osório, de Administração. E que ele queria uma solução que seria boa para todos. Eu falei: espera aí, Dr. Molina, só um momentinho, Comandante - eu achei que ele era comandante; naquela época, eu o chamei de comandante. O que o senhor está me propondo aqui é negócio, e eu não gosto de tratar negócio com ninguém. Eu sou político, sou Deputado Federal e presidente de Partido. Não converso negócio com o senhor. Se o senhor está tendo problema, eu ligo para o Dr. Antônio Osório, e o senhor vai lá e acerta com o Dr. Antônio Osório, que é o diretor da empresa.

Ele tentou falar comigo, Sr. Relator - quero lhe passar aqui o relatório disso -, várias vezes. Eu tenho uma folha dobrada aqui em que está escrito Molina; está aqui debaixo. Várias vezes ele tentou falar comigo. Eu quero lhe passar esse relatório da agenda do meu gabinete. Ele me ligou:

- 10 de março, quinta-feira, duas vezes;

- 15 de março, terça-feira, duas vezes;

- 5 de abril, terça-feira, duas vezes; ligou duas vezes, e eu atendi na ligação de 19h17;

- 6 de abril, ligou de novo, e eu não falei;

- aí, no dia 27 de abril, quarta-feira, 18h05, o Senador Suassuna me ligou várias vezes, pedindo para atendê-lo;

-                              no dia 28 de abril, de novo; e estou dizendo: “Senador, deixa isso para frente, já vou atender”; e me ligou de novo; pediu que eu falasse com ele às 9h35min, às 9h48min, às 10h16min; o Senador Suassuna me ligou: “Roberto, atende. É companheiro meu de farda” - eu nem sabia que o Senador Suassuna teria sido militar. Falei: “Eu atendo”.

Marquei com ele no meu gabinete, 3 de maio.

Recebi o Sr. Molina em 3 de maio, por volta das 17 horas. Ele se sentou à minha frente e veio com a mesma conversa lá de Belém, só não falou o nome do Fortuna. Porque, em Belém, ele me falou em Fortuna; nessa vez em que esteve comigo, em 3 de maio, terça-feira, não falou mais em Fortuna. E disse que estava sendo prejudicado, que uma empresa que ele representava estava sendo prejudicada e que ele queria acertar, que era bom para todos. Digo...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Ele chegou a nominar a empresa?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, não nominou a empresa.

Digo: “Amigo, nossa conversa está encerrada. O senhor pode se retirar. Não tenho mais nada a tratar. Essa conversa o senhor já falou comigo em Belém”. Ele falou: “Mas tem uma segunda coisa, Deputado”. Eu digo: “O que que é?” “Essa empresa tem uma fita do Sr. Marinho pegando dinheiro em seu nome e em nome do PTB e quer negociar com o senhor.” Eu falei: “Já não negocio com empresa de maneira direita e correta, ainda mais assim, com essa conversa, meu irmão! Você faz um bom uso da fita e, por favor, se retire daqui”.

Mas ele não chegou a chantagear, a me ameaçar, nem eu dei dimensão de ameaça, porque não acreditei. Eu achei tão frágil a conversa dele, assim tão... Não botei fé. Mandei ele embora, e ele foi embora. E, depois, aconteceu o que aconteceu.

No dia 11 de maio, quarta-feira, às 14h50min, Molina ligou no gabinete, dizendo que queria o e-mail do Deputado, porque não queria passar para o e-mail do gabinete, que era assunto pessoal do Deputado. “Eu quero passar a V. Exª esse relatório de meu gabinete.” Ele queria me passar já alguma coisa da fita que a revista Veja publicou no dia 14 no site e no dia 15 nas bancas.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Além dessa referência que Molina...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O senhor quer que eu assine?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Embora V. Exª já tenha declinado no próprio microfone...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu assino aqui.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – V. Exª se reportou a que Molina teria mencionado Fortuna. O que evoca Fortuna nas suas lembranças?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Na primeira reunião em Belém, ele disse que tinha um amigo, Coronel Fortuna, que tinha interesses nos Correios com ele. Em Belém, ele falou isso na conversa comigo, sentado no restaurante do hotel. E que queriam conversar comigo, que seria uma coisa boa para todo mundo...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Essa foi a única vez que...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Foi a única vez... Ele esteve pessoalmente comigo duas vezes, lá em Belém e, depois, aqui, no meu gabinete.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – E V. Exª não teve mais informações outras a respeito desse Fortuna, se ele teria cruzado alguma vez...?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Tive depois. Recebi informações do Sr. Fortuna depois. O Sr. Fortuna é amigo do Deputado que indicou o Dr. Maurício Marinho para a função que ele ocupa de chefia de departamento nos Correios. O nome saiu dele. E, pelo que me informou o Antônio Osório, pelo que me informou, naquela época, o Godoy, que são companheiros do PTB, ele havia tido um entrevero com o Marinho e ameaçado o Marinho: “Você está me prejudicando, e eu vou te derrubar dessa cadeira! Vou acabar com a tua carreira”.

Mas isso eu ouvi falar depois, Sr. Relator. Não conheci o Sr. Fortuna antes.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – V. Exª fez referência a duas empresas: a Novadata e a Skymaster. Poderia esclarecer um pouco o conhecimento que V. Exª tem sobre eventuais equívocos ou vícios nos contratos, na execução?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Superfaturamento. A Skymaster, não. Ela domina todas as licitações da área de informática. Não tenho informação... A Novadata...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Quem teria dado a V. Exª essas informações?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Esse grupo do PTB dos Correios. Quando nós sentamos... Onde tem problema aí? Antônio Osório, onde é que tem problema? Ele falou: “Olha, quem domina aqui a área toda de informática é a Novadata, ligada ao grupo do Silvinho Pereira”. Não me disse que havia superfaturamento. Mas, no que toca ao Correio Aéreo Noturno – inclusive, tem outras empresas, Total e uma outra do Nordeste, que não sei o nome –, há superfaturamento grave! Aviões que são para dezoito toneladas vão com quatro toneladas de carga, e o Correio paga as dezoito, porque ele voa... O contrato é pela capacidade, não é pela carga que ele leva. O contrato está com o dólar equivalente a R$3,00. Baixou, o contrato tinha que baixar para R$2,40. Continua pagando a R$3,00. Então, eu soube dessa informação e coloquei publicamente nos meus discursos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Segundo essa informação, eles lhe detalharam quem é que tinha o poder de assim proceder?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Na diretoria da Skymaster, tinha o Madureira; e, na diretoria onde estavam os negócios da Novadata, o Sr. Eduardo.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Ou seja, segundo esse seu informante, essas pessoas estavam praticando...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Meus informantes são os companheiros meus, o Antonio Osório, que é do...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Segundo o Antonio Osório... E quem mais?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O Godoy.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – O Godoy, Fernando Godoy?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Fernando Godoy, que é companheiro do PTB do Distrito Federal.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Segundo eles, a informação que eles lhe deram é que essas pessoas estavam praticando os atos...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim, na hora em que nós vimos tudo, onde tem problema? O problema está aqui. Quem domina 70% de tudo o que acontece aqui na área da informática é a Novadata. Inclusive a briga dessa pequena empresa que faz a gravação a mando, é porque ela perdeu uma concorrência para a Novadata. Foi a informação que eu... HHP ou HPP.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – HHP.

Também em uma passagem V. Exª fez referência a que apenas a diretoria administrativa estava sendo investigada pelo Ministério Público, pela Controladoria, pela Polícia Federal. Efetivamente, ficou visível isso?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Para mim, ficou. Agora, depois que as coisas começaram a caminhar, depois que, no jornal Folha de S.Paulo, aquela entrevista com a jornalista Renata Lo Prete saiu – a primeira, no dia 06 – é que a Polícia Federal começou a perseguir as provas daquilo que eu contei naquelas informações. Mas eles já sabiam. Procuraram colocar só em cima do PTB. Invadiram a casa do Salmeron, a casa da minha filha e do meu genro. A juíza da 10ª Vara Federal, tão leviana a atitude dela! Nós já pedimos cópia do despacho, e ela não entrega, para ver em quê ela fundamenta.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Isso V. Exª afirmou lá atrás. Ainda hoje não?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Até hoje não temos a cópia do despacho. Eu pediria à CPI que tivesse essas... Porque todo despacho dela é Segredo de Justiça, e as pessoas são escrachadas. O despacho de S.Exª togada é Segredo de Justiça, mas as pessoas são escrachadas de público, algemadas, as casas invadidas. Ela mandou invadir o escritório do Henrique Brandão no Rio, Assurê – que é a maior corretora privada do Brasil –, a casa dele no Rio e em Teresópolis, quando se trata de IRB com jurisdição na cidade do Rio de Janeiro, Justiça Federal do Rio de Janeiro. Não é Correio, jurisdição Brasília. Mas ela mandou fazer por aqui. Tudo foi feito rapidamente para colocar... tentar descobrir alguma coisa contra o PTB, botar no colo do PTB e encerrar a investigação, como se o PTB fosse o responsável pela corrupção da República. Nitidamente, eu vi isso, Sr. Relator.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – V. Exª fez referência a que teria recebido uma fita no seu apartamento. Quem entregou no seu apartamento?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Um motoboy. Deixou-me receber junto com a minha correspondência. Quando cheguei em casa, no domingo... domingo... que saiu a fita foi sábado... No domingo dia 15, eu recebi na minha correspondência, junto com meus jornais, com as minhas revistas, um envelope pardo, e tinha uma fita para mim. Eu não sei se eu deixei com o Salmeron ou mandei a do Salmeron para o General Chefe da Casa de Segurança Institucional. Porque ou eu mandei copiar a fita do Salmeron, que recebeu também...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Essa era uma pergunta. Então, o Salmeron também recebeu...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Recebeu.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Sabe a origem da que chegou, enfim?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Chegou por um motoboy, que colocou na caixa de correio na casa dele.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Mais ou menos no mesmo dia ou muito próximo...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu não fiz essa pergunta ao Dr. Salmeron, mas quero crer que no mesmo fim de semana que eu, sexta-feira, sábado...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – V. Exª fez referência a que muita gente estaria entrando em contato com o Deputado para anunciar outros casos de corrupção nos Correios. Foi abordado ou por pessoas ou por correspondência?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Essas coisas vêm. Eu, por exemplo, recebi... Empreste-me aqui, por gentileza? Hoje, em meu gabinete... Agora, a gente tem que peneirar. Eu recebi o contrato da Sky Master e passei para frente; acabou na imprensa. Eu recebi hoje, de um moço chamado Ricardo, um e-mail, dirigido ao Deputado Roberto Jefferson: a SMP&B Comunicação Ltda., do Sr. Marcos Valério, tem dois registros no CNPJ; a mesma empresa com dois registros, todos os dois com o final 1 (um), que significa “matriz”. Um, de 02/12/1998, ativo até 16/10/2004 – e tenho aqui o número; outro, de 10/07/1996, ativo até 23/04. As certidões foram emitidas em 28/06/2005. Estão aqui, e quero passar às mãos de V. Exªs. Em todos os dois, o número da inscrição é 0001. O endereço muda: um, município Rio Acima; outro, município Belo Horizonte.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Só uma curiosidade. Talvez V. Exª possa até confrontar já, porque parece que ela tem três denominações diferentes com um segmento um pouco diferente: há a SMP&B Comunicação, a SMP&B Publicidade e SMP&B outra coisa.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Aqui temos SMP&B Comunicação Ltda., agência de publicidade e propaganda; e SMP&B Comunicação Ltda., agência de publicidade e propaganda. Ou seja: é a mesma coisa. E vou assinar para deixar com V. Exª, porque recebi... E tenho recebido coisas assim. Há coisas que eu filtro.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – O Presidente já anda me censurando porque sei que muito do que ainda posso perguntar, com certeza, ainda virá à baila; mas, enfim, muito rapidamente, se me permitirem, gostaria de indagar: V. Exª conhece ou ouviu falar de José Gerardo Ponte Pierre?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nunca ouvi falar.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Não tem nada a ver com o PTB? É filiado ao PTB?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nunca ouvi falar.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Sobre o Alemão?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nunca ouvi falar. Quer dizer: estou lendo, vejo a CPI, leio os depoimentos da Polícia Federal, mas nunca antes ouvir falar.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Fernando Godói é indicado do PTB nos Correios?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – É companheiro do PTB há quarto anos aqui no Distrito Federal; é membro da Executiva Nacional do partido.

Antônio Ozório é meu amigo há 23 anos. Coloco a mão no fogo por ele, Sr. Presidente. Fui eu que indiquei. É um homem de bem.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Que não signifique que nós não pudéssemos avançar. Tenho procurado corresponder às expectativas do nosso Plenário, dando oportunidade a que muitas das perguntas que ainda estão por ser realizadas que os parlamentares as possam traduzir, ainda porque nós podemos, a qualquer momento, interferir e, ao final, solucionar as dúvidas que eventualmente temos.

Dirigindo-me à opinião pública, apenas esclareço um aspecto técnico. Provavelmente gostariam que eu tivesse abordado o assunto do mensalão. Como sou Relator de uma CPMI que tem, ainda, por enquanto, fatos determinados e podendo sobrevir a instalação de uma outra CPMI, cuja abrangência pode vir a ser delimitada, tecnicamente me abstive de qualquer questionamento, o que, para encerrar, esclareço que não significa que tenhamos receio de adentrar no tema, mais à frente, se essa competência nos for atribuída.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Muito menos porque haverá limitações...

O SR. ASDRÚBAL BENTES (PMDB-PA) – Sr. Presidente, pela ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MT) – Pois não, Deputado Asdrúbal Bentes.

O SR. ASDRÚBAL BENTES (PMDB-PA) – Indago de V. Exª qual será o tempo destinado aos Parlamentares aqui presentes.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MT) – Deputado Asdrúbal Bentes, concederemos, inapelavelmente, dez minutos.

O SR. ASDRÚBAL BENTES (PMDB-PA) – Mas quero saber, Sr. Presidente: esses dez minutos são para as nossas indagações e respostas do Deputado inquirido ou apenas paras as nossas indagações?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MT) – Não; são dez minutos para as indagações. Todavia, peço aos Srs. Parlamentares que façam as sua indagações num tempo menor do que esse, porque temos 31 Parlamentares inscritos e vamos controlar o tempo rigorosamente.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB-SP) – Sr. Presidente, pela ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. Bloco/PT-MS) – Concedo a palavra ao Deputado Carlos Sampaio.

Por favor, peço silêncio a todos.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB-SP) – Nesta semana, quando da indagação minha e também do Deputado ACM Neto ao Sr. Joel, autor da gravação, perguntamos a ele se haveria a primeira fita, e até solicitei a V. Exª que requisitasse a tal primeira fita de gravação, na qual se poderia estar tratando de um assunto que daria a todos os membros desta CPMI a informação correta sobre o que pretendia o Sr. Arthur com aquela gravação.

Chegou às minhas mãos, na data de ontem, o teor integral, e agora já possível de ser aberto por esta CPMI, da primeira conversa mantida entre o Sr. Maurício Marinho e o Sr. Joel. Nessa fita, fica claro o interesse não só de envolver diretamente o PTB com questionamentos sobre quem era quem dentro do PTB, como interesses comerciais que poderiam estar por trás ou, talvez, interesses aqui declinados pelo Deputado Roberto Jefferson relacionados à Abin.

Reputo muito importante essa fita e acho que todos os membros desta CPMI devem ter ciência do seu teor. Passo-a à mão de V. Exª, pedindo que cada um dos membros tenha uma cópia.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Será reproduzida. 

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Presidente, peço uma cópia.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Pois não, Deputado Roberto Jefferson, será providenciada também.

Passo a palavra ao primeiro orador inscrito, Senador Alvaro Dias, por dez minutos. Pediria aos Parlamentares que pudéssemos reduzir esse tempo, por favor.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Sr. Presidente, desculpe-me Senador, mas tínhamos uma ordem, e não era o Senador...

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Falo por cessão do Senador Demóstenes Torres.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Por cessão do Senador Demóstenes Torres, que precisou viajar para Goiânia, com urgência.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Mas Presidente, eu gostaria que  V. Exª...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Será seguida a listagem, a ordem de inscrição, meu caro Deputado Onyx.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Mas o Senador Demóstenes era o quarto?

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Não, o primeiro.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – O Deputado Murilo fez a cessão para ele?

Obrigado, Presidente. Está encerrada minha questão.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, esse tempo será descontado de V. Exª.

Concedo a palavra ao Senador Alvaro Dias.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Congressistas, pretendo ser rápido. O Deputado Roberto Jefferson é um homem corajoso, sempre foi e tem sido, e, certamente com arte, a verdade alcança ainda mais, atinge uma profundidade superior.

Reanimado com essa expectativa, com essa perspectiva, quero expor o que penso e ouvir sua análise sobre o que esse momento significa como explosão de um escândalo. Vejo a arquitetura de um projeto de poder. Na arquitetura desse projeto de poder, vários componentes de comunicação, administração, relação com a sociedade, entidades, partidos, com o Congresso. Mas vamos apenas nos restringir a esse componente que é deploravelmente o mais sujo nisso que imagino um projeto de poder arquitetado por algumas lideranças políticas que assumiram o poder há dois anos e meio.

Essa parte de captação de recursos para a sustentação material desse projeto de poder é, sem dúvida, a parte suja dessa arquitetura, que começa com esse modelo espúrio de relacionamento do Poder Executivo com parte do Congresso Nacional, invadindo especialmente os partidos da base aliada com a barganha que se estabeleceu.

O partido evidentemente estabelece uma competição em relação aos cargos mais apetitosos, porque movimentam maior soma de recursos públicos. O partido nomeia, e o nomeado é encarregado de mensalmente captar recursos supostamente para manutenção da estrutura partidária. E é evidente que, para alguns, o fim justifica os meios. O fim é um projeto arquitetado; os meios escusos da cooptação de Parlamentares de partidos, através da captação de recursos que tem uma fonte específica aqui, que discutimos Correios, mas, não é única. E evidentemente a barganha, ao final, no chamado “Mensalão”.

Gostaria, farei outras indagações, quero fazer, Sr. Presidente, rapidamente todas elas, porque confio na memória do depoente, Deputado Roberto Jefferson, que tem uma memória indiscutível. E destacando apenas a importância da contribuição que ele pode oferecer nesse momento a essa CPMI e ao país. Talvez a contribuição mais importante pode advir exatamente do Deputado Roberto Jefferson.

Nesse loteamento do Governo, como parte dessa arquitetura de um projeto de poder, há a nomeação para cargos centrais, para diretorias. Hoje, V. Exª quase não citou o nome do Ministro José Dirceu. Mas, quem batia o martelo por último para essa nomeação? Quem dava a última palavra. V. Exª fez referência ao Sr. Sílvio Pereira, mas, tem outros nomes como: Waldomiro Diniz, que era assessor e chefe da Assessoria Parlamentar da Presidência da República; Marcelo Sereno; Sílvio Pereira; Delúbio Soares; etc.

Então, gostaríamos que ficasse claro quais são os responsáveis finais pelas nomeações, pelo atendimento aos Partidos da Base Aliada.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) O ex-Ministro José Dirceu e o Sr. Sílvio Pereira.

V. Exª, Senador, inclusive vai ver na Revista Veja, que foi publicada.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Se preferir, Deputado, farei todas as perguntas, aí V. Exª responderia ao final.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No dia 28 de maio, que o próprio Líder de Governo, meu companheiro de Partido, Fernando Bezerra, coloca claramente que a negociação para nomear o Diretor de Informática nos Correios, o Ezequiel, passava pelo Sr. Sílvio Pereira. Ele coloca isso na entrevista. E era assim que funcionava. Toda estrutura era montada com o Sr. Sílvio Pereira e quem batia o martelo era o Ministro José Dirceu. Foi assim em todos os cargos que o PTB nomeou.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Ok. Gostaria de saber se é real que o PT concordava com a indicação do PTB, por exemplo, no caso dos Correios, mas, calçava, abaixo do ocupante do cargo maior, com integrantes do próprio PT.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim. E o Sr. Sílvio Pereira dizia que era o jeito do PT governar. Dava a cabeça e tomava o corpo. A expressão que sempre usei: dava a cabeça e tomava o corpo.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Nessa questão de nomeações e V. Exª participou diretamente, não só em nome do PTB, no episódio Correios, mas, também Furnas. Gostaríamos que...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Furnas, DNIT, ELETRONORTE, todos já devolvidos, mas, sempre assim. Até a PETROQUISA, o atual presidente foi nomeado pelo Sr. Sílvio Pereira.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Furnas, vamos por partes.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não conseguimos fazer o Presidente, porque o Sílvio não abriu mão do presidente da PETROQUISA, que é dele.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – O que quero saber, e certamente essa Comissão, é mais detalhes sobre esse esquema de repasses de recursos mensalmente da ordem de R$ 3 milhões, com a seguinte divisão: R$500 mil para a diretoria; mais R$1 milhão para o PT; outro R$1 milhão para o PT de Minas Gerais; e mais R$500 mil para a direção...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Para o ex-diretor financeiro.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Exato. Esse era o esquema, então, de Furnas. Furnas era tido, no meio político do “Mensalão”, como uma espécie de coroa da rainha, porque com esse valor mensal certamente despertava muita cobiça. E é exatamente isso que V. Exª percebeu quando tentou substituir o diretor de Furnas.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Vou inverter isso com V. Exª. Não tentei substituir.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Foi oferecido a V. Exª pelo Presidente da República?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – E o Presidente ofereceu pelo seguinte: o Dr. Dimas, ex-diretor, porque foi exonerado hoje, repassou para a Cemig...

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Apenas interrompendo, V. Exª merece os maiores aplausos. O Presidente Lula não consegue fazer reforma ministerial, mas V. Exª já derrubou um Ministro, diretores dos Correios, do IRB e hoje três diretores de Furnas. V. Exª é o maior reformador do atual Governo. Apenas para quebrar o gelo, Sr. Presidente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O Presidente, logo no início do ano, quando conversava comigo e o Ministro Walfrido dos Mares Guia, colocou esse cargo para nomeação pelo PTB. Eu disse ao Presidente: Presidente, eu não tenho nome para isso. Ele falou: vocês me consigam um bom nome porque eu quero tirar esse moço. Ele é incorreto com o Governo. Falei: mas por quê, Presidente? Ele transferiu quase R$1,5 bilhão para a Cemig, em Minas Gerais, para fazer um programa popular de iluminação chamado Luz para Todos. E o Governador de Minas, que tem feito a má ausência do Governo Federal – o Presidente nos disse isso naquela época –, colocou placas em todas aquelas áreas carentes para onde ele levava aquela iluminação: Obra Governo de Minas Gerais; e uma tirazinha embaixo, inelegível: Apoio Governo Federal. Então o Presidente se sentiu traído por isso e nos ofereceu indicar um nome. Procurei o Dr. Roberto Salmeron, que já havia sido diretor financeiro da Eletrobrás e era o Presidente da Eletronorte, e disse: Salmeron, você tem um nome para que a gente possa levar para o Presidente Lula? Ele deu o nome de um técnico da empresa de vasta experiência: Dr. Espirandel. Eu levei o nome ao Presidente junto com o Ministro Walfrido dos Mares Guia. O Presidente olhou o nome; a Ministra Dilma aprovou, disse que era um técnico de altíssimo gabarito; a Casa Civil, a Sandra Cabral aprovou o nome; a área de informação aprovou o nome; só não saiu a nomeação.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – V. Exª citou alguns nomes...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador Alvaro Dias, concluindo V. Exª...

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – É que o meu tempo foi muito curto, Sr. Presidente. É que o depoente usou...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Mas se interpretarmos assim, Senador Alvaro dias, vamos falar aqui durante vinte minutos cada Parlamentar.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Eu queria fazer todas as indagações para ele responder depois. Eu vou sintetizar. Só duas perguntas.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O senhor quer que eu ouça primeiro?

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Só duas perguntas e depois responde, então, o Deputado Roberto Jefferson. A primeira delas: eu vi, numa entrevista sua, alguns nomes como beneficiados pelo esquema Furnas. V. Exª tem mais detalhes sobre isso? Certamente, não seriam apenas dois ou três Parlamentares. V. Exª fez referência a Parlamentares que teriam deixado o PSDB para ingressar em Partidos do Governo...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador Alvaro Dias, por favor, eu pediria, senão vamos...

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Ok. Eu vou concluir. Essa está formulada. A última pergunta: V. Exª fez referência, em entrevista a uma rádio em Minas Gerais, a uma suposta relação da morte do Prefeito Celso Daniel, de Santo André, com o escândalo do “mensalão”. Gostaríamos que V. Exª esclarecesse essa relação. Que relação existiria entre o episódio de Santo André e o “mensalão”.

Depois, Sr. Presidente, vou encaminhar alguns requerimentos exatamente como conseqüência do depoimento de hoje do Deputado Roberto Jefferson. Não farei referência em função do tempo, mas ouço com satisfação.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador Alvaro Dias, se V. Exª quiser, novamente, fazer questionamentos, V. Exª poderia se inscrever como 34º colocado na nossa relação de inscritos.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Vou poupá-lo, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Assumo a entrevista e assino. Facilita para V. Exª. Eu assino o jornal. É a expressão da verdade.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Exatamente porque aqui passa a ter valor.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – A jornalista Renata Lo Prete traduziu ipsis verbis o que falei. Então assino o que está publicado no jornal Folha de S.Paulo.

A outra pergunta diz respeito... Eu fui procurado, quero dizer a V. Exª, pela família. Não é que eu faça conexão com o “mensalão”. Estou dizendo forma de financiamento porque lá são empresas de lixo e de ônibus que são um sistema que acaba levando a esse tipo de corrupção. Então fui procurado pela família, que fez um contato, me pedindo inclusive para advogar o processo na assistência de acusação. Isso é que eu quero dizer a V. Exª. E a informação que já recebo é que há uma conexão com financiamento, financiamento que viria de empresa de ônibus, financiamento que viria de empresas de lixo daquele Município. Não coloco isso vinculado ao mensalão. É que, no meio dessas questões do mensalão, saiu essa pergunta e respondi da forma como respondo a V. Exª.

O SR. ALVARO DIAS (PSDB-PR) – Só faltou V. Exª responder à primeira pergunta sobre a arquitetura de um projeto de poder que seria a razão maior de todo esse modelo de relação política.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O senhor me pede para fazer uma avaliação política, então vou dizer a V. Exª o que eu penso. O Partido do Governo não tem um projeto político claro; tem um projeto de poder, porque não nos constrangeu apoiar o mesmo sistema econômico que foi, durante oito anos, o do Fernando Henrique. A política neoliberal esposada hoje até de forma mais ortodoxa pelo atual Governo foi a que nós apoiamos oito anos no Governo Fernando Henrique. E eu vi até no plenário, porque sou velho Deputado, tenho 23 anos de mandato, cenas de pugilato, de radicalismo total do Partido que ora é o Partido do Governo contra a política que era levada a cabo pelo Malan e pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso. Então, para mim não é um projeto político o projeto que tem o PT no Governo; é um projeto de poder. E entendeu alugar uma burguesia que entendia corrupta para não partilhar, primeiro, o processo decisório. Não chama ninguém para o processo decisório. Não somos chamados a pensar a concepção de uma medida provisória, que tem posto de cócoras o Congresso Nacional – essa quantidade de edição de medida provisória nos desmoraliza. A concepção de um projeto econômico que afeta até o agricultor na ponta de cá –estamos aqui sitiados por tratores da agricultura – vem tudo pronto dos técnicos legislativos que estão lá no Ministério da Fazenda. Eles não são feitos aqui por nós. Então, entendo isso. Não há um projeto político, há um projeto de poder e não quer partilhar poder com ninguém. Há uma concentração. O PT fez 20% das cadeiras no Congresso Nacional e detém 80% do poder na Esplanada dos Ministérios.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Obrigado, Deputado Roberto Jefferson.

Com a palavra o Deputado Murilo Zauith.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL/PRONA-MS) – Obrigado, Sr. Presidente.

Deputado Roberto Jefferson, V. Exª tem passado nesta Comissão, nas outras a que o senhor foi, como na tribuna da Câmara, que V. Exª usou, toda uma experiência de vida como parlamentar – seis mandatos –, como advogado. Eu queria indagá-lo, porque V. Exª está pautando hoje o Brasil. Eu vou usar alguns termos que V. Exª senhor usou na tribuna, usou na Câmara, quando disse: “Provas não tenho, mas conto o que vivi esses anos”. E o que me deixa perplexo e me leva a fazer uma reflexão maior é que V. Exª pauta o Governo.

O Presidente Lula tem dois Ministros que foram indiciados pelo Supremo Tribunal Federal mediante o Procurador-Geral da República, Procurador-Geral de Justiça. E sobre esses dois o Presidente disse à imprensa que não era a imprensa que ia pautar o Governo dele para tirar Ministros. Até que eles fossem condenados, ele não teria nada para condená-los.

V. Exª, que tirou o Ministro José Dirceu, sente essa força que V. Exª teve de tirar o Ministro José Dirceu da Casa Civil? Porque logo que ele tomou posse aqui como Deputado Federal, no seu discurso na tribuna, ele disse que não tem processo nenhum na vida dele e ele foi demitido do cargo de Ministro da Casa Civil.

Hoje V. Exª mencionou, e está estampado nos jornais, que a diretoria de Furnas foi toda afastada. Foi V. Exª que deu o caminho para essa CPI aqui, quando disse: “Vocês vão conhecer um carequinha, de pombo-correio, chamado Marcos Valério, que é publicitário lá em Minas Gerais, repassa dinheiro, o chamado “mensalão” a partidos que compõem a base de sustentação do Governo.” Foi aí que o senhor criou a palavra “mensalão”.

A primeira pergunta seria essa: o senhor está agendando o Governo?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, o Presidente Lula não é um homem que se deixa pautar. É um homem de bem, é um homem honrado, é um homem correto e tem hoje, na Casa Civil, uma mulher vertical.

Acho que o Ministro Gilberto Gil foi infeliz ao dizer que ela era uma mulher de dotes masculinos. Ele não conversou com ela sobre os dotes musicais. Ela conhece profundamente música clássica. A Ministra Dilma Rousseff é uma guerreira que nunca perdeu a sensibilidade. Conhece Puccini, Mozart, Wagner, conhece profundamente música lírica. É que ele não teve oportunidade, julgou pela imagem, não conversou com a Ministra que honra a Casa Civil do Presidente Lula. Não tenho condições de pautar o Governo, nem tenho essa veleidade.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) – Por que o senhor julga que o Ministro José Dirceu foi substituído na Casa Civil e voltou a cumprir seu mandato de Deputado Federal, sem ter nenhum processo...?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu entendi e vou dizer a V. Exª o que disse a ele, que foi motivo de desentendimento entre nós lá no passado: ele deveria ter saído com o Waldomiro. Ele era a crise. Ele ficou e fragilizou a Casa Civil.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) – O senhor disse na tribuna da nossa Casa: “José Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu uma pessoa inocente. Rápido, sai Zé.”

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Deputado, é porque as conversas mantidas com ele lá na Casa Civil eram republicanas e não-republicanas. Não era lugar de se conversar isso o quarto andar do Palácio do Planalto.

Tudo o que eu tratei na Presidência do PT, lá no prédio da Varig, na W3 Norte, foi homologado por ele na Casa Civil, até dinheiro de campanha. O não-financiamento de campanha, essa história de Furnas, tudo isso foi tratado com ele lá. Então, eram conversas republicanas e não-republicanas, incompatíveis com a função que ele ocupava. Agora, o Presidente está protegido, tenho certeza de que ele sai disso com toda a tranqüilidade.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) Outra pergunta: quando o senhor fala da fita... O senhor assistiu a fita num domingo à noite...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, à tarde, na hora do almoço.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) – Com o Dr. Salmeron...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Antônio Osório, na casa do Dr. Salmeron em Brasília.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) – E ele pode confirmar isso aqui hoje.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – E eu digo o dia que foi. No dia 15 de maio, domingo, almoço com Salmeron e Osório. Assistimos à fita.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) – Para entender o seu raciocínio, o senhor confirma que foi a Abin que fez essa gravação. Por que ela se tornou pública, essa gravação, se foi a Abin que fez? O senhor confirma também que a Diretoria de Informática dos Correios detém 60% das atividades bilionárias, que é comandada pelo...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – É o orçamento da empresa. A estrutura de poder toda da empresa é a Diretoria de Informática e de Transportes, aquelas operações.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) – Por que gravou o diretor do PTB e essa fita foi divulgada à imprensa?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Tenho que perguntar isso para a Abin. Pegou o “petequeiro” e deixou de fora o Marcos Valério, o grande esquema. Isso eu não entendi. De um serviço de inteligência desse o Brasil não precisa! É um prejuízo para nós mantermos isso aberto.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) – Mas o Governo publicando isso, a Abin tornando isso público, não traria prejuízo para o próprio Governo, como está trazendo?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não tenho dúvida. O próprio delegado da Polícia Federal que preside esse inquérito está questionando esses métodos da Abin. Estou vendo na mídia uma queda de braço do delegado titular do inquérito na Polícia Federal com a Agência Brasileira de Inteligência.

O SR. MURILO ZAUITH (PFL-MS) – Muito obrigado, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Murilo Zauith.

Concedo a palavra ao Deputado Onyx Lorenzoni.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Sr. Presidente, Sr. Relator, Deputado Roberto Jefferson, eu gostaria que o senhor retornasse à situação do Banco Rural, da agência de Brasília, e o senhor, rapidamente, nos dissesse desse local, já que...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nono andar do prédio do Brasília Shopping tem uma agência, que é um escritório, para fazer pagamentos e saques. Recebi a informação de que ali tem sido operado o pagamento, desde que as coisas ficaram claras e as malas de dinheiro não puderam mais entrar aqui. Então, assessores de deputados têm ido ao prédio pegar 30 mil, 40 mil, 50 mil reais.

O SR.ONYX LORENZONI (PFL-RS) – O que eu quero perguntar para o senhor é o seguinte: desde que houve a revelação pública da existência do “mensalão”, as malas pararam de chegar, até porque Marcos Valério passou a ser monitorado. A manutenção do processo se dá nessa agência?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não sei se no presente, mas até há pouco tempo, no passado, sim. É a informação que tenho.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Sr. Presidente, queria sugerir a V.Exª, na ausência do nobre Relator, que fossem requeridas à administração deste prédio todas as identificações diárias de janeiro de 2003...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Vá mais atrás.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – ...até a presente data. E, também, após a identificação das pessoas e a conexão com Parlamentares, a identificação visual. É feito fotografia?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Há identificação, na portaria, das pessoas e quem leva o dinheiro tem que assinar.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – OK. Então, seriam os relatórios de presença diários.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Será requerido, Deputado Onyx Lorenzoni.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Obrigado, Sr. Presidente.

Deputado Roberto Jefferson, o senhor sabe dizer da existência, da utilização de influência política na montagem de esquemas de corrupção no sistema de publicidade do Governo?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não sei lhe dizer não, Deputado, não posso lhe informar isso.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – A Lei nº 10.683, que o Presidente Lula emitiu em 28 de maio de 2003, dispõe sobre a organização da Presidência da República, dos Ministérios e dá outras providências. Estabelece, no art. 4º, que “à Secom cabe a coordenação, a normatização, a supervisão e o controle da publicidade e de patrocínios dos órgãos e das entidades da Administração Pública Federal, direta e indireta, e de sociedades sob controle da União”.

Depois, no Decreto nº 4.799 (complementar), de 4 de agosto de 2003, que dispõe especificamente sobre a área de comunicação lá, no seu art. 10, § III, diz o seguinte: a Secretaria de Comunicação do Governo e Gestão Estratégica – Secom indicará a maioria dos membros da Comissão Especial de Licitação. Ou seja, haverá dois membros do órgão, e haverá, onde a licitação é feita na área de publicidade, três membros por indicação da Secom.

Na questão dos Correios me chama a atenção – e eu vou perguntar para o Sr. Antonio Osório, para os Presidentes que virão aqui, o senhor raciocine comigo – o seguinte: em 2003, foi feita uma licitação de R$72 milhões, onde a SMPB, é uma das empresas. Há mais a BEG e a Giovanni FCB. Corre todo o ano de 2004. No ano de 2004, o Sr. Marcos Valério, da conta da SMPB, saca R$16 milhões na boca do caixa. No final do ano de 2004 é assinado um termo aditivo, empurrando esse contrato – dentro da lei, é 25%, dezoito milhões – até o final de 2005. Por que os Correios podem operar o seu sistema de publicidade e propaganda com uma dotação orçamentária de R$18milhões, em 2005? Os Correios não diminuíram as suas agências, os Correios não diminuíram os seus funcionários e precisaram de R$72 milhões para 2004? Será por que era ano eleitoral? Qual a sua opinião sobre isso?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não sei avaliar isso, Deputado Onyx, não sei. Não posso lhe dizer, não sei, não tenho noção.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – O senhor acompanhou a ação do Ministro Gushiken em algumas das discussões que o senhor fez com a alta cúpula do PT?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nunca. Nunca esteve presente conosco nessas tratativas políticas o Ministro Gushiken.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – No tema dos fundos de pensão, o senhor sabe de alguma influência ou controle de algum membro do Governo Federal?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Infelizmente, não, Deputado. Não posso lhe ajudar nisso.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Nas questões que envolvem Furnas, o senhor poderia relatar sinteticamente este caso de que o senhor recebeu a informação do Dr. Dimas para que isso conste dos autos desta CPMI?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Pois não. Para tratar do assunto com o Presidente Lula, nós levamos o currículo à Ministra Dilma, à Srª Sandra Cabral, que faz a seleção dos currículos na Casa Civil, e ao Ministro José Dirceu – três cópias. O currículo começou a transitar. Todo mundo dizia que era um técnico espetacular, um grande nome para substituir o Dr. Dimas. Mas a coisa não evoluía. Uma pressão grande de vários Deputados sobre mim, sobre o Ministro Walfrido, “não tira o Dimas, não tira o Dimas”. E eu percebi que o próprio Ministro José Dirceu não queria tirar. Toda hora, ele dizia: “Tem muita pressão. Tem pressão do Aécio; tem pressão do Papa, de gente lá de Roma. Quando houve o enterro do Papa, gente que está em Roma pressionou”. Entendi claramente que era o ex-Presidente Itamar Franco para não tirar.

E eu disse ao Ministro José Dirceu, numa dessas conversas que não são republicanas, que eu não sou problema, que eu não estava colocando a faca no peito de ninguém, que isso era um oferecimento ao Partido feito pelo Presidente Lula. Ele disse: “Eu vou acionar o Delúbio, e o Dimas vai procurar você.” E me procurou. No dia 13, na madrugada do dia 14, à uma hora da manhã, ele chegou a minha casa e conversou comigo como funcionava o esquema de Furnas. Explicou-me o seguinte: que Furnas deixa, sem problema, R$3 milhões por mês, a Diretoria dele. E que ele fazia os seguintes repasses: R$1 milhão para o Sr. Delúbio, PT Nacional; R$1 milhão para o Dr. Rodrigo, PT de Minas Gerais; R$ 500 mil para o Dr. Cury, para uma diretoria de um grupo de Deputados, que havia constituído esse diretor no princípio do Governo com o Ministro José Dirceu; e R$500 mil ficavam na diretoria. Voltei ao Ministro José Dirceu, relatei essa conversa, e ele falou: “Então, nós nos acertamos por cima, sem problema”. Eu falei: “Eu não sou problema para você. Preciso do financiamento para o PTB, o que a gente acertar está acertado”.

Voltamos ao Presidente da República na terça-feira, 26 de abril, às 10 horas da manhã, eu e o Ministro Walfrido dos Mares Guia. Participou da reunião o Ministro José Dirceu. O Presidente falou assim: “O Jefferson, vocês estão fazendo acordo para manter aquele cara, o Dimas? Aquele senhor (não vou falar essa expressão ‘cara’), aquele senhor, o Dimas?” Falei: “Estamos sim, Presidente”. Ele falou: “Eu não quero não. Eu quero tirar. Vocês não vão fazer isso. Aquele senhor está traindo o Governo, está fazendo o jogo do Governador de Minas Gerais, e eu não quero a permanência dele.” Aí a minha ficha caiu. Falei: o Presidente está vendido nisso. Falei: “Então, está bem. Insisto com o Spirandel.” Falou: “Então, vou mandar nomear o Spirandel. José Dirceu, nomeia o Spirandel. Peça a Dilma para fazer o Spirandel. Já passou em tudo, nos órgãos de informação, como é nome? Perfeito, tem apoio. Tem apoio de segmentos do PT; tem apoio de segmentos importantes do PT. Então, eu quero o nome, quero atender essa posição para o PTB”.

Saindo de lá, o Walfrido, antes de entrar no carro, na garagem, falou: “gostei, cartada de mestre. Esse cara se relaciona com todo mundo, é de todo mundo. Você jogou bem, moralizou o esquema. Gostei, Roberto.” E fomos embora.

A assembléia da empresa, Deputado Onyx, foi convocada para o dia 16 de maio, segunda-feira. A assembléia de Furnas foi convocada. O Presidente do Conselho de Furnas é o Presidente da Eletrobrás. Na época, o Dr. Silas Rondeau. Fomos jantar em minha casa, na segunda-feira à noite, eu, o Dr. (Roberto) Salmeron e Antonio Osório, no arder da crise da primeira publicação da revista Veja. Deram 9 horas da noite, toca o telefone celular do Dr. Salmeron. Era o Dr. Rondeau, lá do Rio, de Furnas, para onde havia viajado de manhã cedo, levando com ele o Dr. Espirandel, para informar que a Ministra Dilma Rousseff ligara para ele naquela hora mandando suspender a assembléia. Isso foi no dia 16, segunda-feira, às 21 horas.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Onyx Lorenzoni, seu tempo já está esgotado. Pediria, até em consideração aos demais Parlamentares que estão inscritos, por favor...

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – A questão Ezequiel, na ECT, obedeceu ao mesmo grau de problema, na sua avaliação? E concluo com a seguinte pergunta: o Ministro José Dirceu, o Delúbio e o Silvio são a conexão e o cérebro desses tentáculos que se estabeleceram por Furnas, pelos Correios e outros órgãos que tendem a surgir?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu afirmo isso sem nenhuma dúvida. A cabeça do sistema de corrupção é essa.

O SR ONYX LORENZONI (PFL-RS) – O nome V. Exª está dando: corrupção. Mas o sistema funcionava assim, e era para financiamento partidário e compra de Deputado?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sem dúvida. Há cooptação inclusive de Deputados. Há vários Deputados que chegaram, inclusive, ao meu Partido com nomeações feitas pelo José Dirceu, para poder compor a base de meu Partido.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Só um adendozinho. Essa operação... Porque eu chego aqui, eu sou Deputado de primeiro mandato, eu conheço uma pessoa chamada Waldomiro Diniz...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Onyx Lorenzoni, gostaria que V. Exª concluísse, por favor.

O SR ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Mas eu acho que é relevante, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Mas nós precisamos atender os demais Parlamentares também.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Concluirei, Presidente, disciplinadamente, da mesma forma com que tenho atendido a todo os seus pedidos.

O Sr. Waldomiro Diniz agia na sombra, aqui do Parlamento, em 2003. Eu assisti conversas de Parlamentares que se transferiram de partidos políticos. Nesse esquema, ele era o braço operativo do José Dirceu, aqui dentro da Câmara dos Deputados, e auxiliou na montagem, no seu entendimento?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não posso lhe dizer isso. O que eu tratei? A Diretoria do Dnit, a Diretoria Financeira do Dnit foi tratada com o Silvio Pereira. Nós fizemos o Diretor, o Carlos Cotta, e toda a estrutura em baixo, até o gerente, é do PT, indicada pelo Sílvio Pereira.

Quando nós fizemos a diretoria da Eletronorte, toda a estrutura, diretoria, presidência, em baixo, tratada com o Silvio Pereira, era do PT.

Quando nós fizemos, lá no Rio de Janeiro, o Delegado Regional do Trabalho, a Chefia de Fiscalização e a Chefia de Vigilância de Medicina do Trabalho, Acidente e Medicina do Trabalho, indicadas pelo Silvio Pereira, do PT.

Quando nós indicamos a estrutura lá na Eletronorte, foi o Dr. José Carlos Martinez, ainda vivo, e era o Rondeau o Diretor Administrativo da Eletronorte, toda a estrutura em baixo nomeada pelo Sílvio Pereira.

Quando nomeamos o Presidente do IRB, toda a estrutura foi costurada e montada pelo Sílvio Pereira.

Quando o Senador Fernando Bezerra, do PTB, tentou indicar o Dr. Ezequiel, e não conseguiu, quero deixar claro isso aqui, não foi nomeado para a Diretoria de Informática.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Tecnologia.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – A tratativa foi feita com o Sílvio Pereira.

Quando nós tentamos fazer a presidência da Petroquisa, a tratativa teria que ser feita com o Sílvio Pereira, que não concordou, porque o indicado era dele e continua lá.

Ele participava da indicação de todos os cargos do PTB.  Quem batia o martelo era o José Dirceu, mas a costura para preenchimento das funções era feita com o Silvio Pereira, Secretário-Geral do PT.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Obrigado, Deputado Roberto Jefferson.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Onyx Lorenzoni.

Concedo a palavra ao Deputado Antonio Carlos Magalhães Neto.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Sr. Presidente, Sr. Deputado Roberto Jefferson, Sr. Relator, Srªs e Srs. Parlamentares, antes de qualquer coisa, quero dizer que foi de fato a coragem do Deputado Roberto Jefferson de dar uma entrevista à Folha de S.Paulo que garantiu a constituição desta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Digo isso porque, como membro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, fiz um esforço hercúleo para evitar uma manobra da Base do Governo, que tentava, infelizmente, enterrar a CPI. Só que, diante das declarações do Deputado Roberto Jefferson, a Base do Governo não teve força para evitar que esta CPI acontecesse. Dito isso, quero afirmar, Sr. Presidente, que as peças todas estão se encaixando. Vou começar pelos Correios. Parece-me que a motivação do Sr. Arthur Wascheck, de promover o ato de arapongagem, estava toda ela relacionada com a disputa pela indicação da diretoria de tecnologia dos Correios. O Sr. Arthur Wascheck não quis comprometer apenas o chefe de departamento, o Dr.  Maurício Marinho. Ele queria muito mais e ele estava a serviço de pessoas muito mais importantes. Talvez não tenhamos ainda elementos para fazer uma ilação, mas quero aqui levantar uma suspeita. Talvez, Deputado Roberto Jefferson, V. Exª possa depois emitir alguma opinião sobre essa suspeita que quero levantar. Imagino que o Dr. Eduardo Medeiros, então diretor de tecnologia, percebendo que poderia ter o seu cargo ameaçado, percebendo que, por um acordo político, seria exonerado da diretoria de tecnologia, foi um dos grandes responsáveis por toda essa gravação que aconteceu. O Sr. Eduardo Medeiros envolveu outras pessoas. Quero chamar a atenção aqui para alguns nomes. O nome do Sr. Petri e o nome do Sr. Adauto, porque hoje eu soube que o Sr. Adauto, que era o então diretor administrativo dos Correios até o Sr. Osório assumir. O Sr. Adauto foi o chefe da Comissão Especial de Licitação dos Correios Híbridos. Então, as coincidências são muito grandes, mas quero voltar à ilação que estou levantando. O Sr. Eduardo Medeiros, amigo do Sílvio Pereira, indicado por ele – o Sílvio Pereira, para aqueles que não sabem, é o secretário do Partido dos Trabalhadores –, percebendo que perderia o seu cargo, que seria exonerado, armou, com o apoio extra-oficial da Abin, aquela arapongagem e só levou para a publicação o que lhe interessava, porque detonava o PTB e, automaticamente, impedia que a mudança da diretoria fosse feita. Protegia, assim, o seu espaço, protegia o espaço do indicado, do Sr. Sílvio Pereira, que é o secretário do Partido dos Trabalhadores. Quero que o Deputado Roberto Jefferson faça algum comentário, se essa ilação, que não passa por enquanto de ilação, pode ou não ter fundamento. Deputado, queria apenas concluir todas as perguntas, porque senão o meu tempo, infelizmente, vai ser esgotado. A segunda colocação que faço é de que o Deputado Roberto Jefferson trouxe ao conhecimento da Nação brasileira a presença de uma figura que muito mais que um publicitário, um dono de agência de publicidade, era um operador de um dos maiores esquemas de corrupção que já foi montado neste país. Refiro-me ao Sr. Marcos Valério. Poucos de nós... Eu, por exemplo, não conhecia o Sr. Marcos Valério, nunca sequer tinha ouvido falar do Sr. Marcos Valério. Diante das revelações, apareceu o Marcos Valério, que me parece ser um dos braços desse amplo esquema de corrupção que foi montado no Governo Federal. Então, uma indagação eu faria ao Deputado Roberto Jefferson. Existe ou existem outros braços? Se existe ou existem, quais seriam os seus principais cabeças? Quais seriam os principais operadores? Será que essa relação que estamos vendo clara, que foi estabelecida entre Delúbio, Sílvio, José Dirceu e alguns outros, será que essa relação pode ter acontecido em outros órgãos, em outras estatais, envolvendo autoridades políticas ou membros do Partido que governa este País? Então, eu faço essa pergunta. Mesmo, Deputado, que tenha sido por uma suposição de V. Exª ou por ouvir falar ou por comentários, eu queria que V. Exª, se possível, pudesse nos comunicar se tem ou não conhecimento desses fatos. E ainda com relação ao Sr. Marcos Valério – veja como são as coisas –, ele não é um simples publicitário. Ele reconheceu, no depoimento prestado à Polícia Federal – pelas informações que eu tive –, que tratava com o Sr. Delúbio, que tratava com o Sr. Silvio, de assuntos administrativos do PT. Ora, o que é que um publicitário tem de tratar sobre assuntos administrativos do Partido dos Trabalhadores? Eu não consigo entender. Com toda a honestidade, eu não consigo. Ele sequer é o publicitário do PT. Ele sequer tem a agência do Partido dos Trabalhadores. Mas tinha o hábito de ligar, de duas a três vezes por semana, para o Sr. Delúbio, segundo declarações do próprio Sr. Marcos Valério – não são minhas; tinha o hábito de se encontrar com ambos para tratar de assuntos administrativos do PT. Então, está configurado que o Sr. Marcos Valério era um verdadeiro operador, que já cai em contradição, porque ele disse que a destinação dos 20 milhões seria para comprar bois. Só que agora já refez a sua informação anterior e, neste momento, ele afirma que o dinheiro era para pagar fornecedores. Eu nunca vi você tirar dinheiro do caixa para pagar fornecedor. Emite-se fatura e contrafatura. Então, o dinheiro era para pagar fornecedores; o dinheiro era para dividir o pro labore e os dividendos entre os sócios e para comprar ativos financeiros. Mas, muito bem. Isso vai ser objeto do interrogatório do Sr. Marcos Valério.

Mas veja, Deputado Roberto Jefferson, que a máscara caiu. O operador do PT se auto-revelou. Agora, ele está se auto-incriminando, porque não tem jeito. Os fatos falam muito mais alto do que as versões que se pretende dar a determinados assuntos.

Mas eu queria ainda, Sr. Presidente, no tempo que me falta, perguntar ao Deputado Roberto Jefferson um assunto importante. O Deputado Roberto Jefferson disse que esteve duas vezes com o Presidente Lula. Isso procede, Deputado?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Mais.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Não, digo: pelo menos no ano de 2005. Tenho duas informações e eu queria que o senhor as confirmasse ou não. O senhor esteve com o Presidente Lula, no dia 05 de janeiro de 2005, uma quarta-feira?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No Palácio.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – E o senhor esteve com o Presidente Lula, no dia 23 de março?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu estive com ele no dia 27 de janeiro também. No dia 23 ou 27 de janeiro. Eu posso olhar a minha agenda. Eu estive com ele duas vezes em janeiro.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Eu perguntaria a V. Exª...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Em março, umas duas ou três vezes; e em abril também.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Eu perguntaria a V. Exª: V. Exª informou o Presidente do esquema do mensalão?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No meu segundo encontro com ele, no dia 23 de janeiro.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – No dia 23 de janeiro?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Isso.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Aí, eu pergunto...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Ou 27 de janeiro. Eu não quero errar nisso, porque depois ficam assim “Ah, ele disse que foi dia 23; e foi dia 27”. Eu lhe dou pelo meu gabinete, Excelência, por favor, toda a minha agenda, corretinha. Eu não trouxe a agenda das ligações, porque eu sabia que ia ser requerida. Entreguei ao Relator; mas se V. Exª me pedir, trago a minha agenda certinha.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Eu não exigiria tanto da memória de V. Exª, até porque talvez eu também não me lembrasse do que fiz no dia 23 de janeiro.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. Bloco/PT-MS) – Deputado Antônio Carlos Magalhães Neto,...

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Sr. Presidente, eu quero...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. Bloco/PT-MS) –…V. Exª dispõe de 52 segundos para concluir.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Sr. Presidente, V. Exª foi benevolente com todos. Espero que seja comigo também. Estou concluindo.

Então, o Deputado Roberto Jefferson, em janeiro, informou ao Presidente Lula do mensalão. Voltou a estar com o Presidente Lula, não voltou, Deputado Roberto Jefferson? Em março, quando V. Exª esteve com o Presidente Lula e que estava presente o Deputado e Ministro Aldo Rebelo, V. Exª voltou a tratar do assunto com o Presidente, não voltou?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Voltei.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Então, está configurado que o Presidente foi informado em janeiro do esquema do mensalão; não tomou providências. O Deputado Roberto Jefferson foi obrigado a, mais uma vez...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, não, não...

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – ...falar com o Presidente sobre o problema e aí é que o Presidente mandou parar.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – O que eu indago a V. Exª – nem eu quero aqui construir uma realidade que não tenha existido: V. Exª esteve duas vezes, pelo menos, com o Presidente tratando desse assunto?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Pelo menos duas vezes...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Tratou do assunto do mensalão. Houve uma primeira informação, suponho eu que V. Exª não viu nada avançar, e aí houve uma segunda informação ao Presidente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Deixa eu lhe falar. V. Exª me faz várias perguntas...

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Se V. Exª me permitir, vou concluir, Sr. Presidente, para ouvir todas as respostas do Deputado Roberto Jefferson.

A última pergunta que faço – e quero também deixar V. Exª muito a cavaleiro, não quero constranger V. Exª de forma alguma.

Houve alguns acordos eleitorais nas eleições de 2004, nas campanhas municipais, onde o PT e todos os partidos disputavam as eleições com candidatos a prefeito pelo País? Se V. Exª se achar no dever ou se tiver condições – quero deixar V. Exª absolutamente confortável –, mas se V. Exª puder nos dar detalhes sobre os acordos feitos para as eleições de Belo Horizonte e Salvador, em que dois candidatos do PT disputaram as Prefeituras Municipais, eu agradeço e também encerro, Sr. Presidente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Começo fazendo um preâmbulo por essa última pergunta de V. Exª. Não passou nenhuma tratativa de dinheiro nessas campanhas. Salvador era uma troca de cargo, um companheiro do PTB seria nomeado, preencheria uma vaga que existia numa outra diretoria do IRB, no Rio de Janeiro. Esse foi o acordo feito e não passou por dinheiro. Foi feito primeiro no prédio da Varig, na W-3 Norte, na sede do PT nacional, depois homologamos isso com o Ministro José Dirceu.

Um companheiro nosso da Bahia não sairia candidato, eu conseguiria retirar a candidatura dele, nós negociaríamos isso, para apoiar o candidato do PT e, em contrapartida, ele ocuparia um cargo na administração do IRB, no Rio de Janeiro.

Quanto ao Presidente Lula – acho que é a pergunta mais importante: quando o Presidente Lula me perguntou, em janeiro, o que era o mensalão falou: “Roberto, esclarece para mim o que é isso”. Quando eu esclareci ele tomou um baque.

Quando voltei a estar com ele em março – e aí estava o Ministro Aldo Rebelo, o Líder Chinaglia, o meu companheiro de Partido, o Deputado José Múcio – o Presidente falou: “Roberto, o que você está achando? Por que está esse envenenamento nas relações?” Eu falei: O mensalão matou.

As relações ficaram as piores do mundo, elas ficaram fisiológicas a ponto de troca-troca de dinheiro. Acabou. O mensalão está minando gravemente a nossa relação política com os partidos da base. É isso que vejo na má vontade da Câmara dos Deputados.

Mas eu já percebia, Deputado, que o Presidente ao saber, em janeiro, puxou o freio. Alguém do partido...porque temos que separar partido e governo. Ele, apesar de ser do PT, não é o Presidente do PT. Eu percebi que a coisa minou, porque as pressões cessaram sobre os meus Deputados.

O SR. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES NETO (PFL-BA) – Mas V. Exª entende – só para completar a pergunta – que foi necessário, mais uma vez, falar com o Presidente para que derradeiramente...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, aí a conversa foi política, porque ele me perguntou por que estavam minadas as relações, a que eu atribuía a derrota do Greenhalgh, e sobre a iminente vitória que poderia vir do Tribunal de Contas de outro candidato que não era do PT. Era uma conversa política de espectro mais amplo, já não era uma coisa fundada no mensalão.

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente... (Inaudível) ...que eu gostaria que o Deputado respondesse pois tem tudo a ver com a CPI dos Correios. A primeira é com relação à disputa da Diretoria de Tecnologia e um possível envolvimento do Sr. Eduardo Medeiros nesse processo todo de “arapongagem” com a Abin, e a outra é do Sr. Marcos Valério.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não quero dizer que ele é responsável, mas quero chamar a atenção de V. Exª para a revista Veja. Quando ela saiu com esta informação do Marinho, esta reportagem que a Abin fez: “Roberto Jefferson indicou Antonio Osório”, está perfeito, irrefutável, fui eu mesmo e ele honra o PTB. “Michel Temer indicou João Henrique Almeida de Souza”. Perfeito! “Senador Hélio Costa indicou Carlos Eduardo Costa como diretor comercial”; “Ney Suassuna indicou Robson Viana da Silva, diretor de recursos humanos”; “José Borba indicou Ricardo Kadá, diretor econômico e financeiro”; PT... Bota PT, mas aqui é Sílvio Pereira. “PT indicou Maurício Coelho Madureira, diretor de operações”. Aí vem aqui, Fernando Bezerra indica Ezequiel Ferreira. Aqui a mentira da revista, aqui é que vi que houve uma acordo da revista com o governo. Porque a revista, para dizer a verdade, teria que ter dito: Sílvio Pereira, diretor Dr. Eduardo. Colocou aqui um cara que nunca foi diretor, que é o Ezequiel. A revista participou disso. E há depoimentos na Polícia Federal que mostram que o repórter que fez essa... Li vários depoimentos da Polícia Federal, não sei se do Jairo, do Joel, de ele junto, no carro, na hora da entrega da fita, de apanhar a fita. Está aí nos depoimentos da Polícia Federal, que V. Exªs podem requisitar. Suspeito claramente disso. Não sei se esse é o motivo, mas que a negociação passou pelo Sílvio Pereira, passou, não sei se foi aprovada.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral – PT-MS) – Obrigado, Deputado Roberto Jeferson.

Com a palavra o Senador Jefferson Péres.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) -  Boa noite, Deputado.

O SR. ROBERTO JEFERSON (PTB-RJ) – Boa noite, Senador.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Vou ser muito breve, Deputado Roberto Jerferson, por dois motivos: Em primeiro lugar, evito questionamentos que geram muito calor e pouca luz. Segundo, não sou seu juiz, a avaliação ética da sua conduta está sendo feita no órgão competente, que é o Conselho da Câmara. E, em última instância, o seu julgamento será feito pelo tribunal da História. V. Exª quando...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral – PT-MS) – Pediria, por favor, silêncio, o Senador Jefferson Péres está com a palavra.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – V. Exª, quando fez as suas denúncias, dizendo que naquele momento tinha prova, sabia que ia para o julgamento da História. Ou as provas não apareceriam, e V. Exª ficaria como um grande mitômano, ou apareceria, e V. Exª passaria a ser um benfeitor do País, por ter trazido à tona todo esse lodo que realmente corre no fundo da política nacional, infelizmente.

Mas, Deputado Roberto Jefferson, eu nem ia lhe fazer essa pergunta, mas a farei a partir de uma resposta que V. Exª deu ao Deputado Onyx, e é en passant mesmo.

V. Exª respondeu ao Deputado Onyx que não tinha nada a dizer com relação a fundos de pensão. Mas creio – salvo engano meu, traição de memória – que, no programa Roda Viva, V. Exª fez uma referência e pediu que se investigassem os fundos de pensão. V. Exª se lembra dessa passagem da sua entrevista no Roda Viva?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Recordo-me, sim, Exª.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Mas V. Exª não tem realmente conhecimento de fatos? É apenas uma intuição?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não sei quem opera. É uma intuição, mas não tenho nenhuma informação de operador.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Muito bem.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Ele me perguntou o operador. Lá no Roda Viva – eu já revi a fita três vezes –, a pergunta foi a seguinte: se eu poderia dizer quais eram as áreas mais cobiçadas para a nomeação de cargos. Aí eu disse “inclusive fundos de pensão”.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Deputado Roberto Jefferson, V. Exª, na verdade, é o criador desta CPI. Esta CPI não se justificaria apenas por aquela fita de um funcionário de terceiro escalão dos Correios recebendo propina. Foi V. Exª quem revelou um suposto esquema gigantesco de corrupção, que passaria pelas empresas estatais, que se irradiaria para o Congresso, com a compra de parlamentares, e que seria comandado do coração do poder pelo Sr. Delúbio Soares, que freqüentava o Palácio, com o pleno conhecimento do então Ministro José Dirceu. V. Exª tem certeza de que o então Ministro José Dirceu tinha conhecimento desse esquema todo ou é apenas um palpite de V. Exª?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não. Tudo o que tratei, tratei com José Dirceu: tudo o que conversei, até de negócios, de política, de campanha eleitoral, R$20 milhões, Senador. Tive uma reunião no PT, eu, José Múcio, Emerson Palmieri, Delúbio, José Genoino e Marcelo Sereno. Fechamos uma planilha de custos para financiamento das campanhas do PTB nacional – a eleição de vereador e prefeito, como é nacional, é mais cara que eleição de Deputado Federal –, de todo o Brasil. Vinte milhões de reais, volto a lhe dizer isso, que seriam pagos em quatro vezes de R$4 milhões. A primeira parcela chegou no princípio de julho, final de junho, princípio de julho. Foi aí que não mencionei do Banco Rural. E chamo a atenção de V. Exª para o seguinte: eu não contei, mandei botar no cofre e no armário – porque o dinheiro não cabia só no cofre, que é pequeno. Mas 70% das moedas não eram só do Banco Real, eram do Banco do Brasil. O esquema se amplia. Há saques no Banco do Brasil. Vejo que o Coaf mandou a lista de saques no Banco Rural, mas eles correspondem, vamos dizer, de R$4 milhões a R$1,5 milhão, R$1,2 milhão, se tanto; o resto é Banco do Brasil. Eu vi pela fita que envolvia o dinheiro, aquelas notas de cinqüenta e cem mil reais. Tudo isso era tratado com o José Dirceu. Essa operação inteira de Furnas foi tratada com José Dirceu; até os números, quero dizer isso a V. Exª.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Quem levou o dinheiro ao PTB foi o Sr. Marcos Valério?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Marcos Valério.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – O próprio Marcos Valério?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Marcos Valério. Estive com ele duas vezes com certeza e uma vez no princípio deste ano, quando começou a crise grave do PTB, em setembro, pela falta do recurso assumido. Ele foi mandado pelo Delúbio ao PTB. Eu o recebi à tarde. Posso olhar a data para lhe dar com certeza. Vocês vão ver aqui - ele fala escrevendo num papel – que ele pega uma folha de papel em branco e começa a escrever.

Ele queria que eu propusesse no IRB a transferência dos depósitos do IRB de 600 milhões num banco na Europa, não sei qual, acho que na Suíça, para o Banco do Espírito Santo, em Portugal. E vinha fazendo números no papel. Estava ao meu lado o Emerson. Eu falei: “Ó Emerson, esse cara é maluco. Ele fala de dinheiro como se fosse um negócio assim banal, uma coisa assim... Ele fala como se a coisa caísse do céu”.

Aí, depois, liguei para o Genoíno e falei: “Zé, o cara é doido. Não é possível que isso...” Porque levar a mala é uma coisa, mas ir falar em negócio, propor um negócio pela direção do PT, pelo Delúbio e pelo Genoíno... Então, falei: “Ó Zé, esse cara é doido”. E ele falou: “Não, não, não, pode confiar”.

Então, eu entendo que ele era o PC Farias do sistema – ele operador. Ele não fazia só as contas de publicidade.

Foi V. Exª que me fez essa pergunta?

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Fui eu.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Ele não fazia só, a meu ver, operação na publicidade, não. Ele avançava em outras áreas.

Penso que respondi a V. Exª.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Sim, mas V. Exª também disse - creio que numa das suas entrevistas - que contou, não sei em que data, ao então Ministro... Falou ao então Ministro José Dirceu sobre o “mensalão”...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Várias vezes.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Várias vezes?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Várias vezes. Várias vezes. Várias vezes. Falei com o Zé Dirceu seis ou oito vezes sobre o “mensalão”.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Sr. Presidente,...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu sentava com ele e dizia assim: “Zé, está levando à desgraça a nossa relação na Câmara. A crise está no ‘mensalão’. A pressão que eu recebo diariamente no meu Partido é por causa do ‘mensalão’, que os que recebem ficam dizendo aos meus que recebem, e alguns dos meus querem o ‘mensalão’. E o meu problema é mantê-los no PTB”.

Falei isso com ele várias vezes. Não foi só com ele, não. Disse isso a outros Ministros, mas com ele, várias vezes.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Sr. Deputado, eu estou satisfeito com suas respostas. Agora eu quero me dirigir ao Presidente da Comissão e ao Relator.

Sr. Presidente, esta Comissão foi criada para investigar um fato determinado, suposta corrupção dos Correios. Mas, a partir da entrevista do Deputado Roberto Jefferson, uma entrevista sem provas, como ele mesmo disse, os fatos foram aparecendo e se concatenando.

O Sr. Marcos Valério tem um contrato com os Correios, milionário. Não importa se houve fraude ou não - isso é um fato a investigar. Prova que ele tinha... Recebia dinheiro do Correio com um contrato muito alto. Ele se confessa amigo, amigo mesmo do Sr. Delúbio Soares. Confessa que foi quatro ou cinco vezes à Casa Civil e conversou com uma Srª Sandra sobre banalidades, o que é inverossímil. Está provado que o Sr. Marcos Valério retirava dinheiro vivo, comprovando o que lhe havia dito o Deputado Roberto Jefferson. Mesmo que sejam R$21 milhões, nenhum empresário sério deste País movimenta tal quantia em dinheiro vivo. Nenhum! Isso é uma evidência do que disse o Deputado Roberto Jefferson.

Então, não vou falar nem no depoimento da secretária, que deixa muito a desejar, mas o Sr. Delúbio Soares tinha um contrato com o Correio, retirava dinheiro vivo, milhões, tinha... Era amigo do Sr. Delúbio Soares, apontado pelo Deputado como o grande operador do esquema, e teve contatos com o Deputado, com o então Ministro José Dirceu.

Sr. Presidente, esses fatos todos são de suma gravidade. É preciso que uma pessoa seja insensível, irresponsável para não concluir que, se verdadeiros, são de extrema gravidade.

V. Exª, Deputado Roberto Jefferson, aceitaria uma acareação?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – A hora que o senhor..

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Com Delúbio e Dirceu?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – A hora que V. Exª marcar.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT-AM) – Sr. Presidente, meu caro amigo Senador Delcídio Amaral, esta Comissão vai ouvir depoimentos de pessoas que já depuseram na Polícia Federal e no Ministério Público. Entretanto, o que é importante e relevante para a sociedade brasileira toda é saber se é verdade - e até que ponto - que o Ministro José Dirceu, no coração do poder, comandava ou supervisionava esse esquema. Se não fizermos isso o quanto antes, Sr. Presidente e Sr. Relator, esta comissão vai caminhar celeremente para a irrelevância.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Obrigado, Senador Jefferson Péres. Se entender como oportuno, V. Exª poderia encaminhar esse pedido numa reunião interna, numa reunião administrativa da comissão, e analisaríamos essa solicitação.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT - AM) – Farei isso, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Meu caro Senador César Borges, V. Exª tem a palavra por dez minutos.

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente, pela ordem.

Estou vendo que o depoente está sendo assistido.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, não. Estou prestando atenção. Sem problema.

O SR. (Orador não identificado) – Está sendo assistido. Talvez fosse melhor...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sem problema. É só que inchou um pouquinho.

O SR. (Orador não identificado) – Isso. Poderíamos aguardar o tratamento, Sr. Presidente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, não, vamos tocar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PTB-MS) – O Deputado Roberto Jefferson já tinha me dito que seria, ao longo desta reunião...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – É que eu ainda não tirei os pontos. Só isso.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PTB-MS) – É que ele não tirou os pontos do ferimento; então, dá um pouquinho de secreção.

Meu caro Senador César Borges, V. Exª tem a palavra.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Sr. Presidente, V. Exª poderia restabelecer meu tempo, porque ele já é pouco e...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PTB-MS) – Eu pediria aos técnicos do Senado Federal que tomassem essa providência, inclusive com uma diferença de vinte segundos.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Muito obrigado, Sr. Presidente. Agradeço o ágio concedido ao meu tempo.

Sr. Presidente, Sr. Relator, Srªs e Srs. Senadores, Srªs e Srs. Deputados, Deputado Roberto Jefferson, acho que V. Exª entende muito bem a sua presença hoje no cenário político brasileiro – é inegável -, a partir das suas declarações.

Tenho uma convicção, Deputado Roberto Jefferson, de que tentaram atingir o seu Partido, PTB, e a sua figura. Para mim, por meio de depoimentos aqui, ficou bastante claro que houve uma armação e que lhe fizeram de alvo. Acontece que o tiro, na verdade, foi dado no alvo que estava fixado num paiol de pólvora, que foi a conseqüência desse tiro feito contra o seu Partido e a sua figura. V. Exª tem, repetidas vezes, declarado que sentiu que havia essa armação. A partir daí, tomou uma posição, que sua consciência lhe ditou, de escancarar para a Nação tudo o que V. Exª sabia.

Acho que é isto que queremos aqui, efetivamente, no dia de hoje: a sua total e completa sinceridade para expor aquilo que V. Exª sabe. No depoimento, por exemplo, na Câmara dos Deputados, V. Exª não falou em Furnas, mas hoje lemos, na Folha de S.Paulo, que V. Exª trouxe elementos novos a toda essa situação triste para o País - eu diria esse mar de lama – com a questão de Furnas, que já teve, aliás, conseqüências.

Então, o que eu perguntaria, bem objetivamente: na entrevista da Folha de S.Paulo, V. Exª afirma que o dinheiro para pagar o “mensalão” vem de operações de empresas do Governo com empresas privadas; o senhor acredita, tem certeza de que a Empresa de Correios e Telégrafos é uma dessas empresas?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não posso lhe afirmar isso, mas o Marcos Valério opera com os Correios.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Então, é uma ilação ou uma suspeição que V. Exª faz?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim, porque a pergunta é se o dinheiro sairia de empresa pública. Não, não sai da empresa pública; sai da empresa privada na relação com a empresa pública, mas não sai da empresa pública. Essa é a minha resposta, Senador.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Sim, mas existiria, por exemplo, um superfaturamento para as empresas do Sr. Marcos Valério, que seria feito a partir dos contratos com as empresas públicas estatais?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não posso dizer isso a V. Exª. Não sei dizer isso a V. Exª.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Muito bem.

V. Exª sabe de outros esquemas que poderiam estar por trás disso, acontecendo em outras estatais, com outra contratação de empresas privadas que tivessem relação com estatais que estariam repassando recursos?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Senador, penso que V. Exª vai... a CPI vai precisar investigar o Sílvio Pereira, porque na área de petróleo quem manda é ele. Toda decisão que tem que ser tomada – nomeação da Transpetro, da Petrobras, da Petroquisa – passa por ele. Toda operação nessa área é ele que faz. Então, ele tem que vir aqui explicar como é que funciona isso, qual é o controle que ele tem, o que ele detém de poder. Não posso lhe dizer.

Posso relatar a V. Exª... O que relatei foi desse acordo político feito na sede do PT. O Deputado Genoíno me disse, e o Delúbio também, que eu seria procurado por esse rapaz, o Marcos Valério, esse senhor. E ele não me procurou. Levou lá a primeira parte, que foi tratada. Desse eu sei falar porque eu conheci. Depois, ele voltou ao PTB – vou lhe dar certinho, na agenda. Ele voltou este ano para tratar desse assunto, IRB, a transferência de depósitos. Mas as outras áreas eu não posso lhe informar.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Mas V. Exª, hoje, citou suspeições sobre outras estatais. Falou em Eletronorte, em Furnas, em Dnit...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, isso foi... Não, o Dnit... tem um ex-funcionário...

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) –  Quais são os elementos que V. Exª possui com relação ao Dnit?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu gostaria de indicar um nome. Mandarei para cá um dossiê de um ex-funcionário do Dnit que foi diretor da área, sabe como é que se opera toda a estrutura e quer vir depor.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – V. Exª pode declinar o nome?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – José Pimentel.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Eu gostaria de que o Relator anotasse para que pudéssemos ouvi-lo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Está registrado, Senador César Borges.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Ainda tenho cinco minutos, Sr. Presidente.

V. Exª, em seu depoimento na Câmara, também falou de ter recebido os R$4 milhões, que o PT lhe deu, mas que, conversando com o ex-Ministro José Dirceu, hoje Deputado, ele disse: “A Polícia Federal é meio tucana e meteu em cana 62 doleiros.”

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Confere, é verdade.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – “A  turma que ajuda não está podendo internar o dinheiro no Brasil.”

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) –  Confere, é verdade, Senador.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Então, eu pergunto: além do esquema de operações com empresas do Governo e com empresas privadas, há também um esquema de internalização, de doações que venham de outros países, de paraísos fiscais? Porque V. Exª falou: “podendo internar o dinheiro no Brasil.” Quer dizer, há uma conexão externa para a vinda desses recursos?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não posso lhe dizer.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Mas V. Exª afirmou, Deputado.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não. Isso foi a minha conversa com ele ainda Ministro. Quando chegou o ápice da crise, em setembro do ano passado, em que o Deputado Luiz Piauhylino fez aquela denúncia à Veja, em que eu cheguei a uma situação de crise absoluta na Presidência do Partido, tive uma reunião da executiva em que quase caí. Todo mundo reclamava o cumprimento do acordo que não foi feito. As palavras eram as mais ásperas possíveis, Senador. Só encontrei defesa no Deputado Eduardo Seabra. Foi o único que me defendeu.

Aí, fui ao Ministro José Dirceu. Falei: Zé, está esgarçando ao ponto de eu não conseguir mais controlar o meu Partido. O que foi tratado não foi cumprido. Ele falou: “Roberto, não está dando. Os doleiros foram presos. Não há como internar dinheiro. A turma que ajuda não está podendo ajudar.” Isso é que ele me disse e eu repito.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Isso leva à conclusão de que poderia estar vindo dinheiro, lavagem de dinheiro externo, entrando no País para isso. Inclusive, V. Exª terminou dizendo que o ex-Ministro José Dirceu informou que “a turma que ajuda” não podia mais internar o dinheiro no Brasil.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – É isso?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Foi a frase dele para mim.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Muito bem. Agradeço-lhe.

Mais uma pergunta. V. Exª falou também muito em encontros que se dariam a partir de uma sala que haveria no Palácio do Planalto. Declarou, inclusive, quando se referiu à questão dessas reuniões: “Genoíno, Marcelo Sereno, Delúbio Soares, José Dirceu, que sempre soube de tudo. Várias conversei com Genoíno e com Delúbio no gabinete do Ministro José Dirceu. Tudo era tratado com o conhecimento dessas pessoas e do Sílvio Pereira.”

Pergunto-lhe: de quantas conversas o senhor se lembra de ter participado naquela sala do Palácio do Planalto com aquelas pessoas? Sabe mais ou menos o período, Deputado?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) –  Umas dez, umas doze. No primeiro ano de Governo, em 2003, na montagem de toda essa estrutura que falei a V. Exª, umas doze conversas. É um salinha no fundo, no quarto andar, onde ficava, no início, o Sílvio Pereira; depois, foi ocupada por Marcelo Sereno. Em várias reuniões, fizemos ali a composição, quem faria o diretor de quê. O PP indicaria um; o PL, outro; o PT, outro; o PTB, outro; a turma de baixo do PT. Sempre com o Sílvio Pereira ali. O Genoíno participava dessas reuniões, batia o martelo ali e depois íamos para a sala do José Dirceu.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – V. Exª não estranhava que pessoas dirigentes de um Partido político despachassem dentro do Palácio do Planalto sobre essas questões?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – É um critério subjetivo meu. É um critério subjetivo meu, mas eu estranhava, sim.

O SR.  CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Por fim, o que tenho notado nas suas declarações é que V. Exª teve o cuidado de falar com várias autoridades do Governo sobre o suposto do “mensalão”. Falou com o José Dirceu.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Várias vezes.

O SR.  CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Que não se importou e não tomou providências. Falou com o Ministro do PTB, Walfrido Mares Guia. Falou com o Presidente do PT, José Genoíno.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Um, hum!

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Falou com o Ministro Ciro Gomes.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Um, hum!

O SR.  CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Falou com o Ministro Palocci.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Falei.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Dentro da sua declaração.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Falei.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – E falou também com o ex-Ministro Miro Teixeira.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Falei.

O SR.  CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Muito bem. Nenhum tomou nenhuma providência efetiva?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, senhor.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Aí, V. Exª resolveu por bem falar com o Presidente da República e disse a ele sobre o mensalão. Tenho aqui a sua transcrição: “Eu tenho contra mim essa tentação do mensalão que o negocio está enfraquecendo o senhor na Casa”. Ele falou: ‘Mas que é mensalão, Roberto?’ Quando eu contei: ‘Eu sou um homem vivido. Tenho mais de 200 júris feitos na minha vida. Tenho uma trajetória. Tenho 23 anos de mandato”, a reação do Presidente foi de facada nas costas: ‘O que é isso?’ Eu contei, as lágrimas desceram dos olhos dele”.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – É verdade o que eu estou falando ao senhor.

O SR. CÉSAR BORGES (PFL-BA) – É verdade. Muito bem. Mas eu sinto que V. Exª conduz sempre para isentar o Presidente Lula de qualquer responsabilidade. Mas, a partir daí, ele não tomou nenhuma medida efetiva para coibir, para denunciar à nação, para acusar aqueles que estivessem fazendo uma prática tão delituosa para as instituições?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Acusar à nação, não. Mas instaurar inquérito na Polícia Federal eu tenho informação.

O SR.  CÉSAR BORGES (PFL-BA) – Sim, mas nós não sabemos publicamente de nenhuma medida, tanto que a imprensa sempre faz uma análise: ou o Presidente é inepto,  porque deixa ocorrer um fato tão grave no seu Governo sem providências, ou comete crime de prevaricação, de irresponsabilidade. Então, não há como isentá-lo, uma vez que foi V. Exª que trouxe à cena a participação do Presidente da República e ele reconheceu. Ele reconheceu que V. Exª nunca desmentiu a sua assertiva.

E eu encerraria, Sr. Presidente, dizendo isso é muito grave, porque envolve o primeiro mandatário da República. O Presidente disse que o Deputado Roberto Jefferson era seu parceiro e que daria a ele um cheque em branco. Eu só dou à minha mulher. Se eu não der, ela briga comigo. Mais do que isso, não dou a ninguém. Mas o Presidente disse que daria ao Deputado Roberto Jefferson. Então, não venham agora o Presidente ou os seus correligionários do Partido dos Trabalhadores tentar desqualificar as declarações do Deputado Roberto Jefferson, que, neste momento, está tendo credibilidade, porque os fatos estão-se ligando. As correntes estão-se encadeando, mostrando à nação, infelizmente, como é que ela foi assaltada neste atual Governo. Muito obrigado, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Concedo a palavra à Deputada Juíza Denise Frossard, por dez minutos.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Poderia colocar o meu counter ali, Presidente?

O SR. (Orador não identificado)  – O que ela pediu? Senhora?

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Não, não. Não comecei.

Deputado Roberto Jefferson...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Pois não, Juíza.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Cumprimentando-o, devo dizer-lhe, iniciando as minhas perguntas, que só quem conhece e tem coragem é que fala o que V. Exª acabou de falar agora.

Vou fazer algumas perguntas ao senhor. Não vou fulanizar. Ouvindo aqui esse esquema, eu anotei o seguinte: como é que era decidido que um Partido ficava com este cargo e o outro Partido ficava com o outro? Por exemplo, quem ficava com a diretoria ou aquele ficava com a Presidência ou ficava com aquele cargo que fura poço e sai petróleo.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

Enfim, qual a lógica que havia nisso? Eu queria saber o seguinte: Quem decide? É por número de votos? É pelo valor do cargo? Como é que era isso, a lógica disso? Porque o desenho já está feito, V. Exª fez com uma precisão perfeita, mas a lógica é que eu queria que V. Exª me explicasse.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Quem construía embaixo, Juíza Frossard, a organização e a distribuição das diretorias, era o Silvio Pereira, e o martelo era batido depois, na Casa Civil, pelo Ministro José Dirceu e, mais tarde, com o Ministro da Pasta. Quem construía, por exemplo, o IRB? O PTB fez a Presidência, o PP fez a diretoria comercial, a diretoria administrativa foi feita pelo ex-Ministro Delfim Netto, o Vice-Presidente era homem do Ministro Palocci; o diretor financeiro, homem do Ministro Palocci. Toda essa costura embaixo, assim, quem fazia era o Silvio Pereira. Depois ele levava à Casa Civil, o Ministro José Dirceu fechava e comunicava ao Ministro da área para poder executar aquelas nomeações.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Mas a minha pergunta da lógica, Deputado, é: por que se quer um cargo que fura o poço e sai petróleo? Como é isso? Que lógica é essa? Me perdoe, eu sou...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Mas esse não entrou no PTB, esse não passou pelo meu Partido.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Não, não. Eu iniciei dizendo que o senhor conhece, que o senhor tem coragem. E mais: eu acho que o senhor pode prestar um serviço à Nação de abrir esse esquema para, depois que se verificar tudo isso, mudá-lo, porque, senão, vamos viver de crise em crise – o senhor mesmo diz isso. É apenas esperar a próxima crise. É isso.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O que eu entendo da pergunta de V. Exª? V. Exª quer me perguntar se esses cargos ajudam ao financiamento dos Partidos. É isso?

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Isso.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Ajudam. E vou explicar a V. Exª como, a regra que eu tenho no PTB. Primeiro, a empresa pública. Disse isso sempre aos meus companheiros diretores. Segundo, o interesse da empresa privada que se relaciona; se é possível, na relação, a empresa privada ajudar por dentro, no caixa, o Partido, fazendo doações. É assim que funciona há anos, sempre foi assim. Essa é a discussão que eu gostaria de abrir aqui, e V. Exª, com muita sapiência, o faz. É assim que funciona. Toda essa disputa, Juíza Frossard, passa por aí.

Por que os Partidos buscam nomear os cargos de Governo? Para ter um homem numa área importante de decisão, que estabeleça uma relação com as empresas privadas que gravitam em torno dessa área para, na seleção de algumas – isso respeitando parâmetros éticos –, pedir àquele empresário que possa contribuir com o caixa do Partido que representa aquela pessoa. É assim que funciona, Juíza Frossard.

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) – É muito difícil.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Agora, o senhor acha...

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) – É muito difícil, Deputado. Na prática...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Concordo com V. Exª, Senador. Já ouvi discurso de V. Exª denunciando isso várias vezes.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Eu também.

Deputado Roberto Jefferson, o senhor acha que, diante disso que o senhor acaba de me dizer, seria conveniente aqui para nós, que estamos nesta CPI, ouvirmos os Presidentes dos Partidos? O senhor acha? Isso aqui é uma orientação que eu lhe peço.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu acho que sim. A senhora pode perguntar...

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Seria conveniente?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Se a senhora quiser, eu venho discutir com eles os critérios, como foram.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Pois não. E, finalmente, Sr. Deputado Roberto Jefferson, devo lhe dizer que tudo o que estou vendo e ouvindo aqui é muito novo para mim. Eu venho de uma área onde as coisas... E o senhor a conhece muito bem, embora nós nunca estivéssemos estado juntos, o senhor na tribuna e eu presidindo um júri – fui Presidente do Quarto Tribunal do Júri – mas...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – A senhora foi depois da minha época, um pouquinho depois...

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Exatamente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – ... das minhas atuações.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Essa área é uma área muito definida, mas é uma área em que todas as pessoas têm que falar, como V. Exª faz, a verdade, seja ela qual for, e é uma área em que se tem que ter coragem. Eu confesso para o senhor que, depois de tudo isso que ouvi aqui, estou estarrecida. Quero fazer-lhe uma pergunta de quem não tem essa vivência, de quem chega a essa cadeira nova. Eu lhe disse isso a primeira vez que nos encontramos aqui. Eu lhe disse: “Eu não tenho... eu não sou do ramo; eu não sou do ramo”. Pois bem. V. Exª tem mais de vinte anos de mandato. Sempre foi assim em todos os Governos?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sempre foi assim, Juíza Frossard; sempre foi assim.

A SRª JUÍZA DENISE FROSSARD (PPS-RJ) – Obrigada.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sempre foi assim, Juíza Frossard.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Concedo a palavra ao Deputado Henrique Fontana pelo prazo de 10 minutos.

O SR. HENRIQUE FONTANA (PT-RS) – Agradeço a V. Exª, Sr. Presidente.

Cumprimento o Deputado Roberto Jefferson, todos os colegas Deputados e as Deputadas.

Existe um problema,...

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. HENRIQUE FONTANA (PT-RS) – ... na minha opinião, Deputado Roberto Jefferson, do qual não podemos fugir. Podemos falar de muitos assuntos: do sistema político brasileiro, dos vinte anos de mandato de V. Exª, dos problemas gravíssimos de como se financiam campanhas no nosso País – por isso, sou um defensor absolutamente convicto do financiamento público exclusivo e republicano de campanhas. No entanto, não podemos deixar de analisar que chegamos a esta CPMI porque há uma acusação. Nos Correios, há um foco de corrupção. Levantam-se teses sobre quem teria gravado a fita e com que objetivo, mas não podemos levantar teses sobre o que está escrito ou dito na fita. Ali podemos ler claramente, como o fiz na transcrição, Deputado Roberto Jefferson, que V. Exª, na minha opinião,...

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. HENRIQUE FONTANA (PT-RS) – ... tem uma forte proximidade com o Sr. Maurício Marinho. Com toda a franqueza, Deputado Roberto Jefferson, ele diz quatro, cinco, seis vezes: “Nós somos um time. Ele sabe tudo. É o nosso Partido, é o nosso Presidente. Está para cair fulano, vai nomear beltrano”. Ou seja, acreditar que tudo isso era um conjunto de bravatas parece-me ser uma das grandes fragilidades da fala de V. Exª. Talvez para ter coragem mesmo, V. Exª deveria assumir que participou daquele esquema de corrupção nos Correios.

A minha convicção é de que estou na frente de um homem que está falando muitas coisas sobre a história política deste País; em algumas tem razão. Quero investigar todas, mesmo aquelas que acho em que não tem razão. Mas estou na frente de um homem – tenho muita convicção de dizer – que já mentiu muito ao longo de sua vida e está mentindo também em muitos momentos neste processo. Estou na frente de um homem contra o qual pesam indícios fortíssimos de envolvimento com corrupção naquele foco que estamos investigando nos Correios.

V. Exª foi explícito ao dizer: “Eu procurei falar com o atual Governo. Falei com A, falei com B, falei com C. Eu estava disposto a fazer um acordo. É possível segurar a mídia?” V. Exª queria, mais uma vez, a proteção para acobertar um processo de corrupção. E estou orgulhoso do meu Governo, porque não houve esse acobertamento. V. Exª não encontrou a proteção que queria, e a investigação foi adiante, e V. Exª, ao estar cada vez mais perto de se encontrar envolvido, evidentemente diz: “Agora, vou trocar de lado. Vou trocar de lado mais uma vez”, porque V. Exª trocou de lado muitas vezes na sua vida pública. É verdade que sempre no mesmo Partido, mas já apoiou, com muita convicção, um Governo que foi o mais corrupto da história deste País: o Governo Collor.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Só perde para o atual, Excelência.

O SR. HENRIQUE FONTANA (PT-RS) – O mais corrupto da história deste País.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Só perde para este.

O SR. HENRIQUE FONTANA (PT-RS) – V. Exª tem sua opinião, e eu tenho uma diferente. V. Exª foi, como diz, da tropa de choque do Governo mais corrupto deste País. E pergunto: por que nunca disse nada, Deputado Roberto Jefferson? Por que nunca ajudou a cidadania deste País a enfrentar a corrupção? Por que, agora, diante de tão graves acusações, V. Exª procurava as reuniões reservadas para negociar proteção? V. Exª não procurou o Ministério Público para falar um terço do que diz saber. V. Exª não procurou a Polícia Federal nem foi pedir investigação no Governo.

Agora, Deputado Roberto Jefferson, segue outro problema: V. Exª virou acusador geral da Nação – mas depois de estar sob forte acusação. E vou investigar tudo. O PFL já reage, o PSDB, dizendo: “Ainda bem”. Também estou feliz. Quero apurar tudo, porém pretendo evidentemente investigar V. Exª e quebrar o seu sigilo bancário para verificar se V. Exª não participou de nenhum desses tantos atos ilícitos que está narrando.

Custo a acreditar, Deputado Roberto Jefferson, que, se há um esquema de “mensalão”, como V. Exª diz, o seu Partido esteja absolutamente preservado – é o Partido das santidades nesta política tão difícil. V. Exª chega a dizer, Deputado Roberto Jefferson, sobre questão das mentiras. Ouvi uma entrevista sua, afirmando, numa rádio do Rio Grande do Sul, que não houve dinheiro do PT para o PTB; depois, que houve dinheiro do PT para o PTB. Fico me perguntando quando V. Exª mente e quando diz a verdade. Quando lhe convém? Conforme a circunstância? Para se proteger melhor? Ou há realmente um interesse republicano de combater a corrupção?

Deputado Roberto Jefferson, fico pensando numa passagem da sua fala no Conselho de Ética, tratando da nomeação do Dr. Lídio para a Presidência do IRB: “Disse que sentaria na Presidência do IRB e ajudaria o PTB; que iria juntar um grupo de cinco ou seis brockers”. Repare bem, Deputado, disse-se que há diferença quanto a Partidos e que cada um daria R$60 mil. Essa era uma espécie de mesada para o PTB, usando cargos públicos, ou para V. Exª? É o que está por trás do que V. Exª mesmo falou durante o depoimento?

Há também outra passagem muito interessante de V. Exª quando fez a primeira defesa na tribuna da Câmara; na época, V. Exª dizia o seguinte: “Que conversou com o Presidente Genoino e que, de fato, o dinheiro não veio até porque o Presidente Genoino teria dito que não está dando nem para sustentar as nossas campanhas, quem dirá a sua”. Foi o que V. Exª disse. V. Exª afirmou ali que o Sr. Maurício Marinho era um excelente servidor e deu toda uma explicação – que não vou ler, porque o meu tempo é muito curto –, defendendo o Sr. Maurício Marinho, que hoje alega mal conhecer. Será que, quando aparece essa fita, tudo o que o Sr. Maurício Marinho diz é bravata e tudo o que V. Exª fala é verdade? É muito maniqueísmo, Deputado Roberto Jefferson.

V. Exª tem uma longa história, como disse. Foram cerca de 20 anos de mandato e de política. E tentou, inclusive, intimidar os Deputados, dizendo que queria ver que Deputado faria, de fato, uma inquirição porque V. Exª alega ter todo mundo na mão.

Deputado Roberto Jefferson, também penso como V. Exª, ou seja, que o Presidente Lula é um homem digno e honrado. Meu Partido não é perfeito. Estou há 20 anos construindo o PT, mas é um Partido honrado, digno, que conquistou credibilidade nesta sociedade com bastante trabalho, combatendo muito a corrupção inclusive no tempo em que V. Exª não estava muito interessado em combatê-la.

Houve outras questões, Deputado Roberto Jefferson, que V. Exª afirma em suas falas: “Tentei tirar o PTB do mensalão”. Mas, afinal, o PTB estava no tal “mensalão” se é que ele existia? Só tiramos alguém de um lugar em que está.

Deputado Jefferson, V. Exª tem acusado muitas pessoas num forte ambiente de denuncismo no País; e investigaremos tudo porque a única maneira de combater as denúncias é punir os culpados e dar o atestado de idoneidade para quem não tem culpa. Não é V. Exª, evidentemente, que vai julgar cada um dos casos. E aí lhe pergunto: Nesse processo de tantas entrevistas, etc., V. Exª esteve no Roda Viva e ali V. Exª disse que o ex-banqueiro José Eduardo Andrade Vieira foi um dos financiadores, por dentro e por fora, da primeira campanha de Fernando Henrique Cardoso em 1994. “Tinha caixa dois, sim, senhor, e vocês sabem disso”, disse V. Exª aos jornalistas no Programa Roda Viva”. Num primeiro momento, houve repasse do PTB para o PSDB na campanha do Presidente Fernando Henrique. Uma parte foi declarada. A outra parte, segundo Jefferson, não foi declarada ao Tribunal Superior Eleitoral. Mais tarde, segundo ele, o PSDB destinou dinheiro ao PTB sem registro na Justiça Eleitoral.

Eu pergunto se V. Exª reafirma essa acusação que fez e, se reafirmar, se V. Exª pode nos explicar os detalhes desse processo. Quanto dinheiro foi? Como foi? Quem entregou? E assim por diante.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – V. Exª apenas tenta desqualificar meu depoimento, mas penso que, na minha trajetória de vida, fui mais coerente que V. Exª.

O meu Partido jamais teve financiamento de bicheiros. O do Rio Grande do Sul foi um escândalo que o PT recusou a fazer a CPI, porque varreu para baixo do tapete o envolvimento do Sr. Olívio Dutra com os bicheiros do Rio Grande do Sul.

O SR. HENRIQUE FONTANA (PT-RS) – Vou pedir ao Presidente para usar da palavra depois de ouvir...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – V. Exª vai me escutar agora!

O SR. HENRIQUE FONTANA (PT-RS) – Eu vou, lógico! Só quero usar da palavra depois de V. Exª. Só depois. Existe réplica.

(Tumulto no recinto.)

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não tem Cachoeirinha no PTB, não, Deputado, nem Valdomiro Diniz!

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra, o Deputado Roberto Jefferson e, então, concluímos e vamos passar a palavra ao próximo orador, Deputado Asdrúbal Bentes.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – No meu Partido, não tem Cachoeirinha, não, Deputado, nem Valdomiro Diniz, aliás, essa intimidade zoológica é do Partido de V. Exª.

Quanto à coerência, eu sou mais coerente que V. Exª, porque eu não cuspo nas minhas bandeiras de luta. Apóio o modelo neoliberal esposado pelo Ministro Palocci, que V. Exª combatia ao paroxismo quando era o Ministro Malan. É fácil apoiar o PT, porque a política econômica é mais ortodoxa que aquela neoliberal do Governo do Presidente Fernando Henrique. Eu não mudei. Quem mudou foi V. Exª e o Partido de V. Exª. De campeonato de corrupção, o PC Farias é pinto perto do que eu estou vendo hoje! Pinto! Advoguei para o Presidente Collor.

Eu não o suportava pessoalmente, Deputado Henrique Fontana, de quarto mandato: dois de Vereador, lá no Rio Grande do Sul; e agora, dois de Deputado Federal. V. Exª não é nenhum neófito. É um político de carreira. Eu não o suportava pessoalmente. Achava-o arrogante, pedante. E era Líder do Bloco PTB/PFL o Deputado Luís Eduardo Magalhães, meu amigo pessoal. Eu, advogado criminal, professor de Processo Penal. Ele me pediu que fosse para aquela CPI e eu me apaixonei pelo processo, porque tudo que via escandalizado na CPI, que o Partido de V. Exª era um dos que mais barulho fazia e ontem tentou impedir – e V. Exª ajudou – quebrar as contas do Marcos Valério. A ética de V. Exª funciona em mão única! V. Exª, ontem, nove horas, tentou impedir as quebras do sigilo das contas de Marcos Valério. E não vai me dar lição aqui de ética e de moralidade! E eu quero dizer a V. Exª que, no total como advogado, eu vi movimentados naquelas contas fantasmas do PC Farias R$64 milhões, a conta dos fantasminhas. Só por dentro nas contas do Sr. Marcos Valério no Rural tem R$45 milhões! Meça o tamanho do que vai acontecer! Eu depois vou ter outro encontro com V. Exª para esse campeonato de ética e moralidade que V. Exª arrosta. Não estou aqui para levar lição moral de V. Exª nem de comportamento político. V. Exª não quis me fazer pergunta, quis me desqualificar, mas não aceito a desqualificação de V. Exª porque não há um filete de água pura em um cano de esgoto e V. Exª não é o único limpo do PT.

Devolvo a V. Exª as increpações que me fez, de mentiroso, de desonesto e de corrupto.

O SR. O SR. HENRIQUE FONTANA (PT-RS) – Sr. Presidente, só para esclarecer que a CPI que ocorreu no Estado do Rio Grande do Sul, quando foi analisada pelos Tribunais Superiores e pelo Ministério Público, todas as acusações feitas contra o nosso Governo estão arquivadas, e o Deputado ... (Tumulto no Plenário. Interrupção no som.) ... o Deputado ACM Neto também pode pedir a última pergunta e quero a resposta sobre a questão do financiamento da campanha de Fernando Henrique Cardoso, que o Deputado Roberto Jefferson não respondeu. Eu quero a resposta. Ele disse que eu não fiz pergunta e não respondeu. A questão que ele falou no Roda Viva...

O SR. PRESIDENTE (Delcidio Amaral. PT-MS) – Com a palavra...

Deputado Roberto Jefferson, somente a pergunta sobre a ...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu Não tenho mais nada a dizer a S. Exª. Nada a dizer.

O SR. PRESIDENTE (Delcidio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado Asdrubal Mendes.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Sr. Presidente, Sr. Relator, Deputado Roberto Jefferson, Srs. Deputados, Srs. Senadores, depois da alta temperatura a que chegou este plenário com a intervenção do Deputado Fontana, espero, com a minha tranqüilidade cabocla da Amazônia, trazer um pouco da calmaria que as águas do rio Amazonas transferem para os cidadãos e que o verde das florestas traz para o espírito de cada um de nós.

Não estamos aqui, penso eu, para prejulgar ninguém. Não estamos aqui para incriminar quem quer que seja. Estamos aqui para apurar com seriedade e com profundidade, mas com muita serenidade – esta é a tônica do meu Partido –, os fatos que estão denunciados às escancaras por toda a imprensa nacional.

Conheço V. Exª desde a Assembléia Nacional Constituinte, quando nós, muitas vezes, noites adentro, estivemos no plenário da Assembléia Nacional Constituinte defendendo pontos de vista que, àquela altura, nos eram comuns e que continuam sendo até hoje, como o direito de propriedade e tantas outras coisas. V. Exª demonstrava àquela altura, já no segundo mandato, muita visão, tinha o dom da oratória, da eloqüência e um grande poder de persuasão.

Diz V. Exª que não veio aqui hoje a esta Comissão nem na condição de advogado nem na condição de político, mas na condição de cidadão. Mas o que V. Exª demonstrou é que veio nas três condições, de cidadão, de advogado e de político, porque, a exemplo do que fez na outra comissão, na Comissão de Ética, em que V. Exª deixou estarrecida e embevecida a população brasileira pela sua eloqüência, pela sua oratória, pelo seu poder de persuasão, enfim, V. Exª conseguiu, desde aí, mudar o roteiro. V. Exª, que entrou na Comissão como acusado, passou a ser o grande acusador e o grande responsável pela existência desta Comissão. Daí porque é muito importante que V. Ex.ª esteja aqui para prestar estes esclarecimentos que toda a sociedade brasileira quer conhecer. V. Exª pertence ao PTB há muitos anos, já o conheci nesta Casa no PTB, como V. Exª me conheceu no meu velho PMDB. Então, V. Exª, aqui, disse que participou também do Governo passado. É claro, o PTB apoiava também o Governo passado de FHC, como o PMDB também apoiava. V. Exª me parece que, no último mandato, era líder do PTB na Câmara, enquanto o saudoso Martinez era o Presidente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Correto, Deputado.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Então V. Exª deve ter participado de muitas reuniões do Governo FHC para a divisão dos cargos com que o PTB foi aquinhoado.

Pergunto eu: os critérios para a divisão dos cargos eram os mesmos de atualmente?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – V. Exª quer que eu responda imediatamente?

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Se puder ser breve, porque nós estamos diante da ditadura do tempo.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Deputado Asdrubal, deixe-me falar a V. Exª. No segundo governo do Presidente Fernando Henrique, o PTB não participou do Governo. Nós participamos do primeiro. Nós tínhamos o Ministro da Agricultura, que era o Dr. José Eduardo Andrade Vieira, depois o Senador de Minas Gerais, cujo nome está me fugindo, Arlindo Porto, e tivemos o Ministério do Trabalho, com Paulo Paiva. Tivemos integralmente esses dois ministérios. Os ministérios, suas secretarias e suas delegacias.

No segundo governo do Presidente Fernando Henrique, nós tomamos a decisão, a partir de mim, Líder, de José Carlos Martinez, Presidente, meu irmão, que Deus o guarde, do Ministro Walfrido dos Mares Guia e do meu companheiro Luiz Antonio Fleury, de não participar com cargos no Governo do Presidente Fernando Henrique.

Para quê? Havia sobre nós, Deputado Asdrubal Bentes, uma pecha muito forte de fisiologismo. Nós queríamos virar um pouco a folha desse passado, que muito nos marcou, de fisiologismo.

Fomos ao Palácio e o Ministro da Articulação Política, naquela época, era o Deputado Luiz Carlos Santos. Estivemos reunidos com o Presidente Fernando Henrique, toda a nossa Bancada, comunicamos a ele o seguinte: que íamos apoiar integralmente o seu Governo, porque acreditávamos nas idéias que ele esposava na globalização, e não queríamos cargos na administração pública. Por quê? Para podermos construir o que construímos depois, do que todo mundo duvidou. A imprensa duvidou. O único jornal que não duvidou do PTB foi a Folha de S. Paulo,  quando nós dissemos que apoiaríamos a candidatura de Ciro Gomes a Presidente do Brasil.

Nós não participamos, por isso eu não posso responder a V. Exª sobre critério. Porque nós não ficamos no Governo, apoiamos Ciro Gomes e, no segundo turno, a candidatura do Presidente Lula. Nós não participamos com cargos, com critérios de nomeação de cargos, no Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. No segundo governo.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Mas no primeiro, sim.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Mas aí eu já não articulei. Eu não era líder, não era comigo a articulação.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Tudo bem. Então gostaria de fazer algumas indagações. E como o tempo urge e a Mesa vai cumprir os 10 minutos, eu gostaria de indagar e V. Exª teria tempo suficiente, depois, para responder.

V. Exª fez referência rápida, aqui, a conseqüências do dito “mensalão” na eleição da Câmara e, depois, na eleição de Ministro do Tribunal de Contas. Poderia explicitar melhor? É a primeira pergunta.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Explicito.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Permita-me fazer todas as indagações, para que eu possa aproveitar o meu tempo.

A outra indagação é com relação à verba para campanha que o PTB recebeu, e que não adianta reprisarmos, porque todos já sabem quem trouxe recursos, de onde vieram, e que V. Exª acha que, em conseqüência desses recursos que outros partidos recebem, ocorreu o mensalão.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Pela ordem, Sr. Presidente. Os advogados não podem se comunicar durante o depoimento.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Sr. Presidente, restitua-me o tempo, por favor.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, não foi o advogado. Isso aqui me veio do Deputado Arnaldo Faria de Sá. Posso mostrar.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Por favor, Sr. Presidente, restitua-me o tempo. Garanta-me a palavra.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora Ideli, é direito dele esse suporte dos advogados.

Meu caro Deputado Asdrúbal Bentes.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Fui interrompido por uma questão de ordem. Quero que me restitua o tempo.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Senador, entenda, chegou do Deputado Arnaldo Faria de Sá.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – É um texto do Deputado Arnaldo Faria de Sá, da própria palavra do Deputado Arnaldo Faria De Sá.

Deputado Asdrubal Bentes.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Deputado Roberto Jefferson, V. Exª falou que o PTB recebeu R$4 milhões, de um total de R$20 milhões, para campanha política.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Certo, Deputado.

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Esses recursos seriam divididos com candidatos a prefeitos de vários municípios do País? Chegaram a ser divididos? Com que municípios...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O senhor quer que eu responda agora, ou tem mais perguntas?

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – A seguir, porque está terminando meu tempo.

Com que municípios e se houve a prestação de contas na forma da lei. Porque entrou o recurso para a campanha política, deve ser aplicado em campanha, então deveria ter a contrapartida dos recibos eleitorais. Mas me parece que V. Exª falou aí, em outro depoimento, ou em uma entrevista, que precisaria o PT dar a origem dos recursos, ou ele se encarregou depois de, numa outra reunião, passar o recibo ou coisa que o valha para que V. Exª pudesse comprovar junto ao Tribunal a origem do recurso, não é isso?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Já é para responder?

O SR. ASDRUBAL BENTES (PMDB-PA) – Essa é a penúltima pergunta.

A quem V. Exª atribui a ação da Abin, segundo V. Exª manipulada por segmentos do Governo, já que V. Exª isenta integralmente o Presidente Lula? Quais seriam esses segmentos que estariam influenciando na Abin ou até junto a uma rede de rádio, jornal e televisão – que V. Exª diz que noticia e que certamente é a responsável por muitas das acusações que lhe são feitas, inclusive por parte dessa denúncia de corrupção nos Correios, que foi a Abin que fez, segundo V. Exª, a “arapongagem”? A quem V. Exª atribui, a quem ou a que segmentos do Governo, já que o Presidente Lula está totalmente isento, segundo V. Exª?

São essas as perguntas, já que o tempo esgotou.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Começo pela última.

Sr. Deputado Asdrubal Bentes, minha convicção é de que toda matéria que vazou contra o meu partido saiu da Casa Civil, com a ajuda da Abin. Toda verossimilhança dos cargos, das indicações estavam arquivadas na Casa Civil. Aquilo tudo vazou para o jornal pela mão da Casa Civil num concerto com a Abin. Não tenho nenhuma dúvida de lhe afirmar isso.

Quanto aos R$4 milhões, recebi para o PTB e para as coligações do PTB em São Paulo, em Belo Horizonte, em Goiânia, em Rio Branco, no Acre, e em Curitiba. Só que, como conheço a regra e fechei com o Deputado José Genoíno, no final, a legalização da doação e ele não me deu, não posso admitir isso e não vou admitir, como Presidente do PTB, sob pena de cancelar o registro de meu partido. Se V. Exª me perguntar doou, talvez, mas não digo nem amarrado na árvore, levando “facãozada”, nem amarrado na árvore, levando “facãozada”, eu conto a respeito disso. Quero lhe dizer isso. Morre comigo a informação. Não vou prejudicar inocentes, não vou prejudicar. Recebo na pessoa física e assumo a responsabilidade civil e criminal disso. Quero dizer isso a V. Exª por lealdade a pessoas inocentes que não podem ser envolvidas nisso por omissão do Presidente do PT e erro meu, Presidente do PTB.

V. Exª me fala do “mensalão” da Presidência da Câmara e no TCU. Eu vi claramente a insatisfação instalada, porque o “mensalão” tratado em 30, ora era 15, ora era 20, e havia um comentário que havia grupo de 50. Foi a pior Legislatura que vivi na minha vida.

Sou Deputado Federal desde o Presidente Figueiredo. Nunca tinha ouvido falar em financiamento de partidos da base pelo Partido do Governo. Foi só nesta Legislatura. Foi a maior provação que vivi. A Presidência do PTB não me deu felicidade. Ela me honrou porque culminou com a minha trajetória, vinda de Presidente do PTB da minha cidade, Petrópolis, onde fundei o Partido com meu pai. Fui vereador duas vezes pelo PTB. Lá, presidi o PTB do Estado do Rio durante oito anos. Fui vice-líder do Gastone Righi aqui na Câmara dos Deputados, sete; vice-líder do Deputado Nelson Marquezelli, um ano. Fui líder da Bancada cinco anos, e presidi o Partido por dois.

O momento mais infeliz da minha atuação parlamentar foram estes dois anos como Presidente do PTB, porque a pressão era brutal, Deputado, porque alguns levantavam a mala assim para os Deputados do PTB. E pena que não tenha deputados com coragem no meu partido, que não querem fazer a ruptura que fiz. E eu dizia: “Ô cara, vai lá e avisa àquele malandro que se ele tomar deputado do PTB na mala, dando essa luva e esse mensalão, eu vou para a tribuna e vou contar a história da maçã”. Mas não têm coragem de vir a público e dizer isso para V. Exªs.

Então, quando capenga a minha versão, capenga dentro de Casa, porque para fora estou mostrando que sabia, e as coisas vão se casando. Eu percebi nitidamente que essa queda de braço contaminou a Câmara. Primeiro, o candidato foi ruim, o candidato que o PT... Não pela qualidade moral. Um homem de qualidade moral, o Greenhalgh, mas não dava bom dia a ninguém. Quando resolver disputar a eleição, começou a cumprimentar as pessoas no corredor.

Funciona com a gente assim: quando a gente vai a uma cidade no interior, anda de carro fechado, com ar refrigerado e Insulfilm, depois volta para pedir voto, não vai ter. E ele fazia isso aqui. Andava com a cabeça baixa, pelo canto, é timidez, entendo. Foi Presidente da Comissão de Justiça, todo projeto importante ele se nomeou relator. Então, só tinha prestígio, ele só aparecia, plim, plim: “Vai falar o Greenhalgh!”. Ficaram 50 deputados contra S. Exª lá, trabalhando contra. Nós dissemos isso ao Presidente: “Presidente, vai perder. O candidato é horrível. Vossa Excelência tem o Virgílio, que dá uma lavada. Vossa Excelência tem o Chinaglia, que vai dar uma lavada”. Sua Excelência vai com um homem para perder. Sua Excelência insistiu. “Vossa Excelência manda um candidato que era fraco, não moralmente, politicamente, quero insistir aqui, Vossa Excelência manda isso!” Essa conversa do “mensalão” que permeava a disputa entre os partidos para ver quem tirava do outro, para poder somar, para fazer mais número na Mesa, ter mais comissão, indicar os cargos de comissão, um troço terrível que acabou levando naquela insatisfação à eleição do Presidente da Câmara. E o TCU. Vi aquela articulação brutal para se derrotar o PT.

Eu, eu, Roberto Jefferson, chamei todo companheiro meu que dependia de uma relação afetiva comigo há mais tempo, não alguns que foram colocados mais recentemente pela mão do Deputado e ex-Ministro José Dirceu, a esse não tinha como pedir, mas aos que eram mais próximos a mim pedi que votassem no candidato do PT. Está aqui um candidato que disputou a eleição do Tribunal de Contas e é o Relator desta Comissão. Amigos nossos no Paraná me ligaram pedindo que votasse em S. Exª. E eu respondi, com toda a sinceridade: “Vou votar no candidato indicado pelo PT para respeitar a nossa aliança com o Governo”. Chamei todos os meus companheiros lá na Liderança do Partido, todo mundo querendo votar no Severino. Digo: “Gente, aqui, se vocês vão votar, não alardeiem, vocês vão desmoralizar a mim e ao Líder. Temos uma aliança com o Governo. O meu candidato é o Greenhalgh. Está aqui. Meu voto é de S. Exª. Quem é meu irmão vem comigo nisso. Quem votar no Severino não precisa alardear, porque vai desmoralizar o Presidente e o Líder do Partido”. Foi assim. O “mensalão” influenciou porque desagregou a relação dos partidos da base com o Partido do Governo.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Relator.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – A propósito da primeira pergunta levantada pelo Deputado Asdrubal Bentes, muito rapidamente, ainda sobre a Abin. Não sei se V. Exª, Deputado Roberto Jefferson, chegou a perceber ou, enfim, teve a informação de que quem estava por trás, filmando, era o mesmo Jairo Martins que filmou o episódio que causou todo aquele transtorno para o Deputado José Dirceu. Quem filmou Waldomiro foi o mesmo que instrumentalizou e fez tudo agora, para pegar o Marinho. Como V. Exª atribui isso a uma indústria, a um engenho do José Dirceu, será que tanto lá ele foi vítima quanto aqui ele teria sido vítima junto com V. Exª?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Os analistas de informação da Abin não são os homens de campo. Os homens de campo são como fortuna. Pode ser na época do Curió, na época do SNI, ou da Abin, bastou pagar, vai e faz. O Jairo é a mesma coisa. Esse jogo sujo da inteligência não é a inteligência que faz, ela contrata.

Eu vi aqui, no depoimento na CPMI daquele Wascherck, que ele transferiu dinheiro para conta do Molina. Depois, o sócio dele veio dizer que discordava dessa atitude dele. Eu tenho assistido aos trabalhos da CPMI. Estou em casa e estou ligado aqui, estou monitorando, estou vendo.

Esse jogo sujo não é o agente da Abin, o funcionário da Abin que é qualificado que faz, o que analisa a informação. Isso é dinheiro que eles pagam. Ouvir um empresário ou o sistema de financiamento para essas informações por dentro das contas do Governo, eu não sei se são secretas, não sei como funciona. Mas a Abin não se expõe nisso, põe seus ex-agentes, que ora servem a um lado, como servem ao outro. Ora serviram ao Governo do Fernando Henrique, agora servem ao Governo do Presidente Lula.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB-PR) – Obrigado, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PTB-MS) – Com a palavra o Deputado Eduardo Paes.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, Deputado Roberto Jefferson, passamos as duas últimas semanas aqui, ouvindo depoimentos de figuras que, supostamente, seriam os autores daquela gravação feita ao Sr. Maurício Marinho. Confesso a V. Exª que, o tempo todo, tínhamos que pressionar essas figuras que aqui estiveram, porque estava claro que essas figuras mentiam. Elas mentiram o tempo todo e não mostraram, em nenhum momento, que tivessem qualquer tipo de ligação no processo de gravação.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

Não mostraram, em nenhum momento, se conheceram ou tenham se reunido para fazer aquela gravação. Portanto, o que ouvimos aqui, nas duas últimas semanas, foram mentiras.

O Deputado Antonio Carlos Magalhães Neto, quando indagou V. Exª, desenvolveu aqui uma tese sobre um conflito interno, já que o Sr. Maurício Marinho, apesar de ser um funcionário de terceiro ou de quarto escalão, tinha a possibilidade de transitar em vários contratos de outras diretorias dos Correios.

O que eu quero dizer, Deputado Roberto Jefferson, é que, no seu primeiro depoimento, ainda na Comissão de Ética, as pessoas contestavam a veracidade das suas afirmações. Eu me lembro de que, naquele dia, muitos de nós dissemos: “O Deputado Roberto Jefferson confessa algumas irregularidades, confessa erros cometidos e, ao mesmo tempo, aponta erros cometidos pelos outros”. Portanto, as informações que V. Exª apresentava naquele momento já continham, para boa parte dos Parlamentares desta Casa e para a opinião pública que tem lhe assistido, um altíssimo grau de veracidade.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

V. Exª esteve aqui há duas semanas, Deputado Roberto Jefferson. É incrível como, ao longo dessas duas semanas, boa parte ou quase a totalidade das denúncias que V. Exª fazia vai sendo confirmada. A verdade vai surgindo.

Hoje, V. Exª volta aqui, consolida algumas informações prestadas ali e traz uma informação nova e importante, que é a informação do suposto local ou agência bancária onde se buscava o tal do “mensalão”.

Portanto, Deputado Roberto Jefferson, faço essas considerações, porque penso que todos nós aqui, diante dos fatos que vêm se repetindo a partir das declarações e informações que V. Exª presta, os Deputados, os Senadores que querem a verdade, que querem investigar, o que vão é aproveitar a oportunidade da sua presença aqui diante das câmeras, e diante dos seus depoimentos, e tentarão identificar mais informações para que possamos nos aprofundar nessa investigação e, aí sim, encontrar a verdade. E, pelo que consta até o momento, parece que V. Exª tem tido e tem trazido, o tempo todo – os fatos vêm se confirmando –, a verdade em seus depoimentos.

Aliás, V. Exª confirma a verdade quando fala, pede a cabeça de alguém do Governo e essas pessoas são demitidas. O Governo acredita certamente nas suas informações e sabe muito bem a que V. Exª está se referindo. Mas eu quero aproveitar esta oportunidade, Deputado Roberto Jefferson, para lhe indagar algumas outras informações.

V. Exª trouxe à luz a figura do Marcos Valério como um dos operadores do mensalão. Eu gostaria de indagar se V. Exª conhece o empresário – talvez eu faça as indagações, Deputado Roberto Jefferson, todas de uma vez...

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O senhor quer que eu vá respondendo?

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Se o Presidente me permitir ter um pouco de tempo a mais... (Pausa.)

Perfeito, então, eu vou perguntar e, depois, V. Exª responde.

O senhor conhece o empresário Fernando Moura, amigo de Silvio Pereira?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – O senhor tem conhecimento de algum favorecimento à empresa de informática Cobra em contratos com o Governo ou estatais?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Qual é – se V. Exª tem ciência disso – a ligação do ex-Presidente do Banco Popular, o Sr. Ivan Guimarães, e outros diretores do Banco do Brasil com o Sr Marcos Valério?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não sei.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – V. Exª não tem noção.

Além de Furnas, que V. Exª aponta hoje na entrevista à Folha de S. Paulo, e das agências de publicidades, quais seriam essas outras fontes do chamado mensalão? V. Exª teria outras informações? Tem desconfiança ou informações?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Eu tenho desconfiança, porque o esquema da agência de publicidade do Sr Marcos Valério era o de Furnas, e o recurso que eu recebi para o PTB, 70% dele era do Banco do Brasil. Ele não retirou só de Furnas os recursos dos 4 milhões.

Vamos dizer, Deputado – eu não contei os maços de dinheiro quando mandei guardar no cofre, no armário –, que tenha um 1,2 milhão do Banco Rural e os outros 2,8 milhões eram do Banco do Brasil, e eu não vi na lista da Coaf, na matéria da revista ISTOÉ, neste final de semana, nenhuma alusão a essa movimentação altíssima, elevadíssima de recursos do Banco do Brasil. Isso é coisa que a CPI vai ter de apurar.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Ok. Na entrevista que deu ao Jornal do Brasil, no domingo passado, V. Exª fez referência a uma operação da Telmex. V. Exª se recorda?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Telmex... Eu não me recordo não. V. Exª pode esclarecer para mim o que é?

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Eu estou sem a matéria aqui, Deputado Roberto Jefferson, mas é a operação da compra da Telmex, parte da Telefônica, Embratel...

O Senador Heráclito Fortes me deu a informação de que V. Exª teria feito referência a essa empresa na sua entrevista.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Deputado Roberto Jefferson, V. Exª tem tido, nesta Comissão – aliás, em todos os seus depoimentos –, uma postura muito franca e aberta no sentido de dar as informações de que esta CPI necessita.

Quero dizer, Deputado Roberto Jefferson... Talvez o Senador Heráclito Fortes queira complementar...

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Eu disponho de tempo ainda. Talvez o Senador Heráclito Fortes possa me complementar aqui.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Estou mandando pegar a matéria para tirarmos a dúvida.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Perfeito. O Senador Heráclito Fortes está inscrito.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS. Fazendo soar a campainha.) – Eu pediria, Deputado Eduardo Paes, para não dividir assim, porque, dessa forma, será muito difícil de administrar...

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Eu disponho de 03 minutos e 13 segundos... 12 segundos neste momento, Sr Presidente.

Deputado Roberto Jefferson, V. Exª – e aí é mais uma afirmação do que uma indagação – deve estar percebendo, e acompanhou muito bem durante o dia de ontem, que há, como parece praxe no Partido dos Trabalhadores, uma estratégia divercionista. Em vez de assimilar alguns dos episódios tristes da história do Partido e procurar resolver esses problemas, vimos, por exemplo, o Senador Eduardo Suplicy, que ali está, por ter assinado a CPI dos Correios, ser imediatamente retirado de uma chapa eleitoral do Partido dos Trabalhadores – diz aqui o Senador Sérgio Guerra que já teria sido devolvido. Vi figuras, como a Senadora Heloísa Helena, passarem por um processo de expulsão. O que temos visto, o tempo todo, é isso. Quando se fala de figuras que, já de certa forma, os indícios mostram que há envolvimento com o Sr. Marcos Valério, com o mensalão, com diversos desse episódios, essas figuras são intocáveis, Senadora Heloísa Helena. Lá permanecem e ninguém diz nada. Permanecem sendo defendidas, com unhas e dentes, pelo Partido dos Trabalhadores.

Quero dizer isso, Deputado Roberto Jefferson, Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, porque essa estratégia diversionista utilizada, por exemplo, pelo Deputado Henrique Fontana demandando questionamentos acerca do Governo passado, é para reafirmar, em nome do PSDB, que não temos e não teremos o menor problema em analisar todas essas questões relativas ao Governo passado. Essa é uma estratégia do Partido dos Trabalhadores que, ao invés de assimilar esses equívocos, esse erros, de tentar corrigi-los, enfrentá-los, entender que essa crise é do Governo, que foi feita pelo Secretário-Geral do Partido, pelo Ministro Chefe da Casa Civil, pelo Presidente do Partido, quer pôr a culpa na Oposição. Na verdade, a Oposição tem agido com responsabilidade e continuará buscando apurar os fatos desta Comissão Parlamentar de Inquérito, Sr. Presidente.

Obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Concedo a palavra ao Deputado Maurício Rands.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Deputados, Srªs e Srs. Senadores, Sr. investigado, Deputado Roberto Jefferson, Sr. Relator, estamos aqui em uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para investigar denúncias que surgiram a partir da gravação de uma fita em uma empresa pública federal em que, segundo as evidências, V. Exª, Deputado Roberto Jefferson, estaria envolvido no esquema a partir da utilização de cargos públicos, que não são do quarto escalão, mas do primeiro escalão. São de diretoria administrativa – indicação de V. Exª – e de segundo escalão, chefia de departamento. Aliás, houve o relato do Sr. Maurício Marinho, que aqui veio, e mostrou profundo conhecimento dos esquemas de irregularidades que estão acontecendo nos Correios.

V. Exª passa uma versão que, talvez, o vitime por um paradoxo do sucesso.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Peço à assessoria do Senado que cronometre. O Deputado Maurício Rands está há uns três minutos falando. Peço a atenção da assessoria.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) – Três não. Dois minutos.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Nós cronometramos aqui. Peço a atenção da área técnica do Senado, por favor.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) – Vão descontar, não é? Eu recebi a palavra agora. São 6h:50.

Sr. Presidente, o Deputado Roberto Jefferson é acusado. Está sendo investigado por um episódio de corrupção. É reconhecidamente um político dotado de grande capacidade de oratória. Sua versão, já que papel aceita tudo, já que microfone aceita tudo, Deputado Roberto Jefferson, começa a ser fraca a partir do paradoxo do sucesso. Suas qualidades oratórias permitem a V. Exª, aparentemente, achar que basta desviar o foco das acusações em uma manobra diversionista, como falou o Deputado Eduardo Paes. Suas qualidades, Deputado Roberto Jefferson, permitem que V. Exª, aparentemente, ache que basta lançar acusações contra tudo e contra todos que essas acusações tornam-se verdadeiras. Só que V. Exª, até agora, não fez prova de quaisquer das acusações lançadas contra pessoas e contra instituições.

No depoimento de V. Exª, assim como em outras falas, já há uma série de contradições que cabe a esta CPMI investigar, uma série de conflitos entre o que V. Exª afirma e o que foi afirmado aqui em outros depoimentos e em fatos coligidos por esta Comissão Parlamentar de Inquérito.

Eu lembraria, por exemplo, o Sr. Molina afirma que, em nenhum momento, fez chantagem a V. Exª. E V. Exª afirma que foi chantageado pelo Sr. Molina, lá naquela reunião, na Câmara dos Deputados no dia 03 de maio.

O Sr. Maurício Marinho diz que, uma vez abordado pelo Sr. Molina, o Senhor determinou a entrega da fita.

O Sr; Wascheck disse que foi ele quem fez as gravações porque tinha interesses contrariados contra uma pessoa que participava das articulações que o Senhor tinha nos correios. O Sr. Arthur Washeck afirmava que ele tinha contratado o Sr. Joel Santos, o Jairo Martins, para fazer a investigação, e não a Abin como o Senhor está alegando

O Líder do seu Partido contraria a sua versão, Deputado Roberto Jefferson, em pelo menos três pontos desta história muito bem articulada por V. Exª, quando diz que houve um repasse de quatro milhões para membros do seu partido, o líder do seu partido nega e outros deputados também o fazem nos corredores do Congresso, como o Deputado José Múcio, em depoimentos prestados em outros órgãos investigatórios aqui da Câmara.

O seu Líder nega a acusação que o senhor faz de ter submetido a proposta de mensalão a uma deliberação da sua bancada, outros deputados também negam.

O seu Líder nega ter sido abordado pelos Deputados, Waldemar Costa Neto, Pedro Henri, Bispo Rodrigues, e que tenha falado com o seu Delúbio sobre o mensalão.

Há uma série de contradições que eu não mais tempo para continuar insistindo neste ponto que se chocam com a história trazida aqui para V. Exª.

Eu no final foi fazer ainda algumas perguntas para ajudar a esclarecer. É uma pena, Sr. Presidente, que nós não temos tempo suficiente para esclarecer uma série de questões.

Uma delas é que eu queria que o Senhor narrasse melhor como foi a conversa com o Sr. Molina no dia 3. Exatamente o que ele falou para V. Exª porque há um conflito muito grande. O que vai ficando claro, Deputado Roberto Jefferson, é que V. Exª que ficou fazendo criticas ao sistema político brasileiro, a reforma eleitoral, mas cujo partido, eu posso dar esse testemunho, quando ocupei a Presidência da Comissão de Constituição e Justiça aqui da Câmara, coloquei o projeto de reforma política para avançar e quando chegou no momento derradeiro que foi a votação pelos 54 membros da Comissão, entre outros partidos, o partido de V. Exª bloqueou aquela votação porque não tinha conseqüência o ato de V. Exª, com a retórica de V. Exª de dizer que quer modificar o sistema político. O Senhor participa há 23 anos e nunca tomou qualquer iniciativa para modificar a questão do financiamento das campanhas, o sistema eleitoral brasileiro que o senhor agora se arvora em defensor da mudança. Antes tarde do que nunca!

Faz V. Exª, Deputado Roberto Jefferson, acusações sem prova, contra deputados de PL, do PP; faz acusações contra dirigentes de partido e tudo o que começa a aflorar, começa a levar uma conclusão já muito forte entre as pessoas que estão acompanhando atentamente os acontecimentos Deputado Roberto Jefferson. V. Exª que tinha uma vontade e uma ambição muito grande por cargos, até o momento derradeiro. Ainda há pouco o senhor estava lutando para fazer uma indicação para a diretoria de furnas. O senhor que ocupou tantos cargos, o senhor participava dessa ocupação de cargos? É isso que está sendo investigado com a finalidade de arrecadar recursos para as suas campanhas e para o seu partido, como o Senhor aliás já declarou em depoimentos.

E quando foi pego pela investigação, pela fita que foi feita na investigação do Sr. Arthur Wascheck, o senhor queria que o Governo do Presidente Lula, que o senhor sabe é um homem honrado, é um Governo honrado, o senhor queria acobertamento, como não teve o senhor resolveu partir para a ofensiva, atendendo ao velho adágio popular, que a melhor defesa é o ataque. E acusou, Deputado Roberto Jefferson, muitas pessoas e instituições, sem trazer uma prova sequer. Agiu com muito ressentimento, com muito ódio, contra alguns dirigentes do Partido dos Trabalhadores porque não teve acobertamento e porque a sua ambição de fazer a ocupação de cargos públicos para arrecadar recursos na administração não teve avanço.

Então esses ressentimentos todos fazem com que a sua versão, Deputado Roberto Jefferson, comece a se tornar frágil. É uma versão de quem, só no momento derradeiro, porque não teve proteção, quis agora ir para a contra-ofensiva e desviar o foco, porque V. Exª é investigado no Conselho de Ética, é investigado aqui na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. E V. Exª não esclareceu, por exemplo, de onde vem esses recursos, esses três milhões de Furnas, quais são as empresas. O senhor não perguntou na época.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PTB-MS) – Deputado Maurício Rands, por favor conclua.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) –  Eu vou concluir, Senador Delcídio Amaral.

O senhor, só no momento derradeiro, querendo partir para o contra-ataque porque sabe que a sua posição é frágil, o senhor nunca fez denúncias, o senhor acusa irregularidades em “n” instituições. Por que quando houve irregularidades em furnas, o senhor não foi à Ministra, não foi ao Ministério Público, não foi à Polícia Federal?

Por que o senhor não compareceu para depor na sindicância aqui em setembro, na Câmara dos Deputados, do mensalão?

Eu concluo dizendo por que o senhor sabedor, durante tanto tempo, não tomou qualquer providência em defesa...

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB-SP)  – Presidente, uma questão de ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – V. Exª tem a palavra.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB-SP)  – Sr. Presidente, ontem eu estava no Conselho de Ética, quando fiz a pergunta ao Deputado José Múcio, que participou da reunião onde o Deputado Roberto Jefferson cobrava do Presidente Genoíno a parte restante daquilo que fora combinado.

E perguntei a ele...

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, isso não é questão de ordem.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Carlos Sampaio, eu vou cortar...

Deputado, quando V. Exª  estiver inscrito, V. Exª falará.

O SR. CARLOS SAMPAIO (PSDB-SP)  – A afirmação é inverídica.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Nem preciso responder Sr. Presidente.

Não tenho o que dizer.

São vazias as palavras dele.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) –  Sr. Presidente, eu tenho direito às respostas das questões que fiz. Quero saber os detalhes do Sr. Molina, quero saber das provas para todas as acusações, quero saber de onde vem esse dinheiro, esses três milhões, que ele disse que surgiu de Furnas, porque a tática do Deputado Roberto Jefferson é atacar sem qualquer prova, lançando dúvida contra todas as pessoas e contra as instituições.

Então eu queria ouvir as respostas, Sr. Presidente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sr. Presidente, mais ataques do que ele me fez?

V. Exª lê nos jornais e nas revistas o que está me perguntando. Não tenho nada a dizer a V. Exª. Não estou preocupado.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) –  Porque o senhor não tem prova de nada do que fala.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – É problema de V. Exª acreditar ou não. Não estou preocupado com V. Exª.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) –  Esta CPMI está aqui para investigar e para adquirir as provas do esquema de corrupção de que o senhor é acusado, e o senhor não tem nenhuma prova contra as acusações.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – E cuidado para V. Exª não ficar de rabo preso nela, hein?

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) –  Eu quero as respostas.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Muita gente da sua patota vai ficar de rabo agarrado aqui.

O SR. MAURÍCIO RANDS (PT-PE) –  Ninguém tem rabo preso, não tenho rabo preso.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. Bloco/PT-MS) – Eu vou cortar a palavra.

Com a palavra a Senadora Ideli Salvatti.

O SR. ÁLVARO DIAS (PDT-RN) – Sr. Presidente, uma questão de ordem.

Pelo art. 22, Sr. Presidente, do Regimento Comum, a reunião terá uma duração de quatro horas e, para ela continuar, qualquer membro da CPI, ou mesmo o Presidente, pode propor uma votação ao Plenário e prorrogar a reunião.

Agora eu queria indagar, Sr. Presidente, quando eu estava no Plenário da Câmara Federal, ouvi alguns Deputados falando sobre a criação da CPI de Furnas e queria saber se essa CPI pode alargar...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. Bloco/PT-MS) – Deputado Álvaro Dias, com todo o respeito que tenho por V. Exª, essa questão é absolutamente fora de propósito.

Com a palavra a Senadora Ideli Salvatti.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Citado como?

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Fui citado pelo Deputado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não, Senador Heráclito. Se eu começar a dar a palavra para cada Parlamentar citado, não vamos acabar com isso hoje.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Sr. Presidente, art. 14. Eu fui citado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador Heráclito. V. Exª terá a palavra.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Sr. Presidente, eu queria pedir a compreensão de V. Exª.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Inscreva-se, Heráclito.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra a Senadora Ideli Salvatti.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente...

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Sr. Presidente, eu fui citado e gostaria...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Várias pessoas, meu caro Senador, foram citadas aqui e eu não posso fazer isso.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Uma informação na qual foi usado o meu nome, Sr. Presidente. Eu gostaria que V. Exª...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador Heráclito, por favor.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – V. Exª agora, por menos disso, concedeu a questão de ordem, Sr. Presidente. Era muito mais simples.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senador, V. Exª está inscrito logo em seguida aqui, Senador Heráclito.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Em um minuto. Em um minuto eu resolvo. Abro mão da minha palavra.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Na sua inscrição, Senador Heráclito.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Sr. Presidente, é uma questão de momento, uma citação recente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora Ideli Salvatti.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Em primeiro lugar, recomponha meu tempo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Quero registrar aqui o tempo que perdemos com algumas discussões absolutamente fora de contexto. Vamos suspender durante alguns instantes, porque o Deputado Roberto Jefferson...

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Neste vazio, Sr. Presidente, V. Exª me concede uma questão de ordem?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Fale, Senador Heráclito, rapidamente.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Sr. Presidente, depois V. Exª me concede a palavra para uma questão de ordem?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Onyx, por favor.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) – Mas é pertinente. Depois do Senador. Isso não é ordem.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Suspende, porque, se abrir o precedente, vai ter que ser para todos.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não, Senador Heráclito, não é isso não, ninguém quer mandar na vontade. Existe uma regra de inscrição que vamos cumprir. (Pausa.)

Senador Heráclito, V. Exª está inscrito logo em seguida, quando terá oportunidade de colocar suas posições.

Senador Heráclito, se V. Exª falar, posso retirá-lo aqui da lista de inscrição?

Então, por favor, esclareça, Senador Heráclito.

Senador Heráclito, só registre, por favor, e nós encerramos.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Sr. Presidente...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Pronto, Senador, enquanto o Deputado Roberto Jefferson não vem. Essa é a exceção.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Sr. Presidente, no questionamento feito pelo Deputado Eduardo Paes, ele fez uma pergunta – até por sugestão minha – baseada numa entrevista que o Deputado Roberto Jefferson deu ao Jornal do Brasil. Essa entrevista saiu no Jornal do Brasil de 19 de junho.

Sr. Relator, numa das perguntas feitas, a repórter diz a ele: “O senhor acha que uma operação como a da Telmex pode internalizar dinheiro de campanha?” E ele responde: “Não tenho dúvida, pode”. O que é a Telmex? É a empresa de telefonia mexicana que adquiriu a Embratel, frustrando um consórcio das empresas nacionais montado especialmente para essa operação. De uma maneira rápida, houve a decisão de um grupo de trabalho chefiado pela Casa Civil, que transferiu a direção da Embratel para a Telmex, daí por que, quando foi feita a pergunta, o Deputado Roberto Jefferson disse que não se lembrava. Estou apenas rememorando exatamente o que...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Ok, Senador Heráclito.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Sr. Presidente, mil desculpas por ter envolvido a telefônica, o nome da telefônica...

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Daí por que eu gostaria de prestar esse esclarecimento, para que não parecesse uma invenção minha.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Ok, Senador Heráclito. Está registrado.

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Pode ser até que o Deputado tenha sido pego de surpresa e respondido o que não sabia exatamente o que fosse Telmex, mas quero apenas que fique o registro para todos que estão assistindo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Ok, Senador Heráclito. Registrado.

Concedo a palavra à Senadora Ideli.

O SR. EDUARDO PAES (PSDB-RJ) – Desculpas à telefônica, Sr. Presidente, porque a citei aqui indevidamente.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, quero que, antes de começar a contar o meu tempo, se restabeleça a calma.

Quero o meu tempo integral.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Dez minutos.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, em primeiro lugar gostaria de colocar que houve uma observação feita pelo Deputado Roberto Jefferson citando o meu nome, e eu não levantei o art. 14 porque queria falar na minha inscrição. Aqui ninguém é melhor ou pior do que ninguém, só que a posição é diferente. O senhor está senado na cadeira como investigado. Essa é a diferença.

O senhor está colocado na cadeira como investigado por causa de uma fita gravada onde temos...

Sr. Presidente, vou interromper, porque ou ele vai ter o atendimento ambulatorial ou ele vai prestar atenção no...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – O Deputado Roberto Jefferson está prestando atenção, Senadora. Ele só pediu um colírio.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Já perdi tempo com isso.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Então, por favor, Senadora Ideli.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Porque na fita gravada são várias as citações. Várias. Não vou repetir porque todo mundo já ouviu à exaustão: de que era uma equipe, que ele participava, que ele acobertava, que ele se comunicava permanentemente, que era ele orientava, tudo isso está à exaustão naquela fita de quase duas horas.

Deputado Roberto Jefferson, o senhor não tinha relações com o Marinho? O senhor não tinha relações com o Marinho? Estou perguntando.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – (Inaudível. Fora do microfone.)

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Não, não. Quero que o senhor me responda já.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – (Inaudível. Fora do microfone.)

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Não, senhor. Aqui o senhor responde às minhas perguntas.

Então, Sr. Presidente, vou fazer como? Eu preciso dessa resposta para dar continuidade às minhas perguntas.

Ele pode até dizer que não quer responder. Agora, ele não vai responder na hora em que ele quiser!

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – (Inaudível. Fora do microfone.)

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, isso é inadmissível. Ele pode se recusar a responder, ele pode fazer o que bem entender, mas ele não pode responder na hora que quiser.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora Ideli,  gostaria que V. Exª continuasse, apresentasse as perguntas, e aí o Deputado Roberto Jefferson responderia.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, já que o depoente se recusa a responder, porque a relação está colocada à exaustão na fita, vou fazer mais uma pergunta: ele se encontrou, em dezembro de 2003, no aeroporto, com o Sr. Salmeron e o Sr. Maurício Marinho? (Pausa.)

Estou fazendo a pergunta. (Pausa.)

Quero as respostas, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora Ideli, faça as perguntas, e aí o Deputado Roberto Jefferson responde a todas elas.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Está anotando... Interessante.

No Ministério Público Federal o senhor disse que o seu genro, Marcus Vinícius, trabalhou com Henrique Brandão na Assurê Seguros, que ainda mantém relações comerciais e que é filiado ao PTB. Pergunto: quais são os negócios do Marcus Vinícius com Henrique Brandão? Marcus Vinícius nunca lhe falou do Molina? Nunca falou do Francisco Arrighi?

O senhor conhece Armando Virgílio dos Santos Júnior?

Quais as relações do Molina com o seu filho?

O senhor confirma o encontro com o Molina em Belém e que, nesse encontro, o Molina teria feito referência ao coronel Fortuna?

V. Exª conhece Marcelo Campos Neves?

Qual foi o dia que o senhor recebeu o Molina? Foi no dia 3 de maio? Foi nesse dia que houve a chantagem, a ameaça, o achaque por causa da fita? O Sr. procurou informações junto a Antônio Ozório sobre o Coronel Fortuna? Por que o Sr. não procurou o Marcos Vinícius, seu genro, que é amigo de Cristiano Brandão, que é sócio de Marcelo, que trabalhou em três gabinetes de Deputado do PTB e que é filho do Coronel Fortuna? V. Exª confirma que o Coronel Fortuna fez ameaças a Sr. Antônio Osório por ter perdido uma licitação nos Correios?

Agora quero as respostas, Sr. Presidente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – O Fortuna nunca ameaçou o Dr. Antônio Ozório. Eu não recebi nenhuma ameaça, nem achaque do Molina. Não conheço Marcelo Campos Neves. Conheci Molina em Belém, através de meu filho, que trabalha na Prefeitura com Duciomar, e ele não é amigo de meu filho. Meu filho é um menino de 27 anos, e ele é um homem de 60. Não tem nenhuma relação de amizade. Ele prestava uma assessoria em nome da Fundação Getúlio Vargas ao Governo do ex-Prefeito Duciomar do Município de Belém. Armando Virgílio é meu companheiro do PTB e foi indicado para a direção da Susep num acordo que fiz com Delúbio e Genoíno, para a Prefeitura de Goiânia. Armando Virgílio foi indicado por mim, por Jovair Arantes num acordo que fiz com José Genoíno, Delúbio Soares e José Dirceu para a eleição a coligação do PTB/PT no Município de Goiânia. O meu genro trabalhou durante 6 ou 8 anos, 6 anos como corretor com Henrique Brandão, que é meu amigo há 30. O Henrique foi padrinho dele de casamento e é meu amigo dileto, do peito, um amigo de quem gosto muito.

Se eu me encontrei com Salmeron e Maurício Marinho no aeroporto em 2003, sinceramente, Senadora, não me recordo disso.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Mas o Sr. usou isso no seu discurso no dia 17 de maio.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – A Srª falou Salmeron e Maurício Marinho.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Salmeron e Maurício Marinho.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Já me encontrei uma vez no aeroporto com Maurício Marinho, mas ele não estava com Salmeron.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Mas isso está no seu discurso.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não pode estar.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, não quero fazer mais nenhuma pergunta. Quero apenas fazer uma leitura de um documento, que depois vou encaminhar oficialmente, para que a CPI possa fazer a triagem, se tudo que está aqui, que me chegou é verdadeiro, porque, se isso daqui tiver pelo menos um percentual, 70%, de verdade, as relações do Sr. Marinho com o Sr. Roberto Jefferson, direta ou muito próxima a ele, poderá ficar comprovada. Peço um pouco de paciência.

“O Sr. Maurício Marinho freqüentou durante cerca de dois anos o curso de Administração Postal, administrado pela PUC do Rio em convênio com a ECT. Concluído o curso, foi admitido na ECT em 11/12/1978 na Diretoria Regional do Rio de Janeiro e transferido de imediato para a Diretoria Regional de Mato Grosso do Sul.

Trabalhou na regional de Mato Grosso do Sul até 9 de julho de 1980, quando foi transferido para a diretoria regional do Pará, onde foi chefe da Assessoria de Planejamento e Gerente de Serviços Gerais. Como Gerente de Serviços Gerais do Pará acabou se envolvendo em irregularidades administrativas com malversação do dinheiro público ao ser flagrado em 1984 utilizando uma equipe de empregados dos Correios, subordinados seus da área de Engenharia, Manutenção Predial, efetuando serviços de reforma na sua residência. Consta também que foi encontrado na sua residência, na mesma ocasião, aparelho de ar-condicionado da ECT, contendo a placa que o identificava como patrimônio da empresa. Em vista disso, para evitar situações ainda piores, rapidamente pediu demissão, desligando-se em 30 de dezembro de 1984. Passado mais de oito anos fora da ECT, acabou retornando aos quadros da empresa via acordo judicial, promovido pelo então Diretor Regional do Pará Waldemir Freire, ligado ao PTB, graças à sua vinculação pessoal e política a Roberto Garcia Salmeron, que naquela oportunidade ocupava o cargo de vice-Presidente da ECT. A vice-Presidência, órgão que desde 1997 deixou de existir na ECT, era responsável pela coordenação administrativa das diretorias regionais da empresa. Logo, o Sr. Salmeron, como Vice-Presidente, era o chefe imediato de Valdemir.

Marinho ficou no Pará de 3 de fevereiro de 1993, data de sua readmissão, até fevereiro de 1996, quando retornou para Mato Grosso do Sul, seu Estado de origem. Porém, depois de pouco mais de quatro meses, foi levado de volta para o Pará pelo Valdemir, ainda diretor naquele Estado, onde ficou como gerente comercial até outubro de 1997. Em novembro de 1997, foi transferido para Brasília e colocado à frente do Departamento Nacional de Treinamento da ECT, função em que permaneceu até abril de 2001.

Em 2001, o Valdemir, até então diretor regional do Pará, foi designado diretor regional da ECT no Rio de Janeiro, por indicação política do PTB, sob influência do Roberto Garcia Salmeron, ligado pessoal e politicamente ao Deputado Roberto Jefferson, que, na época, era diretor da Eletrobrás, cuja sede era no Rio.

De imediato, em maio de 2001, o Valdemir, novamente, levou o Marinho para trabalhar diretamente com ele na Diretoria Regional da ECT.

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente, o tempo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora Ideli só gostaria...

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, é relevante.

A SRª HELOÍSA HELENA  (P-SOL – AL) – Acho importante que ela fale tudo, porque a Abin descobriu agora quem eram essas pessoas. É importante.

O SR. (Orador não identificado) – Tudo é relevante.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Continua com a palavra a Senadora Ideli, concluindo.

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente, discordo, acho que a Senadora tem que cumprir o tempo. É um currículo, chega!

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado, já estamos concluindo. Também dei espaço para alguns parlamentares.

Continue, Senadora.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – De imediato, em maio de 2001, o Valdemir, novamente, levou o Marinho para trabalhar diretamente com ele na Diretoria Regional da ECT do Rio na função de coordenador regional de negócios, que é uma das funções de primeiro escalão nos Estados.

Durante sua passagem pelo Rio, Valdemir mantinha contatos regulares com Roberto Garcia Salmeron e com o Deputado Roberto Jefferson, encontro dos quais Marinho eventualmente participava.

Além de Marinho, Valdemir levou mais dois empregados para o Rio: o Sr. Fernando, que coordenava a área de tecnologia e engenharia, e o Sr. Paulo Maurício, para coordenar a área de licitações.

Durante sua estada no Rio de Janeiro, estava em andamento no Pará, origens do Sr. Valdemir, Fernando e Paulo Maurício, uma sindicância para apurar irregularidades em licitações e obras de engenharia. Essa sindicância culminou com a demissão em 8 de outubro de 2001, por iniciativa da empresa do Valdemir.

Marinho retornou para Brasília e permaneceu por três meses sem qualquer função de confiança. Valdemir retornou para a ECT em 4 de fevereiro de 2003 e, por decisão judicial, imediatamente foi cedido a Câmara Federal, onde atuou como assessor do Deputado Roberto Jefferson. Atualmente, Valdemir está cedido para Prefeitura Municipal de Belém.

Em 6 de agosto de 2003, por indicação do PTB, Deputado Roberto Jefferson, Marinho foi designado para coordenador nacional da Universidade dos Correios pelo Diretor de Recursos Humanos à época, Antônio Osório. Quando Antonio Osório foi transferido para a Diretoria de Administração, levou de imediato Marinho para o departamento de contratação e administração de material, onde ficou até 11 de maio de 2005.

O SR. (Orador não identificado) – É melhor trazer os arapongas da Abin, Sr. Presidente.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Portanto, Sr. Presidente, vou oficializar, por meio de documento, o requerimento, para que todo esse histórico possa ser confirmado.

O SR. (Orador não identificado) – É assinado por quem, Sr. Presidente?

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Eu vou assinar e solicitar para que possam ser verificadas todas essas informações.

O SR. (Orador não identificado)   Quem lhe mandou? A Abin?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra, a Senadora Ideli.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Sr. Presidente, esse tipo de provocação não leva a nada se quisemos, efetivamente, investigar. Volto a dizer que esta CPI...

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente a Senadora já leu o documento que tinha que ler.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora, conclua.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Se eles me deixarem falar, eu posso concluir.

O SR. (Orador não identificado) A Senadora já tinha que ter concluído.

O SR. (Orador não identificado) A Senadora nunca respeita o tempo, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Senadora, conclua, por favor.

A SRª IDELI SALVATTI (PT-SC) – Esta CPI, o fato originador, aquele que lhe deu origem, é exatamente a fita, em que há uma suspeita, colocada na gravação, de envolvimento de um esquema relacionando o Sr. Roberto Jefferson e o Sr. Marinho. Portanto, não sei se isto aqui é verdade ou não. Estou pedindo que a CPI investigue, porque, se pelo menos uma boa parte disso for verdade, fica confirmada a relação do Sr. Marinho com o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Encaminhe então à Mesa da CPI, por favor.

Com a palavra o Senador Sérgio Guerra.

O SR. SÉRGIO GUERRA (PSDB-PE) – Sr. Presidente.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. SÉRGIO GUERRA (PSDB-PE) – Sr. Presidente, só conta o tempo quando começar o silencio. Senão não conta.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. SÉRGIO GUERRA (PSDB-PE) – Sr. Presidente, Deputado Roberto Jéferson, meus Srs. Deputados e Deputadas, Senadores e Senadoras.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Por favor, assessoria técnica do Senado marcando tempo.

O SR. SÉRGIO GUERRA (PSDB-PE) – A partir de agora.

Sr. Presidente, estamos hoje num momento importante desta CPI, por mais que se deseje, por mais que se deseje desqualificar o depoente, o Deputado Roberto Jéferson, essa tentativa é absolutamente inócua. Não sou é, não é a Senadora Ideli e nem o Deputado Maurício Hands ou o Deputado do Rio Grande do Sul que falou de forma incisiva, Henrique Fontana, nenhum de nós está em condições de desqualificar a personalidade e a presença, nesse processo, do Deputado Roberto Jéferson, por uma razão muito simples, porque a sua presença e a sua palavra já desequilibrou muita coisa.

Vamos ser sinceros, não adianta ficar tapando o céu com o peneira,  não fosse a palavra do Deputado do Roberto Jéferson não haveria esta CPI, não haveria toda essa confusão instalada, um Governo perdido, rigorosamente perdido, um Presidente que diz uma coisa hoje, outra amanhã, uma desordem política integral. Sem dúvida, para tudo isso, podem gostar ou não do Deputado Roberto Jéferson, isso aconteceu em face por conta do que ele disse. Como desqualificar a palavra do Deputado Roberto Jéferson se eu compro o jornal de manhã, leio uma acusação à diretoria de uma empresa estatal de grande porte, e no outro dia ou no mesmo dia o Presidente da república demite essa diretoria? Não terá sido porque ele confia na diretoria, mas seguramente porque ele desconfia que o Deputado Roberto Jéferson trem razão. No mínimo. Ele pode saber que o Deputado Roberto Jéferson tem razão, como ele sabia do mensalão e não fez coisa alguma.

Esses são os fatos. Não adianta querer fazer em torno deles uma cortina de fumaça. Percebo um esforço enorme de reduzir tudo isso a uma fitinha. E ao Sr. Maurício que depois aqui, de uma maneira deplorável. Não é isso. Basta perceber o movimento que vem das ruas, o que estamos ouvindo nos aeroportos, em todos os lugares, por onde a gente anda. O que o Deputado Roberto Jéferson disse sobre o Congresso, de uma maneira especial sobre a Câmara, o que o Deputado Roberto Jéferson disse sobre administração de empresas estatais no Brasil foi relevante à vida pública brasileira.

Se tivermos juízo, se tivermos juízo um mínimo de compreensão, se enxergarmos um palmo além do nariz vamos atrás de dar conseqüência ao que ele disse e não a desqualificá-lo.

É uma atitude precária, elementar e pouco inteligente que vai afundar o Governo do Presidente Lula se o Presidente Lula, que acredito ser uma pessoa honesta, se o Presidente Lula quer governar o Brasil, como é o desejo da Oposição, do PSDB, do PFL, não tem golpista aqui, se o Presidente quer governar o Brasil, não permita esse tipo de encaminhamento.

Essa raiva precária, essa indignação para inglês ver, falsa indignação, não tem indignação nenhuma nessa atitude aqui. Tem que dar esclarecimento ao que foi dito, como desqualificar uma palavra que todos nós sabemos é real, essa história do mensalão. Qual o parlamentar que não sabia ou que não ouviu falar disso? Por que tanta hipocrisia? Querer explicar a atitude dos que vão para essas empresas estatais para fazer financiamento de Partido político. Onde termina, a gente sabe, o partido político e começa o patrimônio pessoal. Quem disse que isso é apenas para financiamento político, de Partido político?

E como é esse negócio? Eu nomeio um diretor, no outro dia eu consigo financiamento para o meu partido. Não é bem assim. Eu nomeio um diretor, consigo financiamento para o meu Partido, mas eu vou ter que tratar bem esse fornecedor que me ajuda depois. Poderei tratá-lo de forma correta ou incorreta. Temos que investigar isso; aprofundar isso. Agora, ficar aqui na fitinha, numa manobra pra reduzir esta CPI a nada, não vamos ficar.

Onde vamos botar essa tal diretoria de Furnas? Aqui? Nesta CPI restrita? Vamos ter que ampliá-la, queiram, ou não, petistas de todos os tipos, os bons e os maus. Porque há petistas nos quais eu acredito. Temos que trazer para cá essa questão de Furnas. Onde ela vai ficar? Não é relevante? Como não é? A diretoria foi demitida. Vamos ficar calados como se nada tivesse acontecido? Como se tudo fosse uma ficção? É apenas uma tentativa, uma manobra das elites. Quais elites? Que conversa é essa de elite?

Eu estava ontem aqui na rua. Eu fui para rua e vi aqui produtor rural. Pequeno produtor rural. O que eu ouvi de todo mundo foi: “Mensalão”! E um político respeitável quando apareceu lá, eu ouvi com muita intensidade o que não desejo ouvir: “Fora Lula!” Foi isso que eu ouvi de duas, três, quatro, cinco mil pessoas. Vamos fechar os olhos a isso? Fechar os nossos ouvidos?

Que grandeza é essa do PT? Que coragem cívica é essa? Quem é esse Dr. Delúbio, essa personalidade esquisitíssima no nome e na prática? Esse Dr. Silvinho? Esses caras estão fazendo o quê? Qual é o papel deles?

Como explicar as campanhas milionárias do PT da última eleição? Eu as denunciei aqui no plenário do Senado porque eu vi em todo lugar. Que conversa é essa? Vamos aos fatos e deixar desqualificar quem contribuiu. Eu não reclamo pelo que disse até hoje o Deputado Roberto Jefferson; eu reclamo pelo que ele ainda não disse porque eu tenho certeza, não estou prejulgando, que se ele quiser dizer mais saberá o que dizer e vai dizer, como disse até agora, coisas verdadeiras.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado José Eduardo Cardozo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Sr. Presidente e Sr. Deputado Roberto Jefferson, inicialmente eu gostaria de dizer a V. Exª que eu me surpreendi com a interessante análise feita pelo nobre depoente relativamente ao sistema eleitoral e à estratégia com que os partidos desenvolvem a ocupação ou a indicação de pessoas para cargos públicos. Realmente acho que foi bastante reveladora até porque o Deputado Roberto Jefferson, de certa maneira, já havia revelado essa estratégia.

Na entrevista para Folha de S.Paulo ele revela que utilizou a indicação do Presidente do IRB, pelo Partido que comandava, para solicitar que pessoas contratadas pelo IRB fizessem uma arrecadação de campanha para o partido que ele, Deputado Roberto Jefferson, preside.

A primeira pergunta que faço ao nobre depoente é a seguinte: a nomeação do Sr. Osório para os Correios seguiu essa mesma estratégia, ou seja, captar recursos financeiros para campanha?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Segunda pergunta, Deputado.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Sr. Presidente, questão de ordem, sem a contagem do tempo.

Sr. Presidente, é pacífico, na jurisprudência, que o depoente, quando investigado... 131, Deputado. ... que ... V. Exª confia no Regimento que tem, Deputado. Aliás, o Deputado Antonio Carlos Magalhães parece que quer tomar o lugar de V. Exª.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL-AL) – Se for por Regimento, V. Exª já cria um problema porque é suplente. Então vamos acabar com o Regimento e deixar todo mundo falar.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Os suplentes podem falar, Deputada, pelo Regimento. Desculpe.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Mas todos estão falando.

Senadora Heloísa.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL-AL) – Não. Primeiro os titulares.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Desculpe.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Mas todos estão falando.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Não foi o acordo que fizemos, inclusive com a presença de V. Exª.

O SR. (Orador não identificado) – Presidente?

O SR. (Orador não identificado) – Garanta a palavra para o Deputado, Presidente!

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Por favor! Deputado Eduardo Cardozo, por favor!

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – A questão de ordem que faço... Não, o tempo, eu peço que descontem porque estou levando a questão de ordem.

É pacífica a jurisprudência, Sr. Presidente, que o investigado pode se recusar a responder. É verdade. Nesse ponto pode se recusar a responder. Porém, nunca pode o depoente definir o momento em que responde. Porque, é óbvio, aquele que faz a argüição define a estratégia da argüição; ele não pode dizer que responde depois, que responde antes. E não é porque o Deputado Roberto Jefferson tem mandato que ele deverá ser tratado diferentemente de qualquer depoente. A Lei é igual para todos.

Portanto, a admitir-se essa tese de que o depoente escolhe a hora que responde, Senhores, paremos com as CPIs, porque todo aquele que vai argüir terá que previamente revelar sua estratégia à Comissão. É a questão de ordem que faço a V. Exª e encaminho no seguinte sentido...

O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL-PI) – Para contraditar questão de ordem, Sr. Presidente.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP)Só um minuto, Senador. Não acabei ainda.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado José Eduardo Cardozo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – A questão de ordem, Sr. Presidente...

O SR. (Orador não identificado) Questão de ordem, Sr. Presidente, art. 53 da Constituição.

Uma questão de ordem, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado José Eduardo Cardozo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Não há questão de ordem sobre questão de ordem. Estou fazendo questão de ordem.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL-AL) – Não é questão de ordem; é Regimento.

O SR. (Orador não identificado) Não há questão de ordem sobre questão de ordem.

Sr. Presidente, é o art. 53. Se V. Exª não aceitar...

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Estou fazendo uma questão de ordem, Sr. Presidente. O Deputado...

O SR. (Orador não identificado) Mas, é uma questão de ordem...

O SR JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) Sr. Presidente?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-AM) –  V. Exª pode contraditar, não levantar questão de ordem.

O SR. (Orador não identificado) Garante a palavra do Deputado José Eduardo Cardozo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado José Eduardo Cardozo com a palavra.

O SR JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – O legítimo de defesa permite a recusa a falar, mas, não a definição do momento em que se responde.

Nessa linha, Sr. Presidente, a minha questão é a seguinte: se o Deputado não quiser responder na hora em que faço a pergunta, que conste que ele se recusou a responder, e o Relator fará a avaliação do sentido probatório da recusa da resposta. Mas, não se pode obrigar ao argüidor ou inquisidor que revele todas as perguntas, se ele assim não o quiser, para uma resposta global.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado José Eduardo Cardozo, ficará registrado. Caso o depoente não responda, ficará registrado.

Concedo a palavra ao Deputado José Eduardo Cardozo, para que continue com a argüição.

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, peço a palavra para contraditar.

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente, questão de ordem, art. 53 da Constituição.

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente, garanta a palavra ao Deputado José Eduardo Cardozo. Há Deputados que não querem deixá-lo falar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado José Eduardo Cardozo, continue a argüição.

O SR. (Orador não identificado) É questão de ordem, Sr. Presidente. Isso é regimental.

O SR. (Orador não identificado) Ele fez uma questão de ordem...

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente, garanta a palavra ao Deputado José Eduardo Cardozo. Há Deputados que não querem deixá-lo falar.

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente, a contradita é regimental.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL-AL) – Pelo amor de Deus!

(Intervenções simultâneas.)

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra ao Deputado José Eduardo Cardozo, para continuar a argüição.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Obrigado, Sr. Presidente.

O SR. (Orador não identificado) É uma questão de ordem, Sr. Presidente. V. Exª pode não aceitá-la, mas, é questão de ordem, Sr. Presidente.

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, a Oposição não quer que o Deputado José Eduardo Cardozo fale.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado José Eduardo Cardozo com a palavra.

Por favor, peço a Vossas Excelências...

Estamos conduzindo os trabalhos com muito cuidado. Ainda há muitas pessoas para falar. As coisas estão colocadas, estão esclarecidas, e a palavra está com o Deputado José Eduardo Cardozo.

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, é regimental....

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, V. Exª pode não aceitar, mas é regimental.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra assegurada o Deputado Eduardo Cardozo.

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, é cerceamento de questão de ordem. É matéria constitucional, é regimental.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Agradeço, Sr. Presidente.

Sr. Presidente, não falo na vez de ninguém. Por que interrompem quando eu falo? Sou tão quieto, tão paciente. Não é justo que não possa falar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado José Eduardo Cardozo.

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, é para esclarecimento do Deputado José Eduardo Cardozo...

O SR. (Orador não identificado) É uma tática. Sr. Presidente, para não deixar o Deputado José Eduardo Cardozo falar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral, PT-MS) – Deputado Eduardo Cardozo com a palavra.

O SR. (Orador não identificado) Essa é a tática da Oposição. Não querem que ele fale.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Agradeço, Sr. Presidente.

Deputado Roberto Jefferson,...

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, registrado o protesto, É o segundo protesto contra a direção do trabalho a V. Exª.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – A pergunta que faço ao depoente é a seguinte: Deputado Roberto Jefferson, a nomeação que V. Exª fez do Sr. Osório atendeu a essa estratégia revelada por V. Exª de buscar captar recursos eleitorais?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) Está registrado, vou responder depois.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Peço que conste, então, que não foi respondida a pergunta, Sr. Presidente.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) Eu vou responder.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Desculpe, mas, a argüição está comigo.

O SR. (Orador não identificado) Sr. Presidente, está...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral) – Por favor, Deputado José Eduardo Cardozo prossiga. Não foi respondida. Por favor.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ)Agradeço, Sr. Presidente, a pergunta.

O SR. (Orador não identificado) – Será respondida posteriormente.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – A segunda pergunta que faço, Sr. Presidente, é se o depoente tem um genro chamado Marcus Vinícius. (Pausa.)

Não respondida, Sr. Presidente.

A terceira pergunta que faço: qual a razão pela qual o Sr. Marcus Vinícius dirigia telefonemas ao Sr. Marinho para que ele atendesse empresários. Se ao ver do depoente isso está dentro dessa estratégia de captação de recursos para a campanha, para um atendimento privilegiado de certos empresários. (Pausa.)

Pergunta não respondida, Sr. Presidente.

Pergunto se o genro do Deputado depoente é sócio ou não da Assurrê, com o Sr. Henrique Brandão, que é, na verdade, pertencente também ao Sr. Henrique Brandão. Quero saber se ele é sócio, porque essa empresa está sendo acusada de ser beneficiada pelo IRB, na perspectiva de, obviamente, haver algum tipo de remuneração indevida a esta empresa, que é um broker. Disse o próprio Deputado Roberto Jefferson que tinha pedido ao Presidente do IRB que reunisse uns brokers para conseguir capitação de recurso de campanha. O broker é quem faz a intermediação do resseguro. Para meu espanto, porque eu não conhecia isso, o IRB escolhe livremente os brokers, sem nenhum tipo de critério isonômico, e são operações de milhões que são feitas.

Portanto, a questão que faço ao Deputado Roberto Jefferson é a seguinte: essa obtenção de recurso de campanha feita a partir de brokers não é uma forma de corrupção escancarada no IRB? Pergunta não respondida, Sr. Presidente.

Outra pergunta. Do ponto de vista objetivo, legal e ético, não há nenhuma diferença entre o “mensalão”, dito pelo Deputado Roberto Jefferson, e os R$4 milhões recebidos por ele. Vamos dar por verdadeira a versão dele, porque, do ponto de vista legal, o pagador é o mesmo, o banco é o mesmo, o financiador é o mesmo, e o propósito do “mensalão” não sei se é eleitoral ou não, pode até ser. Portanto, entre “mensalão” e os R$4 milhões, efetivamente, parece que não há grande diferença. Poderia até chamar os R$4 milhões de “semestrão”, porque aquilo que, na versão do Deputado Roberto Jefferson, alguns querem receber em parcelas, ele conseguiu receber no todo.

Então, a pergunta que faço, Deputado, é a seguinte, tomando-se por pressuposto... Eu falei claramente, Deputado Antonio Carlos Magalhães, tomando-se a versão dele... A partir da versão dele, o Sr. Múcio disse que não foi repassado... O Sr. Múcio disse que não foi repassado para nenhum Deputado do PTB o “semestrão”... Líder do PTB... A pergunta que faço é: o senhor Múcio mentiu ou V. Exª, dentro da sua versão, ficou com o dinheiro? Pergunta não respondida, Sr. Presidente.

A outra pergunta: o Sr. Múcio negou que tenha havido uma votação na Bancada do PTB sobre se deveria receber o “mensalão” ou não. O Sr. Múcio mentiu? Porque o Deputado, na Comissão de Ética, declarou, textualmente, que houve uma votação da Bancada do PTB. Mente o Líder do PTB ou mente o depoente? Pergunta não respondida, Sr. Presidente.

O Sr. Múcio declarou que nunca foi pressionado por Pedro Henry e Valdemar Costa Neto a aderir a um suposto “mensalão”. Mente o Sr. Múcio ou mente o depoente? Resposta não feita, Sr. Presidente.

O Deputado Roberto Jefferson disse, quando perguntado por mim, na Comissão de Ética, que não depôs na Comissão de Sindicância da Câmara, aberta pelo Deputado João Paulo Cunha, a partir de denúncia feita pelo...

O SR. ONYX LORENZONI (PFL-RS) (Inaudível. Fora do microfone.)

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – É isso o que eu vou falar, Deputado. V. Exª pode deixar que o Deputado Roberto Jefferson responde... V. Exª responder fica ruim, Deputado, antes. Disse que não depôs na sindicância porque houve 45 minutos, apenas, a sindicância. Eu tenho aqui, em mão, a cópia da sindicância, e não demorou 45 minutos, Deputado Roberto Jefferson. Lamento informar que V. Exª faltou com a verdade. Ela foi aberta no dia 24 de setembro, pelo Presidente João Paulo Cunha, e foi encerrada ou houve a proposta de arquivamento no dia 6 de outubro. Houve, portanto, tempo suficiente para que V. Exª subisse as escadas da Câmara dos Deputados e pudesse, evidentemente, prestar o depoimento. V. Exª tem algo a comentar a respeito? Pergunta não respondida, Sr. Presidente.

O Sr. Declarou que o senhor Osório é amigo e companheiro...

O SR. (Orador não identificado) – O tempo, Sr. Presidente, o tempo...

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – ...e que, freqüentemente...

Sr. Presidente, foi a questão de ordem que eu fiz...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não, não foi passado. Houve várias interrupções. Eu dou mais dois minutos.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Obrigado.

O Sr. Roberto Jefferson disse ser amigo do Sr. Osório, a quem nomeou e eu me recordo de ele ter dito que encontra com ele freqüentemente. O Sr. Osório soube da fita no dia 3 de maio....perdão, o Deputado Roberto Jefferson soube da fita dia 3 de maio. O Sr. Osório disse que soube da fita no dia 13, às 17 horas. Entre o dia 3 e o dia 13, o Deputado Roberto Jefferson não teve nenhum contato com o Sr. Osório? Não falou da fita para o seu amigo?

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Pergunta não respondida, Sr. Presidente.

Há uma clara descoincidência entre o depoimento do Sr. Molina e o do Deputado Roberto Jefferson. O Sr. Molina disse que esteve com ele duas vezes... perdão, quatro vezes. O Deputado Roberto Jefferson disse que esteve duas. O Sr. Molina disse que esteve, além das vezes reveladas pelo Deputado Roberto Jefferson, uma vez em Belém – perdão, uma vez em Belém, confere com o Deputado Roberto Jefferson; no dia 3 em seu gabinete, confere com o Deputado Roberto Jefferson, mas disse que esteve uma vez em seu gabinete discutindo uma situação que envolvia a Prefeitura de Belém, que o Prefeito, na verdade, não recebia bem deputados etc, e uma outra vez que esteve na sua casa, no Rio de Janeiro, à noite, lhe entregando charutos.

A pergunta é: mente quem, o Sr. Molina ou o Deputado Roberto Jefferson?

Pergunta não respondida, Sr. Presidente.

Eu tenho mais perguntas a fazer, mas, infelizmente, eu respeito o tempo e a vez dos meus colegas. Portanto, deixo de fazê-las e vou me reinscrever ao final, talvez para fazer as perguntas e ouvir o silêncio do Deputado Roberto Jefferson, que, pelo jeito, teme responder perguntas quando lhes são incômodas.

O SR. (Orador não identificado) – Uma questão de ordem, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado José Eduardo Cardozo. Com a palavra Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sobre a primeira pergunta, Sr. Presidente, se o Dr. Antonio Osório soube de mim essa estratégia de arrecadação, soube. Eu pedi a ele que, se possível, na relação com algum empresário privado, que é uma coisa que tem que ser selecionada, amadurecida, ele pudesse, no final, nessa relação, ajudar o caixa oficial do meu Partido, o Partido Trabalhista Brasileiro.

Marcus Vinícius é meu genro, casado com minha filha Fabiana, já me deu três netos: o Vítor, com 6 anos; o Arthur, com 4 anos; e o Bernardo, com 1 ano de idade. Se ele dirigia telefones à Marinha, V. Exª é que está dizendo, eu não tenho nenhuma informação disso. “Seu genro é sócio da Assurê.” Nunca foi. Ele foi empregado do Henrique Brandão durante seis anos. “Brokers de livre escolha do IRB.” É verdade. O IRB é que escolhe. Isso é o forte da democracia. A democracia é social e econômica. Se os grupos forem sempre os mesmos...por exemplo, os banqueiros que eram do Fernando Henrique continuam agora no PT. Isso é que está ruim. Por isso é que temos essa passeata de agricultores aí, porque mandavam no Governo do Fernando Henrique os banqueiros, continuam mandando no Governo do Presidente Lula. Essa é a desgraça.

Se a gente pudesse influir para tirar os banqueiros e botar um capitão de indústria no Ministério da Fazenda, era melhor para o Brasil. Essa é uma tese que temos que enfrentar aqui. E no IRB é de livre escolha. Nos Correios, não. E a Novadata, empresa do amigo do Presidente Lula, manda lá. É corrupção, Deputado? Esse pessoal não enxerga o rabo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Não respondido.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Livre escolha do IRB – palavras de V. Exª. É verdade, o Henrique Brandão cresceu 3,6% naquele contexto.

Gostei que V. Exª admitiu o “mensalão”. Pelo menos foi o primeiro do PT que teve coragem de dizer isso aqui. Gostei. Foi a primeira vez que alguém do PT assumiu. Eu não sei se são ecos da Veja que “O Mensalão da perua’,denúncia de suborno de Vereador paulistano durante gestão de Marta Suplicy, pedido de instalação de CPI”... Se a Veja vale para mim, vale para o Partido de V. Exª também.

O Múcio. Não foi repassado semestrão. Está absolutamente combinado comigo. Ele não sabe para quem eu dei e se dei. E eu não digo a ninguém, nem a ele porque não vou prejudicar meu Partido e companheiros inocentes. Ele tem razão quando afirma isso. Não houve uma votação na minha Bancada. No princípio do legislativo passado, quando essa questão do mensalão tomou conta da Casa – e há aqui ex-Deputados, companheiros meus, que estão em outros partidos, mas que são homens de bem –, coloquei isso em debate. Eu estava na reunião e começou: ah, o pessoal do PP tem, do PL. Eu digo: “Aqui, não. Eu não vou dar. Aqui, não vou dar. Não vou me chafurdar nisso. O mensalão escraviza e desmoraliza. Não vou fazer.” Acordo com o PT, financiamento para as nossas coligações, eu fiz. Não é Deputado Bittar? Eu fiz. É claro que fiz. Não é, Senadora Ideli? Fiz acordos com ela também lá em Santa Catarina. Fiz acordos lá no Rio com o Sr. Bittar. Na coligação, fizemos mesmo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Que tipo de acordo que envolveu dinheiro?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Político.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Ah, político.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Com V. Exª, não.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – O senhor apoiou a minha candidatura, é isso?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim, mas com V. Exª, não. Estou só esperando V. Exª chegar. Estou ansioso que V. Exª venha me fazer perguntas. Eu, aqui, na expectativa de encontrá-lo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Estou absolutamente tranqüilo, Deputado Roberto Jefferson. Já ouvi de V. Exª muitos elogios à minha retidão de princípios.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Sim, ansioso por ouvi-lo.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado Roberto Jefferson.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Não, deixa eu terminar...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) Eu disse Roberto Jefferson com a palavra.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – ...para ele não achar que eu não respondi, porque senão ele vai chorando para casa: “Não fui respondido”. Aquele choro que a gente conhece do PT.

O Deputado José Múcio declarou não ter sido pressionado. Eu digo que foi. Só que o Múcio não sou eu. Ele não quer romper com as relações que tem. Ele já me disse que, depois, não sabe como encontrar com essas pessoas e conversar. Eu rompi. É um problema dele. Eu afirmo o que disse: “O Osório é amigo e companheiro do peito.” “Encontra freqüentemente?” “Sim.” “Falou sobre a fita com o Osório?” Não falei, porque, nesse interregno, até a publicação dela, não encontrei o Osório e não maldei a conversa do Molina. Eu o achei 171.

Deputado, respeito V. Exª, professor universitário, procurador municipal. Tem currículo. E faço o seguinte: eu distingo os erros da direção dos homens do partido. Não sou como V. Exª, que generaliza.

Quando conversei com o Osório, foi na véspera da publicação da revista. Já estava no site; nós tínhamos a informação. Vim para Brasília, fui para a casa do Salmeron e assisti com ele à fita, no domingo, detalhadamente. Não tratei da fita antes com ele. Por quê?

Quando conheci o Sr. Molina, que não esteve no meu apartamento – ele mandou pela portaria uma caixa de charutos, que não fumei, porque não fumo –, quando conversei com o Molina em Belém, ele usou o pior expediente que existe para se aproximar de uma pessoa. Ele quis falar de intimidade de mulheres. O tipo do cara escroto, me perdoem o termo não-regimental. Escroto! Sentou-se comigo e quis falar de uma pessoa pela qual sempre tive respeito e consideração. Insinuante. Morreu para mim. Morreu. Eu vi que era boquirroto, lobista, aqueles caras que querem vender facilidades e entrar na intimidade das pessoas. “Sou comandante”. A única coisa respeitável que ele ostentava para mim era ser consultor da Fundação Getúlio Vargas e comandante da Marinha, que ele dizia que era. Já descobri que comandante da Marinha ele não é. Mentira. É falso. Tenho aqui um manifesto da Marinha, dizendo que ele foi professor da escola de 2º Grau, de 1978 a 1980, e usa a carteira de ex-professor para se dizer comandante. É não é.Então, achei uma figura horrorosa!

Quando ele veio conversar comigo pela segunda vez, não me extorquiu. Tudo dele é insinuado. Não botei fé, Deputado. Não botei. Achei ele tão frágil, tão vagabundo, tão sem essência, que não botei fé. Por isso não fui ao Osório tirar o sossego dele: “Osório, me apareceu aqui um tal de comandante Molina.” Não fiz isso! Como não chamei a Segurança da Câmara para prendê-lo... Poderia ter feito, mas não me ocorreu, porque achei tão inconsistente... Ele não me achacou, ele não me extorquiu, ele não me chantageou. Pelo contrário, ele disse: “Esses empresários têm uma fita e querem negociar com o senhor”. Eu usei termos não regimentais com ele para ele fazer um uso da fita, e pedi que saísse do meu gabinete. Achei que era um lobista vagabundo, como outros lobistas vagabundos já me procuraram, e tratei assim. Só o recebi porque o Senador Ney Suassuna me ligou cinco ou seis vezes pedindo para recebê-lo: “Osório é amigo, companheiro, pepepé...”.

Molina, duas vezes no gabinete. E a caixa de charutos, ele não esteve na minha casa, deixou. Moro no Hotel Barra Leme, na praia do Pepê, no Rio de Janeiro, e ele deixou na portaria do prédio. Ela foi levada ao meu apartamento com um cartão dele, e sequer devolvi a ligação para agradecer.

O SR. GUSTAVO FRUET (PSDB-PR) – Uma questão de ordem, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Questão de ordem, Deputado Gustavo Fruet.

O SR. GUSTAVO FRUET (PSDB-PR) – Sr. Presidente, invocando o art. 403, V. Exª pode não aceitar a questão de ordem, mas..

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Aqui, uma informação que saiu no Jornal Nacional, agora: o Sr. Marcos Valério, no dia 19 de agosto, sacou R$150 mil do Banco Rural, no Brasília Shopping. Agora, acabou de sair no jornal. No Banco Rural, no Brasília Shopping, o Sr. Marcos Valério, no dia 19 de agosto do ano passado, sacou R$150 mil em dinheiro. É a primeira informação sobre essa agência.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Gustavo Fruet.

O SR. GUSTAVO FRUET (PSDB-PR) – Quando pedi a questão de ordem, Sr. Presidente, com todo respeito e urbanidade, e por isso faço o segundo registro de protesto, com todo respeito a V. Exª, foi porque, ontem, eu já havia protestado. Falei com V. Exª após a reunião, e, hoje, eu o faço em público.

Não se pode admitir que se vença no grito. A questão de ordem, V. Exª pode não aceitá-la, mas não pode cercear a possibilidade de ser questionada. E era oportuna, como é agora, porque há razão quando se afirma que a pessoa que está depondo aqui, seja na condição de investigado, testemunha ou indiciado – e não é o caso do Deputado Roberto Jefferson, que está aqui na condição de testemunha, como todos que estão sendo chamados e convocados a esse depoimento –, seja como for, é Deputado Federal e, portanto, aplica-se a possibilidade do direito ao silêncio, a possibilidade de se recusar a falar, mas, além disso, leio o art 53 da Constituição: “Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos.”

Sem entrar no mérito da posição por ele tomada, ele é inviolável. Isso é imunidade parlamentar, e é inadmissível transformar isso numa Santa Inquisição. Os questionamentos podem ser duros e contundentes, mas jamais no aspecto inquisitorial e de Santa Inquisição, e cerceando a possibilidade de um Deputado parlamentar usar da sua imunidade. Irá responder politicamente por isso, mas não pode ser pressionado e ser obrigado a dar a resposta.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Questão de ordem, Sr. Presidente.

A questão de ordem... Agora, houve uma questão relevante.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL-AL) – Qual é o artigo? Pergunte o artigo, Presidente, porque vai ficar brincadeira. Qual é o artigo?

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – É o mesmo artigo 131.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL-AL) – Qual é o artigo? Pergunte qual é o artigo.

O SR. (Orador não identificado) – Estão usando esse 131 sem fundamento, Sr. Presidente.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL-AL) – Virou brincadeira!

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – É o 131, Sr. Presidente.

O SR. (Orador não identificado) – V. Exª me desculpe, mas o Deputado José Eduardo Cardozo está abusando do art. 131.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Não, me permita. Houve uma questão suscitada.

O SR. (Orador não identificado) – De novo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – No começo, pelo que eu bem depreendi, V. Exª disse que ele estava depondo na condição de investigado.

O SR. (Orador não identificado) – Não, não.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não, não foi dito isso.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Não? Então é testemunha?

O SR. (Orador não identificado) – Não disse nada. Não houve nenhuma afirmação.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Então, terá que assinar o termo de testemunha.

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) – Nem pode dizer.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Não foi dito, Deputado.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Me perdoe, Senador Pedro Simon. Na verdade, na definição de uma CPI, se a pessoa é investigada ou testemunha, conforme já debatemos aqui, é de condição fundamental para o enquadramento.

É bem verdade que o Deputado Roberto Jefferson goza de imunidade quanto à palavra. É verdade.

O SR. (Orador não identificado) – Ele não é investigado, não.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Porém, a condição...

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) – O Deputado está sendo investigado na Comissão de Ética da Câmara. É uma coisa.

O SR. (Orador não identificado) – Aqui, não.

O SR. (Orador não identificado) – Exatamente.

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) – Aqui, ele está como testemunha. Uma coisa não tem nada a ver com a outra coisa.

O SR. (Orador não identificado) – Exatamente. O Senador Pedro Simon está corretíssimo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Então, que o Presidente defina. Que o Presidente defina a condição para que nós saibamos a que título ele comparece aqui.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Aqui, ele está como testemunha, Deputado José Eduardo Cardozo.

O SR. (Orador não identificado) – Aqui, como o homem que entregou o “mensalão” do PT.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Veja por que, Presidente.

Há uma questão, Senador Pedro Simon: testemunhas não podem ser orientadas por advogados durante o depoimento. De acordo, Senador Pedro Simon? Ele está conversando com o Deputado o tempo inteiro.

O SR. (Orador não identificado) – Ele está aqui como o homem que entregou o “mensalão”.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Eu não levantei essa questão...

O SR. (Orador não identificado) – O Deputado José Eduardo Cardozo quer impedir o funcionamento desta reunião, Sr. Presidente.

(Tumulto no recinto.)

O SR. (Orador não identificado) – Já estiveram aqui acompanhados. Todos já estiveram aqui. Todos já estiveram aqui.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – Ele não pode conversar. Testemunha... Senhores, é uma questão legal. Testemunha não pode ser orientada por advogado. Depoente, quando é investigado, no exercício de defesa, pode. Foi porque tive a impressão falsa de que estava sendo investigado que não argui o fato de o Deputado Roberto Jefferson conversar o tempo inteiro com os advogados. E cobrei à Deputada inclusive quando levantou; o depoimento será nulo, se for testemunha, porque conversou com os advogados o tempo inteiro, inclusive consultou.

O SR. (Orador não identificado) – Deputado José Eduardo, tem que ser anulado o depoimento do Deputado Roberto Jefferson.

O SR. JOSÉ EDUARDO CARDOZO (PT-SP) – O que disse o Deputado Roberto Jefferson até agora? O Brasil não ouviu nada; é nulo o depoimento.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Gustavo Fruet.

O SR. (Orador não identificado) – Suspende a demissão de Furnas; suspende a demissão de José Dirceu.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Com a palavra o Deputado Gustavo Fruet.

O SR. GUSTAVO FRUET (PMDB-PR) – Sr. Presidente, primeiro, mais um esclarecimento. Há uma preocupação muito grande com a intervenção de advogados. Não vejo o porquê desse receio. Não há restrição constitucional. Pelo contrário, há alegação inclusive de inconstitucionalidade de vários regimentos e de vários procedimentos em comissões parlamentares de inquérito...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Gustavo Fruet, quero registrar que V. Exª está com a palavra mesmo, por dez minutos.

O SR. GUSTAVO FRUET (PMDB-PR) – Sr. Presidente, eu reconheci e comecei com isso. Entendo, e estou entrando nesse dispositivo para deixar registrado, que não se pode cercear e não se pode ter medo de os advogados intervirem, até para não caracterizar cerceamento. Não há por que esse receio.

De forma objetiva, uma pergunta e uma observação que cabe o registro político: peço ao Deputado Roberto Jefferson para explicar mais uma vez a questão do despacho que permitiu à Polícia Federal entrar ou invadir – como foi a expressão que V. Exª utilizou – a residência da sua filha, e pergunto se essa decisão foi emanada pela 10ª Vara da Justiça Federal de Brasília.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – Tenho a cópia do mandado.

O SR. GUSTAVO FRUET (PMDB-PR) – V. Exª tem o nome do Juiz ou da Juíza?

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ) – É a Juíza. Tem o Juiz Substituto que começou. Na casa da minha filha, foi a Juíza Titular – não me recordo do nome dela. Quero dizer a V. Exª que ela teve a leviandade de, não sabendo onde morava a minha filha, mandar invadir, por homônimo, o apartamento de um rapaz, em Petrópolis, que trabalha no Rio com a esposa, no Valparaíso, que é do outro lado da cidade onde mora minha filha, que mora no Retiro. O rapaz chama Marcos Silva Vasconcelos; meu genro: Marcus Vinícius Vasconcelos Ferreira. Ela mandou arrombar o apartamento desse Marcos  Silva. Quer dizer, uma atitude açodada, não investigada. Um absurdo! Quando a Polícia Federal viu que não era o apartamento do Marcus Vinícius saiu e foi para a casa da minha filha, aí, sim, no Retiro . Chegaram lá à uma hora da tarde.

O apartamento desse rapaz Marcos Silva Vasconcelos foi invadido às 11 horas. Quando constataram o absurdo do mandado ... Porque ela está em Brasília, quer fazer gracinha lá em Petrópolis... Devia pendurar uma melancia no pescoço. Aí o que ela fez? Foram à casa do meu genro: seis policiais federais, o delegado e um procurador. Estavam em casa: minha filha, o Bernardo, o caseiro e a empregada. Uma hora da tarde, eu ia chegando para depor e a mãe dos meus filhos me ligou dizendo: “Vou para a casa da Fabiana que tem uma turma da Polícia Federal lá”. Saíram de lá às 19 horas, à noite. Foi bom porque me deu mais força para fazer o que fiz naquela Comissão de Ética. Eles me ajudaram. Agradeço a ela a atitude leviana que tomou, porque ela me deu força para aquele depoimento que fiz na Comissão de Ética, dia 14. Obrigado, doutora. Quero agradecer ao Valdemar, e quero agradecer à colega do Valdemar agora.

O SR. GUSTAVO FRUET (PMDB-PR) – Sr. Presidente, essa informação é muito grave. Partindo do pressuposto – não tenho o nome da Juíza que deu o despacho – é o primeiro requerimento que faço, para que seja solicitado pela CPMI esse despacho, porque a titular da 10ª Vara da Justiça Federal de Brasília é a Drª Maria de Fátima de Paula Pessoa Costa. Falo isso com o maior respeito ao Judiciário, com muito cuidado. Não podemos colocar em dúvida as decisões do Judiciário e a ação da Polícia Federal no Brasil, que têm que estar a serviço do Estado e do interesse público e não de governo. Mas, coincidentemente, se for essa Juíza, o esposo dela é o Dr. Álvaro Ribeiro da Costa, Advogado Geral da União, nomeado pelo Presidente Lula. Isso é muito sério. Se se confirmar, é mais do que uma coincidência que merece averiguação, com todo respeito à Justiça Federal do nosso País.

O SR. ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ)Mas é ela mesma, da 10ª Vara. Vou trazer o mandado.

O SR. GUSTAVO FRUET (PMDB-PR) – Esse é o primeiro requerimento.

A segunda observação é para o registro político, também fundamental numa CPI. Aqui não se trata do bem contra o mal, é ter algo meio sartriano; há vítimas e cúmplices nesse processo, e o Governo por vezes insiste num erro de querer legitimar, com erros do passado...

O SR. (Orador não identificado) – É o aparelho de Estado.

(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)

O SR. GUSTAVO FRUET (PSDB-PR) – ...querer legitimar um ato de desvio ou até de corrupção, por ter acontecido no passado; querer desqualificar o Deputado Roberto Jefferson por ter sido denunciado ou, supostamente, estar envolvido com pessoas que foram denunciadas por atos de corrupção no passado. Um erro não legitima outro erro. Uma corrupção não vai legitimar outra corrupção. Nenhuma quadrilha criminosa no mundo foi desmantelada se não fosse por denúncia de um de seus membros e componentes. Por isso, inclusive, o Brasil aprovou a delação premiada e a proteção de testemunhas. É quando se quebra o código de silêncio da máfia, a lei da omertà. E, neste momento, estamos vendo uma sucessão de coincidências nessa corrente da alegria denunciada pelo Deputado Roberto Jefferson. Na primeira vez, quando ele citou o nome de Marcos Valério e essa operação, foi uma tentativa de desqualificação brutal em cima de um Deputado Federal no uso da imunidade parlamentar e com direito à exceção da verdade e à exceção de notoriedade. Depois dessa denúncia, passado pouco mais de duas semanas, está-se estabelecendo um elo com uma série de seqüências, denúncias e testemunhos que estão confirmando, em parte ou totalmente, as denúncias formuladas pelo Deputado Roberto Jefferson. Destaco isso, porque, em momento algum, ele está adotando um discurso hipócrita de que não soubesse, ou não tivesse conhecimento, ou de que o PTB não tivesse alguma relação junto ao Governo, que passasse também – sem entrar no mérito se isso é equivocado ou não – de indicação de pessoas para ocuparem cargos públicos no Governo Federal. É até algo para ser repensado diante da denúncia do Deputado Roberto Jefferson, diante da possibilidade de ser um divisor de águas, inclusive com a reflexão inteligente, aqui provocada por ele, do sistema político, do sistema eleitoral brasileiro e da necessidade de uma reforma política.

Portanto, não é o bem contra o mal. Não é 8 ou 80. É necessário que o Governo também tenha auto-crítica e faz-se necessário humildade junto ao PT, para passar por um processo de purificação. Na política