
TENDÊNCIAS/DEBATES Há risco de as CPIs terminarem em pizza?
NÃO O
relatório já deu a resposta
DELCÍDIO AMARAL
O texto do primeiro relatório parcial lido na
última quinta-feira no Congresso Nacional pelos relatores das CPMIs, deputados
federais Ibrahim Abi-Ackel e Osmar Serraglio, é auto-explicativo. Aponta na
direção que nos parece inevitável: não terminará em pizza! Mais do que isso. Um
resultado diferente seria uma aberração, uma violência inominável praticada
contra a opinião pública deste país. A sociedade está acompanhando os
trabalhos de investigação que estão sendo realizados. Essas CPMIs são midiáticas
por excelência. Alguém já lembrou, inclusive, que são as primeiras da era da
internet. E o peso da opinião pública se faz sentir, todo ele, também
direcionado: não pode terminar em pizza! Dissemos que o relatório lido na
Câmara na última quinta-feira é auto-explicativo. Com efeito, após abrir citando
Hanna Arendt, manifesta sua tristeza e desencantamento ao ver agentes políticos
darem as costas à sociedade, apunhalarem a "res publica", traírem seus eleitores
e, em certos casos, seus passados e os princípios a que, supostamente,
vinculavam sua vida política. "Apenas faziam parte de uma engrenagem, dirão
alguns; somente realizavam um projeto político, dirão acolá; simplesmente
obedeciam a ordens, argüirão outros." O texto do relatório se encarrega de
demolir essas pobres justificativas usando imagens da pensadora alemã. "A
pergunta endereçada àqueles que participavam e obedeceram a ordens nunca deveria
ser: "Por que vocês obedeceram?", mas: "Por que vocês apoiaram?"." Demolição
cuidadosa, feita com espírito de arqueologista, que deseja antes preservar o que
encontrou para exibir ao mundo como exemplo, é a que põe por terra o argumento
de que, como ocorreu repetição sistemática de um crime -ainda que seja crime
reiteradamente cometido por muitas pessoas-, esse comportamento se legitime só
pela reiteração. A isso, o relatório chama, com perfeição, de "banalizar o
mal". Não há, portanto, legitimidade em mandato financiado com "caixa dois",
um eufemismo ilusoriamente disfarçado como "recursos não contabilizados". Assim
como não passa de tentativa de embaralhar o assunto a discussão sobre a
periodicidade dos pagamentos. É o que menos interessa. Alguns podem ter sido
feitos mês a mês, outros com maior ou com menor periodicidade. O fato
importante, do qual não podemos nos afastar, é o recebimento de vantagens
indevidas. Poderíamos colocar aqui um ponto final para responder à dúvida
colocada no início deste texto. Mas, como se sabe, uma CPMI não julga, muito
menos condena. Seu trabalho consiste em localizar indícios de uso indevido do
dinheiro público. As comprovações ficam para outras instâncias -parlamentares,
policiais ou judiciárias. A primeira fase foi cumprida com rigor e competência
e, temos certeza, servirá de exemplo e marcará o ritmo das demais. Vemos os
trabalhos das comissões parlamentares de inquérito em curso no Congresso como
parte essencial de um imenso esforço de toda a sociedade brasileira para
alcançar um patamar elevado no que diz respeito à afirmação dos princípios
éticos e morais básicos. Só na CPMI dos Correios foram analisados 780
ofícios, 529 requerimentos, foram respondidos 602 documentos, somaram-se 190
fitas de gravações, num total de 285 horas de depoimentos. Esses
procedimentos continuarão a ser realizados até a extinção do prazo de vida das
comissões. É fundamental que se entenda, como diz esse primeiro relatório
preliminar, que o julgamento da Casa Legislativa é exatamente um juízo
político. O juízo político tem a característica de ser juízo de conveniência
e oportunidade. O relatório registra um clamor nacional pela necessidade de
depuração do legislativo. E dá um alerta ao Parlamento: desdenhar essas
evidentes constatações será cavar um fosso entre o povo e seus
representantes. Por outro prisma, o compartilhamento de cargos públicos de
alta significação é inerente às coalizões governamentais. No entanto, a evidente
seleção de diretorias ou ministérios a que estão afetas decisões de ampla
repercussão empresarial (licitações, obras, patrimônio, financeiro),
correspondendo a espúrios ajustes, porque não consubstanciados do interesse
público, constituem uma forma das mais condenáveis do desvio de poder. Na
atual situação, o que temos diante de nós é uma decisão singela: por uma ética
política autêntica, na qual as palavras têm o seu valor de face, ou pela farsa
dos interesses individuais travestidos de função pública. Urge punir os
culpados para fazer germinar um sentimento que preencheu, por um momento, de
efusiva alegria o coração dos brasileiros: a esperança.
Delcídio Amaral, 50, engenheiro eletricista, senador pelo
PT/MS e líder do partido no Senado, é presidente da CPMI dos Correios. Foi
ministro de Minas e Energia no governo Itamar Franco (92-94) e diretor de Gás e
Energia da Petrobras no governo Fernando Henrique (1995-2002). |