TRANSCRIÇÃO LITERAL DAS NOTAS TAQUIGRÁFICAS DA OITIVA DO DEPOENTE
Sr. ROBERTO KFOURI
(08/11/2005)

SENADO FEDERAL

COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DOS CORREIOS

DÉCIMA REUNIÃO DA SUB-RELATORIA DE CONTRATOS DA COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 52ª LEGISLATURA, CRIADA ATRAVÉS DO REQUERIMENTO Nº3/2005 DO CONGRESSO NACIONAL COM A FINALIDADE DE INVESTIGAR AS CAUSAS E CONSEQÜÊNCIAS DE DENÚNCIAS E ATOS DELITUOSOS PRATICADOS POR AGENTES PÚBLICOS DOS CORREIOS, EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELÉGRAFOS REALIZADA NO DIA 08 DE NOVEMBRO DE 2005 ÀS 14:00 HORAS.

SEGUE ABAIXO TRANSCRIÇÃO LITERAL:

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Declaro aberta a 10ª reunião da Sub-Relatoria de Contratos, da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, criada pelo Requerimento nº 3/2005, para investigar as causas e conseqüências de denúncias e atos delituosos praticados por agentes públicos nos Correios, Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.

Sobre a mesa, encontra-se a Ata da reunião anterior, a qual, de imediato, coloco em votação propondo a dispensa da leitura.

Os Srs. Parlamentares que concordam com a aprovação, permaneçam como se encontram. (Pausa.)

Unânime.

Aprovada.

Esclareço que a pauta da presente reunião destina-se à oitiva dos Srs. Roberto Kfouri e Américo Proietti.

Para dar seqüência à pauta, convido de imediato para tomar assento à Mesa o Sr. Roberto Kfouri, para que possa prestar os seus esclarecimentos. Se estiver acompanhado de advogado, este poderá também tomar assento à Mesa.

Acompanha o depoente Roberto Kfouri o Advogado Dr. Mário Menezes, a quem saúdo e agradeço a presença nesta reunião. Também agradeço a presença do depoente, Dr. Roberto Kfouri, a quem, de imediato, faculto a possibilidade de, querendo, fazer uso da palavra para uma exposição preliminar, facultativa, se assim o quiser, acerca, claro, dos fatos que ensejam a sua convocação a esta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito.

Tem V. Sª a palavra, se quiser dela fazer uso.

O SR. ROBERTO KFOURI – Boa tarde a V. Exªs.

Meu nome é Roberto Kfouri, sou brasileiro, Engenheiro, separado judicialmente, tenho uma vida pregressa, pelo menos nos últimos 20 anos, dentro da área de transporte e logística, e encontro-me aqui para prestar o depoimento que for necessário.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – V. Sª, já iniciando a argüição, poderia descrever sinteticamente a sua vida profissional. V. Sª é Engenheiro, já disse. Mas quais foram os primeiros empregos, trabalhos, ramo de atividade?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sou Engenheiro Eletrônico, trabalhei muitos anos numa multinacional, na Philips, na área de suprimentos, e logística e transportes no final.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – De que ano a que ano, V. Sª trabalhou na Philips?

O SR. ROBERTO KFOURI – Trabalhei durante 15 anos, Excelência.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Iniciou em que ano? Lembra-se?

O SR. ROBERTO KFOURI – Em 78, mais ou menos, e foi até 92.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – 92?

O SR. ROBERTO KFOURI – Isso.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pois não.

O SR. ROBERTO KFOURI – Em seguida, conhecendo a atividade de logística e transporte, achei por bem que poderíamos enveredar nessa área de transporte, então, a aquisição de uma empresa área foi...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em que ano foi isso?

O SR. ROBERTO KFOURI – Foi mais ou menos em 1993. 93, 94.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Qual a função que V. Sª exercia na Philips?

O SR. ROBERTO KFOURI – Eu era gerente de suprimentos e logística.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E, quando saiu da Philips, optou por comprar uma empresa aérea?

O SR. ROBERTO KFOURI – É, na verdade, o que fizemos foi o seguinte: como não tínhamos condições, adquirimos uma empresa rodoviária, e fazíamos, para não perder a sinergia de mercado, porque conhecíamos muitas empresas, fazíamos...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Empresa rodoviária?

O SR. ROBERTO KFOURI – Rodoviária, chamada Transpak, com a qual fazíamos exatamente o transporte do aeroporto para a indústria e vice-versa...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Transpak?

O SR. ROBERTO KFOURI - ...tanto em São Paulo quanto em Manaus.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nessa Empresa Transpak, V. Sª foi sócio de quem?

O SR. ROBERTO KFOURI – Eu era sócio, um dos donos da empresa, que...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem eram os outros sócios?

O SR. ROBERTO KFOURI – Acho que tenho alguma coisa aqui, mas acho que era minha esposa, minha ex-esposa.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. Praticamente, uma empresa familiar.

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim, empresa familiar.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito.

O SR. ROBERTO KFOURI – E era só para não perder essa sinergia de mercado, só para que continuássemos atuando com os contatos, com as pessoas dentro desse mercado, que era industrial, mercado da indústria São Paulo/Manaus.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Transportes de cargas...

O SR. ROBERTO KFOURI – Transporte de cargas do aeroporto para a indústria e vice-versa. Até um ano e meio depois, quando conseguimos a concessão de uma empresa aérea, que se chamava Brasair...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Brasair. Se o senhor me permitir, tenho alguma...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por favor. Pode mostrar à vontade. Aliás, esclareço que V. Sª está aqui na condição de testemunha. Assinou o termo?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim, assinei.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. Então esclareço que V. Sª está aqui não como investigado, mas como testemunha. Brasair.

O SR. ROBERTO KFOURI – Isto. Nós entramos no dia 18/12/92 e permanecemos – eu permaneci na empresa – até 10/09/95.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Isso na Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Brasair e Transpak, elas vieram juntas.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Eram juntas.

O SR. ROBERTO KFOURI – Eram juntas.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então foi em 92?

O SR. ROBERTO KFOURI – Foi em 92. A Transpak tinha participação dentro da Brasair. A Brasair já existia, era uma empresa já existente. Ela estava...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O que fazia a Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – A situação da Brasair, no passado, era exatamente como a situação da Aeropostal hoje: ela tinha concessão e estava lutando para ter o Certificado de Homologação de Aeronave.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja, era uma empresa de transportes aéreos.

O SR. ROBERTO KFOURI – Perfeitamente.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ela tinha a concessão do DAC...

O SR. ROBERTO KFOURI – Tinha a concessão do DAC.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – ...mas não tinha os aviões. Não tinha os aviões. É possível obter-se uma concessão sem os aviões? Como funciona isso?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim. Excelência, é muita oportuna a sua pergunta. Tenho acompanhado e acho que seria bastante esclarecedor se nós conseguíssemos dizer mais ou menos como é que funciona. Quando se tem a intenção de montar uma empresa aérea, a primeira coisa a fazer é uma concessão junto ao DAC. Essa concessão é expedida pelo Diretor-Geral, pelo Brigadeiro-Geral do DAC, e existem... Normalmente se fica, no mínimo, dois anos preparando a papelada dessa empresa. São manuais, vários manuais. Para o senhor ter uma idéia, nós estamos hoje mais ou menos a um metro e cinqüenta de manuais. Então são manuais de carga perigosa, manuais de operação, e esses manuais eles contam – são manuais muito grossos, muito volumosos –, eles dizem a cada problema, um manual de operações, por exemplo, a cada problema do avião qual é que tem que ser a decisão do comandante ou alguma coisa assim. Então esses manuais são muito difíceis de serem aprovados, e, enquanto se faz uma homologação, nós temos que manter toda uma estrutura de engenheiros, de diretor de operação, controle de qualidade e um contato freqüente e direto com o DAC. E esse processo ele culmina – acho que isso é muito importante dizer – com o último manual, chamado Manual Geral de Manutenção – o MGM –, porque, até esse instante, até esses dois anos ou três anos de montagem de uma empresa aérea, essa empresa aérea trabalha com avião mais ou menos virtual – ela pode trabalhar com um DC-8 –, ela trabalha com avião que não existe na realidade.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sinceramente, não entendi. Como assim? Um avião virtual...

O SR. ROBERTO KFOURI – Ela se propõe a fazer um transporte com avião, por exemplo, um avião DC-8.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sim.

O SR. ROBERTO KFOURI – O avião DC-8, a fabricação dele começou por volta de 1960 e foi até...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas ela não tem o avião?

O SR. ROBERTO KFOURI – Ela não tem o avião. Então esses manuais, todos esses manuais têm um roteiro, e o último manual a ser aprovado, o último chamado MGM – Manual Geral de Manutenção –, simplesmente se linca com o avião. Ou seja, como esse avião tem várias séries como um carro, por exemplo, quer dizer, muda um botão, muda um sistema, e você está fazendo um manual genérico, e o famoso Certificado de Homologação de Empresas de Transporte Aéreo – o Cheta – culmina, no final, com o manual praticamente aprovado, mas não aprovado ainda, e a aeronave. Nesse instante, faz os últimos ajustes e, neste instante, você tem então o famoso Cheta. É assim que funciona.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Para ter o Cheta, precisaria ter o avião ou pelo menos está alugado ou não?

O SR. ROBERTO KFOURI – É absolutamente necessário, para ter o Cheta, ter o avião; isso é absolutamente necessário.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ou seja, então, a partir do momento que o senhor obtém a concessão, o senhor tem de passar por uma situação de adaptação de manuais, e isso é regulado pelo DAC.

O SR. ROBERTO KFOURI – O DAC.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E aí, para ter, digamos assim, a liberação para levantar vôo, precisa do Cheta.

O SR. ROBERTO KFOURI – Precisa do Cheta.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E para ter o Cheta, precisa do avião. Pode ser avião alugado?

O SR. ROBERTO KFOURI – Pode.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pode.

O SR. ROBERTO KFOURI – Pode. Precisa ter o bem físico, o avião. Esse avião pode ser leasado, pode ser das várias modalidades de leasing, esse avião pode ser comprado, pode ser financiado, mas o avião precisa existir.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E o tempo para se conseguir o Cheta é de dois anos, aproximadamente.

O SR. ROBERTO KFOURI – Excelência, é um prazo razoável de dois anos para conseguir o Cheta.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quer dizer, só quando cumpridos todos os manuais, nesse iter, se obtém o Cheta.

O SR. ROBERTO KFOURI – Perfeitamente.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – É isso?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim, Excelência.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A Brasair era propriedade de quem, do senhor?

O SR. ROBERTO KFOURI – A Brasair era minha e tinha uma participação da empresa rodoviária, que nós havíamos começado antes, que era a Transpak.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A Transpak era do senhor e da sua esposa?

O SR. ROBERTO KFOURI – Isso.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então, quer dizer, a Brasair era o senhor com Transpak?

O SR. ROBERTO KFOURI – A Brasair era eu e a Transpack.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor era o único proprietário?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. A sua intenção era adquirir aviões, qual era a sua intenção na Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim, sim, tanto é que adquirimos aviões...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Após 2 anos o sr. conseguiu adquirir aviões?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Como o senhor fez aquisição? Foi leasing?

O SR. ROBERTO KFOURI – Esse avião foi um leasing, com opção de compra. Foi um financiamento internacional. Foi o primeiro avião nosso. Foi uma negociação de mais ou menos 12 meses. Eu, como expert nessa área de compras e suprimentos... Chegou um determinado instante que achei que não fôssemos conseguir adquirir a aeronave, porque foi uma negociação muito difícil. A empresa iniciando no Brasil, buscando alguém no mercado americano que pudesse fazer um financiamento... Nós passamos por todas as agruras possíveis para conseguir o primeiro avião.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Qual foi o primeiro avião?

O SR. ROBERTO KFOURI – Foi um avião, a aeronave 707, cujo prefixo é PRI.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor adquiriu essa aeronave de quem, o senhor lembra?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim, lembro sim. Foi da International Air Leasing, uma empresa de Miami, uma empresa média de Miami, com 50 aviões, alguma coisa assim.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Lembra o preço, mais ou menos?

O SR. ROBERTO KFOURI – Lembro, lembro sim. Foi alguma coisa, acho que 1 milhão e 800, 2 milhões de dólares, naquela época.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Isso foi financiado?

O SR. ROBERTO KFOURI – Isso foi financiado. Foi carta de crédito. Foi sim, senhor.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem era, o senhor recorda, o fiador? Porque é uma quantia muito grande de valor. Veja, apenas não me cabe entrar em outros aspectos, mas o senhor era gerente de suprimentos da Philips, e essa é uma empresa que exige um aporte, pelo menos de capital, muito forte para se comprar um aparelho de 1 milhão e 800 mil dólares.

O SR. ROBERTO KFOURI – Exª, veja, eu era funcionário da Philips – eu saí da Philips para montar a Brasair – e nós conseguimos, através do Banco Econômico, se não me engano, esse financiamento.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem era o fiador, avalista?

O SR. ROBERTO KFOURI – Exª, estou falando em 1992, 1993.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Normalmente, Bancos... Há casos na CPMI em que estamos descobrindo que não é bem assim.  Normalmente, bancos, quando emprestam, exigem uma garantia e uma solidez. No caso, como o senhor tinha um perfil, talvez, não da área, do setor, imagino que alguém deve ter bancado.

O SR. ROBERTO KFOURI – Gostaria, se o senhor me permitisse, eu poderia passar esse documento depois ou...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Se V. Sª pudesse entregar, eu gostaria muito. Se pudesse entregar o contrato, o estatuto constitutivo da Brasair, da Transpak e também esse contrato de leasing, que foi feito, e a maneira como foram obtidos recursos com o Banco Econômico, seria interessante para a nossa Comissão Parlamentar de Inquérito.

O SR. ROBERTO KFOURI – Perfeito. Exª, eu tenho visto que as pessoas que comparecem, eles têm a direção da empresa. Eu não tenho mais, essa empresa foi vendida em 1995. Eu vou tentar. Eu não tenho esses documentos. Eu vou tentar...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem lhe assessorou? Porque o senhor não era um homem do mundo, especializado na área. Vimos aqui que, normalmente, quando se vai criar uma empresa desse tipo, se contratam consultores ou pessoas que orientam. Quem foi a pessoa que o senhor contratou?

O SR. ROBERTO KFOURI – Havia um Coronel que estava aposentado do DAC, porque normalmente essa...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor lembra o nome dele?

O SR. ROBERTO KFOURI – Lembro sim. Era Coronel Siqueira. Talvez não me lembre do primeiro nome. E são pessoas que conhecem o procedimento, conhecem o metiê, conhecem a sistemática do DAC, porque é uma sistemática bastante complicada. Nós pedimos a consultoria para ele, e ele nos orientou durante um bom tempo. Quando...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por que o senhor resolveu entrar nessa área? Porque o senhor não atuava nessa área. Isso me surpreende um pouco. Eu, por exemplo, se eu fosse montar uma empresa de transporte aéreo, eu, que, de avião, só conheço o check-in, ficaria muito assustado. Por que o senhor resolveu de repente montar uma empresa aérea subitamente, um investimento alto? Como foi isso?

O SR. ROBERTO KFOURI – Exª, eu tinha, sim, a experiência. Eu tinha o lado da mesa. Eu trabalhava com empresas aéreas há 6, 7 anos. Eu tinha a experiência do mercado. Conhecia o mercado, conhecia...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Antes o senhor lidava com esse mercado?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim, senhor.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Fazia o transporte?

O SR. ROBERTO KFOURI – Isso. Exatamente. Era responsável por todo o transporte nacional, inclusive o transporte aéreo. A Philips tem a sua maior empresa no Estado do Amazonas, em Manaus. Nós fazíamos o transporte direto de Manaus para São Paulo. Para o senhor ter uma idéia, era alguma coisa como dois ou três aviões naquela época. Seria equivalente hoje a dois ou três aviões por dia.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. No caso, a Brasair o senhor começou em 1992. O senhor ficou proprietário da Brasair até quando?

O SR. ROBERTO KFOURI – Até 19 de setembro de 1995.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Foram três anos?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nesse período, houve alguma alteração societária na Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Houve, sim. Houve, houve, sim. Houve a abertura de filial em Manaus, mudança de endereço...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Novos sócios?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não. Até então, não, até a venda da empresa em setembro de 1995.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor vendeu para quem?

O SR. ROBERTO KFOURI – Quem vendeu a empresa foram os atuais donos da Beta. Então, essa é minha, é minha...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na época, quem eram os donos da Beta? O senhor lembra?

O SR. ROBERTO KFOURI – Era o Sr. Johannes e a esposa dele.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor Johannes?

O SR. ROBERTO KFOURI – É. Na época, não. Atualmente, não é? Hoje, hoje eu não sei mais a composição societária da empresa.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – À época, o senhor tinha quantos aviões?

O SR. ROBERTO KFOURI – Na época, estávamos com um avião...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Esse 707?

O SR. ROBERTO KFOURI – Esse 707 e tinha outros aviões. Acho que tinha mais um ou dois aviões, não me recordo, de leasing. Acho que eram dois aviões de leasing.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor lembra qual aparelho?

O SR. ROBERTO KFOURI – Era sempre 707.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sempre 007?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sempre os nossos ligeiramente geriátricos.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na época, de 1992 a 1995, quem eram seus principais clientes?

O SR. ROBERTO KFOURI – De 1992 a 1995, todo o mercado, toda a indústria de Manaus. Aliás, a especialidade, a grande especialidade da Brasair era essa. Nós tínhamos, então, esse relacionamento. Sempre foi com a indústria de Manaus, a própria Philips ou as outras empresas de Manaus.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A Brasair, de 1992 a 1995, teve contratos com o Poder Público?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não, não.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não teve?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Participou de licitações?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não, nunca.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nunca participou de licitações?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não, não.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Era subcontratária de alguma empresa?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim. Muito boa pergunta. Nós tínhamos, em 1994, nós tínhamos aviões, um avião subcontratado pela Vasp.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pela Vasp.

O SR. ROBERTO KFOURI – Depois me parece que quem subcontratou foi a Transbrasil. Até o meu retorno não mais para a Brasair e para Beta, isso foi em 1998, nós tínhamos um avião, pelo menos, cedido à Varig para trabalho dentro dos Correios, subcontratado pela Varig.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Na época, o senhor foi subcontratado pela Vasp e pela a Transbrasil para prestar serviços aos Correios?

O SR. ROBERTO KFOURI – Exatamente. Tínhamos duas atividades principais. Tínhamos um mercado de carga a Manaus, esse era o nosso mercado principal, e um avião em sistema de leasing com a Vasp. Quer dizer, toda a carga... Não tínhamos nada a ver com os Correios. Simplesmente, nós “leasávamos” um avião para a Vasp a Vasp trabalhava normalmente para os Correios.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – No caso, a Beta também atuava como subcontratada na época?

O SR. ROBERTO KFOURI – A Beta também...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quem eram as empresas que atuavam nesse mercado na época?

O SR. ROBERTO KFOURI – O senhor está falando na época...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – De 1992 a 1995, quem eram seus principais concorrentes?

O SR. ROBERTO KFOURI – De 1992 a 1995, Excelência, nós tínhamos, já tinha... Na verdade, era até a própria Transbrasil, a Varig... Acho que nós não tínhamos, no mercado Manaus, nós não tínhamos uma outra empresa, não. Não me recordo. Acho que não tínhamos outra empresa.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em relação aos Correios, quem eram as empresas subcontratadas? O senhor lembra?

O SR. ROBERTO KFOURI – Veja, a Vasp havia contratado também uma empresa chamada Race.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Race?

O SR. ROBERTO KFOURI – Isso. É uma empresa americana. Essa Race era uma empresa americana atuando no Brasil. Desconheço quais eram os documentos que ela tinha, mas era uma empresa internacional atuando no Brasil.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – A Beta era subcontratada?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não. Nessa época, não havia Beta. Nessa época, nós estamos falando da Brasair, até 1995.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Não existia a Beta?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não existia a Beta.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Então, quando surge a Beta?

O SR. ROBERTO KFOURI – Então, em setembro de 1995, eu deixei a Brasair e a modificação para o nome Beta aconteceu em 1997, em 5 de setembro...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Quer dizer, na verdade, o Johannes comprou a Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Isso.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor saiu do quadro societário?

O SR. ROBERTO KFOURI – Eu saí completamente.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Saiu totalmente do quadro societário?

O SR. ROBERTO KFOURI – Completamente.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E foi trabalhar onde?

O SR. ROBERTO KFOURI – Na época, Excelência, eu tinha uma factoring. Eu tentei uma factoring registrada, regulada pelo Banco do Brasil, certinho, tudo certinho...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Puxa, mas é uma mudança brusca de empresa para factoring.

O SR. ROBERTO KFOURI – Aí eu teria que falar uma particularidade. Eu estava com problemas no meu casamento e tentei ficar mais dentro de casa e, por isso, optei pela factoring.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Por que o senhor vendeu a Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – É exatamente por causa disso. Eu achei que meus filhos não estavam sendo bem acompanhados. Empresa aérea no Brasil é uma coisa muito séria, trabalhava sábado, domingo e feriado, não tinha hora. Preferi dedicar um pouco mais à família.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor lembra qual foi o valor da transação, da venda da Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Exª, eu também gostaria de poder ter contrato registrado, poderia passá-lo... Não os trouxe aqui. Não vim preparado.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Aproximadamente o valor?

O SR. ROBERTO KFOURI – É que, na época, acho que foi alguma coisa como 100 mil reais, alguma coisa assim.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Só isso?

O SR. ROBERTO KFOURI – Foi.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas não eram 3 aviões?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não, tinha 1 avião só, tinha 1 avião só.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor falou que havia um avião 707 e, depois, mais 2 aviões. Então, eram 3 aviões.

O SR. ROBERTO KFOURI – Isso, só que 1 deles nessa época já estava pago e os outros 2 estavam em leasing. Então, era um aluguel.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Sim, mas 1 deles pago é 1 milhão e 800 mil dólares.

O SR. ROBERTO KFOURI – É.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E o sr. vendeu por 100 mil?

O SR. ROBERTO KFOURI – É. Eu poderia trazer o contrato que foi feito. Eu traria para o senhor. Eu me proporia...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O senhor perdeu muito dinheiro, então?

O SR. ROBERTO KFOURI – Eu perdi, sim. Mais uma vez, optei pela minha felicidade. Saí, e saí rapidamente da empresa. Foi uma coisa que ninguém esperava, nem eu esperava mesmo. Eu deixei a empresa porque eu...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pelo menos, à primeira vista, vejo um prejuízo de 1 milhão e 700 mil dólares.

O SR. ROBERTO KFOURI – Não. Eu não era sócio sozinho. Eu já tinha empresa. Tinha a Transpak. Mas, realmente, optei por sair da empresa.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mesmo tendo esse prejuízo astronômico?

O SR. ROBERTO KFOURI – Eu optei por isso.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Pediria que V. Sª mandasse para nós.

Esses 100 mil dólares, ou aproximadamente, em torno disso...

O SR. ROBERTO KFOURI – Acho que eram 100 mil reais, não me lembro.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Isso depois nós verificaremos.

O senhor lembra como foi a forma de pagamento? Foi cheque? Dinheiro?

O SR. ROBERTO KFOURI – Exª, não me lembro, me proporia a enviar para V. Exª aquilo que tenho. Mais uma vez, não tenho mais o controle da empresa há muito tempo.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. Então, se V. Sª pudesse mandar...

O SR. ROBERTO KFOURI – Perfeito.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Aí o senhor montou uma factoring. Como chamava a factoring?

O SR. ROBERTO KFOURI – Chamava Exxel – E x x e l.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Exxel.

O SR. ROBERTO KFOURI – Exxel.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ok. O senhor operou com a Exxel por quanto tempo?

O SR. ROBERTO KFOURI – Foram 2 anos e...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nesse período, o sr. mantinha relações com o dono da Beta?

O SR. ROBERTO KFOURI – Olha, nós mantíamos, sim. Nunca fomos inimigos. Nós sempre tivemos um relacionamento.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Como o senhor o conheceu?

O SR. ROBERTO KFOURI – Olha, foi no próprio mercado porque o Johannes é uma pessoa de mercado, é uma pessoa de transporte, e eu também era, e a gente... Esse mundo de transporte é um mundo pequeno, Exª.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Se conheciam antes?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim, conhecia.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ele atuava onde antes?

O SR. ROBERTO KFOURI – Ele era um chefe, um gerente da Vasp.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Ele era um gerente da Vasp. Então, quando ele sai para comprar sua empresa, ele sai da Vasp?

O SR. ROBERTO KFOURI – Sim.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Nessa época em que ele sai da Vasp é justamente a época em que a Vasp talvez não pudesse mais prestar serviços ao poder público? Seria isso?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não, Exª.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Tem um momento em as empresas eram contratadas e elas saem fora.

O SR. ROBERTO KFOURI – Esse momento aconteceu por volta de 99, 2000.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mais tarde, então.

O SR. ROBERTO KFOURI – Bem mais tarde.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Perfeito. Então, até aí o Sr. Iones sai da Vasp e compra a Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Isso.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – E o senhor, nesse período, não tinha nenhum contato com a Beta?

O SR. ROBERTO KFOURI – A Beta não existia ainda.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Com a Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não, eu...

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – O sr. saiu do quadro societário não prestou serviços, não trabalhava mais para a Brasair?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não, não trabalhava mas veja: quando você sai de uma empresa, não sai brigado com ninguém, quer dizer, quando você sai de uma empresa, é normal você continuar prestando alguma assessoria, alguma informação, isso é normal. Não houve briga, não houve nada, e nós continuamos ele com a vida dele e eu com a minha.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Mas o sr. não recebeu nenhuma remuneração nesse período fazendo trabalho extra?

O SR. ROBERTO KFOURI – Não.

O SR. PRESIDENTE (José Eduardo Cardozo. PT – SP) – Em 95, até 95 o sr. cuidou da factoring?

O SR. ROBERTO KFOURI