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 Delcídio Amaral: "A investigação
vai trazer os resultados
que a opinião pública espera. Vamos mostrar que não será uma CPI
chapa-branca" |
Presidente da CPI alerta para o
tamanho da crise e pede a
Lula uma reforma ministerial de fato
O líder do PT no Senado e presidente da CPI dos Correios, Delcídio Amaral
(MS), tem uma missão difícil: comandar uma investigação que pode revelar uma
possível rede de corrupção dentro do governo. Ele admite que a crise política
pode piorar, caso não se faça já uma reforma ministerial que traga novos ares
para a administração Lula. “Estamos chegando no limite”, alerta. Delcídio acha
que três CPIs ao mesmo tempo – Correios, Mensalão e Bingos – poderão causar uma
onda de instabilidade e inviabilizar os trabalhos do Congresso. Em entrevista a
ISTOÉ, o senador abre o jogo: diz que Lula não deveria ter feito o discurso
defendendo sua honestidade porque “foi ruim colocar o Congresso como responsável
por todos os males da República”.
ISTOÉ – A CPI dos Correios virou a CPI do Mensalão? Delcídio
Amaral – Não. Os requerimentos já aprovados são exatos e têm total
ligação com a questão dos Correios. Mas as investigações é que vão mostrar se há
relação entre as duas CPIs.
ISTOÉ – Então decola? Delcídio – A investigação vai
trazer os resultados que a opinião pública espera. Não vai ser uma CPI
chapa-branca. Já temos agenda para duas semanas, aprovada por consenso. Tivemos
um teste difícil no primeiro dia, quando achei que a CPI seria inadministrável.
Mas depois ela achou seu caminho.
ISTOÉ – O depoimento de Maurício Marinho trouxe luz para a
CPI? Delcídio – O que ele disse é controverso. Confrontando o que
falou, o que declarou na Polícia Federal e as gravações, há muitas alterações.
Vamos montar uma planilha e comparar. Deveremos inquiri-lo de novo.
ISTOÉ – Ele pediu proteção. Tem gente preocupada com o que
possa
ser descoberto pela CPI? Delcídio – Ele alega que já foi seguido por
três automóveis, um deles da Polícia Federal. Mas isso não impede que seja
novamente inquirido.
ISTOÉ – Como se tem certeza de que um depoente fala a
verdade? Delcídio – No caso dele, vamos ouvir os empresários que
seriam os mandantes da gravação, a empresa que fez o serviço, os operadores,
a Polícia Federal, o Ministério Público, a Controladoria. Tudo para um
diagnóstico claro sobre se ele disse a verdade ou não.
ISTOÉ – Marinho diz que cada diretoria era indicada por um partido.
Isso mostra uma confluência suspeita de interesses políticos e
comerciais. Delcídio – Efetivamente isso existe, mas acho que ele
deu uma conotação excessivamente política. Não se fica recebendo apenas os
indicados politicamente. Há fornecedores, portadores de serviço, etc. Atividades
naturais da função.
ISTOÉ – O Marinho joga o caso no colo do Planalto e do PT quando cita
o ministro Gushiken e o Sílvio Pereira? Delcídio – O requerimento
de convocação do Sílvio já tinha sido aprovado. Falta só definir a data. Quanto
ao Gushiken, são informações pouco consistentes. Não se pode atropelar os
trabalhos com base em cada novo depoimento. Para garantir a credibilidade da
CPI, temos que atuar com equilíbrio e bom senso. O País está conectado, a tensão
é muito grande, não se pode fazer coisas erradas.
ISTOÉ – O presidente do Senado, Renan Calheiros, vai indicar os
integrantes da CPI do Mensalão e o STF determinou que a CPI dos Bingos seja
instalada. O País suporta três CPIs? Delcídio – Vai ser uma onda
de denuncismo e instabilidade forte. O quadro não está bom, precisamos
avaliar muito bem a situação. O Congresso pode, em tese, operar as três, mas
acho difícil. Depois que começou a CPI, eu não consegui encaminhar uma votação.
Os partidos terão dificuldade em achar quadros para todas. Eu penso até em me
afastar da liderança para me dedicar à CPI. Será impossível trabalhar no
Congresso.
ISTOÉ – O governo errou ao indicar o sr. como presidente da
CPI? Delcídio – Tentei compor, mas não deu certo. Lula conversou
comigo e disse: “Delcídio, eu não devo nada. Meu desejo é que se apure tudo.”
Então recoloquei o meu nome para a presidência. Ficou na cabeça das pessoas a
idéia de chapa-branca. Mas estamos mostrando que isso não é verdade.
ISTOÉ – Lula errou ao dizer que é honesto e culpar o
Congresso? Delcídio – Ninguém duvida da sua honestidade. Acho que,
no calor da emoção, ele fez as declarações, o que não foi bom. Também foi
ruim colocar o Congresso como responsável por todos os males da República. Lula
deixou o coração suplantar a razão.
ISTOÉ – A CPI dos Correios pode acabar em pizza? Delcídio
– Não. Não é correto e não seria responsável. Vamos
averiguar, buscar provas. Mostrar todo o mosaico da corrupção. Punir os
responsáveis, doa a quem doer.
ISTOÉ – O sr. acredita na reeleição? Delcídio – Acho que
a reeleição é perfeitamente factível. Isso se o presidente tomar a ofensiva
nas ações, na política. Tem que deixar de lado o coração e agir com frieza,
sinalizar para a opinião pública uma mudança de gestão. A crise pode contaminar
o governo. A reforma, agora, pode oxigená-lo, dar um novo impulso. Estamos
chegando no limite. |