por
Adriana Vasconcelos e Jailton de Carvalho
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Foram necessárias quase seis horas de negociações e discussões acaloradas entre
governo e oposição, mas a CPI dos Correios aprovou ontem a quebra do sigilo
bancário, fiscal e telefônico do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza.
A quebra do sigilo das empresas de Valério, no entanto, só deve ser votada hoje
pela CPI. Acusado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e por sua
ex-secretária Fernanda Karina Somaggio de ser um dos principais operadores do
esquema de pagamento de mesadas para parlamentares da base aliada, Valério é
sócio da SMP&B Comunicação e da DNA Propaganda. Segundo relatório do
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), foram sacados em dinheiro
das contas dessas duas empresas R$ 20,9 milhões em menos de dois anos.
Em depoimento à Polícia Federal ontem, Valério desmentiu a versão que
tinha apresentado em entrevista de que os saques em dinheiro eram para a compra
de gado. Ele agora alega que comprou ativos, pagar a fornecedores e distribuir
lucros entre seus sócios nas agências DNA e SMP&B. O publicitário não
informou quais ativos foram comprados e quem são os fornecedores das duas
agências.
Delegado pede perícia contábil
Valério negou
aos delegados da PF que tenha repassado dinheiro do PT a parlamentares da base
aliada, como denunciou Roberto Jefferson. O delegado Luís Flávio Zampronha,
responsável pelo inquérito sobre o suposto mensalão, considerou a versão do
publicitário confusa e pediu ao Instituto Nacional de Criminalística uma perícia
contábil nas declarações de renda de Valério. A PF quer saber se a renda
declarada é compatível com a evolução patrimonial dele.Valério chegou à sede da
PF por volta das 13h e só deixou o prédio às 21h.
Valério confirmou
ainda que pode ter havido coincidência entre as datas dos saques e suas viagens
a Brasília. O publicitário disse que isso é possível porque ele viaja com
freqüência.
Valério disse à PF que nunca agendou encontros com o
ex-chefe da Casa Civil José Dirceu. Valério disse que apenas encontrou Dirceu em
reuniões sociais, uma delas um churrasco no aniversário de um deputado. O
publicitário não informou a data e nem o nome do deputado dono da festa. Valério
negou também que tenha falado com o ex-ministro por telefone fixo ou celular.
O publicitário confirmou, no entanto, vários encontros e conversas com
Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Ele disse que os dois falavam de política e da
imagem do PT em algumas administrações. Ele negou que tenha sido intermediário
de pagamento de propina para parlamentares. Valério entregou ainda à PF
documentos provando que seria impossível ter estado em Brasília duas vezes na
primeira quinzena de julho do ano passado, conforme denunciou o deputado Roberto
Jefferson.
Em depoimento na Comissão de Sindicância da Câmara dos
Deputados, depois da PF, Valério afirmou que tem contratos publicitários desde o
governo Itamar Franco e se relaciona com políticos de todos os partidos. Disse
que tem contratos com o governo e com a Secretaria de Saúde de Minas Gerais, com
o Distrito Federal e a Câmara Legislativa do DF. Ele afirmou que Simone
Vasconcelos, gerente financeira da SMP&B, ia a Brasília regularmente pagar
fornecedores, mas que ela viajava em avião de carreira e que não carregava malas
com dinheiro vivo. Valério entregou cópias de vários documentos à comissão.
Aos deputados, Valério disse ainda que não comprou gado com os saques de
R$ 20,9 milhões. Ele disse que gastou o dinheiro para comprar ativos e que não
poderia revelar quais por questão de segurança.
Na CPI dos Correios, os
governistas só aceitaram votar o requerimento da oposição propondo a quebra de
sigilo de Marcos Valério com a condição de que o prazo de investigação fosse dos
últimos cinco anos, o que poderá estabelecer as relações do publicitário com
autoridades do governo passado. O deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) chegou a
ler um relatório dos pagamentos de contratos de publicidade entre a
administração direta e a SMP&B e a DNA de 2001 a 2005. Nos dois últimos anos
do governo de Fernando Henrique teriam sido pagos R$ 39,4 milhões às duas
empresas, enquanto nos dois primeiros anos do governo Lula os gastos ficaram em
R$ 14,8 milhões, segundo ele.
A comparação entre o atual governo e o
passado acirrou os ânimos da CPI.
— Já que o deputado José Eduardo
Cardozo quer politizar as investigações da CPI, não tem problema. O PSDB não vai
se opor a qualquer investigação em relação ao governo Fernando Henrique, mas é
bom lembrar que a atual crise é do governo e são os senhores que têm de
administrá-la. Se for para fazer palhaçada ou politicagem, teremos mais
facilidade, mesmo porque somos da oposição — reagiu o deputado Eduardo Paes
(PSDB-RJ).
O presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), fez um
apelo ao bom senso de todos:
— Se perdermos o fio da meada, essa CPI não
vai dar em nada. No afã de abrir o leque de nossas investigações corremos o
risco de não investigar nada. Quem vai perder não é apenas o governo, mas todos
nós. Precisamos de lógica e de bom senso, por isso faço esse alerta.
Comissão pode fazer acareação
A CPI desistiu de ouvir
ontem os depoimentos de três ex-diretores dos Correios — Antônio Osório
(Administração), Eduardo Medeiros (Tecnologia) e Maurício Madureira (Operações)
— e remarcou-os para hoje. Ficou acertado que, na próxima quarta-feira, serão
ouvidos Marcos Valério e Fernanda Karina, em depoimentos separados. O relator da
comissão, Osmar Serraglio (PMDB-PR), não descarta a possibilidade de haver uma
acareação entre os dois. Os representantes da base resistiram bastante à
convocação do publicitário, chegando a irritar Delcídio:
— Até parece
que é o Bush que vai cair. Ele (Marcos Valério) vai vir sim — decidiu o
presidente da CPI, encerrando uma discussão reservada com o deputado Maurício
Rands (PT-PE) e a senadora Ideli Salvatti (PT-SC).
Rands e Ideli
insistiam na tese de que a CPI deveria manter a lógica da investigação
terminando de ouvir primeiro os arapongas envolvidos na gravação que flagrou
Maurício Marinho. Ficou decidido, então, que na próxima terça-feira serão
ouvidos Jairo Martins, Fortuna Neves, Edgar Lange e Casser Bittar. |
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