TRANSCRIÇÃO LITERAL DAS NOTAS TAQUIGRÁFICAS DA OITIVA DOS DEPOENTES
Sra. ZILMAR FERNANDES DA SILVEIRA e
Sr. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA (Duda Mendonça)

(11/08/2005)

SENADO FEDERAL

COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DOS CORREIOS

VIGÉSIMA QUINTA REUNIÃO DA COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA DE INQUÉRITO DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 52ª LEGISLATURA, CRIADA ATRAVÉS DO REQUERIMENTO Nº3/2005 DO CONGRESSO NACIONAL COM A FINALIDADE DE INVESTIGAR AS CAUSAS E CONSEQÜÊNCIAS DE DENÚNCIAS E ATOS DELITUOSOS PRATICADOS POR AGENTES PÚBLICOS DOS CORREIOS, EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELÉGRAFOS REALIZADA NO DIA 11 DE AGOSTO DE 2005 ÀS 11:30 HORAS.

SEGUE ABAIXO TRANSCRIÇÃO LITERAL:

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Havendo número regimental, declaro aberta a 25ª reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, criada por intermédio do Requerimento nº 3, de 2005, do Congresso Nacional, para investigar as causas e conseqüências de denúncias e atos delituosos praticados por agentes públicos nos Correios – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.

Esclareço que a pauta desta reunião destina-se à oitiva da Srª Zilmar Fernandes da Silveira.

Gostaria de registrar a V. Exªs que o Sr. Duda Mendonça hoje se apresentou, espontaneamente, informando a esta Mesa Diretora que tem a intenção também de depor sobre o assunto a ser tratado na audiência da CPMI dos Correios. Esta Mesa Diretora acatou esse pedido de depoimento espontâneo do Sr. Duda Mendonça.

Nós chamaremos, agora, inicialmente, para a oitiva, a Srª Zilmar Fernandes da Silveira. Após esse depoimento, que vai durar de quinze a vinte minutos, a Srª Zilmar sairia da sala e ficará aguardando a exposição do Sr. Duda Mendonça. Depois, eu chamaria os dois para que respondam às perguntas dos Parlamentares.

Quero também registrar que nós tivemos hoje um diálogo com relação às inscrições a respeito de uma lista não-oficial, assinada logo no início da manhã por alguns Parlamentares que chegaram mais cedo para se preparar para o depoimento, e de uma lista oficial. Eu peço a compreensão de todos porque vou administrar de uma maneira salomônica essa divergência. Mas, amanhã, como fruto de uma reunião que faremos com a assessoria técnica da CPMI, deixaremos muito clara essa disciplina das listas, para que não tenhamos problemas.

Por isso eu peço a V. Exªs paciência com o Presidente e com o Relator, porque tentaremos administrar as duas listas dentro da maior justiça possível. Eu peço a compreensão de todos os Deputados e Deputadas, Senadoras e Senadores.

Chamo à Mesa a Srª Zilmar Fernandes da Silveira para seu depoimento.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Pela ordem, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Não darei nenhuma... Nós vamos começar os trabalhos, pelo adiantado da hora.

E quero registrar que a Srª Zilmar Fernandes da Silveira prestará o depoimento como testemunha. Aqui já se encontra, com a Mesa Diretora, o Termo de Compromisso assinado pela Srª Zilmar Fernandes, nos termos do art.203, do Código de Processo Penal.

O SR. (Orador não identificado) – Sr. Presidente, não haverá inquirição, é isso?

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, para uma questão de ordem, art.131.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – O Deputado Arnaldo Faria de Sá vai perguntar o nome dos advogados. Eu já vou me adiantar, meu caro Deputado Arnaldo Faria de Sá, para dar o nome dos advogados.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Eficiente, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Vamos aprendendo com o passar do tempo, Deputado.

O advogado da Srª Zilmar é o Dr. Pedro de Abreu Dallari.

O SR.  ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, questão de ordem, art.131 do Regimento Comum.

O SR.  ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Eu não darei questões de ordem e vou iniciar a reunião.

O SR.  ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, desculpe, pela ordem o senhor pode não dar, mas...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Não darei questão de ordem hoje.

O SR.  ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Pela ordem o senhor pode não dar, mas questão de ordem o senhor tem que dar. Desculpe.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Porque nós temos muito tempo pela frente e muitas pessoas inscritas.

O SR.  ONYX LORENZONI (PFL – RS) – É relevante e eu vou insistir com V. Exª porque está no Regimento da Casa.

O SR.  ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Presidente, tem dois advogados.

O SR.  ONYX LORENZONI (PFL – RS) – É questão de ordem, art.131.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – V. Exª recorra. Eu vou passar a palavra…

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr.Presidente, são dois advogados. O senhor falou em nome de um só.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, questão de ordem (art. 131). Vou insistir com V. Exª. Tenho contribuído com V. Exª. Esse é um direito parlamentar que tenho, Sr. Presidente, assim como eu, qualquer Senador, e o Regimento da Casa é para ser cumprido, inclusive pelo senhor. E em qualquer momento da reunião o art. 131 me garante...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Cite o dispositivo, Deputado Ônix, porque, aparentemente, V. Exª é recorrente. Todo início de reunião...

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Art. 131. Não. O senhor (não?)tem que fazer juízo de valor do meu mandato parlamentar, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Todo início de reunião V. Exª pede a palavra pela ordem, e depois os trabalhos começam a ficar prejudicados com o tempo.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, vou retornar, com respeito a V. Exª e exijo o mesmo respeito comigo, do senhor e do seu assessor.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Sr. Deputado, qual a dúvida de V. Exª, qual é a questão de ordem?

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Estou fazendo uma questão de ordem do art. 131 do Regimento Comum.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – E qual dos parágrafos que V. Exª...O art. 131 fala, única e exclusivamente, Deputado, questão de ordem. E daí?

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – A questão de ordem é no § 1º. Ela deve ser objetiva e é o que ela vai ser, porque diz respeito aos trabalhos desta Comissão.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – E indicar o dispositivo regimental pelo § 1º, meu caro Deputado Ônix.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Art. 131, § 1º. Estamos claramente indicando que esse é um direito...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Qual é o dispositivo, Deputado Ônix?

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – O art. 131, § 1º.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – O dispositivo regimental que o senhor precisa avocar.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Dá a palavra a ele, Sr. Presidente, que resolve mais facilmente. Dá logo, deixa ele falar.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Se não há condições de se avocar o dispositivo regimental, passo a palavra a Srª Zilmar Fernandes, para fazer o seu depoimento.

V. Sª, Srª Zilmar Fernandes, tem de 15 a 20 minutos para expor.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Presidente, art. 131 e art. 14 do Regimento do Senado, letra “b”.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, o senhor falou o nome de um advogado e são dois.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Novamente, o art. 14 trata de uso da palavra. Pelo amor de Deus! Vamos ter bom senso e lógica nas coisas. Com a palavra a senhora Zilmar Fernandes.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, a Srª Zilmar Fernandes tem dois advogados, e o senhor disse o nome de um só.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Aprendi a lição pela metade, Deputado Arnaldo Faria de Sá.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Então complete a lição agora.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – O outro advogado: Dr. Aldo de Campos Costa.

Com a palavra a senhora Zilmar Fernandes.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Sr. Presidente, art. 131 conjugado com o art. 14 do Regimento Comum, letra “b”. (Apupos.)

Srªs e Srs. Parlamentares, estou avocando um direito que pode, em algum momento da vida parlamentar de cada um dos senhores e das senhoras, estar diretamente relacionado com o exercício do mandato parlamentar de cada Senador e de cada Deputado. Não vou, por uma atitude autoritária da Mesa Diretora dos trabalhos, calar o direito que recebi dos eleitores do meu Estado. Portanto, não vou ficar aqui sendo submetido a esse processo, porque estou na defesa de um direito que é de todos. Hoje sou eu, amanhã pode ser qualquer um daqueles que hoje estão questionando o procedimento que tenho. Pode ser até que o Senador Delcídio um dia esteja numa comissão que eu presida e, com certeza, vou lhe garantir esse direito, que é seu, que o senhor conquistou nas urnas, assim como eu.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Mas o senhor usou o dispositivo errado.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Desculpe, Senadora, mas não usei o dispositivo errado. O art. 14 do Regimento Comum, na letra “a”, diz o seguinte: “Pela ordem, para indagação sobre andamento dos trabalhos, reclamação quanto à observação do Regimento, indicação de falha ou equívoco.” Portanto, quero dar só uma contribuição, apenas isso.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) –Está bom.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Então todos nós esperaremos a contribuição de V. Exª.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Objetivamente, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Objetivamente, muito bem lembrado.

O SR. ONYX LORENZONI (PFL – RS) – Como sempre tenho colaborado com os trabalhos de V. Exª.

Vou voltar, com tranqüilidade e serenidade a dizer qual é o ponto. Ontem – o senhor não estava presente e por isso queria falar na sua presença, lá na reunião mista entre as duas CPMIs –, solicitei ao nobre Relator desta Comissão e ao Relator Ibrahim Abi-Ackel, e quero fazer isso dentro da CPMI da qual sou titular, que o Requerimento nº 700, que diz respeito a toda e qualquer ação das pessoas que estão identificadas aqui na CPMI, com a possibilidade de ter havido envio de recursos para fora do Brasil em off-shores, seja imediatamente, Sr. Relator, adotado por V. Exª a solicitação junto ao Ministério da Justiça e ao Ministério da Fazenda para que façam a identificação dessa relação de noventa nomes, Presidente. Isso é fundamental que seja feito. E, ao longo do depoimento de hoje, isto vai ficar mais uma vez repisado: a importância de que isso seja feito.

Na medida que seja adotado por V. Exª, evita-se, Sr. Relator, a votação. É esse o ponto que estou apelando. E a segunda coisa que quero trazer – e concluo com isso, Presidente, em menos de um minuto – é que há necessidade de providências enérgicas desta Comissão em relação ao Banco Rural, como ficou comprovado ontem.

Obrigado, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Absolutamente registrado. Quero caracterizar aqui: o que foi colocado não se trata de uma questão de ordem e vou passar a palavra à Srª Zilmar Fernandes, que tem de quinze a vinte minutos para sua exposição.

Com a palavra a Srª Zilmar Fernandes.

A SRª ZILMAR FERNANDES DA SILVEIRA – Bom dia, Srs. Deputados, Srªs Deputadas e Senadores e Senadoras...

A SRª HELOÍSA HELENA (P–SOL – AL) – Está horrível o som.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Por favor, o som mais alto.

A SRª ZILMAR FERNANDES DA SILVEIRA – Obrigada.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer...

Posso falar mais alto. Está bem assim? Ok. Melhorou? Ok, porque acho que não cheguei muito próximo.

Meu nome é Zilmar Fernandes da Silveira, eu sou publicitária, comecei minha vida na propaganda trinta anos atrás, em São Paulo, e depois fui para a Bahia, em 1976. Logo me tornei sócia do Duda quando fundamos a DM9 Propaganda, em 1976, agência baiana, e fizemos um bom trabalho no mercado baiano, fizemos bastante sucesso conquistando prêmios, Festival de Cannes.

Durante todo esse período, trabalhamos juntos, na área de agência de propaganda.

Em 1986, com a abertura e com as campanhas para Governador, o Duda começou a ser convidado e começou a trabalhar nas campanhas políticas. O Duda começou por Roberto Santos, e eu me integrei quando fizemos a campanha do Professor Josaphat Marinho, na Bahia. A partir daí, nós começamos a fazer campanhas políticas ainda de uma forma solta, não dentro da agência Duda Propaganda, que tinha ali a DM9, que, na época, tinha os seus clientes privados e governamentais, e fazíamos as campanhas políticas. Nos afastávamos da agência, tínhamos um grupo de pessoas, de profissionais, e o Duda dirigia as campanhas.

A partir de 1992, viemos para São Paulo e montamos, então, a Duda Propaganda. Nós vendemos a nossa participação na DM9 Propaganda e viemos para São Paulo em 1992, e fizemos a nossa agência chamada Duda Propaganda, agência de publicidade, atendendo varejo, mercado imobiliário, segmentos onde éramos especialistas, experts, porque, na Bahia, naquela época, havia três segmentos de produtos ou de clientes para as agências de propaganda: o varejo, o mercado imobiliário e o governamental. Na verdade, na Bahia, nós não tínhamos clientes com produtos do tipo carros, telefones, sabonetes; o nosso mercado era um mercado na linha de varejo, na linha governamental e na linha do mercado imobiliário. E aí nos tornamos muito bons nessas áreas, exportamos e viemos para São Paulo com essa nossa expertise.

Então, a partir de 1992, nós fundamos a Duda Propaganda e, a partir de São Paulo, começamos a atender ao mercado desses segmentos que mencionei.

Ainda em 1992, montamos, então, agrupamos as campanhas políticas numa outra empresa.

Na verdade, nunca colocamos as campanhas políticas, os trabalhos partidários e da área política dentro da agência Duda Propaganda. Por quê? Não era simplesmente por não querer trabalhar com marketing político não, é por duas razões, primeiro para separarmos os caixas de um forma clara, objetiva, para que pudessem ser abertas e se ver claramente, e o mais importante é que os profissionais de uma área nem sempre são os mesmos, ou com as mesmas especialidades da outra.

Então, por exemplo, na agência de propaganda você tem os diretores de arte, os diretores de criação, os redatores, pessoal de produção, de mídia, de televisão; e na área de marketing político as campanhas elas tem como foco os jornalistas, os estrategistas, as pessoas da área de pesquisa. Tem também produção de eletrônica, mas eles não são os principais, eles não são os fundamentais. Você, naquele momento, você agrupa. As campanhas políticas também são sazonais; elas eram de um determinado período e, a partir de um determinado tempo, ela passou a ser de dois em dois anos. E nesse meio tempo nós fazemos assessorias e consultorias.

Então, em primeiro lugar gostaria de dizer qual é a minha profissão, de onde venho. Venho da Bahia com o Duda, somos sócios há 30 anos, somos como irmãos, nos admiramos. O Duda é uma pessoa incrível, de um coração fabuloso, eu posso dizer isso porque como sócio há trinta anos não restaríamos juntos se eu não o considerasse, uma relação fantástica que temos de amizade, de respeito e, antes de mais nada, de caráter e de ética.

Também mostrar para os senhores a formatação que temos desde 1992 e a partir de 2001. Temos três empresas com objetos, com trabalhos e com equipes bastante diferenciadas e claras e que vocês podem ver não só por eu estar dizendo, mas pelos contratos, pela contabilidade, pelas contas bancárias. Vou dizer e V. Exªs podem comprovar isso olhando pelos dados que temos.

A Duda Propaganda, que é a agência de propaganda que vem lá desde 1976, como DM9, sucessora dos seus direitos autorais e que hoje é Duda Propaganda. A CEP – Comunicação e Estratégia Política LTDA, que é a empresa que só faz trabalhos para o marketing político: campanhas eleitorais, programas partidários, acessória, tudo que diz respeito aos partidos ou candidatos a cargos eletivos, ou pré-candidatos.

Temos também uma empresa chamada Promark. Essa é uma empresa que faz somente consultoria. Porque essa empresa pode fazer consultoria simplesmente a consultoria estratégica, quer seja para clientes privados e clientes governamentais. Quando querem uma consultoria de um diagnóstico, de uma orientação de marketing e de estratégia para determinado lançamento de produtos, e que não é exatamente, por exemplo, uma campanha. Então, se tenho um cliente que tem campanha de propaganda, é a Duda Propaganda que é a sua agência. Se eu tenho um cliente e que é institucional e que ele tem ou um problema, ou uma necessidade de orientação estratégica de marketing a Promark faz a consultoria. E tudo que diz respeito à parte eleitoral é feito pela CEP. 

Essas três empresas têm a mesma formatação societária: o Sr. Duda Mendonça, Zilmar Fernandes da Silveira e dois outros sócios, Eduardo Freia e Eduarda. Elas têm a mesma formatação, porque somos os quatros sócios principais das empresas e que conduzimos essas empresas. Elas têm equipes, escritórios, toda a sua equipe é separada. O elo dessas três empresas são os seus sócios, que também são executivos. O Duda é o executivo da estratégia e da criação das três empresas. A Zilmar é a Diretora da área de atendimento. A minha formação na área de publicidade é o que a gente chama de atendimento ao cliente. O que é o atendimento ao cliente? Eu sou o elo. Eu sou o porta-voz entre o cliente e a agência. Sou a diretora que vou à primeira reunião, discuto os problemas, converso com o cliente, vejo a necessidade de uma reunião de briefing mais detalhada ou não, levo o problema para dentro da agência. A minha equipe de atendimento, quer seja da agência de propaganda, quer seja da CEP, se for um cliente da área de marketing político, passa a atender executivamente aquele cliente. Discuto os contratos, converso sobre os negócios, apresento a campanha, apresento o planejamento de mídia, negocio com os clientes e a nossa equipe de executivos, quer seja da área de atendimento, de mídia, de produção ou de coordenação faz o trabalho executivo do dia-a-dia.

O Duda é o nosso sócio majoritário e diretor da área de estratégia e de criação. Ele é o diretor de criação. Então, temos uma equipe de criação, na Duda Propaganda, que, quando temos um lançamento ou uma campanha a ser feita, ele dá as diretrizes principais daquela campanha e a equipe de criação da agência daquele cliente faz isso. Se é da área de marketing político, a equipe de criação da área de marketing político, com ele, faz essa criação.

Então, eu gostaria de explicar, de uma forma bastante didática, para que os senhores tivessem a informação e o conhecimento. Tudo isso que estou dizendo vocês podem comprovar verificando não apenas, como eu já disse, os nossos contratos sociais, os nossos escritórios, nosso pessoal, nossos balanços, nossa contabilidade e nossos relatórios. Essa é a forma como trabalhamos.

Acho que, basicamente, essa é a apresentação que eu queria fazer. Queria dizer que nós, eu e o Duda, conversamos bastante sobre todos esses assuntos, porque de todos os negócios nós tratamos juntos, muito junto eu e ele. Quero dizer que estamos prontos para colaborar e para dizer toda a verdade do que é necessário e os senhores gostariam de saber.

Estou à disposição.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Gostaria de informar à Sra Zilmar que chamaríamos o Sr. Duda Mendonça agora, para fazer uma breve exposição e, terminada a exposição do Sr. Duda Mendonça, os dois ficariam na Mesa Diretora dos trabalhos para que comecemos a questionar. Primeiro, o Relator, depois os inscritos farão perguntas, tanto para a Sra Zilmar quanto para o Sr. Duda Mendonça.

A SRª HELOÍSA HELENA (P–SOL – AL) – Sr. Presidente, peço a palavra pela ordem rapidamente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Pois não, Senadora.

A SRª HELOÍSA HELENA (P-Sol – AL) – Gostaria de fazer um apelo a V. Exª, até por economia processual: que a Sra Zilmar pudesse tratar um pouco, também numa breve explanação, da motivação que a trouxe aqui. Ela fez uma belíssima explanação sobre a empresa. Nós quase ficamos tentados a contratá-la – não teríamos dinheiro para isso. Mas faço um apelo para que ela faça uma breve exposição sobre a motivação que a trouxe à Comissão Parlamentar de Inquérito.

O SR.  ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Ela foi convocada.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Senadora Heloísa Helena, acho que o importante seria o Sr. Duda Mendonça vir fazer uma exposição rápida. Seria muito mais importante para os debates isso ficar claro.

A SRª HELOÍSA HELENA (P–SOL – AL) – Se os dois entendem que ele tem mais elementos a contribuir, para mim, está tudo bem.

O SR. ROMEU TUMA (PFL – SP) – Sr. Presidente, gostaria de fazer uma comunicação, para não ficar com um problema na minha mão. Serei breve. O Procurador-Geral de Belo Horizonte mandou-me uma caixa de documentos pequena, contendo o auto de prisão em flagrante e outros detalhes sobre a queima de documentos que estavam fazendo nas empresas do Marcos Valério, inclusive constatação de endereços que não conferem com a realidade do que foi exposto pelo primeiro depoente.

Então, eu queria autorização de V. Exª para entregar à Secretaria e sair da minha responsabilidade, porque veio para mim...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Por favor, Senador Romeu Tuma, é muito importante que V. Exª encaminhe à Secretaria. Por favor.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, o Senador Romeu Tuma falou da prisão em flagrante, de quem?

O SR. ROMEU TUMA (PFL – SP) – Dos que estavam queimando a documentação....

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Nome da pessoa que foi presa em flagrante?

O SR. ROMEU TUMA (PFL – SP) – É o Contador Marco Túlio, que foi preso em flagrante. Então, veio a cópia e também a constatação pericial da queima de documentos... com 50% de....

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Convido o Sr. Duda Mendonça para tomar assento aqui à Mesa Diretora.

Eu gostaria de registrar que o Sr. Duda Mendonça já assinou o seu termo de compromisso como testemunha, conforme o art. 203 do Código de Processo Penal.

Vou passar a palavra ao Sr. Duda Mendonça, que terá de 15 a 20 minutos para a sua exposição.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, eu gostaria que V. Exª informasse quais são os advogados, até porque hoje é o Dia do Advogado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Quero aproveitar a lembrança, Deputado Arnaldo Faria de Sá, e parabenizar a todos os advogados que têm marcado uma presença muito forte aqui nesta CPMI e quero também registrar que os advogados do Sr. Duda Mendonça é o Dr. Pedro de Abreu Dallari e o Dr. Aldo de Campos Costa.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Parabéns aos advogados.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Com a palavra o Sr. Duda Mendonça.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALVANTI MENDONÇA – Boa tarde, Srs. Deputados, Srs. Senadores, Presidente, Sr. Relator, eu queria começar agradecendo a oportunidade que vocês me deram. Eu não estava no script, mas tomei a decisão, anteontem, de vir aqui porque eu acho que eu não podia permitir que as coisas continuassem tomando o caminho que estavam tomando.

A idéia de vir cá é abrir meu coração e contar a vocês toda a nossa participação, sem nenhum limite de reserva, de como as coisas verdadeiramente aconteceram.

Ontem eu fiz 61 anos, sou baiano, de Salvador, comecei a trabalhar como corretor de imóveis, e comecei a trabalhar em propaganda na Bahia e marketing político e, sem falsa modéstia, consegui galgar uma posição no cenário nacional e até mundial que...desculpem-me...muito me orgulha e orgulha a minha família. Eu, talvez, não haja nenhum prêmio no mundo de propaganda que eu não tenha conseguido ganhar nos últimos 20 anos, tanto com a iniciativa privada como com campanhas governamentais.

Eu acho que, quando eu comecei a fazer campanha política, eu compreendi que a primeira coisa mais importante era a audiência, os programas do passado eram duros, feios, monótonos. E quem perdia com isso? Perdiam os próprios candidatos, porque ninguém queria assistir. Acho que a entrada de publicitário e a mistura com jornalista deram um novo colorido à campanha política na televisão, ficando mais interessante de se ver e mais bonita, conseqüentemente, aumentando a audiência. A televisão brasileira tem uma qualidade muito grande, e é importante que os programas políticos também tivessem essa qualidade.

Comecei a trabalhar há muito tempo, trabalhei para acho que quase todos os Partidos, não me recordo dos nomes, mas trabalhei muito para o PSDB, trabalhei muito para o PMDB, trabalhei para o Partido do Miguel Arraes, o PSB, trabalhei, na época, para o PPB, de Paulo Maluf. Eu acho que os senhores conhecem a minha história. Sempre procurei trabalhar com seriedade, fazer campanhas limpas. Eu sempre defendi a teoria de quem bate, perde. Isso a imprensa inteira sabe. Está no meu livro. E, com isso, eu fiz amigos, e conquistei até o respeito dos meus adversários.

Eu entendia que ele era adversário do meu candidato, do meu cliente, não meu. E eu nunca misturei essas coisas. Eu acho que, na campanha, cada vez mais, as pessoas querem que falem de si e não dos outros. E foi dessa forma que eu comecei a crescer e a trabalhar em vários Partidos e deixando sempre, por onde andava, amigos, e meu nome foi crescendo.

Eu sou filho de um pai artista, de classe média. Eu tive uma vida não vou dizer difícil, estudei em bons colégios porque ele acreditava que a educação é básica, mas uma vida bastante apertadinha. Lá em casa só se folgava quando o meu pai vendia um quadro, que aí, tinha dinheiro um pouquinho mais folgado para a gente. E, aí, ele pagava o aniversário, o Natal, os presentes atrasados. Meu pai era um homem muito sério; e ele me ensinou muita coisa.

Nesse momento, a minha mulher, a minha irmã, meus sete filhos estão assistindo ao meu depoimento. E o meu compromisso com a verdade é muito mais do que meu, é de toda a minha família, é todos os meus amigos.

No início de 2001, eu fui chamado pelo PT para fazer a campanha do Presidente Lula. E eu já tinha conhecido o Presidente Lula antes. Uma vez ele já me tinha me chamado para fazer a campanha dele e que acabou não sendo possível porque uma parte do PT não concordou por eu ter feito a campanha do Paulo Maluf. Em 2001, eu fui novamente chamado. Eu fiquei com medo porque sofri muito com aquela história de não poder ter feito a campanha. Eu digo sempre que, quando eu entro na campanha, a campanha não é mais do candidato, é minha campanha, é meu filho, é minha vida. Eu gosto de ganhar. Eu gosto de ganhar bola de gude, par ou ímpar. E eu acho que o meu nome tem que estar atrelado a sucesso e à vitória. E é isso que eu procurei fazer na minha vida inteira. Eu sou um guerreiro, eu sou um lutador. E, aí, dessa vez, deu certo.

Então, o meu método de trabalhar com o PT – e sempre que trabalhei em outras campanhas também foi assim –, eu procuro fazer um pacote. Porque esse pacote implica...O pacote de 2001 implicava, nos horários eleitorais gratuitos do primeiro e segundo turno, os comerciais de rádio e de televisão e os comerciais e o programa eleitoral do segundo turno. Por isso, eu cobrei do PT alguma coisa como 590. Eu quero dizer que o nível de número eu não sou o indicado. Talvez, depois, se os senhores quiserem mais exatidão nos números, eu posso fornecer, ou a Zilmar, talvez, possa esclarecer melhor do que eu. Eu sou o cara que cria, o cara que cuida do marketing e da direção de televisão.

Em 2002, eu fiz um novo pacote com o PT. Esse pacote incluía não só os comerciais de televisão, no primeiro turno, como o programa do primeiro turno, como algumas campanhas, alguns programas regionais e mais a campanha do Presidente Lula, a campanha do Deputado Genoíno ao Governo de São Paulo, a campanha do Senador Mercadante, a campanha da Benedita. Aí, nós apresentamos um pacote ao PT, tudo incluído, se não me falha a memória, algo em torno de R$25 milhões e alguma coisa.

Por que eu faço pacote? E qual é a sistemática disso? Porque ao longo do tempo eu comecei a aprender que eu, quando entro na campanha, a coisa é uma dinâmica muito rápido. Eu quero uma pesquisa, hoje, eu quero uma pesquisa, amanhã, eu quero um comercial, e, às vezes, isso não tinha essa dinâmica, porque, quando eu dizia: “Eu preciso de mais vinte mil para fazer um comercial”, o cliente dizia: “Bom, fala com outra pessoa, fala com o comitê”. “Mas você fez um comercial ontem”, “mas eu acho que precisava um novo hoje”. E atrapalhava a minha vida.

Eu acho que essa agilidade é um dos pontos fortes do meu trabalho. Eu queria outra pesquisa amanhã, porque, de ontem para amanhã, a coisa mudou. Mas ele disse: “Você não fez uma pesquisa ontem”? Eu disse: “Mas precisa outra”.

Então, resolvi entrar em campanha englobando no meu preço tudo. Quer dizer, eu pego a casa, eu monto a ilha de televisão, eu contrato pesquisa, eu contrato apresentador, eu englobo todo o meu pacote, que vai desde a criação da campanha gráfica a toda criação eletrônica, à produção de jingle e tudo. Eu só não imprimo o cartaz nem coloco o cartaz na rua. Isso, diretamente, o candidato faz. Mas tudo o que diz respeito à eletrônica, rádio, televisão, estratégia, inclusive até a roupa do candidato durante a campanha. Nada Armani, como saiu uma vez saiu na imprensa, porque sou que pago. E, na televisão, é cenário. O terno bonito necessariamente não precisa ser caro. Muitas vezes até cortamos atrás. O candidato, às vezes, está de bermuda, porque não vai aparecer. E, às vezes, cortamos atrás, com fita crepe, para poder ficar mais elegante.

Então, procura-se economizar. Mas a produção de televisão efetivamente é sofisticada e cara.

Esse foi o trabalho de 2002, que chegou ao final do ano com uma dívida de – se quiserem o número exato, eu o tenho na minha pasta – onze e meio e alguma coisa. Por aí, como onze e meio.

Então, é importante que eu coloque de cara uma coisa, para os senhores entenderem como é que a coisa funcionou. A minha força com o candidato é durante a campanha. Ali, se me atrasar demais, eu posso dizer: “Eu não faço”. Eu paro. E acredito que há pessoas aqui que seguramente podem dar depoimento a meu favor – não vou citar nomes, por problemas éticos –, porque já houve isso em campanhas. É a minha única defesa. Eu pago muito a terceiros. Então, acontece que, se alguém me atrasa, eu atraso os meus fornecedores. Eu tenho um nome ligado exatamente a cumprir tratos, por isso as pessoas querem trabalhar comigo. “Olha, Duda, eu faço por esse preço”. Agora, o meu contrato é com você, não é com a campanha. Eu pago. E já tomei cano em algumas campanhas e paguei todos os meus compromissos.

Bom, aí passei para 2003 com um débito de 11,5 milhões mais ou menos. Em 2003, fiz novo pacote com o PT, um pacote de 7 milhões, que era o ano inteiro de assessoria política para eles, a produção dos programas de rádio e televisão do primeiro turno e do segundo turno e todos os comerciais do primeiro semestre e do segundo semestre. E também o seguinte: nesse momento, criei para o PT uma idéia de pegar cinco minutos dos programas regionais e deixar para o nacional. Então, uma idéia que era muito boa, mas que me deixou meio louco e até contribuiu para eu ficar um pouco mais careca, porque eu tinha que fazer programas especiais de cinco minutos; a maioria nos Estados pelo menos grandes. Então, às vezes, os cinco minutos de Minas eram diferentes dos cinco minutos do Rio, que eram diferentes dos cinco minutos de São Paulo. Para os Estados menores, fazíamos uma coisa mais ou menos igual. Mas eu tinha uma despesa muito grande.

Então, fiz um contrato com eles, um pacote de sete milhões, para todo esse trabalho durante o ano. Aí começou uma coisa esquisita: passou um débito na campanha de 2002 para 2003, e a gente sem força. Aí, os candidatos são eleitos ou derrotados, mas a nossa força diminui. Na verdade, é o lado de lá que está com a faca e o queijo na mão.

A Zilmar começou a pressionar muito o Delúbio, em função de recebermos o dinheiro, um dinheiro justo de um trabalho executado.

Eu queria deixar claro para os senhores o seguinte: o meu dinheiro é limpo. Talvez essa seja a coisa mais importante entre outras revelações que vou fazer. A minha empresa é uma empresa séria, eu sou um cara honesto, eu pago todos os meus tributos, até porque, quando faço para o cliente o meu orçamento,  coloco 16% em cima. A minha empresa, a CEP, é lucro presumido. Eu não ganho nada em receber por fora; ao contrário, talvez eu não estivesse aqui nesse momento se tivessem me pago tudo bonitinho, direitinho.

O Sr. Delúbio disse a Zilmar que havia uma publicitário de Minas, o Sr. Marcos Valério – até então uma figura absolutamente desconhecida para mim e, acredito, para a Zilmar. Que o procurássemos que ele ia resolver o nosso problema.

Muito bem! O PT, naquele momento, tinha de nos pagar R$11,5 milhões, mais ou menos, e mais ou menos R$7 milhões; mas R$3 milhões eles vinham pagando – refiro-me ao PT, diretamente, oficialmente, o Partido nacional. Eles disseram que íamos receber R$4 milhões através do Sr. Marcos Valério. A Zilmar o procurou, e ele começou a pagar.

No primeiro saque, eu me lembro que eu estava na Bahia – isso porque campanha política é um ano da minha vida. Quem já trabalhou comigo sabe que eu entro às 8 horas no comitê eletrônico e saio às 3 da madrugada. Lá, eu tomo café, almoço e janto. É um ano da minha vida dedicado a isso. É muito sofrido. Eu levo isso muito a sério e é muito sofrido.

Acabou a campanha, eu me mandei para a Bahia. Eu estava na praia, quando a Zilmar me ligou: “Duda, aconteceu uma coisa esquisita: eu fui receber a primeira parcela que me deram, de R$300 mil, e eu estou crente que vou lá receber um cheque especial, no Banco Rural, e o cara me deu um pacote de dinheiro”. Eu disse: “Ligue para ele e pergunte por quê”? Ele disse: “Vai ser assim”. Ela recebeu. A gente tinha que receber.

Não quero ficar de santinho, nem de hipócrita, nem de cínico, mas, na verdade, ou a gente recebia assim, ou não recebia. E eu tinha coisas a pagar. Eu não tinha mais poder de decisão. O jogo estava na mão deles. A minha parte eu já fiz. Agora, ou eu recebo assim, ou simplesmente eu tomo o cano. Então, não havia alternativa.

Começamos a receber e a pagar também aos fornecedores. Foram três prestações de R$500 mil e, depois, duas de R$250 mil, se não me engano. Faço esta ressalva: posso pegar um papel, se for preciso, ou a própria Zilmar dizer, ou, depois, mandar os números precisos para V. Exªs. Ela recebeu alguma coisa como R$1,400 milhão, R$1,350 milhão. O Sr. Delúbio pagou, durante o ano, para a gente, a importância, também em dinheiro, parcelado, ou ele mesmo pagava à Zilmar ou mandava emissários pagar, ou a Zilmar mandava emissários receberem nas mãos dele.

Em determinado momento, o Sr. Marcos Valério chamou a Zilmar e lhe disse: “Traz uma conta lá fora, porque fica mais fácil pagar a vocês”. Para nós, isso era uma coisa esquisita. Mas, de novo, era assim: ou traz a conta lá fora ou não vai receber a grana. Confesso que eu estava muito preocupado em receber o meu dinheiro. Eu tinha feito o meu trabalho, tinha executado o meu trabalho, tinha conseguido eleger candidatos importantes e nada mais justo, a meu ver, do que receber o dinheiro combinado.

Eu trabalho muito com o Banco de Boston, em Salvador. A vida inteira trabalhei com o Banco de Boston e com o Banco do Brasil. Quando viemos abrir a filial de São Paulo, também começamos a trabalhar com o Banco de Boston. Comecei a pegar informações do Banco de Boston internacional. Eles mandaram um rapaz para cá, e ele trouxe um formato de uma empresa para eu assinar como procurador. Era uma empresa nas Bahamas, e havia a garantia de sigilo completo.

A Zilmar passou o número para ele, e eles começaram a remeter o dinheiro para a gente. Aí entrou Deus nessa história, porque, em determinado momento, a conta deles não batia com a nossa. A SMP&B passou um fax para a gente, contando todo o pagamento e de onde vinha.

Se não tivéssemos isso nas mãos hoje, seria muito complicado para mim, porque, pelo que estou vendo, a estratégia é dizer que eu recebi aqui e mandei para fora, quando isso não é verdade. Não recebemos nada em Minas, não conhecemos ninguém de Minas, não recebemos das mãos de figura nenhuma. Fiquei com medo, em determinado momento, quando aquele policial chegou aqui. E ele dizia que esse cara pagou à gente. Eu disse à Zilmar: “Esse cara vai chegar lá e vai dizer que pagou”. O pior é que fica uma briga de palavra com palavra, o que é terrível para a gente.

Volto a dizer: o meu dinheiro é limpo. Coloco à disposição de V. Exªs as minhas empresas todas, o meu sigilo, o meu Imposto de Renda. Hoje, tenho uma situação boa, graças a Deus, às custas do meu trabalho. Ganhei dinheiro à custa do meu esforço. Sou um publicitário bem-sucedido, não tenho como negar isso. Mas sempre, cada tostão foi única e exclusivamente à custa do meu trabalho.

E aí o dedo de Deus. Ela mandou todos esses comprovantes, não digo do dinheiro todo lá para fora, que foi alguma coisa como 10 milhões, mas muito perto disso, em depósitos fracionados. E, agora, quando houve esse rolo, a gente começou a procurar. E pensei: “Meu Deus, vai ficar a palavra de um contra o outro”. Graças a Deus, o nosso pessoal de contabilidade achou, lá no fundo do baú, esses faxes.

Tenho certeza de que, agora, vai ficar muito fácil separar o joio do trigo. Nesses faxes há – posso pegá-los, porque vou encaminhá-los aos senhores – um do Banco Rural Europa, enviando para a nossa conta U$25 mil. Há diversos de um BAC Florida Bank – desse, tenho um fax da SMP&B com o nome da empresa em cima. Tenho vários do Trade Link, tenho até um com um nome esquisito, um nome de Israel, se não me engano. Há um aqui que achei esquisito para caramba.

Bom, vou passar isso, para não me alongar demais. Os senhores vão poder consultar. Estou um pouco nervoso, então, depois vou passar. Está aqui. Não quero cometer nenhum equívoco, não sei ler isso direito e confesso que estou um pouco nervoso. Há inclusive um em que está escrito: “em atenção de Geisa”, há um que está escrito, acho que é fácil, “com grafia alguma coisa”.

O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Não é Graffiti?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Não, grafia. O exame grafotécnico vai descobrir de quem é a letra que está aqui.

Há um que diz: “de Jader para Geisa”. Não sei quem é Geisa, sei que é uma secretária da SMP&B. E há um quadro que diz assim – como, naquele momento, a gente começou a reclamar que o dinheiro não estava batendo com o nosso caixa, há um quadro aqui que, em diversos momentos, está dizendo assim: “faltando, faltando, faltando”. E, embaixo, tem escrito: “os valores que estão apontados como ‘faltando’ estão sendo verificados pelo agenciador remetente”.

Então, acho que isso que vou passar às mãos da CPMI... Ontem, os nossos advogados, em São Paulo, foram muito humanos e sábios, quando eu disse a eles: “Eu quero ir e falar a verdade”. Eles me disseram que isso implica risco e me disseram quais os riscos, mas, para mim, o maior risco é eu permitir que uma imagem construída, respeitável, ao longo de 30 anos, fosse comprometida por uma coisa de que não me considero, nem de longe, culpado.

Quero dizer claramente aos senhores: posso ter cometido um equívoco, um lapso, um erro fiscal, mas não cometi um erro sério, um erro de honestidade, um erro de caráter. Realizei um trabalho, entreguei meu trabalho e tinha como única forma receber aquela. Sei que, ao dizer tudo isso, corro riscos, mas eu disse aos meus advogados que prefiro acabar com esse pesadelo de uma vez e assumir a minha parte de culpa, na Polícia, aqui com os senhores, e pagar o preço que for necessário, mas ir para a minha casa beijar os meus filhos com a consciência tranqüila.

Era isso o que tinha a dizer nesse começo. Depois, vou estar à disposição dos senhores para responder a qualquer pergunta.

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Eu gostaria de convidar a Srª Zilmar Fernandes para vir à Mesa Diretora e...

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – E abriremos já para as perguntas, começando pelo Relator, Deputado Osmar Serraglio. PMDB – PR

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Sr. Presidente, V. Exª poderia pedir ao Relator para nos informar sobre esses faxes que o Duda está entregando? Qual é a origem desses faxes, para que tomemos conhecimento. Qual é o banco? Para onde foi?

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Meu caro Arnaldo Farias de Sá, vamos tirar as cópias necessárias para que todos os Parlamentares as tenham.

O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) Sr. Presidente, eu pediria que distribuíssem agora as cópias, que serviriam de instrumento até para nós fazermos os questionamentos e avançarmos nessa questão.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Essas serão as providencias tomadas neste momento.

O SR. ARNALDO FARIA DE SÁ (PTB – SP) – Suspende por cinco minutos, então.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Imediatamente.

O SR. POMPEO DE MATTOS (PDT – RS) – Finalmente, Sr. Presidente, alguém veio a esta CPMI dizer a verdade. Se há alguém que veio a esta CPMI dizer a verdade, com sinceridade, quero dizer que é o Sr. Duda Mendonça.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Vou passar a palavra ao Relator, Deputado Osmar Serraglio. PMDB – PR Depois, os inscritos poderão fazer perguntas tanto à Srª Zilmar como ao Sr. Duda Mendonça.

Com a palavra o Relator, Deputado Osmar Serraglio. PMDB – PR

Eu pediria silêncio, por favor.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Sr. Presidente, Srs. Parlamentares, Sr. Duda Mendonça, Srª Zilmar, começo com um pouquinho de dificuldade, porque, evidentemente, não tenho selecionado especificamente o que deva ser informado por um ou por outro. De forma que farei da seguinte maneira – penso que mais corretamente: direcionarei os assuntos pertinentes às campanhas realizadas ao Sr. Duda Mendonça e, em relação, imagino, à parte financeira, já que o Sr. Duda nos informou que não teria muito conhecimento em relação a essa parte, eu faria as perguntas à Srª Zilmar.

De alguma forma, V. Sª, Sr. Duda, já fez referência, mas, resumidamente, para que possamos inclusive registrar nos assentos nossos aqui da CPMI, pelo questionamento posterior, V. Sª teria condições de nos dizer especificamente quais as campanhas políticas que a sua empresa patrocinou de 1998 para cá?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – O preço que a gente fez, é isso? Bom, se eu esquecer de algum, não sou bom de memória. Mas eu me lembro que a gente fez, de 98 para cá, a campanha do Senador Garibaldi Alves, Rio Grande do Norte, Governador e Senador lá; fizemos a do Senador Fernando Bezerra; fizemos, em Minas, a campanha do Senador Azeredo...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Um pouquinho mais lentamente. Fernando Bezerra.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Fernando Bezerra, Rio Grande do Norte, e Garibaldi Alves. Fizemos, em Minas, a reeleição do Governador Azeredo e a de um Senador do qual não me recordo o nome. Fizemos a campanha de Miguel Arraes, em Pernambuco; fizemos a campanha de Britto e do Senador Pedro Simon, no Rio Grande do Sul. Acho que basicamente foram essas. Posso verificar depois.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Nas eleições de 1998?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – 98, sim, senhor.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Na seguinte?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Não, fiz uma outra, do PT do Acre, de Jorge Viana.

Bom, a partir de 2001, fui contratado ...

A SRª ZILMAR FERNANDES DA SILVEIRA – Há mais algumas.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Em 98, houve alguma na capital?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Posso completar? Há mais algumas...

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Mas não era de Presidente. E proporcional. A seguinte.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Posso passar a outras?

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Pode.

A SRª ZILMAR FERNANDES DA SILVEIRA – Dante, de Mato Grosso.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – 98.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Em 2000.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Dante.

O SR. EDUARDO SUPLICY (PT – SP) – E Oscar?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Maluf, Oscar.

O SR. EDUARDO SUPLICY (PT – SP) – Não a minha, mas só para relembrar.

A SRª ZILMAR FERNANDES DA SILVEIRA – Isso mesmo.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA Exatamente.

O SR. EDUARDO SUPLICY (PT – SP) – Foi difícil, mas...

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Exatamente. Maluf e Oscar...

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Senador Eduardo Suplicy,  V. Exª terá oportunidade de relembrá-lo.

O SR. EDUARDO SUPLICY (PT – SP) – É só para a memória do depoente.

O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Nós entendemos, meu caro Senador Suplicy.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Em 99, praticamente, fiquei na Argentina.

A SRª ZILMAR FERNANDES DA SILVEIRA – Em 99 e 2000.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Em 99 e 2000. A gente fez várias campanhas em Córdoba. Trabalhamos para o Menen e fizemos várias campanhas na Argentina.

A partir de 2001, nós nos aproximamos do PT e aí, praticamente, só trabalhamos para o PT. Nas eleições de 2000, não houve eleição; nas eleições de 2002. Depois, na eleição de 2003, não teve e, na eleição de 2004, fizemos a campanha à Prefeitura de Recife, de João Paulo. Fizemos, em Curitiba, Vanhone, também PT; fizemos da Marta, em São Paulo; fizemos do Pimentel, em BH.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR (PMDB – PR) – Só um instante. Em relação a 2002, com mais 2001, V. Sª fez do PT só?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Não, em 2000 não houve eleição. A partir de 2001 até 2004 e até hoje, só trabalhamos para o PT.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR (PMDB – PR) – Mas especificamente em 2002, ao PT, onde e a quem?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA A campanha do Presidente Lula a Presidente; a campanha do José Genoíno a Governador de São Paulo; a campanha do Senador Aloizio Mercadante, em São Paulo; a campanha da Benedita, no Rio de Janeiro; e a campanha de um Senador do Rio de Janeiro, cujo nome, desculpem, também não me recordo. Eu estava mais focado na campanha do Presidente, e minha equipe, mais focada na campanha do Rio.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR (PMDB – PR) – Em 2004?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Em 2004, foram essas campanhas municipais que acabei de relatar: da Marta, em São Paulo; do Vanhone, em Curitiba; do Pimentel, em Belo Horizonte; do João Paulo, em Recife; e, em Goiânia, Pedro Wilson. Foram cinco campanhas.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR (PMDB – PR) – Só fizeram de capitais?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA Só de capitais. Houve outra de prefeito?

A SRª ZILMAR FERNANDES DA SILVEIRA – Não, só as capitais.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR (PMDB – PR) – Do Rio de Janeiro?

 O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Não, não fizemos.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – A agência, de alguma forma, tinha pruridos em relação a fazer de um partido que era adversário a outro, em determinadas situações, ou levava em consideração os fins financeiros da agência?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA Eu tenho um pouquinho de tempo para responder isso? (Pausa.)

Comecei a minha vida na Bahia. Eu era estudante de Esquerda, ia para a rua, nos tempos das passeatas, e comecei fazendo a campanha sempre da Oposição na Bahia. A um determinado momento, acho que o candidato, na época, não foi correto com a gente. Aí eu decidi o seguinte – eu tinha dois filhos pequenos, gêmeos: que ia ser profissional, que ia fazer campanha para qualquer um. Então, comecei a trabalhar para qualquer partido.

É uma coisa curiosa, porque inclusive mostra bem o meu estilo de trabalho: fiz campanhas de partidos diferentes em vários Estados. E o meu trabalho era compreendido e respeitado exatamente por eu não misturar. Se eu era PSDB, no Estado de Minas, eu era PSDB, no Estado de Minas, para o que desse e viesse; se eu era Arraes, em Pernambuco – aliás, foi uma campanha em que falei um hora com o Arraes, dizendo que ele não tinha chance. Eu tinha uma admiração muito grande por Miguel Arraes no meu tempo de estudante. E quando acabei de apresentar um relatório, dizendo que eu achava que ele não tinha a menor chance, eu disse: “Governador, eu não faço mágica”. Ele olhou para mim e disse: “Ô, não faz, não? Disseram que o senhor fazia”. E eu disse a ele depois: “Se eu soubesse fazer mágica, eu tinha feito”. Eu tinha pelo Governador Miguel Arraes uma grande admiração – e tenho ainda.

Todas as campanhas que fiz, eu me envolvia com elas do mesmo jeito. O tempo foi passando, a minha empresa foi crescendo, fui ganhando dinheiro e consolidando a minha posição de empresário; e a minha empresa de marketing político foi ficando importante, saindo do País.

Quando o PT me chamou, eu tinha um sonho. É engraçado, porque acredito muito nessas coisas de predestinação. Por incrível que pareça, a primeira campanha de Presidente que fiz foi a campanha do Presidente Lula. Eu estive para fazer várias campanhas, inclusive, no primeiro momento em que o Presidente Lula me chamou para fazer a campanha dele, que saiu no jornal, recebi um telefonema do Presidente Fernando Henrique. Eu tinha feito o parlamentarismo, e ele disse: “Duda, eu queria que você fizesse a minha campanha”. Eu disse a ele – não me lembrava se era Senador, Deputado, Ministro: “Olha, esperei que o senhor me ligasse; a gente tinha conversado sobre isso na campanha do parlamentarismo, e eu esperei que o senhor me ligasse”. Ele disse: “Não dá para você voltar atrás”? Eu disse: “Por mim, não, porque assumi um compromisso”. E ele disse: “Duda, precisamos conversar sobre isso”. Depois, a campanha do PT não deu certo, mas fiquei com vergonha de ligar para o Presidente. Eu já estava com a campanha do PT praticamente criada e aí resolvi não ligar.

Eu tinha feito a campanha do Fernando Collor, Governador de Alagoas, inclusive criado a marca – eu e um diretor de arte meu, chamado João –   dos dois eles. E, quando vim a Brasília, uma vez, conversar com ele, não bateu na minha pele o esquema e o grupo da campanha, e Deus, mais uma vez, me tirou daquele momento. Então, acabou.

No tempo em que eu disse ao Maluf que eu ia fazer a campanha do Lula, ele brigou comigo e disse assim: “O que é que vou dizer”? Eu disse: “Não sei o que o senhor vai dizer. Não estou aqui lhe pedindo permissão. Vim aqui lhe comunicar. O senhor diz o que senhor quiser, pode dizer que sou doido, pode dizer o que o senhor quiser. Eu vou fazer a campanha do Lula”. Ele disse: “E a campanha do Senador Esperidião Amim? Eu disse que você fazia”. Eu disse: “Eu não vou fazer. O senhor chama o Nelson Biondi. Ele faz. O Nelson Biondi é um grande publicitário, é um grande marqueteiro. Eu vou fazer a campanha do Lula”.

Acabei não fazendo a do Lula e não fazendo a dele. Acho que fui fazer uma campanha em São Paulo para o candidato do Fleury, Barros Munhoz, e não participei da campanha de presidente.

Então, por incrível que pareça, fiz campanha de presidente fora do Brasil. Mas a primeira campanha de presidente que fiz foi a do Presidente Lula. E, de 2001 – só afirmando o que o senhor perguntou – a 2004, só trabalhei para o PT.

O SR.  RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Mesmo nos Estados?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Mesmo nos Estados.

O SR.  RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Antes de lhe fazer a próxima pergunta, eu queria fazer um esclarecimento, porque, com certeza, eventualmente, serei questionado. Vejo aqui muitos advogados. Salvo engano, não sei se hoje é o Dia do Advogado, mas pelo menos é o dia em que os cursos de Direito foram fundados no Brasil, em Pernambuco e em... É o Dia do Advogado.

O SR. (Orador não identificado) – É o nosso dia.

O SR.  RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Então, é o Dia do advogado. Sou inclusive professor de Direito na universidade.

Não quero ser questionado sobre um aspecto formal que está ocorrendo à Mesa, mas, acima do aspecto formal, a forma franca e aberta com que os dois que aqui compareceram estão expondo vale mais do que qualquer compromisso. O Código de Processo Penal impede – e é o que se aplica subsidiariamente às oitivas – que uma testemunha ouça outra.

De forma que desconsidero o termo, o aspecto formal, e passam a ser, por hora, colaboradores da CPMI. E, à frente, se eventualmente for necessário – à frente que digo é em outra oportunidade, porque, evidentemente, a colaboração espontânea que o Duda Mendonça oferece nos leva a prestigiá-lo também com o mesmo nível de respeito que tenho oferecido não à Casa, mas ao País, com esses esclarecimentos.

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Obrigado, Presidente.

O SR.  RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Quem é que tratava com V. Sª em relação aos pagamentos efetuados desde 2001, se se lembrar, nas diversas campanhas que realizaram pelo PT? Inclusive, em relação a capitais, se esses relacionamentos financeiros eram diretos com os diretórios regionais ou municipais ou era tudo tratado em âmbito nacional? Como era o relacionamento, e com quem, no aspecto de pagamento?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Bom, sempre com o Sr. Delúbio. No contrato, no pacote de 2001 – porque não havia campanha –, sempre como Diretor-Tesoureiro do PT, o Sr. Delúbio Soares. Na campanha de 2002, também com o Sr. Delúbio Soares e, no Rio de Janeiro, também, com o comitê da campanha da candidata Benedita. Nas campanhas de Prefeito, no ano 2003, esse contrato que fizemos, foi um contrato com o PT nacional, todos os extratos financeiros com o Sr. Delúbio Soares. E, na campanha de 2004, mais uma vez, a gente tratava com os comitês de campanhas regionais, mas o Sr. Delúbio Soares acabava sendo o responsável por isso e se comprometendo a pagar algumas coisas. Quero dizer inclusive que, da campanha de 2004, o PT me deve alguma coisa como R$14 milhões.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ainda hoje?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Hoje.

O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª teria condições de nos informar que critérios eram adotados – se era a partir, digamos, de alguma razão específica da empresa, o porquê que Diretório Nacional selecionava apenas alguma campanhas, no universo do PT nacional? Em outras palavras, V. Sª fez campanhas restritas a determinados locais. Sabe dizer por que não fez a outros em outras capitais?

O SR. JOSÉ EDUARDO CAVALCANTI DE MENDONÇA – Basicamente, eu tenho cinco equipes. Eu tenho condições de fazer, no máximo, cinco campanhas. Então, na verdade, não era o Diretório Nacional quem decidia isso, eram contatos pessoais com os próprios candidatos. Então, cada caso é um caso. No caso de São Paulo, foi a própria candidata Marta quem procurou a gente. No caso do Rio, a procura foi da própria candidata Benedita. O Governador – Genoino é meu amigo de muito tempo, candidato ao Governo; o Senador Aloizio Mercadante também é meu amigo de longo tempo. Então, na verdade, eram eles que nos procuravam. Aliás, em 99% das campanhas que eu fiz, eu fui procurado – 99.9% das campanhas que eu fiz eu fui procurado. Então, o Delúbio não participava disso. Mas, no começo da campanha, eles...E como esses pacotes – é importante que eu esclareça isso –, como o acerto era do ano – o pacote –, havia coisas ali que eram pagas pelos PTs regionais e outras pagas pelo PT nacional. Por exemplo: quando eu fazia o Programa Nacional do PT, do horário gratuito, não-campanha, os comerciais e os programas de rádio eram pagos pelo PT nacional. Quando eu fazia campanha, por exemplo, o mesmo programa de um diretório regional, era paga por um diretório regional. Às vezes, o Diretório regional pedia ajuda do Sr. Delúbio, e ele, dizia: “Olhe, então, o Diretório regional lhe paga essa parte, e eu lhe pago essa parte”. Então, tudo era feito: as partes das campanhas pelos comitês locais, a parte dos programas estaduais eram pagas pelo PT regional, e às vezes complementadas pelo PT nacional, e a parte do pacote que significava o PT Nacional, o Diretório nacional, paga diretamente pelo Diretório Nacional.