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Durante aproximadamente cinco horas a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
dos Correios ouviu nesta quarta-feira (13) o depoimento do ex-presidente da
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) João Henrique de Almeida
Souza. O depoente, que foi presidente dos Correios por 15 meses (entre março de
2004 e julho de 2005), negou por diversas vezes saber de qualquer irregularidade
dentro da estatal durante sua gestão, inclusive no contrato com a empresa
Skymaster para o Correio Aéreo Noturno.
- Não creio que algum edital de minha gestão tenha sido feito para
beneficiar alguém, seja quem for. Durante minha gestão sempre cuidei para que
todos os processos fossem formatados dentro das corretas estruturas técnica e
jurídica - afirmou.
Filiado ao PMDB desde 1980, Almeida Souza foi secretário de Governo, de
Cultura e de Educação do então governador do Piauí, o hoje senador Alberto Silva
(PMDB-PI). O depoente também informou que foi deputado federal por três
mandatos, sendo o primeiro mandato iniciado em 1991. Foi ainda ministro dos
Transportes de abril a dezembro de 2002, durante o governo Fernando Henrique
Cardoso, e secretário geral do PMDB.
Quando o PMDB resolveu apoiar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva,
ficou decidido, de acordo com Almeida Souza, que a legenda ficaria com os
Ministérios da Previdência e das Comunicações. Ele informou, respondendo ao
senador César Borges (PFL-BA) que sua indicação para a presidência da ECT foi
decidida pelo próprio PMDB e levada por Michel Temer, presidente do partido,
para análise do então ministro das Comunicações, Eunício Oliveira. Ele negou que
sua indicação tenha sido decidida em reunião entre PT e PMDB. César Borges fez a
pergunta citando acusações do deputado federal José Borba.
O depoente afirmou que, quando de sua posse, a estatal apresentava
déficit crescente há pelo menos três anos, só em 2003 o déficit teria sido de R$
337 milhões. Assim, segundo afirmou, assumiu a presidência procurando conter as
despesas operacionais e aumentar as receitas. Ele disse não saber que indicações
os diretores da ECT tiveram para assumir os cargos.
A senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) perguntou se o depoente teria
participado de alguma reunião no Japão ou no Brasil para tratar do último termo
aditivo do contrato dos Correios com a NEC. Almeida Souza negou, e afirmou que a
única viagem internacional que fez enquanto presidente da estatal foi à Havana,
capital de Cuba, para tratar de parcerias entre os correios de ambos os países.
Ele informou também que assinou um termo aditivo do contrato com o Bradesco,
para ampliar a implantação do Banco Postal.
Correio híbrido
Logo nas primeiras perguntas, João Henrique de Almeida Souza relatou em
detalhes o processo de licitação do Programa Correio Híbrido dos Correios (que
basicamente é a transmissão eletrônica de uma mensagem a ser impressa no local
de destino). Ele informou que é um programa similar aos que existem nos maiores
correios do mundo. Perguntado pelo relator da CPI, deputado Osmar Serraglio
(PMDB-SC), informou que em 2002 a ECT tentou fazer a licitação para o programa,
só que ela não ocorreu porque empresas entraram na Justiça e conseguiram uma
liminar, na véspera, para interromper o processo.
Assim, quando ele assumiu a presidência, buscou analisar o projeto da
licitação para poder corrigir os erros e publicá-la novamente, o que aconteceu.
Só que nova liminar foi concedida na véspera novamente, mas como o oficial de
Justiça só podia entregar o documento para o presidente dos Correios, e ele
estava visitando uma diretoria regional da ECT, o documento não foi entregue e a
licitação aconteceu com apenas um concorrente: um consórcio de nove empresas,
que conquistou o contrato. Para ele, outras empresas não participaram porque
tinham certeza que a licitação seria novamente impedida.
Marcos Valério, Delúbio e Sílvio
Pereira
O ex-presidente dos Correios afirmou que nunca teve contato, nem recebeu em
audiência o publicitário Marcos Valério. O depoente também afirmou que nunca
recebeu em seu gabinete, quando era presidente da estatal, os ex-integrantes da
Executiva Nacional do PT Delúbio Soares e Sílvio Pereira. Almeida Souza forneceu
as informações ao responder perguntas de Osmar Serraglio.
- Nunca tive nenhum contato nem o recebi em audiência; ele nunca esteve
em meu gabinete. Delúbio Soares e Sílvio Pereira também nunca estiveram em meu
gabinete - afirmou Almeida Souza.
José Dirceu
Questionado pelo deputado federal Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), o
ex-presidente da ECT afirmou que não sabe se sua indicação para a presidência da
estatal teve a participação do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu.
- Nunca fui chamado ao Palácio do Planalto para falar com José Dirceu -
afirmou.
Disse também que os patrocínios da ECT para eventos culturais ou
esportivos, muitos autorizados durante sua gestão, e muitos a pedido de
políticos, passavam por análises técnica e jurídica da estatal, independente de
quem levava o projeto. Mas frisou que alguns patrocínios tinham que passar pela
aprovação da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom),
ligada à Presidência da República. Entretanto disse não saber quem da Secom
tratava do assunto, pois na ECT quem cuidava disso era o Departamento de
Marketing, e não a presidência da estatal. O deputado Antonio Carlos Magalhães
Neto pediu então que a comissão peça a relação dos patrocínios dos
Correios.
Publicidade da ECT
Sobre as agências de publicidade que atendem a empresa, ele informou que a
licitação para a escolha destas agências foi realizada em dezembro de 2003,
antes de sua posse, e tem validade de cinco anos. Almeida Souza não conseguiu
responder ao questionamento do deputado Onyx Lorenzoni sobre por que teria
assinado, em 22 de novembro de 2004, um aditamento do contrato publicitário da
estatal que venceria dentro de 23 dias, majorando-o de R$ 72 para R$ 90 milhões.
O aditamento favoreceu as três agências de propaganda detentoras da conta da
estatal - Giovanni, Link e SMP&B - esta de propriedade de Marcos
Valério.
- Comprometo-me a esclarecer esse fato à CPMI - disse João Henrique,
explicando que não poderia admitir ter assinado um aditivo de R$ 18 milhões por
23 dias.
Os recursos oriundos do aditamento desse contrato, acrescentou,
deveriam valer por um ano a partir do dia 15 de dezembro, data em que
venceria o contrato que foi posteriormente prorrogado por um ano. |