Domingo, 03 de Julho de 2005   02:22

 

CPI JÁ INVESTIGA APADRINHAMENTO NAS FRANQUIAS DOS CORREIOS
por Bernardo de la Peña e Gerson Camarotti -
 
BRASÍLIA. Denunciadas pelo ex-chefe do Departamento de Contratações dos Correios Maurício Marinho como mais um foco de fisiologismo na estatal, as franquias já começaram a ser investigadas pela CPI. O negócio movimenta R$ 1,9 bilhão por ano e, segundo Marinho, envolveria políticos e seus apadrinhados, que receberiam autorização para montar lojas dos Correios em todo o país.

Depois de receber na quinta-feira a lista das 200 maiores agências franqueadas, que movimentam R$ 1,077 bilhão anualmente, a comissão vai fazer um cruzamento dos nomes dos proprietários das franquias com suas declarações de renda, na tentativa de encontrar incompatibilidades e assim identificar possíveis laranjas de políticos.

Além de investigar ligações de três entre as 200 maiores agências franqueadas com filiados do PTB, a comissão recebeu relatório dos Correios, feito a pedido da CPI, que aponta falhas no sistema de controle. Das 200 maiores agências franqueadas, 131 não têm sistema digital, como as usadas na maior parte dos postos dos Correios. Essas 200 franquias respondem por 54,93% da receita proveniente das agências franqueadas.

A ausência do sistema digital, que registra as correspondências enviadas, permite eventuais subfaturamentos, já que as agências são remuneradas por comissão. O assunto deverá ser abordado na CPI durante o depoimento do ex-diretor de Operações dos Correios Maurício Madureira.

Um dos casos investigados pela comissão é o da agência franqueada Centro Sul, em Brasília, que está em 17 lugar entre as maiores agências privadas. A franquia — que faturou entre julho de 2003 e junho de 2004 R$ 11,126 milhões e recebeu R$ 1,8 milhão em comissões — pertence a Maria Aparecida Oliveira Yung e a Márcia Cristina Lanzelote Varandas Argelo. Márcia Cristina é ex-mulher do presidente do diretório do Distrito Federal do PTB, o deputado distrital Gim Argelo.

Deputado diz que franquia foi comprada há dez anos

Ele nega influência política e diz que a franquia foi comprada há dez anos, antes de ele ser eleito deputado pela primeira vez. Argelo informa ainda que está separado de Márcia Cristina há três anos.

— Não há influência política. Se tivesse algo desse tipo na franquia da minha ex-mulher, eu teria recebido contratos do Distrito Federal, como do Detran ou da Secretaria da Fazenda. Mas isso não existe. Também não tenho acesso ao governo federal — acrescentou Argelo.

Outras duas agências franqueadas dos Correios em São Paulo, que juntas faturaram R$ 140 milhões entre julho de 2003 e junho de 2004 e receberam aproximadamente R$ 20 milhões de comissão, estão sob investigação da CPI, sob suspeita de também terem ligações com o PTB paulista.

A senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) cobrou a investigação na CPI dos Correios sobre a existência de um esquema político de uso de franquias:

— Isso é inaceitável. As franquias não podem ser objetos de moeda política. É preciso estabelecer critérios técnicos. Vamos investigar a relação dessas franquias com os Correios.

A CPI espera receber ainda os grandes contratos dos Correios. Em seu depoimento, Marinho levantou a suspeita de que, para as agências franqueadas com ligações políticas seriam destinados grandes clientes. Em todo o país, existem 1,5 mil agências franqueadas dos Correios.

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