Terça-feira, 28 de Junho de 2005    06:41

 

CORREIOS FAVORECEM SKYMASTER, APONTA TCU
por RUBENS VALENTE da Sucursal de Brasília -  Folha de S.Paulo
O Ministério Público Federal investiga, desde o início do ano, indícios de direcionamento no edital de uma das licitações nos Correios denunciadas pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) em seu depoimento na Comissão de Ética da Câmara no último dia 14.
De acordo com ofício enviado em 11 de março último pelo Ministério Público aos Correios, auditoria técnica do TCU (Tribunal de Contas da União) apontou sinais de que o edital foi preparado de modo a permitir que apenas uma empresa, a Skymaster Airlines Ltda., disputasse e vencesse a exploração de duas das 11 linhas do correio aéreo noturno licitadas pela diretoria de Operações.
Foi um negócio de aproximadamente R$ 80,4 milhões por ano só nas linhas sob suspeita, de um total de R$ 340,9 milhões para toda a malha aérea. O procurador José Alfredo de Paula Silva advertiu o então presidente dos Correios, João Henrique de Almeida Sousa, a não assinar os contratos, mas a estatal desconsiderou a recomendação, feita no ofício de março.
"Os ilícitos identificados no edital de concorrência (...) são extremamente graves e necessitam de rigoroso acompanhamento do Ministério Público Federal antes de sua consumação definitiva, tendo em vista a origem pública dos recursos", disse o procurador.
O edital foi lançado em outubro do ano passado. A diretoria de Operações era dirigida, na época, por Maurício Madureira, uma indicação do PT. Ele e outros seis diretores deverão depor esta semana na CPI dos Correios.
Duas empresas de aviação, a Trip (Transporte Aéreo do Interior Paulista) e a RLA (Rico Linhas Aéreas), fizeram uma representação no TCU. No plenário do tribunal, os resultados da auditoria técnica não foram acolhidos. Os ministros aprovaram o relatório do ministro Marcos Vilaça.
O principal alvo da apuração é uma série de exigências que não existiam nas concorrências anteriores. Por exemplo: a empresa que ganhasse a linha "A" (Fortaleza a Porto Alegre) deveria necessariamente cotar a linha "B" (trecho inverso). Para ambas, o avião deveria ser o mesmo, com capacidade para transportar 43 mil kg e 18 paletes. Assim, a empresa que vencesse deveria ter à disposição dois aviões do mesmo porte.
A auditoria do TCU apontou que "só se apresentou para cotar em ambas a empresa Skymaster, única empresa que possui duas aeronaves DC-8" com a capacidade exigida. "Há no edital regras dirigidas a específicos e determinados participantes do certame", diz relatório da auditoria.
O Ministério Público oficiou o DAC (Departamento de Aviação Civil) para confirmar esse ponto da auditoria. O subdepartamento Técnico-Operacional do DAC respondeu, em 12 de maio, que somente a Skymaster Airlines e a Varig tinham dois aviões em condições, em outubro de 2004, de disputar as linhas "A" e "B". Mas outros detalhes do edital fizeram a Varig desistir e a Skymaster concorreu sozinha e venceu a disputa das duas linhas.

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