Quarta-feira, 22 de Junho de 2005    08:09

 

MARINHO: "CADA DIRETORIA TEM UM PARTIDO ATRÁS"
por Adriana Vasconcelos / Bernardo de la Peña -  
Ex-chefe dos Correios depõe na CPI e faz acusações contra secretário-geral do PT, Sílvio Pereira

BRASÍLIA. Ao depor ontem na CPI dos Correios, o ex-chefe de contratações da estatal, Maurício Marinho, atribuiu ao PT e ao secretário-geral do partido, Silvio Pereira, a responsabilidade pelas duas diretorias dos Correios que têm os maiores orçamentos da empresa. Ele negou fazer parte de um esquema de arrecadação para o PTB. Admitiu, entretanto, que recebeu os R$3 mil e que falou demais, interessado num futuro negócio que seus interlocutores, que se apresentaram como empresários, poderiam lhe oferecer.

Segundo Marinho, ele receberia R$15 mil por uma consultoria para os falsos empresários. Marinho disse que, se existe corrupção nos Correios, o responsável não é ele. Disse que a diretoria à qual estava subordinado foi indicada pelo PTB, que a presidência dos Correios era do PMDB e que as diretorias de Operações e Tecnologia, cujos contratos estão sob suspeita, foram indicadas pelo PT.

'Cada diretoria tem um partido político por trás'

Ele citou os contratos para a compra de cofres feitos com a empresa de Artur Washesck, que vai ser convocado para depor na CPI por ter mandado fazer a gravação com Marinho, e o negócio com a Skymaster, que presta serviços de transporte aéreo de carga para os Correios. Marinho disse ainda que a responsabilidade pelas licitações de cada área não eram dele.

- Existem problemas? Quem é, todo mundo sabe. Só tem dois diretores que são de carreira, os de Tecnologia e Operações. Estou sendo colocado como bode expiatório. O que estou dizendo é que cada diretoria tem um partido político por trás. Dos dois diretores das empresas (das áreas que têm o maior orçamento) quem está por trás é o PT, é o senhor Sílvio Pereira - afirmou Marinho, interrompido neste momento pelo deputado petista Henrique Fontana (RS).

Houve tumulto na comissão e o tucano carioca Eduardo Paes reagiu dizendo que Fontana estava constrangendo o depoente. Marinho disse que foi alvo de uma gravação criminosa e sem validade jurídica, um trabalho feito por arapongas e que teria demorado 45 dias.

- Não sou bandido em nenhum grau. Em 1h54m (de gravação), em nenhum momento pedi propina. Não sou corrupto. Sei onde errei. Sei que falei demais, sei que envolvi pessoas. Trabalhei fora do horário e recebi o dinheiro que não pedi - afirmou Marinho.

O depoimento de Marinho começou depois de quase meia hora de discussão entre os deputados se ele deveria prestar depoimento na condição de testemunha ou investigado. Como testemunha, Marinho não poderia mentir, sob pena de ser preso. O presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), porém, depois de ouvir os deputados, decidiu que Marinho não prestaria o juramento de falar a verdade.

Jefferson e Sílvio Pereira também serão ouvidos

Um acordo entre os líderes do governo e da oposição garantiu a convocação do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) já para o próximo dia 29 e também do secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, cuja audiência não foi marcada ainda.

Antes de Pereira, deverão depor o publicitário Marcos Valério de Souza, um dos donos da agência de publicidade mineira SMP&B que tem a conta dos Correios, e sua ex-secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio, que acusa o ex-chefe de ter estreitas relações com o tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

Embora o cronograma de depoimento tenha ficado em aberto, a intenção de Delcídio e do relator, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), é a de ouvir, antes de Jefferson, os empresários Artur Washesck Neto e Antonio Velasco, que teriam mandado gravar Maurício Marinho.

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