Domingo, 26 de Junho de 2005    07:19

 

O SUBMUNDO DOS CORREIOS
por Andrei Meireles, David Friedlander e Ricardo Mendonça -


Tráfico de influência e acusações de suborno por trás de uma disputa comercial que envolveu petistas, lobistas e um ministro
 
J. F. Diorio/AE
CARGA PESADA CPI precisa apurar quem abriu as portas para a Skymaster

A CPI dos Correios tem o caminho aberto para localizar um grande foco de influência política nos negócios da estatal: basta investigar a fundo a empresa de transporte aéreo Skymaster e seus negócios com os Correios. O Congresso vai deparar com uma história cabeluda, que mostra ligações estranhas entre dirigentes do PT e empresários, acusações de suborno, espionagem e tráfico de influência. O motivo da agitação foi um contrato no valor de R$ 100 milhões por ano. ''Estou preparado para contar tudo o que sei na CPI'', afirma o dono da Skymaster, Luiz Otávio Gonçalves. A narrativa do empresário envolve um elenco com estrelas do mundo petista, como o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro - o Kakay, ligado a José Dirceu - e o ex-ministro das Comunicações Miro Teixeira.

O centro do lamaçal é uma concorrência realizada no final de 2003 para escolha da empresa responsável por parte das linhas de transporte de cargas para os Correios. A Skymaster era dona do contrato desde 2001 e faturava R$ 105 milhões por ano. Quando assumiu o ministério, com a posse de Lula, Miro Teixeira decidiu renegociar os contratos ä de carga aérea - que estavam sob suspeita de superfaturamento. Todas as empresas do setor baixaram os preços, menos a Skymaster. Segundo a empresa, a redução de preços seria uma desculpa dos Correios para forçar uma nova licitação e colocar a concorrente Promodal no páreo. Para aumentar seu arsenal, a Skymaster procurou protetores no PT. Apelou a Silvio Pereira e a Kakay, amigo do ex-ministro da Casa Civil.

Fabiano Accorsi/EPOCA

A renegociação dos contratos era orientada por um ''consultor externo'' dos Correios, o brigadeiro Venâncio Grossi. Escolhido pelo então presidente dos Correios, Airton Dipp, o brigadeiro Grossi era o especialista encarregado de dizer quanto cada empresa deveria receber por quilômetro voado. Uma função-chave. Na tentativa de tirar o brigadeiro do jogo, a Skymaster conseguiu, sabe-se lá como, dezenas de recibos mostrando que a Promodal bancava as despesas do consultor dos Correios quando este estava em Brasília. Entre julho e novembro de 2003, todas as vezes em que o brigadeiro viajou para a capital para assessorar os Correios, os gastos com hospedagem, restaurante e até lavanderia no Blue Tree Park foram pagos pela Promodal. O brigadeiro diz que encaminhava suas contas de hotel para a Promodal por uma questão de comodidade. ''Já tinha trabalhado para eles e sabia que tinham desconto no hotel. Assim, preferia faturar em nome da empresa.''

A Promodal é uma empresa bem articulada politicamente. Em 2002, entregou R$ 500 mil à campanha de Lula. A Skymaster decidiu montar o próprio esquema. Primeiro, procurou o secretário-geral do PT, Silvio Pereira. A narrativa das circunstâncias da reunião é um tanto curiosa. ''Silvio marcou comigo no lobby do hotel Sofitel, em São Paulo'', conta Gonçalves, o dono da Skymaster. ''Quando cheguei lá, fui recebido pela secretária dele. Foi um encontro rápido, porque havia mais gente esperando para ser recebida.'' Silvio fez questão de responder a ÉPOCA por escrito. Em sua nota, confirmou o encontro com Gonçalves. ''Resolvi atendê-lo porque ele afirmou que o assunto a ser tratado era um problema entre sua empresa e um integrante do PT.'' Mas, por que num hotel? O dirigente petista afirma que queria apenas conciliar suas reuniões profissionais com a agenda pessoal. ''Meu médico e meu dentista ficam ali perto'', afirma. 

Fotos: Rodrigo Paiva

ROBERTO JEFFERSON, presidente licenciado do PTB

Silvio garante que, ao saber que o problema era no governo, dispensou imediatamente o empresário. ''Não tive, nem pessoalmente, nem por delegação de meu partido, qualquer ingerência no funcionamento da ECT (os Correios) ou nas relações com seus diretores'', escreve na nota. Gonçalves conta uma história diferente. ''Silvio disse que tentaria me ajudar.'' A partir deste ponto, há duas versões. A primeira, contada por Silvio em conversas privadas, é a de que ele levou o caso a Miro Teixeira. A segunda, de autoria do próprio Miro, é a de que os dois nunca conversaram sobre o assunto. Como o caso não andava e faltavam apenas duas semanas para a licitação dos Correios, inquieto, o dono da Skymaster encontrou outro caminho para ser recebido pelo ministro Miro Teixeira. Procurou o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro. Kakay, como o advogado é mais conhecido, é um profissional extremamente bem relacionado no governo Lula. Entre seus amigos no ministério, além de Dirceu, estão o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e o próprio Miro.

Kakay reconhece que sua especialização passa longe do Direito Administrativo, mais pertinente ao caso em questão. Mesmo assim, com um telefonema, marcou audiência dos donos da Skymaster com Miro. ''Atuei como advogado'', diz ele. ''Recebi um possível cliente, achei que a causa era válida e, antes de buscar a Justiça, procuramos o governo para tentar um acordo.'' Ele conta que fez o mesmo durante o governo Fernando Henrique. Kakay diz que nunca foi contratado oficialmente pela Skymaster, nem recebeu qualquer pagamento.

ACUSAÇÕES Pereira admite que atendeu um executivo da Skymaster, mas diz que o dispensou quando soube do assunto

Mesmo assim, participou do encontro com Miro, acompanhado do advogado José Augusto Alkmin, este sim um especialista nesse tipo de causa. Na reunião, os diretores da Skymaster apresentaram ao ministro um dossiê que relatava as ligações do brigadeiro Venâncio com o grupo Promodal. ''Ele ficou muito impressionado com a denúncia e prometeu providências'', lembra Alkmin.

''Mandei fazer uma apuração. Com certeza, o Airton Dipp tomou todas as providências cabíveis'', afirma Miro. A versão de Dipp, no entanto, revela que um dos dois não conta a verdade: ''Nunca ouvi falar dessa denúncia'', assegurou o ex-presidente dos Correios. O empresário Gonçalves, da Skymaster, também contesta Dipp. ''Eu contei tudo a ele, numa audiência que teve como testemunha o deputado Mário Heringer (PDT-MG).'' Dipp afirmou desconhecer uma representação que, desde dezembro de 2003, se arrasta no Ministério Público Federal contra ele e o brigadeiro Grossi para que sejam processados por improbidade administrativa.


CONSULTOR O brigadeiro Grossi, que trabalhou para os Correios, tinhas as despesas de hospedagem pagas pela Promodal, conforme comprovante acima


Glaucio Dettmar/ÉPOCA
AMIGO DO PEITO Ligado a José Dirceu, o advogado Kakay levou os donos da Skymaster à presença do então ministro Miro Teixeira

Se convocado à CPI, o ex-presidente dos Correios pode ter outra surpresa desagradável. Na conversa com ÉPOCA, Luiz Otávio Gonçalves disse estar pronto a revelar aos parlamentares uma história pesada. ''Ouvi o presidente da Promodal, Antonio Augusto Morato, dizer que entregou R$ 600 mil para Airton Dipp para obter um contrato dos Correios.'' É estranho que tenha ouvido a inconfidência do próprio concorrente. Mas Gonçalves diz ter testemunhas da conversa. Dipp nega o pagamento e Antonio Augusto não retornou as ligações da reportagem.

T
odos os envolvidos na operação de apoio à Skymaster usam o mesmo argumento para negar tráfico de influência. Lembram que, apesar dos aliados poderosos, a Skymaster perdeu a ä briga em 2003. Os Correios realizaram o pregão e, para manter a linha, a empresa foi obrigada a reduzir os preços pela metade. O contrato caiu de R$ 9,5 milhões para R$ 4,7 milhões por mês. O problema é que a negociação não terminou aí e a Skymaster ainda daria a volta por cima. A virada começaria com a saída de Miro Teixeira e Airton Dipp do governo, em fevereiro de 2004. Logo no início da gestão de Eunício Oliveira no Ministério das Comunicações, a empresa aérea apresentou um pedido de revisão das tarifas com que havia ganho o pregão e conseguiu. Em agosto, o valor subiu para R$ 5,3 milhões por mês. Mesmo assim, em dezembro, a Skymaster pediu cancelamento do contrato, alegando que estava tomando prejuízo. Os Correios, então, abriram novo pregão - e surpresa: a vencedora foi a Skymaster, cobrando R$ 9,8 milhões por mês. Era mais do que recebia quando toda a confusão começou.

AIRTON DIPP, ex-presidente dos Correios

A CPI pode investigar o que causou essa mudança no clima entre os Correios e a empresa aérea. ''Eu economizei dinheiro público e reduzi o contrato à metade do preço'', diz Miro Teixeira. ''É preciso saber por que o valor dobrou novamente'', dispara. O dono da Skymaster dá uma pista. ''Por uma estratégia jurídica, baixamos o preço para não perder a linha, na concorrência de 2003. Depois, negociei com a diretoria dos Correios a recomposição de tarifas.'' De acordo com ele, o segundo reajuste de tarifas foi acertado com a diretoria de Operações, chefiada por Maurício Madureira. Na semana passada, ao depor na CPI, Maurício Marinho, o funcionário dos Correios pego em uma fita de vídeo embolsando propina, disse que ''a diretoria de Operações é dominada pelo PT, de Silvio Pereira''. Silvio nega a indicação.

Silvio Pereira, um dos alvos prediletos de Jefferson, acabou no olho do furacão porque foi o homem escolhido pelo PT para fazer o meio-de-campo entre os partidos aliados e o governo na fase de montagem das equipes dos ministérios e das estatais. No período de transição, ele coordenou um portal na internet que recebia pleitos de nomeações de todo país. À medida que as nomeações iam ocorrendo e pedidos eram atendidos, Silvio pegou fama de homem-chave do PT, aquele que decidia quem ia ganhar cargo ou não.

Foi nesse período que surgiu um personagem muito comentado à boca pequena no circuito Planalto-PT, o empresário Fernando Moura. Ele e Silvio se conheceram por intermédio de José Dirceu quando o ex-ministro disputava uma vaga de deputado estadual em São Paulo. A grande aproximação ocorreu quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente. Os dois tornaram-se amigos. Moura começou a levar Silvio para festas, eventos sociais e a dar-lhe presentes. Ainda na fase de transição, no final de 2002, Silvio e Fernando Moura apareceram juntos no programa de celebridades do colunista social Amaury Jr., quando participavam de um baile havaiano - vestidos a caráter. Moura investiu na intermediação de encontros entre o secretário-geral do PT e empresários interessados em se aproximar do governo. Os encontros ocorriam em hotéis de Brasília e de São Paulo.

Fotos: Rodrigo Paiva

MIRO TEIXEIRA,ex-ministro das Comunicações

Em Brasília, Fernando Moura chegou a alugar uma sala no Blue Tree Park da capital para que as reuniões fossem feitas mais à vontade. Moura procurou empresários para tratar de negócios, falando em nome do secretário do PT e do então ministro, José Dirceu. Ele também procurou amigos para perguntar se tinham interesse em nomear alguém no governo. Nas vezes em que se manifestou a respeito, Silvio não escondeu a amizade com Fernando Moura, nem que recebia homens de negócio levados por ele. Mas afirma que não fazia a ponte entre estes interesses e Brasília e que, se o amigo alguma vez usou seu nome para abrir portas, foi sem seu conhecimento.

A amizade entre os dois está na mesma categoria do relacionamento entre Delúbio Soares, tesoureiro do PT, e o publicitário Marcos Valério. O publicitário é acusado, por Jefferson e pela própria ex-secretária, de ser o homem que levava malas de dinheiro para políticos que o PT desejava agradar. Valério e Delúbio se conheceram depois da vitória de Lula, viraram amigos e passaram a circular juntos. Na semana passada, em entrevista ao Jornal Nacional, Valério rompeu o silêncio de quase um mês. Confirmou a amizade com líderes petistas, mas negou ser o ''homem da mala'' e disse que podia provar que Jefferson e a ex-secretária estão mentindo.


Ailton de Freitas/Ag. O Globo
AMIGO SECRETO Fernando Moura, que já se apresentou em nome de José Dirceu, aproximou-se de Silvio Pereira quando Lula foi eleito presidente. Ele e Silvio recebiam empresários em hotéis de Brasília
Givaldo Barbosa/Ag. O Globo

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