Quinta-feira, 30 de Junho de 2005   07:34

 

VALÉRIO SOFRERÁ DEVASSA
por Adriana Vasconcelos e Jailton de Carvalho -  
 
Foram necessárias quase seis horas de negociações e discussões acaloradas entre governo e oposição, mas a CPI dos Correios aprovou ontem a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza. A quebra do sigilo das empresas de Valério, no entanto, só deve ser votada hoje pela CPI. Acusado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e por sua ex-secretária Fernanda Karina Somaggio de ser um dos principais operadores do esquema de pagamento de mesadas para parlamentares da base aliada, Valério é sócio da SMP&B Comunicação e da DNA Propaganda. Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), foram sacados em dinheiro das contas dessas duas empresas R$ 20,9 milhões em menos de dois anos.

Em depoimento à Polícia Federal ontem, Valério desmentiu a versão que tinha apresentado em entrevista de que os saques em dinheiro eram para a compra de gado. Ele agora alega que comprou ativos, pagar a fornecedores e distribuir lucros entre seus sócios nas agências DNA e SMP&B. O publicitário não informou quais ativos foram comprados e quem são os fornecedores das duas agências.

Delegado pede perícia contábil

Valério negou aos delegados da PF que tenha repassado dinheiro do PT a parlamentares da base aliada, como denunciou Roberto Jefferson. O delegado Luís Flávio Zampronha, responsável pelo inquérito sobre o suposto mensalão, considerou a versão do publicitário confusa e pediu ao Instituto Nacional de Criminalística uma perícia contábil nas declarações de renda de Valério. A PF quer saber se a renda declarada é compatível com a evolução patrimonial dele.Valério chegou à sede da PF por volta das 13h e só deixou o prédio às 21h.

Valério confirmou ainda que pode ter havido coincidência entre as datas dos saques e suas viagens a Brasília. O publicitário disse que isso é possível porque ele viaja com freqüência.

Valério disse à PF que nunca agendou encontros com o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu. Valério disse que apenas encontrou Dirceu em reuniões sociais, uma delas um churrasco no aniversário de um deputado. O publicitário não informou a data e nem o nome do deputado dono da festa. Valério negou também que tenha falado com o ex-ministro por telefone fixo ou celular.

O publicitário confirmou, no entanto, vários encontros e conversas com Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Ele disse que os dois falavam de política e da imagem do PT em algumas administrações. Ele negou que tenha sido intermediário de pagamento de propina para parlamentares. Valério entregou ainda à PF documentos provando que seria impossível ter estado em Brasília duas vezes na primeira quinzena de julho do ano passado, conforme denunciou o deputado Roberto Jefferson.

Em depoimento na Comissão de Sindicância da Câmara dos Deputados, depois da PF, Valério afirmou que tem contratos publicitários desde o governo Itamar Franco e se relaciona com políticos de todos os partidos. Disse que tem contratos com o governo e com a Secretaria de Saúde de Minas Gerais, com o Distrito Federal e a Câmara Legislativa do DF. Ele afirmou que Simone Vasconcelos, gerente financeira da SMP&B, ia a Brasília regularmente pagar fornecedores, mas que ela viajava em avião de carreira e que não carregava malas com dinheiro vivo. Valério entregou cópias de vários documentos à comissão.

Aos deputados, Valério disse ainda que não comprou gado com os saques de R$ 20,9 milhões. Ele disse que gastou o dinheiro para comprar ativos e que não poderia revelar quais por questão de segurança.

Na CPI dos Correios, os governistas só aceitaram votar o requerimento da oposição propondo a quebra de sigilo de Marcos Valério com a condição de que o prazo de investigação fosse dos últimos cinco anos, o que poderá estabelecer as relações do publicitário com autoridades do governo passado. O deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) chegou a ler um relatório dos pagamentos de contratos de publicidade entre a administração direta e a SMP&B e a DNA de 2001 a 2005. Nos dois últimos anos do governo de Fernando Henrique teriam sido pagos R$ 39,4 milhões às duas empresas, enquanto nos dois primeiros anos do governo Lula os gastos ficaram em R$ 14,8 milhões, segundo ele.

A comparação entre o atual governo e o passado acirrou os ânimos da CPI.

— Já que o deputado José Eduardo Cardozo quer politizar as investigações da CPI, não tem problema. O PSDB não vai se opor a qualquer investigação em relação ao governo Fernando Henrique, mas é bom lembrar que a atual crise é do governo e são os senhores que têm de administrá-la. Se for para fazer palhaçada ou politicagem, teremos mais facilidade, mesmo porque somos da oposição — reagiu o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ).

O presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), fez um apelo ao bom senso de todos:

— Se perdermos o fio da meada, essa CPI não vai dar em nada. No afã de abrir o leque de nossas investigações corremos o risco de não investigar nada. Quem vai perder não é apenas o governo, mas todos nós. Precisamos de lógica e de bom senso, por isso faço esse alerta.

Comissão pode fazer acareação

A CPI desistiu de ouvir ontem os depoimentos de três ex-diretores dos Correios — Antônio Osório (Administração), Eduardo Medeiros (Tecnologia) e Maurício Madureira (Operações) — e remarcou-os para hoje. Ficou acertado que, na próxima quarta-feira, serão ouvidos Marcos Valério e Fernanda Karina, em depoimentos separados. O relator da comissão, Osmar Serraglio (PMDB-PR), não descarta a possibilidade de haver uma acareação entre os dois. Os representantes da base resistiram bastante à convocação do publicitário, chegando a irritar Delcídio:

— Até parece que é o Bush que vai cair. Ele (Marcos Valério) vai vir sim — decidiu o presidente da CPI, encerrando uma discussão reservada com o deputado Maurício Rands (PT-PE) e a senadora Ideli Salvatti (PT-SC).

Rands e Ideli insistiam na tese de que a CPI deveria manter a lógica da investigação terminando de ouvir primeiro os arapongas envolvidos na gravação que flagrou Maurício Marinho. Ficou decidido, então, que na próxima terça-feira serão ouvidos Jairo Martins, Fortuna Neves, Edgar Lange e Casser Bittar.

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