Em depoimento à CPI dos Correios, Joel Santos Filho, autor da gravação de um
vídeo que mostra cobrança de propina na estatal, disse ontem que acertou com o
funcionário Maurício Marinho o pagamento de R$ 15 mil para ganhar uma licitação
na estatal. Segundo Joel, os R$ 3.000 que o ex-chefe do Departamento de
Contratação e Administração dos Correios aparece colocando no bolso, durante a
gravação, seriam um adiantamento para cobrir eventuais despesas de Marinho no
levantamento de informações que beneficiariam a empresa. No depoimento ontem,
Joel disse que toda a situação criada por ele era fictícia. Ele se apresentou ao
ex-chefe de departamento com o nome de Goldman e disse que era diretor de uma
empresa de informática chamada Allcom. Joel foi contratado pelo empresário
Arthur Washeck para fazer a gravação. O objetivo alegado por ambos seria
derrubar Marinho, que estaria prejudicando os negócios de Washeck nos
Correios. Maurício Marinho afirmou à CPI e à Polícia Federal que os R$ 3.000
recebidos por ele eram referentes a uma consultoria em um trabalho paralelo aos
Correios. O funcionário também disse que eram "bravatas" os esquemas de
corrupção detalhados na gravação, além da declaração de que agia em nome do
deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). "Os R$ 3.000 eram para que a gente
pudesse efetivamente ganhar uma licitação nos Correios", afirmou Joel, que não
citou o termo propina. Ele teria dito a Marinho, por telefone, que havia
conseguido "adiantar um agrado", referindo-se aos R$ 3.000. Joel foi quatro
vezes conversar com Marinho nos Correios e recebeu R$ 10 mil para fazer a
gravação. Seu acompanhante em uma das reuniões, João Carlos Mancuso, teria
recebido R$ 5.000. "O depoimento do Joel confirma que Maurício Marinho não dizia
a verdade quando disse que fez bravatas porque ele repetiu três ou quatro vezes
a mesma coisa, de forma coerente", disse o relator Osmar Serraglio
(PMDB-PR). Ontem à noite, Maurício Marinho mudou sua versão sobre os R$ 3.000
que embolsou na gravação. Aos deputados da Corregedoria, ele afirmou que não
recebeu o valor como adiantamento a uma consultoria que prestaria a empresários,
mas não quis esclarecer a razão desse pagamento. Para a oposição, Joel puxou
a conversa com Marinho para o lado da área de informática porque o objetivo
seria expor supostas irregularidades na diretoria de tecnologia dos Correios. O
então diretor de tecnologia, Eduardo Medeiros, é da cota do PT. Sua vaga era
disputada por PMDB e PTB. O depoimento de Joel durou cerca de cinco horas. O
segundo interrogatório previsto, o de Jairo Martins, foi adiado porque ele
estava em Campo Grande (MS). Antes do depoimento de Arlindo Molina, que teria
tentado chantagear Jefferson, a sessão foi interrompida para que a CPI
assistisse a trechos inéditos da gravação. Joel e Arlindo Molina dividiram a
mesma cela na PF ao serem presos por conta do escândalo. "Isso é grave. Eles
tiveram toda oportunidade para tramar o que iam dizer", disse o deputado Arnaldo
Faria de Sá (PTB-SP).
Molina nega ter exigido dinheiro em troca da fita da
Sucursal de Brasília
Em depoimento à CPI dos Correios ontem à noite, Arlindo Molina negou que tivesse
tentado extorquir o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) com a gravação na qual o
funcionário Maurício Marinho é flagrado recebendo propina e relatando um esquema
de corrupção que envolveria o PTB. Apesar disso, confirmou ter recebido R$ 20
mil de Arthur Washeck, mandante da gravação, após ter feito contato com
Jefferson a respeito do conteúdo da fita. Integrantes da CPI desconfiam que esse
pagamento teria sido feito por tentativa de extorsão. Molina diz tratar-se de um
empréstimo pessoal. "Ele [Arthur] me pediu que levasse a fita ao deputado
Roberto Jefferson. Me passou que queria que tirasse o Marinho." Molina disse
que a conversa com Jefferson durou apenas um minuto. Jefferson, segundo Molina,
disse que já sabia da fita, não conhecia Maurício Marinho, não poderia fazer
nada a respeito e recomendava que a fita fosse enviada aos Correios. Molina
também disse que conversou com o senador Ney Suassuna (PMDB-PB) para conseguir a
conversa com Jefferson, mas que naquele momento ele não sabia da gravação. |