Ex-chefe dos Correios depõe na CPI e faz acusações contra secretário-geral do
PT, Sílvio Pereira
BRASÍLIA. Ao depor ontem na CPI dos Correios, o
ex-chefe de contratações da estatal, Maurício Marinho, atribuiu ao PT e ao
secretário-geral do partido, Silvio Pereira, a responsabilidade pelas duas
diretorias dos Correios que têm os maiores orçamentos da empresa. Ele negou
fazer parte de um esquema de arrecadação para o PTB. Admitiu, entretanto, que
recebeu os R$3 mil e que falou demais, interessado num futuro negócio que seus
interlocutores, que se apresentaram como empresários, poderiam lhe
oferecer.
Segundo Marinho, ele receberia R$15 mil por uma consultoria
para os falsos empresários. Marinho disse que, se existe corrupção nos Correios,
o responsável não é ele. Disse que a diretoria à qual estava subordinado foi
indicada pelo PTB, que a presidência dos Correios era do PMDB e que as
diretorias de Operações e Tecnologia, cujos contratos estão sob suspeita, foram
indicadas pelo PT.
'Cada diretoria tem um partido político por
trás'
Ele citou os contratos para a compra de cofres feitos com a empresa
de Artur Washesck, que vai ser convocado para depor na CPI por ter mandado fazer
a gravação com Marinho, e o negócio com a Skymaster, que presta serviços de
transporte aéreo de carga para os Correios. Marinho disse ainda que a
responsabilidade pelas licitações de cada área não eram dele.
- Existem
problemas? Quem é, todo mundo sabe. Só tem dois diretores que são de carreira,
os de Tecnologia e Operações. Estou sendo colocado como bode expiatório. O que
estou dizendo é que cada diretoria tem um partido político por trás. Dos dois
diretores das empresas (das áreas que têm o maior orçamento) quem está por trás
é o PT, é o senhor Sílvio Pereira - afirmou Marinho, interrompido neste momento
pelo deputado petista Henrique Fontana (RS).
Houve tumulto na comissão e
o tucano carioca Eduardo Paes reagiu dizendo que Fontana estava constrangendo o
depoente. Marinho disse que foi alvo de uma gravação criminosa e sem validade
jurídica, um trabalho feito por arapongas e que teria demorado 45 dias.
-
Não sou bandido em nenhum grau. Em 1h54m (de gravação), em nenhum momento pedi
propina. Não sou corrupto. Sei onde errei. Sei que falei demais, sei que envolvi
pessoas. Trabalhei fora do horário e recebi o dinheiro que não pedi - afirmou
Marinho.
O depoimento de Marinho começou depois de quase meia hora de
discussão entre os deputados se ele deveria prestar depoimento na condição de
testemunha ou investigado. Como testemunha, Marinho não poderia mentir, sob pena
de ser preso. O presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), porém,
depois de ouvir os deputados, decidiu que Marinho não prestaria o juramento de
falar a verdade.
Jefferson e Sílvio Pereira também serão
ouvidos
Um acordo entre os líderes do governo e da oposição garantiu a
convocação do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) já para o próximo dia 29 e
também do secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, cuja audiência não foi marcada
ainda.
Antes de Pereira, deverão depor o publicitário Marcos Valério de
Souza, um dos donos da agência de publicidade mineira SMP&B que tem a conta
dos Correios, e sua ex-secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio, que acusa o
ex-chefe de ter estreitas relações com o tesoureiro do PT, Delúbio
Soares.
Embora o cronograma de depoimento tenha ficado em aberto, a
intenção de Delcídio e do relator, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), é a de
ouvir, antes de Jefferson, os empresários Artur Washesck Neto e Antonio Velasco,
que teriam mandado gravar Maurício Marinho. |