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Agente da Abin diz que GSI mandou parar investigação nos
Correios
O
coordenador geral de operações sistêmicas da Agência Brasileira de Inteligência
(Abin), Edgar Lange, informou aos membros da Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito que investiga denúncia de corrupção na Empresa Brasileira de Correios
e Telégrafos (CPI dos Correios) que, entre os dias 5 de abril e 16 de maio, por
ordem do diretor de Operações Paulo Ramos, seu chefe imediato, investigou um
suposto esquema de corrupção na empresa. No dia 17 de maio, ele interrompeu o
trabalho, cumprindo determinação do general Jorge Armando Félix, chefe do
Gabinete de Segurança Institucional. Edgar Lange, apelidado de "Alemão", negou
qualquer envolvimento da Abin na gravação da fita que flagrou o funcionário dos
Correios, Maurício Marinho, embolsando o que seria um suborno de R$ 3
mil.
Edgar Lange - que quer ser chamado de analista
de informações e não de "araponga" e que disse que a Abin não investiga, mas
"produz conhecimentos de inteligência" - revelou que a investigação nos Correios
foi motivada por denúncia anônima enviada à Abin sobre possíveis irregularidades
que estariam ocorrendo na estatal. Depois de receber a aprovação para
implementar o plano de trabalho que elaborou para a operação, que recebeu o
carimbo de "secreta", ele narrou que determinou à sua equipe que coletasse todos
os dados disponíveis que poderiam ajudar na "produção de conhecimentos de
inteligência".
- Isso ocorreu uma semana antes da revista Veja
chegar às bancas com a transcrição da fita que acusava Maurício Marinho de
envolvimento em um esquema de corrupção. Como não temos autorização para efetuar
"grampos", optei pela única técnica que poderia ser utilizada naquela operação:
a entrevista. Consultamos nossas fontes e buscamos pessoas que poderiam nos
fornecer dados - afirmou o "Alemão", que explicou que o apelido, ao invés de ser
codinome de agente secreto, deve-se ao fato de sua descendência
germânica.
Durante o período em que coordenou a investigação sobre os
Correios, contabilizou Edgar Lange, ele produziu 16 relatórios sobre o caso.
Todos eles receberam classificação sigilosa. O primeiro teria sido expedido no
dia 20 de abril, e, o último, em 16 de maio. Nesse dia, lembrou o agente que
trabalha há 29 anos na Abin, recebeu do diretor do departamento do qual é
subordinado uma cópia da fita de vídeo com as imagens de Marinho. Dois dias
antes, em um sábado, a Veja tinha chegado às bancas com a matéria que
denunciou a possível rede de corrupção nos Correios. Na terça-feira (17),
recebeu a ordem de interromper as investigações. Jairo contradiz depoimento de Wascheck
O
ex-agente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Jairo Martins de Souza
afirmou ter sido movido por "espírito jornalístico" quando decidiu entregar ao
repórter Policarpo Júnior, da revista Veja, a fita de vídeo que mostrou a
entrega de R$ 3 mil ao ex-chefe do departamento de Administração e Compras da
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, Maurício Marinho.
Em sua exposição à comissão parlamentar mista de inquérito que
investiga denúncias de corrupção na estatal, ele apresentou versão diferente da
que contou o empresário Arthur Wascheck Neto, mandante confesso da gravação. Ao
contrário do que relatou à CPI Wascheck, dono da Comercial Alvorada de
Manufaturados (Comam), Jairo disse que, desde o início, havia a intenção de
repassar o vídeo à imprensa.
- Mas, independentemente da vontade dele, eu publicaria -
afirmou Jairo, destacando ter sido motivado por "patriotismo" ao realizar a
gravação e ao divulgá-la.
Antes de prestar depoimento, Jairo pediu que a reunião fosse
secreta, alegando temer que a exposição de sua imagem colocasse em risco a si e
a sua família. Ele informou estar sendo perseguido desde que participou das
gravações que culminaram na cassação do mandato do ex-deputado federal André
Luiz. Os parlamentares, entretanto, preferiram manter a reunião aberta.
Outra contradição entre o depoente e Wascheck foi sobre o
equipamento utilizado na gravação. Jairo disse que a maleta com a câmera
escondida tinha sido comprada em Brasília, na feira de produtos importados, a
Feira do Paraguai, exclusivamente para o flagrante de Maurício Marinho. Afirmou
que a própria maleta seria o seu pagamento pelos serviços. Wascheck apresentou a
versão de que o material de espionagem era do ex-agente e que teria sido apenas
alugado.
O deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) apontou ainda
divergências entre os depoimentos do jornalista Policarpo Junior à Polícia
Federal e o de Jairo à CPI: à PF, Policarpo disse ter sido procurado por Jairo
sobre um esquema de corrupção envolvendo o PTB, sobre o qual garantiu ter
provas. À CPI, Jairo afirmou não ter comentado o assunto com o repórter e que, à
época do contato, anda não existiam provas. O jornalista, prosseguiu Cardozo,
afirmou ainda que a primeira fita que viu não foi a divulgada, ao contrário do
que afirmou o ex-agente da Abin.
Jairo disse ser amigo do empresário de jogos Carlos Ramos, o
Carlinhos Cachoeira. Afirmou não conhecer Arlindo Molina, que mostrou a gravação
ao deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), e José Fortuna Neves, ex-agente do
Serviço Nacional de Informações. Mas confirmou conhecer Edgar Lange, conhecido
como Alemão, que teria relatado a Fortuna a participação da Casa Civil nas
investigações sobre a Unisys, que tem convênio com a ECT. Jairo afirmou também
ser amigo de Paulo Ramos, diretor de operações de inteligência da Abin. O
deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ) identificou nessas declarações um forte indício
de que o ex-agente da Abin sabia da investigação nos Correios patrocinada pela
agência.
Vários parlamentares da oposição mostraram-se contrários ao
depoimento dos envolvidos com a gravação, que, a seu ver, deveria ser executado
pela Polícia Federal. Os senadores César Borges (PFL-BA) e Alvaro Dias (PSDB-PR)
e os deputados Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), Juíza Denise Frossard
(PPS-RJ) e Onyx Lorenzoni (PFL-RS) afirmaram ser preciso investigar o braço
político por trás do esquema de corrupção e desvio de verbas públicas montado
nas estatais. Onyx acusou ainda o PT de ser uma "camarilha" e destacou não
acreditar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja um "inocente útil". Os
parlamentares também pediram agilidade para a aprovação de requerimentos que não
deixariam a comissão à reboque da imprensa, como o que determina a tomada de
depoimentos do presidente do PT, José Genoíno, do ex-tesoureiro do partido
Delúbio Soares, do ex-secretário-geral Silvio Pereira e do ex-ministro e atual
deputado José Dirceu (PT-SP).
Um dos depoentes chamados para esta terça-feira (5), Kasser
Bittar, enviou requerimento à CPI alegando ser impossível prestar depoimento, já
que não está em Brasília. O vice-presidente da comissão, senador Maguito Vilela
(PMDB-GO), pediu que a Polícia Federal verifique se a informação é verdadeira.
Kasser é obrigado a depor, já que a CPI tem poder de convocar os
depoentes. Fortuna nega envolvimento com a gravação
Em seu depoimento à CPI dos Correios, o ex-agente do Serviço
Nacional de Informações (SNI), José Santos Fortuna Neves, negou que tenha tido
qualquer participação no episódio de gravação da fita que flagrou o funcionário
da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), Maurício Marinho,
recebendo propina. Fortuna foi citado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ)
como um dos responsáveis pela gravação.
Jefferson também o acusou de utilizar a fita para
chantageá-lo. Fortuna, no entanto, alegou não conhecer o deputado.
- No afã de procurar algum culpado, ele citou o meu nome.
Não tenho nada a ver com isso. Nunca pensei em gravar alguém - declarou.
As relações de Fortuna com a ECT, segundo ele, devem-se ao
fato de ter participado, através de sua empresa, Atrium, de diversos
processos de licitação na estatal. Só no ano passado, de acordo com o
ex-agente, foram três concorrências. Em uma delas, para o fornecimento de
coletores, a empresa teria se sentido prejudicada, pois, apesar de possuir as
melhores condições técnicas e o melhor preço, perdeu a concorrência para a HHP.
A Atrium conseguiu anular judicialmente o resultado da licitação.
O referido processo, afirmou Fortuna, ocorreu no âmbito da
diretoria de Tecnologia dos Correios, não passando, portanto, pela alçada de
Maurício Marinho. Ele não teria, dessa forma, nenhuma intenção de prejudicar o
funcionário flagrado na fita. Teria existido, inclusive, uma relação amistosa
entre ambos - Fortuna declarou que, certa vez, recomendou Marinho ao deputado
José Chaves (PTB-PE), que, posteriormente, viria a indicá-lo para o departamento
de Contratação e Administração de Materiais. Fortuna negou ter ameaçado Marinho.
"Isso é uma mentira", disse.
O ex-agente do SNI confirmou ter encontrado recentemente a
Edgar Lange, o "Alemão", integrante da Agência Brasileira de Informações (Abin),
que também prestou depoimento na CPI nesta terça-feira. Fortuna disse que na
conversa teriam trocado informações sobre os Correios. Afirmou, no entanto que,
atualmente, não possui qualquer vínculo com o serviço de inteligência.
Durante o interrogatório dos parlamentares, ex-agente
Fortuna negou conhecer Henrique Brandão, dono da corretora Assurê e
amigo de Roberto Jefferson, que teria negociado mesadas para PTB em diversas
estatais. Apesar da negativa, ficou demonstrado que o filho de
Henrique, Cristiano Brandão, é sócio do filho de Fortuna, Marcelo Campos Neves,
na empresa Pacto.
José Santos Fortuna Neves mencionou ter sido apresentado a
Arthur Washeck, suposto mandante da gravação, há cerca de três anos, mas alegou
não possuir nenhum tipo de relação com o empresário. O depoente declarou ainda
ser filiado ao PMDB, tendo, inclusive, disputado três eleições pelo partido. Seu
depoimento foi encerrado às 23h11. |